Salário de professor sobe 18% em 5 anos

 

Renda dos docentes, porém, ainda é menor do que a de profissionais com a mesma escolaridade que atuam em outras áreas. Aumento real do salário do professor da rede pública da educação básica em São Paulo foi de apenas 9%, metade da média do país

Antônio Gois escreve para a "Folha de SP":

Entre os anos de 2003 e 2008, os professores da rede pública da educação básica em todo o Brasil tiveram aumento real (já descontada a inflação) de 18%. A profissão, no entanto, ainda segue desvalorizada salarialmente, uma vez que profissionais com mesma escolaridade em outras ocupações recebem mais do que os docentes.

Os dados que registram aumento real no salário dos professores da rede pública de ensino foram calculados pelo Ministério da Educação. Já a comparação da renda dos docentes com profissionais de outras áreas foi feita pela Folha. Nos dois casos, usou-se a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE.

O MEC fez dois recortes. No primeiro, comparou a evolução da renda de todos os professores das redes municipais e estaduais do Brasil, independente da escolaridade, chegando ao percentual de 18% de aumento. Em São Paulo, a variação de 2003 a 2008 foi menor: 9%. Na segunda, selecionou apenas professores com nível superior completo ou incompleto. Nesse caso, a variação real foi de 12% (10% em São Paulo).

A tabulação feita pela Folha levou em conta apenas os professores com nível superior completo, para permitir a comparação com outras profissões universitárias. De uma lista de 21 ocupações em que foi possível comparar, as carreiras relacionadas ao magistério foram as que apresentaram menor rendimento médio.

Um professor de 1ª a 4ª série, por exemplo, tem renda média equivalente a um quinto do que ganha um médico, 46% de um arquiteto, 57% de um enfermeiro com nível superior, e 68% de um fisioterapeuta.

A distância entre os vencimentos dos professores com nível superior em relação à média de profissionais com escolaridade semelhante, no entanto, caiu de 2003 a 2008. No caso de docentes de 1ª a 4ª, eles recebiam em 2003 metade (49%) do que a média de um trabalhador com nível superior. Em 2008, a proporção aumentou para 59%. Entre professores do ensino médio, essa proporção cresceu no período de 71% para 80%.

Piso

Segundo o ministro Fernando Haddad (Educação), já é possível traçar como meta no Plano Nacional de Educação (que será debatido no Congresso no ano que vem) equiparar o rendimento dos docentes com nível superior à média dos demais profissionais com a mesma escolaridade.

Haddad diz acreditar que a regulamentação do piso salarial de R$ 950 – que entrou em vigor neste ano – dá ao governo federal um instrumento para acelerar esse processo de equalização dos salários entre docentes e não docentes de mesma escolaridade.

Apesar desse aumento na renda do magistério, um relatório preparado pela Unesco sobre a situação dos professores brasileiros também destaca que os diferenciais de salário em relação a outras profissões ainda são muito grandes, o que contribui para diminuir a atratividade da carreira.

"A situação do professor no Brasil continua preocupante. Minha impressão é que só agora começamos a acordar para isso, mas a dívida ainda é grande, pois a expansão do ensino fundamental se fez à custa da desvalorização do salário do magistério", diz Célio da Cunha, assessor da Unesco.

Estudos ligam boa educação a maior salário de professores

Um estudo divulgado neste ano comparando os sistemas cubano, brasileiro e chileno ("A Vantagem Acadêmica de Cuba", de Martin Carnoy), aponta que uma das razões para o sucesso cubano é que seus professores recebem, em média, o mesmo rendimento de outros profissionais, o que faz com que a carreira fique atrativa para os melhores estudantes.

Um estudo divulgado em 2007 pela consultoria McKinsey chegou a uma conclusão parecida ao identificar como uma das características comuns em países bem avaliados no Pisa (Programa de Avaliação Internacional de Estudantes) o fato de a carreira ser atrativa aos melhores profissionais que se formam no ensino médio.

