produção intelectual e avaliação do aprendizado na era da reprodutibilidade internética: a criatividade em perigo

plagio

Leitura recomendada para a construção de uma perspectiva mais densa acerca da questão do plágio no campo da educação e das suas implicações na alienação social.
 

Plágio paradoxal: sinal positivo ou crise da Universidade?

É bem possível que a desinstitucionalização da Universidade seja o principal alimentador da crescente tendência para plagiar

Joaquim Luís Coimbra*

A generalização das práticas de plágio é, entre outros aspectos, um sinal positivo dos tempos que correm. Entendamo-nos: mais jovens e mais diversos, quanto a muitas das suas características pessoais e sociais, acedem, hoje em dia, ao ensino superior, o que configura um fenómeno de massificação, ainda que não de democratização.

A Universidade perdeu uma parte de elitismo que, no passado, foi a sua marca distintiva. Os modos de socialização para a vida académica também se diversificaram, as proveniências sócio-económicas e culturais dos alunos alargaram-se: jovens com níveis bem distintos de capital social encontram-se na Universidade. A contrapartida de tal diversidade é que trouxeram para o contexto académico novos comportamentos, atitudes, necessidades e até problemas, que não eram habituais no passado.

Obviamente, os níveis de preparação para a aprendizagem de nível universitário são, hoje, também menos uniformes. A combinação deste complexo panorama com a facilidade de acesso a suportes tecnológicos de memória (não será o mero “decorar” ou “marrar” uma antiga e não reconhecida modalidade de plágio?), de disponibilidade constante e imediata, são parte da mistura quase explosiva que explica o aumento inédito de fenómeno de plágio.

Não caiamos, no entanto, na fácil e tentadora tendência de entender tal problema a partir dos estudantes e da sua atávica inclinação, quase natural, para a preguiça, o facilitismo e a aversão ao trabalho.

O plágio, como sinal, fornece uma excelente oportunidade para reflectir sobre o que a Universidade faz da juventude que a frequenta. Sem procurar identificar os antecedentes susceptíveis de explicar o problema em toda a sua abrangência e profundidade, a verdade é que a Universidade se encontra num processo de hiperespecialização que se exprime numa desinstitucionalização.

“A Universidade é uma indústria”

Em suma, e assumindo a hiperbolização admissível numa crónica, a Universidade é uma indústria. A expressão que marcou a viragem profunda no modo como as opções políticas começaram a transformar por dentro a universidade, no início da década de 80, “university-for-industry”, sugere ou requer uma actualização “industry-for-industry”.

A sua funcionalização, proletarização e instrumentalização têm vindo a pô-la de joelhos perante o mercado, a participar no jogo mercantil, a esvaziá-la da sua substância e, até, surpreendentemente, a alheá-la da sua relação com o trabalho e com a responsabilidade que aí deveria assumir (não confundir com a retórica da empregabilidade nem com a leviandade do empreendedorismo incondicional).

O que tem vindo, progressivamente, a ficar de fora? A capacidade de, pela via do conhecimento, questionar o mundo em que se vive, a possibilidade de imaginar transformações nele, a prática reflexiva rigorosa, abstracta e complexificante, a participação e contribuição no e para o saber, cultura e artes: enfim, as condições no seio das quais se desenvolvem pessoas e cidadãos autónomos.

Ao contrário, a mensagem implícita mais eficaz que, hoje em dia, a Universidade tende a transmitir está nos antípodas da autonomia: a confusão de meios com fins. Tudo é assimilável a “caixas de ferramentas” de que importa conhecer como funcionam, mesmo desconhecendo os fins, imediatos, mediatos ou últimos (culturais, políticos, económicos, tecnológicos, científicos) do seu uso. A funcionalização, tecnicização e “ferramentalização” da Universidade vão-na transformando numa enorme caixa de ferramentas que dispensa, além do mais, o trabalho de cada um pensar por si próprio.

O que fazem, neste contexto, os estudantes que plagiam? Limitam-se a recorrer, diligente e eficazmente, a uma “caixa de ferramentas” adaptada aos seus objectivos imediatistas e compatível com a incultura que tacitamente lhes é transmitida, em nome de um produtivismo desprovido de sentido e de uma competitividade que não se ousa questionar. Que desafio está, então, posto à Universidade?

* Joaquim Luís Coimbra é professor na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto

FONTE: Revista P3

o caso “ônibus 174”: nossa pauta de estudo e de avaliação na LET A32

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Conforme foi discutido na aula de 21/10, aceitaremos a proposta feita no artigo de Maria Rita Kehl debatido nas últimas semanas e nos dedicaremos a um estudo da constituição do imaginário brasileiro pela mídia montando um dossiê acerca daquele que é considerado por muitos como o mais importante acontecimento midiático no Brasil, isto é, o sequestro de um ônibus e algumas passageiras por um menino de rua chamado Sandro, acontecido no Rio de Janeiro em junho de 2000. Seguem abaixo alguns parâmetros relacionados à atividade de avaliação que desenvolveremos tomando como foco esse dossiê:


Divididos em duplas, @s estudantes devem elaborar um relatório de pesquisa sobre o tema:

AS REPERCUSSÕES DO CASO “ÔNIBUS 174” NO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

Caberá a cada equipe selecionar e resumir pelo menos CINCO textos midiáticos (reportagens, crônicas, resenhas, artigos acadêmicos, documentários/curta-metragens para cinema ou TV etc) que abordem de maneira direta ao tema proposto ou permitam desenvolver articulações produtivas acerca dele. O relatório deve ser finalizado com um texto digressivo (40-60 linhas) no qual os filmes Última Parada 174, de Bruno Barreto, e Ônibus Linha 174, de José Padilha, sejam comentados (ambos ou um dentre eles, à escolha) considerando as informações obtidas através da pesquisa.

ENTREGA: 02-09/12/2011;  VALOR: 9,0 pts.


Foi solicitado que @s estudantes procurem assistir por meios próprios, e assim que possível, ao filme de Bruno Barreto, de maneira a que já possamos começar a discutir esta obra na aula de 04/11. Clicando nas imagens acima você será direcionado para a postagem do prestigiado site CINE CONHECIMENTO que disponibiliza cópias de ambos os filmes. Recomendamos também a leitura da reportagem abaixo publicada no GI, portal de notícias da Rede Globo, texto que pretende oferecer um panorama amplo da memória acerca do Ônibus 174. Maiores detalhes sobre a atividade serão esclarecidos na próxima aula.

