ARTE: exorcismo X vitalidade, perplexidade X “pegadinha”

 

“Pensar que o artista é mais livre que um engenheiro é uma temeridade”

Na opinião do poeta e jornalista Affonso Romano de Sant’Anna, “liberdade/autonomia absoluta não existe. Pensar que o artista é mais livre que um engenheiro é uma temeridade. O bom artista é também um engenheiro ou um arquiteto”. Questionado sobre quais são as vanguardas atuais, é categórico: “O sistema, como uma hidra, devorou a vanguarda que queria devorá-lo”. E completa: “Aliás, vivemos o século XX como se fosse um longo e triste cemitério. Foi decretada a morte de tudo: morte da arte, morte da história, morte do autor, morte de Deus. E quando mais matam a arte, mais ela renasce. Ela vive de morrer”. Confira essas e outras afirmações que Sant’Anna fez em entrevista exclusiva, por e-mail, à IHU On-Line.

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Mineiro de Belo Horizonte, Sant’Anna teve, nos anos 1960, uma participação ativa nos movimentos que transformaram a poesia brasileira, interagindo com os grupos de vanguarda e construindo sua própria linguagem e trajetória. Também data desta época sua participação nos movimentos políticos e sociais. Como poeta e cronista, foi considerado pela revista Imprensa, em 1990, um dos dez jornalistas que mais influenciam a opinião de seu país. Dirigiu o Departamento de Letras e Artes da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) na década de 1970, organizou a “Expoesia”,  evento que reuniu 600 poetas num balanço da poesia brasileira e trouxe ao Brasil conferencistas estrangeiros como Michel Foucault. Como jornalista trabalhou nos principais jornais e revistas do país: Jornal do Brasil, Senhor, Veja, Isto É e O Estado de São Paulo. Foi cronista da Manchete e do Jornal do Brasil. Está no jornal O Globo desde 1988. Foi considerado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no sentido de desenvolver uma “linhagem poética” que vem de Gonçalves Dias, Bilac, Bandeira e Drummond. De sua obra, composta por cerca de 30 livros de ensaios, poesia e crônicas, destacamos Que fazer de Ezra Pound? (São Paulo: Imago, 2003), Desconstruir Duchamp (Rio de Janeiro: Vieira & Leme, 2003) e A cegueira e o saber (Rio de Janeiro: Rocco, 2006).

IHU On-Line – Em nossos dias, quais são as principais expressões da autonomia do sujeito na arte em seus mais variados campos? Que exemplos daria dentro do Brasil e fora dele?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Há primeiro, como dizem os epistemólogos, que se entender o que é “autonomia” e o que é “sujeito”, para depois vermos se há relação possível entre esses dois termos. De que autonomia estamos falando? Há alguma coisa autônoma? Etimologicamente, a palavra autônomo é composta de dois elementos: “auto” (pessoal- individual) e “nóm/os” (lei,costume). Então o “autônomo” seria aquele que possui lei/costume/vida própria. Existe isto? Claro que não. Toda autonomia é relativa. Daí se entender também o segundo termo da sentença – o “sujeito”, entidade que só existe em relação a algum objeto. Portanto, estamos num universo relacional, e o máximo que podemos fazer é medir o grau maior ou menor de dependência do sujeito dentro do sistema. Liberdade/autonomia absoluta não existe. Pensar que o artista é mais livre que um engenheiro é uma temeridade. O bom artista é também um engenheiro ou um arquiteto, ainda que ele possa fazer um prédio (poema/quadro/peça) como o Frank Gerhy  faz com seus prédios, a exemplo do Museu de Bilbao, que parece um conjunto instável que está desabando e, no entanto, é construído com a dúbia maleabilidade e firmeza do titânio e do aço.

