o homem é o lobo dos livros

histooria destruição livros

«Não há livros. O Governo do Povo triunfou.»

Urbano Bettencourt

Paul Valéry propunha, num gesto  anti-positivista,  a escrita de uma História da Literatura  que abstraísse das minudências biográficas e se ocupasse apenas do Espírito, produtor e consumidor.

José Martins Garcia, escrevendo na última década do Estado Novo, falava na hipótese de uma História da Literatura a que determinadas obras nunca acederiam,  aquelas  que o mundo  aniquilara, não lhes dando condições de existência: as que nunca acederam ao domínio do público, por razões de ordem vária, desde as socialmente inconvenientes às rejeitadas pelos mecanismos  editoriais,  das esquecidas nas gavetas às destruídas pelo fogo “purificador”  ou mesmo àquelas que não puderam ser escritas porque o mesmo fogo consumiu os seus autores antes do tempo próprio. Em qualquer destes casos, teríamos sempre uma História funesta da Literatura, mais trágica talvez no caso daquelas obras que tiveram, um dia, existência efetiva e acabaram destruídas por obra e (des)graça do fogo «purificador».

De algum modo, a História Universal da Destruição dos Livros, de Fernando Báez (Texto Editores, 2009), corresponde a este projeto de  relato dos diferentes modos  como a barbárie humana se fez sentir sobre os livros, das situações históricas em que isso aconteceu e também das motivações diversas que estiveram na sua origem. O subtítulo da obra, Das tabuinhas sumérias à Guerra do Iraque, define  desde logo os seus limites cronológicos e proporciona  ao leitor uma perspetiva  da extensão real da destruição e das perdas, algumas delas irremediáveis: de um tempo remoto até às portas da nossa contemporaneidade, a destruição de documentos escritos e de livros acompanha a humanidade como um sinal inegável da sua desumanidade e selvajaria, às vezes apenas o sinal do seu descuido ou desinteresse.

Não por acaso, o autor abre a  Introdução com um apontamento sobre o Iraque, aonde chegou em 2003,  na sua qualidade de membro de uma comissão de investigação aos danos provocados pela Segunda Guerra do Golfo. E terminará a obra com um longo capítulo sobre essa mesma destruição. A sua presença na comissão justificava-se pelo facto de Fernando  Báez, venezuelano, ser reconhecido como uma autoridade mundial no campo da história das bibliotecas. 

História Universal da Destruição dos Livros  traça um percurso de destruição que começa no Mundo Antigo, passa por Constantinopla para desembocar no século XIX, percorrendo depois o século XX e os primeiros anos do XXI. É uma história em que se cruzam ódios étnicos e preconceitos, de natureza religiosa, ética ou sexual,  em que a censura,  a autocensura  e a retratação se aliam às práticas efetivas da fogueira, das bombas,  da perseguição, das purgas: do Santo Ofício à fatwa de Khomeini sobre Rushdie talvez não vá mais do que o passo de um anão; do bibliocausto nazi (sob as ordens de um homem que era leitor compulsivo) à destruição maciça de obras durante a Revolução Cultural chinesa (por inspiração de um Mao Tsé-Tung que até se dava às musas)  a distância não é tão grande como isso,  nem tão díspares as motivações de um e outro, entre a «pureza» da raça e a «pureza» das ideias. Jogando com o lugar-comum, poder-se-ia dizer aqui que o ódio ao livro não tem cor, da esquerda à direita, e não conhece fronteiras, a ocidente e a oriente. Junte-se a isso a prática editorial da queima ou da guilhotina, a destruição dos livros por processos naturais.

A inscrição que titula esta crónica encimou vários meses a entrada principal da Biblioteca Nacional do Camboja, em 1967. Lá dentro, o Povo convivia harmoniosamente com os soldados, os porcos e as galinhas, no mesmo espaço que antes fora sala de leitura. «Os poucos livros que tinham sobrevivido eram utilizados em trabalhos quotidianos ou para embrulhar cigarros», escreve Fernando Báez (p.167). O episódio faz pensar, pela diferença de desfecho, naquele que Natália Correia relata em Não percas a Rosa: «A prevenção condiz com ameaças escritas e telefónicas que quase diariamente recebo, provocações em lugares públicos e, mais proximamente, com os olhares fuzilantes dos podengos da Comissão de Moradores. Pela terceira vez,  subiram ao meu quinto andar para perguntarem, numa velada ameaça de ocupação, quantas divisões tinha a minha casa. Apanharam sempre com a porta na cara até que na última investida lhes disse com o desprezo que esse tipo de caça me inspira: “São poucas para a minha biblioteca e se não sabem o que é isso vão aprender a ler.” (entrada de 15 de Novembro de 1975;  p. 339).

E depois há a contabilidade: milhares aqui, dezenas de milhar ali, em quantos milhões de livros destruídos podemos  pensar? Independentemente dos números finais, Báez escreve que 40% dos livros destruídos o foram devido  a desastres naturais, acidentes, animais, mudanças culturais e mesmo à degradação inevitável dos próprios suportes; os restantes 60% devem-se à deliberada  ação do homem, num ritual que é sempre o de apagar a memória.

E, como a referência aos políticos do século XX já deixara supor, nem sempre a destruição de livros é da autoria de povos ou de homens incultos e ignorantes. Os exemplos são muitos. Um deles reporta-se ao  romancista Vladimir Nabokov, que,  no Memorial Hall,  queimou o Dom Quixote perante seiscentos alunos.  Ritual do fogo e reversão irónica  da história: o primeiro grande romance moderno tem como um dos episódios de referência aquele em que o cura e o barbeiro se entregam à sanitária  tarefa de queimar os livros da biblioteca de Alonso Quijano, que seriam os responsáveis pela insanidade mental deste último  (nos termos, traduzidos,  do próprio Cervantes: o «donairoso e grande escrutínio que o cura e o barbeiro fizeram na livraria do nosso engenhoso fidalgo»;  cap. VI, primeira parte). Como essa queima era já a alusão às práticas  da Inquisição, o que aqui se configura especularmente  é o «movimento perpétuo» da destruição dos livros.

FONTE: PNETliteratura

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