Solano Trindade: abrindo caminhos para a negritude brasileira

 

Solano 1969 em Embu

TOQUE DE REUNIR

 

Vinde irmãos macumbeiros

Espíritas, Católicos, Ateus.

Vinde todos os brasileiros.

Para a grande reunião.

Para combater a fome

Que mata nossa nação.

 

Vinde Maria Pucheria.

João de Deus. José Maria.

Anicacio. Zé Pretinho

Para a grande reunião

Para combater a malária

Que mata nossa nação

 

Vinde trapeiro, pedreiro.

Lavrador, arrumadeira.

Caixeiro, funcionário.

Combater a tuberculose

Que mata nossa nação.

 

Vinde irmãos sambistas.

Da favela. Da Mangueira.

Do Salgueiro. Estácio de Sá.

Para a grande reunião.

Combater o analfabetismo

Que mata a nossa nação.

Vinde poetas, pintores

Engenheiros, escritores.

Negociantes e médicos.

Para a grande reunião.

Combater o facismo

Que mata a nossa nação.

 

***

 

SOU NEGRO

À Dione Silva

 

Sou negro

meus avós foram queimados

pelo sol da África

minh’alma recebeu o batismo dos tambores

atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda

como mercadoria de baixo preço

plantaram cana pro senhor de engenho novo

e fundaram o primeiro Maracatu

 

Depois meu avô brigou como um danado

nas terras de Zumbi

Era valente como quê

Na capoeira ou na faca

escreveu não leu

o pau comeu

Não foi um pai João

humilde e manso

Mesmo vovó

não foi de brincadeira

Na guerra dos Malês

ela se destacou

 

Na minh`alma ficou

o samba

o batuque

o bamboleio

e o desejo de libertação

 

***

 

O CANTO DA LIBERDADE

 

Ouço um novo canto,

Que sai da boca,

de todas as raças,

Com infinidade de ritmos…

Canto que faz dançar,

Todos os corpos,

De formas,

E coloridos diferentes…

Canto que faz vibrar,

Todas as almas,

De crenças,

E idealismos desiguais…

É o canto da liberdade,

Que está penetrando,

Em todos os ouvidos

 

***

 

VELHO ATABAQUE

 

Velho atabaque
quantas coisas você falou para mim
quantos poemas você anunciou
Quantas poesias você me inspirou
às vezes cheio de banzo
às vezes com alegria
diamba rítmica
cachaça melódica
repetição telúrica
maracatu triste
mas gostoso como mulher…

 

Triste maracatu
escravo vestido de rei
loanda distante do corpo
e pertinho da alma
negras sem desodorante
com cheiro gostoso
de mulher africana
zabumba batucando
na alma de eu…

 

Velho atabaque
madeira de lei
couro de animais
mãos negras lhe batem
e o seu choro é música
e com sua música
dançam os homens
inspirados de luxúria
e procriação
Velho atabaque
gerador de humanidade…

 

***

 

BAIANINHA

 

Baianinha

vatapá permanente

doce de coco

cafuné dendê

você veio na hora

quentinha

pra minha vida

trazendo o dengo

do que eu precisava.

 

Candomblé da minha madrugada

batendo em mim

que sou tambor creoulo

com patuá

envolvendo meu pescoço

com patuá

envolvendo meu pescoço

botando em minha boca

feitiço de Iansã.

Você veio agora

como a revolução de Cuba

me animar a vida

 

Você veio agora

como a libertação do Congo

me tocando pra frente

e fazendo esquecer

o tempo

e a velhice.

 

Você veio agora

fazer mutirão comigo…

 

***

 

MACUMBA

 

Noite de Yemanjá

negro come acaçá

noite de Yemanjá

filha de Nanan

negro come acaçá

veste seu branco abebé

 

Toca o aguê

o caxixi

o agogô

o engona

o gã

o ilu

o lê

o roncó

o rum

o rumpi

 

Negro pula

negro dança

negro bebe

negro canta

negro vadia

noite e dia

sem parar

pro corpo de Yemanjá

pros cabelos de Obá

do Calunga

do mar

 

Cambondo sua

mas não cansa

cambondo geme

mas não chora

cambondo toca

até o dia amanhecer

 

Mulata cai no santo

corpo fica belo

mulata cai no santo

seus peitos ficam bonitos

 

Eu fico com vontade de amar…

 

***

 

DEFORMAÇÃO

 

Procurei no terreiro

Os Santos D’África

E não encontrei,

Só vi santos brancos

Me admirei…

 

Que fizeste dos teus santos

Dos teus santos pretinhos?

Ao negro perguntei.