 

Após 10 anos, sequestro do ônibus 174 vive na memória de testemunhas

Elas viveram horas de tensão e recordam tragédia que teve duas mortes.
Ex-capitão do Bope revela que oficial chorou por operação ter falhado.

Bernardo Tabak, G1, 12/06/2010

Passados dez anos, o sequestro do ônibus 174 ainda está muito vivo na lembrança de pessoas que, de alguma maneira, vivenciaram o episódio.

Permanece na memória da repórter que narrou, ao vivo, o sequestro pela TV durante mais de três horas.

Sobrevive, rico em detalhes, no relato do porteiro do clube localizado em frente ao local onde ocorreu o crime. E nas recordações de uma estudante universitária que se tornou jornalista, e que por muito pouco não embarcou no ônibus.

O sequestro, que ficou marcado no histórico de violência do Rio, terminou com a morte de uma refém e do sequestrador, numa ação policial considerada desastrada por especialistas em segurança pública.

“Lembro perfeitamente, como se fosse agora. Estava o maior engarrafamento, e o ônibus vinha lá atrás. Era o que eu pegava todo dia, da faculdade para casa”, conta, sem titubear, a jornalista Antonia Martinho da Rocha, de 30 anos, que, na época, estudava na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), na Gávea, na Zona Sul.

Trajeto do ônibus é relembrado por testemunhas do crime
O ônibus 174 fazia a linha Gávea-Central, e tinha saído do ponto final, próximo à Favela da Rocinha, na Zona Sul. “Como estava muito atrasada, peguei um táxi, que estava uns três carros antes do ônibus. Cheguei a fazer sinal para o motorista do 174, mas, depois, mudei de ideia”, detalha Antonia. “Eu lembro da Luana entrando no ônibus. Cheguei a dar ‘tchau’ para ela”, conta a jornalista, referindo-se a Luana Belmont, que foi uma das reféns e era colega de classe.

“Por volta das três da tarde, o ônibus foi parado por uma patrulha bem em frente à cabine onde trabalho”, lembra Ronaldo Veras Silva, que há 15 anos faz segurança para moradores de edifícios localizados em frente ao Parque Lage, no bairro Jardim Botânico, na Zona Sul. “Não pude nem pegar meu cigarro, nem o café, que estavam na cabine”, recorda Veras.

Há 13 anos, Álvaro Delvalle dos Santos Filho é porteiro do Clube Militar, próximo ao local do sequestro. Ele se recorda da mulher que avisou à polícia que havia assaltantes no ônibus. “Ela contou aos policiais, na minha frente, que tinha visto dois ladrões sentarem no banco atrás do motorista, depois de terem embarcado na Rua Jardim Botânico, na altura da Rua Lopes Quintas. E que um deles, o Sandro do Nascimento (que fez os passageiros reféns), colocou uma arma em uma bolsa”, conta.

“Ela disse que, então, saltou do coletivo avisou a uma patrulha. Quando os PMs chegaram, um dos ladrões se entregou, mas o Sandro continuou no ônibus, com os passageiros”, lembra Delvalle.

O porteiro Álvaro Delvalle aponta o local exato onde a professora Geisa foi baleada.O porteiro Álvaro Delvalle aponta o local exato onde a professora Geisa foi baleada. (Foto: Bernardo Tabak/G1)

Cobertura do sequestro em tempo real
Sandro do Nascimento era um dos meninos sobreviventes da chacina da Candelária, em 1993, e teve sua história contada em dois filmes: o documentário “Ônibus 174”, de José Padilha, e o filme de ficção “Última Parada 174”, de Bruno Barreto. Em uma entrevista ao G1, Barreto compara o sequestro do 174 com o ataque terrorista do 11 de setembro, em 2001, em Nova York.

Na época do crime, a repórter Vanessa Riche, que trabalhava para o canal a cabo Globo News, tinha um ano de formada. “Eu saí para fazer uma reportagem sobre um evento de moda, no Riocentro (Zona Oeste). Mas minha chefe pediu para ‘passar rapidinho’ no Jardim Botânico, eu devia apurar um assalto a ônibus”, conta ela. O “rapidinho” se transformou em quase quatro horas de cobertura, transmitida ao vivo, para todo o Brasil. “Assim que cheguei, me contaram que eram dois ladrões. Mas eu só vi o Sandro, dentro do ônibus, com os reféns”, recorda Vanessa.

O sequestro ganhou repercussão internacional. A rede americana de jornalismo CNN transmitiu as imagens para TVs a cabo de todo o mundo. “Para mim, ninguém estava vendo”, revela Vanessa. “Eu acreditava ser uma notícia muito local”, acrescenta. A repórter diz que só teve uma real dimensão da cobertura quando o jornalista Sidney Rezende, âncora da Globo News, chegou ao local do sequestro. “Ele me disse: ‘Vanessa, você não faz ideia da repercussão’”, conta ela.

“Foi uma das ocorrências de violência no Rio de Janeiro mais midiáticas que me lembro”, comenta o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), da Polícia Militar, Rodrigo Pimentel​. Na época, nos bares da cidade, nas vitrinas de lojas de eletrodomésticos, onde havia uma TV, tinha um grupo de pessoas que pararam para assistir ao sequestro, em tempo real.

Violência do sequestrador causou sustos e revolta
Vanessa Riche conta que sentiu muito medo quando Sandro do Nascimento deu o primeiro tiro, que atravessou o para-brisa do ônibus. “Ele não queria a imprensa por perto, e eu estava mais para a frente do ônibus. O tiro foi na minha direção. Eu corri e me escondi atrás de uma árvore”, lembra.

Um dos momentos do sequestro que mais marcou o porteiro Delvalle foi quando Sandro atirou contra uma refém, que estava no chão do ônibus. “Todo mundo achou que ela tinha morrido. Queriam arrebentar o cordão de isolamento para pegar o sequestrador”, recorda ele. Mais tarde, descobriu-se que Sandro tinha avisado à refém que não iria matá-la, mas que ia atirar para forçar os policiais a atenderem às exigências.

