autorias & obras que marcaram o contexto literário angolano no ano passado

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2014: Visão panorâmica do ano literário nacional

ISAQUIEL CORI

Luanda deixou de ter o “monopólio” dos lançamentos de livros, com alguns autores, sobretudo neófitos, a preferirem serem eles próprios a editar as suas obras e a lançá-las, em primeira mão, nas suas províncias de origem ou residência.

Com os lançamentos literários a ocorrerem nas várias cidades, um fenómeno propiciado, sobretudo, pela multiplicação das universidades regionais, tornou-se mais difícil acompanhar e avaliar globalmente a qualidade do que se publica.

Passamos a apresentar um resumo do que foi publicado em 2014, uma visão que há-de pecar, certamente, por não ser exaustiva, tanto pela impossibilidade de podermos captar toda a dinâmica do mercado livreiro nacional como pela limitação de espaço. Desde já pedimos desculpas pelas omissões.

O escritor Manuel Rui entregou ao público leitor, no dia 15 de Janeiro, o romance, “A Trança”, editado pela Mayamba. Como o autor sinalizou, o novo livro representa uma mudança de estilo e de abordagem da sua própria escrita. “Talvez ‘A Trança’ possa ser encarada como uma mudança de estilo, uma mudança de ideias. Mudar não é triste, nem é triste mudar de ideias. Triste é não ter ideias para mudar”. Na ocasião, a linguista Amélia Mingas diria que “A Trança” é, no fundo, o país que Manuel Rui tanto ama e que é um melting pot de saberes, de sabores, de ideias, pensamentos e criação próprias”.

Manuel Rui, pela mão da UEA deu a estampa, em Abril, o romance “A Bicha e a Fila”, escrito a quatro mãos com o escritor brasileiro Marco Guimarães. “O livro não é muito de humor, é mais chaplinesco. A comédia cruza sempre com a tragédia. […] Quando há tragédia a gente pode dançar, chorar e rir ao mesmo tempo”, explicou Manuel Rui. Ainda em Abril publicou “Quitandeiras e Aviões”, livro de contos.

Maria Celestina Fernandes lançou, com chancela da Plural Editores, a 28 de Janeiro, nos vinte e cinco anos da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, o livro “Lagoa Misteriosa”, vencedora ex-aequo do Prémio Caxinde do Conto Infantil relativo ao ano 2012. Segundo a autora, o conto foi idealizado a partir da visita que fez ao jardim Majorelle, na cidade marroquina de Marraquexe. “Saí de lá tão encantada que tive vontade de escrever alguma coisa”, disse, acrescentando que enquanto escrevia não lhe saía da cabeça “uma história que ouvi em tempos sobre o mito que gira à volta de uma das nossas lagoas, em que é preciso ter permissão dos mais velhos para mergulhar e passar por alguns rituais”.

No dia 5 de Fevereiro foi lançado no jango da UEA o volume com as 12 edições do boletim “Cultura” (segunda série) da Sociedade Cultural de Angola. O trabalho, resultado de uma pesquisa e selecção de Irene Guerra Marques e Carlos Ferreira, foi apresentado pelos escritores e sobreviventes da geração da Cultura, Henrique Guerra e Arnaldo Santos. O livro da dupla de pesquisadores contém igualmente a reprodução de um relatório exaustivo e analítico da PIDE, datado de 17 de Setembro de 1965, sobre o que considerava actividades subversivas da Sociedade Cultural de Angola e do seu jornal “Cultura”.

Ainda em Fevereiro Hendrik Vaal Neto deu de presente ao público os romances “Gamal” e “Makala”. Segundo Carmo Neto, que apresentou a obra, Gamal é um intenso diálogo com a miséria, “socorrendo-se duma linguagem simples” que conta “a história de Mutama, um nobre e tradicional chefe africano, criador de gado, caído em desgraça por culpa do mundo: um homem outrora rico, presenteado com a desgraça como herança (…)”. Já “Makala” é um retorno do autor ao cenário do Roque Santeiro, o antigo mercado de Luanda, tido como o “maior de África”.

“Esse motor da economia informal Luandense que alimentou milhares de famílias constitui o núcleo temático central da narrativa de Hendrik Vaal Neto”, constatou o escritor António Panguila, ao apresentar o livro.

“Como narrativa que é, Kalucinga acaba por ser uma colagem ou, melhor, uma perfeita osmose entre a ficção, a realidade autobiográfica e a utopia da autora, que, sem pertencer à famosa geração do mesmo nome, continua a sonhar com uma terra de justiça e fartura para todos num contexto histórico completamente diferente, onde em princípio o sonho da primeira geração já devia estar realizado mas não está, porque virou miragem”. Foi assim, de rompante, que o jornalista Reginaldo Silva começou por introduzir os potenciais leitores ao livro “Kalucinga”, da estreante autora Alexandra de Vitória Pereira Simeão. No Espaço Verde Caxinde, também em Fevereiro.

Henrique Guerra, um dos últimos sobreviventes da geração da “Cultura”, cuja obra, como ele próprio diz, sendo “curta em volume”, tem o condão de ser uma das mais representativas da literatura angolana, voltou aos escaparates a 26 de Fevereiro com o livro de contos “O Tocador de Quissanje”. O velho autor foi homenageado em Janeiro pelo Ministério da Cultura e em Fevereiro pela UEA, de que é um dos membros fundadores. “O que me motivou a escrever foi uma vez ter lido no jornal ‘A Província de Angola’, lá para o ano de 1952 ou 1953, o poema do Aires de Almeida Santos, ‘A Mulemba secou’. Fiquei tão fortemente impressionado que tentei fazer uma música à volta desse poema”, disse, em entrevista a este jornal. “Verifiquei que para além daquilo que dávamos através dos compêndios escolares, na disciplina de Literatura Portuguesa, havia uma realidade angolana, um quotidiano que estava arredado da literatura oficial”, explicou.

Em Março, 07, o escritor Adriano Mixinge recebeu o Prémio Sagrada Esperança 2013 ao mesmo tempo que procedeu ao lançamento do romance premiado, “Ocaso dos Pirilampos”. O autor, no seu romance, desvela os medos e os fantasmas do homem angolano, imerso numa época de imensas encruzilhadas e incertezas quanto ao futuro e à própria existência. O livro já conta com uma edição portuguesa, pela editora “Guerra e Paz”.

Brigitte Caferro publicou o poemário “Do Meu Íntimo Mais Íntimo” que, segundo o escritor Soberano Canhanga, nos seus 76 poemas “apregoa, acima de tudo, o amor, o ser e a sociedade”, sendo a sua escrita sobretudo intimista, com o seu grito a ir “ao encontro do ‘nós’ social”. Canhanga saudou Brigite Caferro, nas páginas deste jornal, como uma autora que “vem preencher o seu lugar e trazer vida à criatividade artística na Lunda Sul”.

Arnaldo Santos deu à luz pública (27/03) “O Mais-Velho Menino dos Pássaros”, obra literária que emerge do Kinaxixi mítico da sua infância (que nem por sombras lembra o actual), em cuja floresta exuberante chilreavam as rolas, os bicos de lacre, os bigodes, os cardeais, os catetes, os maracachões, os pardais, os pica-flores, as pírulas, os rabos de junco, os siripipis e as viuvinhas negras.

