Mais da metade dos professores reconhece falhas em cursos de formação, aponta pesquisa

Daniel Mello, da Agência Brasil, 23/10

Os cursos de formação inicial não contemplam todas as competências necessárias para ser professor, na opinião de 51% dos 3.512 educadores de ensino básico entrevistados para a pesquisa A Formação e a Iniciação Profissional do Professor. Apenas 18% disseram acreditar que as faculdades oferecem toda a capacitação necessária, enquanto 30% não tinham opinião sobre a questão.

O levantamento, divulgado hoje (22), foi elaborado pela Organização dos Estados Ibero-Americanos e a Fundação SM. A pesquisa ouviu principalmente (96%) professores da rede pública. Apesar de apontarem deficiências nos cursos, 57% deles acreditam que a formação inicial está diretamente ligada à qualidade do ensino.

"Os cursos de formação são bons. A questão é que eles ensinam coisas erradas, que não têm valia para a relação de ensino e aprendizagem que depois acontece na sala de aula", disse a responsável pela análise dos dados da pesquisa, Gisela Wajskop.

Doutora em educação, Gisela afirmou que os cursos de pedagogia revisam uma série de teorias de ensino de maneira generalista. Segundo ela, os professores não aprendem nem as técnicas para transmissão do conhecimento nem como se relacionar com os alunos. "Como o professor aprende por repetição e memorização, ele vai ensinar por repetição e por memorização".

O curso de pedagogia é responsável pela formação de 43,6% dos entrevistados. Quase o mesmo número de consultados (43%) afirmou que essa qualificação não oferece equilíbrio entre a teoria e a prática.

Os estudantes são os maiores prejudicados pela incapacidade dos professores em transmitir o conteúdo de maneira a gerar reflexão, na avaliação de Gisela. "Quem se prejudica são as crianças, os jovens e os adolescentes que aprendem apenas a memorizar noções e não se apropriam do conhecimento como instrumentos de reflexão e transformação do mundo."

Os professores, no entanto, também sofrem com a falta de preparação para lidar em sala de aula. "Imagina um menino entre 20 e 30 anos que aprendeu os teóricos da educação, mas que não aprendeu o procedimento de organizar uma turma que grita", exemplifica a educadora.

De acordo com a pesquisa, 39,7% dos professores com menos de três anos de experiência pensaram seriamente em abandonar a profissão nos últimos anos. O número cai para 25% quando se considera todas as faixas de experiência.

Estágios supervisionados e outra atividades que permitam a observação e interação do ambiente escolar são recomendações de Gisela para tentar solucionar o problema.

Na Finlândia, por exemplo, dentro das universidades existe uma escola de treinamento onde os alunos têm desde o início do curso até a experiência de trabalhar dentro de uma sala de aula, contou o professor do Instituto Finlândes de Pesquisa da Universidade de Jyväskylä, Jouni Välijärvi.

Entretanto, ele ressaltou que essa experiência tem uma duração muito curta para que o educador tenha uma noção completa da profissão. Por isso, Välijärvi explicou que o país está aprimorando a formação dos professores por meio de um sistema de estudo e discussão dentro das escolas.

"Atualmente, estamos desenvolvendo um sistema em que os professores mais velhos ajudam os mais novos quando chegam à escola. Eles discutem sobretudo que os mais jovens necessitam e estão sempre disponíveis, apoiando os mais novos e dividindo a sua experiência."

(FONTE: Jornal da Ciência)

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Educação e desenvolvimento

educação-ideologia ou direito

Elisa Pinheiro de Freitas é doutoranda em Geografia Humana na Universidade de São Paulo. Artigo publicado no "Valor Econômico", 27/8/2009

Todo o debate que coloque no centro das atenções os rumos da educação formal brasileira deve ser acolhido, analisado e, sobretudo, ser força geradora de novas reflexões. É assim que se dá com a constituição dos conhecimentos científicos e tecnológicos que dia-a-dia reestruturam as nossas formas de pensar e ver o mundo.

Contudo, é recente o despertar dos diferentes espectros sociais para as questões relativas ao campo educacional e o desvelamento das enormes fragilidades que caracterizam os sistemas de ensino na sua totalidade. Tanto que foi apenas no último decênio do século passado que se encetou a aplicação de avaliações periódicas para aferir a qualidade das nossas escolas.

