o poema seminal da Negritude em sua voz brasileira: alguns fragmentos

cahier edição velha

Transcrito da edição lançada em 2012 pela Edusp, com tradução de Lilian Pestre de Almeida.


DIÁRIO DE UM RETORNO AO PAÍS NATAL

Aimé Césaire

1.

            No fim da madrugada…

            Fora, dizia-lhe eu, seu tira, seu canalha, fora. Detesto os lacaios da ordem e os besouros da esperança. Fora, amuleto ruim, percevejo de frade. Depois eu me voltava para os paraísos — perdidos para ele e todos os seus, mais calmo do que a face de uma mulher que mente, e aí, embalado pelos eflúvios de um sonhar nunca lasso, eu nutria o vento, soltava os monstros e ouvia subir para além do desastre um rio de rolinhas e de trevos da savana que carrego sempre nas minhas profundezas a uma altura inversa à do vigésimo andar dos edifícios mais insolentes e por precaução contra a força putrefadora dos ambientes crepusculares, varrida noite e dia por um maldito sol venéreo.

            

2.

            No fim da madrugada, florescentes de enseadas tenras, as Antilhas que têm fome, as Antilhas marcadas pela varíola, as Antilhas dinamitadas pelo álcool, encalhadas na lama dessa baía, na poeira dessa cidade sinistramente encalhadas.

 

(…)

 

7.

            No fim da madrugada, essa cidade achatada – exposta…

 

8.

            E nessa cidade inerte, essa multidão barulhenta passando tão espantosamente ao lado do seu grito como essa cidade ao lado do seu movimento, do seu sentido, sem inquietação, ao lado do seu verdadeiro grito, o único que desejaríamos ouvi-la gritar porque só ele sentimos que é seu; porque sentimos que a habita em algum fundo refúgio de sombra e de orgulho, nessa cidade inerte, essa multidão ao lado do seu grito de fome, miséria, revolta, ódio, essa multidão tão estranhamente tagarela e muda.

 

9.

            Nessa cidade inerte, essa estranha multidão que não se junta, não se mistura: hábil em descobrir o ponto de desengate, de fuga, de esquivança. Essa multidão que não sabe ser multidão, essa multidão, percebe-se, tão perfeitamente só sob esse sol como uma mulher toda, crer-se-ia, entregue à sua cadência lírica, interpela bruscamente uma chuva hipotética e ordena-lhe que não caia; ou como um rápido sinal da cruz sem causa visível; ou como a animalidade subitamente grave de uma camponesa, urinando de pé, as pernas afastadas, tesas.

 

(…)

 

11.

            No fim da madrugada, essa cidade inerte e seus mais-além de lepras, consunção, fomes, medos amontoados e suas fumarolas de angústia.

 

12.

            No fim da madrugada, o morro esquecido, esquecendo-se de explodir

(…)

 

15.

            No fim da madrugada, o morro agachado diante da bulimia à espreita de raios e de moinhos, lentamente vomitando suas fadigas de homens, o morro só e seu sangue derramado, o morro e seus pensos de sombra, o morro e suas valetas de medo, o morro e suas grandes mãos de vento   

 

(…)

 

34.

Partir.

Como há homens-hienas e homens-panteras, eu seria um homem-judeu

um homem-cafre

um homem-hindu-de-Calcutá

um homem de Harlem-que-não-vota

 

35.

o homem-fome, o homem-insulto, o homem-tortura que se pode a qualquer momento agarrar, espancar, matar – perfeitamente matar – sem ter que prestar contas a ninguém sem ter que pedir desculpas a ninguém

 

36.

um homem-judeu

um homem-pogrom

um cachorro

um pobretão

 

(…)

 

42.

No fim da madrugada,

a máscula sede e o teimoso desejo,

eis-me separado dos frescos oásis da fraternidade

esse nada pudico se eriça de farpas duras

esse horizonte por demais seguro estremece como um carcereiro.

 

43.

Teu último triunfo, corvo tenaz da Traição.