Está-se logo a ver, aquele Kinaxixi era o paraíso das crianças, que nele se entretinham a caçar os pássaros com as suas fisgas certeiras, quando não se ficavam simplesmente a admirar os muitos prodígios da natureza. O livro, que conta com ilustrações saídas da pena e imaginação de Luandino Vieira, contém, segundo o sociólogo Paulo de Carvalho, que o apresentou ao público na União dos Escritores Angolanos, “elementos que podem contribuir para os pais aprimorarem a forma de educação dos seus filhos”. Por sua vez Arnaldo Santos afirmou que “gostaria que o livro fosse um bom pretexto para (…) relacionamento e compreensão das coisas do mundo”.

No dia 4 de Abril, o da consagração da Paz em Angola, Pichel de Lukoko, etnólogo, historiador e pesquisador da tradição oral, apresentou ao público do Huambo o livro “Wambu Kalunga em Elegia”, que, segundo José Luís Mendonça, que lá esteve e escreveu neste jornal, apresenta “o retrato literário do rei cuja autoridade perdurou pelas embalas e sobados que hoje integram a província do Huambo e à qual legou o seu nome para a posteridade”. No dizer do historiador Venceslau Cassessa, “o livro do mais velho Pio Chiwale tem muito mérito. Vem colocar um pilar muito importante no conhecimento do que é Angola. Porque é que o Huambo se chama Huambo. A história dos reinos da região do Centro de Angola”. Ainda segundo o historiador, tudo isso “são matérias que precisam de ser escritas pelos mais velhos”, para que o seu conhecimento não desapareça. “Quem semeia com dor, colhe com alegria”, resumiu assim o autor a satisfação por dar parto ao livro.

A Mediateca de Benguela acolheu, a 3 de Abril, a cerimónia de lançamento do mais recente livro de poemas da autoria de Isabel Ferreira, intitulado “O Leito do Silêncio”, num acto co-organizado pela Rádio Benguela e o Movimento Lev’Arte. O docente e historiador Tuca Manuel, que cuidou da apresentação, sublinhou, segundo correspondência do nosso colaborador Gociante Patissa, que se estava diante de uma autora “a retratar a sua vivência e a de sua gente, mas sem ser com uma voz de soberba, portanto longe de alguém que se coloca no papel de subalternizar os demais em função das suas habilidades”. Por sua vez Mário Kajibanga, director provincial da Cultura, a propósito do livro referiu: “por um lado, podemos ver o conselho de não levarmos a público coisas que acontecem na intimidade do lar. Por outro, podíamos dizer que é a falta de partilha de coisas boas que pode levar a violências. Porquê calar, se podemos partilhar coisas boas?”.

Carlos Ferreira, o Cassé, jornalista e escritor, entregou ao mercado (18/04, na União dos Escritores Angolanos) o livro “Memórias de Nós”, cerca de centena e meia de poemas-letras para canções escritos ao longo de trinta anos, sendo mais de metade criados ao longo da década de 1980. A obra tem um enfoque geracional, sendo uma oferta do autor, sobretudo, mas não só, para aquela geração de angolanos que, no contexto estrito da literatura, o crítico literário Luís Kandjimbo cunhou como sendo Das Incertezas, e que Paulo Flores, num contexto mais geral, cantou como tendo sido feliz sem o saber. É a geração convencionalmente referida como a dos anos ‘80 e princípios dos ’90 e cujos integrantes estão hoje na faixa etária dos 40/50.

“Janelas de Orvalho” é o livro de poemas de Graça Arrimar, apresentado por Agnelo Carrasco, que a dado momento disse: “duma temática inicialmente muito pessoal, a autora transita para temas muitas vezes mais universais. Poder-se-á dizer que a primeira parte não se continua na segunda. (…) Se na primeira parte os poemas constituem um conjunto homogéneo pelas afinidades de conteúdo que apresentam (…) o mesmo já me não parece tão linearmente possível na segunda parte”. Agnelo Carrasco sublinha: “os poemas, de um modo geral, não se continuam, cada um assume um conteúdo que não é repetição, nem continuidade”.

“A vivência e a sobrevivência através de uma infância, adolescência, seguidas de uma juventude em tempos de possibilidades precárias; a desordem espiritual, colectiva, traumas antigos e do pós-guerra, bem como inconsistências e desnivelamentos que não vale a pena nem classificar nem enumerar”, segundo o poeta João Tala, “formam um quadro inquietante” que sobre um formato estético emprestam o conteúdo ao livro de poemas “Rua da Insónia – Um manifesto de inquietações”. O poeta António Pompílio, que apresentou o novo poemário a 25 de Abril, na UEA, lembrou que João Tala é médico e que, talvez por isso, no seu livro “ele faz um diagnóstico à alma”.

Cristóvão Neto selecionou e reuniu alguns dos seus melhores poemas na antologia “O Lugar do Nome”, que apresentou ao público em Abril, na sede da UEA. “Apesar de sofrido, magoado, introspectivo, [O Lugar do Nome] é sobretudo uma exaltação ao amor, um verdadeiro canto de esperança, um hino à vida. É assim que o vemos. Recusamo-nos a vê-lo de outro modo”, afirmou o também poeta Conceição Cristóvão, ao ler o texto de apresentação que intitulou “Da Arqueologia da Palavra à Reinvenção do Signo”.

“Mesmo sendo um livro muito profundo, o poeta teve o condão de utilizar uma linguagem magistralmente simples, apesar de conotativa, pelo que qualquer leitor poderá fruir de uma boa e enriquecedora leitura”, não necessitando de “mobilizar quaisquer competências específicas, típicas da crítica e análise literárias”, rematou.

Em Maio Albino Carlos deu a estampa, com chancela da UEA, o livro de estórias “Issunji”, que em Novembro seria distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes. José Luís Mendonça escreveu no texto de apresentação: “das treze estórias, nove são aquilo que eu chamaria de painéis carregados de tintas emocionais e emocionantes. Consistem em flashes instantâneos em que a função poética da língua, em termos de fotossíntese, transmuta o quadro concreto da vida social em imagens ou frescos agitados pelo manancial de um surrealismo mágico”.

A escrita de “Issunji”, prossegue JL Mendonça, “escorre como tinta de painéis expostos em série, dos quais o pintor teria escolhido como tema um país (Angola) e uma época (o conflito pós independência) e as suas bifurcações ou emanações calamitosas. Para sofrer a dor das armas, não é preciso estar debaixo de fogo. Basta nascer numa geografia conflituosa. Sofre-se na mesma”. E sublinha: “O estado da alma de um país. Um autêntico livro aberto que revela a história da desgraça inscrita nos destroços e traços da guerra”.