 

Ele me respondeu:

Meus pretinhos se acabaram,

Agora,

Oxum, Yemanjá, Ogum,

É São Jorge,

São João,

E Nossa Senhora da Conceição.

 

Basta Negro!

Basta de deformação!

 

***

 

REENCARNAÇÃO

 

Eu nasci

No inicio do século

(Revolução operária)

Nasci no Bairro de São José

Recife Pernambuco Brasil

 

D. Micaela

Foi a parteira que me pegou

E anunciou o meu Sexo

Homem!

 

A minha mãe

Foi operária cigarreira

Da Fábrica Caxias

Nascida de índio

E africano

 

Meu pai

Foi sapateiro

Especialista em Luis XV

Nasceu de branco e africano

Sabia falar em nagô

 

Meu pai era preto

Minha mãe era preta

Todos em casa são pretos

 

Minha mãe não sabia ler

E meu pai era semianalfabetizado

 

Minha mãe sabia rezar

Meu pai sabia rezar

 

Meu pai depois foi macumbeiro

(Macumbeiro é um espírita de cor preta)

 

Branco espírita é espiritualista

Que fica esperando a reencarnação

Na luta por nada

Não quer revolução

Nem por evolução

Não quer ação

Quer reencarnar

Na outra vida

Quer reencarnar diferente

Se for mulher

Quer voltar homem

Se for homem

Quer voltar mulher

 

Se for empregado

Quer voltar patrão

Quer reencarnar

Para se acomodar…

Intelectual se acomoda sem reencarnar

É mais fácil

Depende do emprego que arranjar…

 

***

 

TRISTES MARACATUS

 

Baticuns maracatucando

na minh’alma de moleque

Buneca negra na minha meninice

de “negro preto” de São José

Nas águas de calunga

a Kambinda me inspirando amor

O primeiro cafuné no mato verde

Da campina do Bodé

Rum de amor de negra

Rumpi de desejo de mulata

Lê de realização cafusa

Sons de protestos

Num mundo de guerra

E de ódio

 

Criação de Olorum

O mais tolerante dos deuses

O mais pacífico

Dos criadores

O mais estético

Dos chefes de raça

 

Tristes maracatus

Em maracatus alegres

Que se vão distantes

Em ritmo calmo de congo

Em acelerado moçambique

Em toque de Kêto

De Jejê e de Angola

Maracatus meus…

 

***

 

MANDINGA

 

Isto é mandinga negra

Isto é mandinga

 

Teus olhos de mãe d’água

pregando lirismo

teus seios escondidos

em Vila Isabel

 

Teus lábios mestiços

falando em beleza

no ritmo do samba

nos pingos da chuva

que molham o meu rosto

 

lirismo + lirismo

= a lirismo

(vamos somar na poesia)

é preciso aumentar a poesia

é preciso crescer e multiplicar

poeticamente

 

***

 

RAINHA E ESCRAVAS

 

Da janela do apartamento

vejo só barracos do morro

onde moram as rainhas

do carnaval

imponentes rainhas negras

riquíssimas de ritmo e de sexo

Rainhas por três dias alegres

escravas no resto do ano…

 

***

 

CANTO DOS PALMARES

 

Eu canto aos Palmares

sem inveja de Virgílio de Homero

e de Camões

porque o meu canto

é o grito de uma raça

em plena luta pela liberdade!

 

Há batidos fortes

de bombos e atabaques

em pleno sol

Há gemidos nas palmeiras

soprados pelos ventos

Há gritos nas selvas

invadidas pelos fugitivos…

 

Eu canto aos Palmares

odiando opressores

de todos os povos

de todas as raças

de mão fechada

contra todas as tiranias!

 

Fecham minha boca

Mas deixam abertos os meus olhos

Maltratam meu corpo

Minha consciência se purifica

Eu fujo das mãos

Do maldito senhor!

 

Meu poema libertador

é cantado por todos,

até pelo rio.

Meus irmãos que morreram

muitos filhos deixaram

e todos sabem plantar

e manejar arcos;

muitas amadas morreram

mas muitas ficaram vivas,

dispostas para amar

seus ventres crescem

e nascem novos seres.

 

O opressor convoca novas forças

vem de novo

ao meu acampamento…

Nova luta.

As palmeiras

ficam cheias de flechas,

os rios cheios de sangue,

matam meus irmãos,

matam as minhas amadas,

devastam os meus campos,

roubam as nossas reservas;

tudo isso,

para salvar

a civilização

e a fé…

 

Nosso sono é tranquilo

mas o opressor não dorme,

seu sadismo se multiplica,

o escravismo é o seu sonho

os inconscientes

entram para seu exército…

 

Nossas plantações

estão floridas,

nossas crianças

brincam à luz da lua,

nossos homens

batem tambores,

canções pacíficas,

e as mulheres dançam

essa música…

 

O opressor se dirige

a nossos campos,

seus soldados

cantam marchas de sangue.

