Conceição Lima: um roteiro poético para derivas afro-identitárias

conceiçãolima pretovelho

Clique nas imagens para saber mais sobre essa notável poeta sãotomeense e sobre o papel estratégico desempenhado pelo arquipélago onde ela nasceu para a construção histórica e cultural do Atlântico Negro lusófono.


CANTO OBSCURO ÀS RAÍZES

 

Em Libreville

não descobri a aldeia do meu primeiro avô.

 

Não que me tenha faltado, de Alex,

a visceral decisão.

Alex, obstinado primo

Alex, cidadão da Virgínia

que ao olvido dos arquivos

e à memória dos griots Mandinga

resgatou o caminho para Juffure,

a aldeia de Kunta Kinte —

seu último avô africano

primeiro na América.

 

Digamos que o meu primeiro avô

meu último continental avô

que da margem do Ogoué foi trazido

e à margem do Ogoué não tornou decerto

 

O meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, quem sabe, talvez, Abessole

 

O meu primeiro avô

que não morreu agrilhoado em James Island

e não cruzou, em Gorée, a porta do inferno

 

Ele que partiu de tão perto, de tão perto

Ele que chegou de tão perto, de tão longe

 

Ele que não fecundou a solidão

nas margens do Potomac

 

Ele que não odiou a brancura dos algodoais

 

Ele que foi sorvido em chávenas de porcelana

Ele que foi compresso em doces barras castanhas

Ele que foi embrulhado em chiques papéis de prata

Ele que foi embalado para presente em caixinhas

 

O meu concreto avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas talvez, quem sabe, Abessole

 

O meu oral avô

não legou aos filhos

dos filhos dos seus filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.

 

Na curva onde aportou

a sua condição de enxada

no húmus em que atolou

a sua acossada essência

no abismo que saturou

de verde a sua memória

as águas melancolizam como fios

desabitadas por pirogas e hipopótamos.

 

São assim os rios das minhas ilhas

e por isso eu sou a que agora fala.

 

Brotam como atalhos os rios

da minha fala

e meu trazido primeiro avô

(decerto não foi Kunta Kinte,

porventura seria Abessole)

não pode ter inventado no Água Grande

o largo leito do seu Ogoué.

 

Disperso num azul sem oásis

talvez tenha chorado meu primeiro avô

um livre, longo, inútil choro.

 

Terá confundido com um crocodilo

a sombra de um tubarão.

 

Terá triturado sem ilusão

a doçura de um naco de mandioca.

Circunvagou nas asas de um falcão.

 

Terá invejado a liquidez de caudas e barbatanas

enquanto o limo dos musgos sequestrava os seus pés

e na impiedosa lavra de um vindouro tempo

emergia uma ambígua palavra

para devorar o tempo do seu nome.

 

Aqui terá testemunhado

o esplendor do pôr do sol, o luar, o arco-íris.

 

Decerto terá pressentido a calidez dos pingos

nas folhas das bananeiras.

E terá sofrido no Equador o frio da Gronelândia.

 

Mas não legou aos estrangeiros filhos

e aos filhos dos filhos dos estrangeiros filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.

 

Por isso eu, a que agora fala,

não encontrei em Libreville o caminho para a aldeia de Juffure.

 

Perdi-me na linearidade das fronteiras.

 

E os velhos griots

os velhos griots que detinham os segredos

de ontem e de antes de ontem

 

Os velhos griots que pelas chuvas contavam

a marcha do tempo e os feitos da tribo

 

Os velhos griots que dos acertos e erros

forjavam o ténue balanço

 

Os velhos griots que da ignóbil saga

guardavam um recto registo

 

Os velhos griots que na íris da dor

plantaram a raiz do micondó

partiram

levando nos olhos o horror

e a luz da sua verdade e das suas palavras.