José Luís Mendonça, no seu primeiro romance, “No Reino das Casuarinas”, que veio a público em Junho, “relata a história de sete angolanos vítimas da síndroma da amnésia auto adquirida, provocada por traumas devido à sua experiência de guerra, no período compreendido entre 1961 e 1987”, explica uma nota editorial da Texto Editores. “Durante o internamento no Hospital Psiquiátrico de Luanda, o grupo decide evadir-se para fundar um Estado na Floresta da Ilha de Luanda, denominado ‘Reino das Casuarinas’”.

Por ocasião dos 90 anos do nascimento do Dr. António Agostinho Neto, poeta-maior e primeiro presidente de Angola, a Fundação Agostinho Neto pôs à disposição do público, no dia 14 de Maio, em Luanda, na sede da União dos Escritores Angolanos, o livro “A Noção de Ser” e o DVD “Portugueses Falam de Agostinho Neto”. O livro, com mais de 800 páginas, é uma colectânea de 65 textos analíticos sobre a poesia de Neto, assinados por 62 autores, a maioria professores universitários, escritores e jornalistas de vários países e publicados originariamente em livros, jornais e revistas ao longo dos últimos 40 anos. O DVD reúne entrevistas, produzidas pela FAAN, de políticos e intelectuais portugueses, num testemunho audiovisual sobre a trajectória e a dimensão política, cultural e humana de Agostinho Neto. “O livro procura mostrar o mais amplamente possível os vários tipos de recebimento da obra de Agostinho Neto. Será um marco na história da recepção e do estudo da obra de Neto”, disse Pires Laranjeira, professor da Universidade de Coimbra, o principal organizador da publicação. Em Setembro foi apresentado em Paris, França, o livro “Poésie Complète de Agostinho Neto”, numa iniciativa da Embaixada de Angola, no âmbito das comemorações do Dia do Herói Nacional.

O livro “Ombela – A Estória das Chuvas”, de Ondjaki (texto) e Rachel Caiano (ilustrações), editado em Junho pela Plural Editores, traz uma estória singela, própria para encantar os petizes, e introduzi-los, pelas e com as palavras, no mundo do maravilhoso. A estória, premiada no concurso do Conto Infantil da Associação Chá de Caxinde, 2012, situa-se na corrente daquelas que buscam preencher a curiosidade natural das crianças pelo conhecimento da origem e da razão primordial das coisas. Ombela, que em umbundo significa chuva, é o nome de uma deusa criança, que, lá longe na escuridão dos tempos, entediada com a sua majestosa divindade, estava cheia de tristeza. Decide então chorar. As suas lágrimas salgadas caem em forma de chuva e formam os mares e os oceanos. Mais tarde, já de bom humor, chora de alegria, derramando agora lágrimas/chuvas de água doce, alimentando as plantas e criando sobre a terra inumeráveis rios e lagos.

Em Junho o Jardim do Livro Infantil foi o palco escolhido para o lançamento de várias obras literárias para crianças. Em Luanda, num ambiente festivo como só as crianças sabem protagonizar e proporcionar, as escritoras Maria Eugénia Neto e Cremilda de Lima apresentaram-se para autografar os respectivos livros: “Os Animais de Duas Gibas” e “A Montanha do Sol”; e “O Kyanda ni Kaulungu ka Fuxi”, este em kimbundo.

Rotane Sandjimba, que se estreou em livro em Agosto com “Em Busca da Dignidade” (Editora Mayamba), romance que recupera a memória das peripécias dos que partiam para as Lundas na miragem de enriquecerem com o garimpo de diamantes, é um caso de autor promissor que deve ser devidamente acompanhado.

O escritor e político Manuel Pedro Pacavira propôs à leitura, em Agosto, o livro “Angola e o Movimento Revolucionário dos Capitães de Abril em Portugal – Memórias (1974-1976)”, com prefácio de Aldemiro Vaz da Conceição e chancela editorial da Mayamba. A obra “é uma peça preciosa para melhor se compreender o período conturbado entre a queda do fascismo em Portugal e a proclamação da independência de Angola (…)”, refere o prefaciador.

“A obra “Surrealismo do Quotidiano”, da autoria de Djina, pseudónimo literário de Dina Sebastiana de Sousa e Santos, é para todo e qualquer leitor um estimulante desafio de sobrevivência a um quotidiano como o é o surrealismo”. As palavras são do académico António Quino, quando falava sobre o livro no acto do seu lançamento em Setembro, no Espaço Caxinde. “No primeiro contacto com o livro, perguntei-me: que estratégia de leitura devo adoptar para responder a uma inquietação minha, e que espero seja também vossa: Por que razão julgo que devem ler “Surrealismo do Quotidiano”?”, interroga-se António Quino, para, no final, convidar os leitores a, com a sua própria estratégia de leitura, deslindarem os muitos novelos da obra.

O novo livro de Lopito Feijó, “Desejos de Aminata”, publicado este ano em Luanda, é uma incursão poética e exploratória pela topografia e a toponímia do corpo feminino, do desejo carnal, do amor físico. Essa incursão exploratória é tão profunda e ousada que chega a ultrapassar os limites convencionais do erótico.

“Esta obra, ‘A Poeira do Tempo’, apresenta-nos um Escritor na sua pulsação íntima de jornalista e poeta. O estilo é preciso, conciso e claro. E há centelhas de poesia a faiscar do comboio da escrita. E um certo filosofar no pensamento simples dos personagens em situações extremas da vida, quando a morte é uma espécie de lenitivo para o sofrimento ou quando a lei da sobrevivência os leva a retirar do âmago um último resquício de força”. Palavras ditas por JL Mendonça na apresentação, em Outubro, da última entrega literária de José Mena Abrantes.

Nok Nogueira, igualmente em Outubro, lançou “As Mãos do Tempo”, com chancela da editora Nóssomos. De acordo com Jomo Fortunato, que fez a apresentação do poemário, “se ‘a função faz o órgão’, um processo realizável no tempo, entenda-se que a função aqui é sinónimo de trabalho, então ‘As Mãos do Tempo’, enquanto proposta literária, é também uma reflexão sobre a origem da espécie humana, mais como evolução do que como criação”.

O docente e investigador António Quino autografou para os presentes na União dos Escritores Angolanos no dia 18 de Outubro, o livro “Duas faces da esperança: Agostinho Neto e António Nobre num estudo comparado”, um ensaio prefaciado e apresentado pelo Professor Francisco Soares.

Com vista a uma “maior divulgação e internacionalização da literatura angolana”, a União dos Escritores Angolanos (UEA), em parceria com a LEYA-Texto Editores, fez o lançamento na livraria Buchoolz em Lisboa, no dia 7 de Novembro, da colectânea de 42 estórias, nas quais “sobrevivem analogias, relativismos e paradigmas da literatura angolana”, no dizer do secretário-geral da casa dos escritores angolanos, Carmo Neto. Com o título “Estórias Além do Tempo”, a antologia inclui 17 escritores: Arnaldo Santos, Dario de Melo, Carmo Neto, Fragata de Morais, Henrique Abranches, Henrique Guerra, Isaquiel Cori, João Melo, João Tala, José Eduardo Agualusa, José Samuíla Kakweji, Luís Fernando, Marta Santos, Ondjaki, Pepetela, Roderick Nehone e Sónia Gomes.