 

O opressor prepara outra investida,

confabula com ricos e senhores,

e marcha mais forte,

para o meu acampamento!

Mas eu os faço correr…

 

Ainda sou poeta

meu poema

levanta os meus irmãos.

Minhas amadas se preparam para a luta,

os tambores

não são mais pacíficos,

até as palmeiras

têm amor à liberdade…

 

Os civilizados têm armas,

e têm dinheiro,

mas eu os faço correr…

 

Meu poema

é para os meus irmãos mortos.

Minhas amadas

cantam comigo,

enquanto os homens

vigiam a Terra.

 

O tempo passa

sem número e calendário,

o opressor volta

com outros inconscientes,

com armas

e dinheiro,

mas eu os faço correr…

 

O meu poema libertador

é cantado por todos,

até pelas crianças

e pelo rio.

 

Meu poema é simples,

como a própria vida,

nascem flores

nas covas de meus mortos

e as mulheres

se enfeitam com elas

e fazem perfume

com sua essência…

 

Meus canaviais

ficam bonitos,

meus irmãos fazem mel,

minhas amadas fazem doce,

e as crianças

lambuzam os seus rostos

e seus vestidos

feitos de tecidos de algodão

tirados dos algodoais

que nós plantamos.

 

Não queremos o ouro

porque temos a vida!

e o tempo passa,

sem número e calendário…

O opressor quer o corpo liberto,

mente ao mundo

e parte para

prender-me novamente…

 

— É preciso salvar a civilização,

Diz o sádico opressor…

 

Eu ainda sou poeta

e canto nas selvas

a grandeza da civilização — a Liberdade!

Minhas amadas cantam comigo,

meus irmãos

batem com as mãos,

acompanhando o ritmo

da minha voz….

 

— É preciso salvar a fé,

Diz o tratante opressor…

 

Eu ainda sou poeta

e canto nas matas

a grandeza da fé — a Liberdade…

Minhas amadas cantam comigo,

 

meus irmãos

batem com as mãos,

acompanhando o ritmo

da minha voz….

 

Saravá! Saravá!

 

Repete-se o canto

do livramento,

já ninguém segura

os meus braços…

Agora sou poeta,

meus irmãos vêm ter comigo,

eu trabalho,

eu planto,

eu construo

meus irmãos vêm ter comigo…

 

Minhas amadas me cercam,

sinto o cheiro do seu corpo,

e cantos místicos

sublimam meu espírito!

Minhas amadas dançam,

despertando o desejo em meus irmãos,

somos todos libertos,

podemos amar!

Entre as palmeiras nascem

os frutos do amor

dos meus irmãos,

nos alimentamos do fruto da terra,

nenhum homem explora outro homem…

 

E agora ouvimos um grito de guerra,

ao longe divisamos

as tochas acesas,

é a civilização sanguinária

que se aproxima.

 

Mas não mataram

meu poema.

Mais forte que todas as forças

é a Liberdade…

O opressor não pôde fechar minha boca,

nem maltratar meu corpo,

meu poema

é cantado através dos séculos,

minha musa

esclarece as consciências,

 

Zumbi foi redimido…

 

***

 

CONGO

 

Pingo de chuva,

Que pinga,

Que pinga,

Pinga de leve

No meu coração.

Pingo de chuva

Tu lembras a canção,

Que um preto cansado,

Cantou para mim,

Pingo de chuva,

A canção é assim.

 

Congo meu congo

Aonde nasci

Jamais voltarei

Disto bem sei

Congo meu congo

Aonde nasci…

 

***

 

NAVIO NEGREIRO

 

Lá vem o navio negreiro

Lá vem ele sobre o mar

Lá vem o navio negreiro

Vamos minha gente olhar…

 

Lá vem o navio negreiro

Por água brasiliana

Lá vem o navio negreiro

Trazendo carga humana…

 

Lá vem o navio negreiro

Cheio de melancolia

Lá vem o navio negreiro

Cheinho de poesia…

 

Lá vem o navio negreiro

Com carga de resistência

Lá vem o navio negreiro

 

Cheinho de inteligência…

 

***

 

NEGROS

 

Negros que escravizam

E vendem negros na África

Não são meus irmãos

 

Negros senhores na América

A serviço do capital

Não são meus irmãos

 

Negros opressores

Em qualquer parte do mundo

Não são meus irmãos

 

Só os negros oprimidos

Escravizados

Em luta por liberdade

São meus irmãos

 

Para estes tenho um poema

Grande como o Nilo

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