“O Brasil ainda é extremamente colonial”: entrevista de Grada Kilomba

Chamo a atenção dxs discentes da LETC53 para a discussão sobre o “silêncio” que logo de início aparece na instigante conversa: leitorxs intensivos de Boaventura Santos entenderão…

Grada Kilomba nasceu em Portugal, cresceu em São Tomé e Príncipe (uma das ex-colônias portuguesas na África) e viaja o mundo apresentando seus trabalhos – videoinstalações, performances e produções literárias – que versam fundamentalmente sobre racismo e memória. No Brasil, onde integrou a 32ª edição da  Bienal de São Paulo, encerrada em dezembro último, apresentou a série de vídeos do seu “Projeto Desejo” e diz ter encontrado “um país fraturado”. “Há uma história de privilégios, escravatura e colonialismo expressa de maneira muito forte na realidade cotidiana”, explica. “E é espantoso ver a naturalidade com que os brasileiros conseguem lidar com isso”. Escritora, performer e professora da Universidade Humboldt – a mais antiga e uma das mais tradicionais de Berlim, onde vive atualmente –, Kilomba é autora dos livros Plantations memories – episodes of everyday racism (2008), onde conta suas histórias pessoais como mulher e negra, e Performing knowledge (2016), no qual trata da necessidade de “descolonizar os pensamentos”. “Muitas vezes, nos dizem que nós somos discriminados porque somos diferentes. Isso é um mito. Não sou discriminada por ser diferente, mas me torno diferente justamente pela discriminação que sofro”. Nesta entrevista à Muito, concedida durante a residência artística que realiza  no Instituto Cultural Brasil-Alemanha (Icba), ela fala sobre racismo e outros “ismos” que marcam o mundo contemporâneo: “O branco não é uma cor. O branco é uma definição política que representa os privilégios históricos, políticos e sociais de um determinado grupo. Um grupo que tem acesso à estruturas e instituições dominantes da sociedade. Branquitude representa a realidade e a história de um determinado grupo”. 

Na Bienal de São Paulo, a senhora apresentou o Desire Project [Projeto Desejo], uma série de vídeos que indicam a presença de um sujeito sem voz, que é silenciado pela história. Vivemos num momento em que esse silêncio já foi quebrado?

Esse silêncio tem sido quebrado pontualmente. Mas não existe realmente uma linha contínua. Ele é quebrado por pensadores, por intelectuais e por artistas, que são exceções. A palavra que batiza o projeto – desejo –  vem de uma vontade de expressar o que ainda não é expressado: o que nós queremos e o que é, de fato, importante para nós. Os sujeitos historicamente silenciados, como os negros, as mulheres e os gays, estão muito treinados a dizer o que não querem. Somos contra o racimo, o sexismo e a homofobia. Mas é muito importante também  criar novas agendas, criar novos discursos. Como não nos perguntam o que nós desejamos, isso precisa ser colocado por nós. Qual é o caminho que eu quero seguir? Qual é o vocabulário que eu quero usar? Como eu quero me tornar visível? Como eu quero contar a minha história? Parte do processo de descolonização é se fazer essas questões. E isso integra um processo de humanização, porque o racismo, por exemplo, não nos permite ser humanos. O racismo nos coloca fora da condição humana, e isso é muito violento.

A senhora mora e trabalha, hoje, em Berlim, na Alemanha. Considera que a tomada de consciência de sua identidade negra é maior numa cidade predominantemente branca? 

CONTINUAÇÃO

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Inscrições para o II Seminário Rasuras – UFBA

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A II edição do Seminário Rasuras emerge da necessidade de dar continuidade aos debates fomentados desde 2010, início das atividades do grupo de pesquisas no Instituto de Letras, problematizando questões sobre literatura, linguística e cultura. As atividades do grupo interagem rizomaticamente nas diversas esferas de reflexões acadêmicas que circundam as linhas teóricas do PPGLitCultt (Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura – Instituto de Letras/ UFBA).

​O grupo tem como pauta, desde sua fundação, discussões sociais, antropológicas e raciais de importância para a formação do sujeito intelectual, sobretudo, dos estudantes negros que integram a universidade e/ou aqueles que estão por iniciar seu percurso acadêmico.

LET C55: referências conceituais e críticas

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PROGRAMA 2017-2

HAMPATÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph. História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.

LEITE, Fábio. Valores civilizatórios em sociedades negro-africanas. In: África: Revista do Centro de Estudos Africanos. n.18-19. São Paulo: USP, 1995/1996.

CUNHA, Henrique. Ntu. In: Revista Espaço Acadêmico. n.108, maio 2010.

KANDJIMBO, Luís. Escrita e vertigem dos livros / Pedro Miguel, um filósofo angolano em Itália / Identidade e filosofia política. In: Ideogramas de Nganji. Exercícios angolanos de ler e parafrasear. Lisboa: Novo Imbondeiro, 2003.

KANDJIMBO. O provérbio: um gênero da literatura oral angolana. In: KANDJIMBO, 2003.

RUI, Manuel. Eu e o outro — o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto. Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, 23/05/1985.

SCHIPPER, Mineke. Literatura oral e oralidade escrita. In: QUEIROZ, Sônia. A tradição oral. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2006.

BOTOYEYÉ, Geoffroy. O que pode a escrita? / ZOUNMÈNOU, Marcellin Vidjennagni. Conhecimento indígena e tradições orais em Zulu (África do Sul) e Gun (Benim). In: HOUNTONDJI, Paulin (org.). O antigo e o moderno. A produção do saber na África contemporânea. Tradução de M. Ferreira, G. Sousa, P. Patacho e A. Medeiros. Mangualde (Portugal): Edições Pedago, 2012.

Linguagem & Culturas: bibliografia teórica

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SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida. Por um conceito de cultura no Brasil. 3.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

SODRÉ, Muniz. Espaço e cognição: O lugar / O lugar da aprendizagem / Experiência e criatividade. In: Reinventando a educação. Diversidade, descolonização e redes. Petrópolis: Vozes, 2012.

ASANTE, Molefi Kete. Ancestors / Ancestors and Harmonious Life. In: ASANTE, Molefi Kete, MAZAMA, Ama. (editors). Encyclopedia of african religion. California: Sage Publications, 2009.

LEITE, Fábio. Valores civilizatórios em sociedades negro-africanas. In: África. Revista do Centro de Estudos Africanos. n.18-19. São Paulo: USP, 1995/1996.

HAMPATÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph. História geral da África. v.I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.

GILROY, Paul. O Atlântico negro. Modernidade e dupla consciência. Trad. Cid Knipel Moreira; Patrícia Farias (Prefácio à edição brasileira). 1.ed. São Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001.

RATTS, Alex. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Instituto Kuanza; Imprensa Nacional do Estado de São Paulo, 2006.

MATA, Inocência. Vieses de um recorte cultural. In: Ficção e história na literatura angolana: o caso de Pepetela. Portugal: Mayamba Editora, 2010.

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Organização de Liv Sovik. Belo Horizonte; Brasília: UFMG; Representação da UNESCO no Brasil, 2003.

SODRÉ, Muniz. Introdução / Cultura e educação. In: Reinventando a educação. Diversidade, descolonização e redes. Petrópolis: Vozes, 2012.