incrementa-se o debate & a pesquisa sobre a colonialidade brasileira

 

Seminário na UFSCar fomenta debates sobre “colonialidade”

Relegados a segundo plano pelas ciências sociais brasileiras, os estudos pós-coloniais/descoloniais ganham impulso com distintos debates em universidades – como no IV Seminário Internacional do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, que abordou, entre outros temas, a questão da “colonialidade”.

Maurício Hashizume

Encontros e manifestações ocorridas em diferentes espaços da academia trouxeram à tona no Brasil a relevância da discussão em torno da “colonialidade” – noção consagrada pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano que, grosso modo, salienta a profundidade e continuidade de classificações sociais e relações hierárquicas de poder conformadas pela experiência colonial para além da dominação formal do colonialismo político.

Como parte do IV Seminário do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), organizou-se, na última terça-feira (27), a mesa “Colonialidade e emancipação do saber e do poder no contexto latino-americano”, com as participações da professora Rita Laura Segato, da Universidade de Brasília (UnB), do professor Ramón Grosfoguel (Universidade de Califórnia-Berkeley, EUA) e a professora Patrícia Scarponetti (Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina).


Mesa sobre colonialidade no IV Seminário do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar (Foto: Maurício Hashizume)

Para a professora Rita, o conjunto de pensamentos sobre a colonialidade não é fechado, mas composto de diversas perspectivas, de modo coletivo e “vivo”. Dois são os caminhos que associam a trajetória acadêmica-política que ela vem seguindo com essa miríade de perspectivas: o do feminismo e a da luta pela aprovação das cotas raciais no ensino superior – da qual ela foi uma das expoentes. A partir da compreensão de que a raça é signo (marca móvel e maleável da posição dos corpos na história “lida” por um “leitor” informado) e não um fator biológico, Rita expôs suas concordâncias e discordâncias com a concepção de colonialidade apresentada por Quijano. Uma das questões-chave, segundo a professora, está, portanto, em diferenciar as diferentes noções de nomeação de raça: diferentemente do que ocorre no Caribe ou nos EUA, o racismo, nas ex-colônias ibéricas do continente americano, tende a se impor como diferença ao mesmo tempo em que nega a sua própria existência. Em consonância com a abordagem pós-colonial/descolonial, a acadêmica argentina radicada no Brasil reforça a diferença e as peculiaridades dos contextos sociais na América Latina.

Inspirado na teoria da dependência e em diversas outras influências, Quijano, segundo Rita, teve o mérito de “digerir” a ideia de colonialidade, que condensa a “historicidade plena” e reforça a “centralidade” da noção de raça. Nesse sentido, a conquista da América – e o surgimento de uma série de categorias fundamentais (índios/brancos, América/Europa etc.) para “narrar o imaginário do presente” e valorizar o “novo” em detrimento do “velho”, dando bases cruciais à crença no progresso linear e do crescimento infinito para o futuro – se apresenta como crucial para a modernidade. “Ainda que seja uma invenção colonial, a raça se reinventa a cada dia”, adverte a professora da UnB. No entendimento dela, essa linha de pensamento expõe formas imbricadas de exploração de classe e raça, colocando em xeque o marxismo mais ortodoxo que se concentra fortemente nas relações de produção entre burguesia e proletariado. No bojo da prevalência do eurocentrismo, o racismo não se dá apenas com relação aos corpos “racializados”, mas na produção (saberes, conhecimentos etc.) desses mesmos corpos. “Teorias do Norte ´chovem´ no Sul. Foi estabelecida uma divisão social da produção do conhecimento que restringe quem não é do Norte a apenas aplicar essas mesmas teorias”, critica, realçando a colonialidade do saber.

Ao chamar atenção para a “inteligência histórica de preservação” demonstrada pelos povos indígenas da América Latina (como os tupinambás, no Brasil) que resistem como coletivo há séculos e à importância de assumir um certo ´pensamento de tertúlia´ (em que conversar e trocar ideias coletivamente é mais importante do que escrever), Rita estabelece diálogo com as “epistemologias do Sul”, a “ecologia de saberes” e a “tradução intercultural” – conceitos-chave do Projeto ALICE – Espelhos Estranhos, Lições Imprevistas.