 

Por isso eu que não descobri o caminho para Juffure

eu que não dançarei sobre o pó da aldeia do meu primeiro avô

meu último continental avô

que não se chamava Kunta Kinte mas talvez, quem sabe, Abessole

 

Eu que em cada porto confundi o som da fonte submersa

encontrei em ti, Libreville, o injusto património a que chamo casa:

estas paredes de palha e sangue entrançadas,

a fractura no quintal, este sol alheio à assimetria dos prumos,

a fome do pomar intumescida nas gargantas.

 

Por isso percorri os becos

as artérias do teu corpo

onde não fenecem arquivos

sim palpita um rijo coração, o rosto vivo

uma penosa oração, a insana gesta

que refunda a mão do meu pai

transgride a lição de minha mãe

 

e narra as cheias e gravanas, os olhos e os medos

as chagas e desterros, a vez e a demora

o riso e os dedos de todos os meus irmãos e irmãs.

 

Que nenhum idioma nos proclame ilhéus de nós próprios

vocábulo que não és

Mbanza Congo

mas podias ser

Que não és

Malabo

poderias ser

Que não és

Luanda

e podias ser

Que não és

Kinshasa

nem Lagos

Monróvia não és, podias ser.

 

Nascente e veia, profundo ventre

conheces a estrutura que sabota os ponteiros:

novos sobas, barcos novos, o conluio antigo.

 

E consomes a magreza dos celeiros

num bazar de retalhos e tumultos

Petit Paris!

onde tudo se vende, se anuncia

onde as vidas baratas desistiram de morrer.

 

Medram quarteirões de ouro

nos teus poros — diurnos, desprevenidos.

Medra implacável o semblante das mansões

Medram farpas na iníqua muralha

e um taciturno anel de lama em seu redor.

 

A chuva tem agora a cadência de um tambor

outro silêncio se ergue

no vazio dos salões das coiffeuses.

E no rasto do tam-tam revelarei

o medo adolescente encolhido nas vielas

beberei a sede da planta no teu grão.

 

Eu que trago deus por incisão em minha testa

e nascida a 8 de Dezembro

tenho de uma madona cristã o nome.

 

A neta de Manuel da Madre de Deus dos Santos Lima

que enjeitou santos e madre

ficou Manuel de Deus Lima, sumu sun Malé Lima

Ele que desafiou os regentes intuindo nação —

descendente de Abessole, senhor de abessoles.

 

Eu que encrespei os cabelos de san Plentá, minha três vezes avó

e enegreci a pele de san Nôvi, a soberana mãe do meu pai.

 

Eu que no espelho tropeço

na fronte dos meus avós…

 

Eu e o temor do batuque da puíta

o terror e fascínio do cuspidor de fogo

 

Eu e os dentes do pãuen que da costa viria me engolir

Eu que tão tarde descobri em minha boca os caninos do antropófago…

 

Eu que tanto sabia mas tanto sabia

de Afonso V o chamado Africano

Eu que drapejei no promontório do Sangue

Eu que emergi no paquete Império

Eu que dobrei o Cabo das Tormentas

Eu que presenciei o milagre das rosas

Eu que brinquei a caminho de Viseu

Eu que em Londres, aquém de Tombuctu

decifrei a epopeia dos fantasmas elementares.

Eu e minha tábua de conjugações lentas

Este avaro, inconstruído agora

Eu e a constante inconclusão do meu porvir

 

Eu, a que em mim agora fala.

 

Eu, Katona, ex-nativa de Angola

Eu, Kalua, nunca mais em Quelimane

Eu, nha Xica, que fugi à grande fome

Eu que libertei como carta de alforria

este dúbio canto e sua turva ascendência.

 

Eu nesta lisa, escarificada face

Eu e nossa vesga, estratificada base

Eu e a confusa transparência deste traço.

 

Eu que degluti a voz do meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas talvez, quem sabe, Abessole

 

Meu sombrio e terno avô

Meu inexorável primeiro avô

que das margens do Benin foi trazido

e às margens do Benin não tornou decerto

 

Na margem do Calabar foi colhido

e às águas do Calabar não voltou decerto

 

Nas margens do Congo foi caçado

e às margens do Congo não tornou decerto

 

Da nascente do Ogoué chegou um dia

e à foz do Ogoué não voltou jamais.

