Edimilson de Almeida Pereira: desbravando sentidos para a experiência negra brasileira

 

Edimilson2

RANHURAS

 

Não há direção

no labirinto.

A vida e sua cárie

são exatas, no entanto.

 

Da outra margem

exploram o espelho

e me contam

o que permanece,

se me modifico.

 

Entro nessa direção

sem roteiros.

O que aí se mostra

são mapas

de outros mapas.

 

***

 

 

NUMA PAISAGEM, OUTRA

 

o unguento e, às vezes,

a colônia de morte,

sangram através do pensamento, lâmina

que toca a jugular

 

se animal em pelo, se apenas

recipiente,

quem saberá? enquanto se esgueiram

refazem os modos de si

 

alguém que os interpreta

há muito não goza de confiança

por isso, os gritos

com que intenta mover as pedras

 

quem contesta o descendente

e as razões

que o fazem irmão da gazela

inimigo da febre?

 

não seremos nós, os que portam

a camisa sem idiomas,

nem as mulheres

a quem reservam o teto da casa

e nenhuma epígrafe

 

a contestação faz-se por si mesma

a jugular não se entrega ao braço

que desfere o golpe

e se esgota nesse gesto

 

não, o sacrifício não está no mel

que incendeia, de tempos em tempos,

a viagem dos parentes

 

as ondas que mudam por si mesmas

disseram adeus às certezas,

nós ainda não

(pelo menos aqueles que se julgam

primo dos primeiros)

 

como nos enfrentaremos sob a ordem

que tropeça?

mil sendas se abrem e a seiva do pai,

como o recém-nascido,

se perdeu num corpo maior

 

ninguém está lá, a não ser

quem te conhece e estranha, não

o charme de irmão,

não espere entendimento se ele fizer

um círculo na areia

 

não há cortes que expliquem

a paisagem anterior, nem a sombra, amanhã,

nos caules

 

o que se espraia da jugular

é um labirinto que conduz a outro e se algum

vestígio resta

é para dizer seu afastamento da origem

 

as leituras faliram

se o descendente insiste,

rasga os seres para os quais não temos

saúde

 

nesse deserto de alegrias, a herança

é o animal que saqueia o verbo

antes do sacrifício

 

***

 

 

CEMITÉRIO MARINHO

 

            CENA 1

 

: embarcados, como

avaliar a tempestade

 

não é fora que a lâmina

arruína, mas

nas veias

 

o grito (lagarto que

os dias emagrecem)

insulta a diversão

do escorbuto

 

onde uma perna

            outra

lista de mercadorias

que valessem

            peça

            por

            peça

 

nesse cômodo

mal se tira a costela

e a morte instala sua

força tarefa

 

no vermelho da hora

um baque

            outro

espanto, deveras

 

o corpo

— o que expõe em mulher

ou guelra

exasperado?

 

: embarcados, às vezes

nos desembarcam

 

antes da ilha, em meio

às ondas

como sacos de aniagem

 

entregues ao calunga

grande, o que resta?

uma

cilada, outro revés?

 

            à

superfície um brigue

            é

            o

            que

            é

 

faca alisando a bandeira

do mar             país

sem continente

garden of the world

 

            mas

            o

            que

            ele

            arrota

assombra-nos

 

: na praia, desembarcados

teremos de volta

as pernas         os braços

            a cabeça

            os rios

            os crimes

            a ira

            os lapsos

            as línguas

            a guerra

            a teia

            o horror

            a trégua

 

            o camaleão

            no céu

            a tempestade?