Modernidade/Colonialidade
No mesmo debate, Ramón Grosfoguel – que inclusive participou de seminários avançados do mesmo Projeto ALICE – optou por tentar fazer uma diferenciação entre o pensamento pós-colonial e o descolonial. Começou por sublinhar que não o célebre grupo de acadêmicos do qual faz parte em torno do Modernidade/Colonialidade consiste, na realidade, em uma rede, com muitas diferenças entre si. A impressão de que se trata de um coletivo mais coeso provavelmente está associada, de acordo com ele, a um artigo de um outro membro (o antropólogo colombiano Arturo Escobar), mas não se dá na prática.

O pensamento descolonial, seguiu Ramón, diferencia-se justamente pelo reconhecimento de uma larga história de enfrentamento aos cânones político-ideológicos coloniais. “Antes de Quijano, já havia perspectivas descoloniais. E depois também. E elas são muitas e plurais”, frisou aos presentes ao Auditório Bento Prado Jr. Em adição, o professor criticou a ideia de pensamento descolonial “fundante”, pois muita gente “a partir de diferentes epistemologias e cosmogonias” tem formulado sobre essa questão desde o século XVI.

Já a pós-colonialidade é, para Ramón, mais recente e mais focada na crítica à historiografia colonial, especialmente no que diz respeito à dominação britânica. Segundo ele, enquanto a crítica descolonial se dedica a interpretar a modernidade e colonialidade como “duas faces da mesma moeda” criadas ao mesmo tempo com a chegada dos europeus na América em 1492, a crítica pós-colonial – que tem na sua genealogia interpretações focadas em experiências coloniais (na Ásia, e particularmente na Índia, e no Oriente Médio) a partir do século XVIII – pode apresentar esses dois fenômenos (modernidade e colonialidade) como distintas. A diferença de fundo, sustenta o acadêmico porto-riquenho, está na compreensão descolonial de que não há maneira de “salvar” a modernidade, isto é, de convertê-la em projeto de libertação e emancipação dos povos oprimidos. Daí que, na interpretação dele, o pós-colonialismo possa ser lido, em alguma medida, como “colonialismo do saber” pelo viés da esquerda, dada a prevalência dispensada a cinco pensadores do Norte (Marx, Gramsci, Derrida, Lacan e Foucault) e o desinteresse pela diversidade epistêmica que vêm se dedicando, nas mais distintas condições, a enfrentar outros colonialismos que não o britânico.

Entre as diversas questões colocadas pelo público – a pedido da professora Patrícia Scarponetti, que optou por se manifestar a partir das indagações das pessoas presentes -, emergiu o risco de reificação da raça (apontado por Frantz Fanon), que porventura poderia subtrair o seu potencial emancipador. Ramón lembrou que ofensivas anti-essencialistas baseadas na superioridade da razão científica guardam um ranço colonial e que, no processo de desconstrução de paradigmas estabelecidos e de reconstrução de epistemologias próprias, as escolhas com relação às formas de representação no campo étnico-cultural-racial cabe a cada movimento e coletivo em suas próprias lutas. Rita pontuou ainda que o racismo e a matriz racializadora estão profundamente vinculadas a contextos específicos e que identidades fundamentalistas “culturalizadas” não podem “matar” a diversidade de sujeitos sociais latino-americanos.


Sessão sobre “Relações Étnicas e Raciais” no Grupo de Trabalho (GT1) – Culturas, Identidades e Diferenças (Foto: Maurício Hashizume)

Relações Étnicas e Raciais
Além da mesa, o tema da colonialidade também esteve presente nas discussões da primeira sessão (Relações Étnicas e Raciais) do Grupo de Trabalho 1 (Culturas, Identidades e Diferenças), que teve o professor Valter Roberto Silvério (UFSCar) como debatedor. Foram apresentados diversos trabalhos que – a partir de abordagens, métodos e estudos específicos – trataram alguma forma da relação entre as lutas contra a discriminação racial na América Latina (especialmente no Brasil) e os contextos sociopolíticos na qual estão inseridas.

Um dos nós da discussão foi o tema da constituição do “ethos” nacional brasileiro, a partir da análise histórica e crítica das posições assumidas por três setores-chave: a intelectualidade/academia, o Estado e os movimentos sociais. As lacunas na política de reconhecimento das diferenças étnico-raciais, a incorporação institucional de um discurso multiculturalista contemplativo que não desestabiliza as relações de poder e os conflitos para a adoção de ações afirmativas no sentido de enfrentamento do racismo foram avaliadas a partir dos mais variados autores, com atuação dentro e fora do Brasil. Na opinião de Ramon Grosfoguel, que acompanhou parte dos debates, os trabalhos revelam uma necessidade de captar de forma mais precisa a intersecção entre a opressão de raça e de classe social sem cair em falácias construídas a partir dos quadros teóricos idealizados e pretensamente universalistas do Norte.

