olhares africanos para os perigos do “progresso”

bienal mia

Ideia de desenvolvimento nega identidade dos povos, diz Mia Couto na bienal

A utopia do desenvolvimento sustentável foi o tema do debate que, no dia 16/05, reuniu cientistas, escritores e até presidente da República na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura em Brasília. O escritor moçambicano Mia Couto criticou a ideia de que a natureza pode ser “controlada, administrada”. Para ele, é preciso localizar as razões pelas quais o mundo enfrenta, hoje, uma crise ambiental profunda: “Esse sistema não está mal porque não anda bem. Está mal porque produz miséria, desigualdade, causa ruptura em modos que vida que aí, sim, poderiam ser sustentáveis”.

Crítico da ideia de desenvolvimento sustentável, o escritor e também biólogo avalia que a ideia de desenvolver traz uma negação. “Estamos retirando o núcleo central, o ambiente. E essa negação é a negação da identidade cultural dos povos que foram expropriados”. Povos cujos modos de vida poderiam inspirar uma relação do homem com a natureza, que seja baseada no respeito e não na compreensão “de que a natureza pode ser vista como um recurso natural”, segundo Mia Couto.

Integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, ligado às Organizações das Nações Unidas (ONU), o cientista Carlos Nobre defendeu a ideia de desenvolvimento sustentável. A sustentabilidade, para ele, deixaria de ser um adjetivo do desenvolvimento para transformar-se em substantivo que explica a relação com o mundo ou desejos, como felicidade, equidade e justiça. Ele destacou a gravidade das mudanças climáticas e os impactos ambientais decorrentes delas: “Os riscos que estamos colocando para o planeta, nas próximas décadas, séculos e milênios, são enormes. Nós estamos conduzindo a biologia do planeta à sexta grande extinção. Nós estamos produzindo, por ações humanas, a extinção de até 40% das espécies”.

O presidente de Gana, Dramani Mahama, que é historiador e especialista em uso de tecnologia para a agricultura, alertou para a necessária mudança no comportamento dos seres humanos. “Se não criarmos uma teoria que nos ajude a sustentar a raça humana no mundo e continuarmos com essas taxas de consumo, o que vai acontecer com a raça humana?”, questionou, ao destacar que a população despeja diariamente a mesma quantidade de alimento que consome, e que, por outro lado, falta alimento a parte da população. “Nós precisamos aprender a existir com todas as espécies em nosso planeta, que é o único que temos. E nós só vamos aprender se mudarmos nosso conceito de felicidade e de bem-estar”, sentenciou.

A mudança de paradigma, que conduza a outra relação com a natureza, para os debatedores, deve começar desde já. A tecnologia e a inteligência humana devem ser usadas como ferramentas para a superação da crise atual, e a literatura deve ser capaz de despertar sensibilidades e reflexões. Para a Agência Brasil, Mia Couto disse que a literatura pode, desde já, “mostrar que o ambiente não é assim como nós o arrumamos; mas é tudo; não está fora de nós; está dentro de nós. A literatura pode fazer, e deve fazer essa denúncia daquilo que é uma espécie de fabricação permanente da desigualdade e da miséria”, afirmou. Crítico da situação atual, o escritor alertou: “Nós estamos falando de uma situação que poderá ser catastrófica. Mas para dois terços da humanidade, essa catástrofe já está aqui e vem por causa da fome, da guerra”.

FONTE: Portal Geledés / Agência Brasil

Solano Trindade: abrindo caminhos para a negritude brasileira

 

Solano 1969 em Embu

TOQUE DE REUNIR

 

Vinde irmãos macumbeiros

Espíritas, Católicos, Ateus.

Vinde todos os brasileiros.

Para a grande reunião.

Para combater a fome

Que mata nossa nação.

 

Vinde Maria Pucheria.

João de Deus. José Maria.

Anicacio. Zé Pretinho

Para a grande reunião

Para combater a malária

Que mata nossa nação

 

Vinde trapeiro, pedreiro.

Lavrador, arrumadeira.

Caixeiro, funcionário.

Combater a tuberculose

Que mata nossa nação.

 

Vinde irmãos sambistas.

Da favela. Da Mangueira.

Do Salgueiro. Estácio de Sá.

Para a grande reunião.

Combater o analfabetismo

Que mata a nossa nação.

Vinde poetas, pintores

Engenheiros, escritores.

Negociantes e médicos.

Para a grande reunião.

Combater o facismo

Que mata a nossa nação.

 

***

 

SOU NEGRO

À Dione Silva

 

Sou negro

meus avós foram queimados

pelo sol da África

minh’alma recebeu o batismo dos tambores

atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda

como mercadoria de baixo preço

plantaram cana pro senhor de engenho novo

e fundaram o primeiro Maracatu

 

Depois meu avô brigou como um danado

nas terras de Zumbi

Era valente como quê

Na capoeira ou na faca

escreveu não leu

o pau comeu

Não foi um pai João

humilde e manso

Mesmo vovó

não foi de brincadeira

Na guerra dos Malês

ela se destacou

 

Na minh`alma ficou

o samba

o batuque

o bamboleio

e o desejo de libertação

 

***

 

O CANTO DA LIBERDADE

 

Ouço um novo canto,

Que sai da boca,

de todas as raças,

Com infinidade de ritmos…

Canto que faz dançar,

Todos os corpos,

De formas,

E coloridos diferentes…

Canto que faz vibrar,

Todas as almas,

De crenças,

E idealismos desiguais…

É o canto da liberdade,

Que está penetrando,

Em todos os ouvidos

 

***

 

VELHO ATABAQUE

 

Velho atabaque
quantas coisas você falou para mim
quantos poemas você anunciou
Quantas poesias você me inspirou
às vezes cheio de banzo
às vezes com alegria
diamba rítmica
cachaça melódica
repetição telúrica
maracatu triste
mas gostoso como mulher…

 

Triste maracatu
escravo vestido de rei
loanda distante do corpo
e pertinho da alma
negras sem desodorante
com cheiro gostoso
de mulher africana
zabumba batucando
na alma de eu…

 

Velho atabaque
madeira de lei
couro de animais
mãos negras lhe batem
e o seu choro é música
e com sua música
dançam os homens
inspirados de luxúria
e procriação
Velho atabaque
gerador de humanidade…

 

***

 

BAIANINHA

 

Baianinha

vatapá permanente

doce de coco

cafuné dendê

você veio na hora

quentinha

pra minha vida

trazendo o dengo

do que eu precisava.

 

Candomblé da minha madrugada

batendo em mim

que sou tambor creoulo

com patuá

envolvendo meu pescoço

com patuá

envolvendo meu pescoço

botando em minha boca

feitiço de Iansã.

