algumas sugestões para as pesquisas acerca do caso ônibus 174

A montagem acima possibilitar visibilizar com mais nitidez as várias intersecções entre os filmes de José Padilha e de Bruno Barreto. Entretanto, na elaboração dos dossiês pelas equipes é muito importante assinalar, também, as divergências e, em especial, o que poderíamos considerar como as “encruzilhadas” interpretativas que se abrem quando comparamos as duas versões, ou seja, os momentos em que conclusões contraditórias sobre a trajetória de Sandro, ou sobre o significado social  do sequestro, são propostas ou sugeridas pelos diretores.

Para aqueles que estão em busca de mais materias, seguem abaixo alguns links de fontes interessantes (clique nas imagens):

youtube 174

conteudo174

ihu 174

bdtd 174

a arte de transformar o feio em arte: efeitos da “morte da arte”

 

O luto da arte

Marcia Tiburi

A tese da morte da arte ainda significa mais do que parece

      Damien Hirst: a arte contemporânea, sendo trabalho do luto, prova sempre a experiência do desgosto

A discussão sobre a morte da arte teve um lugar essencial nas Lições de Estética, de Hegel, no século 19. Não se pode perder de vista que a morte da arte à qual Hegel se referia era a da arte bela e não da arte de modo geral. Se Hegel tem razão, em havendo uma morte da arte que não deve ser generalizada, trata-se de entender que tipo de arte, para além da arte bela, sobreviveu. Em um século de genocídios, ditaduras e violências de toda sorte, a arte é a memória da sua própria morte.   

A pré-história dessa percepção está na Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant, que antes afirmou a existência de dois sentimentos, o belo e o sublime, como sustentáculos da experiência estética. Belo – a sensação de prazer com os objetos agradáveis – e sublime – um misto de prazer com desprazer – são formas de acesso subjetivo à beleza, tanto da natureza quanto das artes. Kant define a arte bela como aquela que pode representar de modo belo até mesmo as coisas feias. A tarefa histórica da arte sempre foi a de colocar beleza no mundo e suplantar o feio. Criamos essa expectativa e isso hoje em dia não nos ajuda.       

Mas o próprio Kant disse que havia uma espécie de feiura, que não pode ser representada de acordo com a natureza sem cancelar a complacência estética, ou seja, a nossa capacidade de perceber a beleza em geral e a beleza da arte. Kant refere-se à feiura que desperta asco. O asco, segundo Kant, é uma “sensação peculiar” marcada pela imposição do objeto feio que imediatamente se nos lança sobre os sentidos, sem que desejemos aceitar sua presença. O filósofo espanhol Eugenio Trías dá um exemplo repugnante só de ler: quem pisa em um rato morto e eviscerado na rua tem a sensação de que ele vai parar dentro da boca. A experiência do asco se dá como se um prato de merda fosse oferecido para se comer.       

O asco é uma espécie de sentimento impossível, por estar na contramão do gosto. Podemos traduzi-lo por nojo. E nojo é algo que se traduz por luto. A experiência do asco ou do nojo, como experiência do des-gosto, é da mesma ordem da experiência do luto, de algo que não desejamos e que mesmo assim se impõe. A lástima pela perda de um objeto amado, mas também do gosto – seja pela arte, seja pela vida – que acompanhava aquele objeto é experiência disseminada em nossa cultura, da qual a arte atual vem a ser a apresentação mais clara.       

A arte, do asco ao luto

O luto é sempre uma reação à perda de um objeto amado. É, portanto, a experiência da morte enquanto ela pode ser conhecida: a morte dos outros, das coisas, das experiências. Até mesmo, como em Luto e Melancolia, de Freud, a perda de uma abstração, de um ideal qualquer. Nunca a da epicuriana morte que não encontraremos, pois já não estaremos quando ela aparecer. A arte contemporânea é experiência enlutada e, por isso, dói tanto tratar dela. Encará-la é experimentar o luto na forma de sua exposição possível. Mas, se há entre arte e vida, entre ficção e realidade, uma relação que é sempre de mimese, por imitação ou por mimetismo, e se há tanta perda na vida, a arte não deveria ser nosso resgate para além do que a vida nos dá sem nenhuma elaboração?       

A promessa romântica da arte é que ela viria nos salvar da vida. Mas, após a perda da ingenuidade romântica, por que ainda esperamos tanto da arte? Arte é apenas um conceito que tem tão pouco valor quanto pouco uso nos dias de hoje. No entanto, arte ainda é, como conceito, algo que vai na frente da nossa sempre atrasada sensibilidade. Que a arte mova nossa sensibilidade é a esperança sem fundamento de muitos, mas sensibilidade é uma formulação imprecisa entre o perigoso culto da emoção e os sentimentos que só são elaborados mediante a interferência da racionalidade capaz de criar conceitos. Não há chance de que arte hoje seja mais do que uma construção para fazer pensar.       

