diálogos com a Negritude nas poesias dos ‘Cadernos Negros’

 

cadernos negros Melhores Poemas


NEGRITUDE

[CELINHA]

Para Jorge Henrique Gomes da Silva

De mim
parte um canto guerreiro
um voo rasante, talvez rumo norte
caminho trilhado da cana-de-açúcar
ao trigo crescido, pingado de sangue
do corte do açoite. Suor escorrido
da briga do dia
que os ventos do sul e o tempo distante
não podem ocultar.

De mim
parte um abraço feroz
um corpo tomado no verde do campo
beijado no negro da boca da noite
amado na relva, gemido contido
calado na entranha
oculto do medo da luz do luar.

De mim
parte uma fera voraz
(com sede, com fome)
de garras de tigre
pisar de elefante correndo nas veias
de fogo queimando vermelho nas matas
Rugir de leões bailando no ar.

De mim
parte de um pedaço de terra
semente de vida com gosto de mel
criança parida com cheiro de luta
com jeito de briga na areia da praia
de pele retinta, deitada nas águas
sugando os seios das ondas do mar.

De mim
parte  N E G R I T U D E
um golpe mortal
negrura rasgando o ventre da noite
punhal golpeando o colo do dia
um punho mais forte que as fendas de aço
das portas trancadas
da casa da história.

***

CRISTÓVÃO-QUILOMBOS
[JAMU MINKA]

Fez-se a ganância
diabólicos destinos de um caminho sem volta
espíritos e corpos armados nascem do imenso ventre das
águas fantásticas
o outro lado do mundo possível
Terrágua, uma bola de vida no cosmo
1492, Colombo!

Naus enormes, engenhocas inéditas — a roda, arma de
fogo —
múltiplos poderes desconhecidos
homens-deuses barbados, brancos, loiros e ruivos
e seus olhos coloridos de cobiça

Piratas no paraíso
Europa rouba tudo
ouro e prata, milho, batata
cana e canga em corpos de América e África

Pós impacto do primeiro engano
— a visita era conquista e seus horrores —
deuses invadidos trovejam tambores
e cospem flechas de rebeldia

Depois de Colombo e sua maldita herança
— calombos e mutilações em milhões de corpos —
Quilombos por toda parte.

***

EFEITOS COLATERAIS
[JAMU MINKA]

Na propaganda enganosa
paraíso racial
hipocrisia faz mal
nosso futuro num saco
sem fundo

a gente vê
e finge que não vê
a ditadura da brancura

Negros de alma negra se inscrevem
naquilo que escrevem
mas o Brasil nega
negro que não se nega.

 

SAFÁRI

[Jamu Minka]

 

Aquela tigresa é tanta

que me almoça e janta

faço de conta que a sala é ponto

na geografia da África

e o tapete vira suave savana ao entardecer

quando a pele da noite vem camuflar

nosso safári safado.

 

Olho por olho

dente por dente

    recuperamos o pente

   ancestral

         o impossível continha o bonito

           caracol

       carapinha

bumerangue infinito

                            

Olho que revê o que olha

 dedos que sabem trançar ideias

           do original azeviche

                                princípio do mundo

 

Se o cabelo é duro

        cabe ao pente ser suave serpente

o fundamental dá beleza

a quem não tem preconceito

        e conhece segredos da

C R E S P I T U D E

***

TRAÇADO
[MÁRCIO BARBOSA]

O traço saído
ao crespo estilo
do teu cabelo
trançado e escuro
já mora em meu olho

 

VERSÃO
[MÁRCIO BARBOSA]

Negro é o amor onde habito silente
a cor talhada na dor da senzala
resumo de vida em ferro e carvão
Negro é o amor forjado no tempo
pretume piche azeviche
tição aceso na tez
do instinto de luta o peito é abrigo
o riso é fluência de um novo começo

***

CABELOS QUE NEGROS
[OLIVEIRA SILVEIRA]

Cabelo carapinha,
engruvinhado, de molinha,
que sem monotonia de lisura
mostra-esconde a surpresa de mil
espertas espirais,
cabelo puro que dizem que é duro,
cabelo belo que eu não corto à zero,
não nego, não anulo, assumo,
assino pixaim,
cabelo bom que dizem que é ruim
e que normal ao natural
fica bem em mim,
fica até o fim
porque eu quero,
porque eu gosto,
porque sim,
porque eu sou
pessoa negra e vou
ser mais eu, mais neguim
e ser mais ser
assim.