Você veio agora

como a revolução de Cuba

me animar a vida

 

Você veio agora

como a libertação do Congo

me tocando pra frente

e fazendo esquecer

o tempo

e a velhice.

 

Você veio agora

fazer mutirão comigo…

 

***

 

MACUMBA

 

Noite de Yemanjá

negro come acaçá

noite de Yemanjá

filha de Nanan

negro come acaçá

veste seu branco abebé

 

Toca o aguê

o caxixi

o agogô

o engona

o gã

o ilu

o lê

o roncó

o rum

o rumpi

 

Negro pula

negro dança

negro bebe

negro canta

negro vadia

noite e dia

sem parar

pro corpo de Yemanjá

pros cabelos de Obá

do Calunga

do mar

 

Cambondo sua

mas não cansa

cambondo geme

mas não chora

cambondo toca

até o dia amanhecer

 

Mulata cai no santo

corpo fica belo

mulata cai no santo

seus peitos ficam bonitos

 

Eu fico com vontade de amar…

 

***

 

DEFORMAÇÃO

 

Procurei no terreiro

Os Santos D’África

E não encontrei,

Só vi santos brancos

Me admirei…

 

Que fizeste dos teus santos

Dos teus santos pretinhos?

Ao negro perguntei.

 

Ele me respondeu:

Meus pretinhos se acabaram,

Agora,

Oxum, Yemanjá, Ogum,

É São Jorge,

São João,

E Nossa Senhora da Conceição.

 

Basta Negro!

Basta de deformação!

 

***

 

REENCARNAÇÃO

 

Eu nasci

No inicio do século

(Revolução operária)

Nasci no Bairro de São José

Recife Pernambuco Brasil

 

D. Micaela

Foi a parteira que me pegou

E anunciou o meu Sexo

Homem!

 

A minha mãe

Foi operária cigarreira

Da Fábrica Caxias

Nascida de índio

E africano

 

Meu pai

Foi sapateiro

Especialista em Luis XV

Nasceu de branco e africano

Sabia falar em nagô

 

Meu pai era preto

Minha mãe era preta

Todos em casa são pretos

 

Minha mãe não sabia ler

E meu pai era semianalfabetizado

 

Minha mãe sabia rezar

Meu pai sabia rezar

 

Meu pai depois foi macumbeiro

(Macumbeiro é um espírita de cor preta)

 

Branco espírita é espiritualista

Que fica esperando a reencarnação

Na luta por nada

Não quer revolução

Nem por evolução

Não quer ação

Quer reencarnar

Na outra vida

Quer reencarnar diferente

Se for mulher

Quer voltar homem

Se for homem

Quer voltar mulher

 

Se for empregado

Quer voltar patrão

Quer reencarnar

Para se acomodar…

Intelectual se acomoda sem reencarnar

É mais fácil

Depende do emprego que arranjar…

 

***

 

TRISTES MARACATUS

 

Baticuns maracatucando

na minh’alma de moleque

Buneca negra na minha meninice

de “negro preto” de São José

Nas águas de calunga

a Kambinda me inspirando amor

O primeiro cafuné no mato verde

Da campina do Bodé

Rum de amor de negra

Rumpi de desejo de mulata

Lê de realização cafusa

Sons de protestos

Num mundo de guerra

E de ódio

 

Criação de Olorum

O mais tolerante dos deuses

O mais pacífico

Dos criadores

O mais estético

Dos chefes de raça

 

Tristes maracatus

Em maracatus alegres

Que se vão distantes

Em ritmo calmo de congo

Em acelerado moçambique

Em toque de Kêto

De Jejê e de Angola

Maracatus meus…

 

***

 

MANDINGA

 

Isto é mandinga negra

Isto é mandinga

 

Teus olhos de mãe d’água

pregando lirismo

teus seios escondidos

em Vila Isabel

 

Teus lábios mestiços

falando em beleza

no ritmo do samba

nos pingos da chuva

que molham o meu rosto

 

lirismo + lirismo

= a lirismo

(vamos somar na poesia)

é preciso aumentar a poesia

é preciso crescer e multiplicar

poeticamente

 

***

 

RAINHA E ESCRAVAS

 

Da janela do apartamento

vejo só barracos do morro

onde moram as rainhas

do carnaval

imponentes rainhas negras

riquíssimas de ritmo e de sexo

Rainhas por três dias alegres

escravas no resto do ano…

 

***

 

CANTO DOS PALMARES

 

Eu canto aos Palmares

sem inveja de Virgílio de Homero

e de Camões

porque o meu canto

é o grito de uma raça

em plena luta pela liberdade!

 

Há batidos fortes

de bombos e atabaques

em pleno sol

Há gemidos nas palmeiras

soprados pelos ventos

Há gritos nas selvas

invadidas pelos fugitivos…

 

Eu canto aos Palmares

odiando opressores

de todos os povos

de todas as raças

de mão fechada

contra todas as tiranias!

 

Fecham minha boca

Mas deixam abertos os meus olhos

Maltratam meu corpo

Minha consciência se purifica

Eu fujo das mãos

Do maldito senhor!

 

Meu poema libertador

é cantado por todos,

até pelo rio.

Meus irmãos que morreram

muitos filhos deixaram

e todos sabem plantar

e manejar arcos;

muitas amadas morreram

mas muitas ficaram vivas,

dispostas para amar

seus ventres crescem

e nascem novos seres.

 

O opressor convoca novas forças

vem de novo

ao meu acampamento…

Nova luta.

As palmeiras

ficam cheias de flechas,

os rios cheios de sangue,

matam meus irmãos,

matam as minhas amadas,

devastam os meus campos,

roubam as nossas reservas;

tudo isso,

para salvar

a civilização

e a fé…

 

Nosso sono é tranquilo

mas o opressor não dorme,

seu sadismo se multiplica,

o escravismo é o seu sonho

os inconscientes

entram para seu exército…

 

Nossas plantações

estão floridas,

nossas crianças

brincam à luz da lua,

nossos homens

batem tambores,

canções pacíficas,

e as mulheres dançam

essa música…

 

O opressor se dirige

a nossos campos,

seus soldados

cantam marchas de sangue.

 

O opressor prepara outra investida,

confabula com ricos e senhores,

e marcha mais forte,

para o meu acampamento!

Mas eu os faço correr…

 

Ainda sou poeta

meu poema

levanta os meus irmãos.

Minhas amadas se preparam para a luta,

os tambores

não são mais pacíficos,

até as palmeiras

têm amor à liberdade…

 

Os civilizados têm armas,

e têm dinheiro,

mas eu os faço correr…

 

Meu poema

é para os meus irmãos mortos.