Temos na experiência contemporânea da arte a autopresentificação do seu próprio luto. Como se a arte ainda estivesse no período enojado em que tem que se haver com a memória de um cadáver que é ela mesma e que, na verdade, mimetiza o estado das coisas de um mundo em crise de sentido. Assim é que a obsolescência do conceito de arte o coloca na posição de um conceito-memória. Um conceito que foi válido, mas que perdeu sua circunstância na atualidade. Arte não é mais a bela arte, ainda que possamos com muito esforço descobrir nas obras que a beleza também é um conceito e, como tal, uma visão das coisas.       

O paradoxo do gosto

O que a arte contemporânea nos sugere é a experiência do paradoxo do gosto. Como é possível “apreciar” esteticamente aquilo que repugna se neste momento a experiência estética como mediação entre sensibilidade e racionalidade foi anulada? A questão é que a arte contemporânea, sendo trabalho do luto, acontecendo na contramão do gosto, provoca sempre a experiência do desgosto. Por isso, a arte conceitual tem tanto espaço em nosso tempo, por chamar ao pensamento em tempos de cancelamento da sensibilidade. É como se toda obra nos enviasse a mensagem: se não podemos “gostar”, podemos “pensar”. É o paradoxo da inestética: a sensação é de perda da sensibilidade na arte; mais do que um problema da arte, é problema da cultura na qual ela surge. Um artista como Damien Hirst, com seus bezerros e tubarões no formol, não é, portanto, julgável segundo o padrão do gosto pela arte bela, porque estamos em tempos de perda do gosto. O que será que ele nos mostra que não sabemos pensar?       

Com isso se consegue compreender o que acontece com a arte atual. Ela é a experiência da morte da própria arte bela nestes tempos de desgraça cultural. Tempos tensos: de um lado tragicofílicos – desejamos a tragédia – e de outro tragicofóbicos – evitamos a morte a qualquer custo –, como disse Hans Gumbrecht. Podemos dizer, nestes tempos, que a arte se faz na ordem do trágico, este sentimento da “morte em mim”, da morte como experiência subjetiva, como imagem da melancolia que nada mais é do que a morte do eu e do pensamento que sempre foi a prova de que existia algo chamado “eu”. Não, não exageremos.       

A arte contemporânea não é nem trágica nem melancólica. Enlutada, ela nos pede que ultrapassemos a memória da morte e reinventemos o presente. Só o que impede isso é o capital culto à desgraça em que vivemos hoje. O gozo atual é com a ideologia da morte como um fim, quando, na verdade, estúpidos e conceitualmente avarentos, não sabemos entender o valor e o poder das transformações históricas das quais a arte nos dá apenas uma imagem para nos fazer acordar. Mas quando até mesmo a desgraça se tornou um “capital”, haverá espaço para a arte que denuncia o seu caráter capitalista?

FONTE: Revista Cult

a “morte da arte” & a pop-music

 

Lady Gaga é trash ou é clean? Muitas vezes incorporadas, hoje em dia, às conversas eruditas e populares sobre o que é agradável ou não é, essas palavras da língua inglesa remetem a duas vertentes da estética contemporânea, associando-se geralmente, no campo das artes visuais, o trash (“lixo”) a obras com aspecto descuidado, grosseiro ou agressivo, e o clean (“limpo”) a obras que se pautam pela refinamento das formas e materiais, pelo respeito às proporções equilibradas ou à figuração naturalista, tendendo a reproduzir os padrões clássicos da arte ocidental. Contudo, e sobretudo no período chamado de pós-moderno, podemos considerar que as obras de arte tendem a misturar elementos trash e clean, de acordo com dosagens que tanto servem para a reciclagem das modas quanto para propor novas concepções acerca da natureza do belo, assim como para estabelecer pontes entre a linguagem artística e a crítica social.

A partir da leitura da entrevista abaixo podemos observar como várias das questões assinaladas acima podem também ser mapeadas entre os clipes e as canções de famosas stars da música pop internacional. Considerando a discussão e as atividades na LETA31, podemos tentar instaurar articulações mediante algumas perguntas, como as destacadas a seguir:

  • o sentido do trash no trabalho de Lady Gaga é equivalente ao sentido do lixo nas obras de Vik Muniz?
  • qual o tipo de produção que lhe parece mais próxima da ideia de arte “morta”, ou mercadorizada, a de Gaga ou a de Muniz? por que?

Lady Gaga: espelho de nosso cotidiano.

