o Brasil revisto pela África

 

Entrevista Mia Couto: o Brasil nos enganou

por Luís Antônio Giron

Mia Couto, um dos conferencistas mais aplaudidos nas sete edições do Fronteiras do Pensamento volta para o oitavo ano do seminário, desta vez em São Paulo. No canal do Fronteiras no YouTube, o romancista conseguiu o mesmo feito, alcançando, em pouco tempo, dois ícones da filosofia, Zygmunt Bauman e Edgar Morin.

O fenômeno Mia Couto lota teatros, feiras de livros e feeds nas mídias sociais. Sua poesia repleta de insights em conteúdo e forma aparece com frequência nos maiores veículos do país, como é o caso desta entrevista para a Revista Época, em que fala sobre a ligação entre África e Brasil, o que pensa da política e, como não poderia deixar de ser, literatura. Leia abaixo e, ao final do texto, assista ao mais recente vídeo publicado pelo Fronteiras com Mia Couto, Pelo reencantamento do mundo.

O moçambicano Mia Couto, de 58 anos, é atualmente um dos escritores mais notáveis e produtivos da língua portuguesa. Sua obra – 27 títulos entre romances e coletâneas de poemas e ensaios – é considerada um patrimônio da lusofonia. Sua influência é tanta que alguns de seus livros são adotados e discutidos nas escolas brasileiras, ao passo que nenhum autor brasileiro, atual ou não, é estudado na África.

António Emílio Leite Couto é um cidadão pacato. “Sossegado demais”, diz, “o que me permite observar os outros.” Filho de portugueses emigrados, seu pai, Fernando Couto, era poeta. Mia trabalhou como jornalista e professor de biologia. Foi militante de esquerda e participou da luta pela independência moçambicana. É casado e pai de três filhos. A mais nova, Rita, de 23 anos, estuda teatro em São Paulo. Ele costuma vir ao Brasil para participar de feiras literárias, encontro com alunos do ensino médio e proferir conferências, como a que dará em setembro no simpósio Fronteiras do Pensamento.

Revista Época: Como está a situação das antigas colônias portuguesas na África?
Mia Couto:
Uma coisa é a independência, e outra a descolonização. A descolonização do pensamento ainda não ocorreu. Olhamos para a África com valores europeus. É preciso uma ruptura para mudar a situação. Outro fator é a manutenção da estrutura política e administrativa que herdamos do passado e reproduzimos hoje. A descolonização tem de ser feita pelos próprios africanos. Tanto em Moçambique como em Angola, temos necessidade de criar um pensamento próprio, produtivo e moderno, que ultrapasse a folclorização que a própria África produz para si. Como resolver as falsas dicotomias entre tradição e modernidade? Não existe vontade de fazer isso por parte das elites, em nenhum país africano.

Revista Época: O Brasil foi um modelo para os países luso-africanos. Ele continua a ser inspirador?
Mia Couto:
O Brasil foi um modelo pela via da mistificação. O Brasil nos enganou. Recordo-me quando os primeiros jogadores de futebol negros brasileiros se impuseram ao mundo. Nós, na África, vimos aquilo como nosso futuro, a realização de um sonho: Pelé, Garrincha. Mas não era claro para todos que aquilo era a parte visível de um mundo extremamente racista. A celebração da alegria do Carnaval, a celebração do corpo negro como paradigma da beleza, foi sempre valorizada por nós. Mas víamos um Brasil que não existia. Isso se mantém até hoje. Porque vemos o Brasil com o orgulho de quem vê um membro de nossa família estar à frente, como uma das potências econômicas mundiais. Mas não percebemos as contradições internas que esse sistema tem. Todos precisamos ter um parente rico.

Revista Época: Carnaval, música e futebol são verdadeiros, não?
Mia Couto:
Sim. Só que o Brasil não é só isso. A falsificação que criamos em torno do Brasil era uma forma positiva de pensar um modelo do que poderíamos ser. Antes mesmo do Brasil, os países africanos vizinhos que conquistaram a independência nos fascinaram mais. Tanzânia, Zâmbia e Uganda foram motores de nossos sonhos.