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IHU On-Line – As tragédias gregas converteram o horror da existência num fenômeno estético que tornava suportável a vida e assim fazia com que o homem agisse afirmativamente. Dessa forma, ao invés de ficar apático ou reativo, o homem teria elementos para agir. Como você percebe o papel da arte na expressão política contemporânea?
Affonso Romano de Sant’Anna –
A arte tem essa força misteriosa, que  é estetizar o horror, estetizar o mal, estetizar um outro lado do humano que é tão presente e terrivelmente natural quanto o lado sublime e utópico. Quando você olha os trabalhos de Goya  – Os desastres da guerra – e vê os enforcamentos, os cadáveres apodrecendo nas árvores, quando você olha os desenhos de Gross feitos sobre os horrores da Primeira Grande Guerra, você se arrepia estética e humanamente. A própria Guernica , de Picasso , é uma estilização do pânico e do horror. O artista autêntico – aquele que tem um compromisso duplo, tanto com o material plástico com que lida, quanto com o material de seu tempo, de seu corpo, de sua vida – reage à realidade produzindo um complemento – a obra, que é uma vingança, uma correção, uma forma de exorcizar a perplexidade diante das coisas. A diferença de intensidade do choque e a qualidade no tratamento do material é que vai conferir maior ou menor genialidade à obra. Um primitivo vendo, sem entender, um eclipse, inventa uma história a partir disso, supõe que um monstro, um dragão, está devorando a Lua e sobre este fato cola idéia de catástrofes para si ou para tribo. A arte, como o mito, é uma forma de preencher o vazio. Isto na melhor das hipóteses. Porque hoje a arte transformou-se, sobretudo, numa forma de encher o bolso de dinheiro.

(GOYA, Os desastres da guerra, 1810-1815)Goya Os desastres da guerra - com razão ou sem ela

IHU On-Line – De que forma essa autonomia na arte se conecta com a autonomia política do sujeito? Em regra geral, a arte é necessariamente política? Por quê?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Não há autonomia absoluta da arte, senão uma autonomia relativa. Cada artista está preso a um sistema simbólico da sua cultura e de seu tempo. Você não pode imaginar que um grego fosse um dadaísta, nem supor que um renascentista pudesse pintar como Cèzanne. Configurado um quadro de relativa liberdade, é possível, no entanto,constatar que o artista autêntico tem uma certa margem de manobra, margem que ele deve descobrir e alargar. Vejo, por exemplo, muitos artistas que se chamam de “contemporâneos” e que acham que estão usando de uma autonomia total para fazer suas obras. Na verdade, posso analisá-las e perceber que elas têm uma gramática, obedecem a um cânone, a um paradigma, mesmo que esse paradigma contraditoriamente nos afirme ser a ausência de paradigma. A ausência de paradigma é já um paradigma, o que torna a própria ausência de paradigma inviável.

Afresco em Paestum, V ac  (Afresco em Paestum, séc. V a.C.)

 

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O Nascimento de Vénus, Botticelli, 1485    (BOTTICELLI, O Nascimento de Vênus, 1485)

 

Paul_Cezanne_Leda_au_cygne   (Paul Cézanne, Leda e o Cisne, 1880-1882)

IHU On-Line – Quais são as vanguardas da arte hoje?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Há uma série de mal entendidos sobre isto. Não há mais vanguardas. Vanguarda foi um momento da história artística do Ocidente, que já se encerrou. A vanguarda virou aquilo que nos cursos de literatura e teoria chamamos de “estilo de época”. Assim como há o estilo barroco ou simbolista, há o estilo “vanguardista”. E quando uma coisa se coisifica, quando se codifica, deixa de ser nova, inovadora, passa a ser parte do sistema. O sistema, como uma hidra, devorou a vanguarda que queria devorá-lo. De resto, como afirmei em vários estudos, tanto em Que fazer de Ezra Pound. (São Paulo: Imago, 2003) quanto em Desconstruir Duchamp (Rio de Janeiro: Vieira & Leme, 2003), materialmente, já se fez tudo o que se podia fazer com os suportes artísticos. Já fizeram o livro em branco, o poema sem palavras, o quadro branco, a música que é silêncio, a escultura que derrete, a dança parada, enfim, tudo. Se alguém quiser inovar por aí, vai quebrar a cara. O caminho não é mais esse. Por isto é tão confuso e tão mais difícil fazer arte autêntica hoje em dia. Com isto, surgiu um precioso ensinamento e paradoxo: você pode, sim, fazer obra de arte usando os suportes conhecidos.
Há por aí romances novos maravilhosos. Poemas continuam surgindo e encantando pessoas, concertos continuam a ser escritos e executados, a pintura continua a nos comover, apesar de uns apressados terem dito que ela havia morrido. Aliás, vivemos o século XX como se fosse um longo e triste cemitério: foi decretada a morte de tudo: morte da arte, morte da história, morte do autor, morte de Deus. E quando mais matam a arte, mais ela renasce. Ela vive de morrer.