 

Eu que em Libreville não descobri a aldeia

do meu primeiro avô

meu eterno continental avô

 

Eu, a peregrina que não encontrou o caminho para Juffure

Eu, a nómada que regressará sempre a Juffure.

 

***

 

ANTI-EPOPEIA

 

Aquele que na rotação dos astros

e no oráculo dos sábios

buscou de sua lei, e mandamento

a razão, a anuência, o fundamento

 

Aquele que dos vivos a lança e o destino detinha

Aquele cujo trono dos mortos provinha

 

Aquele quem a voz da tribo ungiu

chamou rei, de poderes investiu

 

Por panos, por espelhos, por missangas

por ganância, avidez, bugingangas

as portas da corte abriu

de povo seu reino exauriu.

 

***

 

ZÁLIMA GABON

 

À memória de Katona, Atúpa Grande

e Atúpa Pequeno

À Makolé

 

Falo destes mortos como da casa, o pôr-do-sol, o curso d’água.

São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova

a patética sombra, seus ossos sem rumo e sem abrigo

e uma longa, centenária, resignada fúria.

 

Por isso não os confundo com outros mortos.

 

Porque eles vêm e vão mas não partem

Eles vêm e vão mas não morrem.

 

Permanecem e passeiam com passos tristes

que assombram a lama dos quintais

e arrastam a indignidade da sua vida e sua morte

pelo ermo dos caminhos com um peso de grilhões.

 

Às vezes, sentados sob as árvores, vergam a cabeça e choram.

 

Erguem-se depois e marcham com passos de guerrilha

Não abafem o choro das crianças, não fujam

Não incensem as casas, não ocultem a face

Urgente é o apelo que arde por onde passam

Seus corações deambulam à sombra nas plantações.

 

Por isso não os confundo com outros mortos

apaparicados com missas, nozados, padres-nossos.

 

Por remorso, temor, agreste memória

Por ambígua caridade, expiação de culpa

aos mortos-vivos ofertamos a mesa do candjumbi

feijão-preto, mussambê, puíta, ndjambi.

 

Para aplacar sua sede de terra e de morada

Para acalmar a revolta, a espera demorada.

 

Eles porém marcharão sempre, não dormirão

recusarão a tardia paz da sepultura, o olvido

acesa sua cólera antiga, seu grito fundo

ardente a aflição do silêncio, a infâmia crua.

 

Eis por que vigiam estes mortos a nossa praça

seu é o aviso que ressoa no umbral da porta

na folhagem percutem audíveis clamores

a atormentada ternura do sangue insepulto.

 

***

 

A CASA

 

Aqui projectei a minha casa:

alta, perpétua, de pedra e claridade.

O basalto negro, poroso

viria da Mesquita.

Do Riboque o barro vermelho

da cor dos ibiscos

para o telhado

Enorme era a janela e de vidro

que a sala exigia um certo ar de praça.

O quintal era plano, redondo

sem trancas nos caminhos.

Sobre os escombros da cidade morta

projectei a minha casa

Recortada contra o mar.

Aqui.

Sonho ainda o pilar –

uma rectidão de torre, de altar.

Ouço murmúrios de barcos

na varanda azul

E reinvento em cada rosto fio

a fio

as linhas inacabadas do projecto.

 

***

 

DESCOBERTA

 

Após o ardor da reconquista

não caíram manás sobre os nossos campos.

E na dura travessia do deserto

Aprendemos que a terra prometida

era aqui.

Ainda aqui e sempre aqui.

Duas ilhas indómitas a desbravar.

O padrão a ser erguido

pela nudez insepulta dos nossos punhos.

 

***

 

SÓYA

 

Há-de nascer de novo o micondó –

belo, imperfeito, no centro do quintal.

À meia-noite, quando as bruxas

povoarem okás milenários

e o kukuku piar pela última vez

na junção dos caminhos.

 

Sobre as cinzas, contra o vento

bailarão ao amanhecer

ervas e fetos e uma flor de sangue.