 

            CENA 2

 

uma ponte de ossos

            submersa

eis o que somos —

 

além abismo a sigla

            em gesso

se esculpe e nela

habitam, sob musgo,

la vieja        le bleu

 

o atirado aos tubarões

que,

devido à calmaria,

flutuou com a barriga

em luto

por meia hora

                        o rosto

perto do navio dentro

dos rostos em fuga

 

                        o rosto

esverdeado como um

fruto-memória

            um braço

estendido            além

de seus nervos

 

eis o que somos — apesar

do abismo e sua colônia

de entalhes

 

apesar do abismo onde

a forma informe (a

            linguagem)

        nos experimenta

 

            CENA 3

 

um velho repõe a cólera

não pela intenção

de roubar o sono aos peixes

 

ou porque uma raia

crispou o coral e sua memória

se esgarçou

 

— os tendões, uma

vez descolados, acusam

a história

 

entre essa e a outra

margem do oceano, cabeças

rolaram mas

 

continuam presas à orelha

            dos livros

 

se um velho pretende dizer

quem as perdeu

deve se postar na beira

 

o mar à sua frente

sem nada a recuperar, senão

o exílio

 

            CENA 4

 

o ventre materno

nave

se atreve nas ondas

não porque os filhos

o pensem umbigo

            fora

            do alvo

 

o ventre erra

na tempestade, embora

costure os portos

da noite

 

o que leva dentro

se move

mais que a nuvem

& o comércio

 

sobre as águas

esse navio

norte de outro norte

 

mas

traído, o ventre

se inventa

presídio-liberdade

 

a cabeça (quem

a tiver gire

além do próprio

eixo)

            é o bólido

 

o que somos

vem de um

enigma

tirado aos peixes

de um corpo

além

das chagas

 

o ventre materno

nave

esgrime na água

 

e o que esculpe

excede

ao seu trabalho

 

: na pele

nenhum risco

que tire desse

corpo o equilíbrio

 

o ventre materno

diário

rasura a inscrição

de si mesmo

 

na água em que

submerge

ressoa, estala

se ergue

 

— a ele, por isso

saúdam as cabeças

 

            CENA 5

 

a linguagem espolia o museu

de história natural

 

nem tudo o que ressoa

é som

a palavra ainda menos

 

se a diamba espuma

a noite

não é que o morto viajará

 

o pássaro limpa

os dentes do hipopótamo

nem por isso

vão juntos à reza

 

a grande árvore freme

mas não é

com a chuva que se deita

 

a linguagem se joga

no oceano — para desespero

da memória

que se quer museu de tudo

 

            CENA 6

 

a primeira loja (de carnes:

termo usual

para quem perdera

o domínio

de sua violência)

 

imitava o inferno

em curvas: trezentos

nascidos para morrer

acenando em azul

            e branco

ao país das demências

 

trezentos entre os seis

e treze

anos apartados do jogo

: uns meninos

outros, meninas

em fila sob trinta e três

graus

 

no inferno, o azul

o branco, trezentas vezes

lesado,

se esgueira do assédio

            de sua fila, cada

um respira no olvido

 

trezentos zeros a trinta

e três graus

crepitam na grama: extinto

o negócio,

não se bastam, em flor

            em farpa oxidam

 

            CENA 7

 

recusado, esse

 

lugar

é o soldo que reduziu

o mar a duas braças

 

em 110 metros

quadrados

redondos em febre

e assombro

 

dormem (não como

deveriam)

seis mil cento e dezenove

almas

 

: as pupilas golpeadas

no mar cevam

um dia

que não se esgota

 

de óbito em óbito

o horror assunta os vivos

            corta-lhes

herança e umbigo

 

de óbito em óbito

os sem irmandade ou

crédito

se escrevem à esquerda

 

de óbito em óbito

navio e continente são

um

mesmo ancoradouro

 

de óbito em óbito

se calcula a história como

se ao apagá-la

ela se fizesse nova

 

nesse lugar

de esconjuros a juros

a nudez acossa

o oficial de ossos

 

a linguagem, corpo

indefeso, cola-se à laje

suas entranhas são

um caniço

 

e ainda que o silêncio

a ancore          suona

: os que morreram antes

de se tornarem

 

outros foram lançados

a essa barca noturna

sem nome

tirados ao sangue

 

não pertencem ao hades

olimpo

de nenhuma ordem

são outros além-outros

que engolem a língua

para regressar

à primeira queda

do rio

 

que temem perder

a cabeça

e sem ela o rastro anterior

ao chão

 

esse

lugar recusado

invernou sob arcas

e contrapesos

 

sob alucinações

e mercadorias alheias

ao seu comércio

sobre tal

 

cemitério

se atulharam

o descuido letras de câmbio

e tumultos

 

o que fazer, porém

dos espólios

recuperados no golpe

de uma pá?

