língua(s), literatura, identidade(s) e poder na construção de Angola

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Uma excelente abordagem ao tema, muito interessantemente articulada à discussão do problema linguístico brasileiro.


A língua portuguesa em Angola – língua materna vs. língua madrasta. Uma proposta de paz

O escritor angolano José Eduardo Agualusa reflecte sobre a rápida expansão do português em Angola, após a independência, propondo o uso dos idiomas nacionais na literatura desse país. Originalmente publicado em 13/10/2010.
Nos últimos anos da época colonial, apenas uma pequena percentagem de angolanos falava português, como língua materna. Era, claramente, a pequena burguesia urbana: brancos, mestiços e negros, descendentes, em muitos casos, das velhas famílias escravocratas que prosperaram em Luanda até ao século XIX. Um quarto de século após a independência, esse número cresceu de forma impressionante, devendo o português ser hoje a segunda língua materna mais falada em Angola, logo depois do umbundo. Tal fenómeno, ainda pouco estudado, parece-me verdadeiramente espantoso. Pela primeira vez uma língua de origem europeia conseguiu enraizar-se em África, tornando-se numa língua africana, num espaço de tempo muitíssimo curto e por acção dos próprios filhos do país.

Haverá muitas explicações para este fenómeno e, seria interessante se conseguíssemos discutir algumas. Creio que entre elas está o facto de o português ter transitado, do regime colonial para o novo regime de Angola independente, como língua de poder. O actual presidente angolano e a maior parte dos homens  que o rodeiam, bem como os oficiais mais poderosos das forças armadas, são pessoas de língua materna portuguesa. Também a guerra, ao movimentar grandes massas humanas dentro do território nacional, contribuiu para a expansão do português.

Infelizmente, a afirmação da língua portuguesa fez-se em larga medida, à custa dos idiomas nacionais, em particular do quimbundo, gerando ou arriscando-se a gerar, movimentos de resistência, e alimentando conflitos .

Aquilo que está hoje a ao correr em Angola ocorreu no Brasil, de forma semelhante, embora ao longo de um período muito mais largo. Deveriam existir cerca de 1200 línguas nacionais indígenas quando os portugueses desembarcaram nas praias deste vastíssimo território a que hoje chamamos Brasil. Actualmente, não existirão mais de 180. Este terrível massacre linguístico terá sido um dos maiores crimes cometidos pelos portugueses, e sobretudo por brasileiros, ao longo de cinco séculos. É certo que o Português do Brasil incorporou um grande número de palavras indígenas e africanas – fenómeno que não aconteceu, pelo menos com idêntica extensão, no inglês falado nos Estados Unidos ou na Austrália – e, assim, um pouco da alma destas línguas sobrevive hoje no nosso idioma.

Existem actualmente cerca de seis mil línguas em todo o mundo. Destas, três mil vão desaparecer muito provavelmente nos próximos cem anos. Noventa e seis por cento das línguas do mundo são faladas por apenas quatro por cento da humanidade. Em média, a cada quinze dias desaparece uma língua, e África é o continente mais ameaçado.

Ao contrário do que sugere o mito de Babel, acredito que é mais fácil alcançar Deus, ou seja, o entendimento do mundo, falando muitas línguas, do que comunicando numa única. O pensamento exige palavras. Um pensamento muito complexo exige muitas palavras e diversos idiomas. Quando essas línguas se perdem, o homem fica inevitavelmente mais longe do Absoluto. Há realidades, emoções, certos prodígios e mistérios que só podem ser expressos em determinadas línguas. Uma única língua não é capaz de expressar todas as formas e graus da compreensão humana.

Acredito, por outro lado, que a luta pela afirmação da língua portuguesa em África, e em particular em Angola, está ligada a este outro combate, mais urgente, pela preservação dos idiomas africanos originais. Se a língua portuguesa continuar a afirmar-se em Angola como língua de poder e de domínio – se não mesmo de extermínio -, isso acabará inevitavelmente por gerar fortes movimentos de resistência, aprofundando fracturas que uma longa e cruel guerra civil expôs até ao osso.

