lançamento em Salvador de Dicionário Yorubá-Português

Clique na imagem para saber mais acerca dessa iniciativa que reforça o suporte bibliográfico para aplicações mais profundas da lei 10639.

dicionario yoru-port

Anúncios

panorama atualizado sobre os hábitos de leitura no Brasil

 

Centrando-se no mapeamento quantitativo, a nova edição da pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro oferece dados úteis para a visualização em escala nacional de perfis de leitores, assinalando preferências e tendências que precisam certamente ser ponderadas pela ação pedagógica voltada para modificar uma situação ainda muito insatisfatória, no que diz respeito à disseminação e diversificação da cultura da leitura em nossa sociedade. Para os estudantes da LET C46 e da LET A25, disciplinas centradas na problemática da formulação e legitimação de cânones, será um exercício interessante analisar de que maneira as seleções do cânone popular evidenciadas na pesquisa convergem, ou não, com as listagens de obras consagradas nos cânones institucionais e acadêmicos. Clique na imagem abaixo para acessar o arquivo pdf da pesquisa:   

retratos leitura 2012 capa

 

escritor mais admirado_RDL2012

 

livro marcante_RDL2012

 

penetração leitura_RDL2012

aprender a ser outro(s) através da literatura: desafio comum para brasileiros e africanos

Victor Ekpuk (Nigeria)_You Be Me, I Be You

 

Útil para nossos estudos na LETA25 (O Cânone Literário Brasileiro) e na LET C47 (Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e o Cânone Ocidental), o artigo de Eliane Brum discute questões básicas para compreendermos como se estabelecem, na prática, relações entre língua, identidade, literatura e poder, relações que desempenham um papel influente nas interações e nos entrechoques culturais que constróem o mundo globalizado contemporâneo. No caso das literaturas produzidas no Brasil e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), a inserção ou a marginalização de seus respectivos autores e obras no cânone literário “universal” dá-se no bojo de um processo que, ainda distante de um genuíno diálogo entre formas diversas de ficcionalizar, mostra-se fortemente balizado pelos preconceitos e limites que a mentalidade eurocêntrica estabelece buscando normatizar e homogeneizar os diferentes valores civilizacionais. Conforme aponta a jornalista, ao se deixarem enquadrar nas molduras estereotipadas das identidades globais, as sociedades nacionais e os grupos étnicos sacrificam a criatividade cultural que lhes possibilita confrontar seus desafios históricos de maneira ativa.


A língua que somos, a língua que podemos ser

O que é pior: ser visto como um clichê ou ser ignorado? Como os outros não nos veem – e como nós não vemos os outros de nós. Uma reflexão sobre o Brasil, a literatura e o poder

Eliane Brum

A alemã Anja Saile é agente literária de autores de língua portuguesa há mais de uma década. Não é um trabalho muito fácil. Com vários brasileiros no catálogo, ela depara-se com frequência com a mesma resposta de editores europeus, variando apenas na forma. O discurso da negativa poderia ser resumido nesta frase: “O livro é bom, mas não é suficientemente brasileiro”. O que seria “suficientemente brasileiro”?

Anja (pronuncia-se “Ânia”) aprendeu a falar a língua durante os anos em que viveu em Portugal (e é impressionante como fala bem e escreve com correção). Quando vem ao Brasil, acaba caminhando demais porque o tamanho de São Paulo sempre a surpreende e ela suspira de saudades da bicicleta que a espera em Berlim. Anja assim interpreta a demanda: “O Brasil é interessante quando corresponde aos clichês europeus. É a Europa que define como a cultura dos outros países deve ser para ser interessante para ela. É muito irritante. As editoras europeias nunca teriam essas exigências em relação aos autores americanos, nunca”.