Curiosamente, não houve destaque a um outro encontro acadêmico profundamente ligado ao mesmo debate que será realizado na mesma UFSCar na semana que vem. Trata-se do I Encontro Nacional de Estudantes Indígenas (ENEI), entre 2 a 6 de setembro, que foi concebido e organizado pelos próprios estudantes indígenas da UFSCar e deve reunir, pela primeira vez na história, mais de 300 estudantes de graduação e pós-graduação de 45 povos.

Para além da crise?
Outro importante evento que pôs em evidência o tema da colonialidade foi o IV Encontro da Cátedra América Latina e Colonialidade do Poder: Para além da crise? Horizontes desde uma perspectiva descolonial, que teve início na última quarta (28) e se encerra nesta sexta (30) no campus Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Resultado de uma articulação entre professoras/es, pesquisadoras/es da UFRJ, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o encontro trouxe ao país pensadores relevantes como o próprio Aníbal Quijano (membro da Cátedra América Latina e professor da Universidade Ricardo Palma, no Peru) e Catherine Walsh (professora principal e diretora do doutorado em Estudos Culturais Latino-americanos na Universidade Andina Simón Bolívar, no Equador), que também faz parte da rede Modernidade/Colonialidade.

Organizado na forma de três paineís – “Estado e poder”, “Capitalismo e desenvolvimento” e “Experiências emancipatórias”, o encontro assumiu o intento, conforme a organização responsável, de “aprofundar um pensamento crítico que foge das limitações de uma interpretação economicista das estruturas capitalistas”. Estiveram ainda presentes como conferencistas: Luis Tapia (filósofo e doutor em Ciências Políticas, diretor do doutorado multidisciplinar em Ciência do Desenvolvimento da Universidad Mayor de San Andrés-UMSA e da Universidade Nacional Autônoma do México-UNAM), Agustin Lao-Montes (sociólogo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos), Edgardo Lander – sociólogo venezuelano da Universidade Central da Venezuela; Alberto Acosta (economista equatoriano, professor e investigador da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais-FLACSO, no Equador) e Ana Ester Ceceña (economista e investigadora do Instituto de Investigações Econômicas da UNAM.

FONTE: Projeto Alice

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imagens, vozes & contextos da poesia negra brasileira

semog limeira

Registro integral, em vídeo (clique nas imagens para acessar), do II Encontro Ogum’s Toques ocorrido dia 22/8/2013 no CEAO, homenageando dois referenciais da poesia negra-afro-brasileira: José Carlos Limeira e Éle Semog.

arcoiris ogums mulata
O conjunto de poemas, memórias e reflexões partilhadas no evento por esses veneráveis militantes da palavra traçou um instigante panorama das lutas pelo reconhecimento e afirmação que têm sido empreendidas pel@s negr@s no Brasil, considerando os últimos quarenta anos. De maneira clara, precisa e embasada, demandas e dilemas centrais desse processo foram colocados em foco, lançando-se luzes e densos questionamentos sobre temas como as políticas de cotas e os índices absurdos da violência racial brasileira.

atabaques ogums bunda

As falas de Limeira & Semog não deixam dúvidas quanto à importância estratégica da efetivação da lei 10639 para a formação de mentalidades antirracistas e para a reconstrução/renovação cultural dos afrodescendentes e da diversidade brasileira, cabendo às artes e à literatura um papel seminal nesses aprendizados da negritude/negrícia/blackitude, da interculturalidade e dos caminhos históricos a serem trilhados para a ampliação de sentidos para a liberdade e a dignidade, a nível pessoal ou coletivo.

Enfim, um vídeo que condensa e atualiza o vigor crítico da voz dos Atabaques, o tremendo poder de transformação que irradia dos Arcos-Íris Negros. Certamente merecedor de larga disseminação, atenta assistência e profundo debate!

semog limeira youtube

poesia negro-brasileira: testemunhos & debates

Importante evento a acontecer em Salvador, no Centro de Estudos Afro-Orientais (Largo 2 de Julho), Confiram a apresentação feita pelo professor e crítico Ricardo Riso:


“A ação dos literatos foi fundamental para a rearticulação dos movimentos sociais negros durante a década de 1970. Autoras e autores reuniam-se em coletivos, trocavam informações em diferentes cidades, mimeografavam seus textos e os distribuíam em bailes black music, por exemplo, e noutros espaços negros.