Revista Época: O senhor continua a atuar na política?
Mia Couto:
O empenho é o mesmo. Mas não tenho partido nem milito numa organização. Faço o trabalho cívico, colaboro com as organizações da sociedade civil, com os partidos políticos naquilo que eles fazem de positivo. Tenho uma intervenção pública pelos jornais e conferências. Mantenho a veia jornalística. Sou um homem de esquerda, se é que essa palavra tem algum sentido hoje. Mantenho os princípios que me fizeram aderir ao movimento revolucionário. Não sou marxista, porque o marxismo simplificou a visão de mundo. O marxismo foi adulterado. Não é o caminho.  Sou um homem profundamente crítico em relação a esse sistema que se tornou global.

Revista Época: O senhor quer dizer o sistema capitalista?
Mia Couto:
Olhe como as coisas mudaram. A gente não sabe mais dar nomes às coisas. Foi intencional. Hoje temos medo de dizer que o sistema em que vivemos é o sistema capitalista. Chamamos isso de globalização etc. Receamos usar palavras que só serviam para um mundo bipolar. Hoje é pecado pronunciar a palavra “capitalismo”. O capitalismo é tão guloso que engoliu seu próprio nome. Ele tem uma capacidade enorme de se travestir.

Revista Época: Há uma tendência a subestimar o conhecimento produzido na África, pois a África produz mais crenças que filosofia. Isso é preconceito?
Mia Couto:
É uma redução. Acredita-se que a contribuição africana se dá no domínio do mágico e das práticas rituais. Mas esse tipo de pensamento tem um sistema. É um modo de entender o mundo, global e total. No caso da África, ou das várias Áfricas, há uma forma de ver o mundo que me fez crescer como pessoa: a forma de entender a morte. Aprendi a necessidade de estar em harmonia com os mortos, porque eles nunca morrem, estão presentes no mundo. Também há uma relação diferente com a natureza. Na África, existe um entendimento holístico do mundo, e não há uma palavra para diferenciar a natureza do resto. A ciência procura isso, por via do entendimento da ecologia, das interações entre os componentes vivos e não vivos.

Revista Época: Como o pensamento “selvagem” poderia ser incorporado à civilização?
Mia Couto:
Hoje, apesar de tudo, até porque a economia de mercado incorporou isso, há um olhar mais aberto para os outros. Você observa que os padrões de beleza mudaram. As pessoas hoje aceitam como belo aquilo que antes, há 30 ou 40 anos, era excluído. Hoje desfilam nas passarelas da moda figurinos que vêm da África, da China, da Índia. Isso é um sinal de alguma coisa que se altera dentro da fortaleza, antes feita de uma só voz e uma só história.
Revista Época: Como a literatura lusófona africana se transformou nos últimos anos?
Mia Couto:
Houve uma evolução. Hoje temos nossa produção editorial – cinco editoras – bem instalada. As livrarias se disseminam em muitas cidades. A escola adotou os escritores nacionais. A África lusófona está à frente da África de línguas inglesa e francesa. No Zimbábue e na África do Sul, as escolas ensinam só autores ingleses. No caso de Angola, os escritores nacionais são colocados em primeiro plano, desde a escola primária. Isso cria uma relação de intimidade que ajuda a literatura. E isso começa com a escola.

Revista Época: O que o senhor acha de sua obra ser adotada nas escolas brasileiras?
Mia Couto:
O Brasil alterou sua relação literária com a África. Vou a escolas aqui. É curioso ver como um menino do Brasil hoje lê uma coisa que foi escrita nos anos 1980 em Moçambique. As perguntas que os estudantes brasileiros me fazem não são só de escola. Só temo que eu seja imposto como uma chatice escolar. O importante é ter uma relação de prazer com a leitura. Pena que não há um único autor brasileiro, vivo ou morto, adotado nas escolas africanas.

Revista Época: O senhor acompanha a literatura brasileira atual?
Mia Couto:
A literatura brasileira não chega mais à África. É estranhíssimo, porque chegava lá bem há uns 30 anos. Trocávamos mais literatura e música no tempo de nossas respectivas ditaduras do que fazemos agora. Porque agora nos deixamos levar pelo mercado, e o mercado não está interessado em que haja essas trocas. O que conheço da literatura brasileira é por meu esforço.