Embora o Estado brasileiro na década de 1990 tenha conseguido ampliar o acesso à educação básica, as atuais avaliações têm posto em xeque a capacidade dos nossos sistemas educacionais em ofertar educação de qualidade para a grande parte da população que compõe a nossa sociedade.

Nesse sentido, o grande desafio deste século é, sem dúvida, encontrar caminhos que equacionem o binômio quantidade de vagas e qualidade nos estabelecimentos escolares.

Feitas essas considerações, há que se levantar as seguintes questões: em que medida é possível superar a falência histórica da escola pública brasileira? De que modo o precário investimento na educação compromete o pleno desenvolvimento nacional? A partir dessas observações surge um conjunto de respostas que delimitam tendências de análises e se materializam em ações governamentais.

Um dos argumentos que tem sustentado a explicação para o caos da escola pública é aquele que busca responsabilizar o professor pelo fracasso da aprendizagem do estudante. Ou seja, tem se afirmado que se o aluno não aprende é porque o educador não está devidamente preparado para enfrentar determinadas circunstâncias que são comuns ao considerar a realidade do país.

Como solucionar, então, esse dilema? Nota-se que as ações públicas mais imediatas caminham no sentido de querer propiciar melhor formação para os profissionais do magistério. E não temos dúvidas de que possibilitar ao educador uma sólida formação inicial constitui algo indispensável, mas não somente.

Adam Smith, no Livro I, capítulo 10 de sua obra "A riqueza das nações" (1776), quando discutiu as desigualdades de salários resultantes da natureza do trabalho, destacou a importância de preparar o professor com o mesmo esmero que se forma um jurista ou um médico. Ele inclusive se remeteu à Grécia antiga para explicar que, por haver naquela época poucos professores, o pagamento pelo trabalho deles era elevado.

Porém, dificultava-se à população o acesso aos saberes básicos como a leitura, escrita e o cálculo. Na medida em que há o aumento no número de docentes, o salário começa a se degradar. Mas o autor vê nesse processo algo de positivo: mais pessoas conseguem ser educadas por ter condições de pagar. O mecanismo da oferta e da procura irradia-se para além do trabalho produtivo, alcançando também o que é próprio dos serviços.

Para o processo de reprodução do capital, do desenvolvimento das forças produtivas e, consequentemente, de geração de riqueza era vital oportunizar aos trabalhadores o mínimo contato com os conhecimentos elementares. E preparar o professor constituía uma peça chave.

Posta essas colocações, a tese que defende a formação de e com qualidade do profissional que atua na escola possui um caráter verossímil. Todavia, é preciso que se associe a ela o pressuposto de que a natureza do trabalho docente não pode estar sujeita ao tempo imposto pelo capital. Por diferentes razões.

Primeiro, não é possível ao professor, com uma extensa jornada de trabalho e com um número elevado de alunos sob sua tutela, dispor de tempo para aprimorar-se intelectualmente.

Segundo, educar alguém implica não simplesmente instrumentalizá-lo para o exercício de tarefas específicas, mas, sobretudo, ampará-lo na construção de uma consciência mais ampliada de si e do mundo que o cerca. Ler, escrever e calcular deve ser meio, e não o fim último do processo educativo. Por isso, formar é uma tarefa similar à do artesão. Para este, cada peça criada é singular e o processo de constituição da mesma exige uma temporalidade distinta daquela que impera na indústria.

E, por fim, o terceiro ponto: a instituição escolar não é e nem pode ser concebida como uma fábrica, na qual cada estudante passa por uma espécie de "linha de produção" em que recebe as instruções básicas transmitidas pelo professor. A escola é uma instituição que transcendeu os séculos, porque a elegeram como sendo um meio para se atingir a humanização dos homens. Nesta perspectiva, faz sentido fortalecer a escola pública, dando a ela as condições materiais para que esses ideais não se dissolvam. E o Estado deve assumir o papel de grande investidor dessa instituição e não se deixar conduzir pelos princípios que norteiam a esfera privada.

Há que salientar que o desenvolvimento do Brasil foi profundamente comprometido no decorrer de sua formação por conta da ausência de estabelecimentos de ensino, como assinalou Caio Prado Jr. em sua História Econômica do Brasil (1945). Ele pôs em relevo que a administração pública manteve o país num regime totalmente isolado, dificultando o intercâmbio com outras nações mais bem aparelhadas. Além disso, o sistema de ensino ineficiente contribuiu para o baixo nível intelectual da população, fato este que interferiu diretamente na economia do país.