Lady Gaga, por sua performance e ousadia, causa interesse não só nos fãs de cultura pop. A própria academia, com seus pesquisadores, começa a se interessar em estudar o fenômeno Lady Gaga. Thiago Soares é um deles. Em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, o docente afirma que Gaga encena o lugar do “seja o que você quiser” ou “faça do jeito que quiser”. “E esse acaba sendo um discurso muito oportuno hoje em dia no momento em que temos tão poucas ideologias contra as quais lutar”.
Além disso, continua, “essa coisa da Lady Gaga ser um personagem me parece que é uma das questões mais fortes nas nossas relações contemporâneas. Hoje, nós somos avatares no Twitter, no Facebook; podemos criar fakes, postar como ‘anônimos’, ou seja, as identidades estão muito moduláveis. Podemos nos ‘fantasiar’ daquilo que quisermos nas redes sociais, na internet e, também, na vida. Daí a importância de Lady Gaga ‘jogar’ com as identidades, ‘brincar’ com seu corpo. Ela está reproduzindo uma prática que é bastante comum no nosso cotidiano”.

Thiago Soares é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e professor do Departamento de Comunicação e Turismo – Decomtur, da Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e mestrado em Letras pela mesma universidade. Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que faz de Lady Gaga um ícone pop?
Thiago Soares – O destaque que Gaga ocupa na mídia hoje e a forma com que se posiciona na indústria fonográfica creio que sejam aspectos fundamentais para entendê-la na cultura pop. Essas lógicas de ame/odeie; a forma como ela utiliza a cultura midiática, as performances que realiza, a forma como usa o videoclip, os instrumentais da televisão, da internet… Tudo isso aciona o lugar de destaque dela dentro da cultura pop. Porque não é a questão apenas de ocupar um espaço, é ocupar um lugar de destaque; é como essas formas de legitimação dela funcionam na engrenagem midiática. Falar de Lady Gaga é pensar esse lugar de destaque que ela está ocupando hoje nas instâncias midiáticas.

IHU On-Line – Qual seria a razão para que Gaga explore tanto em seus clipes aspectos cristãos, especialmente católicos?
Thiago Soares – Temos que pensar a questão da religiosidade na cultura pop. Lady Gaga não está criando nada de novo. Agora, ela está fazendo de uma forma bastante emblemática, usando em videoclipes, performances, shows. Mas, por exemplo, a Madonna já fez isso. Esta deu um beijo num santo negro em “Like a prayer” na década de 1980. Então, 30 anos atrás, a rainha do pop já fez esse questionamento em torno da relação da igreja como elemento de polemizar a cultura midiática. A Lady Gaga traz à tona novamente esse discurso, por isso que ela é tão comparada com Madonna, porque traz elementos já utilizados anteriormente pela cantora, como questões religiosas, como dispositivo de reconfiguração.

IHU On-Line – Nesse sentido, em que aspectos Lady Gaga difere e se aproxima de Madonna?
Thiago Soares – Lady Gaga tem muitas semelhanças com questões de performance, de composição; ela compõe as próprias músicas dela, é produtora. Tem uma coisa muito parecida com a Madonna sonoramente também. As músicas são parecidas. São baladas e canções pops com apelo midiático muito forte, sintetizador; música eletrônica, dançante… Então, tem toda uma semelhança.
Mas também é preciso pensar as diferenças entre as duas. Se formos pensar do ponto de vista da trajetória, Gaga tem um caminho muito diferente do da Madonna. Esta encena talvez aquela utopia do sonho da cantora que chegou a Nova Iorque com pouco dinheiro; entregou uma fita cassete na gravadora que a descobriu. Gaga não. Ela já era produtora antes mesmo de ser cantora. Ou seja, já estava dentro dos mecanismos da indústria e isso a difere muito de Madonna, que encenou todo aquele sonho e utopia da cantora que seria descoberta pela indústria.
Lady Gaga, por sua vez, usou dos mecanismos da indústria já como uma forma de se inserir na música mesmo. Ademais, os discursos das duas são muito distintos. Madonna sempre teve uma preleção muito racional, defendeu causas (negros, gays etc.). Já Lady Gaga fala em monstros… em bandeiras menos claras talvez.

IHU On-Line – Como analisa a extravagância e o visual “over” de Gaga? Qual é o sentido dessa mise-en-scène?
Thiago Soares – Um fator que faz com que Gaga tenha uma importância muito grande na cultura midiática hoje é que ela entende ser tudo performance e leva isso ao extremo. Os vestidos dela de noite, por exemplo, são três vezes maiores que os outros. Ela sai na rua para comprar um cachorro quente toda montada, porque sabe que vai ser fotografada, que pode gerar repercussões etc. Ou seja, o que faz Lady Gaga importante, essa coisa over da roupa dela etc., é porque ela está levando a questão da performance ao extremo. Está reconhecendo que tudo o que fazemos é performatizado. E ela materializa isso, na moda e na música.