Fragata de Morais voltou à publicação com o livro “A Visita”, um texto do género dramático, editado pela União dos Escritores Angolanos. Com uma trama intensa e inusitada, o seu novo livro traz à cultura literária angolana personagens memoráveis como Carla, uma viúva quarentona, carente de afectos íntimos, e Dany Boy, um ladrão “bem educado”, sensível.

O GRECIMA deu continuidade ao projecto 11 Clássicos da Literatura Angolana, com o lançamento da segunda colecção, em Novembro. Desta feita foram escolhidas as obras “Uanga”, de Óscar Ribas, “Poemas”, Viriato da Cruz, “Obra Poética”, Mário António, “Poemas Completos”, Alda Lara, “Meu Amor da Rua 11”, Aires de Almeida Santos, “A Konkhava de Feti”, Henrique Abranches, “Colonos e Colonizadores”, Raul David, “Gente de Meu Bairro”, Jorge Macedo, “Estórias do Musseque”, Jofre Rocha, “A Morte do Velho Kipacaça”, Boaventura Cardoso e “A Casa Velha das Margens”, de Arnaldo Santos.

Na ocasião foi também apresentada ao público a Colecção Novos Autores, nesta primeira edição composta pelas obras “Fátussengóla, o Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas”, Gociante Patissa; “Na Pele de Zito Maimba”, Paula Russa; “Proficuidade”, Carlos Bengui; “Sonhos Bordados”, Yola Castro;”…E lá Fora os Cães, Ras Nguimba Ngola; “O Coleccionador de Pirilampos”, Soberano Canhanga; “Verso Vegetal”, David Capelenguela; “Mukandas Angolanas”, Jorge Salvador; “O Homem da Casa Amarela e Outras Histórias”, Gaspar Lourenço; “Incertezas”, Katya Santos; e “Humanus”, de M’Bangula Katúmua.

FONTE: Cultura

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licenciatura e mercado de trabalho: mudanças à vista

 

Exame nacional de ingresso como certificação

Luiz Carlos de Freitas

As teses dos reformadores empresariais estão sendo seguidas impecavelmente pelo novo Ministro. Uma delas é que a avaliação tem centralidade na melhoria da educação. Por isso, seu foco na avaliação que deverá, é claro, ser seguida de meritocracia. Isso era esperado. Não vai faltar avaliação para ninguém: alunos, professores e diretores. Para o ministro:

“No caso dos professores, ponderou Cid, a avaliação poderia ser utilizada como “passaporte para o ingresso” do professor na carreira docente, em vagas ofertadas por Estados ou municípios.”

É isso. Quando apareceu a ideia de uma prova nacional para ingresso no magistério, advertimos à exaustão a CNTE e as entidades educacionais que esta prova poderia ser convertida em certificação para ingresso no magistério.

(Veja, por exemplo, aqui, aqui, aqui, aqui.)

Para minar resistências, ele ameniza dizendo que a avaliação “será uma opção do professor”, mas é claro que perante as redes, isso não será optativo e, socialmente, aquele que não realizar o exame estará em condições inferiorizadas perante outros que o fizeram.

Com a palavra, a CNTE e as entidades da área da educação.

FONTE: Avaliação Educacional

para conhecer Moçambique e sua impressionante literatura

 

«Nós não fizemos o exorcismo da guerra»,
entrevista a Nelson Saúte

Doris Wieser

Nelson Saúte (1967, Maputo) é um personagem ainda desconhecido no meu país de origem, a Alemanha. Tanto maior foi a minha curiosidade quando, numa viagem a Lisboa em 2011, me deparei com um dos seus livros de contos, O Apóstolo da Desgraça (Dom Quixote, 1999). Li-o, nas minhas idas e vindas de comboio ao Estoril, com muito interesse e com aquele fascínio que sentimos quando estamos à descoberta de novos mundos e novas realidades. Nesta altura, eu dedicava-me ao estudo da literatura latino-americana, mas sentia o impulso intrínseco de me aventurar ainda noutros continentes. Assim comecei a interessar-me por África que, desde o início, me colocou muitas questões e desafios que até hoje apenas consegui resolver parcialmente. Uma das pessoas que me ajudaram nesta árdua tarefa de compenetração intercultural foi Nelson Saúte, nomeadamente com as duas antologias incontornáveis que editou: Nunca Mais é Sábado, antologia de poesia moçambicana (Dom Quixote, 2004), e As Mãos dos Pretos, antologia do conto moçambicano (Dom Quixote, 2001).

Nelson Saúte – licenciado em Ciências de Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo – não só trabalhou como jornalista, docente universitário e editor, também é autor de vários volumes de poesia e de contos assim como do romance Os Narradores da Sobrevivência (Dom Quixote, 2000). Por isso, julguei que era uma pessoa interessantíssima a conhecer. Durante a minha viagem de investigação a Moçambique em Julho de 2014, marquei um encontro com ele.

Nelson Saúte pediu-me para eu comparecer ao seu gabinete da editora Marimbique situado no Hotel Pestana Rovuma, no centro de Maputo. Este hotel de quatro estrelas é uma das referências arquitetónicas importantes para quem começa a orientar-se na cidade. Fica junto à Catedral Metropolitana, muito perto da Praça da Independência, onde, desde 2011, uma estátua gigante de Samora Machel estende o índice da mão direita para o céu. Nesta zona confluem ruas com nomes de líderes comunistas estrangeiros (Av. Ho Chi Min, Av. Vladimir Lenine, Av. Karl Marx), líderes da FRELIMO (Av. Eduardo Mondlane, Av. Filipe Samuel Magaia), lutadores de resistência do século XIX (Av. Maguiguana) e das grandes datas comemorativas do país independente (Av. 25 de Setembro, Av. 24 de Julho). O próprio autor retoma esta topografia memorialística no seu poema “Anos 80”:

Eduardo Mondlane foi o nome

da avenida sobre a qual

me estreei na toponímia da capital.

(…)

E todo aquele cortejo de incongruências

a habitar os fogos conquistados

pela inquestionável independência.

Cedo descobri Maguiguana e toda a mitologia

de guerra sobre os meus indefenestráveis heróis

na toponímia da revolução.1

Chegando ao hotel subi de elevador ao nono andar. Um guarda sentado por detrás de uma mesa pediu-me a identificação e indicou-me o caminho para os escritórios, que dispõem de uma esplêndida vista sobre toda aquela “toponímia da revolução”.

Segue-se a entrevista feita a 21 de Julho de 2014.

Em que medida podemos falar de uma literatura moçambicana? Segundo Antonio Candido, para que se possa falar de uma literatura nacional, é necessário existir um grupo de autores mais ou menos conscientes do seu papel, um público leitor e um mecanismo de divulgação. Já existe esse mecanismo?