Rompia-se a asfixia da ditadura militar com seus poemas e contos que denunciavam de forma explícita a farsa da democracia racial, assim como a discriminação a negras e negros como integrante do cotidiano brasileiro. Como parte histórica incontornável desse processo encontravam-se Éle Semog e José Carlos Limeira. Com atuações marcantes nos movimentos negros, desde cedo desenvolveram uma escrita negra, até que um vai ao encontro “daquele contínuo muito estranho que não saía da biblioteca” e começavam ali uma das mais representativas parcerias da literatura negro-brasileira. A união rendeu dois livros: “O Arco-Íris Negro”, de 1979, e “Atabaques” em 1983.

Para celebrar os 30 anos de “Atabaques”, conhecer como foi aquele encontro, ser escritor negro em plena ditadura e como manter a resistência literária no decorrer de tanto tempo, Ogum’s Toques do Escritor convida o público para reviver essa parceria em um bate-papo com Éle Semog e José Carlos Limeira. Uma excelente oportunidade para conhecermos as trajetórias desses dois autores e um pouco da história da literatura negro-brasileira contemporânea, que passa pelas suas escritas imprescindíveis, plenas de inquietação, conscientização e inquestionável apuro estético.”
Ricardo Riso

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humanismo, circularidade e solidariedade nas culturas de matriz africana

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Bom material midiático para abordar o problema da diferença cultural africana no plano da filosofia e para embasar uma crítica ao ideário individualista que estrutura o universalismo europeu.

 


“Eu só existo porque nós existimos”: a ética Ubuntu. Entrevista especial com Bas’Ilele Malomalo

“Sou porque nós somos”: em uma frase, esse seria o resumo da ética Ubuntu. Porém, é na construção histórica e cultural dessa ética, que nasce na África que se encontra a sua riqueza. Para o filósofo, teólogo e sociólogo congolês Bas’Ilele Malomalo, toda existência é sagrada para os africanos, ou seja, há um pouco do divino em tudo o que existe. Por isso, “o Ubuntu retrata a cosmovisão do mundo negro-africano”.

É por isso que o suposto antropocentrismo que poderia estar por trás do Ubuntu é “relativista”, segundo Malomalo, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “O ser humano africano sabe que nem tudo depende da sua vontade”, afirma. “Esta depende também da vontade dos ancestrais, dos orixás”, em suma, do sagrado.

Por outro lado, Ubuntu e felicidade são conceitos que andam juntos: “Na África, a felicidade é concebida como aquilo que faz bem a toda coletividade ou ao outro”. E quem é o meu “outro”? “São meus orixás, ancestrais, minha família, minha aldeia, os elementos não humanos e não divinos, como a nossa roça, nossos rios, nossas florestas, nossas rochas”. Dessa forma, resume Malomalo, para a filosofia africana, “o ser humano tem uma grande responsabilidade para a manutenção do equilíbrio cósmico”.

Bas’Ilele Malomalo é natural do Congo, África, e possui graduação em Filosofia pelo Grand Seminaire Fraçois Xavier – Filosoficum e em teologia pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp). É mestre em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo e é doutorando em sociologia pela Universidade Estadual Paulista – Araraquara. Atualmente é pesquisador do Centro dos Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Cladin-Unesp).