Revista Época: De onde o senhor tira suas histórias?
Mia Couto:
Tiro de conversas com as pessoas. Isso vem da capacidade de escutar os outros. Há sempre uma história oculta. É um exercício que faço desde menino. Me sentava diante da casa, e meus pais me chamavam de muito devagar. Eu era muito sossegado. Dessa forma, observava os outros. Contar história é uma coisa que parte do não saber. É uma ignorância intencional. Ela me torna disponível para escutar as vozes dos personagens.

Revista Época: Por que o senhor escreve?
Mia Couto:
Para responder a essa pergunta, sempre crio uma razão diferente, pois não existe uma razão para escrever. A escrita não é uma função nem uma missão. Escrevo para ser feliz. A poeta portuguesa Sophia de Mello Brayner contava histórias para que seus filhos doentes adormecessem. Escrevo para adormecer o mundo que me parece doente. E assim invento histórias.

MIA COUTO | Pelo reencantamento do mundo

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FONTE: Fronteiras do Pensamento

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raça, capitalismo & globalização: articulações estratégicas

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BALIBAR, Etiénne, WALLERSTEIN, Immanuel. Raza, nación y clase. Madrid: Iepala, 1991.


Nesta coletânea de ensaios, dois dos mais importantes teóricos marxistas contemporâneos discutem os variados fatores que, ao se entrelaçarem historicamente, tornaram os sistemas discriminatórios de raça e gênero em dispositivos centrais para a construção e expansão das sociedades capitalistas. Destacadamente no capítulo “A forma nação: história e ideologia”, o filósofo francês Etiénne Balibar reproblematiza as condições de surgimento das identificações e comunidades nacionais, buscando compreendê-las como expressões de “etnicidades fictícias” configuradas a partir de processos de estratificação linguística e de ressignificação racial de conflitos sócio-culturais. Em seu conjunto, uma obra que oferece densos aportes para a crítica às  contradições que agudamente transpassam a modernidade eurocêntrica e seus projetos humanistas, sobretudo nos âmbitos do reconhecimento e convívio com as diferenças.   

alguns clássicos da poesia negra brasileira

 

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COLINA, Paulo. Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira. São Paulo: Global, 1982.

NEGRO FORRO
[Adão Ventura]

minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.

minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.

***

SOU
[Oliveira Silveira]

Sou a palavra cacimba
pra sede de todo mundo
e tenho assim minha alma:
água limpa e céu no fundo.

Já fui remo, fui enxada
e pedra de construção;
trilho de estrada-de-ferro,
lavoura, semente, grão.

Já fui a palavra canga,
sou hoje a palavra basta.
E vou refugando a manga
num atropelo de aspa.

Meu canto é faca de charque
voltada contra o feitor,
dizendo que minha carne
não é de nenhum senhor.

Sou o samba das escolas
em todos os carnavais.
Sou o samba da cidade
e lá dos confins rurais.

Sou quicumbi e moçambique
no compasso do tambor.
Sou um toque de batuque
em casa gege-nagô.

Sou a bombacha de santo,
sou o churrasco de Ogum.
Entre os filhos desta terra
naturalmente sou um.

Sou o trabalho e a luta,
suor e sangue de quem
nas entranhas desta terra
nutre raízes também.

***

REFLEXÃO
[Abelardo Rodrigues]

O poema reflete
principalmente no escuro
E quando reflete, insone,
apetrecha o movimento
da luz.

Não a luz que nasce
a cada dia
em qualquer poente.
Não a luz feita
sob o canhão e o crucifixo
Não a luz dos seis dias…

mas aquela
de Totens
de Olorum.

VAGA-LUME
[Abelardo Rodrigues]

A noite
— pálida Noite —
são nossos traços
negando fogo.
São gritos de arcanjos
descabelados
violados por Orixás.
Ah Noite!
trago-te oferendas
de palavras
das quais se cantará a vida
dos tombadilhos de América.

***

NEGRITUDE
[Geni Guimarães]

Ouço o eco gemendo,
Os gritos de dor,
Dos navios negreiros.
Ouço o meu irmão,
Agonizando a fala,
Lamentando a carne
Pisada,
Massacrada,
Corrompida.