A guerra civil em Angola foi, até um certo ponto, resultado de um antiquíssimo conflito entre o campo e a cidade. E se é certo que esse conflito foi explorado por um obstinado e ambicioso messias de origem camponesa com o fim de alcançar o poder, também é certo que só conseguiu prosperar devido à arrogância de uma certa burguesia urbana, a a qual se tem esforçado por impor a todo o país uma caricatura miserável da normalidade colonial (a única que conhece): desaparecido esse homem foi possível firmar a paz. Nos próximos tempos os angolanos terão de conseguir iniciar um diálogo honesto entre todas as nações, e visões, do território nacional. Devolver a dignidade às línguas nacionais de origem africana é também uma forma, a meu ver, de consolidar a paz.

Assisti em Luanda, numa festa de ano novo, a um conflito entre vizinhos. Ambos tinham trazido as mesas para o quintal. Ambos exibiam, orgulhosos, boas aparelhagens de som. Num dos quintais ouvia-se música zairense. Naquele onde eu estava, música popular brasileira, música popular luandense e jazz. Bebera-se já bastante cerveja, muito vinho tinto, quando um dos vizinhos decidiu aumentar o som. O outro fez o mesmo. Era a guerra. Em breve já não havia música, apenas ruído, um furioso estrépito de fim do mundo. Aquilo durou uns minutos. Uma eternidade. Finalmente, foi necessário negociar. Trocaram-se palavras amargas. Não esqueço a forma como o conflito terminou: “Lá porque vocês falam melhor português”, disse o vizinho que gostava de música zairense, “não são mais angolanos do que nós.” Uns anos antes talvez tivesse acontecido o oposto. O vizinho de língua materna portuguesa poderia ter dito ao outro: “lá porque você fala quicongo não é mais angolano do que eu.”

Provavelmente é o momento certo para negociar. Em encontros como este, sou frequentemente confrontado com a questão:

“Porque é que em Angola, país de muitas línguas, os escritores apenas utilizam o português?”

É difícil explicar esta situação nos países nos quais, à semelhança de Angola, coexistem no mesmo espaço geográfico diversos idiomas. Olhemos, por exemplo para Espanha: utilizam-se no país de Cervantes quatro grandes línguas: o espanhol, o catalão, o basco e o galego, sendo o espanhol, ao mesmo tempo, um idioma nacional, língua materna de uma das etnias de Espanha, e transnacional, ou seja, é uma língua falada em todo o território. O ditador Francisco Franco tentou aniquilar as línguas étnicas, impondo à força o castelhano, mas apenas conseguiu com isso exaltar os diferentes nacionalismos. Hoje, existe uma literatura espanhola em castelhano muito forte, mas existe também uma vigorosa literatura em catalão – e os bascos e galegos, embora com menos possibilidades económicas, esforçam-se por seguir o seu exemplo.

O mesmo se passa em diversos países africanos, com destaque para a República da África do Sul, tão perto de Angola, onde os escritores são livres de escolher entre o inglês, o africanse, o zulu, etc. Um escritor que opte pelo zulu pode sempre, mais tarde, fazer-se traduzir para inglês, idioma nacional e transnacional naquele país.

Em Angola, paradoxalmente, as línguas nacionais de origem africana não beneficiaram muito com a independência. Luanda foi, até finais do séc. XIX, uma cidade bilingue, sendo os colonos portugueses forçados a aprender quimbundo. Chegaram mesmo a publicar-se, nesse período, dois jornais em quimbundo. Hoje isso seria impensável.

O impressionante avanço do português, e a sua afirmação como única língua literária do país, tem produzido uma série de efeitos perversos. Forçar um escritor a trabalhar numa língua outra, que não o seu idioma materno, constitui quase sempre uma terrível violência, que se traduz por um empobrecimento, senão mesmo por uma falsificação, do universo original. Os escritores que têm o português como língua materna, e em particular os escritores de ascendência portuguesa, são, neste contexto, claramente beneficiados.