A entrevista que segue faz parte de uma iniciativa do IHU, por meio de seu Escritório da Fundação Ética Mundial no Brasil, que busca ampliar o debate sobre Ética Mundial, incluindo também outras perspectivas, especialmente dos povos originários latino-americanos – como o conceito ético do Sumak Kawsay – e africanos – o Ubuntu.
Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é e quais as origens do Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo –
Etimologicamente, Ubuntu vem de duas línguas do povo banto, zulu e xhona, que habitam o território da República da África do Sul, o país do Mandela. Do ponto de vista filosófico e antropológico, o Ubuntu retrata a cosmovisão do mundo negro-africano. É o elemento central da filosofia africana, que concebe o mundo como uma teia de relações entre o divino (Oludumaré/Nzambi/Deus, Ancestrais/Orixás), a comunidade (mundo dos seres humanos) e a natureza (composta de seres animados e inanimados). Esse pensamento é vivenciado por todos povos da África negra tradicional e é traduzido em todas as suas línguas.
A origem do Ubuntu está na nossa constituição antropológica. Pelo fato de a África ser o berço da humanidade e das civilizações, bem cedo nossos ancestrais humanos desenvolveram a consciência ecológica, entendida como pertencimento aos três mundos apontados: dos deuses e antepassados, dos humanos e da natureza.
Com as migrações intercontinentais e a emergência de outras civilizações em outros espaços geográficos, essa mesma noção vai se expressar em outros povos que pertencem às sociedades ditas pré-capitalistas ou pré-modernas. É dessa forma que se pode afirmar que essa forma de conceber o mundo na sua complexidade é um patrimônio de todos os povos tradicionais ou pré-modernos. Cada um expressa isso através de suas línguas, mitos, religiões, filosofias e manifestações artísticas.
Como elemento da tradição africana, o Ubuntu é reinterpretado ao longo da história política e cultural pelos africanos e suas diásporas. Nos anos que vão de 1910-1960, ele aparece em termos do panafricanismo e da negritude. São esses dois movimentos filosóficos que ajudaram a África a lutar contra o colonialismo e a obter suas independências. Após as independências, estará presente na práxis filosófica do Ujama de Julius Nyerere, na Tanzânia; na filosofia da bisoité ou bisoidade (palavra que vem da língua lingala, e traduzida significa “nós”) de Tshamalenga Ntumba; nas práticas políticas que apontam para as reconciliações nacionais nos anos de 1990 na África do Sul e outros países africanos em processo da democratização.
A tradução da ideia filosófica que veicula depende de um contexto cultural a outro, e do contexto da filosofia política de cada agente. Na República Democrática do Congo, aprendi que Ubuntu pode ser traduzido nestes termos: “Eu só existo porque nós existimos”. E é a partir dessa tradução que busco estabelecer minhas reflexões filosóficas sobre a existência. Muitos outros intelectuais africanos vêm se servindo da mesma noção para falar da “liderança coletiva” na gestão da política e da vida social.

IHU On-Line – Como um princípio ético nascido na África, que manifestações do Ubuntu podemos encontrar na cultura brasileira ou afro-brasileira, tão marcada por raízes africanas?
Bas’Ilele Malomalo –
É preciso voltar à história para capturar as manifestações do Ubuntu em suas diásporas transatlânticas. No Brasil, a noção do Ubuntu chega com os escravizados africanos a partir do século XVI. Estes trouxeram a sua cultura nos seus corpos, e ela foi reinventada a partir do novo contexto da escravidão. Por isso, falar de Ubuntu no Brasil é falar de solidariedade e resistência. Como outros registros histórico-antropológicos que expressam o “ubuntu afro-brasileiro”, podemos citar os quilombos, as religiões afro-brasileiras, irmandades negras, movimentos negros, congadas, moçambique, imprensas negras.

IHU On-Line – Como podemos compreender a religião ou o sagrado por meio do Ubuntu? De que forma ele tenciona a noção religioso-transcendental?
Bas’Ilele Malomalo –
Para os africanos e seus descendentes, toda existência é sagrada, quer dizer, há um pouco do divino em tudo o que existe. A religião, como instituição social e sistema simbólico, apresenta-se como o espaço privilegiado de alimentação da “consciência ubuntuística”. Através de seus ritos, seus sacerdotes e adeptos a reatualizam. Os mitos, as celebrações, os cantos e encantamentos desempenham essa função de nos religar com nossos deuses, antepassados, com a comunidade, conosco mesmos, com o cosmos e a natureza. Além dos ritos sagrados, os profanos também desempenham a mesma função mística. Na África, os ritos de iniciação, de entronização dos reis ou rainhas estão sempre conectados com a ancestralidade.

IHU On-Line – Dentro da ética Ubuntu, qual é o papel do ser humano e da comunidade?
Bas’Ilele Malomalo –
A concepção africana do mundo é antropocêntrica. Não no sentido absolutista da filosofia iluminista ocidental, que pensa que o ser humano é o centro do mundo e que ele pode tudo e pode fazer tudo o que quiser. O antropocentrismo africano é “relativista”. Quer dizer o ser humano africano sabe que nem tudo depende da sua vontade. Esta depende também da vontade dos ancestrais, dos orixás. Se estes revelarem, através de um sonho, de um Ifá, de um sacerdote, do seu pai ou da sua mãe, um acontecimento, será preciso prestar atenção.
Por outro lado, o antropocentrismo africano entende que uma boa prática religiosa só existe naquela que traz a felicidade para o ser humano. Como este não pode ser concebido fora das relações sociais, na África, a felicidade é concebida como aquilo que faz bem a toda coletividade ou ao outro. Os outros são meus orixás, ancestrais, minha família, minha aldeia, os elementos não humanos e não divinos, como a nossa roça, nossos rios, nossas florestas, nossas rochas. Dessa forma, para a filosofia africana, o ser humano tem uma grande responsabilidade para a manutenção do equilíbrio cósmico.