 

SER E NÃO SER
[OLIVEIRA SILVEIRA]

O racismo que existe,
o racismo que não existe.
O sim que é não,
o não que é sim.
É assim o Brasil
ou não?

***

DANÇANDO NEGRO
[ÉLE SEMOG]

Quando eu danço
atabaques excitados,
o meu corpo se esvaindo
em desejos de espaço,
a minha pele negra
dominando o cosmo,
envolvendo o infinito, o som
criando outros êxtases…
Não sou festa para os teus olhos
de branco diante de um show!
Quando eu danço há infusão dos elementos,
sou razão.
O meu corpo não é objeto,
sou revolução.

***

LINHAGEM
[CARLOS ASSUMPÇÃO]

Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Me envia mensagens do orum
Meus dentes brilham na noite escura
Afiados como o agadá de Ogum
Eu sou descendente de Zumbi
Sou bravo valente sou nobre
Os gritos aflitos do negro
Os gritos aflitos do pobre
Os gritos aflitos de todos
Os povos sofridos do mundo
No meu peito desabrocham
Em força em revolta
Me empurram pra luta me comovem
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Eu trago quilombos e vozes bravias dentro de mim
Eu trago os duros punhos cerrados
Cerrados como rochas
Floridos como jardins

 

BATUQUE
[CARLOS ASSUMPÇÃO]

(Dança afro-tietense )

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas e brancas

Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Que evoca bravura dos nossos avós
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores
Sem distinção

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas brancas azuis e verdes

Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
Dispersos
Jogados em senzalas de dor
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que fala de ódio e de amor
Tambor que bate sons curtos e longos
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores

Num quilombo
Num quilombo
Num quilombo

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

***

ZUMBI
[ABELARDO RODRIGUES]

As palavras estão como cercas
em nossos braços
Precisamos delas.
Não de ouro,
mas da Noite
do silêncio no grito
em mão feito lança
na voz feito barco
no barco feito nós
no nós feito eu.
No feto
Sim,
20 de novembro
é uma canção
guerreira.

***

MAHIN AMANHÃ
[MIRIAM ALVES]

Ouve-se nos cantos a conspiração
vozes baixas sussurram frases precisas
escorre nos becos a lâmina das adagas
Multidão tropeça nas pedras
Revolta
há revoada de pássaros
sussurro, sussurro:
“é amanhã, é amanhã.
Mahin falou, é amanhã”.

A cidade toda se prepara
Malês
bantus
geges
nagôs
vestes coloridas resguardam esperanças
aguardam a luta

Arma-se a grande derrubada branca
a luta é tramada na língua dos Orixás
“é aminhã, aminhã”
sussurram
Malês
bantus
geges
nagôs
“é aminhã, Luiza Mahin falo”

***

AS SAUBARAS INVISÍVEIS
[JÔNATAS CONCEIÇÃO]

A memória é redundante: repete os
símbolos para que a cidade comece
a existir.
Ítalo Calvino

Chega-se a Saubara pelo caminho do mar.
Às velas, barcas velhas velejam rumo à baía.
Viagem de gentes, trapos, mercadorias,
Odores repelentes que recendem tumbeiros
Travessia de longínquas noites
(“Aquela viagem era uma eternidade!”)
que ao vento cabia a tarefa de um porto feliz.