Apesar dessas evidências, há controvérsias entre especialistas a respeito do impacto do rendimento do professor no desempenho dos alunos, já que estudos correlacionando salários com a nota dos estudantes mostraram que, para a rede pública brasileira, não há impacto estatisticamente significativo.

Para Bernardete Gatti, que coordenou o estudo da Unesco sobre professores, essas análises que só correlacionam salários e notas captam retrato de momento: "O problema é que se um jovem bem preparado não vê boas perspectivas salariais na carreira, irá procurar profissões mais atraentes".

Para Unesco, situação do professor é crítica

Num dos mais completos relatos já feitos sobre a situação do professor brasileiro, a Unesco aponta que a situação é bastante crítica, e não apenas por causa dos baixos salários.

Além de a carreira, que emprega 2,8 milhões de pessoas no país, não ser atrativa para os jovens de maior nível socioeconômico, os alunos que ingressam em cursos de pedagogia e licenciaturas recebem uma formação que enfatiza pouco a relação entre teoria e prática.

Eles se formam principalmente em instituições particulares, à noite, e poucos passam por atividades de estágio bem coordenadas antes de começarem a dar aulas.

Para mostrar esse quadro complexo, as pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas Bernadette Gatti e Elba Barretto usaram várias bases de dados sobre professores no país.

Escolaridade

Do questionário que é aplicado aos alunos que fazem o Enade (exame que avalia a educação superior), elas destacaram, entre outros fatos, que os universitários de cursos de licenciatura e pedagogia vêm de famílias mais pobres, com menor bagagem cultural.

Quase metade (50,6%) tem pais sem nenhuma escolaridade ou que chegaram apenas à 4ª série do ensino fundamental. Entre alunos dos cursos de medicina, por exemplo, esse percentual é de 7,1%. Na carreira de enfermagem, a proporção é de 37,7%.

"São jovens em ascensão social, e é preciso aproveitar o potencial deles, que buscam na universidade enriquecer sua bagagem sociocultural. Para isso, no entanto, é fundamental mexer nas grades curriculares dos cursos que formam professores, que deixam muito a desejar", diz Bernadette Gatti.

Para chegar a essa conclusão, o relatório detalha uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas, feita com apoio da Fundação Victor Civita, que analisou a estrutura curricular e as ementas de 165 cursos de pedagogia e licenciaturas.

Num trecho do relatório, as autoras destacam que as "ementas dos cursos frequentemente expressam preocupação com o porquê ensinar, o que pode contribuir para evitar que conteúdos se transformem em meros receituários, mas só de forma muito incipiente
registram o quê e como ensinar."

A proporção de horas dedicadas a formação específica, por exemplo, não passa de 30% nesses cursos. "A formação é precária, com pouca ênfase na relação entre teoria e prática. E não há acompanhamento adequado dos estágios. Fazer isso de maneira bem feita tem um custo alto, pois envolve um professor designado para acompanhar cada estudante em seu projeto. Muitas faculdades privadas não estão dispostas a arcar com isso", critica a pesquisadora.

Salário

Célio da Cunha, assessor especial da Unesco, afirma que o relatório deixa muito evidente que a questão salarial é importante, mas que a valorização do trabalho do professor não se restringe a isso. "Salários, apenas, não operam milagres. De que adianta aumentar os rendimentos do professor se ele continuar a ser formado da mesma maneira?", indaga Cunha.

Ele afirma que a dificuldade de valorizar a carreira do magistério não é um desafio apenas do Brasil. No entanto, na comparação com países desenvolvidos, os rendimentos dos professores brasileiros ficam muito abaixo de seus colegas europeus, por exemplo.

"E o que agrava mais a situação dos professores brasileiros e de outros países menos desenvolvidos é que, na Europa, os serviços públicos de saúde e educação são de alta qualidade, o que não acontece no Brasil, onde parte da renda acaba sendo destinada a suprir essa deficiência."

FONTES: Folha de SP, 4/10; Jornal da SBPC; Salário do professor no Brasil é o 3º pior do mundo

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