Minhas amadas

cantam comigo,

enquanto os homens

vigiam a Terra.

 

O tempo passa

sem número e calendário,

o opressor volta

com outros inconscientes,

com armas

e dinheiro,

mas eu os faço correr…

 

O meu poema libertador

é cantado por todos,

até pelas crianças

e pelo rio.

 

Meu poema é simples,

como a própria vida,

nascem flores

nas covas de meus mortos

e as mulheres

se enfeitam com elas

e fazem perfume

com sua essência…

 

Meus canaviais

ficam bonitos,

meus irmãos fazem mel,

minhas amadas fazem doce,

e as crianças

lambuzam os seus rostos

e seus vestidos

feitos de tecidos de algodão

tirados dos algodoais

que nós plantamos.

 

Não queremos o ouro

porque temos a vida!

e o tempo passa,

sem número e calendário…

O opressor quer o corpo liberto,

mente ao mundo

e parte para

prender-me novamente…

 

— É preciso salvar a civilização,

Diz o sádico opressor…

 

Eu ainda sou poeta

e canto nas selvas

a grandeza da civilização — a Liberdade!

Minhas amadas cantam comigo,

meus irmãos

batem com as mãos,

acompanhando o ritmo

da minha voz….

 

— É preciso salvar a fé,

Diz o tratante opressor…

 

Eu ainda sou poeta

e canto nas matas

a grandeza da fé — a Liberdade…

Minhas amadas cantam comigo,

 

meus irmãos

batem com as mãos,

acompanhando o ritmo

da minha voz….

 

Saravá! Saravá!

 

Repete-se o canto

do livramento,

já ninguém segura

os meus braços…

Agora sou poeta,

meus irmãos vêm ter comigo,

eu trabalho,

eu planto,

eu construo

meus irmãos vêm ter comigo…

 

Minhas amadas me cercam,

sinto o cheiro do seu corpo,

e cantos místicos

sublimam meu espírito!

Minhas amadas dançam,

despertando o desejo em meus irmãos,

somos todos libertos,

podemos amar!

Entre as palmeiras nascem

os frutos do amor

dos meus irmãos,

nos alimentamos do fruto da terra,

nenhum homem explora outro homem…

 

E agora ouvimos um grito de guerra,

ao longe divisamos

as tochas acesas,

é a civilização sanguinária

que se aproxima.

 

Mas não mataram

meu poema.

Mais forte que todas as forças

é a Liberdade…

O opressor não pôde fechar minha boca,

nem maltratar meu corpo,

meu poema

é cantado através dos séculos,

minha musa

esclarece as consciências,

 

Zumbi foi redimido…

 

***

 

CONGO

 

Pingo de chuva,

Que pinga,

Que pinga,

Pinga de leve

No meu coração.

Pingo de chuva

Tu lembras a canção,

Que um preto cansado,

Cantou para mim,

Pingo de chuva,

A canção é assim.

 

Congo meu congo

Aonde nasci

Jamais voltarei

Disto bem sei

Congo meu congo

Aonde nasci…

 

***

 

NAVIO NEGREIRO

 

Lá vem o navio negreiro

Lá vem ele sobre o mar

Lá vem o navio negreiro

Vamos minha gente olhar…

 

Lá vem o navio negreiro

Por água brasiliana

Lá vem o navio negreiro

Trazendo carga humana…

 

Lá vem o navio negreiro

Cheio de melancolia

Lá vem o navio negreiro

Cheinho de poesia…

 

Lá vem o navio negreiro

Com carga de resistência

Lá vem o navio negreiro

 

Cheinho de inteligência…

 

***

 

NEGROS

 

Negros que escravizam

E vendem negros na África

Não são meus irmãos

 

Negros senhores na América

A serviço do capital

Não são meus irmãos

 

Negros opressores

Em qualquer parte do mundo

Não são meus irmãos

 

Só os negros oprimidos

Escravizados

Em luta por liberdade

São meus irmãos

 

Para estes tenho um poema

Grande como o Nilo

Edimilson de Almeida Pereira: desbravando sentidos para a experiência negra brasileira

 

Edimilson2

RANHURAS

 

Não há direção

no labirinto.

A vida e sua cárie

são exatas, no entanto.

 

Da outra margem

exploram o espelho

e me contam

o que permanece,

se me modifico.

 

Entro nessa direção

sem roteiros.

O que aí se mostra

são mapas

de outros mapas.

 

***

 

 

NUMA PAISAGEM, OUTRA

 

o unguento e, às vezes,

a colônia de morte,

sangram através do pensamento, lâmina

que toca a jugular

 

se animal em pelo, se apenas

recipiente,

quem saberá? enquanto se esgueiram

refazem os modos de si

 

alguém que os interpreta

há muito não goza de confiança

por isso, os gritos

com que intenta mover as pedras

 

quem contesta o descendente

e as razões

que o fazem irmão da gazela

inimigo da febre?

 

não seremos nós, os que portam

a camisa sem idiomas,

nem as mulheres

a quem reservam o teto da casa

e nenhuma epígrafe

 

a contestação faz-se por si mesma

a jugular não se entrega ao braço

que desfere o golpe

e se esgota nesse gesto

 

não, o sacrifício não está no mel

que incendeia, de tempos em tempos,

a viagem dos parentes

 

as ondas que mudam por si mesmas

disseram adeus às certezas,

nós ainda não

(pelo menos aqueles que se julgam

primo dos primeiros)

 

como nos enfrentaremos sob a ordem

que tropeça?

mil sendas se abrem e a seiva do pai,

como o recém-nascido,

se perdeu num corpo maior

 

ninguém está lá, a não ser

quem te conhece e estranha, não

o charme de irmão,

não espere entendimento se ele fizer

um círculo na areia

 

não há cortes que expliquem

a paisagem anterior, nem a sombra, amanhã,

nos caules

 

o que se espraia da jugular

é um labirinto que conduz a outro e se algum

vestígio resta

é para dizer seu afastamento da origem

 

as leituras faliram

se o descendente insiste,

rasga os seres para os quais não temos

saúde

 

nesse deserto de alegrias, a herança

é o animal que saqueia o verbo

antes do sacrifício

 

***

 

 

CEMITÉRIO MARINHO

 

            CENA 1

 

: embarcados, como

avaliar a tempestade

 

não é fora que a lâmina

arruína, mas

nas veias

 

o grito (lagarto que

os dias emagrecem)

insulta a diversão

do escorbuto

 

onde uma perna

            outra

lista de mercadorias

que valessem

            peça

            por

            peça

 

nesse cômodo

mal se tira a costela

e a morte instala sua

força tarefa

 

no vermelho da hora

um baque

            outro

espanto, deveras

 

o corpo

— o que expõe em mulher

ou guelra

exasperado?