Chega-se a Saubara por via de muitos rios
Do rio para o mangue, do mangue-rio para o mar.
Caminhos do leva-e-traz mercantil
Ao porto de amaros negócios
Percurso de antigos navegantes
Fundadores do eterno dar-se saubarense
Desbravadores de restos da flora e fauna do lugar.

Chega-se, finalmente, a Saubara pelo primado da fé.
Seus marujos e rezadeiras procuram, há muito,
o caminho da salvação.
Seus filhos e netos, há pouco, descobriram outros
caminhos…
Procuram, pela novidade alheia, desesperadamente,
outra cidade inventar.
Os perseguidores da fé a tudo ver – oram choram
(“São Domingos que é de Gusmão que nos vele”)
as chamas das velas revelam.

***

OLHAR NEGRO
[ESMERALDA RIBEIRO]

Naufragam fragmentos
de mim
sob o poente
mas,
vou me recompondo
com o Sol
nascente,

Tem
Pe
Da
Ços

mas,
diante da vítrea lâmina
do espelho,
vou
refazendo em mim
o que é belo

Naufragam fragmentos
de mim
na coca
mas, junto os cacos, reinvento
sinto o perfume
de um novo tempo,

Fragmentos
de mim
diluem-se na cachaça
mas,
pouco a pouco,
me refaço e me afasto
do danoso líquido
venenoso

Tem
Pe
Da
Ços

tem
empilhados nas prisões,
mas
vou determinando
meus passos para sair
dos porões

tem
fragmentos
no feminismo procurando
meu próprio olhar,
mas vou seguindo
com a certeza de sempre ser
mulher

Tem
Pe
Da
Ços

mas
não desisto
vou
atravessando o meu oceano
vou
navegando
vou
buscando meu
olhar negro
perdido no azul do tempo
vou
voo,

***

A NOITE NÃO ADORMECE NOS OLHOS DAS MULHERES
[CONCEIÇÃO EVARISTO]

Em memória de Beatriz Nascimento

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

 

MALUNGO, BROTHER, IRMÃO
[CONCEIÇÃO EVARISTO]

No fundo do calumbé
nossas mãos ainda
espalmam cascalhos
nem ouro nem diamante
espalham enfeites
em nossos seios e dedos.

Tudo se foi,
mas a cobra deixa o seu rastro
nos caminhos por onde passa
e a lesma lenta
em seu passo-arrasto
larga uma gosma dourada que brilha no sol.

Um dia antes
um dia avante
a dívida acumula
e fere o tempo tenso
da paciência gasta
de quem há muito espera.

Os homens constroem
no tempo o lastro,
laços de esperanças
que amarram e sustentam
o mastro que passa
da vida em vida.

No fundo do calumbé
nossas mãos sempre e sempre
espalmam nossas outras mãos
moldando fortalezas esperanças,
heranças nossas divididas com você:
Malungo, brother, irmão.

***

 

cadernos negros 30 anos capa

 

ESPELHO

[Landê Onawale]


visto-me
e não olho para o que vejo
lanço-me ao fundo do espelho
apuro a visão até chegar
a mim
encontro-me
saio

 

***

 

SER INTELIGÍVEL E O INTELIGÍVEL DO SER PARA NÃO SER ININTELIGÍVEL

[Miriam Alves]

 

Entre o eu o infinito
construo a ponte
a ponte irreversível
da fala
da festa
do ontem
do hoje e amanhã

No espelho sou o olhar
o olhar que me percorre formas
e pela fresta sou eu espiando-me
inquieta
O coração em ritmo tambor
decifra mensagens
as palavras voam ao vento
Vão

E a cada tan-tan do coração

novas frases se formam

Vão

ao vento

o meu ser luma no seu contumaz leve brilho Vai

luzindo emoções indecifráveis

 

Voa Vai. Luzir Vai… Nos vãos da realidade…

um sonho Vai no lusco-fusco vespertino

aonde nos vãos da verdade os sonhos Vão

janelas abertas

lufadas penetram

trazendo sementes

 