IHU On-Line – Em uma época de crise ecológica e ambiental, como o Ubuntu pode nos ajudar a desenvolver uma nova relação com os demais seres não humanos?
Bas’Ilele Malomalo –
Do ponto de vista filosófico, a crise planetária atual encontra suas raízes na expansão ocidental desde a Idade Média até o surgimento da modernidade. A hegemonia da “razão indolente” (
Boaventura de Sousa Santos) nas suas manifestações através do colonialismo, positivismo, racismo científico, capitalismo selvagem, tem sido o instrumento de aprofundamento dos males da nossa civilização. Esse pensamento absolutizou tanto o homem que este voltou-se contra suas divindades, contra a natureza e contra seus semelhantes. O seu “antropocentrismo absolutista” criou as condições de destruição da sua própria espécie e das espécies não humanas.
Qual é a saída que os pensamentos alternativos têm sugerido? Boaventura de Sousa Santos alega que é preciso acionar a “razão cosmopolita”; Edgar Morin sugere o uso de uma epistemologia da complexidade;
Leonardo Boff tem sugerido a espiritualidade ecológica. É na busca da união umbilical, afirma Boff, que se encontraria a salvação da humanidade, a superação da crise ecológica atual.
Na filosofia africana, Tshamalenga Ntumba tem interpretado o Ubuntu em termos de “Bisoidade”. Tal prática se caracterizaria pela abertura ao diferente, encará-lo como parte de nós. Nessa direção, o mundo da fé, das divindades, dos orixás, dos ancestrais deve dialogar com o mundo dos seres humanos e não humanos (natureza/cosmos). Esse conceito vislumbra o encontro ético e político do “Nós”. Trata-se do “nós ecológico”. Para esse filósofo congolês, a existência significa uma interação entre as três dimensões da cosmovisão africana. As crises políticas, econômicas, culturais e sociais que têm afetado o continente africano, para ele, ocorrem porque o ser humano se esqueceu de cuidar do “biso” ou do “nós ecológico”.
Dessa forma, antes dos humanos cuidarem dos não humanos, precisam cuidar da sua casa. Quer dizer, rever suas práticas filosóficas e científicas dentro dos parâmetros éticos. Uma vez feito isso, poderiam ter condições de cuidar do meio em que vivem. Insisto nisso, porque há um certo pensamento ambientalista ligado à razão indolente. Muitos falam do meio ambiente para lucrar. Essa opção leva esses ativistas e cientistas a ocultar as misérias humanas. O Ubuntu é uma crítica à visão simplista e interesseira. Pensar o desenvolvimento ambiental nessa perspectiva é perceber, como Boff, que deve se levar as coisas no contexto da dialética da complexidade, na qual o teológico, o antropológico e o cosmológico-ambiental dialogam sabiamente. Somos nós, os humanos, que devemos procurar o estabelecimento desse equilíbrio planetário. As responsabilidades têm que ser apuradas, e evitar o discurso da hipocrisia burguesa.

IHU On-Line – Como interpretar nossa memória, nosso passado, nossa ancestralidade a partir do Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo –
Na filosofia negro-africana, a ancestralidade é eixo do entendimento da nossa existência. É tudo aquilo que nos proporciona a vivência do nosso presente (sasa, em swahili) e nosso futuro (lobi, em lingala), tendo aqueles que pertencem ao passado (zamani, em swahili), os que nos antecederam, divindades, orixás e antepassados como ponto de leitura das duas primeiras dimensões da existência.
A vontade das divindades, geralmente, concretizam-se pelas vontade dos orixás e ancestrais presentes na sabedoria popular, nos mitos. Os sacerdotes e pessoas mais velhas vivas têm o papel de interpretá-la através dos ritos e práticas do cotidiano.
Desse ponto de vista, os mitos e ritos africanos têm por função pedagógica lembrar aos vivos o seu parentesco com os seres do mundo invisível e visível (seres humanos e seres não humanos). Todos os mitos africanos se pautam nessa lógica. Como os mitos judaicos, os mitos africanos nos informam que os seres humanos têm um pouco de divino; cada um é filho de um orixá; e um pouco da natureza. Conta um mito da criação que Oludumaré (Deus supremo) deu ao orixá Obatalá a missão de criar o ser humano, e este o fez a partir do barro (elemento da natureza). Eis a nossa irmandade planetária. A cosmovisão africana do mundo tem uma importância no sentido de contribuir para o pensamento ecológico contemporâneo.