Durante o sequestro, por pelo menos duas vezes, Sandro chama por uma tal Ivone. Na verdade, a mulher a quem Sandro se referia tem a grafia bem diferente do convencional. A artista plástica Yvonne Bezerra de Mello, que tem um projeto social onde cuida de crianças traumatizadas pela violência, conhecia Sandro desde a Candelária.

“Eu fui muito importante na vida dos meninos da Candelária”, recorda Yvonne. Quando soube do crime, à noite, assistindo ao Jornal Nacional, da TV Globo, ela ficou com uma sensação de culpa. “E se eu tivesse ido até o local? E se eu tivesse feito alguma coisa? Mas o destino não quis”, lamenta.

(CONTINUA…)

exercício 3, LET A31: reembaralhando leituras de obras artísticas distópicas

 

A EQUIPE DEVE APRESENTAR UM RELATÓRIO REFERENTE À DISCUSSÃO DA OBRA DE ARTE QUE LHE FOI ATRIBUÍDA NO SORTEIO FEITO NA AULA DE 21/10 (conferir tabela abaixo). DESSE RELATÓRIO DEVEM CONSTAR:

a) INTERPRETAÇÕES E ANÁLISES DOS MEMBROS DA EQUIPE ACERCA DA OBRA INDICADA;

b) BREVE REFLEXÃO SOBRE AS SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS CONSTATADAS ENTRE A OBRA ESCOLHIDA PELA PRÓPRIA EQUIPE, A OBRA INDICADA E O FILME FAHRENHEIT 451.

ENTREGA: 18/11/2011

 

TURMA 1

equipes turma 1

TURMA 2

equipes turma 2

interpretando a diversificada poesia afrobrasileira

poesia afroBR

A partir do panorama de perspectivas sobre a literatura negra brasileira traçado por Florentina Souza traçamos o quadro de temáticas relevantes reproduzido acima, o qual servirá de baliza para a elaboração do segundo exercício de avaliação na LETC36. Caberá a cada equipe selecionar três poemas do corpus afrobrasileiro cujas interpretações remetam a três dentre os eixos temáticos listados no slide. As escolhas devem ser justificadas num texto (40-60 linhas) no qual sejam destacadas e comentadas as imagens poéticas que fundamentam as articulações propostas pela equipe. Segue abaixo uma pequena antologia de poemas que estaremos discutindo nas próximas aulas, tendo em vista refinar nossa capacidade de leitura do texto lírico afrobrasileiro. Recomendamos também a excelente introdução que Nei Lopes escreveu para o seu utilíssimo Dicionário literário afro-brasileiro, texto a ser incorporado aos nossos debates:

 

LOPES, Nei. Introdução. In: Dicionário literário afro-brasileiro.  Rio de Janeiro: Pallas, 2007.

 

VOZES-MULHERES
 
A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos 
de uma infância perdida.
 
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
 
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas 
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela
 
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
                       e
                       fome.
  
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
 
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

(Conceição EVARISTO)

Conceicao_Evaristo

 

 

GOTA DO QUE NÃO SE ESGOTA
 
cota é só a gota
a derramar o copo
não a mágoa do corpo
mas energia represada
que agora se permite e voa
em secular esforço
de superar-se coisa e se fazer pessoa
 
cota é só a gota
apenas nota de longa pauta
a ser tocada
com o fino arco
em mãos calosas
 
cota é só a gota a explodir o espanto 
de se enxugar no riso 
a imensidão do pranto
 
ela é só a gota 
ruindo pela base 
a torre de narciso
 
é só a gota
entusiasmo na rota
afirmativa
que ameniza as dores da saga
suas chagas de desigualdade amarga
 
cota é só a gota
meta de quem pagou e paga
desmedido preço de viver imposto
e agora exige
seu direito a voto
na partição do bolo

é só a gota
de um mar de dívidas
contraídas
pêlos que sempre tornaram gorda a sua cota
 
cota é só a gota afrouxando botas
de um exército
para o exercício da eqüidade
 
cota não reforça derrota
equilibra
entre ponto de partida
e ponto de chegada
a vitória coletiva
reinventada.

(CUTI)

cuti1

 

 

NOSSA GENTE

nossa gente também veio
pra ser feliz e ter sorte

nossa gente é quente
é bela e forte

mas às vezes essa gente
passa, inconsciente

sofre, mas não se mexe
ri, mas não se gosta

nossa gente inconsciente
sofrendo, fica fraca

nem vê que por dentro ainda
traz a força da mãe áfrica

não vê que pode vencer
pois tem energia nos braços

e pode ter liberdade
alegria e espaço

superando a pobreza
socializando a riqueza

inventando unidade
solidariedade, abraços

nosso povo é lindo
nosso povo é afro

e perfeito vai destruindo
ódios e preconceitos

“esse povo negro
que se diz moreno”

com suas cores, com seu jeito
é um povo pleno

nossa gente é ventania
é ousadia, é mar cheio

nossa gente também veio
pra ser feliz e ter sorte

(Márcio BARBOSA)

marcio

 

 

OLHAR NEGRO
 
Naufragam fragmentos
de mim
sob o poente
mas,
vou me recompondo
com o Sol
nascente,
 
Tem
Pe
Da
Ços
 
mas,
diante da vítrea lâmina
do espelho,
vou
refazendo em mim
o que é belo

Naufragam fragmentos
de mim
na coca
mas, junto os cacos, reinvento
sinto o perfume de um novo tempo,
 
Fragmentos
de mim
diluem-se na cachaça
mas,
pouco a pouco,
me refaço e me afasto
do danoso líquido
venenoso
 
Tem
Pe
Da
Ços
 
tem 
empilhados nas prisões,
mas
vou determinando
meus passos para sair
dos porões

tem 
fragmentos
no feminismo procurando
meu próprio olhar,
mas vou seguindo 
com a certeza de sempre ser
mulher
 
Tem 
Pe
Da
Ços,
 
mas
não desisto
vou 
atravessando o meu oceano
vou 
navegando
vou
buscando meu
olhar negro
perdido no azul do tempo
vou
vôo,

(Esmeralda RIBEIRO)

ESMERALDA RIBEIRO-2

 

 

ORELHA FURADA
 
Dançar o nome com o braço  na palavra: como 
em sua casa um maconde.
 
