um ponto de vista moçambicano para identidades & diferenças

 

MIA FACES

Entrevista recente do escritor laureado com o Prêmio Camões 2013. Certamente, uma fonte das mais instigantes para a realização da Atividade 1.


IDENTIDADES DE MIA: O fio que atravessa os livros e a África

Com dezenas de trabalhos publicados e prêmios arrebatados, Mia Couto é uma das principais figuras da literatura africana contemporânea. Em conversa com o Afreaka, o escritor e biólogo moçambicano conta como o seu estilo está costurado com o momento histórico de seu país e de seu continente. Discutindo sobre a linha de pensamento que conduz seu trabalho, traz uma análise apurada sobre a busca de identidade: a identidade de si mesmo e a identidade de África.

Quem é o Mia Couto pessoa?

Eu sou muitos, um dos quais é esse que agora infelizmente ganhou uma certa hegemonia sobre os outros, sobre esta multidão que mora dentro de mim, que é o Mia Couto escritor. Tenho uma empresa onde trabalho como biólogo. E eu também sou muito esse. Sou uma mestiçagem desses vários seres e criaturas que me habitam.


E o Mia Couto escritor?

Provavelmente é este o que me ocupa mais. Exatamente porque ele não pode ser capturado, não pode ser domesticado, configurado. Do Mia Couto escritor o que me agrada mais é eu poder ser muita gente, poder ser vários, atravessar vidas e nascer em outras criaturas, nos personagens que eu crio.


Você tem algum empecilho para conciliar as duas carreiras?

Não tenho dificuldade nenhuma. Faço tudo mal (risos). Não, na verdade é que não vejo essas fronteiras. Não quero ser obediente a esse tipo de pensamento que compartimentou as coisas. Por exemplo, o que me agrada na biologia é a sua narrativa, a história que ela cria. A história da vida é a mais fascinante que conheço. Eu quando olho para a biologia, eu olho como se fosse um prolongamento da escrita, da criação de narrativas, dessa busca que para nós é essencial.


Você acha que tem uma linha de pensamento que atravessa todas as suas obras?

Sim. Principalmente a procura da identidade. Uma procura, que na verdade, é sempre ilusória. É a busca de uma miragem. Eu acho que, se há um fio na minha escrita – e eu só percebi isso quando eu já tinha escrito a maior parte dos meus livros –, é porque eu venho de uma família que tinha mesmo esse desafio, uma família que vem de Portugal em ruptura com seu passado. Eu não conheço os meus avós, eu tenho que inventar essa história toda para mim. Tenho que inventar um passado. Eu percebi que aquilo que era a história minha e também a história de muitos outros é o resultado de uma invenção. Nós estamos fazendo ficção sobre quem somos. Essa procura minha da identidade familiar coincidiu muito com a procura de identidade que este país está, um país que é mais novo do que eu. Há uma coincidência histórica. Eu nasço dentro de uma nação que está em busca do seu próprio retrato, da sua moldura. Isso faz com que eu perceba que a busca de identidade mesmo sendo falsa e plural, é o que me motiva.


Isso o ajudou a criar um estilo?

Sim, porque como a busca da identidade é falsa, como ela procura aquilo que não está lá, eu não podia usar a linguagem comum, a língua enquanto edifício já construído. Eu tinha que inventar um bocadinho esse caminho. E por isso a busca pela palavra nova, pela reinvenção da linguagem.


Você diz que seus livros buscam identidades, poderia nos contar sobre algumas das que você já encontrou? Quem são elas?

Eu acho que o que a escrita me permitiu, e eu tenho uma grande dívida com ela por isso, é perceber que eu sou todos. Cada um de nós é todos os outros. Quando eu comecei a escrever sobre mulheres, eu tive uma grande dificuldade, porque eu achava que estava a ser falso. Ia perguntar às mulheres como é que elas pensavam, mas depois percebi que estava dentro de mim. Se eu conseguir chegar lá, e fazer essa viagem para o meu lado feminino, para a mulher que eu também sou, aí sim fica verdadeiro. Eu não posso falar sobre uma mulher, eu tenho que escrever como se eu fosse ela. Eu sou essa mulher que eu escrevo. E eu sou esse chinês, sou esse velho, sou essa criança e sou todos os outros que vivem dentro de mim. Quando eu escrevo, não estou só a visitá-los, eu incorporo tudo isso. Acho que essa foi a grande lição para mim. Não é uma lição que me permite escrever melhor, não é isso. Mas me permite ser mais feliz. Hoje, quando me relaciono com os outros, tenho uma disponibilidade para não estar com o outro, mas sim ser o outro.

Não existe uma identidade, mas as pessoas vivem em uma fortaleza: “eu sou assim”. E quando alguém diz isso, está dizendo uma grande mentira porque está a criar, a sedimentar uma imagem que os outros criaram dela. As pessoas facilmente quando se apresentam dizem “eu sou jornalista”, e isso é uma coisa terrível porque a gente fica capturado nessa única coisa, como se a vida inteira coubesse em um cartão de visita, que diz quem somos nós.


Você fez uma leitura analisando o medo que ficou bem conhecida online, certo? Como você enfrenta os seus medos?

Eu acho que enfrento tratando-os como amigos. Não os combato, não faço guerra com eles. É como se fosse viver com um conselheiro dentro de mim. O medo é uma maneira primeira, um aviso interior que funciona como vigilância que nós temos em relação aos caminhos, em relação às opções. Portanto, a primeira coisa foi que deixei de ter medo dos meus medos. Aceitei-os como uma parte boa de mim.


Você tem medo de começar um livro?

Atroz! Enorme! Fico quase paralisado. Quando o medo nos paralisa, quando é maior do que nossa capacidade de resposta, é uma coisa negativa, já não posso ser amigo dele. Mas até agora, o medo tem sido bom para mim, me ajuda a procurar ser diferente, ajuda a me descolar daquilo que já fiz. Ele me faz ter algum espírito de autocrítica. É um medo que me ajuda.


A África plural muitas vezes vem interpretada erroneamente sobre o nome de África unidade. Mas, acima dessa sensibilidade, o senhor acha que existe uma identidade em comum africana?

Existem algumas identidades que são diversas, mas aquela que eu acho que é mais importante é o sentimento de religiosidade que une essas pessoas: como se concebe Deus, como se concebe o nosso lugar após a morte, como se concebe a própria morte. Essa espiritualidade de fato é uma religião. Não tem nome. Não é reconhecida. Eu acho que o grande elemento de aglutinação é essa coisa do lugar dos mortos, do invisível, a fronteira entre o possível e o impossível.


E isso permeia todas as comunidades?

