atualidade do cinema afro-luso-brasileiro: algumas indicações

 

TOP 10: Filmes da Lusofonia em 2014

LUÍSA FRESTA

No ano que, em Portugal, ficou marcado por duas estreias fundamentais (Os Gatos Não Têm Vertigens e Os Maias – Cenas da Vida Romântica), também nos restantes países do mundo lusófono assistimos a propostas de peso e de relevo, com profusão de documentários valiosíssimos e alguma ficção de (muita) qualidade. A sempiterna questão da escassez de financiamentos parece ser compensada por verdadeiro talento e uma resiliência a toda a prova. A arte é uma forma de resistência e de renascimento. O cinema traz-nos vida, cria vida e verosimilhança: quando tudo parece já ter sido inventado, surge um novo olhar que baralha os consensos cinzentos e redefine conceitos.

Quanto ao cinema de autor e ao cinema independente, que circula predominantemente em festivais, enfrenta inúmeras barreiras até tornar-se viável comercialmente e gerar um mínimo de receitas. Nollywood, a grande fábrica de filmes em vídeo da Nigéria, é um exemplo de visão e sucesso comercial nesta área e capta, desde há algum tempo, as atenções do Ocidente, e de festivais de referência como Cannes. Será esta a via? Talvez seja possível conciliar entretenimento de qualidade e cinema comercialmente viável.

Ousmane Sembène, o incontornável realizador senegalês, dizia : «Os políticos fazem cinema, nós fazemos filmes». Vamos tentar perceber de que matéria são feitos os filmes nos espaços geo-culturais em que vivemos, à luz das minhas escolhas, como sempre refutáveis, relativas aos filmes mais recentes.

Queremos um cinema plural e com vitalidade, que construa um bocadinho de futuro todos os dias. Nós, espectadores atentos, ansiamos por essa oportunidade de deslumbramento.

ACALANTO – Drama de Arturo Sabóia, 4 premiações no 4º Festival Curtas COREMAS (país: Brasil). Uma comovente interpretação cinematográfica do conto «A Carta» de Mia Couto. Um filho que parte de casa escreve uma única carta à sua mãe, uma velha senhora analfabeta; esta ampara-se na simpatia de um notário, que lhe lê vezes sem conta essa missiva de há anos atrás, acrescentando pormenores, recriando-a e fazendo reviver o filho desaparecido. Dessa relação construída nasce uma cumplicidade tocante, tão fundamental para um como para outro. Um diálogo feito de fantasia, ternura e silêncios. As performances dos veteranos Léa García e Luiz Carlos Vasconcelos acrescentam doçura e sobriedade a este drama tenso e intenso.

CAVALO DINHEIRO – Drama de Pedro Costa, Prémio Leopardo de Melhor Realizador, Festival de Lucarno (país: Portugal). Muita tinta tem corrido sobre esta obra que reúne consenso em torno da sua originalidade e qualidade. O emigrante cabo-verdiano Ventura, debilitado e envelhecido, conduz-nos a uma viagem aos infernos através dos seus delírios, registada pela câmara de Pedro Costa. O filme atravessa várias épocas, sugere um olhar introspectivo mas não exclui outras leituras, como ficou provado pela aceitação internacional do filme. É um filme belo, esplendoroso, que narra e simultaneamente liberta a imaginação. A medida do tempo é única e este escorre pelo personagem como se não pudesse ser compartimentado. O futuro mostrará que ciclo se termina, inicia ou se anuncia com Cavalo Dinheiro.

O GRANDE KILAPY- Comédia dramática de Zézé Gamboa, premiada no Festival Caminhos do Cinema Português (países implicados: Angola/ Portugal/ Brasil). A crónica de um bom malandro luandense, Joãozinho das Garotas, que driblou com o Estado Novo na década de 70 e viveu principescamente entre belas mulheres, automóveis de luxo e um curso que ia fazendo sem pressa, no Técnico, em Lisboa. Uma figura solidária como poucas, capaz de arriscar a própria vida, subsidiariamente engajado, não em nome de convicções mas apenas por amizade. Joãozinho ou Goldfinger terá sido também um burlão e amante descomplexado dos prazeres da vida sem questionamentos maiores, oscilando entre a frivolidade e um estilo inconfundível, unanimemente reconhecido. Zézé assina aqui a sua segunda longa, após O Herói, de 2004, um filme igualmente bem aceite pela crítica e pelo público.

OS GATOS NÃO TÊM VERTIGENS
– Drama de António Pedro Vasconcelos (país: Portugal). A minha tentação é dizer apenas: Maria do Céu Guerra. Para mim basta, incondicionalmente. Mas o grilo falante não nos dá tranquilidade e obriga-nos a ir um pouco mais longe; seria injusto não mencionar a magnífica prestação do resto do elenco e a vigorosa ousadia do argumento: uma viúva idosa que se envolve afectivamente com um rapaz, não é de todo cliché (pareceu-me ouvir esta crítica nalgum lado); tal situação, inabitual, é ainda alvo de um marcado e previsível preconceito, mesmo entre as camadas sociais ditas «esclarecidas», seja lá o que isso for em termos globais. Alvo de maledicência e chacota quase garantidas. Mas o mérito do filme não se resume a essa ligação amorosa, chamando também a atenção de forma contundente para o isolamento dos idosos e a delinquência juvenil, numa sociedade em que as pessoas se atravessam sem se verem.