 

Rebentos de milho hão-de nutrir

as gengivas dos velhos

e não mais sonharão as crianças

com gatos pretos e águas turvas

porque a força do marapião

terá voltado para confrontar o mal.

 

Lianas abraçarão na curva do rio

a insónia dos mortos

quando a primeira mulher

lavar as trancas no leito ressuscitado.

 

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada.

 

***

mapa-sao-tome-e-principe

 

AFROINSULARIDADE

 

Deixaram nas ilhas um legado

de híbridas palavras e tétricas plantações

 

engenhos enferrujados proas sem alento

nomes sonoros aristocráticos

e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

 

Aqui aportaram vindos do Norte

por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:

navegadores e piratas

negreiros ladrões contrabandistas

simples homens

rebeldes proscritos também

e infantes judeus

tão tenros que feneceram

como espigas queimadas

 

Nas naus trouxeram

bússolas quinquilharias sementes

plantas experimentais amarguras atrozes

um padrão de pedra pálido como o trigo

e outras cargas sem sonhos nem raízes

porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso

todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

 

E nas roças ficaram pegadas vivas

como cicatrizes – cada cafeeiro respira agora um

escravo morto.

 

E nas ilhas ficaram

incisivas arrogantes estátuas nas esquinas

cento e tal igrejas e capelas

para mil quilómetros quadrados

e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.

E ficou a cadência palaciana da ússua

o aroma do alho e do zêtê d’ óchi

no tempi e na ubaga téla

e no calulu o louro misturado ao óleo de palma

e o perfume do alecrim

e do mlajincon nos quintais dos luchans

 

E aos relógios insulares se fundiram

os espectros – ferramentas do império

numa estrutura de ambíguas claridades

e seculares condimentos

santos padroeiros e fortalezas derrubadas

vinhos baratos e auroras partilhadas

 

Às vezes penso em suas lívidas ossadas

seus cabelos podres na orla do mar

Aqui, neste fragmento de África

onde, virado para o Sul,

um verbo amanhece alto

como uma dolorosa bandeira.

 

***

 

QUANDO O LUAR CAIU

 

Quando o luar caiu e

tingiu de escuro os verdes da ilha

cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam

os murmúrios do teu corpo

e não eras.

Cheguei para despojar de limites o teu nome.

Não eras.

As nuvens estão densas de ti

sustentam a tua ausência

recusam o ocaso do teu corpo

mas não és.

Pedra a pedra encho a noite

do teu rosto sem medida

para te construir convoco os dias

pedra a pedra

no teu tempo consumido.

As pedras crescem como ondas

no silêncio do teu corpo.

Jorram e rolam

como flores violentas.

E sangram como pássaros exaustos

no silêncio do teu corpo

onde a noite e o vento se entrelaçam

no vazio que te espera.

 

Súbito e transparente chegaste

quando falsos deuses subornavam o tempo,

chegaste sem aviso

para despedir o defeso e o frio,

chegaste quando a estrada se abria

como um rio,

chegaste para resgatar sem demora o princípio.

Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,

hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo

mas já tomaste horas e caminhos

já venceste matos e abismos

já a espessura do obô resplandece em tua testa.

E não me bastam pombas dementes no teu rosto

não bastam consciências soluçante em teu rasto

não basta o delírio das lágrimas libertas.

Cantarei em pranto teu regresso sem idade

teu retorno do exílio na saudade

cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.

Para te saudar no mar e

na manhã dos cantos sem represas

saudarei a praia lisa e o pomar.

Direi teu nome e tu serás.

 

***

 

A MÃO DO POETA

 

Ao Fred Gustavo dos Anjos,

depois de ter lido Paisagens e Descobertas

 

O poeta, é sabido, conhece

o sentido da sua mão

e perdoa a bizarria

de crescer sozinha

com o impulso da ave

ou o fermento do pão

 

Porque ele sabe que a mão

o prende à raiz do chão

onde o rigor do seunão!

varre da casa a podridão

 

Por isso, se o poeta à praça traz

seus dentes caídos, a face desfeita

é para perscrutar no mastro

o pano que drapeja

e corrigir com a mão

a direcção do vento.