Anja refere-se ao fato de que os escritores americanos conquistaram o direito de ser universais para a velha Europa e seu ranço colonizador – já dos brasileiros exige-se uma espécie de selo de autenticidade que seria dado pela “temática brasileira”. Como se sabe, não estamos sós nessa xaropada. O desabafo de Anja, que nos vê de fora e de dentro, ao mesmo tempo, me remeteu a uma intervenção sobre a língua feita pelo escritor moçambicano Mia Couto, na Conferência Internacional de Literatura, em Estocolmo, na Suécia. Ele disse:

– A África tem sido sujeita a sucessivos processos de essencialização e folclorização, e muito daquilo que se proclama como autenticamente africano resulta de invenções feitas fora do continente. Os escritores africanos sofreram durante décadas a chamada prova de autenticidade: pedia-se que seus textos traduzissem aquilo que se entendia como sua verdadeira etnicidade. Os jovens autores africanos estão se libertando da “africanidade”. Eles são o que são sem que se necessite de proclamação. Os escritores africanos desejam ser tão universais como qualquer outro escritor do mundo. (…) Há tantas Áfricas quanto escritores, e todos eles estão reinventando continentes dentro de si mesmos.

Esta conferência de Mia Couto faz parte de um livro de ensaios belíssimo chamado “E se Obama fosse africano?” (Companhia das Letras). Indico com vários pontos de exclamação. Os ensaios de Mia Couto são tão inspiradores quanto seus romances. E o que ele diz sobre a África talvez pudesse ser dito sobre o Brasil, este país que é também um continente. E sobre todo um pedaço do planeta do qual se espera que seja de uma determinada forma.

Se ler um livro é ousar se abrir para o outro, exigir que o outro seja como você o imagina é o avesso da experiência literária. Se os editores europeus esperam que sejamos os outros que querem que sejamos, já não somos os outros, mas o estrangeiro domesticado que mora dentro deles. E assim, com um estrangeiro de estimação habitando o seu imaginário, já não precisam nos estranhar. E com isso perdemos todos. Os leitores europeus – que como nós nada têm de homogêneo e contêm tantas diferenças quanto possível – porque abrem mão de estranhar. E nós porque perdemos a chance sempre rica de que nos estranhem.

Nos Estados Unidos, apenas 3% de todas as obras publicadas foram escritas em outras línguas que não o inglês. Esta ínfima parcela abarca todos os outros idiomas e todos os gêneros, de livros técnicos à ficção. Se formos pensar apenas em literatura e poesia, o porcentual baixa para 0,7%. Não sei se existem estatísticas sobre qual é a fatia da língua portuguesa neste quase nada, mas parece evidente que é insignificante. Na tentativa de reverter o que chama de “shame” (vergonha), a Universidade de Rochester criou, em 2007, um site chamado Three Percent , para debater e divulgar todos esses universos literários que têm quase tanta dificuldade de ultrapassar as fronteiras dos Estados Unidos quanto os imigrantes ilegais. E, mesmo quando superam as barreiras, pouco ou nenhum espaço encontram na imprensa americana.

Uma língua não é apenas um amontoado de palavras que serve para se comunicar, mas um jeito de ser e de estar, de compreender o mundo e a si mesmo, o fora e o dentro. Em cada língua há um universo inteiro, e cada falante a recria a partir de sua experiência. É por isso que a língua é viva e mutante. Se o português falado no Brasil tivesse permanecido o mesmo de cem anos atrás é porque já estaríamos todos mortos. Como disse Fernando Pessoa, nós não habitamos um país, mas uma língua. E aqueles que são os últimos falantes de uma língua morta, porque para ser viva é preciso de um outro que também more nela, tem de renascer em outro idioma para que a vida seja possível. Ninguém vive para além das fronteiras da linguagem.

Saber que apenas 3% dos livros publicados nasceram em imaginários outros diz mais dos Estados Unidos do que de todos aqueles que não são vistos por eles. Na grande potência mundial – ainda que em crise – não se trata apenas de uma exigência de estereótipos, como na Europa, já que não há nem mesmo o interesse pelo clichê do outro. No caso dos Estados Unidos, não é necessário fingir estranhamento, já que parecem desconhecer que estranhar é preciso. A experiência de se abrir para a experiência do outro é ignorada. Ignorada como um não saber que há algo ali que vale a pena. Mesmo que faça todo o sentido por qualquer ângulo que se olhe, de Hollywood à política externa americana, ainda assim me parece espantoso que a língua que se impõe sobre o mundo seja também aquela que é fechada para o mundo de (quase) todos os outros. E isso, com certeza, explica muita coisa.