 

: embarcados, às vezes

nos desembarcam

 

antes da ilha, em meio

às ondas

como sacos de aniagem

 

entregues ao calunga

grande, o que resta?

uma

cilada, outro revés?

 

            à

superfície um brigue

            é

            o

            que

            é

 

faca alisando a bandeira

do mar             país

sem continente

garden of the world

 

            mas

            o

            que

            ele

            arrota

assombra-nos

 

: na praia, desembarcados

teremos de volta

as pernas         os braços

            a cabeça

            os rios

            os crimes

            a ira

            os lapsos

            as línguas

            a guerra

            a teia

            o horror

            a trégua

 

            o camaleão

            no céu

            a tempestade?

 

            CENA 2

 

uma ponte de ossos

            submersa

eis o que somos —

 

além abismo a sigla

            em gesso

se esculpe e nela

habitam, sob musgo,

la vieja        le bleu

 

o atirado aos tubarões

que,

devido à calmaria,

flutuou com a barriga

em luto

por meia hora

                        o rosto

perto do navio dentro

dos rostos em fuga

 

                        o rosto

esverdeado como um

fruto-memória

            um braço

estendido            além

de seus nervos

 

eis o que somos — apesar

do abismo e sua colônia

de entalhes

 

apesar do abismo onde

a forma informe (a

            linguagem)

        nos experimenta

 

            CENA 3

 

um velho repõe a cólera

não pela intenção

de roubar o sono aos peixes

 

ou porque uma raia

crispou o coral e sua memória

se esgarçou

 

— os tendões, uma

vez descolados, acusam

a história

 

entre essa e a outra

margem do oceano, cabeças

rolaram mas

 

continuam presas à orelha

            dos livros

 

se um velho pretende dizer

quem as perdeu

deve se postar na beira

 

o mar à sua frente

sem nada a recuperar, senão

o exílio

 

            CENA 4

 

o ventre materno

nave

se atreve nas ondas

não porque os filhos

o pensem umbigo

            fora

            do alvo

 

o ventre erra

na tempestade, embora

costure os portos

da noite

 

o que leva dentro

se move

mais que a nuvem

& o comércio

 

sobre as águas

esse navio

norte de outro norte

 

mas

traído, o ventre

se inventa

presídio-liberdade

 

a cabeça (quem

a tiver gire

além do próprio

eixo)

            é o bólido

 

o que somos

vem de um

enigma

tirado aos peixes

de um corpo

além

das chagas

 

o ventre materno

nave

esgrime na água

 

e o que esculpe

excede

ao seu trabalho

 

: na pele

nenhum risco

que tire desse

corpo o equilíbrio

 

o ventre materno

diário

rasura a inscrição

de si mesmo

 

na água em que

submerge

ressoa, estala

se ergue

 

— a ele, por isso

saúdam as cabeças

 

            CENA 5

 

a linguagem espolia o museu

de história natural

 

nem tudo o que ressoa

é som

a palavra ainda menos

 

se a diamba espuma

a noite

não é que o morto viajará

 

o pássaro limpa

os dentes do hipopótamo

nem por isso

vão juntos à reza

 

a grande árvore freme

mas não é

com a chuva que se deita

 

a linguagem se joga

no oceano — para desespero

da memória

que se quer museu de tudo

 

            CENA 6

 

a primeira loja (de carnes:

termo usual

para quem perdera

o domínio

de sua violência)

 

imitava o inferno

em curvas: trezentos

nascidos para morrer

acenando em azul

            e branco

ao país das demências

 

trezentos entre os seis

e treze

anos apartados do jogo

: uns meninos

outros, meninas

em fila sob trinta e três

graus

 

no inferno, o azul

o branco, trezentas vezes

lesado,

se esgueira do assédio

            de sua fila, cada

um respira no olvido

 

trezentos zeros a trinta

e três graus

crepitam na grama: extinto

o negócio,

não se bastam, em flor

            em farpa oxidam

 

            CENA 7

 

recusado, esse

 

lugar

é o soldo que reduziu

o mar a duas braças

 

em 110 metros

quadrados

redondos em febre

e assombro

 

dormem (não como

deveriam)

seis mil cento e dezenove

almas

 

: as pupilas golpeadas

no mar cevam

um dia

que não se esgota

 

de óbito em óbito

o horror assunta os vivos

            corta-lhes

herança e umbigo

 

de óbito em óbito

os sem irmandade ou

crédito

se escrevem à esquerda

 

de óbito em óbito

navio e continente são

um

mesmo ancoradouro

 

de óbito em óbito

se calcula a história como

se ao apagá-la

ela se fizesse nova

 

nesse lugar

de esconjuros a juros

a nudez acossa

o oficial de ossos

 

a linguagem, corpo

indefeso, cola-se à laje

suas entranhas são

um caniço

 

e ainda que o silêncio

a ancore          suona

: os que morreram antes

de se tornarem

 

outros foram lançados

a essa barca noturna

sem nome

tirados ao sangue

 

não pertencem ao hades

olimpo

de nenhuma ordem

são outros além-outros

que engolem a língua

para regressar

à primeira queda

do rio

 

que temem perder

a cabeça

e sem ela o rastro anterior

ao chão

 

esse

lugar recusado

invernou sob arcas

e contrapesos

 

sob alucinações

e mercadorias alheias

ao seu comércio

sobre tal

 

cemitério

se atulharam

o descuido letras de câmbio

e tumultos

 

o que fazer, porém

dos espólios

recuperados no golpe

de uma pá?

 

são os aptos

no manuseio da

equipagem: os mortos

de quem o navio

não partiu, os mortos

tatuados

na cal, os de sempre

que teriam

 

movido arcos e tinas

comprado & vendido

suas posses

e a si mesmos

 

os mortos descalços, os

emudecidos

os surdos a qualquer

sentinela

 

            lá vem a barra do dia

            topar co’as ondas

                                   do mar

 

os vermelhos e suas

orquídeas

saídas no flanco

esquerdo

 

            sua terra é diferente

                                   m

            orar no campo santo

 

os mortos que não

viram a cidade

as lianas

mortas, as mortas

 

            lá vem a barra do dia

            sem as ondas do mar

                             de vigo

 

o que fazer desses

rendidos

na praia, de suas

valises

 

com nada por dentro?

de seu esqueleto

convertido em

flauta lá vem a barra

 

do dia topar co’as ondas

do mar de sua

cólera enrugando

a manhã?