Existem, é claro, existiram sempre, escritores capazes de trocar de idioma, sem traumas, sem complexos, e ainda de transformar isso numa vantagem. Vladimir Nabokov, por exemplo, transportou para o inglês o particular humor russo, jogos de palavras, efeitos sonoros, criando, assim, um estilo absolutamente singular. Fernando Pessoa, que viveu os primeiros anos da sua vida na África do Sul, sentia-se à vontade quer em português quer em inglês, e é óbvio que essa dupla pertença beneficiou o seu projecto literário. Essa, porém, não é a regra.

Às instituições culturais angolanas, governamentais ou não, cabe o difícil papel de inverter este quadro, promovendo, por exemplo, a edição em línguas nacionais africanas. Dir-me-ão que a edição de obras em idiomas étnicos não tem futuro comercial. Efectivamente, a maioria dos angolanos alfabetizados, e que têm o hábito de ler, isto é, que compram mais de dez livros por ano, apenas falam português; e mesmo aqueles que dominam outros idiomas nacionais preferem comprar livros em português – e se possível em Portugal! Exactamente por isso  parece-me importante a intervenção do Estado, apoiando as editoras que decidirem correr o risco de publicar livros em línguas nacionais.

Todo o cenário mudará, é claro, quando todas as crianças angolanas passarem a ser alfabetizadas nos respectivos idiomas maternos.

Um bom princípio, já ensaiado pela editora Nzila, ligada à editora portuguesa Caminho, é o da publicação de textos bilingues. Como primeiro passo, a Nzila lançou recentemente uma edição da famosa novela de Manuel Rui Fernandes “Quem me dera ser Onda”, traduzida para umbundo por Almerindo Jaka Jamba. Esperemos que comece em breve a fazer o inverso, isto é, a lançar textos originais em línguas africanas acompanhados pela respectiva tradução portuguesa, assinada, se possível, por figuras respeitadas da literatura angolana.

A literatura é um excelente investimento. Um bom romance angolano pode sensibilizar mais gente no mundo inteiro, para a situação, por exemplo, das vítimas de minas do que qualquer campanha internacional. Jorge Amado fez mais pela indústria do turismo em Salvador da Baía, com um único dos seus livros, do que todas as agências de viagens juntas.

Não obstante o colapso do aparelho de Estado formaram-se ao longo dos últimos 25 anos largos milhares de quadros angolanos, facto que constitui, a meu ver, o maior triunfo da independência. Em 1975, apenas um homem, Mário António de Oliveira, havia pensado e escrito sobre o país, sobre a formação e as particularidades de Angola, com alguma profundidade. Hoje, podemos juntar às ideias de Mário António – que soube fazer o elogio da crioulidade, muito antes que um Patrick Chamoiseau, por exemplo – todo um já largo pensamento angolano, com destaque para a obra de Ruy Duarte de Carvalho e de Mário Pinto de Andrade, entre outros historiadores, sociólogos, antropólogos e escritores. Angola começa, finalmente, a ter uma imagem de si própria. Por outro lado, o regresso ao país de um grande número de jovens que estudaram no estrangeiro, em países democráticos como Portugal, Brasil, África do Sul ou Estados Unidos, com uma visão cosmopolita e mais aberta, está a trazer uma corrente de ar fresco a um ambiente que era, nos duros tempos da guerra, quase irrespirável.

Apesar do caos imenso e da imensa dor que a guerra provocou, acredito que Angola está hoje em melhor situação do que há 28 anos para lutar por uma verdadeira independência. Porque temos finalmente o essencial: um pensamento angolano, uma língua transnacional (a sexta mais falada em todo o mundo) e homens e mulheres preparados para governar o país.

Sobre o Autor:  Jornalista e escritor angolano, nascido no Huambo, em 1960. Autor de Estação das Chuvas (1996), Nação Crioula (1997), O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio (2002), Catálogo de Sombras (contos, 2003), O Vendedor de Passados (2004), entre outras obras.

