a “morte da arte” & a pop-music

 

Lady Gaga é trash ou é clean? Muitas vezes incorporadas, hoje em dia, às conversas eruditas e populares sobre o que é agradável ou não é, essas palavras da língua inglesa remetem a duas vertentes da estética contemporânea, associando-se geralmente, no campo das artes visuais, o trash (“lixo”) a obras com aspecto descuidado, grosseiro ou agressivo, e o clean (“limpo”) a obras que se pautam pela refinamento das formas e materiais, pelo respeito às proporções equilibradas ou à figuração naturalista, tendendo a reproduzir os padrões clássicos da arte ocidental. Contudo, e sobretudo no período chamado de pós-moderno, podemos considerar que as obras de arte tendem a misturar elementos trash e clean, de acordo com dosagens que tanto servem para a reciclagem das modas quanto para propor novas concepções acerca da natureza do belo, assim como para estabelecer pontes entre a linguagem artística e a crítica social.

A partir da leitura da entrevista abaixo podemos observar como várias das questões assinaladas acima podem também ser mapeadas entre os clipes e as canções de famosas stars da música pop internacional. Considerando a discussão e as atividades na LETA31, podemos tentar instaurar articulações mediante algumas perguntas, como as destacadas a seguir:

  • o sentido do trash no trabalho de Lady Gaga é equivalente ao sentido do lixo nas obras de Vik Muniz?
  • qual o tipo de produção que lhe parece mais próxima da ideia de arte “morta”, ou mercadorizada, a de Gaga ou a de Muniz? por que?

Lady Gaga: espelho de nosso cotidiano.

Lady Gaga, por sua performance e ousadia, causa interesse não só nos fãs de cultura pop. A própria academia, com seus pesquisadores, começa a se interessar em estudar o fenômeno Lady Gaga. Thiago Soares é um deles. Em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, o docente afirma que Gaga encena o lugar do “seja o que você quiser” ou “faça do jeito que quiser”. “E esse acaba sendo um discurso muito oportuno hoje em dia no momento em que temos tão poucas ideologias contra as quais lutar”.
Além disso, continua, “essa coisa da Lady Gaga ser um personagem me parece que é uma das questões mais fortes nas nossas relações contemporâneas. Hoje, nós somos avatares no Twitter, no Facebook; podemos criar fakes, postar como ‘anônimos’, ou seja, as identidades estão muito moduláveis. Podemos nos ‘fantasiar’ daquilo que quisermos nas redes sociais, na internet e, também, na vida. Daí a importância de Lady Gaga ‘jogar’ com as identidades, ‘brincar’ com seu corpo. Ela está reproduzindo uma prática que é bastante comum no nosso cotidiano”.

Thiago Soares é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e professor do Departamento de Comunicação e Turismo – Decomtur, da Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e mestrado em Letras pela mesma universidade. Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que faz de Lady Gaga um ícone pop?
Thiago Soares – O destaque que Gaga ocupa na mídia hoje e a forma com que se posiciona na indústria fonográfica creio que sejam aspectos fundamentais para entendê-la na cultura pop. Essas lógicas de ame/odeie; a forma como ela utiliza a cultura midiática, as performances que realiza, a forma como usa o videoclip, os instrumentais da televisão, da internet… Tudo isso aciona o lugar de destaque dela dentro da cultura pop. Porque não é a questão apenas de ocupar um espaço, é ocupar um lugar de destaque; é como essas formas de legitimação dela funcionam na engrenagem midiática. Falar de Lady Gaga é pensar esse lugar de destaque que ela está ocupando hoje nas instâncias midiáticas.

IHU On-Line – Qual seria a razão para que Gaga explore tanto em seus clipes aspectos cristãos, especialmente católicos?
Thiago Soares – Temos que pensar a questão da religiosidade na cultura pop. Lady Gaga não está criando nada de novo. Agora, ela está fazendo de uma forma bastante emblemática, usando em videoclipes, performances, shows. Mas, por exemplo, a Madonna já fez isso. Esta deu um beijo num santo negro em “Like a prayer” na década de 1980. Então, 30 anos atrás, a rainha do pop já fez esse questionamento em torno da relação da igreja como elemento de polemizar a cultura midiática. A Lady Gaga traz à tona novamente esse discurso, por isso que ela é tão comparada com Madonna, porque traz elementos já utilizados anteriormente pela cantora, como questões religiosas, como dispositivo de reconfiguração.