 

***

 

A OUTRA PAISAGEM

 

Da lisa extensão dos areais

Da altiva ondulação dos coqueirais

Do infindo aroma do pomar

Do azul tão azul do mar

Das cintilações da luz  no poente

Do ágil sono da semente

De tudo isto e do mais –

a redonda lua, orquídeas mil, os canaviais –

de maravilhas tais

falareis vós.

Eu direi dos coágulos que mineram

a fibra da paisagem

do jazigo nos pilares da Cidade

e das palavras mortas, assassinadas

que sem cessar porém renascem

na impura voz do meu povo.

 

***

 

VERSÃO DE DESERTO

 

Trazido não sei por que apelos, urgências

Vieste impugnar o momento que me cerca.

Demora – conclamas – a clara voz em minha boca.

 

Peço-te porém que repares:

não agonizam dunas nestes campos.

Aqui não jazem ossadas sem registo

nem apodrecem espectros de

perdidas caravanas.

Nenhum trilho foi abandonado

e não reneguei

Não, não reneguei

o nome do pai do meu pai

 

O meu deserto é a vertical semente de um barco.

O areal (seu brilho de nada e de lago)

não é senão a metáfora de uma horta

talvez uma projectada cisterna.

Esta claridade nos olhos do griot cego

este reflexo que obscurece a luz do dia

não irradia de um céu empedernido

a minha fome não é a maldição

do velho deus inclemente.

E todavia devora-me a cicatriz da penúltima batalha

e tenho por estigma

a memória de um longo fratricídio.

Mas estou aqui

sob este sol que alucina

a savana ao meio-dia.

Aqui, sob este toldo rasgado

onde envergo a sede dos meus ossos

e perduro sem jardim nem chuva

sem tambores nem flauta

sem espelhos,

companheira do tempo que amarra

as minhas veias ao umbigo do poço.

 

Não, nenhum trilho foi esquecido,

e venero o profano nome do pai do meu pai.

 

Lenta a vertigem vai esculpindo

os murmúrios de um rio incerto

planto estacas

em redor da vigília dos meus mortos.

Não anuncio.

Tardo e não prenuncio reino ou abismo.

Não sou mensageira de vãos sacrifícios,

épicas derrotas, novos caminhos.

Aqui onde o inferno acontece

neste lugar onde me derramo e permaneço

inauguro a véspera da minha casa.

O meu silêncio franqueia

o umbral de qualquer coisa.

 

***

 

PARA TE ENCONTRAR

 

Para te encontrar levantarei os prumos.

Inventarei a casa nos mesmos rios

Para nos descobrir

 

***

 

O CATACLISMO E AS CANÇÕES

 

Feliz o que de mim restar, depois de mim

Se uma só das canções cantadas

Viver além daquele que em mim agora canta.

Da hecatombe não salvaria contudo

Uma só das canções que cantei e canto.

Às entranhas do olvido

Antes roubaria o riso das crianças

E a idade do provérbio.

 

Assim aos vindouros

Intacto ofertaria o enigma da luz.

 

***

 

FRONTEIRA

 

Trespassar é a sina dos que amam o mar.

 

***

 

ESTA VIAGEM

 

Esta viagem não responde às minhas perguntas.

 

Trespassei o aço das certezas.

Heranças, devorei-as.

 

A etapa seguinte rasga a prévia cartografia

Toda a fronteira é um apelo à renúncia.

 

Perscrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.

 

Ao encontro da linguagem da tribo azul

cada passo me afasta de um rito sagrado.

 

Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:

a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.

 

Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada.

 

***

 

SEMENTES

 

Não procurem no vazio das cavernas

a marca primordial, a germinação.

Cavernas são cavernas.

Na onda se inscreve todo o princípio

as sementes da blasfémia e da redenção.

conceiçãolima eusouafrica yt

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