FONTES: Ciberdúvidas da Língua Portuguesa / O Patifúndio (imagem)

conhecendo o esplendor da África pré-colonial

Citada num dos mais tocantes poemas de Francisco Tenreiro, a cidade de TOMBUCTU foi uma das capitais da sabedoria africana, uma referência histórico-cultural que deveria merecer nos currículos escolares tanto destaque quanto as Atenas e Florenças e Coimbras consagradas pelas tradições eurocêntricas da educação brasileira… Para quem quiser saber mais sobre essa esplendorosa cidade, recomenda-se o vídeo pedagógico elaborado pela equipe do professor carioca e militante histórico do movimento negro Amílcar Pereira, material valioso para sintetizar conhecimentos básicos sobre os valores civilizacionais africanos.
 

um depoimento elucidativo sobre as relações entre literatura & construção identitária em Angola

Bom material para desenvolver a reflexão sobre Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto, referência básica no curso da LET C47. Igualmente recomendável, pensando numa abordagem mais filosófica para a relação entre oralidade e literatura, é este outro texto de Manuel Rui, Da escrita à fala.

algumas referências para a compreensão da condição dos “assimilados” na Angola colonial

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Personagens estratégicas na história e na ficção de Angola – tal como se observa no conto “Mestre” Tamoda, que estamos discutindo na LET C47 – os assimilados representam um fenômeno cultural cujo estudo certamente pode oferecer contribuições valiosas para também compreendermos a construção das identidades “morenas” no Brasil, assim como os resultados ambíguos gerados pelos processos de sincretização que ocorreram no Brasil e em vários dos territórios colonizados pelos portugueses. Importante também referir que a complexa representação do mestiço que estamos discutindo nas LET A67 e C50, no âmbito dos estudos sobre a poesia da negritude em língua portguesa, articula-se diretamente aos efeitos culturais do assimilacionismo. A seguir indico três textos disponíveis na internet que apresentam informações e análises bastante úteis para o aprofundamento desse tema. O primeiro desses textos dirige o foco para os efeitos gerados no campo linguístico pelas políticas assimiladoras, tomando como objeto de discussão a narrativa de Uanhenga Xitu já referida.

AMÂNCIO, Íris. Performances da oralidade na escrita xitu do “Mestre” Uanhenga. In: Revista Scripta. Belo Horizonte: PUC Minas, 2002.

CARVALHO FILHO, Silvio de Almeida. As relações étnicas em Angola: as minorias branca e mestiça (1961-1992). In: Anais do VI Congresso da Associação Latino-Americana de Estudos Afro-Asiáticos do Brasil (ALADAAB). Brasília: 1998.

BITTENCOURT, Marcelo. A resposta dos “crioulos luandenses” ao intensificar do processo colonial em finais do séc. XIX. In: A África e a instalação do sistema colonial (c. 1885 – c. 1930). Actas da III Reunião Internacional de História da África (1999). Lisboa: IICT; Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga, 2000.

leituras do Brasil globalizado pelo olhar africano e feminino de Paulina Chiziane

Na entrevista para a EBC na Rede, a escritora moçambicana ainda dá exemplos de estereótipos sobre raças e gêneros no cinema e na literatura brasileira.



Novelas passam imagem de Brasil branco, critica escritora

“Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé”

Alex Rodrigues (Agência Brasil)

“Temos medo do Brasil”. Foi com um desabafo inesperado que a romancista moçambicana Paulina Chiziane chamou a atenção do público do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF).

Ela se referia aos efeitos da presença, em Moçambique, de igrejas e templos brasileiros e de produtos culturais como as telenovelas que transmitem, na opinião dela, uma falsa imagem do país.

“Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo”, criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país.


Escritora participa de debate sobre a literatura africana durante a 1ª Bienal do Livro e da Literatura

“De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal”, sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país. 

Igrejas brasileiras

A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora.

“Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular”, destacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.

Fuga de estereótipos

Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir.