Sem dúvida. É um chão. Eu nunca entenderei o Brasil se eu não souber nada sobre a religião católica por exemplo. Mesmo o brasileiro que se afirma ateu foi moldado, foi condicionado em relação à ética, está embrionado disso. Aqui é o mesmo. Imagina se eu não soubesse nada da religião católica, como a maior parte das pessoas que vêm visitar a África não sabe desses valores. Então, eles veem e acham que são umas práticas, umas crenças exóticas, mas não entendem como isso funciona como um sistema de pensamento. E enquanto não tiver essa sensibilidade, nunca vai conseguir ter proximidade com a África porque está a ler o espaço apenas por linhas mais epidérmicas como a política, a história etc. Aquilo que é mais profundo não é tocado.


Na nossa viagem percebemos uma dualidade entre as comunidades tradicionais e seus valores e a urbanização. Dentro desse processo, como você vê o futuro relacionado à preservação de culturas?

Tenho o cuidado com a própria maneira de olhar para essas coisas. A primeira tentação é falar da preservação de culturas. Elas têm que ser respeitadas, mas eu não sei se têm que ser preservadas, afinal elas têm a própria dinâmica de negociação, que não começou agora. Não existem comunidades que são puras, que se mantiveram intactas e que só agora estão sendo surpreendidas com os fenômenos sociais como a urbanização. É verdade que agora tem uma rapidez quase antropofágica, mas eu não acho que as culturas são tão frágeis como a gente pensa. Essas culturas, que chamamos de tradicionais – palavra que não gosto muito – têm uma capacidade de negociação muito forte. Dou este exemplo: a maneira como aqui a sociedade urbana é ruralizada. As pessoas que habitaram Maputo, por exemplo, se urbanizaram? Sim, mas em troca, obrigaram a cidade a partir-se, a ruralizar-se. As pessoas andam na rua mais do que na calçada, pois esta não existe na concepção rural. A maneira como as pessoas não têm uma palavra para dizer lixo nas línguas africanas locais, porque lixo é uma entidade urbana e uma realidade recente. A maneira como uma pessoa concebe a sua residência, o espaço em volta, o convívio social. Maputo vive em conflito consigo mesma porque foi concebida para certo tipo de urbanismo e de urbanidade e agora, quem vive na cidade, pensa e sente de outra maneira e, portanto, quer trazer o campo para cá. É muito curioso. É uma questão dessas brigas de culturas. Portanto, eu não acho que se tenha que fazer uma grande bandeira de defender a pureza das culturas porque felizmente todas as culturas são impuras. Todas são mulatas.


O que você diria sobre a identidade africana e o modo como ela é estereotipada?

Acho que a autonomia começa do próprio pensamento, dos modelos de pensamento. Como que nós pensamos a nós próprios? Quais são os critérios e os parâmetros que usamos para nos pensarmos? Muitos desses critérios foram criados na Europa. Acho que essa briga está acontecendo agora e vai ser resolvida entre nós próprios. O africano tem que criar esse espelho para ver bem a si próprio.


Quais as ações que as pessoas de África estão tomando nesse sentido?

Hoje qualquer pessoa que tenha boa vontade de olhar o mundo sem preconceito, começa a perceber que não há um lugar do mal, que esse mal está bem democraticamente espalhado pelo mundo. A crise econômica na Europa, a corrupção no Brasil. Portanto, a África foi se libertando desse estereótipo não só por si mesma, mas porque houve coisas que mudaram. O que falta é que os africanos não se remetam e não fiquem condicionados no lugar que lhes foi concebido, que é o ‘bom jogadores de futebol, os que dançam bem, os que produzem boas esculturas’. Porque existem filósofos africanos, intelectuais, gente que produz em uma área mais íntima de pensamento. E é o território que nós ainda temos que nos afirmar. Mas afirmar não dizendo “olhem para nós”, porque isso continua a ser uma posição colonizada, o fazer em função do outro. Nós fazermos por nós próprios. Esse é o caminho.

Fonte: Afreaka

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discutindo aplicações pedagógicas da Negritude

 

SEMANA AFRICA LOGO

 

A comunicação resumida a seguir será apresentada por mim na VII Semana da África, estando agendada para a Sessão 4 (ENSINO DA HISTÓRIA DE ÁFRICA E DESDOBRAMENTOS DA LEI 10.639/03), a ocorrer na sexta-feira (24/5), das 10h00 às 10h45, na Sala 1 do Centro de Estudos Afro-Orientais. Transcrevo também os poemas que pretendo brevemente analisar.


A POESIA DA NEGRITUDE COMO MATERIAL PEDAGÓGICO INTERCULTURAL: DELINEANDO “AFRO-HORIZONTES OXUMARESCENTES” PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 10639

Resumo:
No Brasil, a palavra negritude é utilizada como um suplemento de autenticidade para identificações negras, geralmente atribuído a sujeitos ou projetos coletivos nos quais se ressaltem a corporeidade “negona”, a politização ostensiva, ou o domínio sobre patrimônios culturais designados como afro. Não é comum, entretanto, encontrar um afrobrasileiro que inclua nesse patrimônio o movimento literário-filosófico protagonizado por artistas oriundos da África e da Diáspora na França da década de 1930, e no bojo do qual foi inventada a palavra négritude. Tratando-se, aparentemente, de uma referência de cunho erudito, não se pode menosprezar as implicações desse apagamento para a produtividade semântica do vocábulo negritude no imaginário brasileiro, induzindo à desconexão com as forças criativas que o forjaram e os textos que a ele se articularam. Mesmo restritos aos circuitos intelectuais, os valores da Negritude exerceram ponderável influência na modernização da cultura e da poesia afrobrasileiras. Nas literaturas de São Tomé e Príncipe, Moçambique e Angola, por sua vez, a perspectiva negritudinista disseminou-se largamente, incorporada a discursos poéticos investidos na emancipação cultural e subjetiva frente ao racismo colonial português. Pouco conhecida no Brasil, essa produção enriquece um corpus de textos que, a meu ver, precisa ser estrategicamente integrado aos programas pedagógicos baseados na lei 10639, objetivando deslocar vieses essencialistas para histórias e identidades negras, bem como disseminar as propostas diferenciais de humanismo e alteridade que a Negritude inspira. Nesse sentido, comentarei imagens selecionadas em poemas de autorias africanas e brasileiras, ressaltando os aprendizados interculturais que eles podem promover.

Palavras-chave: Negritude; Interculturalidade; Literatura Comparada.


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OFÍCIO DE FOGO E ARTE

[Cuti]

nossa é esta saga desenhando o silêncio em cores
rebeldia e incenso

ainda que as batalhas
tenham talhado de tão somente vermelho
lembranças de mar e terra
nosso é este futuro entre luz e sombra
este alto-relevo telúrico
agigantando-se no esboço de todas as madrugadas e no mosaico das tardes

em ondulação muscular galopam as tintas
ao comando de corações pensantes
enquanto gritos vão-se fazendo cantigas sábias
de ninar a memória e seus pincéis incandescentes

se ácidos céus de aço abafam a singela respiração onírica
um afro horizonte reabre seus vitrais
oxumarescendo a vida

nos cios dos séculos
banzaram aguadas lacrimais de anil
agora a mais sutil semelhança epidérmica da história
é linha que realça o elo
do mistério
ousadias de gingar o belo e semear vagalumes sobre as
telas

oceânica
esta energia coletiva extrapola a cena de naturezas-mortas
transfigura a moldura
colore a parede branca
e mergulha em vários planos a perspectiva de seus voos

verdeamarelas garatujas velhas ranzinzando a liberdade
a mão infinitiza em multiplicidade cromática, pele e
paisagem de sobejos desejos

tudo se emprenha de um incessante movimento
vários tons de melanina e a pulsação de um ritual aceso.