Não saberia dizer o que é pior: se a exigência de um clichê de Brasil também na literatura – o “suficientemente brasileiro” com que Anja Saile se depara no contato com os editores europeus – ou a indiferença até mesmo pelo clichê. Acho que a segunda realidade é mais nefasta, porque ao buscar o outro, ainda que seja pelo lugar comum, existe ao menos o risco de encontrar algo que subverta as expectativas e vire os mundos de ponta-cabeça.

E aqui, mais um pouco de Mia Couto:

– O mesmo processo que empobreceu o meu continente está, afinal, castrando a nossa condição comum e universal de contadores de histórias. (…) O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso. Os autores africanos que não escrevem em inglês – e em especial os que escrevem em língua portuguesa – moram na periferia da periferia, lá onde a palavra tem de lutar para não ser silêncio.

Quem já viajou à Europa e aos Estados Unidos sabe que é quase impossível encontrar um guia de cidade, museu ou local histórico em português. É preciso se virar com o espanhol, se não souber inglês. No final de 2011, a imprensa deu destaque ao fato de que os brasileiros gastam o dobro do que os outros turistas em Nova York, e muitas lojas já mantêm um vendedor que fala português para facilitar a venda a clientes tão promissores. A economia está colocando a nossa língua pelo menos na boca de garçons e balconistas pelos circuitos turísticos do mundo rico em tempos de crise.

Será que o lugar de potência emergente conquistado pelo Brasil vai aumentar o interesse pela nossa literatura ou pelo nosso modo de ser? A nova posição do país no cenário internacional já começa a produzir novos clichês não só do mundo sobre o Brasil – mas do Brasil sobre si mesmo. O marketing e a propaganda estão aí para provar como se transforma imagem em verdade. Acredito que o estudo dos novos clichês que estão sendo produzidos fora e dentro do Brasil, sobre o Brasil, seja um caminho bem fascinante para compreendermos o momento vivido.

Isso me faz virar o olhar pelo avesso para que possamos enxergar melhor. Como qualquer um sabe, não somos apenas um Brasil, mas muitos. Só de Amazônias temos dezenas, talvez centenas e até milhares. Não há um semiárido, mas uma profusão deles. Assim como são muitos e diversos os Rios de Janeiro e é necessário mais de uma vida para alcançar todas as São Paulo só para descobrir que elas mudaram. Me parece que o Brasil se mantém unido pela sua diversidade – e pela forma de olhar para a sua diversidade. Neste percurso, a música foi bem mais importante do que a literatura.

Me preocupa, porém, a forma com que temos olhado para os outros de nós em um momento com tantas decisões em curso. Em geral, a partir do próprio umbigo e com as fronteiras eletrificadas. Uma parte significativa do que chamamos de brasileiros parece misturar o olhar europeu e o olhar americano, aqui explicitados pela literatura, ao se relacionar com tudo o que compreendemos como o outro. Sejam os miseráveis do Bolsa Família, classificados por uma categoria de renda que anularia suas diferenças; sejam os índios, que são vistos como se fossem todos iguais e, em geral, como um “entrave ao progresso”.

Talvez os indígenas sejam a melhor forma de ilustrar essa miopia, forjada às vezes por ignorância, em outras por interesses econômicos localizados em suas terras. Parte da população e, o que é mais chocante, dos governantes, espera que os indígenas – todos eles – se comportem como aquilo que acredita ser um índio. Portanto, com todos os clichês do gênero. Neste caso, para muitos os índios não seriam “suficientemente índios” para merecer um lugar e para serem escutados como alguém que tem algo a dizer.