 

 

***

 

 

CADERNO DE RETORNO

 

Pele radar que indexa

            um looping

            ao atabaque

            um anjo

            à sua queda

            Iracema

            à sua novela

alvo que incinera um atirador

            no teto

 

(…)

 

Para uso irrestrito a pele em desafio

            a todo gesto

coleção de selos que o vento

            dispersa da janela

 

(…)

 

A pele procura os naipes para

            entrar no jogo

mais se arroja quando desnuda

            o homem

            através do verbo

 

(…)

 

Pele não é o cárcere nem

            o texto

            o papel

            a retícula

            para roteiro em zoom

quiçá um mapa que muda enquanto viaja

            e se fixa quando

            escorregadia

                nos tece

 

(…) 

 

Estou de volta a casa não para visitar

os carneiros da minha gente

uma vez mortos

                                   expostos.

O que espero deles não é carne

                                   mas raiz e errância.

A experiência acumulada sendo

            o último da classe

            o único entre os outros

            o suspeito número um

            a prova no fundo do poço

apodreceu para adubar minha vontade.

 

(…)

 

Como cerzir um país com linhas várias

onde uma se quebra

outra a emenda

e por não se amarem se enovelam

orquídeas na mesma escarpa.

A voz arranha a pintura do carro,

reabre no dia uma herança de embargos.

 

O que está dito é ditado?

            Não temos guerra, nem terremoto

            nem ebola, ruína ou atentado

            não temos cisma nem avalanche

o que vemos se não é alegria

são seus disfarces

 

E os ouvidos, que letrados noutra música,

            se escalavram?

 

Tenho uma laranja nas mãos a faca

para salvar os gomos desvia

das partes cariadas.

A palavra descasca o país: num ermo botequim,

entre bacon e varejeiras, a pele de um conta

o que ele por sua boca não tramaria.

            Miríades fábulas que importa?

 

Sua sombra que a fraca luz projeta recusa

            a rede da casa-grande

            o título a prazo do barão em débito

            a cadeira del-rey

            a merda da casa-grande

            a dissertação elogiosa da selva

            o piano

a culpa de não amar o deus imposto

 

(…)

 

Discutimos sobre fresas grandes y pequeñas

et on dita u même temps que ce sont originales

lês traces de notre nouvel artiste:

— est-il um naïf?

O abismo do país se ilumina,

                        acelera minha ferida.

o que em mim celebra

                        cospe esculpe alucina.

 

A vergonha de quem não inventou a pólvora

virou bandeira de quem calçou o continente.

A voz não procura esse rastro

procura o sentido além daquel esperdiçado

porque não as inventamos

            teimamos em aferir

                        a roda

                        a pólvora

                        a palavra

 

Contra a blitz na memória

a Memória.

Contra o desprezo ao que dançamos

a Dança.

Contra o repúdio ao que falamos

a Fala.

 

Nos fundos do país a festa não termina

será uma para disfarçar outra guerrilha?

Quem a percorre

desde a sala

pensa nos esqueletos

que trepidam sobre outros emudecidos.

 

São nove horas da noite em 1844

            os presos assustam a Câmara

            e os coletes da cidade de Salvador.

            No subsolo da lei a insubmissão

            deborda em sambas de crioulos

            ou africanos?

            Serão idênticos ou mais diversos

            quando se ajuntam?

 

(…)

 

É possível amar onde o desembarque de escravos

se multiplicou como as moscas

                                               sobre as bananas?

Qué pretendes quando olvidas esta memoria

            la continuación del massacre?

            cette odeur de cheveux au feu?

            a fome como sintaxe?

 

A voz escassa raspa as unhas no caos.

Aquele de quem a bala não se enamorou,

vai seguro e não se espanta.

 

            Passeia a orla, tênis e bicicleta

            artefatos que sedam os calos.

            Vai como se, por dentro, a luta

            entre capitão do mato e escravo

            tivesse cessado. Vai ao ar livre

            contra a vigilância da morte.

            O tênis brando, roupa de marca

            documentos de exorcismo diário.

            Vai discreto e não balança,

            pedra alguma lhe tira o passo.

            Até que, desde dentro, a luta

            explode em seu encalço. Ia de

            tênis bicicleta, por que o abraçou

            a bala do itinerário desviada?

 

 

(…)


Ó como somos plásticos

            para olhar de esguelha

            e entender os mitos.

Mais uma série de ensaios

explica — o país era outro mas, iludidos,

deitamos gatos para acordar lebres.

Ante as versões

de spix, martius & company

            atenção, repare, escute

            a pulga atrás da orelha.

 

Como soou o país tocado pelas mil duzentas

e setenta e três línguas indígenas

antes que minasse

a nuvem, o vento, a tempestade?

            Como o recitam as cento e oitenta

            exiladas do dicionário?

            E as africanas que negociaram

            em senzalas e praças?

            E o português se arvorando

            em camaleão nos trópicos?

 

(…)

 

No país onde quem cala consente,

grassa outra tecelagem

            não gira humores

            não lubrifica sirenes

            hora extra não faz

Tece sem novelo a rede para as aves de rapina

            não se dá um medo

            se ama de filhos.

Como um bordado, retém o pano de quem

pensa dominar o desenho.

 

Tenho doze fôlegos e uma educação

para constranger os desavisados.

O que assisti ao entrar pelos fundos

da cidade não me calcinou as retinas

            ao contrário

encheu de impertinência os meus escritos.

            Os que fendem a pedra

            me ensinaram o avesso

            os papéis roídos

            a trituração por método

            o pai me instruiu que é por dentro

                        a ebulição da lava.

 

O país tem fendas grutas corredores

uma vocação para morder

que estremeceu Hans Staden

            mordemos a cauda e a cabeça

            deglutimos sem mastigar

            engolimos o sapo

            salivamos marimbondo

Sabemos que deus alarga a goela

quando tira os dentes.

Não cuspimos no fogo para não

minguar a crista.

 

Morremos pela boca, exceto Exu,

            guia de Tirésias

que desacata Gregório de Matos

Macunaíma e François Villon.

            Exu calibã

luva insuspeita de Shakespeare

caçador que tem em si a caça

e se irrita

preso a uma dezena de nomes.

 

(…)

 

A notícia desse espanto estilhaça ao meu lado

            por que me enviaram

            um postal de Luanda?

por que há tempos o litoral do país

            aprende outros continentes?

 

(…)

 

***

 

 

DESPEDIDA

 

Deixo o corpo, auê, ê.

Noutro campo

vejo os antigos.

 

Ergo a toalha

onde as cores são outras

(Lá fora gunga não chora).

 

Ergo espada com os antigos.

Noutro campo

aprendo o mesmo canto.