Creio que, de alguma forma, já se pode falar de uma literatura moçambicana. Já há um corpussistémico do que é a literatura moçambicana. A chamada geração dos fundadores, no caso da poesia, podemos falar de Noémia de Sousa, de José Craveirinha, de Rui Knopfli… Acho que o que eles praticaram de uma forma consciente foi a fundação de uma certa literatura. É evidente que antes deles já havia alguns autores, mas acho que é nesta geração que a literatura moçambicana ganha uma formulação que viria a sistematizar-se ao longo do tempo. No caso da ficção, ocorre um pouco mais tarde. Acho que o caso mais exemplar é Nós Matámos o Cão-Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, mas é preciso não esquecer também os livros de Orlando Mendes e de Carneiro Gonçalves. Ele morreu cedo e a obra saiu postumamente. Mas acho que é no pós-independência que a ficção ganha uma ampla consistência, com a geração de Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Suleiman Cassamo e, um pouco mais tarde, Paulina Chiziane, etc. Isto sem esquecer Lília Momplé, Calane da Silva que andava entre a ficção e a poesia, ou Leite de Vasconcelos, um poeta, prosador e dramaturgo. Portanto, uma primeira geração de Knopfli, uma segunda geração de Heliodoro Baptista, uma geração pós-independência com Eduardo White e Armando Artur, por volta da GeraçãoCharrua2. Se olharmos com alguma distância, podemos afirmar sem dificuldade que existe uma literatura moçambicana. Eu próprio pude comprová-lo organizando duas antologias, uma de poesia e outra de ficção. Hoje é possível cotejarmos no que existe a certeza de que há uma literatura moçambicana nos termos formulados pelo Professor Antonio Candido.

Nélson Saúte
Nélson Saúte

Essas antologias são muito úteis, porque permitem ter uma ideia geral da literatura moçambicana.

Por aí se consegue ter uma ideia muito ampla dos caminhos, dos percursos, das temáticas, dos estilos, das posturas de linguagem que a poesia trilhou. Pela poesia, percebemos que a literatura moçambicana atingiu cedo de mais uma dimensão de modernidade, cruzando com uma certa tradição de oralidade africana.

Qual a situação das editoras moçambicanas?

Eu sou editor da Marimbique há 11 anos. Antes estive envolvido no projecto Ndjira, fundada em 1996. Mais tarde, divergi do projecto e fui para outro projecto. Para além da Ndjira e da Marimbique, há a editora Alcance, que também tem alguma vivacidade. Não queria fazer uma listagem para não me esquecer de algumas. Há uma certa vitalidade na edição, mas, de uma forma muito diferente do que acontecia há vinte ou trinta anos, quando a literatura tinha uma ampla recepção principalmente na imprensa, em que havia páginas literárias importantes, como na Gazeta de Artes e Letras. Havia a página «Ler e Escrever» no Jornal de Domingo. No Jornal de Notícias, havia uma página que teve vários nomes, entre os quais «Pala Pala». No Notícias da Beira, havia a página «Diálogo». Aí os autores tinham um primeiro momento de recepção e havia uma intermediação entre os autores e o público. Não havia esta formulação editorial como há hoje, era um tipo de edição muito mais artesanal, hoje é muito mais profissionalizado. Na rádio e nas televisões emergentes havia programas dedicados à literatura. Hoje há pouca recepção. Creio que se pode considerar que a prática do jornalismo cultural desapareceu, o que não ajuda a proporcionar este movimento dinâmico das editoras. Fala-se no problema do poder aquisitivo dos moçambicanos. Eu creio que o problema não está aí, mas nos fracos hábitos de leitura, posturas em relação à aquisição de bens culturais não tão entusiasmadas como poderíamos esperar… É preciso cultivar no público, ter programas de incentivo à leitura, haver propostas de apetrechamento de bibliotecas municipais e nas escolas… As pessoas têm de lidar com livros para terem amor ao livro. Se nunca conviveram com livros, não chegam à idade adulta e começam a comprar livros. O livro não é um bem de consumo essencial para a maioria das pessoas. Para mim, é…

Hoje Maputo é uma cidade com uma dinâmica própria, em crescimento, com uma classe média mais ou menos consistente. Vê-se o tipo de transportes que utilizam, o tipo de casas que habitam… Isso não é só com expatriados. Há moçambicanos com um certo poder aquisitivo, mas esses não têm livros em casa. É uma geração que não cresceu com o livro. O trabalho das editoras barra com esta dificuldade, mas, como eu cultivo a esperança, creio que é um problema do momento que vamos ultrapassar. Vejo que há algumas ilhas de interesse neste trabalho de divulgação literária. Se não houver recepção, se não houver um trabalho de intermediação, as pessoas não vão ter iniciação literária, não vão ter capacidade de chegar aos autores e aos livros e o trabalho das editoras vai diminuir.

Catedral e Hotel Rovuma
Catedral e Hotel Rovuma

«Logo, quem da Europa vem, as suas acompanhantes parecem estrelas de televisão», escreveu no conto «A apresentação do falecido».3 Esta frase faz-nos pensar sobre o papel dos europeus e dos brancos hoje em dia. Há uma imagem estereotípica que se forma em cada época. Como mudou a imagem dos portugueses da época colonial até agora?

Esse texto deve ter sido escrito há 20 anos. Não é a mesma visão que permanece sobre os portugueses. Há várias maneiras de os portugueses serem vistos e de eles também verem a sociedade moçambicana. Após a independência, havia ainda um conflito forte entre os ex-colonizados e os ex-colonizadores. Depois há relações que se vão estabelecendo, há diálogos que vão sendo feitos… Em 1983 se não me engano, o Presidente Samora Machel vai a Portugal numa visita que se revela importante para o degelo das relações. O presidente português, Ramalho Eanes, veio cá também. O facto de uma das suas primeiras acções ter sido uma homenagem na Praça dos Heróis foi um acto simbólico importante. A forma como esta relação se foi formulando ao longo dos anos mudou muito. Hoje vê portugueses espalhados por todo o lado, é uma espécie de um regresso massivo. Vê portugueses na área da restauração, na área da construção… Vê jovens portugueses, muitos por culpa da crise em Portugal, que creio que vivem cá sem dificuldades, perfeitamente integrados. O clima entre portugueses e moçambicanos mudou radicalmente.

Fui a Portugal nessa época, e hoje, quando regresso, sinto que não é a mesma coisa. Portugal também mudou, Portugal também aceita melhor a alteridade, Portugal também aceita melhor a diferença. Sobretudo, Portugal aceita melhor o seu passado. De forma jocosa, costumo dizer que muito do que acontece de positivo na nossa relação com os portugueses deve-se aos angolanos. É uma metáfora das nossas relações. Angola, depois de superar a guerra, cresceu de forma tão galopante, a economia angolana teve muita penetração no quotidiano dos portugueses, as relações passaram a ser económicas, mais fluídas… O poder de aquisição dos angolanos libertou-os de um certo estigma com que eram olhados. Nós próprios eramos olhados de uma forma mais estigmatizada. Se calhar o estigma é ao contrário hoje, se calhar olham para todos os africanos como quem tem um poder aquisitivo elevado e que é preciso tratar bem. Passámos de um certo afastamento para uma aproximação muito ditada por essa capacidade que sobretudo os angolanos introduziram em Portugal. Isto é só um faits divers, mas acho que os portugueses olham de uma forma diferente os africanos, os moçambicanos, os angolanos, os guineenses, os são-tomenses, os cabo-verdianos… Não vejo conflitos, xenofobia, acho que não existe isso. Pelo contrário, vejo uma relação muito mais tranquila, mais distante da época histórica da cisão com a independência, mais baseada nos interesses de parte a parte, interesses económicos ou de outra ordem. Aquele lado conflitual foi ultrapassado. Hoje quase que não se fala nisso. O tema são as oportunidades, as várias propostas em várias áreas… Portanto, já não são tão estrelas de televisão quanto isso.