O que é meu, esses vários milhares de mortiferados que giram em torno da cabaça de uma ilha, e o que é meu também, o arquipélago arqueado como o desejo inquieto de negar-se, dir-se-ia uma ânsia materna de proteger a tenuidade tão delicada que separa uma da outra América; e seus flancos que destilam para a Europa o bom licor de um Gulf Stream, e uma das duas vertentes de incandescências entre as quais o Equador funambula em direção à África. E minha ilha não-fechada, sua clara audácia de pé na popa dessa polinésia diante dela, Guadalupe fendida em duas por sua linha dorsal e de igual miséria à nossa, Haiti onde a negritude se pôs de pé pela primeira vez e disse que acreditava na sua humanidade e a cômica pequena cauda da Flórida onde de um negro se consuma o estrangulamento e a África gigantescamente arrastando-se até o pé hispânico da Europa, sua nudez em que a Morte ceifa com movimentos largos.

 

44.

            E eu me digo Bordéus e Nantes e Liverpool

e Nova Iorque e São Francisco

não há nem um pedaço desse mundo que não tenha minha impressão digital

e meu calcâneo sobre o dorso dos arranha-céus e minha sujeira

no cintilar das gemas!

Quem pode gabar-se de ter mais do que eu?

Virgínia. Tennessee. Geórgia. Alabama.

Putrefações monstruosas de revoltas inoperantes,

pântanos pútridos de sangue

trombetas absurdamente abafadas

Terras rubras, terras sanguíneas, terras consanguíneas.

 

45.

            O que é meu também: uma pequena cela no Jura

uma pequena cela, a neve recobre-a de grades brancas

a neve é um carcereiro branco que monta guarda diante de uma prisão

 

46.

O que é meu

um homem só prisioneiro de branco

um homem só que desafia os gritos brancos da morte branca

(TOUSSAINT, TOUSSAINT LOUVERTURE)

um homem só que fascina o gavião branco da morte branca

um homem só no mar infecundo da areia branca

um preto velho erguido contra as águas do céu

A morte descreve um círculo brilhante acima desse homem

a morte estrela docemente acima de sua cabeça

a morte sopra, louca, no canavial maduro de seus braços

a morte galopa na prisão como cavalo branco

a morte reluz na sombra como olhos de gato

a morte soluça como água sob o cais

a morte é um pássaro ferido

a morte diminui

a morte vacila

a morte é um porco-do-mato sombrio

a morte expira numa branca poça de silêncio

 

(…)

 

115.

            Tépida madrugada de calores e de medos ancestrais

ao mar minhas riquezas peregrinas

ao mar minhas falsidades autênticas

 

116.

Mas que estranho orgulho de repente me ilumina?

 

117.

venha o colibri

venha o gavião

venha a quebra do horizonte

venha o cinocéfalo

venha o lótus que sustenta o mundo

venha de delfins uma insurreição perolina quebrando a concha do mar

venha um mergulho de ilhas

venha a desaparição dos dias de carne morta na cal virgem dos rapaces

venham os ovários da água onde o futuro agita suas pequeninas cabeças

venham os lobos que pastam nos orifícios selvagens do corpo na hora em que no albergue eclíptico se encontram minha lua e teu sol

 

118.

há sob a reserva da minha úvula um covil de javalis

há teus olhos que são sob a pedra cinzenta do dia um conglomerado fremente de joaninhas

 

119.

há no olhar da desordem essa andorinha de menta e de giesta que se funde para renascer sempre na maré da tua luz

(Acalma e embala, ó minha palavra, a criança que não sabe ainda que o mapa da primavera está sempre por refazer)

as ervas balançarão para o rebanho doce nave da esperança

o longo gesto de álcool da vaga

as estrelas com o engaste do seu anel nunca visto

cortarão os tubos de órgão de vidro da note

depois espalharão sobre a extremidade rica do meu cansaço

zínias

coriantos

e tu, ó astro, de teu luminoso fundamento tira lemuriano do esperma insondável do homem

a forma não ousada

que o ventre tremente da mulher carrega como um minério!

 

(…)

 

120.

ó luz amiga

ó fresca fonte de luz

os que não inventaram nem a pólvora nem a bússola

os que nunca souberam domar o vapor nem a eletricidade

os que não exploraram nem os mares nem o céu

mas aqueles sem os quais a terra não seria a terra

gibosidade tanto mais benfazeja quanto mais a terra deserta

a terra

silo onde se preserva e amadurece o que a terra tem de mais terra

minha negritude não é uma pedra, sua surdez lançada contra o clamor do dia

minha negritude não é uma mancha de água morta sobre o olho morto da terra

minha negritude não é uma torre nem uma catedral

 

121.

ela mergulha na carne rubra do solo

ela mergulha na carne ardente do céu

ela perfura o abatimento opaco com sua reta paciência.

 

122.

Eia para o Kailcedrat real!