 

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CORAÇÃO EM ÁFRICA

[Francisco Tenreiro]

Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) —
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama polícroma da verdade do Negro
da inocência de Mac Gee) —;
três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillén
de coração em África com a impetuosidade viril de I too am America
de coração em África com as árvores renascidas em todas estações nos belos poemas de
                                                                                                                                      [Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do Chaka-
                                                                                                                                 [Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África.
De coração em África ao meio dia do dia de coração em África
com o Sol sentado nas delícias do zénite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros
amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas de olhos rubros    como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios
enquanto que à minha volta se sussurra olha o preto (que bom) olha um negro (óptimo),
                                                           [olha um mulato (tanto faz) olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa da tarde.
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha e adubados pela cal dos
                                                                                                                    [ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.

o negro a contrapelo na obra de (Luiz) Cuti

Sempre atenta para as intensas experiências às quais estão expostas, na sociedade racista, corporeidades e subjetividades afrodescendentes, na obra ampla e variada assinada pelo poeta paulista Cuti nota-se a predominância de um discurso introspectivo que busca a afirmação estético-identitária do negro mergulhando no enfrentamento às ambiguidades e indefinições que permeiam essas experiências. O trabalho inventivo com a linguagem também se mostra um recurso assíduo para a elaboração de imagens aguçadas e multifacetadas de (auto)questionamento. Além desses dois traços formais aqui ressaltados (e que também se relevam em vários dos poemas da moçambicana Noémia de Souza e do angolano Agostinho Neto), muitos outros elementos confirmam os densos vínculos que a voz literária de Cuti estabelece com a poética da Negritude.

cuti serio

EU NEGRO

Areia movediça na anatomia da miséria
Pano-pra-manga na confecção apressada de humanidade
Chaga escancarada contra o riso atômico dos ladrões
Espinho nos olhos do esquecimento feliz de ontem
Eu
Eu feito de sangue e nada
De Amor e Raça
De alegrias explosivas no corpo do sofrimento e mágoa.
Ponto de encontro das reflexões vacilantes da História
Esperança fomentada em fome e sede
Eu
A sombra decisiva dos iluminismos cegos
O câncer dos humanismos desumanos
Eu
Eu feito
De Amor e Raça
De alegrias incontroláveis que arrebentam as rédeas dos sentimentos egoístas
Eu
Que dou vida às raízes secas das vegetações brancas
Eu

 

 

QUEBRANTO

às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredicto

às vezes sou o amor que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que sonhei e não comi
outras o bem-te-vi com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida uma constituição
que me promulgo a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto que me entrego

às vezes…

 

TORPEDO

irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?

e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!
e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares

 

POEMA

trabalho em transe
do coração à tez
overdose
e osmose
de lucidez

 

PERGUNTAS

Quem conhece meus Nilos de dentro
meus rios
raízes que regam felizes
a carne do Brasil?

Quem conhece meus rios
meus cios
sonhadas carícias de vida melhor?

Aquele que sabe
do sabre que corta na minha garganta
a voz dos meus rios
não sabe a denúncia tão cheia em meus olhos
não sabe da quebra de pontes
das fontes violentas que rasgam feridas na terra?
não sabe da febre agitada do mar
depois da viagem em meu transe atlântico
há tempos atrás?

Quem conhece as águas doces do meu canto
salgadas do meu pranto
e as correntezas do fundo
dos meus rios
que engravidam o mar?

 

NASCENTE

o broto brota sob a bota
que pisa
a gente cala por enquanto
porque precisa
a nossa fala que o tambor fala
é brisa
do novo que há de ver
a palma
a calma trancada e reprimida
a trama já tramada que tá verde
a verde verdade preta amadurece
ama e cresce sob a bota
imagem dum pilão que moe que soca

o broto brota sob a bota
que pisa
o broto brotalvorada
e nova rota
e grita

o broto é negro como o riso-terra
e espera que apenas outros
bebam do suor dos rios.

 

MÁRTIR LUTA NO RINGUE

não são ventos alísios
que nos espicham cabelos e medos
de sermos o que já não sabemos
que somos

não se trata de moda
este raspar a cabeça de jogadores
e bailarinos
e dos jovens todos que os imitam
quando o coração é um mártir
a antimemória seu ringue
o adversário (não disfarça)
está sempre à nossa frente
com seu ódio viking

essa vergonha no cabelo
balançando ao vento
um corte no supercílio

dificultando ver
o inimigo
porque o sangue escorre
pelo nosso rosto
invisível.

 

NEGROESIA

enxurrada de mágoas sobre os paralelepípedos
por onde passam carroções de palavras duras
com seus respectivos instrumentos de tortura

entre silêncios
augúrios de mar e rios
o poema acende seus pavios
e se desata
do vernáculo que mata

ao relento das estrofes
acolhe os risos afros
embriagados de esquecimento e suicídio
no horizonte do delírio

e do âmago do desencanto contesta as máscaras
lançando explosivas metáforas pelas brechas dos
poesídios
contra o arsenal do genocídio.

 

RESGATE

gueto e quietude encurralados
dentro do próprio
rio de encantos passados

hoje resgato
res-gueto
e não bastam
toscos tótens atônitos
sem dentro
ante os múltiplos
milagres técnicos

aconchego-me no côncavo deste abraço
ancestral
adormeço de cansaço
lanças de outrora
já não servem
para defender o sonho
enquanto balas e mísseis
cruzam o espaço em direção à morte

somente as deste fogo-afago
desferidas
para incendiar ao menos
de liberdade
um coração.