Dançar o nome pai dos deuses que  pode  tudo 
neste mundo e suportar o lagarto querendo ser 
bispo na sombra.
 
Dançar o nome miséria, estrepe e  tripa  que a 
folha do livro é. E se entender dono das letras 
em sua cozinha.
 
Dançar o nome em sete sapatos  limpos  para 
domingo.
 
Dançar o nome com a  mulher  nhora  dele: a 
mulher no seu coração tempestade e ciranda.
 
Dançar o nome com o braço na palavra berço.

(Edmilson PEREIRA)

edimilson

 

 

O MELHOR POEMA

Quando os homens
Se derem as mãos e os sonhos
E nós já tivermos dado
De nós ao mundo novo
Um outro Homem e verdadeiro –
Fruto deste amor
Negro como a África de teus olhos –
Olharemos
Pelas frestas deste encanto
O que ficou para trás.
E veremos com espanto
Que nada ficou para trás.
Que nossa música
Nosso mútuo enlevo ante o sorriso dos negrinhos
Nossa conjunta lágrima ante a fome dos negrinhos
Estarão em nós, em ti, em mim
Em nosso verdadeiro Homem.
Só que não haverá lágrimas nos olhos dos negrinhos
Pois que os Homens se terão dado as mãos.
Então,
Do alto deste Amor
Negro como a África de teus olhos,
Te direi
A ti para que os Homens ouçam –
E os Homens terão instalado
Amplificadores nos corações e estarão atentos –
O meu melhor poema:
Vê, Amada!
Sente como te amo
Daquele mesmo amor
Negro como a África de teus olhos.

E os homens
Prorromperão em aplausos.
E brincarão de roda.                      

(Nei LOPES)

neilopessambista

tempo instantâneo e imagens ilusórias: os dilemas da humanidade global

marc auge

”A globalização é uma uma nova forma de colonização”. Entrevista com Marc Augé

Autor de estudos sobre o modo como as percepções de tempo e espaço se alteraram no mundo contemporâneo, o antropólogo francês Marc Augé reflete sobre essas mudanças em uma entrevista especial. “A distância entre ricos e pobres é cada vez mais importante, e a mesma coisa ocorre com o acesso ao conhecimento e à ciência. Eu diria que a globalização não difere muito da colonização. Vivemos um tipo de colonização anônima ou multinacional. A globalização nos emparelhou” afirma. A reportagem e a entrevista é de Eduardo Febbro e publicada por Carta Maior, 12-10-2011.

Desde 1980, o antropólogo francês Marc Augé propõe uma observação e um relato inédito de um mundo contemporâneo em plena velocidade. Da África à América Latina, do mundo ocidental a uma travessia pelo Jardim de Luxemburgo, uma viagem etnográfica pelo Metrô de Paris ou um ensaio brilhante sobre a bicicleta e o território de autonomia e intimidade que nos oferece, Augé explorou quase todos os recantos da modernidade sem nunca perder de vista o objeto central de seus trabalhos, a saber, os outros, o próximo, o indivíduo.

A originalidade de Marc Augé se inscreve inclusive no lugar de seus encontros. Autor de um delicioso ensaio sobre a impossibilidade de viajar – «A viagem impossível» – e o consequente automatismo que consiste em não vijar por territórios novos, mas sim por lugares consagrados e codificados, o autor francês fixou o local da entrevista em uma estação de trens, a Gare d’Austerlitz. Um lugar de observação privilegiado, situado perto de sua casa, na esquina de um McDonald’s em frente do qual está a entrada do Museu de História Natural de Paris. Uma conjunção urbana perfeita para um intelectual que tem explorado como poucos as noções de tempo e espaço e cujas reflexões precederam o advento de uma modernidade onde o tempo se tornou instantâneo através da velocidade dos intercâmbios e o espaço se estreitou com a catarata de imagens.

No entanto, como assinala Augé nesta entrevista, a instantaneidade e a profusão de imagems não fizeram mais do que criar confusão e mais solidão. Promotor da ideia de andar de bicicleta como forma de recuperar o controle individual da noção de tempo e espaço, agudo descobridor dos « não lugares », inventor do conceito de «etno-ficção», Augé disseca nesta entrevista a realidade de um mundo enfermo de imagens, iludido com um conhecimento de miragens. O antropólogo não propõe nenhuma ideologia de substituição, mas sim uma lúcida viagem pela modernidade, com todos seus escândalos e seus acertos passageiros. Eis a entrevista.

Muitos analistas vêm evocando há cerca de dez anos a existência de uma espécie de mal estar generalizado em quase todas as sociedades humanas. Qual é, para você, a origem dessa estranha sensação planetária?

Creio que o grande mal estar provém da mudança de escala. Quando refletimos sobre o contexto de qualquer acontecimento, esse se situa em escala planetária. Isso leva a que, mesmo em acontecimentos pequenos, o mundo inteiro esteja em questão. Também somos conscientes de que o capitalismo conseguiu sua internacionalização. Estamos encerrados no sistema, enão só no do mercado. As referências locais são insuficientes, os indivíduos são mais individuais, mas ou são consumidores ou são excluídos do consumo. Essa situação provoca uma certa vertigem e, sob certos ângulos, uma vertigem metafísica. Creio, então, que a instalação do sistema planetário nos faz sofrer.
Poderíamos ter uma percepção gloriosa disso tudo e afirmar que todos os seres humanos são irmãos, ou celebrar a humanidade e a universlidade. Mas estamos longe de tudo isso por duas razões : a primeira é porque essas mudanças ocorrem sob o signo da economia ; a segunda, porque as transformações provocam resistências que, frequentemente, são opacas e um pouco loucas. Vemos, por exemplo, o desencadeamento dos fundamentalismos mais radicasis. Alguém pode se perguntar até onde é preciso olhar para encontrar algo alentador.

Há algo ao mesmo tempo nefasto e tentador na instantaneidade com a qual funciona o mundo. Em um de seus livros, “As formas do esquecimento”, você coloca o esquecimento como condição para saborear o presente e o instante, para recuperar o que as formas atuais da instantaneidade nos retiram.