IHU On-Line – Em uma sociedade embasada em valores ocidentais e modernos como a nossa, que questionamentos políticos, econômicos e sociais o Ubuntu pode fomentar?
Bas’Ilele Malomalo –
O Ubuntu pertence ao pensamento alternativo, que cogita o mundo a partir da complexidade. E é oportuno reafirmar que toda filosofia carrega valores e antivalores. Para a filosofia de Ubuntu, não se pode falar de economia e política sem levar em consideração os valores da comunidade cósmica. Os profissionais de todos os campos da teologia, das ciências sociais e da natureza, políticos, o homem e a mulher comuns, todos devem ser ouvidos. O Ubuntu luta contra os reducionismos impostos pela razão indolente no fazer política e economia. A democracia participativa em todos os campos é tida como um valor. A economia não se reduz ao crescimento. Este tem a ver também com o social e com o cultural. O valor de solidariedade é também importante. 

IHU On-Line – Diante da violência e das desigualdades, que significado têm o perdão, a reconciliação e a compaixão para a ética Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo –
É preciso dizer, primeiro, que as vítimas da violência e das desigualdades são aquelas que compõem a classe dos excluídos por motivos raciais, de gênero, de opção sexual ou religiosa. Os seres não humanos também pertencem a essa classe dos dominados pelo fato de interagir com as classes dominantes, agentes da razão indolente, de uma forma desigual. Com isso, estou querendo afirmar a historicidade da violência e das desigualdades.
Olhando para a história africana e da sua diáspora brasileira, quero citar alguns casos em que o Ubuntu se materializou ou foi tencionado para ser traduzido em termos de perdão, reconciliação e compaixão.
A África do Sul, após a libertação de Mandela e o fim do apartheid, colocou-se como o exemplo histórico da tradução do Ubuntu no projeto político multicultural. Esse país, através de suas lideranças políticas, religiosas e sociais, soube fazer uso dos princípios éticos dessa filosofia através do estabelecimento da Comissão da Verdade e Reconciliação. Tratava-se da recriação de um espaço de diálogo da comunidade de inspiração nos “palabres africanos”. Palabre é uma palavra francesa, que se refere aos espaços de mediação de conflitos da comunidade, que contam com a habilidade do uso da palavra por parte dos mais velhos ou sábios. Não se tratava de um espaço de condenação dos torturadores ou racistas, mas sim de um encontro do povo sul-africano consigo mesmo, com seus problemas do passado, com o seu presente e com o seu futuro a ser construído. Um encontro com a sua memória de dor, sofrimento e de esperança. Após esse processo, esse país se define hoje como uma Nova África do Sul, que se reconhece como um país multicultural, onde brancos e negros podem conviver juntos. Dessa forma, o zamani [passado] de sofrimento se transformou num sasa-lobi [presente-futuro] de esperança.
Em 2001, com a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata (31 de agosto a 8 de setembro de 2001), em Durban, na África do Sul, as vítimas do escravismo colonial europeu, africanos e seus descendentes, exigiram aos Estados europeus, americanos e africanos um pedido de perdão pelos atos cometidos. Os Estados africanos através do representante da União Africana o fizeram, mas da parte dos dirigentes dos outros Estados houve resistência. Pois muitos não queriam assumir a sua responsabilidade histórica. Afinal de contas, a conferência condenou a escravidão como crime contra a humanidade.
Esses dois exemplos devem inspirar todas as sociedades multiculturais que pretendem propiciar um destino melhor para todos os seus cidadãos. Os países africanos que ainda brigam por causa da hegemonia política ou da gestão dos recursos naturais; os países da América Latina, como o caso do Brasil, onde as sequelas do escravismo e do racismo dividem, proporcionando aos seus cidadãos o acesso aos direitos políticos, econômicos, sociais e culturais de forma diferenciada, devem se servir dos exemplos citados, para que o Ubuntu se torne uma profecia da esperança cumprida.
No caso dos países africanos em situação das ditaduras militares, da democracia de fachada ou da democracia fraca e do pós-conflito, cabe apelar ao Ubuntu como uma nova forma de se pensar e fazer política. Governar, nesse sentido, significa ouvir os opositores, presentes em outros partidos políticos, nas organizações da sociedade civil, nas aldeias para a elaboração de um projeto nacional coletivo. Perdoar significa também fazer justiça em relação às mulheres vítimas de estupros, de genocídios, de matanças por razões de egoísmo dos senhores de guerras africanas. Reconciliação, nesse contexto, significa esclarecimento perante a comunidade dos problemas que afetam as nações, e a partilha das responsabilidades. É uma volta à memória ancestral, aos valores africanos do passado, mas atualizados no presente, e o seu uso no exercício de fazer a política na modernidade. Nesse aspecto, a legitimidade dos dirigentes se fundamenta na prática da lealdade, na busca do bem-estar do povo, e não o contrário.