Estátua Samora Machel
Estátua Samora Machel

Na época colonial, havia duas classes intermédias entre os dois pólos, os assimilados e os mestiços. Hoje ainda têm algum peso?

Isso diluiu-se. A sociedade moçambicana é muito espartilhada, mas já não racialmente, mas sim do ponto de vista económico. Hoje, a cidade de Maputo tem zonas fortemente habitadas por expatriados de várias nacionalidades, não só portugueses, que vivem aí por terem poder aquisitivo, porque representam multinacionais, embaixadas, etc. Mas também há muitos moçambicanos nos mesmos parques mobiliários. Temos uma cidade da elite: a Polana e Sommerschield, o bairro central, um bocado da Coop; a classe média em Malhangalene; a classe média baixa em Alto Maé; depois os subúrbios tradicionais: Chamanculo, Mafalala, um verdadeiro caldeirão cultural; depois novos subúrbios que surgiram à volta da Grande Maputo, como Matola, Belo Horizonte, Zimpeto, etc. Há uma classe média florescente, dinâmica, forte, quase totalmente pós-independência, de jovens de trinta e poucos anos. É uma cidade perfeitamente estratificada desde o início. Desde que Lourenço Marques foi fundada, sempre houve zonas para os mais excluídos economicamente e zonas onde os mais inseridos economicamente poderiam habitar e conviver. É claro que Maputo é um grande centro para onde as pessoas convergem para trabalhar. Maputo ao domingo é uma cidade muito menos habitada, não tem gente, não tem vida própria. Ao meio-dia as pessoas começam a desaparecer para esses satélites dormitórios. A textura da realidade de 1975 diluiu-se completamente. Hoje não diria que na zona tal vivem os assimilados, não… O que existe é os que têm melhor poder aquisitivo migraram para Sommerschield e para Polana, os que não têm ou foram deixando de ter foram empurrados para zonas limítrofes ou para os subúrbios. O que ficou foi a competição do ponto de vista socioeconómico. Falo apenas de Maputo. Isto pode ser mais ou menos extrapolável para outros centros urbanos, mas Maputo é a cidade mais complexa, onde é possível ver essas muitas diferenciações sociais.

Em que medida este espaço urbano dialoga com o espaço rural?

Eu não diria espaço rural, mas espaço periurbano. O mundo da ruralidade veio para a cidade e transportou os seus valores. São mundos muito diferentes na forma de estar, mas o código permanece nas pessoas. A transição campo-cidade é recente. As pessoas vivem na cidade, mas estão ainda amarradas a certas práticas culturais do campo. Isso é visível no quotidiano. O que eu acho interessante na cidade de Maputo é que convivem muitas coisas. Sob esse ponto de vista, é uma cidade rica, porque é rica culturalmente, nas religiões, existem igrejas das mais variadas, encontra minaretes muçulmanos, igrejas protestantes, metodistas, católica, judaica… Encontra símbolos das diversas culturas e civilizações que se foram caldeando aqui neste espaço. É muito interessante a forma como as pessoas vestem, o que praticam no seu quotidiano, as várias influências na culinária, os cheiros, os aromas… No mercado, há todo aquele caldear de culturas. É uma cidade aberta para o mar, aberta a várias civilizações. Aqui confluíram línguas, culturas, povos, posturas, formas de vida, campo/cidade, o mais tradicional africano, o mais moderno ocidental, tudo aqui converge. Acho isso fascinante.

Também se pode observar essa diversidade no resto do país, mas as fronteiras de Moçambique não respeitam as fronteiras linguísticas.

As culturas e as línguas transgridem as fronteiras.

Hoje existe um sentido de pertença a um espaço cultural?

Esse sentimento quase indefinível de alguém pertencer a uma pátria, a um lugar, aos seus, onde tem enterrados os seus mortos, aos seus valores – eu acho que isso existe. Acho que nos diferenciamos dos sul-africanos, dos zimbabuanos ou dos tanzanianos, embora nas fronteiras possa haver confluências. Ser moçambicanos não é algo monolítico. Vê um lastro muito diverso de pessoas que se moçambicanizaram ou de pessoas que cresceram nessa realidade e que são perfeitamente moçambicanos. Politicamente pode ser difícil encontrar isso, por causa do senso político que impera. Na realidade quotidiana, é um país pacificado, que aceita a diferença, a alteridade… O moçambicano não é visível pela cor da pele, mas por aquilo com que se identifica, pelos valores, pelo sentimento de pertença. É uma sociedade tolerante.

Em Moçambique fala-se muito das diferenças culturais do Norte e do Sul, as culturas matriarcais e patriarcais. Essa diferença é forte ou as culturas matriarcais hoje foram suplantadas?

Não tenho estudado isso, mas sei que na cidade isso se esbateu muito, mas noutras zonas não sei dizer. Tenho a impressão que continua a haver em certas áreas formulações matriarcais fortes, com posturas de cultura, de linguagem, de postura dessas comunidades, mas não tenho dados concretos.

Lemos em «A Curandeira de Polana»4: «Aliás, em Maputo, não há ninguém que não frequente o curandeiro.» Actualmente ainda é assim?

Não sei… Talvez essa afirmação seja muito forte, mas é uma metáfora para dizer que, por muito que a gente tenha migrado para a cidade, a tradição ficou em nós. Mesmo em cerimónias oficiais, em grandes inaugurações, em grandes acontecimentos há sempre a intervenção de posturas tradicionais. Numa população que é urbana há quatro décadas – o fenómeno é relativamente recente, desde os anos 1970 –, todo o lastro cultural que vem da ancestralidade permanece. Mesmo quando se cruzam outras posturas, religiosas por exemplo, não entram em conflito, convivem. A olho nu não, mas no subterrâneo da sociedade sim.

Em Os Narradores da Sobrevivência escreveu: «[…] numa altura em que os grandes não punham os pés nas igrejas nem sequer admitiam cerimónias para lembrar os antepassados, tudo isso porque a revolução era pagã […]».5 Actualmente, qual é a relação da FRELIMO com a religião?

Isso mudou. Um dos primeiros actos simbólicos foi o Presidente Joaquim Chissano ir à missa. Houve uma altura em que principalmente os dirigentes não frequentavam a igreja e a religião tinha sido «obliterada». Hoje não. Vejo pessoas em cargos públicos que são religiosas. Mas é um Estado laico. O Presidente da Comissão Nacional de Eleições6 veste as roupas que evidenciam a sua religião. Mas isto é visto pacificamente. As pessoas frequentam o que querem, respeitam-se. Há uma transformação forte, estrutural para uma sociedade muito mais complexa, multívoca, aberta, diversa… Não há já ditames, isso foi ultrapassado.