A instantaneidade é hoje a consigna do mundo. Paul Virilio descreveu muito bem esta ubiquidade da instantaneidade. Mas eu me refiro a outro instante, a um instante mais íntimo, o instante da relação conosco mesmo, o instante do encontro com os outros, com um olhar, uma paisagem, uma ideia. Não há identidade individual ou coletiva que possa ser construída sem o outro. A solidão absoluta é impensável. O itinerário do indivíduo passa pelo encontro com os demais. Por isso, quando evoco o instante, é por oposição a tudo o que está marcado pelo passado. Temos uma tendência a encontrar a explicação de todos os fenômenos no passado, seja na perspectiva marxista ou analítica. É claro que não se pode negar a importãncia do passado na construção individual e coletiva, mas eu diria que os momentos de criação são os momentos que conseguem escapar dessa gravidade. Para mim, o instante é justamente isso, um momento no qual o tempo muda de registro, há um tempo que circula, mas que não depende do que pesa sobre ele. Um instante sem culpabilidade.

Você escreveu certa vez que bastava ampliar a distância para que os piores erros se apaguem. No entanto, hoje a distância se estreitou e os horrores se apagam do mesmo modo. A proximidade não nos redime do esquecimento.

Sim, está certo, há um efeito duplo. Quando escrevi isso pensava nesses pilotos de avião que lançam bombas. Para eles, o dano causado era abstrato. Hoje basta ligar a televisão para ver cadáveres em abundância. Mas, de certo modo, o que torna as coisas abstratas é o acúmulo. A visão de proximidade da televisão produz o mesmo efeito que a distância. Creio que não nos damos conta do que ocorre, da gravidade.

Você diria que o relato por meio da imagem nos desumanizou?

De certa forma sim. A imagem é a melhor e a pior das coisas. Estamos orgulhosos porque a imagem nos aproxima de tudo. No entanto, ao mesmo tempo que nos aproxima ela nos distancia. A imagem também tem outro efeito perverso: ela causa a ilusão de que conhecemos porque nos permite reconhecer. Mas o reconhecimento não é o conhecimento. É um jogo perverso, é a ignorância que desconhece a si mesma.

Em seu último livro você faz uma assombrosa recomendação : «Devemos escapar do pesadelo mítico».

Com isso me refiro à fórmula de Walter Benjamin quando conta que, no fundo, a aparição do relato organizado, dos contos onde o pequeno triunfa diante do grande ou do ogro, tudo isso desfaz o impacto dos relatos míticos onde as bruxas devoram os homens e outros horrores mais. O pesadelo mítico são os mitos originais, as cosmogonias, as cosmologias e toda uma panóplia de mitos horríveis e caóticos. Benjamin pensava que a narrativa era uma forma de afastar-se desses horrores. O pesadelo mítico sempre se relaciona com a indistinção, a indistinção entre o bem e o mal, entre os sexos, entre as distintas gerações, etc, etc. Podemos nos perguntar, então, se não há um risco de uma nova indistinção a partir da abundância de imagens.
Essa abundância nos remete a um tipo de ameaça mítica. É preciso ter cuidado. Devemos ter formas narrativas capazes de colocar a imagem à distância para que ela seja apenas o que é, ou seja, uma ilustração e não uma realidade. Os progressos tecnológicos nos levam a tomar a imagem como algo real. O pensamento escrito é muito mais articulado e é isso precisamente o que precisamos : um pensamento articulado frente à enxurrada de imagens. A escritura aporta outra coisa. No entanto, também é lícito interrogar-se sobre a noção de escritura dado que o inimigo se instalou nesse campo. Basta abrir a internet para dar-se conta de que quase tudo que circula ali é oralidade primitiva, primária.

A internet também é, para você, uma espécie de ilusão.

Sim. Acreditamos que a internet é um fim em si mesmo, e isso é uma ilusão. Acredita-se que basta ingressar nesse universo para pertencer à comunidade dos comunicantes. Isso é ilusório. Não pertencemos a coisa alguma. Falava a pouco da ilusão do conhecimento. Com a internet ocorre algo similar. Em nosso computador, temos toda a ilusão do mundo, mas esse conhecimento só é útil para aqueles que já sabem algo.

Parece que o mundo moderno é uma sinfonia de ilusões. Você sugere, por exemplo, que a própria ideia de comunidade é ilusória.

Há palavras por trás das quais já não se colocam conceitos. Essas palavras funcionam como códigos para passar. Quando dizemos cultura, quando dizemos diferença, quando dizemos comunidade, eu me pergunto : de que estamos falando? Por exemplo, quando se diz « sociedade multicultural » não sei do que está se falando. Trabalhei durante um tempo em uma localidade muito pequena da Costa do Marfim. Ali havia uma multiplicidade de grupos com culturas diferentes. Suas referências eram distintas e seus idiomas também. Em cada cultura, cada indivíduo tem uma relação diferente e desigual com essa cultura, a ultiplicidade da referência cultural é enorme.
Quando falamos de sociedades multiculturais estamos nos referindo à coexistência de culturas no sentido mais impreciso, mais opaco. O que são a cultura africana ou a cultura asiática senão um conjunto de lugares comuns que não dizem grande coisa ? A noção de multiculturalismo é abstrata. Em resumo, cada vez que falamos de coletividade estamos recorrendo à linguagem da ilusão. Coloquemos as coisas ao contrário. Seria preciso dar voltas a partir do indivíduo, que é nossa única referência concreta. Não se trata de uma sociologia do egoísmo ou do egocentrismo. Não há indivíduo sem relação. Por isso de pode estudar a elaboração das relações entre os indivíduos.
Isso está no coração da democracia, a qual deve fixar a maneira pela qual nos relacionamos com o outro. A soberania do indivíduo está limitada pelo fato de que ele não está sozinho. A solidão absoluta conduz à loucura. O mesmo ocorre com a totalidade imposta, que também conduz á loucura. O papel da democracia deveria consistir em elaborar um compromisso para conciliar a individualidade e a alteridade.

Você introduz um conceito hiper moderno em sua definição dos blocos do mundo. Tomando como base o famoso artigo de Francis Fukuyama no qual, com o triunfo da democracia liberal, Fukuyama promoveu a ideia do fim da história, você escreveu que isso conduziu ao esfriamento do Ocidente.