IHU On-Line – Em um contexto social como o brasileiro, como a ética Ubuntu pode contribuir na situação contemporânea?
Bas’Ilele Malomalo – Uma coisa que Ubuntu tem para nos ensinar, nesse momento histórico, de experimentação de políticas públicas de ações afirmativas e cotas é a consideração dos elementos de perdão, reconciliação e compaixão. Para mim, perdoar significa antes de tudo a identificação das causas de nossos males. Os males, que justificam a situação do subdesenvolvimento da população negra quando comparada com a branca, têm nomes: o nosso passado escravista e o racismo contemporâneo. Tem outros fatores, mas esses dois são suficientes. Para a teologia afro-brasileira, eles são identificados aos pecados.
As instituições e as pessoas reprodutoras dessas práticas têm que assumir suas responsabilidades perante Deus e a humanidade. Num país de maioria cristã como o Brasil, exercer a compaixão significa colocar-se no lugar do outro. As Igrejas cristãs como parte da sociedade civil brasileira devem exercer o seu papel profético ao lado das igrejas, comunidades, pastorais negras, em vez de ficar “em cima do muro”. A Igreja latino-americana dos anos de 1970 precisa voltar. O grito de “Maranata” aqui significa que as comunidades religiosas têm o dever ético de fazer ouvir a sua voz e interagir no debate atual sobre as políticas públicas para negros e indígenas.
Reconciliação na perspectiva do Ubuntu, no Brasil atual, é um encontro entre nós mesmos, com o nosso passado de dor, resistência e esperança. É um encontro entre nós mesmos como povo brasileiro. Um povo marcado pela miscigenação emancipatória e não um falso discurso de miscigenação colonialista. A diferença é que o primeiro discurso assume a pluralidade como valor, já o segundo o nega e o encara como uma ameaça.

(Por Moisés Sbardelotto)

FONTE: IHU Online

algumas referências para a compreensão da condição dos “assimilados” na Angola colonial

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Personagens estratégicas na história e na ficção de Angola – tal como se observa no conto “Mestre” Tamoda, que estamos discutindo na LET C47 – os assimilados representam um fenômeno cultural cujo estudo certamente pode oferecer contribuições valiosas para também compreendermos a construção das identidades “morenas” no Brasil, assim como os resultados ambíguos gerados pelos processos de sincretização que ocorreram no Brasil e em vários dos territórios colonizados pelos portugueses. Importante também referir que a complexa representação do mestiço que estamos discutindo na LET C50, no âmbito dos estudos sobre a poesia da negritude em língua portguesa, articula-se diretamente aos efeitos culturais do assimilacionismo. A seguir indico três textos disponíveis na internet que apresentam informações e análises bastante úteis para o aprofundamento desse tema. O primeiro desses textos dirige o foco para os efeitos gerados no campo linguístico pelas políticas assimiladoras, tomando como objeto de discussão a narrativa de Uanhenga Xitu já referida.

AMÂNCIO, Íris. Performances da oralidade na escrita xitu do “Mestre” Uanhenga. In: Revista Scripta. Belo Horizonte: PUC Minas, 2002.

CARVALHO FILHO, Silvio de Almeida. As relações étnicas em Angola: as minorias branca e mestiça (1961-1992). In: Anais do VI Congresso da Associação Latino-Americana de Estudos Afro-Asiáticos do Brasil (ALADAAB). Brasília: 1998.

BITTENCOURT, Marcelo. A resposta dos “crioulos luandenses” ao intensificar do processo colonial em finais do séc. XIX. In: A África e a instalação do sistema colonial (c. 1885 – c. 1930). Actas da III Reunião Internacional de História da África (1999). Lisboa: IICT; Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga, 2000.