OS MAIAS – CENAS DA VIDA ROMÂNTICA – Drama de João Botelho (país: Portugal). O cinema português ofereceu-nos este ano mais do que um motivo de orgulho, contando, neste filme, com um elenco prodigioso: Graciano Dias, Maria Flor, João Perry, Catarina Wallenstein e Rita Blanco, entre outros. Esta nova adaptação de Os Maias, romance fundamental de Eça de Queirós, consegue surpreender e propor um olhar fresco sobre a obra, apostando em cenários operáticos (à semelhança de outra obra literária adaptada com sucesso para o cinema em 2012, Anna Karenina, com a acção a desenrolar-se também no século XIX). O clássico romance transposto para o grande ecrã conta-nos o percurso trágico de Carlos da Maia, médico, que regressa a Lisboa no final do século XIX, para alegria do seu avô Afonso da Maia. Sempre rodeado de amigos e levando uma vida ociosa, Carlos acaba por apaixonar-se por uma misteriosa e esplêndida mulher construindo os alicerces do drama que o há-de consumir através de uma paixão arrebatadora e incestuosa. Diante dos nossos olhos desenha-se uma Lisboa que reencontramos na actualidade, sugerindo destinos e fatalidades de um país que, impregnado de tiques e incongruências, se descobre imerso em si mesmo.

IMPUNIDADES CRIMINOSAS
– Drama de Sol de Carvalho, segundo uma história original de Maria José Artur, premiado no FEStin 2014 (países implicados: Moçambique/ Portugal). Sara é uma reclusa, condenada pelo assassinato do marido, ao cabo de um longo historial de violência doméstica. Chiquinho Paixão, chefe de gangue local, reclama à viúva uma dívida contraída pelo seu marido e pretende forçá-la a casar-se consigo. Ela decide então evadir-se e refugiar-se na sua aldeia natal, tentando escapar a essa e outras perseguições. Neste thriller produzido com fundos próprios, Sara simboliza provavelmente as diversas formas de violência contra as mulheres numa atmosfera permanentemente tensa, e também uma certa ideia de redenção, ilustrada por uma resistência activa. Nunca é demais conferir visibilidade a esta temática (violência de género num contexto de violência social), e o cinema é um meio eficaz para o fazer. Neste caso com uma sobriedade e delicadeza dignos de nota, pois, como afirma o cineasta: «é no interior das pessoas, mais do que no corpo, que a violência se manifesta, magoa e perdura e é pelo interior que a libertação é possível».

IRMÃ DULCE –
Drama biográfico de Vicente Amorim (país: Brasil). A Irmã Dulce, conhecida por «Anjo Bom da Bahia», chegou a ser indicada para o Nobel da Paz. Uma figura solidária e caridosa que colocou em prática e deu sentido aos princípios cristãos, longe dos dogmas e dos rituais que se sobrepõem não poucas vezes à verdadeira essência dos valores éticos e morais nos quais se funda o nosso modelo social. A narração centra-se no período de 1940-1980 e desvenda um ser humano de uma coragem e coerência exemplares, que afrontou todo o tipo de obstáculos, até a indiferença e uma condição de saúde precária, para dedicar-se a cuidar dos mais carenciados. O seu legado perdura até aos dias hoje e esta é uma justa homenagem assim como um exercício de cidadania e de memória.

PECADO FATAL – Drama de Luís Diogo, premiado no 1º Festival de Cinema de S. Tomé e Príncipe (país: Portugal). A jovem Lila regressa a Paços de Ferreira para investigar as suas origens, uma vez que foi abandonada recém-nascida junto a um contentor do lixo. Nessa viagem iniciática conhece Nuno, por quem se apaixona. Mas este oculta um pecado fatal que poderá pôr em risco o envolvimento romântico. Note-se que apesar de ser a primeira longa-metragem de Luís Diogo, auto-financiada pelo cineasta e argumentista, e rodada com um orçamento muito reduzido, tem vindo a somar apreciações positivas da crítica e do público.

KORA
– Documentário de Jorge de Carvalho, premiado na 5ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cabo Verde (países implicados: Guiné Bissau/ Portugal). Descobri este belo testemunho através das Jornadas Europeias do Património de 2014, no Museu Nacional do Teatro. Entretanto o documentário tem feito um percurso invejável e merecido, viajando um pouco por todo o mundo. Jorge de Carvalho rodou-o na Guiné Bissau, onde, junto com o virtuoso Mestre Braima Galissá, registou com rigor e respeito o percurso e a história da kora, este mítico instrumento de cordas em torno do qual existe uma enorme sacralização, também usado noutros países da África Ocidental que reclamam igualmente a sua origem (Senegal e Gâmbia) e popularizado por outros músicos de renome da região (Toumani Diabaté ou Ballaké Sissoko, ambos do Mali, ou o senegalês Idrissa Diébaté). Braima Galissá é um intérprete e contador de histórias que nos proporcionou, em aditamento ao documentário, um mini-concerto ao vivo. E fico-me pela frase dos créditos finais: «Povo que canta os seus antepassados não morrerá».

TERRA TERRA – Documentário de Paola Zermar (país: Cabo Verde). Curta-metragem que pretende lançar um olhar original sobre as tradições da Ilha do Sal, conduzido pela italiana Paola Zermar, professora de Arte radicada no país há vários anos; conta com a participação de vários artistas locais e coordenação jornalística a cargo de Albertina Rodrigues. O filme foi produzido inteiramente em Cabo Verde. Uma festa para os sentidos, com brilho, cor, sabor e ritmo, e uma textura quase palpável. Mais um registo de interesse cultural público, dentro e fora do arquipélago.

No panorama do cinema lusófono, Portugal e Brasil hoje ocupam uma posição comparável à que França ocupa no cinema francófono, isto é, são muitas vezes o denominador comum de obras de diferentes géneros e latitudes. No entanto, não assumem, ao contrário de França, uma posição tão preponderante no financiamento, destacando-se sobretudo ao nível de know how, tanto no plano artístico como técnico.

FONTE: Cultura