Como é que o Nelson e a sua família viveram durante as guerras?

Nós vivemos na cidade, vivemos o cerco que a cidade vivia, mas não posso ter a arrogância de dizer que sofremos com a guerra, não. A guerra chegou perto da cidade, mas tivemos o privilégio de estar defendidos pelo Estado. Mas acompanhámos a violência da guerra. O meu imaginário é o imaginário de quem viveu esses anos, de quem ficou atormentado, mas fui um privilegiado, não tive as provações que passaram concidadãos nossos no mato, que foram raptados, violados, que morreram, toda aquela desgraça que foram aqueles dezasseis anos de guerra e que espero que não voltem. Agora uns agoiros de guerra pairam no ar… Seria trágico para o país.

Hotel Pestana Rovuma e Conselho Municipal
Hotel Pestana Rovuma e Conselho Municipal

No conto «A árvore que sepultou o meu avô», encontramos a seguinte passagem: «História da guerra, não escrita, não contada, está no nosso silêncio, na nossa vergonha colectiva, no nosso luto.»7 Esse silêncio serve para não mexer no trauma?

Nós não fizemos o exorcismo da guerra. Ontem estava a ver um documentário sobre a Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul…

Existe uma comissão semelhante em Moçambique?

Não, não existe. Nós não assumimos o que aconteceu. Fizemos uma espécie de uma reconciliação, que não foi plena politicamente, houve uma integração na sociedade e vinte anos depois voltaram as fissuras, as feridas da guerra. Ontem, ao ver aquele processo violento da África do Sul, com a Comissão da Verdade, ao ver aquela imagem pungente do bispo Desmond Tutu desabando em lágrimas perante a crueldade que estava a ser revelada em tribunal, pensava se aqui não teria havido lugar para um certo exorcismo da guerra. O que senti foi um conflito latente, uma beligerância, que se exprime ainda hoje. Vinte anos depois do Acordo Geral de Paz ainda não ultrapassámos o problema da guerra. Fizemos um luto silencioso, aceitámos, não fizemos acusações de parte a parte… As acusações são feitas como aproveitamento político, num momento de beligerância parlamentar ou na imprensa. Não houve uma reflexão nacional do que isso significou e acho que perdemos a memória disso rapidamente. E estamos perante o risco de voltar a esse cenário. Espero que isso esteja mais distante agora. Para uma geração muito grande de moçambicanos, a guerra é um fenómeno muito distante. Ou não sofreram com isso, ou eram miúdos de dez anos quando a guerra acabou… Mas há uma geração de traumatizados, de estropiados, de pessoas que perderam familiares, há ainda gente que não encontrou os seus mortos, há ainda lutos que não foram feitos, há qualquer coisa que ficou no interior dos moçambicanos. Há uma certa amnésia na política. O tema da guerra sempre serviu para fazer a pequena política, no sentido da discussão, não no sentido de propor uma nova sociedade moçambicana que superasse tudo e que permitisse uma plena integração. Acho que houve uma aceitação mínima, a integração não foi plena. Ao ver o documentário sobre a África do Sul, senti que ali tinha havido um esforço muito grande de aceitação do outro, mas aceitação partindo da enunciação da verdade. Sobre a guerra existem acusações de parte a parte. A sociedade foi violentada ao extremo, mas não teve um momento para reflectir. Honestamente, não sei qual é o melhor caminho, mas eu teria preferido que esse luto do exorcismo tivesse sido feito. Não sei como é que isso se faz.

Até agora há uma amnésia política, mas no espaço cultural e na literatura fala-se sobre a guerra. A literatura pode ter um papel terapêutico?

Sim, sim, mas se a literatura tiver uma expressão muito grande. Se tiver uma expressão residual…

Não há um público leitor muito grande…

Há várias obras sobre a guerra na literatura, no cinema e no teatro, mas nenhuma provocou um amplo debate. É tudo muito circunscrito, quase clandestino.

Então não há movimentos culturais e sociais que procurem recuperar a história, por exemplo, as antigas crianças-soldado.

Não, desapareceram. Um dia haverá um fenómeno de explosão a revelar essa realidade trágica. Assumimos isso no silêncio, mas depois pode ser um problema de difícil gestão. Há as crianças-soldado, as mulheres violadas, há tanta coisa que é preciso pensar e que ficou meio apagado. A guerra foi de uma violência extrema e dividiu muitos moçambicanos. Se tivéssemos um melhor exercício da memória talvez não estivéssemos à beira de repetir os erros, como acontece agora. Espero que tenha sido apenas um mau momento da nossa sociedade.

Um aspecto interessante é o papel da mulher na sociedade moçambicana. A literatura aborda com frequência a violência doméstica. Como é que isto mudou com a independência? A FRELIMO afirmava que lutava pela igualdade dos sexos. Conseguiu melhorar a situação?

Sob o ponto de vista simbólico, a mulher tem um papel central na sociedade moçambicana. Vê a mulher nos centros de decisão, politicamente integrada, etc. Socialmente a questão é muito mais complexa. Em termos simbólicos, a sociedade deu passos muito importantes. Há mulheres no parlamento, no governo, nas várias esferas da sociedade, mas no quotidiano a questão é muito mais complexa.

Como convivem a monogamia e a poligamia?

Há uma realidade mais subterrânea. Nem sequer é clandestina, são outras realidades que às vezes não conseguimos captar tão bem, estas realidades culturais que a modernidade recusa aceitar e até a legislar persistem. A lei não admite a poligamia, mas ela existe. Também existe poliandria. As pessoas ocidentais tendem a fazer um juízo moral, numa perspectiva eurocêntrica. Eu tento explicar esses fenómenos aos meus amigos do ponto de vista do outro, tentando dizer que esta é a realidade. Não sei se é correcta ou não, mas é a realidade. Existe poligamia, existe poliandria, existe de tudo. Numa realidade tão caldeada de tantas culturas e tradições, seria difícil apagarmos pura e simplesmente essas situações. Leva tempo a mudar. Se é que tem de mudar, não sei…

A poligamia tem raízes muito antigas. Alguma vez houve um debate político sobre a possibilidade de legalizar a poligamia?

Houve, mas não foi um debate amplo. Chegou-se a falar, mas foi sempre pela via do código ocidental. Isso provoca problemas muito graves em termos sociais, porque, nestas múltiplas famílias, por vezes é preciso garantir direitos principalmente a crianças que nascem fora da «casa principal» e que, neste conflito entre a sociedade moderna e tradicional, são atropeladas por leis estanques. É uma realidade complexa e é preciso pensá-la. É preciso, se não aceitá-la, pelo menos percebê-la.

Quantas línguas de Moçambique fala?

Eu falo pouco. Tenho pouca prática na língua do Sul. Falo basicamente português. Vivi algum tempo em Nacala, mas não tenho o perfeito entendimento da língua macua. Gostava de ter aprendido, mas não aprendi. Moçambique é um país muito interessante, tem várias línguas, é uma grande diversidade.

Qual foi a sua primeira língua?