Logo, privar hoje a população brasileira de uma educação mais elaborada é optar pela subserviência do país no plano internacional. E nada pode ser mais desolador e nefasto para um país do que uma população inculta e pouco civilizada, haja vista que o verdadeiro desenvolvimento nacional, seja nas áreas culturais, científicas e tecnológicas, passa por uma escolha política que priorize a elevação intelectual de seu povo. Se esses princípios não forem contemplados, as nossas escolas públicas continuarão a amargar com os seus baixos índices qualitativos.

FONTE: Jornal da Ciência

Salário de professor sobe 18% em 5 anos

 

Renda dos docentes, porém, ainda é menor do que a de profissionais com a mesma escolaridade que atuam em outras áreas. Aumento real do salário do professor da rede pública da educação básica em São Paulo foi de apenas 9%, metade da média do país

Antônio Gois escreve para a "Folha de SP":

Entre os anos de 2003 e 2008, os professores da rede pública da educação básica em todo o Brasil tiveram aumento real (já descontada a inflação) de 18%. A profissão, no entanto, ainda segue desvalorizada salarialmente, uma vez que profissionais com mesma escolaridade em outras ocupações recebem mais do que os docentes.

Os dados que registram aumento real no salário dos professores da rede pública de ensino foram calculados pelo Ministério da Educação. Já a comparação da renda dos docentes com profissionais de outras áreas foi feita pela Folha. Nos dois casos, usou-se a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE.

O MEC fez dois recortes. No primeiro, comparou a evolução da renda de todos os professores das redes municipais e estaduais do Brasil, independente da escolaridade, chegando ao percentual de 18% de aumento. Em São Paulo, a variação de 2003 a 2008 foi menor: 9%. Na segunda, selecionou apenas professores com nível superior completo ou incompleto. Nesse caso, a variação real foi de 12% (10% em São Paulo).

A tabulação feita pela Folha levou em conta apenas os professores com nível superior completo, para permitir a comparação com outras profissões universitárias. De uma lista de 21 ocupações em que foi possível comparar, as carreiras relacionadas ao magistério foram as que apresentaram menor rendimento médio.

Um professor de 1ª a 4ª série, por exemplo, tem renda média equivalente a um quinto do que ganha um médico, 46% de um arquiteto, 57% de um enfermeiro com nível superior, e 68% de um fisioterapeuta.

A distância entre os vencimentos dos professores com nível superior em relação à média de profissionais com escolaridade semelhante, no entanto, caiu de 2003 a 2008. No caso de docentes de 1ª a 4ª, eles recebiam em 2003 metade (49%) do que a média de um trabalhador com nível superior. Em 2008, a proporção aumentou para 59%. Entre professores do ensino médio, essa proporção cresceu no período de 71% para 80%.

Piso

Segundo o ministro Fernando Haddad (Educação), já é possível traçar como meta no Plano Nacional de Educação (que será debatido no Congresso no ano que vem) equiparar o rendimento dos docentes com nível superior à média dos demais profissionais com a mesma escolaridade.

Haddad diz acreditar que a regulamentação do piso salarial de R$ 950 – que entrou em vigor neste ano – dá ao governo federal um instrumento para acelerar esse processo de equalização dos salários entre docentes e não docentes de mesma escolaridade.

Apesar desse aumento na renda do magistério, um relatório preparado pela Unesco sobre a situação dos professores brasileiros também destaca que os diferenciais de salário em relação a outras profissões ainda são muito grandes, o que contribui para diminuir a atratividade da carreira.

"A situação do professor no Brasil continua preocupante. Minha impressão é que só agora começamos a acordar para isso, mas a dívida ainda é grande, pois a expansão do ensino fundamental se fez à custa da desvalorização do salário do magistério", diz Célio da Cunha, assessor da Unesco.

Estudos ligam boa educação a maior salário de professores

Um estudo divulgado neste ano comparando os sistemas cubano, brasileiro e chileno ("A Vantagem Acadêmica de Cuba", de Martin Carnoy), aponta que uma das razões para o sucesso cubano é que seus professores recebem, em média, o mesmo rendimento de outros profissionais, o que faz com que a carreira fique atrativa para os melhores estudantes.