IHU On-Line – Você afirma que Lady Gaga é, em si, uma simulação, performance e uma personagem que se insere num contexto mais pós-moderno, niilista. Poderias explicar melhor tais aspectos?
Thiago Soares – Niilista é aquele que questiona as coisas, mas não sabe muito o quê. A Lady Gaga é um pouco isso. Ela fala muito, por exemplo, que os fãs são “monstrinhos” dela. Então, qual a questão dos monstros? É se sentir à parte da sociedade. Mas, em quê de fato? Acredito que o novo álbum dela, o Born this way, está mostrando certa clareza no discurso gay dela.
Mas a cantora tem ainda muitas sombras que não sabemos. Ela está reclamando da vida, porém, não sabemos muito bem de quê. Há certo discurso niilista nisso. É aquele tipo de pessoa que quer lutar, mas não sabe contra quê. É um pouco a nossa luta na contemporaneidade. Vivemos em uma sociedade tão individualista, que não sabemos muito bem contra o quê lutar, quem é nosso inimigo. Gaga acaba mostrando a problemática de nossa era mesmo. Apesar de não gostar muito do termo pós-modernidade, acredito que ele, para que possamos entender Lady Gaga, seja útil.

IHU On-Line – Há uma identificação dos jovens com Lady Gaga, uma projeção? Em que sentido?
Thiago Soares – Sim, muito grande. Creio que essa coisa do jovem está muito atrelada ao discurso individualista de autoajuda que Lady Gaga tem. Discursos individualistas, do tipo “Seja diferente”, acabam causando certo engajamento em torno da cultura jovem muito forte, sobretudo naquele que não tem um propósito.

IHU On-Line – Há um quê de burlesco nas aparições de Gaga. Mais do que chocar, ela diz ser ela mesma quando “se monta” para os shows. Como percebe a questão da identificação dos jovens com esse figurino e esse personagem?
Thiago Soares – Acredito que há um fator muito interessante nesse aspecto, e muito ligado à cultura gay também. Por exemplo, se Madonna encenava o lugar e poder da mulher, Gaga, por sua vez, encena o lugar do “seja o que você quiser” ou “faça do jeito que quiser”. E esse acaba sendo um discurso muito oportuno hoje em dia no momento em que temos tão poucas ideologias contra as quais lutar.
Além disso, essa coisa da Lady Gaga ser um personagem me parece que é uma das questões mais fortes nas nossas relações contemporâneas. Hoje, nós somos avatares no Twitter, no Facebook; podemos criar fakes, postar como “anônimos”, ou seja, as identidades estão muito moduláveis. Podemos nos “fantasiar” daquilo que quisermos nas redes sociais, na internet e, também, na vida. Daí a importância de Lady Gaga “jogar” com as identidades, “brincar” com seu corpo. Ela está reproduzindo uma prática que é bastante comum no nosso cotidiano.

IHU On-Line – Percebe influências de Madonna nos figurinos e na obsessão camaleônica de Lady Gaga? Por que a aparência é tão importante em suas apresentações?
Thiago Soares – É Madonna, mas acredito ser também uma necessidade midiática de se fazer interessante. Acredito que essa necessidade camaleônica não é uma relação direta de Madonna com Gaga. Parece-me que é uma necessidade de reconfiguração do próprio sistema de consumo dessas celebridades no campo da indústria da música. Creio que a aparência é relevante em suas apresentações porque Gaga leva ao extremo a ideia de que a performance é essencial na aparição da cultura pop. Para ela, performatizar está em todos os ambientes da vida. Está quando ela sai de casa, aparece na MTV, está no videoclip; quer dizer, essas instâncias estão todas semelhantes e ocupam espaço de valor dentro da lógica dela, que são muito parecidas e bastante análogas.

IHU On-Line – Por que Gaga “deu certo” e Ke$ha, que segue um visual trash, por vezes parecido com o de Gaga, não tem a mesma projeção ou impacto?
Thiago Soares – Não seria sensato atestar que “Ke$ha não deu certo”. Ke$ha tem projeção sim, mas sua trajetória na dinâmica midiática ainda é bastante inferior à da Lady Gaga. Se pensarmos em músicas como “Tik tok”, “We r who we r” e “Blow”, por exemplo, temos faixas que foram exaustivamente tocadas e tiveram seus clipes também muito bem exibidos. As matrizes performáticas de Lady Gaga e de Ke$ha são, de fato, bem parecidas. Elas flertam com o trash, com o grotesco, com a “bagaceira”. Mas acho que a Lady Gaga cerca seu discurso de uma carga mais “artística” e “autoral”. Ke$ha ainda está ligada a uma premissa de que é “nova” no campo das cantoras musicais…

IHU On-Line – Gaga disse que a cultura pop é sua religião, e para isso é preciso acreditar que seu trabalho nunca está finalizado, e que a arte é algo que transcende, que transforma. Em que medida essa concepção muda a forma como o artista pensa a arte na pós-modernidade?
Thiago Soares – Lady Gaga mistura tudo no seu trabalho: arte, comércio, performance, ficção, realidade. Tudo se amalgama e vira esse “caldo” interessante para a cultura pop. Na verdade, como estratégia de diferenciação, Lady Gaga se aproxima do campo da arte, da performance, do happening, para ocupar espaço midiático. É preciso pensar a questão da “cultura pop como uma religião” a partir da retranca do engajamento que as duas propõem.
Shows pop são, em certa medida, momentos de adoração dos ídolos, assim como a coisa da religião.
A questão da pós-modernidade pressupõe entender a arte e comércio sem limites claros, borrando suas “bordas”. Lady Gaga é assim: O que nela é arte, o que é comércio? Que corpo é aquele? Onde começa o personagem e onde termina a performer? Até quando ela vai durar? Essas são questões centrais para se pensar Gaga a partir de uma retranca pós-moderna.