 

PORTO-ME ESTANDARTE

minha bandeira minha pele

não me cabe hastear-me em dias de parada
um século de hipocrisia após
minha bandeira minha pele

não vou enrolar-me, contudo
e num canto
acobertar-me de versos

minha bandeira minha pele

fincado estou na terra que me pertenço
fatal seria desertar-me
alvuras não nos servem como abrigo
sem perigo

lágrimas miçangas
enfeitam o país
a iludir o caminho
em procissões e carnavais

minha bandeira minha pele

o resto
é gingar com os temporais

 

AMOR

Amo esta minha terra
onde os ossos de meus avós
gritam o grito interno dos ossos
na carne do chão
e Oxumaré sobe em riso e clarão

esta terra
onde os rios contam a história
de lutas quilombolas
a quem não tapa os ouvidos

Amo esta terra
do café da cana do ouro
do sangue do sangue do sangue
do meu sangue

esta terra Brasil
do carnaval do futebol do anil
do suor do suor do suor
do meu suor

esta terra
em que confundem amor e prata
violência e nada
exploração e paz

esta terra
recortada por veias negras
abertas

esta terra
onde donos brancos
jogam no barranco
os sonhos do povo

esta terra
onde a fome que mina
a força dos filhos
é a mina lucrativa de uns poucos

Amo a terra
e o interior dela

esta terra
África enterrada
a custa de porrada
viva
e que respira
a respiração que inspira
seus filhos

esta terra
coração da Diáspora
onde brancos
se envergonham de serem negros

Amo esta terra
negra
de suor
suor
suor
sangue
sangue
sangue
e pele

 

ESTÉTICA

quando o escravo
surrupiou a escrita
disse o senhor:
— precisão, síntese, regras
e boas maneiras!
são seus deveres

enxurrada se riu demais em chuva
do conta-gotas e sua bota de borracha rota
na maior despercebida enchente daqueles tempos
adjetivos
escorrendo ainda hoje
em negrito.

 

IMPASSES E PASSOS

algemas do pão e do circo
e seu cotidiano cerco
às investidas do sonho

sono coletivo produzido em gabinetes
sono sem sonho
esclerose de nuvens brancas trotando trêfegas
esporas reluzentes
sobre nossos corações

a pergunta eleva sua crista:
– quem dentre nós mais de trezentos anos
de ruínas de quilombos
traz dentro do peito?

por muito tempo, ainda, mastigaremos o silêncio
no caminho para o grande lar
que já não temos?

no trajeto o enfrentamento
com as sereias e seu canto
sussurrado pelo vento
laços sedutores
para o nosso enforcamento

politicamente incorreta
sempre
a orgia das correntes
nosso medo balbuciando morte
em conta-gotas de sambas e serpentes

de repente
escorpiões encalacrados nos tornamos
(apesar de sorridentes)
sem disfarce
o que em face do desprezo se acende
contra o nosso próprio veneno

o “eu” se deita sobre o feno
negaceia o nós em movimento
da garganta se desatam para dentro
ecos que no lamento se afogam

o sol renitente ressuscita
a vida emboscada nas veredas

toco em brasa
a questão vem crepitada
fecunda e permanente
rolando
pelos glóbulos pretos
infectados de rancores brancos:
– quem tem mais de 300
de resistência no abismo?
silêncio incandescente
morre a esperança
em overdose de cinismo
e desabrocha a consciência em cactos

depois da chuva
somos
o horizonte e sua língua de arco-íris
descobrindo
o nosso próprio amanhecer.

 

OFÍCIO DE FOGO E ARTE

nossa é esta saga desenhando o silêncio em cores
rebeldia e incenso

ainda que as batalhas
tenham talhado de tão somente vermelho
lembranças de mar e terra
nosso é este futuro entre luz e sombra
este alto-relevo telúrico
agigantando-se no esboço de todas as madrugadas e no mosaico das tardes

em ondulação muscular galopam as tintas
ao comando de corações pensantes
enquanto gritos vão-se fazendo cantigas sábias
de ninar a memória e seus pincéis incandescentes

se ácidos céus de aço abafam a singela respiração onírica
um afro horizonte reabre seus vitrais
oxumarescendo a vida

nos cios dos séculos
banzaram aguadas lacrimais de anil
agora a mais sutil semelhança epidérmica da história
é linha que realça o elo
do mistério
ousadias de gingar o belo e semear vagalumes sobre as
telas

oceânica
esta energia coletiva extrapola a cena de naturezas-mortas
transfigura a moldura
colore a parede branca
e mergulha em vários planos a perspectiva de seus voos

verdeamarelas garatujas velhas ranzinzando a liberdade
a mão infinitiza em multiplicidade cromática, pele e
paisagem de sobejos desejos

tudo se emprenha de um incessante movimento
vários tons de melanina e a pulsação de um ritual aceso.

 

CULTURA NEGRA

ariânico afago
na suposta acocorada
afroinfância literária

nossa cor sim
e não
reelabora elegbará

orixás não tomam chás de academias
tampouco em mídia sui-seda
cedem

poema de negrura exposta
tece vida
na resposta
abrindo a porta enferrujada do silêncio

explodem
coices
o boi e o bode
entre folclóricas nuvens e teses
de negrófobas carícias

alvos, a-tingidos desesperam
em busca de tambores
ritos
puros mitos
em águas paradas
de poemas pardos
que lhes salvem da chuva de negrizo.

 

PA(Z)XORÔ

ainda assim… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência universal dos sonhos
onde a veste de pazciência
envolve a todos
e as mãos
modelam o ser nascente

olhar adentro
o todo é cada um
e há ondulações de calma
corpo e alma fundidos num só voo
desta ave celestial de luz
abraçando-nos com a abóbada infinita e azul

chuva-sêmen e afã de fecundar novas manhãs
ao fluxo ijexá de oxalufã
fé obstinada que nos guia
sol de oxaguiã
nas lutas do dia a dia
pilão
inhame de juventude
alegria
ainda que… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência concha universal do sonho paz
adjá a nos conduzir à fonte
e o mundo a ser lavado
nas águas de oxalá.

 

ZUMBI OR NOT ZUMBI
(ao negro de alma branca)

permanece encasulado
até que as labaredas cheguem
de teu abrigo
façam fumaça
e alguém diga: coitado!

nem penses o fogo te vindo ao longe
marchando brasas
em horizonte raivoso

não! é dentro que nasce
suave
do mais íntimo da tua sombra

onde o pavio incandesce em risadas
tua coragem quilombo

por hora continua no teu casulo
ruminando ruínas
afugentando marulhos
dessa tua travessia
em que és barco
e prisioneiro acorrentado no próprio porão

a ilusão é branca
e te abraça por todos os nadas
por mais que faças
no uso de tuas máscaras

ao despertares ao som
zumbiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…
não te assustes
é o saci
caminhando com as duas pernas sobre as águas
apesar dos tubarões
e suas fúrias afiadas
na luxúria do teu medo

um dia darás o primeiro passo
sem afundar

teu coração no horizonte
um sol de inverno
espera
a primavera.

 

COM A PORTA ABERTA

o que é que vai ser
quando o samba abrir uma fenda
bem no meio da sinfonia?

com’é que vai ficar, compadre
quando a macumba
entrar na sacristia?

e quando a pureza da cultura abrir as pernas
e mostrar pra todo mundo
que nunca teve cabaço

a dança de terreiro
rasgar terno e gravata

a ginga der meia-lua-de-compasso na compostura

a gente puder falar
sem algema ou atadura

a verdade
partir a cara da hipocrisia

o pão for repartido na marra?

não adianta fechar a cara
nem se fazer de besta
qu’Exu vai rir na abertura da festa
e Cristo vai gargalhar pela primeira vez na história
e
viva o pagode
da memória liberta
e do futuro concebido
com a porta aberta!

diálogos com a Negritude nas poesias dos ‘Cadernos Negros’

 

cadernos negros Melhores Poemas


NEGRITUDE

[CELINHA]

Para Jorge Henrique Gomes da Silva

De mim
parte um canto guerreiro
um voo rasante, talvez rumo norte
caminho trilhado da cana-de-açúcar
ao trigo crescido, pingado de sangue
do corte do açoite. Suor escorrido
da briga do dia
que os ventos do sul e o tempo distante
não podem ocultar.