 

***

 

 

SÍLABA

 

Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida e tudo que se queira. Não está na boca e nela se arvora. Testa o sentido, duvida de si mesma. Vai ao baile, está nua ao meio-dia. Não é língua do suplício nem do vexame, desenrola os signos e se pronuncia.

 

 

 

Conceição Lima: um roteiro poético para derivas afro-identitárias

conceiçãolima pretovelho

Clique nas imagens para saber mais sobre essa notável poeta sãotomeense e sobre o papel estratégico desempenhado pelo arquipélago onde ela nasceu para a construção histórica e cultural do Atlântico Negro lusófono.


CANTO OBSCURO ÀS RAÍZES

 

Em Libreville

não descobri a aldeia do meu primeiro avô.

 

Não que me tenha faltado, de Alex,

a visceral decisão.

Alex, obstinado primo

Alex, cidadão da Virgínia

que ao olvido dos arquivos

e à memória dos griots Mandinga

resgatou o caminho para Juffure,

a aldeia de Kunta Kinte —

seu último avô africano

primeiro na América.

 

Digamos que o meu primeiro avô

meu último continental avô

que da margem do Ogoué foi trazido

e à margem do Ogoué não tornou decerto

 

O meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, quem sabe, talvez, Abessole

 

O meu primeiro avô

que não morreu agrilhoado em James Island

e não cruzou, em Gorée, a porta do inferno

 

Ele que partiu de tão perto, de tão perto

Ele que chegou de tão perto, de tão longe

 

Ele que não fecundou a solidão

nas margens do Potomac

 

Ele que não odiou a brancura dos algodoais

 

Ele que foi sorvido em chávenas de porcelana

Ele que foi compresso em doces barras castanhas

Ele que foi embrulhado em chiques papéis de prata

Ele que foi embalado para presente em caixinhas

 

O meu concreto avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas talvez, quem sabe, Abessole

 

O meu oral avô

não legou aos filhos

dos filhos dos seus filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.

 

Na curva onde aportou

a sua condição de enxada

no húmus em que atolou

a sua acossada essência

no abismo que saturou

de verde a sua memória

as águas melancolizam como fios

desabitadas por pirogas e hipopótamos.

 

São assim os rios das minhas ilhas

e por isso eu sou a que agora fala.

 

Brotam como atalhos os rios

da minha fala

e meu trazido primeiro avô

(decerto não foi Kunta Kinte,

porventura seria Abessole)

não pode ter inventado no Água Grande

o largo leito do seu Ogoué.

 

Disperso num azul sem oásis

talvez tenha chorado meu primeiro avô

um livre, longo, inútil choro.

 

Terá confundido com um crocodilo

a sombra de um tubarão.

 

Terá triturado sem ilusão

a doçura de um naco de mandioca.

Circunvagou nas asas de um falcão.

 

Terá invejado a liquidez de caudas e barbatanas

enquanto o limo dos musgos sequestrava os seus pés

e na impiedosa lavra de um vindouro tempo

emergia uma ambígua palavra

para devorar o tempo do seu nome.

 

Aqui terá testemunhado

o esplendor do pôr do sol, o luar, o arco-íris.

 

Decerto terá pressentido a calidez dos pingos

nas folhas das bananeiras.

E terá sofrido no Equador o frio da Gronelândia.

 

Mas não legou aos estrangeiros filhos

e aos filhos dos filhos dos estrangeiros filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.

 

Por isso eu, a que agora fala,

não encontrei em Libreville o caminho para a aldeia de Juffure.

 

Perdi-me na linearidade das fronteiras.

 

E os velhos griots

os velhos griots que detinham os segredos

de ontem e de antes de ontem

 

Os velhos griots que pelas chuvas contavam

a marcha do tempo e os feitos da tribo

 

Os velhos griots que dos acertos e erros

forjavam o ténue balanço

 

Os velhos griots que da ignóbil saga

guardavam um recto registo

 

Os velhos griots que na íris da dor

plantaram a raiz do micondó

partiram

levando nos olhos o horror

e a luz da sua verdade e das suas palavras.

 

Por isso eu que não descobri o caminho para Juffure

eu que não dançarei sobre o pó da aldeia do meu primeiro avô

meu último continental avô

que não se chamava Kunta Kinte mas talvez, quem sabe, Abessole

 

Eu que em cada porto confundi o som da fonte submersa

encontrei em ti, Libreville, o injusto património a que chamo casa:

estas paredes de palha e sangue entrançadas,

a fractura no quintal, este sol alheio à assimetria dos prumos,

a fome do pomar intumescida nas gargantas.

 

Por isso percorri os becos

as artérias do teu corpo

onde não fenecem arquivos

sim palpita um rijo coração, o rosto vivo

uma penosa oração, a insana gesta

que refunda a mão do meu pai

transgride a lição de minha mãe

 

e narra as cheias e gravanas, os olhos e os medos

as chagas e desterros, a vez e a demora

o riso e os dedos de todos os meus irmãos e irmãs.

 

Que nenhum idioma nos proclame ilhéus de nós próprios

vocábulo que não és

Mbanza Congo

mas podias ser

Que não és

Malabo

poderias ser

Que não és

Luanda

e podias ser

Que não és

Kinshasa

nem Lagos

Monróvia não és, podias ser.

 

Nascente e veia, profundo ventre

conheces a estrutura que sabota os ponteiros:

novos sobas, barcos novos, o conluio antigo.

 

E consomes a magreza dos celeiros

num bazar de retalhos e tumultos

Petit Paris!

onde tudo se vende, se anuncia

onde as vidas baratas desistiram de morrer.

 

Medram quarteirões de ouro

nos teus poros — diurnos, desprevenidos.

Medra implacável o semblante das mansões

Medram farpas na iníqua muralha

e um taciturno anel de lama em seu redor.

 

A chuva tem agora a cadência de um tambor

outro silêncio se ergue

no vazio dos salões das coiffeuses.

E no rasto do tam-tam revelarei

o medo adolescente encolhido nas vielas

beberei a sede da planta no teu grão.

 

Eu que trago deus por incisão em minha testa

e nascida a 8 de Dezembro

tenho de uma madona cristã o nome.

 

A neta de Manuel da Madre de Deus dos Santos Lima

que enjeitou santos e madre

ficou Manuel de Deus Lima, sumu sun Malé Lima

Ele que desafiou os regentes intuindo nação —

descendente de Abessole, senhor de abessoles.

 

Eu que encrespei os cabelos de san Plentá, minha três vezes avó

e enegreci a pele de san Nôvi, a soberana mãe do meu pai.