FONTE: IHU Online

desperdício & consumismo: dois sintomas da mesma doença chamada capitalismo

 

Ao refletirmos sobre o trabalho artístico realizado por Vik Muniz e pel@s catadores do aterro do Gramacho nossas concepções sobre o que é lixo, e até mesmo nossa capacidade de visualizá-lo e mensurá-lo, podem modificar-se substancialmente. É curioso notar como a relação da maioria das pessoas com o lixo se processa de forma parecida à que mantemos com o ar que respiramos, algo ao mesmo tempo indispensável e invisível, algo que integra profundamente nossas vidas mas que tendemos a ignorar, ou a neutralizar sua percepção. É importante compreender que essa postura ambígua também correponde a um dos efeitos ideológicos da cultura hiperconsumista e parasitária que dinamiza visceralmente o sistema capitalista. Para entender melhor essa questão, bem como o conceito-chave de “obsolescência precoce” citado na excelente entrevista postada abaixo, recomendamos o vídeo “A História das Coisas”, produção norte-americana que se encontra disponível na íntegra e dublada para o português no YouTube, entre outros sites de midias (assista acima à primeira parte, clique no reprodutor para acessar o restante). A entrevista e o video oferecem referências básicas para uma discussão dos significados sociais de obras como as retratadas no filme Lixo Extraodinário, além de outras que buscam reconciliar a atividade artística com o interesse social, e assim superar a “morte da arte”, desenvolvendo temáticas & estéticas de cunho ecologista.

   

O triunfo do lixo?

Embora população brasileira seja equivalente a 3,06% do total mundial e seu Produto Interno Bruto (PIB) corresponda a 3,5% da riqueza global, os brasileiros descartam 5,5% dos resíduos planetários. O comentário é do geógrafo e sociólogo Maurício Waldman, autor, entre outros, do livro Lixo: Cenários e Desafios (Cortez, 2011).

A reportagem é de Manuel Alves Filho e publicado pelo jornal da Unicamp, 31 de outubro a 6 de novembro de 2011.

Se a humanidade vive a era do conhecimento, vive igualmente a era do lixo. Do ponto de vista quantitativo, a natureza movimenta, em seu ciclo normal, 50 bilhões de toneladas de materiais por ano. Os homens, por seu turno, movimentam 48 bilhões de toneladas no mesmo período, sendo que 30 bilhões são de resíduos. “Isso é muito mais do que o ambiente pode suportar”, sentencia o geógrafo e sociólogo Maurício Waldman, especialista no tema. Ele é o autor, entre outros, do livro Lixo: Cenários e Desafios, indicado como um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti 2011 na categoria Ciências Naturais. A obra é resultado da pesquisa de pós-doutoramento de Waldman, desenvolvida no Departamento de Geografia do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, sob a orientação do professor Antonio Carlos Vitte e com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq).

O lixo, conforme o pesquisador, tem sido um problema recorrente em todo o mundo, inclusive no Brasil. Não bastasse a humanidade estar crescendo e gerando cada vez mais resíduos, o quadro vem se agravando graças a inércia das autoridades públicas, que pouco têm feito para reciclar ou dar destinação adequada aos rejeitos. Ademais, a sociedade também não faz a sua parte ao aumentar exageradamente o consumo de bens e produtos e ao descartar sem cerimônia seus detritos em qualquer lugar. “O Estado não age e o cidadão não se movimenta. O resultado dessa combinação é dramático. A continuar assim, o lixo pode vir a inviabilizar a sociedade humana, pelo menos tal como a conhecemos”, adverte Waldman.

Aos que possam considerar as suas previsões apocalípticas, o pesquisador rebate com números. De acordo com ele, o Brasil, um dos países que mais sofrem com a problemática, é um grande gerador de lixo. Embora sua população seja equivalente a 3,06% do total mundial e seu Produto Interno Bruto (PIB) corresponda a 3,5% da riqueza global, os brasileiros descartam 5,5% dos resíduos planetários. “Quer outros dados? Pois bem, entre 1991 e 2000 a população brasileira cresceu 15,6%. No mesmo período, o país ampliou seus descartes em 49%. Em 2009, o incremento demográfico foi da ordem de 1%. Entretanto, a geração de rejeitos aumentou 6%. Trata-se de uma expansão perversa”, afirma.