De mim
parte um abraço feroz
um corpo tomado no verde do campo
beijado no negro da boca da noite
amado na relva, gemido contido
calado na entranha
oculto do medo da luz do luar.

De mim
parte uma fera voraz
(com sede, com fome)
de garras de tigre
pisar de elefante correndo nas veias
de fogo queimando vermelho nas matas
Rugir de leões bailando no ar.

De mim
parte de um pedaço de terra
semente de vida com gosto de mel
criança parida com cheiro de luta
com jeito de briga na areia da praia
de pele retinta, deitada nas águas
sugando os seios das ondas do mar.

De mim
parte  N E G R I T U D E
um golpe mortal
negrura rasgando o ventre da noite
punhal golpeando o colo do dia
um punho mais forte que as fendas de aço
das portas trancadas
da casa da história.

***

CRISTÓVÃO-QUILOMBOS
[JAMU MINKA]

Fez-se a ganância
diabólicos destinos de um caminho sem volta
espíritos e corpos armados nascem do imenso ventre das
águas fantásticas
o outro lado do mundo possível
Terrágua, uma bola de vida no cosmo
1492, Colombo!

Naus enormes, engenhocas inéditas — a roda, arma de
fogo —
múltiplos poderes desconhecidos
homens-deuses barbados, brancos, loiros e ruivos
e seus olhos coloridos de cobiça

Piratas no paraíso
Europa rouba tudo
ouro e prata, milho, batata
cana e canga em corpos de América e África

Pós impacto do primeiro engano
— a visita era conquista e seus horrores —
deuses invadidos trovejam tambores
e cospem flechas de rebeldia

Depois de Colombo e sua maldita herança
— calombos e mutilações em milhões de corpos —
Quilombos por toda parte.

***

EFEITOS COLATERAIS
[JAMU MINKA]

Na propaganda enganosa
paraíso racial
hipocrisia faz mal
nosso futuro num saco
sem fundo

a gente vê
e finge que não vê
a ditadura da brancura

Negros de alma negra se inscrevem
naquilo que escrevem
mas o Brasil nega
negro que não se nega.

 

SAFÁRI

[Jamu Minka]

 

Aquela tigresa é tanta

que me almoça e janta

faço de conta que a sala é ponto

na geografia da África

e o tapete vira suave savana ao entardecer

quando a pele da noite vem camuflar

nosso safári safado.

 

Olho por olho

dente por dente

    recuperamos o pente

   ancestral

         o impossível continha o bonito

           caracol

       carapinha

bumerangue infinito

                            

Olho que revê o que olha

 dedos que sabem trançar ideias

           do original azeviche

                                princípio do mundo

 

Se o cabelo é duro

        cabe ao pente ser suave serpente

o fundamental dá beleza

a quem não tem preconceito

        e conhece segredos da

C R E S P I T U D E

***

TRAÇADO
[MÁRCIO BARBOSA]

O traço saído
ao crespo estilo
do teu cabelo
trançado e escuro
já mora em meu olho

 

VERSÃO
[MÁRCIO BARBOSA]

Negro é o amor onde habito silente
a cor talhada na dor da senzala
resumo de vida em ferro e carvão
Negro é o amor forjado no tempo
pretume piche azeviche
tição aceso na tez
do instinto de luta o peito é abrigo
o riso é fluência de um novo começo

***

CABELOS QUE NEGROS
[OLIVEIRA SILVEIRA]

Cabelo carapinha,
engruvinhado, de molinha,
que sem monotonia de lisura
mostra-esconde a surpresa de mil
espertas espirais,
cabelo puro que dizem que é duro,
cabelo belo que eu não corto à zero,
não nego, não anulo, assumo,
assino pixaim,
cabelo bom que dizem que é ruim
e que normal ao natural
fica bem em mim,
fica até o fim
porque eu quero,
porque eu gosto,
porque sim,
porque eu sou
pessoa negra e vou
ser mais eu, mais neguim
e ser mais ser
assim.

 

SER E NÃO SER
[OLIVEIRA SILVEIRA]

O racismo que existe,
o racismo que não existe.
O sim que é não,
o não que é sim.
É assim o Brasil
ou não?

***

DANÇANDO NEGRO
[ÉLE SEMOG]

Quando eu danço
atabaques excitados,
o meu corpo se esvaindo
em desejos de espaço,
a minha pele negra
dominando o cosmo,
envolvendo o infinito, o som
criando outros êxtases…
Não sou festa para os teus olhos
de branco diante de um show!
Quando eu danço há infusão dos elementos,
sou razão.
O meu corpo não é objeto,
sou revolução.

***

LINHAGEM
[CARLOS ASSUMPÇÃO]

Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Me envia mensagens do orum
Meus dentes brilham na noite escura
Afiados como o agadá de Ogum
Eu sou descendente de Zumbi
Sou bravo valente sou nobre
Os gritos aflitos do negro
Os gritos aflitos do pobre
Os gritos aflitos de todos
Os povos sofridos do mundo
No meu peito desabrocham
Em força em revolta
Me empurram pra luta me comovem
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Eu trago quilombos e vozes bravias dentro de mim
Eu trago os duros punhos cerrados
Cerrados como rochas
Floridos como jardins

 

BATUQUE
[CARLOS ASSUMPÇÃO]

(Dança afro-tietense )

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas e brancas

Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Que evoca bravura dos nossos avós
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores
Sem distinção

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas brancas azuis e verdes

Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
Dispersos
Jogados em senzalas de dor
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que fala de ódio e de amor
Tambor que bate sons curtos e longos
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores

Num quilombo
Num quilombo
Num quilombo

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

***

ZUMBI
[ABELARDO RODRIGUES]

As palavras estão como cercas
em nossos braços
Precisamos delas.
Não de ouro,
mas da Noite
do silêncio no grito
em mão feito lança
na voz feito barco
no barco feito nós
no nós feito eu.
No feto
Sim,
20 de novembro
é uma canção
guerreira.

***

MAHIN AMANHÃ
[MIRIAM ALVES]

Ouve-se nos cantos a conspiração
vozes baixas sussurram frases precisas
escorre nos becos a lâmina das adagas
Multidão tropeça nas pedras
Revolta
há revoada de pássaros
sussurro, sussurro:
“é amanhã, é amanhã.
Mahin falou, é amanhã”.