Outra parte, que também inclui gente que está no poder em todas as instâncias, do executivo ao judiciário, finge que os indígenas não existem. Finge tanto que quase acredita. Como não conhecem e, pior que isso, nem mesmo percebem que é preciso conhecer, porque para isso seria necessário não só honestidade como inteligência, a extinção progressiva só confirmaria uma ausência que já construíram dentro de si.

O modelo de desenvolvimento com que vamos alcançar o futuro depende de como olhamos para os outros de nós e de que lugar ocuparão os outros de nós. Se não acolhermos a diversidade e a usarmos para sermos um Brasil mais igualitário – onde todos sejam igualmente diferentes – não acredito que exista muito futuro para nós, mesmo que o presente pareça promissor. O “Milagre Econômico” da ditadura militar também parecia muito promissor à parcela da sociedade brasileira que dele se beneficiou – e sabemos muito bem como isso terminou.

Para sermos grandes – com um conceito de grandeza que não se mede apenas em cifras – será vital inaugurarmos um jeito de olhar diferente tanto para o nosso próprio continente – onde começamos a nos impor como uma espécie de “Estados Unidos da América do Sul”, como ouço com tristeza cada vez que coloco os pés nos países vizinhos – como na forma como olhamos para dentro de nossas fronteiras. Inaugurar não um olhar condescendente – mas um olhar de quem sabe que tem algo a aprender com o outro.

O que seremos, me parece, será definido pela resposta que daremos a três impasses:

1) Se vamos conseguir construir um modelo de desenvolvimento baseado no século XXI – e não no século XX, como me parece que é o atual;

2) Se vamos acolher os conflitos e dialogar com as culturas dos vários Brasis que nos compõem ou vamos exterminá-los à força, ainda que seja pela força da manipulação da lei;

3) Se vamos conseguir vencer o desafio da educação, mas não só isso: se a inclusão pela escrita será capaz de abarcar a riqueza da nossa oralidade em lugar de silenciá-la.

O que o Brasil será vai depender da sua capacidade – ou não – de incluir todos os outros de si.

No desafio que nos espera, é preciso lembrar que nós não temos língua – somos língua.
Como disse Mia Couto, de forma magistral, na conferência já citada:

– O que advogo é um homem plural, munido de um idioma plural. Ao lado de uma língua que nos faça ser mundo, deve coexistir uma outra que nos faça sair do mundo. De um lado, um idioma que nos crie raiz e lugar. De outro, um idioma que nos faça ser asa e viagem.

Para “ser asa e viagem” é preciso acolher todos os outros de si. Não tolerar o outro, mas ser o outro.

Veremos.

FONTE: Revista Época

filho de Steve Biko visita Salvador

“Há relação entre negros e pobreza”, diz Nkosinati Biko

Luan Santos

Segundo Biko, a África do Sul é o país de maior lacuna econômica entre ricos e pobres

Apesar do apartheid ter acabado, a desigualdade racial ainda impera na África do Sul. É o que afirma o escritor Nkosinati Biko, 41 anos, filho do ativista antiapartheid Steve Biko, morto em 1977. Em visita a Salvador, Biko conversou com a reportagem de A TARDE, na sede do instituto que leva o nome de seu pai, localizada no Pelourinho.

Qual o legado que Steve Biko deixou para o mundo?
Meu pai nos ensinou a trabalhar o aspecto psicológico do racismo, a não nos menosprezarmos. Por um lado, nos mostra que a discriminação racial é fruto da colonização e, por isso, ainda é tão forte, porque é uma questão histórica. Por outro lado, Steve Biko nos ensina a lidar com a pressuposição de superioridade, que não somos inferiores. Ele dizia que todos somos humanos e iguais.

Graças a ativistas como Steve Biko, o apartheid acabou. Como está a África do Sul após o fim deste regime?
A África Sul é o país em que se encontra a maior lacuna econômica entre ricos e pobres, pois a renda se concentra nas mãos de poucos. Tivemos um grande crescimento econômico, mas esta performance não se reverte em benefícios para toda a população. Temos ainda muitos desafios pela frente no que diz respeito à educação, saúde, desemprego, pobreza e muitos outros fatores.