No caso brasileiro, insiste Waldman, nada tem sido feito para equacionar a questão. “Infelizmente, não temos políticas públicas para essa área. Os únicos que têm trabalhado verdadeiramente em favor da sociedade são os catadores de lixo, que em vez de serem parabenizados, são discriminados e maltratados tanto pelas elites quanto pelo poder público. Para se ter uma ideia, dos resíduos secos gerados no país, 13% são recuperados. Destes, 98% são coletados pelos catadores e apenas 2% pelos programas de Coleta Seletiva de Lixo [CSL]. Em 2010, pasme, dos 5.565 municípios brasileiros, somente 142, ou 2,5% do total, mantinham algum tipo de parceria com esses trabalhadores. Eles são os grandes heróis nacionais do meio ambiente”, considera o geógrafo e sociólogo, que foi colaborador do sindicalista e ativista ambiental Chico Mendes, assassinado em 22 de dezembro de 1988.

Mas, se o problema do lixo é tão grave, por que as autoridades públicas não se preocupam em resolvê-lo? Na opinião de Waldman, o descompromisso ocorre porque, culturalmente, os resíduos sempre são considerados um problema do outro. “A única política adotada no país, se é que podemos classificá-la assim, é a da estética. Ou seja, o interesse primordial das autoridades é tirar os rejeitos da visão das pessoas e levá-los para um lixão ou, quando muito, para um aterro sanitário. A forma como esse lixo será tratado ou monitorado é outra questão. O importante, na concepção dessa corrente, é que a sujeira não fique à mostra”. O pesquisador destaca, ainda, que o lixo é basicamente uma questão conceitual. Na opinião dele, não é fácil identificar hoje em dia o que de fato é um resíduo. A propósito do assunto, o autor do livro Lixo: Cenários e Desafios relata uma breve episódio.

Waldman conta que tem na estante da sua sala uma estátua de bronze de Buda, embora não seja budista. Segundo ele, o objeto foi encontrado por um operário que trabalhava numa usina de reciclagem. “O trabalhador estava olhando para a esteira quando viu a imagem. Imediatamente, ele a recolheu e a recuperou. Depois, me presenteou. Ou seja, algum cidadão completamente insensato ousou jogar na lixeira a estátua de Buda, que é um símbolo religioso e que merece respeito por parte de todos nós, independentemente da religião que professamos. Aí é que eu pergunto: o que é lixo? Existe um padrão cultural que governa a cabeça das pessoas que as ajuda a definir o que é descartável ou não. Nem sempre, infelizmente, esse padrão é o mais sensato”.

Questões

Questionado sobre o que deve ser feito para que não ocorra o triunfo do lixo sobre a humanidade, o geógrafo e sociólogo faz algumas ponderações. Para alívio daqueles que estão sobressaltados com a leitura deste texto, ele inicia respondendo que o problema tem solução. Depois, afirma que há três questões a serem pensadas. A primeira delas é a necessidade de as pessoas adotarem um consumo mais consciente de bens e produtos. “Atualmente, cada brasileiro gera 3,5 quilos de lixo proveniente de equipamentos eletroeletrônicos por ano. É muita coisa. O cidadão tem que ter maior consciência de que não vale a pena trocar o celular X pelo Y apenas porque a versão mais recente do aparelho tem uma luz que pisca durante a ligação”, diz.

A segunda questão, prossegue Waldman, está no imperativo da mudança de postura da indústria, que trabalha com o conceito da obsolescência precoce, modelo de produção e consumo classificado pelo pesquisador como “pornográfico”. “Havia uma série de TV nos anos 70, intitulada Missão Impossível, na qual uma voz avisava ao personagem que a mensagem que ele estava ouvindo se autodestruiria em cinco segundos. O que a indústria faz é dizer aos consumidores que seu televisor ou lavadora de roupa se autodestruirá em 12 meses. Isso precisa mudar”, defende.

Por último, mas não menos importante, o pesquisador avalia que o Estado também tem que dar sua contribuição à causa do controle eficiente do lixo, formulando políticas públicas sérias e consequentes. “Tem gente idealista que tem trabalhado nesse sentido, como pesquisadores em universidades e institutos de pesquisa, mas isso infelizmente ainda não é regra geral”, lamenta. Deixar de dar aos resíduos tratamento e destinação adequados, conforme Waldman, não representa apenas um desrespeito ao ambiente e à qualidade de vida das pessoas. Significa também desperdício de dinheiro e oportunidades.

No entender do especialista, o Brasil poderia ampliar significativamente o índice de reciclagem do lixo, tanto o seco quanto o orgânico. “Aliás, muita gente, até quem se diz especialista no assunto, costuma cometer um erro gravíssimo ao citar unicamente a reciclabilidade do lixo seco. O úmido também é reciclável, visto que pode ser recuperado pelo ciclo da natureza. Algumas estatísticas apontam que a taxa de reaproveitamento dos resíduos no país poderia ser ampliada para 52% ou 59%. Além de menor agressão à natureza, isso representaria a geração de renda e trabalho. Um levantamento do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, órgão vinculado à Presidência da República] aponta que, na linha do tempo, nós já desperdiçamos US$ 8 bilhões por não reaproveitarmos o lixo. É um dinheiro que poderia ter sido aplicado na saúde, na educação e em programas de inclusão social”, imagina Waldman.