Com isso, eu estava me referindo à ideia de Claude Levi-Strauss sobre as sociedades frias e as sociedades quentes. Quando se afirma que a história terminou então passamos para o lado frio. A ideia sobre o fim da história não significa que os acontecimentos acabaram, mas sim que a fórmula, a receita, foi encontrada : ou seja, mercado liberal e democracia representativa. Mas essa ideia enfrenta muitas objeções. A primeira : o mercado liberal se dá muito bem com regimes ditatoriais. Isso significa que a liberalização dos mercados, a liberdade dos intercâmbios, não garantem o advento da democracia. Há um paradoxo no postulado do fim da história : é uma espécie de marxismo ao contrário. É a ideia de qua organização da produção desemboca em formas sociais. Creio que esse foi o último grande relato que conhecemos.
A segunda objeção é que não nos dirigimos para um mundo de desigualdades reforçadas. A ascensão de alguns estados, os chamados países emergentes, alimenta a ilusão de que o mundo caminha na direção de mais igualdade. É certo que há países emergentes, mas assim como entre os países desenvolvidos, entre os emergentes se constatam fenômenos de desigualdade crescente. A distância entre ricos e pobres é cada vez mais importante, e a mesma coisa ocorre com o acesso ao conhecimento e à ciência. Eu diria que a globalização não difere muito da colonização. Vivemos um tipo de colonização anônima ou multinacional. A globalização nos emparelhou.
O Terceiro Mundo tem problemas que não são muito distintos dos problemas do Ocidente, por exemplo, no que diz respeito à migração. Os migrantes já não vão só do Sul ao Norte, mas também do Sul para o Sul. No Ocidente, há uma tradição de arrogância que não encontramos no Sul, mas não estou seguro de que os problemas sejam fundamentalmente distintos. A globalização criou as mesmas problemáticas em todas as partes. Não acredito que seja oportuno fazer a apologia do Ocidente ou questioná-lo. O questionamento do Ocidente permite às ditaduras locais fabricarem uma virtude por conta própria. Sou mais universalista, creio que todos compartilhamos o horror.

Há, de fato, uma tecno-oligarquia e uma oligarquia financeira que colonizaram o mundo?

Sim, e cada vez mais nos dirigimos para esse modelo de oligarquias. Em alguns lugares do mundo vemos uma concentração muito forte de poder, conhecimento e riqueza. Há então uma classe oligárquica sob a qual encontramos uma classe de consumidores – sem eles o sistema não funciona – e depois vem os excluídos, essas classes que não são necessárias para que a máquina funcione. Esse esquema exclui todo modelo de revolução.
Para que uma revolução ocorra hoje ela deveria se situar em escala planetária. Conservamos uma ideia mítica da Revolução Francesa que também cometeu horrores. Mas conservamos também a ideia de que a Revolução Francesa foi feita em nome de princípios. Hoje já não sabemos quais são os princípios. O que está em jogo é enorme : transformar o planeta em um lugar onde todos os seres humanos se reconheçam é um desafio formidável. Mas a história não funciona assim.

Recordo o livro que você escreveu sobre a bicicleta, no qual aponta que andar de bicicleta é uma espécie de novo humanismo. Deveríamos todos andar de bicicleta para recuperar um pouco de humanidade? Já não é muito tarde frente o avanço da globalização, a pobreza, a especulação, o vazio planetário das imagens?

A experiência da bicicleta me permitiu destacar que tudo está relacionado com o tempo e o espaço. Neste sentido, a bicicleta corresponde à necessária dimensão individual. Quando estamos sentados na frente de nossos computadores estamos mergulhados em um universo fictício de instantaneidade e ubiquidade. Se temos trabalho estamos asfixiados pela maneira como está concebido fora de nós, e se não temos trabalho estamos aplastados como indivíduos. Há uma espécie de totalitarismo liberal muito pesado. Então, o que podemos fazer? Em escala individual, creio que o único meio de escapar à ilusão é ter sua própria relação com o tempo e o espaço. A bicicleta é um bom instrumento: nos remete à infância, à velhice, nos remete à noção das distâncias que é preciso percorrer, ao controle, etc., etc. Quero deixar claro que não acredito que seja possível mudar o mundo por meio da reforma individual e da bicicleta. Como mortais, estamos todos condenados à utopia. Ainda não acabamos de redefinir a finitude do ser humano, a materialidade do espírito e o futuro de história.

FONTE: IHU Online

a África e o Brasil afrodescendente bombando no mercado editorial!

PÉS afro_Angèle Etoundi (foto: Angèle Etoundi)

A palavra herdada dos pais africanos

A África está na ponta da língua dos brasileiros. A partir de março, as escolas públicas do País passam a receber o primeiro material didático produzido aqui sobre a história do continente, atendendo a uma lei publicada em 2003, que determina o ensino da história e da cultura africanas aos estudantes. Esse material foi preparado pela Universidade Federal de São Carlos com base na coleção de oito volumes da História Geral da África, compilada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e agora lançada comercialmente pela Cortez Editora. A reportagem é de Antonio Gonçalves Filho e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 15-10-2011.

Simultaneamente, chega às livrarias outra coleção, Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica, quatro volumes publicados pela editora da Universidade Federal de Minas Gerais que cobrem desde a produção de autores afrodescendentes nascidos antes de 1930, como Luiz Gama – de quem também é lançado Com a Palavra, Luiz Gama – até contemporâneos como Paulo Lins, autor do polêmico Cidade de Deus. Finalmente, para os interessados no diálogo com línguas próximas a nós vindas do outro lado do Atlântico, a Bertrand Brasil publica o Dicionário Yorubá-Português, do ensaísta e especialista em cultos africanos José Beniste. Ele traz 18 mil verbetes e uma introdução básica ao aprendizado e à pronúncia do idioma. Vale o esforço: afinal, trata-se de uma língua falada por 30 milhões de pessoas na Nigéria, sul de Benin e nas repúblicas de Togo e Gana.