 

são os aptos

no manuseio da

equipagem: os mortos

de quem o navio

não partiu, os mortos

tatuados

na cal, os de sempre

que teriam

 

movido arcos e tinas

comprado & vendido

suas posses

e a si mesmos

 

os mortos descalços, os

emudecidos

os surdos a qualquer

sentinela

 

            lá vem a barra do dia

            topar co’as ondas

                                   do mar

 

os vermelhos e suas

orquídeas

saídas no flanco

esquerdo

 

            sua terra é diferente

                                   m

            orar no campo santo

 

os mortos que não

viram a cidade

as lianas

mortas, as mortas

 

            lá vem a barra do dia

            sem as ondas do mar

                             de vigo

 

o que fazer desses

rendidos

na praia, de suas

valises

 

com nada por dentro?

de seu esqueleto

convertido em

flauta lá vem a barra

 

do dia topar co’as ondas

do mar de sua

cólera enrugando

a manhã?

 

 

***

 

 

CADERNO DE RETORNO

 

Pele radar que indexa

            um looping

            ao atabaque

            um anjo

            à sua queda

            Iracema

            à sua novela

alvo que incinera um atirador

            no teto

 

(…)

 

Para uso irrestrito a pele em desafio

            a todo gesto

coleção de selos que o vento

            dispersa da janela

 

(…)

 

A pele procura os naipes para

            entrar no jogo

mais se arroja quando desnuda

            o homem

            através do verbo

 

(…)

 

Pele não é o cárcere nem

            o texto

            o papel

            a retícula

            para roteiro em zoom

quiçá um mapa que muda enquanto viaja

            e se fixa quando

            escorregadia

                nos tece

 

(…) 

 

Estou de volta a casa não para visitar

os carneiros da minha gente

uma vez mortos

                                   expostos.

O que espero deles não é carne

                                   mas raiz e errância.

A experiência acumulada sendo

            o último da classe

            o único entre os outros

            o suspeito número um

            a prova no fundo do poço

apodreceu para adubar minha vontade.

 

(…)

 

Como cerzir um país com linhas várias

onde uma se quebra

outra a emenda

e por não se amarem se enovelam

orquídeas na mesma escarpa.

A voz arranha a pintura do carro,

reabre no dia uma herança de embargos.

 

O que está dito é ditado?

            Não temos guerra, nem terremoto

            nem ebola, ruína ou atentado

            não temos cisma nem avalanche

o que vemos se não é alegria

são seus disfarces

 

E os ouvidos, que letrados noutra música,

            se escalavram?

 

Tenho uma laranja nas mãos a faca

para salvar os gomos desvia

das partes cariadas.

A palavra descasca o país: num ermo botequim,

entre bacon e varejeiras, a pele de um conta

o que ele por sua boca não tramaria.

            Miríades fábulas que importa?

 

Sua sombra que a fraca luz projeta recusa

            a rede da casa-grande

            o título a prazo do barão em débito

            a cadeira del-rey

            a merda da casa-grande

            a dissertação elogiosa da selva

            o piano

a culpa de não amar o deus imposto

 

(…)

 

Discutimos sobre fresas grandes y pequeñas

et on dita u même temps que ce sont originales

lês traces de notre nouvel artiste:

— est-il um naïf?

O abismo do país se ilumina,

                        acelera minha ferida.

o que em mim celebra

                        cospe esculpe alucina.

 

A vergonha de quem não inventou a pólvora

virou bandeira de quem calçou o continente.

A voz não procura esse rastro

procura o sentido além daquel esperdiçado

porque não as inventamos

            teimamos em aferir

                        a roda

                        a pólvora

                        a palavra

 

Contra a blitz na memória

a Memória.

Contra o desprezo ao que dançamos

a Dança.

Contra o repúdio ao que falamos

a Fala.

 

Nos fundos do país a festa não termina

será uma para disfarçar outra guerrilha?