A cidade toda se prepara
Malês
bantus
geges
nagôs
vestes coloridas resguardam esperanças
aguardam a luta

Arma-se a grande derrubada branca
a luta é tramada na língua dos Orixás
“é aminhã, aminhã”
sussurram
Malês
bantus
geges
nagôs
“é aminhã, Luiza Mahin falo”

***

AS SAUBARAS INVISÍVEIS
[JÔNATAS CONCEIÇÃO]

A memória é redundante: repete os
símbolos para que a cidade comece
a existir.
Ítalo Calvino

Chega-se a Saubara pelo caminho do mar.
Às velas, barcas velhas velejam rumo à baía.
Viagem de gentes, trapos, mercadorias,
Odores repelentes que recendem tumbeiros
Travessia de longínquas noites
(“Aquela viagem era uma eternidade!”)
que ao vento cabia a tarefa de um porto feliz.

Chega-se a Saubara por via de muitos rios
Do rio para o mangue, do mangue-rio para o mar.
Caminhos do leva-e-traz mercantil
Ao porto de amaros negócios
Percurso de antigos navegantes
Fundadores do eterno dar-se saubarense
Desbravadores de restos da flora e fauna do lugar.

Chega-se, finalmente, a Saubara pelo primado da fé.
Seus marujos e rezadeiras procuram, há muito,
o caminho da salvação.
Seus filhos e netos, há pouco, descobriram outros
caminhos…
Procuram, pela novidade alheia, desesperadamente,
outra cidade inventar.
Os perseguidores da fé a tudo ver – oram choram
(“São Domingos que é de Gusmão que nos vele”)
as chamas das velas revelam.

***

OLHAR NEGRO
[ESMERALDA RIBEIRO]

Naufragam fragmentos
de mim
sob o poente
mas,
vou me recompondo
com o Sol
nascente,

Tem
Pe
Da
Ços

mas,
diante da vítrea lâmina
do espelho,
vou
refazendo em mim
o que é belo

Naufragam fragmentos
de mim
na coca
mas, junto os cacos, reinvento
sinto o perfume
de um novo tempo,

Fragmentos
de mim
diluem-se na cachaça
mas,
pouco a pouco,
me refaço e me afasto
do danoso líquido
venenoso

Tem
Pe
Da
Ços

tem
empilhados nas prisões,
mas
vou determinando
meus passos para sair
dos porões

tem
fragmentos
no feminismo procurando
meu próprio olhar,
mas vou seguindo
com a certeza de sempre ser
mulher

Tem
Pe
Da
Ços

mas
não desisto
vou
atravessando o meu oceano
vou
navegando
vou
buscando meu
olhar negro
perdido no azul do tempo
vou
voo,

***

A NOITE NÃO ADORMECE NOS OLHOS DAS MULHERES
[CONCEIÇÃO EVARISTO]

Em memória de Beatriz Nascimento

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

 

MALUNGO, BROTHER, IRMÃO
[CONCEIÇÃO EVARISTO]

No fundo do calumbé
nossas mãos ainda
espalmam cascalhos
nem ouro nem diamante
espalham enfeites
em nossos seios e dedos.

Tudo se foi,
mas a cobra deixa o seu rastro
nos caminhos por onde passa
e a lesma lenta
em seu passo-arrasto
larga uma gosma dourada que brilha no sol.

Um dia antes
um dia avante
a dívida acumula
e fere o tempo tenso
da paciência gasta
de quem há muito espera.

Os homens constroem
no tempo o lastro,
laços de esperanças
que amarram e sustentam
o mastro que passa
da vida em vida.

No fundo do calumbé
nossas mãos sempre e sempre
espalmam nossas outras mãos
moldando fortalezas esperanças,
heranças nossas divididas com você:
Malungo, brother, irmão.

***

 

cadernos negros 30 anos capa

 

ESPELHO

[Landê Onawale]


visto-me
e não olho para o que vejo
lanço-me ao fundo do espelho
apuro a visão até chegar
a mim
encontro-me
saio

 

***

 

SER INTELIGÍVEL E O INTELIGÍVEL DO SER PARA NÃO SER ININTELIGÍVEL

[Miriam Alves]

 

Entre o eu o infinito
construo a ponte
a ponte irreversível
da fala
da festa
do ontem
do hoje e amanhã

No espelho sou o olhar
o olhar que me percorre formas
e pela fresta sou eu espiando-me
inquieta
O coração em ritmo tambor
decifra mensagens
as palavras voam ao vento
Vão

E a cada tan-tan do coração

novas frases se formam

Vão

ao vento

o meu ser luma no seu contumaz leve brilho Vai

luzindo emoções indecifráveis

 

Voa Vai. Luzir Vai… Nos vãos da realidade…

um sonho Vai no lusco-fusco vespertino

aonde nos vãos da verdade os sonhos Vão

janelas abertas

lufadas penetram

trazendo sementes

 

Naquele meu vasinho de crisântemos que enfeita o

infinito da janela

entre as pequeninas flores-rosa-avermelhadas pousa

uma nova verdade

sementes de um futuro difuso

um poema se forma

na forma diáfana do tun-tun-tun-tan-tan do coração

em compasso de construção

desnudando o mundo num futuro crisântemo onde

o lusco-fusco é brilho intenso

onde as despedidas-de-verão se abrem a primaveras

de intenções

 

***

cadernos negros v31 

 

A FORÇA DA AFRICANIDADE

[Dirce Pereira do Prado]

 

No íntimo da palavra trabalho

Sinto a força da africanidade

Na coragem do povo negro

Ao transformar as opressões

No conhecimento da vida.

 

Sim, vivenciamos uma africanidade

Arraigada na humanidade

Ao acalentarmos um coração desesperado

Entre os conflitos culturais

Quando recebemos as proteções

Dos nossos ancestrais!

 

Logo, africanidade é negritude viva

Que dos seus ancestrais faz a história

Concentra os mistérios da vida

No tempo presente traz a vitória!

 

***

 

 

 

ECOS DA BATIDA

[Edson Robson Alves dos Santos]

 

Ecos da batida

Soltos pelo ar

A expressão rítmica

A nos unificar

 

“Omnirá”

Quebre os grilhões da diáspora

Unifique nossas vidas

Separadas pelo mar

 

Bate no coração a saudade

O canto espanta a tristeza

No balanço dos acordes

No ar, sou a liberdade

 

Levante a poeira

Deixe quebrar

Venha sambarregaear

Ao som de Omnirá

 

***

 

ENSINAMENTOS

[Esmeralda Ribeiro]

 

Ser invisível quando não se quer ser

é ser mágico nato.

 

Não se ensina, não se pratica, mas se aprende.

no primeiro dia de aula aprende-se

que é uma ciência exata.

 

O invisível exercita o ser “zero à esquerda”

o invisível não exercita a cidadania.

As aulas de emprego, casa e comida

são excluídas do currículo da vida.

 

Ser invisível quando não se quer ser

é ser um fantasma que não assusta ninguém.

Quando se é invisível sem querer

ninguém conta até dez

ninguém tapa ou fecha os olhos

a brincadeira agora é outra

os outros brincam de não nos ver.