Eia para os que nunca inventaram nada

para os que nunca exploraram nada

para os que nunca dominaram nada

 

123.

mas se abandonam, por inteiro, à essência de todas as coisas

ignorantes das superfícies mas entregues ao movimento de todas as coisas

despreocupados de domar, mas jogando o jogo do mundo

 

(…)

 

168.

Eu digo hurra! A velha negritude

progressivamente se cadaveriza

o horizonte se desfaz, se retira e se alarga

e eis entre os rasgões de nuvens a fulgurância de um signo

 

(…)

 

172.

A negrada que cheira a cebola frita reencontra no seu sangue

derramado o gosto amargo da liberdade

 

173.

E está de pé a negrada

 

174.

a negrada arriada

inesperadamente de pé

de pé no porão

de pé nas cabines

de pé na ponte

de pé ao vento

de pé sob o sol

de pé no sangue

      de pé

              e

                 livre

de pé e não pobre louca na sua liberdade e seu despojamento

marítimos girando na deriva perfeita

ei-la:

mais inesperadamente de pé

de pé nos cordames

de pé junto à barra

de pé junto à bússola

de pé diante do mapa

de pé sob as estrelas

 

(…)

 

178.

escutai cão branco do norte, serpente negra do sul

que completai o cinturão do céu

ainda há um mar a atravessar

oh ainda um mar atravessar

para que eu invente meus pulmões

para que o príncipe se cale

para que a rainha me beije

ainda um ancião a assassinar

um louco a libertar

para que minha alma reluza uive reluza

uive uive uive

e que pie a coruja meu belo anjo curioso.

O senhor dos risos?

O senhor do silêncio formidável?

O senhor da esperança e da desesperança?

O senhor da preguiça? O senhor das danças?

         Sou eu!

 

179.

e para isso, Senhor

os homens do pescoço frágil

recebe e percebe fatal calma triangular

 

180.

e a mim minhas danças

minhas danças de negro ruim

a mim minhas danças

a dança quebra-golilha

a dança pula-prisão

a dança é-bom-e-belo-e-legítimo-ser-negro

A mim as minhas danças e pule o sol sobre a raqueta das minhas mãos

mas não, o desigual sol já não me basta

enrola-te, vento, em torno do meu crescimento

põe-te sobre meus dedos medidos

abandono-te a minha consciência e seu ritmo de carne

abandono-te os fogos onde arde minha fraqueza

abandono-te os grilhões

abandono-te o pântano

abandono-te o turismo do circuito triangular

devora vento

abandono-te minhas palavras abruptas

devora e enrola-te

e enrolando-te enlaça-me num mais vasto frêmito

enlaça-me até o nós furiosos

enlaça, enlaça-NOS

mas nos tendo igualmente mordido

até o sangue do nosso sangue mordido!

enlaça, minha pureza não se liga senão à tua pureza

mas então enlaça

como a mata cerrada de filaos

a noite

nossas multicolores purezas

e une, une-me sem remorso

une-me com teus vastos braços à argila luminosa

une minha negra vibração ao próprio umbigo do mundo

une, une-me, fraternidade áspera

depois, estrangulando-me com teu laço de estrelas

sobe, Pomba

sobe

sobe

sobe

Eu te sigo, impressa na minha ancestral córnea branca,

sobe lambedor do céu

e o grande buraco negro onde eu queria me afogar na outra lua

é lá que quero pescar agora a língua maléfica da noite na sua imóvel verrição!

 


In: CÉSAIRE, Aimé. Diário de um retorno ao país natal. Tradução, posfácio e notas de Lilian Pestre de Almeida. São Paulo: EdUSP, 2012. (edição bilíngue).

diario cesaire capa (2)

conhecendo melhor a ‘négritude’ de Leopold Senghor

Além da excelente aula ministrada pelo poeta Leonardo Gonçalves, muito recomendáveis, também, para abordagens panorâmicas acerca dos aspectos literários da négritude são a resenha Leopold Sedar Senghor e a negritude, de Waldir Freitas Oliveira e o ensaio metacrítico De como os lamantins vão haurir na fonte, composto pelo próprio poeta senegalês para explicar as balizas estéticas que o orientavam e, em reapropriações diversificadas, a muitos dos principais poetas negritudinistas. Na sequência do ensaio incluem-se dois poemas de Senghor, completando a pequena antologia de sua obra que se inicia nos recortes abaixo (traduções de Gastão Gomes).