IHU On-Line – Nesse sentido, em que aspectos Lady Gaga difere e se aproxima de Madonna?
Thiago Soares – Lady Gaga tem muitas semelhanças com questões de performance, de composição; ela compõe as próprias músicas dela, é produtora. Tem uma coisa muito parecida com a Madonna sonoramente também. As músicas são parecidas. São baladas e canções pops com apelo midiático muito forte, sintetizador; música eletrônica, dançante… Então, tem toda uma semelhança.
Mas também é preciso pensar as diferenças entre as duas. Se formos pensar do ponto de vista da trajetória, Gaga tem um caminho muito diferente do da Madonna. Esta encena talvez aquela utopia do sonho da cantora que chegou a Nova Iorque com pouco dinheiro; entregou uma fita cassete na gravadora que a descobriu. Gaga não. Ela já era produtora antes mesmo de ser cantora. Ou seja, já estava dentro dos mecanismos da indústria e isso a difere muito de Madonna, que encenou todo aquele sonho e utopia da cantora que seria descoberta pela indústria.
Lady Gaga, por sua vez, usou dos mecanismos da indústria já como uma forma de se inserir na música mesmo. Ademais, os discursos das duas são muito distintos. Madonna sempre teve uma preleção muito racional, defendeu causas (negros, gays etc.). Já Lady Gaga fala em monstros… em bandeiras menos claras talvez.

IHU On-Line – Como analisa a extravagância e o visual “over” de Gaga? Qual é o sentido dessa mise-en-scène?
Thiago Soares – Um fator que faz com que Gaga tenha uma importância muito grande na cultura midiática hoje é que ela entende ser tudo performance e leva isso ao extremo. Os vestidos dela de noite, por exemplo, são três vezes maiores que os outros. Ela sai na rua para comprar um cachorro quente toda montada, porque sabe que vai ser fotografada, que pode gerar repercussões etc. Ou seja, o que faz Lady Gaga importante, essa coisa over da roupa dela etc., é porque ela está levando a questão da performance ao extremo. Está reconhecendo que tudo o que fazemos é performatizado. E ela materializa isso, na moda e na música.

IHU On-Line – Você afirma que Lady Gaga é, em si, uma simulação, performance e uma personagem que se insere num contexto mais pós-moderno, niilista. Poderias explicar melhor tais aspectos?
Thiago Soares – Niilista é aquele que questiona as coisas, mas não sabe muito o quê. A Lady Gaga é um pouco isso. Ela fala muito, por exemplo, que os fãs são “monstrinhos” dela. Então, qual a questão dos monstros? É se sentir à parte da sociedade. Mas, em quê de fato? Acredito que o novo álbum dela, o Born this way, está mostrando certa clareza no discurso gay dela.
Mas a cantora tem ainda muitas sombras que não sabemos. Ela está reclamando da vida, porém, não sabemos muito bem de quê. Há certo discurso niilista nisso. É aquele tipo de pessoa que quer lutar, mas não sabe contra quê. É um pouco a nossa luta na contemporaneidade. Vivemos em uma sociedade tão individualista, que não sabemos muito bem contra o quê lutar, quem é nosso inimigo. Gaga acaba mostrando a problemática de nossa era mesmo. Apesar de não gostar muito do termo pós-modernidade, acredito que ele, para que possamos entender Lady Gaga, seja útil.

IHU On-Line – Há uma identificação dos jovens com Lady Gaga, uma projeção? Em que sentido?
Thiago Soares – Sim, muito grande. Creio que essa coisa do jovem está muito atrelada ao discurso individualista de autoajuda que Lady Gaga tem. Discursos individualistas, do tipo “Seja diferente”, acabam causando certo engajamento em torno da cultura jovem muito forte, sobretudo naquele que não tem um propósito.