IHU On-Line – Como a arte pode expressar autonomia e subjetividade tomando em consideração a sua massificação em certas circunstâncias, como já alertava Adorno e os teóricos da Escola de Frankfurt?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Massificação do produto artístico  ou, pior, o que hoje chamamos de mercadoria artística. O objeto artístico virou uma commodity. Está aí uma questão nova na história da cultura. Não que ela não existisse anteriormente. Também se discutia o preço de um quadro no Renascimento, mas aí era uma discussão objetiva: dependia da quantidade de ouro pintado na tela, do tamanho do quadro, da quantidade de tinta, se havia sido usado o azul ou o lápis-lazuli, cores extraídas de produtos do longínquo Irã e outros países daquela região. Hoje ocorreu assustadoramente aquilo que os marxistas chamariam de “alienação” ou até de “mais valia”. O produto não tem nada a ver com o seu custo, e sim com a “grife”, com a assinatura, com a moda, com o Mercado. Ou seja, o produto alienou-se de seu dono e de sua qualidade intrínseca. Foi-lhe posta uma qualidade artificial, que é o que conta. Como é que pode um quadro de Pollock valer mais do que um Picasso, ou a latinha de merda de Manzoni custar um milhão de libras, ou o urinol de Duchamp, 900 mil libras? São preços simbólicos, simulacros, artifícios do mercado. E sobre simulacros, Baudrillard já nos informou bastante.

(POLLOCK, Catedral, 1947)POLLOCK_Cathedral-1947

IHU On-Line – Há uma relação necessária entre arte e racionalidade ou a arte pode ser também a expressão das pulsões humanas? Em nosso século, o que pode ser apontado a esse respeito na poesia, por exemplo?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Arte que não revele as pulsões do artista ou da coletividade é um monte de palha. Toda boa obra tem um pathos. Mesmo certas obras muito elaboradas, que às vezes nos parecem friamente concebidas, quando feitas por um artista autêntico, têm e transmitem esse calor. Agora, uma coisa que me incomoda muito é o tipo de artista que vive querendo saber qual é a moda a seguir, qual o macete, qual o truque para ter sucesso. No caso de um romancista, imagine alguém que na hora em que há o “nouveau roman” faz um “nouveau roman”; na hora em que entra é moda fazer falsa biografia faz falsa biografia; e na hora em que está na moda escrever sobre homossexualismo escreve sobre homossexualismo. Esse é um falso artista. É um artimanhoso. É capaz até de enganar a academia e a universidade, posto que alguns acadêmicos só conseguem raciocinar mediante bulas e receitas, mas, a longo prazo, tal artimanhoso tem dias contados. E ele sabe disto. Ele olha seus colegas com grande ansiedade, como se estivesse sempre para se afogar e agarrando-se a uma bóia qualquer.

