o negro a contrapelo na obra de (Luiz) Cuti

Sempre atenta para as intensas experiências às quais estão expostas, na sociedade racista, corporeidades e subjetividades afrodescendentes, na obra ampla e variada assinada pelo poeta paulista Cuti nota-se a predominância de um discurso introspectivo que busca a afirmação estético-identitária do negro mergulhando no enfrentamento às ambiguidades e indefinições que permeiam essas experiências. O trabalho inventivo com a linguagem também se mostra um recurso assíduo para a elaboração de imagens aguçadas e multifacetadas de (auto)questionamento. Além desses dois traços formais aqui ressaltados (e que também se relevam em vários dos poemas da moçambicana Noémia de Souza e do angolano Agostinho Neto), muitos outros elementos confirmam os densos vínculos que a voz literária de Cuti estabelece com a poética da Negritude.

cuti serio

EU NEGRO

Areia movediça na anatomia da miséria
Pano-pra-manga na confecção apressada de humanidade
Chaga escancarada contra o riso atômico dos ladrões
Espinho nos olhos do esquecimento feliz de ontem
Eu
Eu feito de sangue e nada
De Amor e Raça
De alegrias explosivas no corpo do sofrimento e mágoa.
Ponto de encontro das reflexões vacilantes da História
Esperança fomentada em fome e sede
Eu
A sombra decisiva dos iluminismos cegos
O câncer dos humanismos desumanos
Eu
Eu feito
De Amor e Raça
De alegrias incontroláveis que arrebentam as rédeas dos sentimentos egoístas
Eu
Que dou vida às raízes secas das vegetações brancas
Eu

 

 

QUEBRANTO

às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredicto

às vezes sou o amor que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que sonhei e não comi
outras o bem-te-vi com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida uma constituição
que me promulgo a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto que me entrego

às vezes…

 

TORPEDO

irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?

e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!
e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares

 

POEMA

trabalho em transe
do coração à tez
overdose
e osmose
de lucidez

 

PERGUNTAS

Quem conhece meus Nilos de dentro
meus rios
raízes que regam felizes
a carne do Brasil?

Quem conhece meus rios
meus cios
sonhadas carícias de vida melhor?

Aquele que sabe
do sabre que corta na minha garganta
a voz dos meus rios
não sabe a denúncia tão cheia em meus olhos
não sabe da quebra de pontes
das fontes violentas que rasgam feridas na terra?
não sabe da febre agitada do mar
depois da viagem em meu transe atlântico
há tempos atrás?

Quem conhece as águas doces do meu canto
salgadas do meu pranto
e as correntezas do fundo
dos meus rios
que engravidam o mar?

 

NASCENTE

o broto brota sob a bota
que pisa
a gente cala por enquanto
porque precisa
a nossa fala que o tambor fala
é brisa
do novo que há de ver
a palma
a calma trancada e reprimida
a trama já tramada que tá verde
a verde verdade preta amadurece
ama e cresce sob a bota
imagem dum pilão que moe que soca

o broto brota sob a bota
que pisa
o broto brotalvorada
e nova rota
e grita

o broto é negro como o riso-terra
e espera que apenas outros
bebam do suor dos rios.

 

MÁRTIR LUTA NO RINGUE

não são ventos alísios
que nos espicham cabelos e medos
de sermos o que já não sabemos
que somos

não se trata de moda
este raspar a cabeça de jogadores
e bailarinos
e dos jovens todos que os imitam
quando o coração é um mártir
a antimemória seu ringue
o adversário (não disfarça)
está sempre à nossa frente
com seu ódio viking

essa vergonha no cabelo
balançando ao vento
um corte no supercílio

dificultando ver
o inimigo
porque o sangue escorre
pelo nosso rosto
invisível.

 

NEGROESIA

enxurrada de mágoas sobre os paralelepípedos
por onde passam carroções de palavras duras
com seus respectivos instrumentos de tortura

entre silêncios
augúrios de mar e rios
o poema acende seus pavios
e se desata
do vernáculo que mata

ao relento das estrofes
acolhe os risos afros
embriagados de esquecimento e suicídio
no horizonte do delírio

e do âmago do desencanto contesta as máscaras
lançando explosivas metáforas pelas brechas dos
poesídios
contra o arsenal do genocídio.