Sinto a dor humilhante,
Do pudor sequestrado,
Do brio sem arbítrio,
Ao longe atirado,
Morto e engavetado,
Na distância do tempo.
Dói-me a dor do negro,
Nas patas do cavalo,
Dói-me a dor dos cavalos.

Arde-me o sexo ultrajado
Da negra cativa,
Usada no tronco,
Quebrada e inservida,
Sem prazer de sentir,
Sem desejos de vida,
Sem sorrisos de amor,
Sem carícias sentidas,
Nos seus catorze anos de terra.

Dói-me o feto imposto ao negro útero virgem.

Dói-me a falta de registro,
do negro nunca visto
Além das senzalas,
No comer no cocho,
No comer do nada.
Sangra-me o corte na pele,
Em abertas feridas,
De dores doídas,
No estalo da chibata.

Dói-me o nu do negrinho
Indefeso escravozinho,
Sem saber de razões.
Dói-me o olho esbugalhado,
No rosto suado,
No medo cravado,
No peito do menino.
Dói-me tudo e sobre tudo,
O imporque do fato.

Meus pêsames sinceros à mentira
multicolor da princesa Isabel.

Mas contudo,
Além de tudo
E muito mais por tudo,
Restou-me invulnerável,
Um imutável bem:
Ultrajadas as raízes,
Negados os direitos,
Ninguém roubou-me o lacre da pele.
Nenhum senhor. Ninguém!

***

 

o negro em versos

SANTOS, Luiz Carlos; GALAS, Maria; TAVARES, Ulisses. Antologia da poesia negra brasileira: o negro em versos. São Paulo: Salamandra, 2005.

OFERENDA
[Oswaldo de Camargo]

Que farei do meu reino: um terreno
no peito
onde pensei pôr minh’África,
a dos meus avós, a do meu povo de lá e que me deixam
tão sozinho?
Como sonhei falar minha mamãe África,
oferecer-lhe, em meu peito, nesta noite turva,
os meus pertences de vento, sombra e relembrança,
o meu nascimento, a minha
história e o meu tropeço
que ela não sabe, nem viu e eu sendo filho dela!
— Oh, mamãe, as minhas fraldas estão sujas de brancor
e ele cheira tanto!
Às vezes penso, em minha solidão, na noite turva,
que você me está me chamando com o tambor do vento.
Abro a janela, olho a cidade, as luzes me trepidam
e eu perco o condão de te achar
entre estes odores vários
e tanta dor de gente branca, preta, variada
gama e tessitura de almas, ânsias, medo!
Como sonhei falar, sozinho, à minha mamãe África,
e oferecer-lhe, em meu peito, nesta noite turva,
os meus presentes de vento, sombra e relembrança,
o meu nascimento, a minha história, o meu tropeço
que ela não sabe, nem viu e eu sendo filho dela!

***

ENCONTREI MINHAS ORIGENS
[Oliveira Silveira]

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
cantos
em furiosos tambores
ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

***

INTEGRIDADE
[Geni Mariano Guimarães]

Ser negra,
Na integridade
Calma e morna dos dias.
Ser negra,
De carapinhas,
De dorso brilhante,
De pés soltos nos caminhos.

Ser negra,
De negras mãos,
De negras mamas,
De negra alma.

Ser negra,
Nos traços,
Nos passos,
Na sensibilidade negra.

Ser negra,
Do verso e reverso,
Do choro e riso,
De verdades e mentiras,
Como todos os seres que habitam a terra.

Negra
Puro afro sangue negro,
Saindo aos jorros
Por todos os poros.

***

PONTO HISTÓRICO
[Éle Semog]

Não é que eu
seja racista…
Mas existem certas
coisas
que só os NEGROS
entendem.
Existe um tipo de amor
que só os NEGROS
possuem,
existe uma marca no
peito
que só nos NEGROS
se vê,
existe um sol
cansativo
que só os NEGROS
resistem.
Não é que eu
seja racista…
Mas existe uma
história
que só os NEGROS
sabem contar
… que poucos podem
entender.

***

DESLIMITES 10
[Salgado Maranhão]

(táxi blues)

eu sou o que mataram
e não morreu,
o que dança sobre os cactos
e a pedra bruta
— eu sou a luta.

O que há sido entregue aos urubus,
e de blues
         em
blues
endominga as quartas-feiras
— eu sou a luz
sob a sujeira.