“Gosto muito dos poetas de meu país, mas nunca encontrei na literatura que os homens escrevem o perfil de uma mulher inteira. É sempre a boca, as pernas, um único aspecto. Nunca a sabedoria infinita que provém das mulheres”, disse Paulina, lembrando que, até a colonização europeia, cabia às mulheres desempenhar a função narrativa e de transmitir o conhecimento.

“Antes do colonialismo, a arte e a literatura eram femininas. Cabia às mulheres contar as histórias e, assim, socializar as crianças. Com o sistema colonial e o emprego do sistema de educação imperial, os homens passam a aprender a escrever e a contar as histórias. Por isso mesmo, ainda hoje, em Moçambique, há poucas mulheres escritoras”, disse Paulina.

“Mesmo independentes [a partir de 1975], passamos a escrever a partir da educação europeia que havíamos recebido, levando os estereótipos e preconceitos que nos foram transmitidos. A sabedoria africana propriamente dita, a que é conhecida pelas mulheres, continua excluída. Isso para não dizer que mais da metade da população moçambicana não fala português e poucos são os autores que escrevem em outras línguas moçambicanas”, disse Paulina.

Durante a bienal, foi relançado o livro Niketche, uma história de poligamia (clique para acessar edição eletrônica), de autoria da escritora moçambicana. As informações são da Agência Brasil.

FONTE: Correio da Bahia

síntese abrangente e reproblematizadora da negritude “mulatista” de Francisco Tenreiro


Estudantes da LET C50 e da LET A67, atenção para este texto que se incorpora agora à bibliografia básica de nossos cursos. Atenção também à ampliação da antologia deste grande poeta disponibilizada no blogue.


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         obra tenreiro

 

AMOR DE ÁFRICA

1
Esparso e vago amor de África
como uma manhã outonal de nevoeiros calmos sobre o Tejo.
Difuso e translúcido amor de África
na sombra fugidia ao gás das travessas às três da madrugada.
Amor pálido de África num céu de andorinhas mortas
num campo branco sem malmequeres nem papoulas
Amor ténue e pálido, difuso e vago, translúcido de África
no coração murcho das multidões do Rossio olhando o placard
gente murcha e exausta, cansada e torturada
cansada e torturada para o amor.
(Quatro pulsações febris de um corpo só
oh África do Nilo e do Zaire oh África do Zambeze e do Níger
quem em ti está pensando de coração em África?
África dos rios velhos e ruínas ossificadas de Zimbabwé
China das muralhas de crisântemo e sangue
Malaias e Indonésias com encruzilhadas de sonho e febre
Indochina da virilidade com abraços tricolores de fraternité e palavras de balas
quem em vós está pensando de coração em África, nas Chinas e Malaias, Indonésias e Indochinas de sonhos crispados?)
São sempre notícias de longe (terras exóticas meu avô andou lá veja a mala de cânfora conheceu o Gungunhana)
são sempre notícias de longe bafejando corações murchos às cinco horas da tarde no largo do Rossio.
Esparso e vago amor de África pelas calçadas da cidade.
Vago amor de África pelas nove horas da manhã, comigo sentado num eléctrico amarelo
deslizando nos carris ainda orvalhados do sonho e da ilusão
com pernas roliças de sopeiras a caminho da praça
e as vozes acordadas roucas dos embarcadiços encalhados
e as gralhas gentis e palradoras da agulha e linha
comigo sentado no eléctrico amarelo com carris de sonho
e uma mulher velha com o desejo-de-lugar nos olhos encovados
e eu deslizando com os sonhos dos outros e acordando para os olhos velhos da mulher
levantando-me e ela sentando-se no comentário para a do lado
há rapazes pretos muito gentis, muito gentis, muito gentis
e eu indiferente e vago com a vaguidade do amor daquela mulher esquecida do tempo como um papiro
embalado pelo eléctrico amarelo de sonho e pelos carris
das gralhas mimosas e palradoras;
(ah não haver milho às mãos-cheias para os bichos gulosos de vida destes corpos penugentos
nem os barcos de papel da infância seguros contra todos os riscos no Lloyd’s da nossa imaginação
para os homens do mar feitos agora gaivotas cinzentas em terra).
Esparso e vago amor de África pelas calçadas da cidade.
Vago também as nove e trinta da manhã na tabacaria tolhida de espanto
à esquina do prédio de oito andares
onde em dois brasidos se queimam olhos fosforescentes de pantera
e há uma mão felina estendendo na ponta das unhas recurvadas
pelo desejo e pela ambição o maço de Paris
uma mão de veludo e unhas de sangue
metendo conversas secretas e arrepios na espinha
solicitando encontros respeitáveis com carteiras concretas
casacos cio Alaska e jóias de Kimberley.