 

RESGATE

gueto e quietude encurralados
dentro do próprio
rio de encantos passados

hoje resgato
res-gueto
e não bastam
toscos tótens atônitos
sem dentro
ante os múltiplos
milagres técnicos

aconchego-me no côncavo deste abraço
ancestral
adormeço de cansaço
lanças de outrora
já não servem
para defender o sonho
enquanto balas e mísseis
cruzam o espaço em direção à morte

somente as deste fogo-afago
desferidas
para incendiar ao menos
de liberdade
um coração.

 

PORTO-ME ESTANDARTE

minha bandeira minha pele

não me cabe hastear-me em dias de parada
um século de hipocrisia após
minha bandeira minha pele

não vou enrolar-me, contudo
e num canto
acobertar-me de versos

minha bandeira minha pele

fincado estou na terra que me pertenço
fatal seria desertar-me
alvuras não nos servem como abrigo
sem perigo

lágrimas miçangas
enfeitam o país
a iludir o caminho
em procissões e carnavais

minha bandeira minha pele

o resto
é gingar com os temporais

 

AMOR

Amo esta minha terra
onde os ossos de meus avós
gritam o grito interno dos ossos
na carne do chão
e Oxumaré sobe em riso e clarão

esta terra
onde os rios contam a história
de lutas quilombolas
a quem não tapa os ouvidos

Amo esta terra
do café da cana do ouro
do sangue do sangue do sangue
do meu sangue

esta terra Brasil
do carnaval do futebol do anil
do suor do suor do suor
do meu suor

esta terra
em que confundem amor e prata
violência e nada
exploração e paz

esta terra
recortada por veias negras
abertas

esta terra
onde donos brancos
jogam no barranco
os sonhos do povo

esta terra
onde a fome que mina
a força dos filhos
é a mina lucrativa de uns poucos

Amo a terra
e o interior dela

esta terra
África enterrada
a custa de porrada
viva
e que respira
a respiração que inspira
seus filhos

esta terra
coração da Diáspora
onde brancos
se envergonham de serem negros

Amo esta terra
negra
de suor
suor
suor
sangue
sangue
sangue
e pele

 

ESTÉTICA

quando o escravo
surrupiou a escrita
disse o senhor:
— precisão, síntese, regras
e boas maneiras!
são seus deveres

enxurrada se riu demais em chuva
do conta-gotas e sua bota de borracha rota
na maior despercebida enchente daqueles tempos
adjetivos
escorrendo ainda hoje
em negrito.

 

IMPASSES E PASSOS

algemas do pão e do circo
e seu cotidiano cerco
às investidas do sonho

sono coletivo produzido em gabinetes
sono sem sonho
esclerose de nuvens brancas trotando trêfegas
esporas reluzentes
sobre nossos corações

a pergunta eleva sua crista:
– quem dentre nós mais de trezentos anos
de ruínas de quilombos
traz dentro do peito?

por muito tempo, ainda, mastigaremos o silêncio
no caminho para o grande lar
que já não temos?

no trajeto o enfrentamento
com as sereias e seu canto
sussurrado pelo vento
laços sedutores
para o nosso enforcamento

politicamente incorreta
sempre
a orgia das correntes
nosso medo balbuciando morte
em conta-gotas de sambas e serpentes

de repente
escorpiões encalacrados nos tornamos
(apesar de sorridentes)
sem disfarce
o que em face do desprezo se acende
contra o nosso próprio veneno

o “eu” se deita sobre o feno
negaceia o nós em movimento
da garganta se desatam para dentro
ecos que no lamento se afogam

o sol renitente ressuscita
a vida emboscada nas veredas

toco em brasa
a questão vem crepitada
fecunda e permanente
rolando
pelos glóbulos pretos
infectados de rancores brancos:
– quem tem mais de 300
de resistência no abismo?
silêncio incandescente
morre a esperança
em overdose de cinismo
e desabrocha a consciência em cactos

depois da chuva
somos
o horizonte e sua língua de arco-íris
descobrindo
o nosso próprio amanhecer.