Um estudo divulgado em 2007 pela consultoria McKinsey chegou a uma conclusão parecida ao identificar como uma das características comuns em países bem avaliados no Pisa (Programa de Avaliação Internacional de Estudantes) o fato de a carreira ser atrativa aos melhores profissionais que se formam no ensino médio.

Apesar dessas evidências, há controvérsias entre especialistas a respeito do impacto do rendimento do professor no desempenho dos alunos, já que estudos correlacionando salários com a nota dos estudantes mostraram que, para a rede pública brasileira, não há impacto estatisticamente significativo.

Para Bernardete Gatti, que coordenou o estudo da Unesco sobre professores, essas análises que só correlacionam salários e notas captam retrato de momento: "O problema é que se um jovem bem preparado não vê boas perspectivas salariais na carreira, irá procurar profissões mais atraentes".

Para Unesco, situação do professor é crítica

Num dos mais completos relatos já feitos sobre a situação do professor brasileiro, a Unesco aponta que a situação é bastante crítica, e não apenas por causa dos baixos salários.

Além de a carreira, que emprega 2,8 milhões de pessoas no país, não ser atrativa para os jovens de maior nível socioeconômico, os alunos que ingressam em cursos de pedagogia e licenciaturas recebem uma formação que enfatiza pouco a relação entre teoria e prática.

Eles se formam principalmente em instituições particulares, à noite, e poucos passam por atividades de estágio bem coordenadas antes de começarem a dar aulas.

Para mostrar esse quadro complexo, as pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas Bernadette Gatti e Elba Barretto usaram várias bases de dados sobre professores no país.

Escolaridade

Do questionário que é aplicado aos alunos que fazem o Enade (exame que avalia a educação superior), elas destacaram, entre outros fatos, que os universitários de cursos de licenciatura e pedagogia vêm de famílias mais pobres, com menor bagagem cultural.

Quase metade (50,6%) tem pais sem nenhuma escolaridade ou que chegaram apenas à 4ª série do ensino fundamental. Entre alunos dos cursos de medicina, por exemplo, esse percentual é de 7,1%. Na carreira de enfermagem, a proporção é de 37,7%.

"São jovens em ascensão social, e é preciso aproveitar o potencial deles, que buscam na universidade enriquecer sua bagagem sociocultural. Para isso, no entanto, é fundamental mexer nas grades curriculares dos cursos que formam professores, que deixam muito a desejar", diz Bernadette Gatti.

Para chegar a essa conclusão, o relatório detalha uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas, feita com apoio da Fundação Victor Civita, que analisou a estrutura curricular e as ementas de 165 cursos de pedagogia e licenciaturas.

Num trecho do relatório, as autoras destacam que as "ementas dos cursos frequentemente expressam preocupação com o porquê ensinar, o que pode contribuir para evitar que conteúdos se transformem em meros receituários, mas só de forma muito incipiente
registram o quê e como ensinar."

A proporção de horas dedicadas a formação específica, por exemplo, não passa de 30% nesses cursos. "A formação é precária, com pouca ênfase na relação entre teoria e prática. E não há acompanhamento adequado dos estágios. Fazer isso de maneira bem feita tem um custo alto, pois envolve um professor designado para acompanhar cada estudante em seu projeto. Muitas faculdades privadas não estão dispostas a arcar com isso", critica a pesquisadora.

Salário

Célio da Cunha, assessor especial da Unesco, afirma que o relatório deixa muito evidente que a questão salarial é importante, mas que a valorização do trabalho do professor não se restringe a isso. "Salários, apenas, não operam milagres. De que adianta aumentar os rendimentos do professor se ele continuar a ser formado da mesma maneira?", indaga Cunha.

Ele afirma que a dificuldade de valorizar a carreira do magistério não é um desafio apenas do Brasil. No entanto, na comparação com países desenvolvidos, os rendimentos dos professores brasileiros ficam muito abaixo de seus colegas europeus, por exemplo.

"E o que agrava mais a situação dos professores brasileiros e de outros países menos desenvolvidos é que, na Europa, os serviços públicos de saúde e educação são de alta qualidade, o que não acontece no Brasil, onde parte da renda acaba sendo destinada a suprir essa deficiência."

FONTES: Folha de SP, 4/10; Jornal da SBPC; Salário do professor no Brasil é o 3º pior do mundo