2
Aqui estou agora de coração em África
nesta noite fria e nu do capote das ilusões
ouvindo este sábio que tudo sabe tudo sabe de África.
De África e dos pretos claro está!…
Dos pretos que para arrelia das gentes à Terra vieram
pobrezinhas crianças crescidas em pretidão
mas que têm alma branca dizem uns
ou segundo outros alma danada.
Aqui estou eu agora vestido de África por dentro
por fora cheviote sorridente o sábio ouvindo
que das pirâmides diz e esquece os negros faraós
da poligamia reverbera olhos fechados à pederastia
fosforescente ao escuro das ruas velhas do mundo cansado
braço dado com damas de camélias emurchecidas
como as palavras que solta da sua caveira sem dentes.
Aqui estou eu agora coração oprimido e sorriso longe
ouvidos atentos ao linfatismo de repetidas ideias
sei lá quantas vezes e tantas como pingos sujando o meu coração.
Oh! minha África ter-te no peito o que vale
perante a clareza absoluta e homérica de afirmações tão sábias!
«Eu antes quero uma fuga de Bach que um batuque de cafres;
Prefiro um quadro de Rubens a um manipanso preto;
Sim, claro, o Ifé e o Benin são excepções ao resto
infantil, imaturo, caricatural da arte africana»
Casquinava arritmicamente, os dentes soltos na caveira consumida de sabedoria!
De Sabedoria de África e dos pretos claro está!…
Ri caveira morta, riam todos vocês assistência sem vida
Riam todos que o caso não é para menos;
mas deixem-me por favor este sorriso cheviote por fora
enquanto o meu coração serenamente conta
os minutos-tempo que faltam para a humanidade renascer!

 

EPOPEIA

Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
– veias entumecidas dum corpo de sangue!

*

Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
roxeando a noite tropical

Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!

*

Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando o compasso!

Noite de grande lua
e destino ignorado!…

*

Foste o homem perdido
Em terras estranhas!…

No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações de fumo!

Na calma do descanso nocturno
só saudade da terra
que ficou do outro lado…
– só canções bem soluçadas –
dum ritmo estranho!

*

Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!

Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi despropósito!…

Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideais
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres…

                         Libéria! Libéria!

Ah!
         os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando…

*

Quando cantas nos cabarés
Fazendo brilhar o marfim da tua boca
É a África que está chegando!

Quando nas Olimpíadas
Corres veloz
É a África que está chegando!

Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja a de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma via nova!

…para que a tua gargalhada
de novo venha estraçalhar os ares
como gritos agudos de azagaia!

 

EXORTAÇÃO

Negro
para quem as horas são sol e febre
que colhes
nesse ritmo de guindaste.

Negro
para quem os dias são iguais
que respeitas teu patrão e senhor
como água que mexe o engenho.

Negro!
              Levanta os olhos prao sol rijo
e ama tua mulher
na terra húmida e quente!

 

O MAR 
 
A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
- Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!…  
 
Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai! 
 
O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!…

 

CANÇÃO DE FIÁ MALICHA 

“Lenço di seda
            …Seda càbou!”

O branco arregalou os olhos
Negrinha tão tenra
de peito durinho!

“Saia di pano
           …Pano càbou!”

No socopé seu branco a tomou:
Negrinha tão tenra
de riso tão largo!
 

“Vinho di plôto
                                                                                ….Plôto càbou!

                                                          Seu branco deu tudo
                                                          té roça montou!