O senhor acredita que na África do Sul a pobreza está relacionada à negritude?
Sim. Os mais pobres da África do Sul são negros. Então, há sim uma relação entre negritude e pobreza. Não acredito, porém, que isto se restrinja à África do Sul, mas ao Brasil  e outros países também.

Qual o principal motivo de as desigualdades permanecerem mesmo após o fim do apartheid?
O Brasil foi colonizado segundos os padrões impostos pelos portugueses. Outros foram colonizados por ingleses, alemães e italianos. Mas há uma questão que é comum a estas colonizações: elas utilizaram a raça para distinguir as pessoas, conferindo valores diferentes para grupos raciais diferentes. Historicamente, as diretrizes políticas e as regras negavam às pessoas os direitos iguais. E isto acabou criando nos negros uma sensação de autoexclusão. Por isso, é importante trabalhar a autoestima.

Como está a questão democrática na África do Sul pós apartheid?
Qualquer pessoa que acredite na democracia, reconhecerá que há um ar de liberdade política que é inegável no contexto sul-africano. Todos têm o direito de votar e já fizeram isso em três ocasiões consecutivas. E isto está acontecendo em todo o continente africano. Nos últimos  5 anos, ocorreram 50 eleições no continente, todas de forma pacífica.

Qual a principal reinvidicação da população negra na África do Sul?
Queremos é um sistema que recompense aquele que trabalha mais na sociedade, independente da cor da sua pele. Não faz sentido que tenhamos um grupo tão amplo da população operando nas margens do sistema econômico e sendo mal recompensado. Creio que isto também é aplicável no Brasil.

Quais são os principais desafios para acabar com as desigualdades raciais?
Eu não acredito que seja possível fazer transição sem que haja sacrifício em nível nacional. Esta é uma questão que a África do Sul ainda precisa dialogar. Precisamos concordar, de forma coletiva, sobre um programa nacional que pessoas que têm muitos privilégios percam um pouco deles para favorecer aqueles que mais trabalham.

Para finalizar, quais são suas principais memórias de Steve Biko?
Quando ele morreu, eu tinha apenas seis anos. Mas lembro que quando ele ficou em prisão domiciliar, estava o tempo todo conosco. Então empinávamos pipa e brincávamos no jardim. Até que um dia ele saiu de casa, se despediu de nós e, dias depois, ficamos sabendo de sua morte, o que foi muito doloroso.

FONTE: A Tarde


LEIA MAIS SOBRE A ESTADIA DE NKOSINATI BIKO NA ENTREVISTA FEITA PELA AFROPRESS

incrementa-se no Brasil a disseminação das literaturas africanas

A arte e a política de Wole Soyinka, ganhador do Nobel

Escritor e dramaturgo nigeriano, que virá ao Brasil em abril para lançar seu primeiro livro traduzido no país, fala sobre sua obra e sua história de ativismo

Numa das noites experimentais do Royal Court Theatre, espaço alternativo que começava a ganhar fama na Londres do fim dos anos 1950, Wole Soyinka, então um jovem aspirante a escritor recém-chegado da Nigéria, foi escalado para o papel de guarda de campo de detenção. A peça era inspirada no massacre de Hola, cometido no Quênia em 1959, quando agentes coloniais britânicos espancaram até a morte um grupo de prisioneiros nacionalistas. Minutos antes de entrar em cena, porém, Soyinka desistiu de atuar. O pequeno conflito que se seguiu a essa decisão, com os atores puxando o colega rebelde para o palco diante da plateia estupefata, diz mais que mil ensaios sobre os dilemas de representar a violência por meio da arte.