(noite que adentra a noite e encerra
os séculos,
farrapos das minhas etnias,
artérias inundadas de arquétipos)

eu sou ferro, eu sou a forra.

E fogo milenar desta caldeira
elevo meu imenso pau de ébano
obelisco às estrelas.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

leito de terra negra
sob a água branca,
sou a lança
a arca do destino sobre os búzios.

e de blues a urublues
ouça a moenda
dos novos senhores de escravos
com suas fezes de ouro
com seus corações de escarro.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

eu sou a luz em seu rito de sombras
— esse intocável brilho

***

EBULIÇÃO DA ESCRAVATURA
[Luís Carlos de Oliveira]

A área de serviço é senzala moderna,
Tem preta eclética, que sabe ler “start”;
“Playground” era o terreiro a varrer.

Navio negreiro assemelha-se ao ônibus cheio,
Pelo cheiro vai assim até o fim-de-linha;
Não entra no novo quilombo da favela.

Capitão-do-mato virou cabo de polícia,
Seu cavalo tem giroflex (radiopatrulha).
“Os ferros”, inoxidáveis algemas.

Ração poder ser o salário-mímino,
Alforria só com a aposenadoria
(Lei dos sexagenários).

“Sinhô” hoje é empresário,
A casa-grande verticalizou-se,
O pilão está computadorizado.
Na última página são “flagrados” (foto digital)
Em cuecas, segurando a bolsa e a automática:
Matinal pelourinho.

A princesa Áurea canta,
Pastoreia suas flores.
O rei faz viaduto com seu codinome.

— Quantos negros?  Quanto furor?
Tantos tambores… tantas cores…
O que comparar com cada batida no tambor?
________

“A escravatura não foi abolida; foi distribuída
entre os pobres”.

***

GENEGRO
[Miriam Alves]

Gemido de negro
Não é poema
é revolta
é xingamento
É abismar-se

Gemido de negro
é pedrada na fronte de quem espia e ri
É pau de guatambu no lombo de quem mandou
dar

Gemido de negro
é acampamento de sem-terra no cerrado
É punho que se fecha em black power

Gemido de negro
é insulto
é palavrão ecoado na senzala
É o motim a morte do capitão

Gemido de negro
é a (re)volta da nau para o Nilo

Gemido de negro…
Quem tá gemendo?

a modelização do corpo branco & seus efeitos na construção das subjetividades de crianças negras: um vídeo impactante

 

lapis de cor yt

Documentário de estudante da UFRB estréia no canal Futura

O documentário “Lápis de Cor” de direção de Larissa Santos, estudante do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, estreou na última terça-feira, 22 de abril, no programa Sala de Notícias do canal Futura. O filme, que aborda a representação racial no universo infantil, foi produzido com apoio do edital de curtas universitários do canal.

Com duração de aproximadamente 13 minutos, o curta mostra principalmente a maneira como crianças negras são afetadas pelo padrão de beleza eurocêntrico, revelando a ação silenciosa do racismo na infância. Larissa Santos, que também integra o movimento de cinema negro “Tela Preta”, diz que o projeto proporciona às crianças uma reflexão sobre as questões raciais na infância.

Segundo a diretora, o filme foi pensado a partir da disciplina Documentário II, com orientação da professora Amaranta César. O título “Lápis de cor” nasceu a partir da ideia da diversidade de cores, fazendo referência ao lápis conhecido como “cor de pele” que é de tonalidade bege. “Essa é a cor que as crianças utilizam para se representar e também as pessoas do seu convívio, mesmo quando as pessoas a serem representadas são negras”, destaca a estudante.

Além de crianças, o filme também tem adultos como público-alvo, pois, segundo a autora, eles são uns dos principais responsáveis pela afirmação, aceitação e autovalorização das crianças negras. O documentário também tem o objetivo de ser parte de um projeto de material pedagógico, que, de acordo com Larissa, vai além da linguagem audiovisual, fortalecendo a lei nº 10.639 nas escolas. Esta lei estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas instituições de ensino para alunos do ensino fundamental e médio.

Assista o filme na página do Canal Futura no YouTube (clique na imagem). Mais informações na página do filme no Facebook.

FONTE: Agência de Notícias UFRB