IHU On-Line – O senhor critica o conceito de arte atual, dizendo que está totalmente vazio e indefinido, “confundido com pegadinha, com primeiro de abril, com escândalo, qualquer happening e instalação”. Por que os simulacros da obra valem mais do que ela própria atualmente? A pós-modernidade fragmentou tudo, inclusive a arte?
Affonso Romano de Sant’Anna –
A análise que faço da arte de nossos dias é feita dentro de um contexto maior – a cultura de nosso tempo. Tenho repetido que a arte, mais do que nunca, é um sintoma. Sintoma e metáfora para se entender também a sociedade e os indivíduos, além, é claro, do que ela tem de propriamente artístico e estético. E a arte de nossos dias, essa que se chama arrogantemente de “contemporânea”, como se os “depois” vivessem fora do tempo, mostra já uma visão autoritária da própria história. Ela se quer cêntrica, única, a escolhida. E ignora que existem vários tempos, várias histórias simultâneas. Há muito acabou aquele papo de que a história caminhava como uma flecha que ia do gênesis para o apocalipse, ou do poder do rei para o poder do proletariado. No meu recente livro A cegueira e o saber (Rio de Janeiro: Rocco, 2006), detenho-me também sobre essas questões que abordei em Desconstruir Duchamp.

IHU On-Line – E quanto aos artistas sem arte, a que o senhor se refere, como entendê-los dentro do pressuposto de uma impostura intelectual justificada pela autonomia?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Artista sem arte é igual a médico sem consultório e sem cliente. Não existe. Tentaram inventar isto e conseguiram enganar muita gente. É o caso histórico da falsa roupa do rei, do rei nu.  Grande parte a culpa é dos críticos e dos teóricos. Certos críticos têm um complexo de inferioridade diante dos criadores e tomam palavras dos criadores como dogmas. Ora, nem todo criador é bom teórico, deveria ficar na criação mesmo. E muitos críticos ajudaram a construir equívocos terríveis no século XX. Meu próximo livro é a análise das análises que alguns críticos fizeram de obras de arte. E aí podemos ver como os críticos viajam, como alucinam, como deliram, deixando desamparado e desorientado não só o público, mas até mesmo o próprio artista.

IHU On-Line – Ainda sobre poesia, como os poetas brasileiros estão trabalhando a questão da autonomia do sujeito? O senhor poderia nos dar alguns exemplos do presente e do passado?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Dos outros prefiro não falar. No que escrevo está todo um projeto poético pensante voltado para as perplexidades estéticas, emocionais e históricas. Há um sujeito que se sabe histórico, que se questiona enquanto sujeito, enquanto história. Essa, por exemplo, é toda a linha de “A grande fala do índio guarani”. O texto começa se indagando:”Onde leria eu os poemas de meu tempo?”. Eu não sou dono da palavra, também a procuro. E vou nessa procura, indagando mais adiante: “Como leria eu os poemas do meu tempo?”, “Quando leria eu os poemas do meu tempo?” – e assim por diante. Essa é uma obsessão também da arte de nossos dias. Uma arte que se procura enquanto tal. Temos que reinventar sempre. Um renascentista já tinha um quadro e uma tela diante dele. Um romancista do século XX tinha o folhetim e a história como suporte. Hoje vagamos entre o “onde”, o “quando”, o “como” e o “por que”. Buscamos suportes, buscamos o próprio discurso.

IHU On-Line – O senhor acredita que ainda exista uma tradição de poetas que valoriza a contribuição de Drummond na poesia brasileira?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Drummond e os modernistas fundaram algo importante. A melhor poesia que se faça hoje dá-se conta disto, soma isto com os melhores poetas de ontem e antes de ontem.

IHU On-Line – Continua acreditando que os poetas têm que reencontrar o seu lugar existencial e estético dentro da sociedade? Por quê?
Affonso Romano de Sant’Anna –
Sempre foi assim desde Homero. Claro que com o surgimento da burguesia e a da sociedade industrial ocorreu um certo “desemprego do poeta” – assunto que foi tema de meu primeiro livro. Mas a própria sociedade da informação com a eletrônica tem oferecido oportunidades de realocação do poeta na sua cultura. Não há sociedade sem poesia, por pior que ela seja, tanto a sociedade quanto a poesia.

FONTE: IHU Online

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