 

OFÍCIO DE FOGO E ARTE

nossa é esta saga desenhando o silêncio em cores
rebeldia e incenso

ainda que as batalhas
tenham talhado de tão somente vermelho
lembranças de mar e terra
nosso é este futuro entre luz e sombra
este alto-relevo telúrico
agigantando-se no esboço de todas as madrugadas e no mosaico das tardes

em ondulação muscular galopam as tintas
ao comando de corações pensantes
enquanto gritos vão-se fazendo cantigas sábias
de ninar a memória e seus pincéis incandescentes

se ácidos céus de aço abafam a singela respiração onírica
um afro horizonte reabre seus vitrais
oxumarescendo a vida

nos cios dos séculos
banzaram aguadas lacrimais de anil
agora a mais sutil semelhança epidérmica da história
é linha que realça o elo
do mistério
ousadias de gingar o belo e semear vagalumes sobre as
telas

oceânica
esta energia coletiva extrapola a cena de naturezas-mortas
transfigura a moldura
colore a parede branca
e mergulha em vários planos a perspectiva de seus voos

verdeamarelas garatujas velhas ranzinzando a liberdade
a mão infinitiza em multiplicidade cromática, pele e
paisagem de sobejos desejos

tudo se emprenha de um incessante movimento
vários tons de melanina e a pulsação de um ritual aceso.

 

CULTURA NEGRA

ariânico afago
na suposta acocorada
afroinfância literária

nossa cor sim
e não
reelabora elegbará

orixás não tomam chás de academias
tampouco em mídia sui-seda
cedem

poema de negrura exposta
tece vida
na resposta
abrindo a porta enferrujada do silêncio

explodem
coices
o boi e o bode
entre folclóricas nuvens e teses
de negrófobas carícias

alvos, a-tingidos desesperam
em busca de tambores
ritos
puros mitos
em águas paradas
de poemas pardos
que lhes salvem da chuva de negrizo.

 

PA(Z)XORÔ

ainda assim… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência universal dos sonhos
onde a veste de pazciência
envolve a todos
e as mãos
modelam o ser nascente

olhar adentro
o todo é cada um
e há ondulações de calma
corpo e alma fundidos num só voo
desta ave celestial de luz
abraçando-nos com a abóbada infinita e azul

chuva-sêmen e afã de fecundar novas manhãs
ao fluxo ijexá de oxalufã
fé obstinada que nos guia
sol de oxaguiã
nas lutas do dia a dia
pilão
inhame de juventude
alegria
ainda que… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência concha universal do sonho paz
adjá a nos conduzir à fonte
e o mundo a ser lavado
nas águas de oxalá.

 

ZUMBI OR NOT ZUMBI
(ao negro de alma branca)

permanece encasulado
até que as labaredas cheguem
de teu abrigo
façam fumaça
e alguém diga: coitado!

nem penses o fogo te vindo ao longe
marchando brasas
em horizonte raivoso

não! é dentro que nasce
suave
do mais íntimo da tua sombra

onde o pavio incandesce em risadas
tua coragem quilombo

por hora continua no teu casulo
ruminando ruínas
afugentando marulhos
dessa tua travessia
em que és barco
e prisioneiro acorrentado no próprio porão

a ilusão é branca
e te abraça por todos os nadas
por mais que faças
no uso de tuas máscaras

ao despertares ao som
zumbiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…
não te assustes
é o saci
caminhando com as duas pernas sobre as águas
apesar dos tubarões
e suas fúrias afiadas
na luxúria do teu medo

um dia darás o primeiro passo
sem afundar

teu coração no horizonte
um sol de inverno
espera
a primavera.

 

COM A PORTA ABERTA

o que é que vai ser
quando o samba abrir uma fenda
bem no meio da sinfonia?

com’é que vai ficar, compadre
quando a macumba
entrar na sacristia?

e quando a pureza da cultura abrir as pernas
e mostrar pra todo mundo
que nunca teve cabaço

a dança de terreiro
rasgar terno e gravata

a ginga der meia-lua-de-compasso na compostura

a gente puder falar
sem algema ou atadura

a verdade
partir a cara da hipocrisia

o pão for repartido na marra?

não adianta fechar a cara
nem se fazer de besta
qu’Exu vai rir na abertura da festa
e Cristo vai gargalhar pela primeira vez na história
e
viva o pagode
da memória liberta
e do futuro concebido
com a porta aberta!

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