O interesse pela cultura africana no País está mobilizando a universidade brasileira. Só a antologia crítica de literatura, organizada pelo professor Eduardo de Assis Duarte, da Faculdade de Letras da UFMG, contou com a colaboração de 61 pesquisadores vinculados a 21 instituições do ensino superior nacionais e seis estrangeiras. Eles selecionaram 100 escritores de todas as regiões do Brasil, apresentando ao leitor ensaios críticos que não dispensam excertos das obras e dados biográficos curiosos como os do citado líder abolicionista Luiz Gama (1830-1892), primeiro escritor brasileiro a se assumir afrodescendente, filho de uma quitandeira Nagô e de um fidalgo português.

O primeiro volume é dedicado aos autores precursores, cobrindo o período que começa no século XVIII (com Domingos Caldas Barbosa), passa por Luiz Gama, Machado de Assis e avança até Lima Barreto. O segundo volume analisa obras de escritores nascidos nas décadas de 1930 e 1940 (como Nei Lopes e Muniz Sodré). O terceiro volume, que abarca os contemporâneos, apresenta um ensaio sobre 39 literatos nascidos na segunda metade do século passado (como Paulo Lins e Ana Maria Gonçalves). O último volume, além de depoimentos de autores como Abdias Nascimento, reúne textos críticos de, entre outros, Silviano Santiago, e reflexões sobre o projeto de uma literatura afro-brasileira.

Dito assim, parece estar em curso uma espécie de evangelização africana por meio da literatura. E está. Séculos de colonização e eurocentrismo embranqueceram Machado de Assis a tal ponto que os críticos não param de atribuir as invenções literárias do brasileiro à influência do irlandês Laurence Sterne (1713-1768). Também os publicitários da agência contratada pela Caixa Econômica Federal ressaltaram num comercial supostos traços caucasianos do escritor – que era mulato e neto de escravos alforriados. Os homens da publicidade carregaram nas tintas – mais do que Bernardelli no famoso retrato pintado do autor – e usaram um ator branco para interpretar o escritor na propaganda comemorativa dos 150 anos da instituição. No comercial, Machado aparece como correntista da instituição, mais alvo que o Monte Fuji. Internautas revoltados com o que consideraram racismo conseguiram fazer com que a Caixa tirasse o anúncio do ar.

“Ainda vivemos sob a hegemonia dos valores etnocêntricos, brancos, cristãos e ocidentais”, diz o organizador da antologia crítica sobre literatura e afrodescendência no Brasil, Eduardo de Assis Duarte. “Ela é silenciosa e constante, vem do nosso passado escravista, em que o negro era considerado apenas força de trabalho”, conclui. Isso explica, em parte, a razão de a literatura dos afrodescendentes ter como principal característica a autorreferência. São textos autobiográficos porque, como diz o professor, “é raro encontrar o negro como tema da escrita do branco na literatura brasileira canônica”. Se os escritores afrodescendentes insistem em falar da condição de escravizado é porque o país “multiétnico” esqueceu deliberadamente os pioneiros autores negros e pintou um retrato ambíguo de figuras como Machado de Assis.

Assis Duarte, autor de um livro sobre o fundador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis Afrodescendente (Editora Crisálida, 2007), vai contra a tese dos que defendem a neutralidade do escritor na questão abolicionista. Para o professor, os textos do acadêmico contradizem o possível abstencionismo do romancista de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Segundo Assis Duarte, Machado usou 23 pseudônimos para atirar petardos nos jornais antiabolicionistas. O “embranquecimento” do bruxo de Cosme Velho faria parte do silencioso projeto de “genocídio do negro brasileiro” que viria a ser denunciado muitos anos depois pelo escritor Abdias Nascimento, morto em maio, ao nadar contra a corrente do rio da mestiçagem de Gilberto Freyre. Este, conclui o professor, estaria empenhado em camuflar a memória do passado africano e negar a alteridade dos afrodescendentes.

Nenhum país passa pela escravidão impunemente”, observa. “Autores como Machado e Lima Barreto pagaram caro por isso.” O último, diz Assis Duarte, ainda teve a má sorte de ser visto como um “autor de subúrbio”, acusado de tudo, “inclusive de desleixo verbal e falta de profundidade psicológica”. Mulato num Brasil eugênico, Barreto testemunhou (aos 7 anos) a abolição da escravatura, mas morreu, aos 41 anos – meses depois da Semana de Arte Moderna -, dependente de álcool e deprimido, após ser internado por diversas vezes em clínicas psiquiátricas. “Muito se fala de Triste Fim de Policarpo Quaresma, mas, seis anos antes, em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, ele já denunciava a hipocrisia da sociedade brasileira, que relegou os negros ao campo dos subalternos.” No livro, marcado por referências autobiográficas, Lima Barreto fala do filho de uma mulata que sai do interior para estudar Medicina no Rio e não consegue, acumulando frustrações pelo caminho.

Lima Barreto tampouco se rendeu aos estereótipos dos quais nem mesmo os escritores modernistas escaparam, de acordo com o professor. “A mulata, na literatura canônica brasileira, de Rita Baiana a Gabriela, é sexy e estéril, foi moldada para suprir as necessidades do leitor das elites”, analisa. “Em contrapartida, a Clara dos Anjos de Lima Barreto entrega-se por amor e fica grávida.” Em tempo: Clara é mulata, filha de um carteiro de subúrbio. O amante, Cassi Jones, é branco, sardento, de classe social superior e malandro. Não pensa muito para eliminar aqueles que cruzam seu caminho. Guarda, enfim, algum parentesco com os pitboys do Brasil contemporâneo.

A reação natural à violenta discriminação racial do escritor de origem africana no Brasil foi a criação, nos anos 1960, de grupos literários articulados com os ideais pan-africanistas. “Poetas e ficcionistas se organizaram em grupos como o carioca Negrícia e o gaúcho Palmares, que nascem do impulso de resgatar a questão do negro como vítima do embranquecimento e para combater o mito da escravidão benigna, que de benigna não teve nada”, comenta Assis Duarte. A organização em coletivos, como a dos poetas paulistas fundadores dos Cadernos Negros (livros em formato de bolso), seria apenas um manifesto político ou uma tendência? “Os Cadernos são, desde 1978, a principal vitrine da comunidade afrodescendente”, responde o professor, que ainda assim não arrisca destacar um nome entre os contemporâneos.