Retornando ao assunto da solução para o problema dos rejeitos, o pesquisador assinala que a questão não é somente brasileira, mas mundial. “Como dizia o geógrafo Milton Santos, de quem sou admirador, qualquer problemática global nos dias atuais não pode ser tratada por um grupo de ‘iluminados’. Os problemas globais precisam ser pensados coletivamente. É necessário unir conhecimentos e competências, além obviamente de envolver nas discussões os diversos segmentos da sociedade civil organizada. Sem essas iniciativas, dificilmente haverá saída”, alerta.

FONTE: IHU Online

iluminando o engajamento do poeta dos broquéis

 

A militância política de Cruz e Sousa

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Uelinton Farias Alves*

Nascido há 150 anos no porão de um velho sobrado pertencente a um militar que lutou na  Guerra do Paraguai, na antiga ilha de Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), na província de Santa Catarina, João da Cruz e Sousa (24-11-1861/19-03-1898) é hoje, sem sombra de dúvida, a maior referência da chamada escola simbolista brasileira; mas não é só. O seu legado literário — seja como poeta, seja como jornalista — soma-se à sua militância política durante o processo abolicionista, sobretudo após a eclosão desse movimento, que, em maio de 1888, teve nele um dos mais ardorosos próceres. Some-se a isso também a sua jornada existencial, em que uma falsa ideia de liberdade, igualdade e fraternidade — lema revolucionário, de origem francesa, difundido e defendido por ele — caiu totalmente por terra, sobretudo após o advento da República, de coloração positivista.

Cruz e Sousa, negro e filho de escravos, criado sob o forte regime escravista, foi educado nos moldes do padrão europeu, no Ateneu Provincial Catarinense, sob a tutela dos padres e dos catedráticos, mas jamais deixou de pensar e sentir como africano — ou agir, na esteira dos demais, como um dos seus descendentes. Na terra natal, mesmo na fase estudantil, tornou-se um caso raro entre os colegas do educandário, pela dedicação e pelo aproveitamento, apesar de ser aluno externo e filho de um “pobre jornaleiro, que tudo sacrifica pela educação dos filhos”.

Era aluno aplicado, um dos melhores de sua turma, derrubando, com o seu exemplo, estereótipos racistas em grande voga na época, sobretudo por meio de Cesare Lombroso, defensor da tese do “criminoso nato”, mas que no fundo atribuía erroneamente aos negros, especialmente aos negros, a pecha da incapacidade do aprendizado científico e da falta do desenvolvimento intelectual.

Sociedade local não admitia ver um “negro letrado”

A militância literária e política de Cruz e Sousa teve início durante a juventude. Começou a escrever para a imprensa local, publicando poesia e prosa, esta no formato de contos e crônicas. A prática jornalística o fez sonhar com o poder e a glória. Num arroubo de entusiasmo, diante do sucesso de suas conquistas, teria dito, num tom meio profético e desafiador, à noiva desterrense: “Hei de morrer, mas hei de deixar nome!” ou “Ainda hei de governar Santa Catarina!”.

Desenvolto e compenetrado, não percebia a sorrateira calda dos inimigos que lhe rondavam, prontos para aplicar o bote fatal: era visto como um negro moleque, pernóstico, folgado. Surgem daí as consequências: o irmão Norberto, embora tenha tido, como ele, sólida formação, precisou trabalhar como tanoeiro para sobreviver; a mãe, Carolina Eva da Conceição, passou a ser dispensada das casas das patroas, que não admitiam ver nos jornais os textos abolicionistas do filho da empregada, passadeira e quituteira. O próprio jornal que editava, “O Moleque”, deixou de constar na lista de convidados da comunidade francesa, no aniversário da Bastilha, pela razão de ser seu editor um homem negro.

Em um dos seus famosos sonetos, escrito já no final da vida, dizia: “Vê como a Dor te transcendentaliza!/ Mas do fundo da Dor crê nobremente./ Transfigura o teu ser na força crente/ Que tudo torna belo e diviniza.” Desde cedo, provou das agruras e da reação preconceituosa que a sua luta provocava. Mas não estava só. Relacionava-se com a comunidade familiar negra da ilha, que lhe ouvia ao piano, ou interagia com os jovens artistas de sua geração, que queriam espanar da terra a poeira da imbecilidade e da pieguice. Sabia que pagaria alto preço por suas ousadias, traduzidos no fechamento de portas de cargos públicos, censuras e deboches pelos jornais.