Muito tempo depois, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1986, Soyinka relembrou a cena em seu discurso, justificando aquela recusa com uma série de perguntas: “Quando a representação é rejeitada pela realidade? Quando a ficção se torna presunçosa?”. Essas questões são centrais para um escritor e dramaturgo que sempre esteve profundamente envolvido com a política nigeriana, da luta pela independência contra as forças britânicas e a subsequente guerra civil, nos anos 1960, até hoje. Em 2010, ajudou a fundar um partido, a Frente Democrática por uma Federação do Povo, para enfrentar a coalizão conservadora que governa a Nigéria há mais de uma década.

Autor será publicado no país pela primeira vez
Às vésperas de vir ao país para a primeira edição da
Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que acontece em Brasília entre 14 e 23 de abril, Soyinka se define, em entrevista ao GLOBO, como “um artista que não consegue se isolar das atualidades”.
— Às vezes a realidade reprova a atitude do artista de se apropriar dos mistérios e tragédias de outros. É uma relação de quase “distanciamento”, mas um distanciamento paradoxal, já que o artista escreve de dentro do meio social e nunca está totalmente distante. No entanto, alguns escritores, por temperamento, são mais afetados, às vezes até sobrepujados, pela realidade. Como escrever sobre o Camboja de Pol Pot? Ruanda? Darfur? Como um escritor sírio pode manter a fé na criatividade durante o massacre em andamento lançado por Bashar Al-Assad [presidente da Síria] contra seu próprio povo? Como não entender se esse escritor jogar seu laptop no inferno que um dia foi a casa de um vizinho e pegar a Kalashnikov mais próxima? — provoca o escritor.
Aos 77 anos, Soyinka se equilibra há décadas nesse “distanciamento paradoxal” entre arte e política. Essa tensão também está representada em sua vasta e diversificada obra, que passa por teatro, poesia, romance e ensaio, e só agora começará a ser publicada no Brasil. Durante a Bienal de Brasília, a Geração Editorial lançará uma tradução de “The lion and the jewel” (“O leão e a joia”), uma de suas primeiras peças, escrita no fim dos anos 1950, durante sua estada na Inglaterra, e publicada pela primeira vez em 1963.

Com um humor satírico e uma mescla inovadora de traços estéticos ocidentais e africanos, “O leão e a joia” é, ao mesmo tempo, uma exceção e um caso representativo na obra de Wole Soyinka (ver artigo abaixo). Situada numa aldeia nigeriana, a peça é protagonizada por um jovem professor educado nos moldes europeus e um velho líder local, que disputam o amor da mulher mais bonita da região. A estrutura aparentemente simples, explica Soyinka, serve tanto para falar em chave de comédia sobre “a antiga batalha dos sexos” como para investigar “o que constitui a modernidade e a tradição”.

Leia mais: Sátira e tragédia do colonialismo na obra de Wole Soyinka

Parte importante dessa investigação é conduzida através de uma apropriação criativa da cultura iorubá, que compreende a maior parte da população da Nigéria. As peças de Soyinka, tanto tragédias quanto comédias, são repletas de referências a rituais, danças e orixás (seu preferido é Ogum, que representa “a dualidade do homem em seus aspectos criativo e destrutivo”, diz). Mas o resgate desses elementos tradicionais não é uma forma de idealizar a cultura africana em oposição à ocidental, ressalta.
— Cresci na cultura iorubá e a evoco constantemente como uma crítica de outras culturas e sociedades, mas não como uma alternativa perfeita e impecável. Contudo, ela é uma opção. E isso é cada vez mais importante num mundo percebido e apresentado em termos de oposições binárias entre cristianismo e islamismo. A cultura iorubá considera essa divisão ressentida e arrogante, especialmente se levamos em consideração sua história sanguinária de preconceito, intolerância e expansionismo assassino — diz o escritor, nascido em Abeokuta, no oeste da Nigéria.