 

Eu que no espelho tropeço

na fronte dos meus avós…

 

Eu e o temor do batuque da puíta

o terror e fascínio do cuspidor de fogo

 

Eu e os dentes do pãuen que da costa viria me engolir

Eu que tão tarde descobri em minha boca os caninos do antropófago…

 

Eu que tanto sabia mas tanto sabia

de Afonso V o chamado Africano

Eu que drapejei no promontório do Sangue

Eu que emergi no paquete Império

Eu que dobrei o Cabo das Tormentas

Eu que presenciei o milagre das rosas

Eu que brinquei a caminho de Viseu

Eu que em Londres, aquém de Tombuctu

decifrei a epopeia dos fantasmas elementares.

Eu e minha tábua de conjugações lentas

Este avaro, inconstruído agora

Eu e a constante inconclusão do meu porvir

 

Eu, a que em mim agora fala.

 

Eu, Katona, ex-nativa de Angola

Eu, Kalua, nunca mais em Quelimane

Eu, nha Xica, que fugi à grande fome

Eu que libertei como carta de alforria

este dúbio canto e sua turva ascendência.

 

Eu nesta lisa, escarificada face

Eu e nossa vesga, estratificada base

Eu e a confusa transparência deste traço.

 

Eu que degluti a voz do meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas talvez, quem sabe, Abessole

 

Meu sombrio e terno avô

Meu inexorável primeiro avô

que das margens do Benin foi trazido

e às margens do Benin não tornou decerto

 

Na margem do Calabar foi colhido

e às águas do Calabar não voltou decerto

 

Nas margens do Congo foi caçado

e às margens do Congo não tornou decerto

 

Da nascente do Ogoué chegou um dia

e à foz do Ogoué não voltou jamais.

 

Eu que em Libreville não descobri a aldeia

do meu primeiro avô

meu eterno continental avô

 

Eu, a peregrina que não encontrou o caminho para Juffure

Eu, a nómada que regressará sempre a Juffure.

 

***

 

ANTI-EPOPEIA

 

Aquele que na rotação dos astros

e no oráculo dos sábios

buscou de sua lei, e mandamento

a razão, a anuência, o fundamento

 

Aquele que dos vivos a lança e o destino detinha

Aquele cujo trono dos mortos provinha

 

Aquele quem a voz da tribo ungiu

chamou rei, de poderes investiu

 

Por panos, por espelhos, por missangas

por ganância, avidez, bugingangas

as portas da corte abriu

de povo seu reino exauriu.

 

***

 

ZÁLIMA GABON

 

À memória de Katona, Atúpa Grande

e Atúpa Pequeno

À Makolé

 

Falo destes mortos como da casa, o pôr-do-sol, o curso d’água.

São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova

a patética sombra, seus ossos sem rumo e sem abrigo

e uma longa, centenária, resignada fúria.

 

Por isso não os confundo com outros mortos.

 

Porque eles vêm e vão mas não partem

Eles vêm e vão mas não morrem.

 

Permanecem e passeiam com passos tristes

que assombram a lama dos quintais

e arrastam a indignidade da sua vida e sua morte

pelo ermo dos caminhos com um peso de grilhões.

 

Às vezes, sentados sob as árvores, vergam a cabeça e choram.

 

Erguem-se depois e marcham com passos de guerrilha

Não abafem o choro das crianças, não fujam

Não incensem as casas, não ocultem a face

Urgente é o apelo que arde por onde passam

Seus corações deambulam à sombra nas plantações.

 

Por isso não os confundo com outros mortos

apaparicados com missas, nozados, padres-nossos.

 

Por remorso, temor, agreste memória

Por ambígua caridade, expiação de culpa

aos mortos-vivos ofertamos a mesa do candjumbi

feijão-preto, mussambê, puíta, ndjambi.

 

Para aplacar sua sede de terra e de morada

Para acalmar a revolta, a espera demorada.

 

Eles porém marcharão sempre, não dormirão

recusarão a tardia paz da sepultura, o olvido

acesa sua cólera antiga, seu grito fundo

ardente a aflição do silêncio, a infâmia crua.

 

Eis por que vigiam estes mortos a nossa praça

seu é o aviso que ressoa no umbral da porta

na folhagem percutem audíveis clamores

a atormentada ternura do sangue insepulto.

 

***

 

A CASA

 

Aqui projectei a minha casa:

alta, perpétua, de pedra e claridade.

O basalto negro, poroso

viria da Mesquita.

Do Riboque o barro vermelho

da cor dos ibiscos

para o telhado

Enorme era a janela e de vidro

que a sala exigia um certo ar de praça.

O quintal era plano, redondo

sem trancas nos caminhos.

Sobre os escombros da cidade morta

projectei a minha casa

Recortada contra o mar.

Aqui.

Sonho ainda o pilar –

uma rectidão de torre, de altar.

Ouço murmúrios de barcos

na varanda azul

E reinvento em cada rosto fio

a fio

as linhas inacabadas do projecto.

 

***

 

DESCOBERTA

 

Após o ardor da reconquista

não caíram manás sobre os nossos campos.

E na dura travessia do deserto

Aprendemos que a terra prometida

era aqui.

Ainda aqui e sempre aqui.

Duas ilhas indómitas a desbravar.

O padrão a ser erguido

pela nudez insepulta dos nossos punhos.

 

***

 

SÓYA

 

Há-de nascer de novo o micondó –

belo, imperfeito, no centro do quintal.

À meia-noite, quando as bruxas

povoarem okás milenários

e o kukuku piar pela última vez

na junção dos caminhos.

 

Sobre as cinzas, contra o vento

bailarão ao amanhecer

ervas e fetos e uma flor de sangue.

 

Rebentos de milho hão-de nutrir

as gengivas dos velhos

e não mais sonharão as crianças

com gatos pretos e águas turvas

porque a força do marapião

terá voltado para confrontar o mal.

 

Lianas abraçarão na curva do rio

a insónia dos mortos

quando a primeira mulher

lavar as trancas no leito ressuscitado.

 

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada.

 

***

mapa-sao-tome-e-principe

 

AFROINSULARIDADE

 

Deixaram nas ilhas um legado

de híbridas palavras e tétricas plantações

 

engenhos enferrujados proas sem alento

nomes sonoros aristocráticos

e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

 

Aqui aportaram vindos do Norte

por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:

navegadores e piratas

negreiros ladrões contrabandistas

simples homens

rebeldes proscritos também

e infantes judeus

tão tenros que feneceram

como espigas queimadas

 

Nas naus trouxeram

bússolas quinquilharias sementes

plantas experimentais amarguras atrozes

um padrão de pedra pálido como o trigo

e outras cargas sem sonhos nem raízes

porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso

todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

 

E nas roças ficaram pegadas vivas

como cicatrizes – cada cafeeiro respira agora um

escravo morto.