Mas mina piquina
tudo càbou…

 

LONGINDO O LADRÃO

Os olhos de Longindo
saltam a noite
como dois bichinhos luminosos.

Chiu!
Só o eco do mar!

O corpo de Longindo
segue os olhos
como caçô atrás de homem!

Chiu!
Só o rumor do palmar!

A mão de Longindo
estendeu-se prá frente
os olhos santando na noite!

Ui!
Um tiro de carabina!

O coração de Longindo
começou batendo
e a navalha cantou de encontro à pele.

Hum!
Um tiro de carabina!

Longindo fechou um olho.
Depois o outro.
O branco o perdeu na escuridão!…

Ah!
Só o ronco-ronco do mar!

 

NÓS, MÃE

Tens o rosto vincado, minha mãe!

Os teus seios deixaram de dar leite
e tombaram em desalento
como duas folhas envelhecidas.
Só as tuas pernas engrossaram
e os dedos cortados e lascados
se enraizam pela Terra
dizendo que ainda vives.
De resto, o teu ventre murchou
como se tivesse sido soprado
pelo bafo dum vulcão maldito.
De resto, o teu corpo de azeviche
mirrou e tornou-se pardacento
e a tua pele fina, minha mãe,
ficou rugosa e feia
como casca de uma árvore velha.

Os teus olhos são duas poça de água
procurando em vão nem tu saberás o quê?
Talvez os teus tantos filhos
paridos desse ventre gasto e encarquilhado
e que vão gritando pelo mundo lágrimas de sangue.
O cantar doce dos coqueiros
ondulando à brisa
era o balbuciar do teu primeiro filho.
E a nossa primeira irmã
tinha nos olhos duas luas negras
acendendo a nossa alegria.
Então, os teus seios, minha mãe,
tinham leite correndo-te dos bicos
em dois riozinhos muito brancos
na pele de ébano.

Ah! Brancos, negros e mestiços
escaldaram o teu corpo de sensações
com o bafo quente de um vulcão maldito.
E os teus seios secaram
o teu corpo mirrou
e as pernas engrossaram
enraizando-se no teu próprio corpo

E os teus olhos…

Os teus olhos perderam o brilho
ao sentirem o chicote
rasgar as carnes dos teus filhos.
Os teus olhos são poços de água pálida
porque cheiraste na velha cubata
o odor intenso de uma aguardente qualquer.

Os teus olhos tornaram-se vermelhos
quando brancos, negros e mestiços
instigados pelo alcóol
pelo chicote
pelo ódio
se empenharam em lutas fratricidas
e se danaram pelo mundo.

E a ti,
Oh! Mãe de negros e mestiços e avó de brancos!
Ficou-te esse jeito
de te perderes na beira de algum caminho
e te sentares de cabeça pendida
cachimbando e cuspindo para os lados.

Mas os teus filhos não morreram, negra velha,
que eu oiço um rio de almas reluzentes
cantando: nós não nascemos num dia sem sol.

Que um rio vem correndo e cantando
desde St.Louis e Mississipi
ao som dos quissanges numa noite africana
às noites longas dos cargueiros em Port-Said
à luz nevoenta de algum botequim inglês
até onde haja um peito negro tatuado e ferido.

Conheço sim, o cansaço do nosso corpo
E se um dia não puderes mais
fecha os olhos e encosta o ouvido à terra.
Ui! Ouvirás no ressoar de um tambor ao longe
O canto altivo e sereno dos teus filhos.

Nós, minha mãe
Não nascemos num dia sem sol!

 

1619

Da terra negra à terra vermelha
por noites e dias fundos e escuros,
como os teus olhos de dor embaciados,
atravessaste esse manto de água verde
                   – estrada de escravatura
                   comércio de holandeses -

Por noites e dias para ti tão longos
e tantos como as estrelas no ceú,
tombava o teu corpo ao peso de grilhetas e chicote
e só ritmo de chape-chape da água
acordava no teu coração a saudade
da última réstia de areia quente
e da última palhota que ficou para trás.