Relação com o Brasil foi importante na carreira
A grande presença da cultura iorubá no Brasil fez com que Soyinka tivesse, desde cedo, uma relação próxima com o país. Em um ensaio sobre Lagos, ele nota como a megalópole nigeriana deve muito de sua identidade aos escravos retornados do outro lado do Atlântico: da arquitetura à culinária, da música aos sobrenomes como Pacheco e Silva. Em suas pesquisas sobre as formas dramáticas tradicionais da África, o escritor se deparou com a sobrevivência de muitos desses rituais no Caribe e no Brasil. Soyinka considera fundamental para sua carreira o contato com pesquisadores brasileiros na Nigéria, entre eles o crítico literário Antonio Olinto, adido cultural em Lagos nos anos 1960, e sua mulher, Zora Seljan, que publicaram diversas obras de ficção e ensaios em torno de temas africanos.

Soyinka conheceu Olinto (que morreu em 2009) e Zora (que morreu em 2006) depois de voltar da Inglaterra, onde passou boa parte da década de 1950, primeiro na Universidade de Leeds e depois em Londres. Na capital britânica, além de “O leão e a joia”, escreveu outra peça, “The swamp dwellers” (“Os habitantes do pântano”, em tradução livre). Retornou ao país natal no início dos anos 1960, para dar aulas e pesquisar teatro africano nas Universidades de Lagos, Ibadan e Ife. Nas décadas seguintes, embora tenha experimentado vários gêneros literários, dedicou-se sobretudo ao teatro e pensou em si mesmo sempre como um dramaturgo.
— O teatro oferece a própria vitalidade humana como meio de transmissão. Isso é algo incomparável — justifica Soyinka, que ficou conhecido em seu país por peças como “A dance of the forests” (“Uma dança das florestas”), apresentada nas celebrações da independência nigeriana, em 1960, e alertava para o risco de uma repetição dos erros do período colonial.

Ao mesmo tempo em que consolidava seu prestígio artístico, Soyinka se afirmava como um dos principais intelectuais públicos da Nigéria. Teve uma atuação destacada contra a guerra civil deflagrada pouco depois da independência e, por isso, foi preso em 1967. Passou 22 meses na cadeia, a maior parte deles na solitária. Mesmo detido, continuou a ter suas peças encenadas na Nigéria e no exterior — ainda em 1967, “O leão e a joia” ganhou uma montagem em Accra, capital de Gana. Depois de ser libertado, continuou a escrever e a militar, o que o obrigou a enfrentar alguns períodos de exílio.
— Apesar dessas ausências instigadas pela política, nunca realmente deixei a Nigéria, porque minha perspectiva do país sempre foi interna — pondera.

Escritor é ameaçado de morte por extremistas
Hoje, a Nigéria continua no centro de suas preocupações. Além dos protestos contra a corrupção e o autoritarismo, suas bandeiras de toda a vida, Soyinka tem alertado os compatriotas para o risco iminente de uma nova guerra civil, dessa vez provocada pela ascensão do fanatismo religioso. No mês passado, ele denunciou à imprensa nacional que está ameaçado de morte pelo grupo extremista islâmico Boko Haram, que domina parte da região norte e, por meio de uma série de atentados nos últimos anos, exige a implantação no país da sharia (código religioso muçulmano).
— Vivemos o risco de uma guerra civil, e uma muito grave. A corrupção é curável. Não totalmente, porque nenhuma nação jamais conseguiu isso, mas pode ao menos ser controlada por meio de punições rigorosas e de uma sociedade civil alerta e resoluta. Mas a manipulação religiosa é a faísca fatal — alerta.

Intitulado “Este passado precisa abordar seu presente”, o discurso de Soyinka na cerimônia do Nobel, que começava com a lembrança do jovem ator-escritor indeciso sobre como lidar com a violência por meio da arte, terminava com uma denúncia vigorosa das consequências do projeto colonialista europeu na África, mesmo após as independências. Mais de duas décadas depois daquele dia, o escritor acredita que ainda há muito que combater:
— O racismo continua entre nós, e não é só uma questão da cultura e da filosofia ocidentais. Estereótipos e preconceitos só mudam de local e de contexto, não desaparecem. A ascendência de noções religiosas anacrônicas, com sua bagagem de intolerância, faz com que o presente esteja cada vez mais à beira do abismo. A Nigéria é o nosso exemplo atual mais sério.