Quem a percorre

desde a sala

pensa nos esqueletos

que trepidam sobre outros emudecidos.

 

São nove horas da noite em 1844

            os presos assustam a Câmara

            e os coletes da cidade de Salvador.

            No subsolo da lei a insubmissão

            deborda em sambas de crioulos

            ou africanos?

            Serão idênticos ou mais diversos

            quando se ajuntam?

 

(…)

 

É possível amar onde o desembarque de escravos

se multiplicou como as moscas

                                               sobre as bananas?

Qué pretendes quando olvidas esta memoria

            la continuación del massacre?

            cette odeur de cheveux au feu?

            a fome como sintaxe?

 

A voz escassa raspa as unhas no caos.

Aquele de quem a bala não se enamorou,

vai seguro e não se espanta.

 

            Passeia a orla, tênis e bicicleta

            artefatos que sedam os calos.

            Vai como se, por dentro, a luta

            entre capitão do mato e escravo

            tivesse cessado. Vai ao ar livre

            contra a vigilância da morte.

            O tênis brando, roupa de marca

            documentos de exorcismo diário.

            Vai discreto e não balança,

            pedra alguma lhe tira o passo.

            Até que, desde dentro, a luta

            explode em seu encalço. Ia de

            tênis bicicleta, por que o abraçou

            a bala do itinerário desviada?

 

 

(…)


Ó como somos plásticos

            para olhar de esguelha

            e entender os mitos.

Mais uma série de ensaios

explica — o país era outro mas, iludidos,

deitamos gatos para acordar lebres.

Ante as versões

de spix, martius & company

            atenção, repare, escute

            a pulga atrás da orelha.

 

Como soou o país tocado pelas mil duzentas

e setenta e três línguas indígenas

antes que minasse

a nuvem, o vento, a tempestade?

            Como o recitam as cento e oitenta

            exiladas do dicionário?

            E as africanas que negociaram

            em senzalas e praças?

            E o português se arvorando

            em camaleão nos trópicos?

 

(…)

 

No país onde quem cala consente,

grassa outra tecelagem

            não gira humores

            não lubrifica sirenes

            hora extra não faz

Tece sem novelo a rede para as aves de rapina

            não se dá um medo

            se ama de filhos.

Como um bordado, retém o pano de quem

pensa dominar o desenho.

 

Tenho doze fôlegos e uma educação

para constranger os desavisados.

O que assisti ao entrar pelos fundos

da cidade não me calcinou as retinas

            ao contrário

encheu de impertinência os meus escritos.

            Os que fendem a pedra

            me ensinaram o avesso

            os papéis roídos

            a trituração por método

            o pai me instruiu que é por dentro

                        a ebulição da lava.

 

O país tem fendas grutas corredores

uma vocação para morder

que estremeceu Hans Staden

            mordemos a cauda e a cabeça

            deglutimos sem mastigar

            engolimos o sapo

            salivamos marimbondo

Sabemos que deus alarga a goela

quando tira os dentes.

Não cuspimos no fogo para não

minguar a crista.

 

Morremos pela boca, exceto Exu,

            guia de Tirésias

que desacata Gregório de Matos

Macunaíma e François Villon.

            Exu calibã

luva insuspeita de Shakespeare

caçador que tem em si a caça

e se irrita

preso a uma dezena de nomes.

 

(…)

 

A notícia desse espanto estilhaça ao meu lado

            por que me enviaram

            um postal de Luanda?

por que há tempos o litoral do país

            aprende outros continentes?

 

(…)

 

***

 

 

DESPEDIDA

 

Deixo o corpo, auê, ê.

Noutro campo

vejo os antigos.

 

Ergo a toalha

onde as cores são outras

(Lá fora gunga não chora).

 

Ergo espada com os antigos.

Noutro campo

aprendo o mesmo canto.

 

***

 

 

SÍLABA

 

Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida e tudo que se queira. Não está na boca e nela se arvora. Testa o sentido, duvida de si mesma. Vai ao baile, está nua ao meio-dia. Não é língua do suplício nem do vexame, desenrola os signos e se pronuncia.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s