E já os teus olhos estavam cegos de negrume
já os teus braços arroxeavam de prisão
já não havia deuses nem batuques
para alegrarem a cadência do sangue nas tuas veias
quando ela, a terra vermelha e longínqua
se abriu para ti
                  – e foste 40 £ esterlinas
                  em qualquer estado do Sul -

 

CICLO DO ÁLCOOL

1
Quando seu Silva Costa
chegou na ilha
trouxe uma garrafa de aguardente
para o primeiro comércio.

A terra era tão vasta
havia tanto calor
que a água
parecia não ter potência
para acalmar a sede da sua garganta.

Seu Silva Costa
                           bebeu metade…

E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.

2
A lua batendo nos palmares
tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
é o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
soluçam as cubatas
batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
os brancos estão fazendo negócio
a golpes de champagne!

3
Mãe Negra contou:
“eu disse:
                filhinho
beba isso coisa não…
               Filhinho riu tanto tanto!…”

Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?

“Oh!
          filhinho
entrou no vinhateiro
vinhateiro entrou nele…”

Os olhos de nhá Rita
estão avermelhando de tristeza.

“Hum!
           filhinho
ficou esquecendo sua mãe!…”

 

ILHA DE NOME SANTO

Terra!
das plantações de cacau, de copra, de coco a perderem-se de vista
que vão morrer numa quebra ritmada
num mar azul como céu mais gostoso de todo o mundo!

Onde o sol bem amarelo incendeia as costas
dos homens, das mulheres agitando-lhes os nervos
num cadenciar magico mas humano; capinar, sonhar, plantar!

Onde as mulheres que têm braços mais grossos e mais tortos que ocá
são negras como o café que colhem depois de torrado
trabalham ao lado do seu homem numa ajuda toda de músculos!

Onde os moleques veem seus pais no ritmo diário
deixando correr gostosamente pelo queixo quente
o sabor e a seiva úmida do sàfu maduro!

Onde as noites estreladas
e uma lua redonda como fruto
os negros as sangués os moleques os caçô
- mesmo o branco e a sua mulata –
vêm no sòcòpé de uma sinhá
ouvir um malandro tocando no violão
cantando ao violão!

E o som fica escoando pelo mar…

*

Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro
onde apesar da espada e duma bandeira multicolor
dizerem poder dizerem força dizerem império de branco
é terra de homens cantando vida que os brancos jamais souberam.
é terra do sàfú do sòcòpé da mulata
- ui! fetiche di branco! -
é terra de negro leal e valente que nenhum outro!

conhecendo melhor a ‘négritude’ de Leopold Senghor

Além da excelente aula ministrada pelo poeta Leonardo Gonçalves, muito recomendáveis, também, para abordagens panorâmicas acerca dos aspectos literários da négritude são a resenha Leopold Sedar Senghor e a negritude, de Waldir Freitas Oliveira e o ensaio metacrítico De como os lamantins vão haurir na fonte, composto pelo próprio poeta senegalês para explicar as balizas estéticas que o orientavam e, em reapropriações diversificadas, a muitos dos principais poetas negritudinistas. Na sequência do ensaio incluem-se dois poemas de Senghor, completando a pequena antologia de sua obra que se inicia nos recortes abaixo (traduções de Gastão Gomes).





Inocência Mata: uma perspectiva africana sobre cânones e canonizações nas LALP

inocencia rasta

Para dar suporte teórico ao prosseguimento das discussões na LET C47, bem como oferecer referenciais críticos para a análise dos textos literários africanos que estamos trabalhando, estão indicados dois ensaios representativos também da produção recente da professora são-tomeense Inocência Mata, uma das mais importantes e instigantes intelectuais no nosso campo de estudo.

MATA, Inocência. “Even Crusoe needs a Friday”: os limites dos sentidos da dicotomia universal/local nas literaturas africanas / A literatura, universo da reinvenção da diferença. In: A literatura africana e a crítica pós-colonial: reconversões. Luanda: Editorial Nzila, 2007.