FONTE: O Globo

não haverá revolução na educação sem compromisso concreto com a valorização daqueles que produzem e semeiam o saber

novo-piso-professores-2012

 

Nove estados ainda não pagam valor do piso nacional dos professores para 2012

O Ministério da Educação (MEC) anunciou na última semana o valor do piso nacional do magistério para 2012: R$ 1.451. Mas apenas em 18 unidades da Federação os professores da rede estadual receberão na folha de pagamento de março valor igual ou superior ao definido pela lei.

Levantamento feito pela Agência Brasil, com informações repassadas pelas secretarias estaduais de Educação, mostra que 12 estados já praticavam valores superiores ao estipulado para este ano e seis reajustaram a remuneração do seu quadro logo depois que o MEC anunciou o aumento.

A Lei do Piso foi sancionada em 2008 e determina um valor mínimo que deve ser pago aos professores da rede pública com formação de nível médio e carga horária de 40 horas semanais. Pelas regras, o piso deve ser reajustado anualmente a partir de janeiro, tendo como critério o crescimento do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Entre 2011 e 2012, o índice foi 22% e o valor passou de R$ 1.187 para R$ 1.451.

Governos estaduais e prefeituras alegam dificuldade para pagar o novo piso e 11 ainda não garantem a remuneração mínima. No Ceará, o estado pagava o valor do piso até 2011 mas, com o reajuste, aguarda a aprovação de um projeto de lei pela Assembleia Legislativa para aumentar a remuneração dos profissionais. Em Alagoas, o piso também era cumprido até o ano passado e segundo nota divulgada pela Secretaria de Educação, “o desejo do governo é continuar pagando”, mas antes será feito “um estudo do impacto financeiro da implantação”. A mesma situação se repete em Santa Catarina.

O Piauí também pagava o piso até 2011 e, segundo a secretaria, deverá começar a cumprir o novo valor a partir de maio. O governo do Amapá informou que está em negociação com o sindicato da categoria para definir como se dará o reajuste para atingir o piso.

O Rio Grande do Sul, a Bahia e o Tocantins não têm previsão de quando irão cumprir os R$ 1.451 determinados para 2012. A Secretaria de Educação do Paraná se negou a informar quanto recebem os profissionais de nível médio, alegando que a maioria do quadro tem nível superior. De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP), os professores com nível médio e jornada de 40 horas – parâmetro estipulado pela Lei do Piso – têm vencimento inicial de R$ 1.233, portanto, abaixo do valor definido para 2012.

“O fato de nove estados ainda não pagarem o piso mostra que os gestores públicos ainda não entenderam a importância dessa lei para termos uma educação de qualidade no País. É a prova de que as leis no Brasil costumam ser esquecidas. Quatro anos depois da lei aprovada, o gestor dizer que agora vai fazer um estudo orçamentário para ver como pagar é um desrespeito aos trabalhadores e ao Estado brasileiro”, criticou o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão. A entidade planeja uma paralisação da categoria na próxima semana para cobrar o cumprimento da lei.

A situação mais crítica é a dos professores da rede estadual gaúcha que recebem piso de R$ 791 – o menor do País. De acordo com o governo do estado, o problema ocorre porque o vencimento básico dos professores ficou “achatado” ao longo dos anos. Para “inflar” o salário, a remuneração total é composta por extras, como gratificações a abonos. Mas a Lei do Piso determina que o valor mínimo se refere ao vencimento inicial e não pode incluir na conta esses adicionais. A Justiça do estado determinou que o governo pague conforme determina a regra.

A Lei do Piso prevê complementação da União caso o município ou estado comprove que não tem capacidade financeira para pagar o piso a seus professores. Para isso, precisa atender a critérios como, por exemplo, ter um plano de carreira para os docentes da rede e investir 25% da arrecadação de tributos em educação, como determina a Constituição. De acordo com o MEC, nenhum estado entrou com pedido de complementação após o reajuste do piso.

FONTE: Jornal da Ciência