Naquele meu vasinho de crisântemos que enfeita o

infinito da janela

entre as pequeninas flores-rosa-avermelhadas pousa

uma nova verdade

sementes de um futuro difuso

um poema se forma

na forma diáfana do tun-tun-tun-tan-tan do coração

em compasso de construção

desnudando o mundo num futuro crisântemo onde

o lusco-fusco é brilho intenso

onde as despedidas-de-verão se abrem a primaveras

de intenções

 

***

cadernos negros v31 

 

A FORÇA DA AFRICANIDADE

[Dirce Pereira do Prado]

 

No íntimo da palavra trabalho

Sinto a força da africanidade

Na coragem do povo negro

Ao transformar as opressões

No conhecimento da vida.

 

Sim, vivenciamos uma africanidade

Arraigada na humanidade

Ao acalentarmos um coração desesperado

Entre os conflitos culturais

Quando recebemos as proteções

Dos nossos ancestrais!

 

Logo, africanidade é negritude viva

Que dos seus ancestrais faz a história

Concentra os mistérios da vida

No tempo presente traz a vitória!

 

***

 

 

 

ECOS DA BATIDA

[Edson Robson Alves dos Santos]

 

Ecos da batida

Soltos pelo ar

A expressão rítmica

A nos unificar

 

“Omnirá”

Quebre os grilhões da diáspora

Unifique nossas vidas

Separadas pelo mar

 

Bate no coração a saudade

O canto espanta a tristeza

No balanço dos acordes

No ar, sou a liberdade

 

Levante a poeira

Deixe quebrar

Venha sambarregaear

Ao som de Omnirá

 

***

 

ENSINAMENTOS

[Esmeralda Ribeiro]

 

Ser invisível quando não se quer ser

é ser mágico nato.

 

Não se ensina, não se pratica, mas se aprende.

no primeiro dia de aula aprende-se

que é uma ciência exata.

 

O invisível exercita o ser “zero à esquerda”

o invisível não exercita a cidadania.

As aulas de emprego, casa e comida

são excluídas do currículo da vida.

 

Ser invisível quando não se quer ser

é ser um fantasma que não assusta ninguém.

Quando se é invisível sem querer

ninguém conta até dez

ninguém tapa ou fecha os olhos

a brincadeira agora é outra

os outros brincam de não nos ver.

 

Saiba que nos tornamos invisíveis

sem truques, sem mágicas.

Ser invisível é uma ciência exata.

Mas o invisível é visto no mundo financeiro

é visto para apanhar da polícia

é visto na época das eleições

é visto para acertar as contas com o Leão

para pagar prestações e mais prestações.

 

É tanto zero à esquerda que o invisível

na levada da vida soma-se

a outros tantos zero à esquerda

para assim construir-se humano.

 

***

 

MISTURASIL

[Jamu Minka]

 

Aventureiros e predadores expandem Portugal

aqui, abaixo da linha do equador

organizam o êxodo do Brasil vegetal

o vale-tudo inaugural dos escândalos

da futura Brasília capital

 

Tudo se mistura

mestidragem, malançagem

mancebia, sacristia

mamelusas e afroguesas escravizadas também abaixo

da linha da cintura

negócios e sacanagens da Causa Glande.

 

***

 

FUTURO

[Márcio Barbosa]

 

que áfrica

            está estampada

nas pupilas

            da vó negra

que dança

            a congada?

 

quantos zumbis

            vão surgir

na poesia

            da periferia maltratada?

 

é nzinga

            que dança

e ocupa o abraço

            da menina de tranças?

 

que orixá

            olha

por esse menino

            que ama

jogar bola?

 

um sopro ancestral

            de tambores e vozes

nos protege

            do mal

 

o moderno, o novo

            deságuam no rio

tradicional

 

não há povo

            sem história

sem memória

            coletiva

 

e é na pele

            que essa memória

continua viva

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