 

Saiba que nos tornamos invisíveis

sem truques, sem mágicas.

Ser invisível é uma ciência exata.

Mas o invisível é visto no mundo financeiro

é visto para apanhar da polícia

é visto na época das eleições

é visto para acertar as contas com o Leão

para pagar prestações e mais prestações.

 

É tanto zero à esquerda que o invisível

na levada da vida soma-se

a outros tantos zero à esquerda

para assim construir-se humano.

 

***

 

MISTURASIL

[Jamu Minka]

 

Aventureiros e predadores expandem Portugal

aqui, abaixo da linha do equador

organizam o êxodo do Brasil vegetal

o vale-tudo inaugural dos escândalos

da futura Brasília capital

 

Tudo se mistura

mestidragem, malançagem

mancebia, sacristia

mamelusas e afroguesas escravizadas também abaixo

da linha da cintura

negócios e sacanagens da Causa Glande.

 

***

 

FUTURO

[Márcio Barbosa]

 

que áfrica

            está estampada

nas pupilas

            da vó negra

que dança

            a congada?

 

quantos zumbis

            vão surgir

na poesia

            da periferia maltratada?

 

é nzinga

            que dança

e ocupa o abraço

            da menina de tranças?

 

que orixá

            olha

por esse menino

            que ama

jogar bola?

 

um sopro ancestral

            de tambores e vozes

nos protege

            do mal

 

o moderno, o novo

            deságuam no rio

tradicional

 

não há povo

            sem história

sem memória

            coletiva

 

e é na pele

            que essa memória

continua viva

o texto literário angolano como fonte para o estudo das estruturas culturais afrolusobrasileiras

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Nesta quinta-feira, dia 16/5, a partir das 10:45h, estarei apresentando na Sessão III do Enlace 6, a decorrer na programação do III Seminário Enlaçando Sexualidades, uma comunicação que sintetiza alguns resultados mais recentes da pesquisa que desenvolvo no âmbito do projeto Imagens & Imaginários da Mestiçagem nas Literaturas Angolana & Brasileira. Aprofundando a discussão que tenho realizado sobre uma obra de Pepetela, esta comunicação (vide resumo a seguir) busca organizar mais subsídios teóricos para o trabalho comparativista de caracterização da colonialidade lusófona que tenho empreendido desde minha dissertação de Mestrado, trabalho cujo objetivo é compreender criticamente as relações entre as formas de exploração e discriminação que o colonialismo instaurou em países como o Brasil e o nosso multifacetado, assim como altamente erotizado, imaginário da mestiçagem. Resultados preliminares da minha pesquisa centrada no romance A gloriosa família podem ser lidos no artigo que publiquei, em 2010, na revista Ipotesi (O sexo da “raça”: identidade, escravidão e patriarcalismo em A gloriosa família, de Pepetela). Presentemente, a abordagem procura mostrar como a sexualidade interracial, além do papel que desempenha na negociação biopolítica de privilégios materiais, também influencia fortemente a reprodução e hibridização dos modelos culturais hegemônicos nas sociedades mestiças.

Em função deste evento, está suspensa a aula do dia 16 que seria ministrada para a Turma 1 (9-11h) da Let C47. Nas Turmas da tarde da LET C47 e da LET A67, as aulas estão mantidas. 

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APORTES GENEALÓGICOS PARA A CARACTERIZAÇÃO DA INTERSECCIONALIDADE DE GÊNERO E RAÇA EM CONTEXTOS MESTIÇOS: LEITURAS DO ROMANCE ANGOLANO A GLORIOSA FAMÍLIA

Perspectiva estratégica para a reestruturação das lutas políticas e culturais da atualidade? Ou um intricado sistema de relações de poder e de identificação sobrepostas, correlacionadas e antagônicas? Para ativistas e intelectuais engajados na desconstrução dos fundamentos simbólicos do racismo e do sexismo, a interseccionalidade de gênero e raça demarca um front tão permeado de desafios quanto de indefinições. No artigo “Tudo é interseccional?”, Ina Kerner propõe que o estudo das interações polimórficas constitutivas dessa interseccionalidade deve objetivar primariamente, para cada contexto enfocado, a descrição crítica de “matrizes de dominação”, tendo em vista abarcar e especificar “fenômenos de poder complexos e entrelaçados empiricamente de múltiplas formas, com uma dimensão epistêmica, uma institucional e outra pessoal” (2012, p.56). Nesta comunicação, pretendo colocar em evidência e em debate alguns elementos estruturantes da matriz de dominação derivada do patriarcalismo miscigenador que serviu de célula básica para a formação das sociedades escravagistas afro-luso-brasileiras. Tomarei o romance A gloriosa família, publicado por Pepetela em 1998, como fonte genealógica para uma revisitação a cenários e sentidos fundadores desse poder patriarcal. Ambientado em Luanda, em meados do século XVII, o romance é narrado do ponto de vista de um escravo doméstico pertencente a Baltazar Van Dum, um ex-militar holandês que, depois de se instalar no litoral angolano, torna-se um dos mais destacados e influentes dentre os agentes do tráfico negreiro sul-atlântico. Encabeçando também uma larga prole de filhos e afilhados mulatos, gerados por sua esposa angolana e incontáveis escravas, Baltazar posiciona-se no centro de uma rede de afetos, alianças, diferenças e violências cuja tecedura opera em ressonância direta com a produção histórica de quadros de referência para a gestão do sistema colonial português, bem como para a configuração dos imaginários da mestiçagem tropical. O recorte analítico abordará as representações do que pode ser considerado, nos termos de Marshall Sahlins e Osmundo Pinho, como a operação de uma “economia política da sexualidade”, através da qual signos libidinizados de raça e gênero são transacionados tanto para a obtenção de privilégios e submissões no âmbito da ordem colonial, quanto para a produção de agenciamentos de resistência e transgressão a esta ordem.

A-gloriosa-Familia capa

visões de uma África dinamizada pela prioridade à soberania e à auto-confiança

 

“Eu vi a África além dos preconceitos”

africa-first

Um economista brasileiro relata reunião em que continente articulou ampliação das mudanças que vive – ainda que Ocidente não enxergue…

Por Ladislau Dowbor

A África continua a ser apresentada como o continente da violência e da miséria. A realidade é que ambas as avaliações são corretas, mas enganadoras. Primeiro, porque francamente não é um privilégio africano, as tensões estão se avolumando por toda a parte, e a miséria acumulada em outros continentes é imensa, sem falar da nova miséria nos Estados Unidos e na Europa. Segundo, porque ao lado da pesada herança, há um movimento pujante de transformações. Há inclusive, movimento recente, estudos científicos sobre por quê o jornalismo a respeito do continente insiste sempre na visão simplificada de pobreza e desgoverno, como se o prisma impossibilitasse uma compreensão das mudanças.