Não haveria no Brasil dos afrodescendentes um escritor incendiário como James Baldwin (1924-1987) – autor de Da Próxima Vez, o Fogo (1963), dois ensaios sobre a condição dos negros na América e suas relações com o cristianismo e o islamismo – ou uma Toni Morrison (Nobel de Literatura de 1993), autora de romances em que a mulher negra é quase sempre a protagonista. “Uma das explicações para isso é que os negros americanos foram alfabetizados muito antes dos brasileiros, como prova a autobiografia de Frederick Douglas, publicada em 1845, que fugiu dos EUA para a Inglaterra e voltou como militante abolicionista.” Referindo-se a Baldwin, nascido numa família pobre do Harlem, o professor lembra que o escritor, embora tenha abandonado a religião, frequentou a Igreja, assim como Mahommad Gardo Baquaqua, africano traficado para o Brasil em 1844 e que, batizado pelos mórmons como José da Costa, publicou a autobiografia em inglês, dez anos depois. “Como não admitiam a intermediação para a palavra do Senhor, todos tinham de aprender a ler a Bíblia e isso fez uma diferença tremenda.”

O Brasil, na época, estava mais interessado em taxar mercadorias importadas e mal acabara de entrar no circuito de comunicação – 1844 foi o ano da primeira transmissão por telégrafo de Morse. Machado era um menino de 5 anos e os escravos nem sonhavam em ser alfabetizados. “Mesmo quando ele começou a escrever, seus leitores eram da elite branca, não havia a crença no livro como redenção.” A expressão da cultura dos afrodescendentes continuou sendo oral nos anos seguintes, isso quando o debate da questão racial pegava fogo nos EUA e os movimentos de afirmação da identidade negra ganhavam força, nos anos 1920, com a poesia militante de Langston Hughes, aponta Assis Duarte. “Só nos anos 1930 é que o rádio passou a ser o porta-voz dos negros brasileiros, ainda assim por causa dos compositores de música popular.”

Uma característica dos autores contemporâneos afrodescendentes, segundo o organizador da coleção de literatura afrodescendente no Brasil, é o uso da mídia eletrônica “como forma de estabelecer um contato mais direto com o público”. É o caso do escritor carioca Paulo Lins, ex-morador da Cidade de Deus que começou sua carreira numa cooperativa de poetas – reafirmando a tese dos coletivos – e assinou vários roteiros para cinema e televisão. Outra característica é a predominância da poesia sobre a prosa. A descoberta mais surpreendente da coleção é a da participação regional dos escritores no bolo afrodescendente: o maior pedaço é do Sudeste, mais rico e desenvolvido. Dado que talvez explique outro ainda mais curioso, o do crescimento do número de mulheres afrodescendentes no mundo literário, antes dominado pelos homens.

FONTE: IHU Online

a arte como fundamento da humanidade

 

Oficina de arte da Idade da Pedra

Arqueólogos descobrem ferramentas de 100 mil anos usadas para fabricar e armazenar tinta em caverna na África do Sul. O achado revela que os primeiros ‘Homo sapiens’ já tinham conhecimentos químicos e capacidade de planejar a longo prazo.

Por: Sofia Moutinho

Oficina de arte da Idade da Pedra  Arqueóloga escava, na caverna de Blombos, na África do Sul, a mais antiga oficina de arte já encontrada até hoje. (foto: Grethe Moell Pedersen)

O gosto do homem pela arte e sua habilidade de combinar substâncias para colocá-la em prática são bem mais antigos do que pensavam os arqueólogos. É o que mostra a descoberta, em Cape Town, África do Sul, de uma oficina de 100 mil anos usada para produzir e armazenar ocre, o mais primitivo pigmento conhecido, feito à base de terra.

O achado, de uma equipe de arqueólogos sul-africanos, franceses, australianos e noruegueses, é destaque da Science Express desta semana. Antes da escavação da oficina, na caverna de Blombos, o mais antigo uso do ocre documentado era de 60 mil anos atrás.

Na oficina de arte pré-histórica, os pesquisadores encontraram dois “kits de ferramentas” de pintura, cada um composto basicamente por uma concha recheada de ocre, faixas de couro, martelos de sílex (tipo de rocha), pilões de pedra rústicos e ossos canídeos em forma de colher.

A descoberta revela que os primeiros Homo sapiens já tinham um comportamento cultural complexo

Os pesquisadores acreditam que o ocre era produzido para fins simbólicos e rituais, como decoração de corpo, roupas e artefatos, e também para fins práticos, como a proteção da pele contra o Sol.

Embora os usos exatos do pigmento sejam apenas especulações, para o líder da pesquisa, o arqueólogo Christopher Henshilwood, da Universidade de Witwaterstand, na África do Sul, a descoberta é um marco na história da evolução do pensamento humano, pois revela que os primeiros Homo sapiens já tinham um comportamento cultural complexo.

“A fabricação e o armazenamento de pigmentos demonstram que os humanos do Paleolítico Médio tinham a habilidade conceitual para criar e planejar a longo prazo elementos fundamentais para o desenvolvimento da cultura”, afirma.

Químicos das cavernas

Análises em laboratório revelaram que o ocre encontrado dentro das conchas era formado por dois tipos de terra, quartzo e fragmentos de ossos de mamíferos queimados.

Os arqueólogos especulam que, para fabricar o pigmento, os antigos humanos friccionavam os pedaços de terra em lajes de quartzo até virarem pó. Então, acrescentavam ossos queimados ao material e voltavam a amassar com martelos e moedores de pedra. A gordura do interior dos ossos era o que dava liga à tinta.

Pedra e concha pré-histórica
Os ‘Homo sapiens’ usavam conchas (à direita) para guardar a tinta rústica ocre e pedras (à esquerda) para amassar a terra de que é feito o pigmento. (foto: Grethe Moell Pedersen)

Segundo outro arqueólogo envolvido no estudo, Francesco d’Errico, da Universidade de Bordeaux, na França, a riqueza dessa mistura revela ainda a capacidade que os primeiros humanos tinham de combinar elementos químicos.

“Acreditamos que eles eram perfeitamente capazes de avaliar o potencial de cor de diferentes minerais, procurar por eles na paisagem e prever as propriedades do composto de pigmentação que iriam produzir”, diz. “É incrível, mas essas populações já tinham pensamento simbólico e conhecimentos elementares de química!”

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FONTE: Ciência Hoje On-line