Português. O português é a língua aqui do Sul. Falo pouco o ronga, mas percebo perfeitamente.

O uso do português na literatura não cria um problema de verosimilhança? Se fossem reais, muitas personagens falariam uma língua bantu, não português.

Isso é um problema… mas se o teu mundo for o da língua portuguesa, talvez não haja esse problema. Nós convivemos num tecido muito mais complexo e adverso em termos culturais e linguísticos. Pode colocar-se essa questão. Pode ser um elemento de dificuldade, principalmente na autenticidade de certas obras. Quando tentamos retratar um mundo que não é o nosso, podemos ter dificuldade em traduzi-lo, em entendê-lo. Até pode acontecer não termos entendido nada desse mundo que julgamos estar a traduzir.

No futuro pode surgir uma literatura numa destas línguas bantu ou pelo menos um jornal?

Não sei… Há algumas propostas… Não sei… Nós temos tantas línguas, tantas línguas. Existem alguns autores em línguas moçambicanas, mas é um fenómeno muito mais circunscrito. Se escrever em língua portuguesa já é uma coisa muito circunscrita, imagine noutras línguas! Mas é possível. Podem existir jornais, mas não tenho presente.

Neste momento, está a escrever alguma obra ou dedica-se à edição?

Tenho dedicado mais tempo à edição. Não estou a escrever, mas em breve voltarei a escrever. Tenho histórias para escrever.

NOTAS

  • 1.Fragmento do poema “Anos 80”, em: Saúte, Nelson: Livro do Norte e outros poemas. Maputo: Marimbique, 2012, p. 105.
  • 2.Revista da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), fundada em 1984.
  • 3.Saúte, Nelson: O Apóstolo da Desgraça. Lisboa: Dom Quixote 1999, p. 31.
  • 4.Saúte, Nelson: O Apóstolo da Desgraça. Lisboa: Dom Quixote, 1999, p. 41.
  • 5.Saúte, Nelson: Os Narradores da Sobrevivência. Lisboa: Dom Quixote, 2000, p. 29.
  • 6.Abdul Carimo Sau é muçulmano.
  • 7.Saúte, Nelson: O Apóstolo da Desgraça. Lisboa: Dom Quixote, 1999, p. 15.

FONTE: Buala

não existe aprendizado sem muita pesquisa; não existe imaginação sem muita curiosidade

 

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Por uma Pedagogia da Descoberta

Sociedade está madura para Educação que reduza papel dos currículos obrigatórios e estimule prazer do conhecimento — exercitado em bibliotecas transversais e de livre acesso

Derbi Casal

A escola mata a descoberta. Ela entrega o conhecimento pronto em um currículo, definido de acordo com aquilo que é considerado por autoridades como conhecimento válido, todo o resto é excluído.

O que há nesse “resto”?  Toda  a experimentação, o conhecimento informal, aprendido nas vivências, os saberes tradicionais, transmitidos pelos mais velhos e a descoberta.

A serendipidade (o princípio da descoberta) só existe quando há liberdade de escolha por caminhos diferentes e aleatórios. A descoberta se dá, principalmente, quando não estamos procurando exatamente aquilo. Esse processo, que não pode ser controlado, é inexistente na grade escolar. Na escola somos todos considerados incompetentes para adquirir nosso próprio conhecimento. E nunca somos estimulados à fazê-lo.

A palavra serendipidade surgiu em referência a um antigo conto persa sobre os três príncipes de Serendip. Em suas aventuras eles viviam se deparando com situações inusitadas e fazendo descobertas ao acaso, encontrando respostas para questões que eles sequer haviam feito. Tinha um pouco de sorte envolvida, mas era a sagacidade dos meninos, um toque genial de mentes abertas para a descoberta, que realmente operava a magia.

Essa qualidade da descoberta não é de forma alguma privilégio de mentes superiores. É uma habilidade e um posicionamento, uma forma de ver o mundo, disponível para qualquer pessoa.

Bibliotecas são um excelente lugar para o exercício de serendipidade e nas escolas elas ficam isoladas das pessoas, que mal as frequentam nos intervalos das aulas. Temos alguma contação de história, mas livros previamente escolhidos. Mesmo quando eles não são previamente escolhidos, raramente é o acervo todo ofertado à escolha e, mesmo que fosse, ainda assim seria apenas uma atividade controlada, algum livro teria de ser “o escolhido”, os outros permanecerão inertes nas estantes.

Em geral é proibido (ou vigiado) andar entre as estantes a procura de livros que não se sabe ainda quais são. Isso é feito em nome da “ordem” que sempre vem de cima, e está sempre acima da vivência, pairando sobre ela, limitando suas possibilidades libertadoras.

Há um tipo de acesso à biblioteca, que é transversal, não linear, baseado quase que puramente na serendipidade. Ao conduzir uma leitura, indo de um texto à outro, colecionando trechos diferentes de cada livro sobre determinado assunto, eu estou praticando a descoberta. Aliás foi essa prática que desenvolveu a ciência como hoje a conhecemos e o acesso não linear a uma coleção de livros foi o embrião do hipertexto.

Essa forma de utilizar acervos surgiu lá na antiguidade e se tornou evidente na Biblioteca de Alexandria. Foi responsável pelo desenvolvimento da filologia, da geografia, da matemática, da astronomia, da medicina, da poesia, da filosofia, da história e de muitas outras ciências e saberes.

A serendipidade foi a maior consequência de se acumular livros em uma sala. Isso desenvolveu toda uma economia e ergonomia do saber: o surgimento da paginação, da referência, da citação, da glosa, do colofão, dos sumários, dos resumos, das bibliografias, dos catálogos, das resenhas… Todas essas formas de diálogo entre livros, escritores e leitores.

Uma biblioteca nunca é a mesma para duas pessoas praticando a descoberta. As escolhas, mais ou menos aleatórias, de livros formam caminhos, percursos diagonais, transversais, paralelos, pela coleção toda. O prazer de percorrê-los é como o prazer do desconhecido, é desbravar os universos não domesticados do saber. E é possível reiniciar muitas vezes o processo, sempre com resultados inusitados.

A autonomia de percorrer estantes, pegar livros, ler um trecho, procurar outro livro, compará-lo com um terceiro, pegar uma enciclopédia e, partindo de um verbete qualquer, buscar outras fontes, é o principio do amor pela pesquisa e do autodidatismo. São qualidades fundamentais para o pensamento livre e crítico.

Não provoca nenhum espanto a pouca valorização das bibliotecas e da leitura nos dias de hoje. É um reflexo do que a educação faz com a descoberta. Em tempos em que a homogeneidade de ideias, comportamentos e atividades e a obediência a regras, controles e currículos é o que está nas bases da educação, é bastante esperado que as capacidades revolucionárias e libertadoras das bibliotecas sejam caladas.

A busca por uma forma de educação livre passa pelo resgate da descoberta como veículo da potência humana. A serendipidade em substituição à rigidez curricular. É aí que está a importância esquecida das bibliotecas!

Em uma pedagogia da serendipidade, a descoberta é o centro do aprendizado e  a biblioteca é o coração da escola.

FONTE: Outras Palavras