IHU On-Line – Há um quê de burlesco nas aparições de Gaga. Mais do que chocar, ela diz ser ela mesma quando “se monta” para os shows. Como percebe a questão da identificação dos jovens com esse figurino e esse personagem?
Thiago Soares – Acredito que há um fator muito interessante nesse aspecto, e muito ligado à cultura gay também. Por exemplo, se Madonna encenava o lugar e poder da mulher, Gaga, por sua vez, encena o lugar do “seja o que você quiser” ou “faça do jeito que quiser”. E esse acaba sendo um discurso muito oportuno hoje em dia no momento em que temos tão poucas ideologias contra as quais lutar.
Além disso, essa coisa da Lady Gaga ser um personagem me parece que é uma das questões mais fortes nas nossas relações contemporâneas. Hoje, nós somos avatares no Twitter, no Facebook; podemos criar fakes, postar como “anônimos”, ou seja, as identidades estão muito moduláveis. Podemos nos “fantasiar” daquilo que quisermos nas redes sociais, na internet e, também, na vida. Daí a importância de Lady Gaga “jogar” com as identidades, “brincar” com seu corpo. Ela está reproduzindo uma prática que é bastante comum no nosso cotidiano.

IHU On-Line – Percebe influências de Madonna nos figurinos e na obsessão camaleônica de Lady Gaga? Por que a aparência é tão importante em suas apresentações?
Thiago Soares – É Madonna, mas acredito ser também uma necessidade midiática de se fazer interessante. Acredito que essa necessidade camaleônica não é uma relação direta de Madonna com Gaga. Parece-me que é uma necessidade de reconfiguração do próprio sistema de consumo dessas celebridades no campo da indústria da música. Creio que a aparência é relevante em suas apresentações porque Gaga leva ao extremo a ideia de que a performance é essencial na aparição da cultura pop. Para ela, performatizar está em todos os ambientes da vida. Está quando ela sai de casa, aparece na MTV, está no videoclip; quer dizer, essas instâncias estão todas semelhantes e ocupam espaço de valor dentro da lógica dela, que são muito parecidas e bastante análogas.

IHU On-Line – Por que Gaga “deu certo” e Ke$ha, que segue um visual trash, por vezes parecido com o de Gaga, não tem a mesma projeção ou impacto?
Thiago Soares – Não seria sensato atestar que “Ke$ha não deu certo”. Ke$ha tem projeção sim, mas sua trajetória na dinâmica midiática ainda é bastante inferior à da Lady Gaga. Se pensarmos em músicas como “Tik tok”, “We r who we r” e “Blow”, por exemplo, temos faixas que foram exaustivamente tocadas e tiveram seus clipes também muito bem exibidos. As matrizes performáticas de Lady Gaga e de Ke$ha são, de fato, bem parecidas. Elas flertam com o trash, com o grotesco, com a “bagaceira”. Mas acho que a Lady Gaga cerca seu discurso de uma carga mais “artística” e “autoral”. Ke$ha ainda está ligada a uma premissa de que é “nova” no campo das cantoras musicais…

IHU On-Line – Gaga disse que a cultura pop é sua religião, e para isso é preciso acreditar que seu trabalho nunca está finalizado, e que a arte é algo que transcende, que transforma. Em que medida essa concepção muda a forma como o artista pensa a arte na pós-modernidade?
Thiago Soares – Lady Gaga mistura tudo no seu trabalho: arte, comércio, performance, ficção, realidade. Tudo se amalgama e vira esse “caldo” interessante para a cultura pop. Na verdade, como estratégia de diferenciação, Lady Gaga se aproxima do campo da arte, da performance, do happening, para ocupar espaço midiático. É preciso pensar a questão da “cultura pop como uma religião” a partir da retranca do engajamento que as duas propõem.
Shows pop são, em certa medida, momentos de adoração dos ídolos, assim como a coisa da religião.
A questão da pós-modernidade pressupõe entender a arte e comércio sem limites claros, borrando suas “bordas”. Lady Gaga é assim: O que nela é arte, o que é comércio? Que corpo é aquele? Onde começa o personagem e onde termina a performer? Até quando ela vai durar? Essas são questões centrais para se pensar Gaga a partir de uma retranca pós-moderna.

FONTE: IHU Online

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