 

E nas ilhas ficaram

incisivas arrogantes estátuas nas esquinas

cento e tal igrejas e capelas

para mil quilómetros quadrados

e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.

E ficou a cadência palaciana da ússua

o aroma do alho e do zêtê d’ óchi

no tempi e na ubaga téla

e no calulu o louro misturado ao óleo de palma

e o perfume do alecrim

e do mlajincon nos quintais dos luchans

 

E aos relógios insulares se fundiram

os espectros – ferramentas do império

numa estrutura de ambíguas claridades

e seculares condimentos

santos padroeiros e fortalezas derrubadas

vinhos baratos e auroras partilhadas

 

Às vezes penso em suas lívidas ossadas

seus cabelos podres na orla do mar

Aqui, neste fragmento de África

onde, virado para o Sul,

um verbo amanhece alto

como uma dolorosa bandeira.

 

***

 

QUANDO O LUAR CAIU

 

Quando o luar caiu e

tingiu de escuro os verdes da ilha

cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam

os murmúrios do teu corpo

e não eras.

Cheguei para despojar de limites o teu nome.

Não eras.

As nuvens estão densas de ti

sustentam a tua ausência

recusam o ocaso do teu corpo

mas não és.

Pedra a pedra encho a noite

do teu rosto sem medida

para te construir convoco os dias

pedra a pedra

no teu tempo consumido.

As pedras crescem como ondas

no silêncio do teu corpo.

Jorram e rolam

como flores violentas.

E sangram como pássaros exaustos

no silêncio do teu corpo

onde a noite e o vento se entrelaçam

no vazio que te espera.

 

Súbito e transparente chegaste

quando falsos deuses subornavam o tempo,

chegaste sem aviso

para despedir o defeso e o frio,

chegaste quando a estrada se abria

como um rio,

chegaste para resgatar sem demora o princípio.

Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,

hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo

mas já tomaste horas e caminhos

já venceste matos e abismos

já a espessura do obô resplandece em tua testa.

E não me bastam pombas dementes no teu rosto

não bastam consciências soluçante em teu rasto

não basta o delírio das lágrimas libertas.

Cantarei em pranto teu regresso sem idade

teu retorno do exílio na saudade

cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.

Para te saudar no mar e

na manhã dos cantos sem represas

saudarei a praia lisa e o pomar.

Direi teu nome e tu serás.

 

***

 

A MÃO DO POETA

 

Ao Fred Gustavo dos Anjos,

depois de ter lido Paisagens e Descobertas

 

O poeta, é sabido, conhece

o sentido da sua mão

e perdoa a bizarria

de crescer sozinha

com o impulso da ave

ou o fermento do pão

 

Porque ele sabe que a mão

o prende à raiz do chão

onde o rigor do seunão!

varre da casa a podridão

 

Por isso, se o poeta à praça traz

seus dentes caídos, a face desfeita

é para perscrutar no mastro

o pano que drapeja

e corrigir com a mão

a direcção do vento.

 

***

 

A OUTRA PAISAGEM

 

Da lisa extensão dos areais

Da altiva ondulação dos coqueirais

Do infindo aroma do pomar

Do azul tão azul do mar

Das cintilações da luz  no poente

Do ágil sono da semente

De tudo isto e do mais –

a redonda lua, orquídeas mil, os canaviais –

de maravilhas tais

falareis vós.

Eu direi dos coágulos que mineram

a fibra da paisagem

do jazigo nos pilares da Cidade

e das palavras mortas, assassinadas

que sem cessar porém renascem

na impura voz do meu povo.

 

***

 

VERSÃO DE DESERTO

 

Trazido não sei por que apelos, urgências

Vieste impugnar o momento que me cerca.

Demora – conclamas – a clara voz em minha boca.

 

Peço-te porém que repares:

não agonizam dunas nestes campos.

Aqui não jazem ossadas sem registo

nem apodrecem espectros de

perdidas caravanas.

Nenhum trilho foi abandonado

e não reneguei

Não, não reneguei

o nome do pai do meu pai

 

O meu deserto é a vertical semente de um barco.

O areal (seu brilho de nada e de lago)

não é senão a metáfora de uma horta

talvez uma projectada cisterna.

Esta claridade nos olhos do griot cego

este reflexo que obscurece a luz do dia

não irradia de um céu empedernido

a minha fome não é a maldição

do velho deus inclemente.

E todavia devora-me a cicatriz da penúltima batalha

e tenho por estigma

a memória de um longo fratricídio.

Mas estou aqui

sob este sol que alucina

a savana ao meio-dia.

Aqui, sob este toldo rasgado

onde envergo a sede dos meus ossos

e perduro sem jardim nem chuva

sem tambores nem flauta

sem espelhos,

companheira do tempo que amarra

as minhas veias ao umbigo do poço.

 

Não, nenhum trilho foi esquecido,

e venero o profano nome do pai do meu pai.

 

Lenta a vertigem vai esculpindo

os murmúrios de um rio incerto

planto estacas

em redor da vigília dos meus mortos.

Não anuncio.

Tardo e não prenuncio reino ou abismo.

Não sou mensageira de vãos sacrifícios,

épicas derrotas, novos caminhos.

Aqui onde o inferno acontece

neste lugar onde me derramo e permaneço

inauguro a véspera da minha casa.

O meu silêncio franqueia

o umbral de qualquer coisa.

 

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PARA TE ENCONTRAR

 

Para te encontrar levantarei os prumos.

Inventarei a casa nos mesmos rios

Para nos descobrir

 

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O CATACLISMO E AS CANÇÕES

 

Feliz o que de mim restar, depois de mim

Se uma só das canções cantadas

Viver além daquele que em mim agora canta.

Da hecatombe não salvaria contudo

Uma só das canções que cantei e canto.

Às entranhas do olvido

Antes roubaria o riso das crianças

E a idade do provérbio.

 

Assim aos vindouros

Intacto ofertaria o enigma da luz.

 

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FRONTEIRA

 

Trespassar é a sina dos que amam o mar.

 

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ESTA VIAGEM

 

Esta viagem não responde às minhas perguntas.

 

Trespassei o aço das certezas.

Heranças, devorei-as.

 

A etapa seguinte rasga a prévia cartografia

Toda a fronteira é um apelo à renúncia.

 

Perscrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.

 

Ao encontro da linguagem da tribo azul

cada passo me afasta de um rito sagrado.

 

Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:

a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.

 

Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada.

 

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SEMENTES

 

Não procurem no vazio das cavernas

a marca primordial, a germinação.

Cavernas são cavernas.

Na onda se inscreve todo o princípio

as sementes da blasfémia e da redenção.

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