A revista Economist (2/3/2013) lançou um relatório especial interessante, Emerging Africa, referindo-se não mais a um continente desesperado, mas esperançoso (A Hopeful Continent). A economia está crescendo a um ritmo de quase 6% ao ano, os investimentos diretos externos subiram de 15 bilhões de dólares em 2002 para 46 bilhões em 2012. O comércio com a China saltou de 11 bilhões para 166 bilhões de dólares em uma década. Com a crise financeira mundial, muitos capitais estão fugindo da especulação ou do baixíssimo rendimento dos títulos públicos, e buscando novas oportunidades. Um continente que cresce rapidamente e pode rentabilizar investimentos atrai mais do que o marasmo dos países ricos.

Em termos institucionais, praticamente todos os países da região estão dotados de mecanismos democráticos, frágeis como em toda parte, mas progredindo. A base de impostos é ainda muito pequena, mas aumentando, o que permite a expansão de serviços públicos. A corrupção nos grandes contratos continua forte, mas estamos aprendendo a ver as coisas melhor, com os dados de James Henry, amplamente divulgados pelo Economist (16/2/2013). No mundo, são 20 trilhões de dólares em paraísos fiscais – dinheiro de drogas, evasão fiscal, tráfego de armas, corrupção – cerca de um terço do PIB mundial. As três principais praças de dinheiro ilegal são Delaware e Miami, nos Estados Unidos, e Londres. Os 28 principais bancos mundiais, os “sistemicamente significativos”, estão respondendo a processos por fraude, lavagem de dinheiro e outros crimes, e são basicamente europeus e norte-americanos. Barclays, HSBC, UBS, Goldman & Sachs… O Brasil, aliás, contribui com 520 bilhões de dólares em dinheiro ilegal no exterior, 25% do PIB brasileiro, coisa que deveria deixar o STF sonhando um pouco mais alto. Não é privilégio da África, e obviamente os montantes não se comparam.

Confirma as novas esperanças a reunião anual conjunta da Comissão Econômica da África e da União Africana, em Abidjan, capital da Costa do Marfim, nos dias 26 e 27 de março de 2013. Presentes 54 países africanos, 40 ministros de economia, 15 presidentes de bancos centrais. Só africanos. Uma reunião sem palestras, apenas intervenções curtas de tomada de posição. Na pauta, uma visão geral que podemos chamar de África para os africanos, Africa First, uma tomada de consciência do valor que representam os seus recursos naturais, que vão do petróleo até as suas imensas reservas em solo e água, e da necessidade de repensar o conjunto dos relacionamentos para dentro e para fora do continente.

A ordem não é mais o “ajuste estrutural”, como foi ditado pelo FMI e países dominantes, e sim a “transformação estrutural.” Numa era de sede planetária por recursos naturais, a África se vê com muita capacidade financeira. Inicialmente utilizados para um consumo de luxo por elites, gradualmente estão sendo deslocados para lançar os fundamentos de uma nova capacidade econômica. Infraestruturas, banda larga generalizada, educação, e produção local. Em particular, está sendo discutida uma industrialização centrada no aproveitamento dos próprios recursos naturais que geraram estas capacidades financeiras. Ligar a agro-exportação ou a extração mineral a exigências de investimentos locais a jusante e a montante, dinamizando fornecedores locais e agregando valor aos produtos transformados.

Criou-se uma articulação entre três instituições de primeira importância, a Comissão Econômica para a África (UNECA), a União Africana (UA) e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). Junta-se assim a capacidade de informação e análise, a base política e a capacidade financeira. Ou seja, criou-se, incorporando iniciativas anteriores como a NEPAD, um instrumento de orientação pan-africana das iniciativas de cada país. Isto é vital para um continente onde as infraestruturas e circuitos comerciais nasceram fragmentados e centrífugos, cada país dispondo por exemplo de uma ferrovia ligando a região de exploração de recursos com o porto de exportação, mas com quase nenhuma articulação interna. Isto é familiar para o Brasil, onde praticamente todas as capitais são portuárias, e onde nos falta ainda uma ligação decente transcontinental, no momento em que a bacia econômica do mundo está se deslocando para o Pacífico. Aliás a América Latina também pode ser vista, neste sentido, como um subcontinente oco, com um miolo relativamente vazio.

Foram aprovados nove eixos que deverão orientar o desenvolvimento econômico e social nesta década: apoio técnico à política macro-econômica; integração regional das infraestruturas e trocas comerciais; tecnologias para a apropriação dos recursos naturais africanos de maneira sustentável (African Mining Vision entre outros); aprimoramento e gestão em rede dos sistemas estatísticos para monitorar a formulação de políticas; desenvolvimento das capacidades institucionais; desenvolvimento de subprogramas de promoção e inclusão da mulher nas atividades econômicas e sociais; organização de subprogramas integrados para as cinco regiões que compõem o continente (Central, Norte, Sul, Leste, Oeste); investimento na capacidade de planejamento e administração nos países membros; políticas de desenvolvimento social, com particular atenção para as políticas de emprego e voltadas à juventude.

As propostas culminaram na aprovação oficial na reunião de Abidjan, mas haviam sido amplamente negociadas com todos os países da região. Segundo o documento aprovado, “o consenso nas visões que emergem é que tornou-se imperativo para a África usar o crescimento atual como plataforma para uma ampla transformação estrutural. Para fazê-lo, deverá empoderar-se para contar a sua própria história, e a sua política de desenvolvimento deverá colocar Africa First. Isto também significa uma contínua e estreita colaboração entre as três instituições pan-africanas, ADB, AU e ECA, para assegurar coerência e sinergia na implementação do programa.”

Interessante notar que havia na reunião apenas alguns convidados não africanos, dos quais dois brasileiros: Glauco Arbix, presidente da FINEP, particularmente interessante para as políticas de inovação que os africanos querem dinamizar, e eu que escrevo estas linhas, como convidado especial, pelo interesse dos ministros em ouvirem como o Brasil articula políticas econômicas e sociais. Francamente, como trabalhei sete anos em diversos países da África, tentando ampliar capacidades estatísticas e de planejamento, já tinha visto muitas reuniões “decisivas” e pouco transformadoras. Na minha compreensão e conhecimento, aqui realmente estamos assistindo a algo novo. Sobretudo porque, além de discursos e compromissos, geraram-se instituições de gestão das resoluções, não criando novas burocracias, mas articulando as três instituições que no contexto africano demonstraram a sua capacidade.

Presa na herança estrutural terrível do passado, peão de interesses mundiais contraditórios na guerra fria, manobrada e fragmentada por interesses neocoloniais, apropriada e corrompida por corporações transnacionais, a África não tem caminho fácil nem rápido pela frente. Mas a nova consciência do seu peso, da sua importância e dos seus direitos, no momento em que as economias dominantes estão enredadas com as suas próprias desgraças, abre sim muita esperança. É a ideia de uma África emergente.

* Ladislau Dowbor é economista e professor titular no Departamento de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Seus textos publicados em Outras Palavras estão aqui.

FONTE: Outras Palavras