Sobreviver a isso era uma tarefa nem sempre prazerosa e fácil: a sociedade não admitia ver um negro elegante, falante e letrado, sem sotaques regionais, envolvido com a política e com as letras clássicas. Por que ele não enxergava, de fato, o seu lugar? Por que ele, afinal, não agia à luz dos seus irmãos de cor? Mas Cruz e Sousa, o negro provocador, sempre tocava na mesma tecla, em seus eloquentes discursos: “Não se liberta o escravo por pose, por chiquismo, para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa ante as nações disciplinadas e cultas. Não se compreende, nem se adaptando ao meio humanista, a palavra escravo, não se compreende da mesma forma a palavra senhor”. Não! Cruz e Sousa estava fadado a grandes voos. As provações da vida, que não lhe foram poucas, iriam persegui-lo até a hora da morte.

O fazer literário tornou-se para Cruz e Sousa um meio de vida e uma obsessão. Não que, ao transferir-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde logo se casou com a preta Gavita, dispensasse o magro emprego de Arquivista da 5 Divisão da Estrada de Ferro Central do Brasil. Mas gostava de fazer o que lhe dava mais prazer. Na repartição pública, a toda hora, precisava se livrar de um chefe mulato e racista. “É que eu lhe recordo a origem — dizia o poeta —, tenho talvez a mesma cor da mãe.” A chatura do emprego, as dificuldades financeiras, a família numerosa, a ronda da miséria cada vez mais próxima faziam com que a roda literária e a boemia do centro da cidade lhe oferecesse melhor regalo e conforto de espírito. Mas não convivia, como podia se supor, com os grandes: Machado de Assis, Olavo Bilac​, Araripe Júnior, Graça Aranha, Artur Azevedo​, José Veríssimo, Raimundo Correa ou José do Patrocínio. Ao contrário, sua roda de escritores era praticamente anônima e muitos, por incrível que pareça, nem obra publicada tinham: Oscar Rosas, Alvares de Azevedo Sobrinho, Pardal Mallet, Emiliano Pernetta, Virgílio Várzea, Araújo Figueredo, B. Lopes, Emilio de Meneses, entre outros.

A esta “plêiade” (para empregar um termo muito usado pelos parnasianos) é que Cruz e Sousa se liga no Rio de Janeiro para alçar o almejado voo literário e artístico. Dotado de grande talento imaginativo, consegue criar uma literatura de sugestão, de nuance, de plena sonoridade, de teor do vago, do indefinido e da espiritualidade, e que, no rastro da literatura portuguesa de Antero de Quental e Cesário Verde, ou francesa de Mallarmé e Baudelaire, absorveu o cromatismo dos nossos trópicos e se transformou, pela linguagem, carregada dos vestígios bantos, na ancestralidade do seu sangue africano, numa poesia nova, sensualizada e sonora: “Vozes veladas, veludosas vozes,/ Volúpias dos violões, vozes veladas,/ Vagam nos velhos vórtices velozes/ Dos ventos vivas, vãs, vulcanizadas”.

Lutando contra o meio adverso, estabeleceu uma guerrilha literária, à moda que empreendeu na província onde nasceu. Com isso, sofreu os reveses do aguerrido combate, ficando de fora do grupo de fundadores da Academia Brasileira de Letras, liderado por Machado e Lúcio de Mendonça, e que convidou para a Casa um Graça Aranha, à época sem qualquer livro publicado, enquanto Cruz e Sousa havia lançado, num único ano, o “Missal”, de prosa, e os “Broquéis”, de versos, ambos considerados inauguradores do simbolismo no Brasil.

Isolamento no fim da vida não diminuiu combatividade

A glória de Cruz e Sousa veio mesmo depois da sua morte. Magoado e só, restava ao poeta negro apenas cuidar da família e escrever, escrever, sem dar trégua para a tuberculose que lhe minava o organismo, agravada após os seis meses de loucura da mulher. O vate não se cansava de protestar, de pedir justiça, de cobrar responsabilidade dos poderosos. Sentindo que todos os olhos estavam voltados contra si, a imprensa amordaçada nas mãos do grupo rival, pouco lhe restava como alternativa à sua criação e à veiculação de sua profícua produção.

Já no final dos seus dias, alimenta ainda mais sua dor e seu ódio (“Ó meu ódio, meu ódio majestoso”, cantava no soneto “Ódio sagrado”). A doença faz dele um homem amargo e soturno, visionário, tornando a sua poesia noturna e levemente trágica. É nesse momento que se fecha, se enclausura, trancando-se na Torre de Marfim da sua criação e do seu isolamento. Vê-se ferido (“Alma ferida pelas negras lanças/ Da Desgraça, ferida do Destino,/ Alma a que as amarguras tecem o hino/ Sombrio das cruéis desesperanças”) e emparedado dentro do seu próprio sonho.

*UELINTON FARIAS ALVES é jornalista e escritor, autor da biografia “Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil” (Pallas Editora, 2008), entre outros livros.

FONTE: Combate ao Racismo Ambiental