LET C55: referências conceituais e críticas

Bogolan2 (bambara Mali)


PROGRAMA 2017-2

HAMPATÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph. História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.

LEITE, Fábio. Valores civilizatórios em sociedades negro-africanas. In: África: Revista do Centro de Estudos Africanos. n.18-19. São Paulo: USP, 1995/1996.

CUNHA, Henrique. Ntu. In: Revista Espaço Acadêmico. n.108, maio 2010.

KANDJIMBO, Luís. Escrita e vertigem dos livros / Pedro Miguel, um filósofo angolano em Itália / Identidade e filosofia política. In: Ideogramas de Nganji. Exercícios angolanos de ler e parafrasear. Lisboa: Novo Imbondeiro, 2003.

KANDJIMBO. O provérbio: um gênero da literatura oral angolana. In: KANDJIMBO, 2003.

RUI, Manuel. Eu e o outro — o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto. Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, 23/05/1985.

SCHIPPER, Mineke. Literatura oral e oralidade escrita. In: QUEIROZ, Sônia. A tradição oral. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2006.

BOTOYEYÉ, Geoffroy. O que pode a escrita? / ZOUNMÈNOU, Marcellin Vidjennagni. Conhecimento indígena e tradições orais em Zulu (África do Sul) e Gun (Benim). In: HOUNTONDJI, Paulin (org.). O antigo e o moderno. A produção do saber na África contemporânea. Tradução de M. Ferreira, G. Sousa, P. Patacho e A. Medeiros. Mangualde (Portugal): Edições Pedago, 2012.

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realidade e riqueza dos sistemas africanos de escrita

Na postagem transcrita a seguir apresenta-se um ótimo panorama acerca das formas gráficas de linguagem desenvolvidas na África, leitura imprescindível para quem ainda pensa que a escrita não foi inventada, ou tinha funções meramente “decorativas”, nas sociedades africanas. Vale frisar que a tradição dos ‘sona’ foi desenvolvida entre os povos bantus que maciçamente compuseram os fluxos do tráfico escravagista para o Brasil, povos que foram classificados como “primitivos” nos estudos racialistas de Nina Rodrigues. Entretanto, conforme apontam as pesquisas de Paulus Gerdes, professor moçambicano de matemática na Universidade Eduardo Mondlane, um lusona pode ser utilizado para computar cálculos complexos, ou servir de matriz para elaborados quebra-cabeças. Ou, como analisa Fernando Ribeiro na postagem abaixo, para compor graficamente narrativas e parábolas, fazendo dos sona uma das formas de oratura – isto é, de linguagem “ouvida-falada-vista” – a que se refere Manuel Rui. Não deixe de visitar os links no final da postagem para saber mais acerca da enorme versatilidade e criatividade implicada nos ideogramas africanos.

Recomendamos também uma leitura da postagem MANDOMBE, a escrita dos negros, publicada no blogue KANDIMBA, a qual discorre sobre novas formas de escrita surgidas na África no bojo da resistência cultural ao colonialismo.

africamandombe


Desenhos na areia, em África

Um lusona

Uma tradição existente — mas que corre sério risco de extinção — no leste de Angola, no sul da República Democrática do Congo e no oeste da Zâmbia consiste no desenho de figuras geométricas que são habitualmente traçadas na areia com a ponta de um dedo. Estas figuras são constituídas por redes de linhas sinuosas. Estas redes podem ser muito elaboradas e complexas.

A região de África habitada pelos Cokwe

O desenho começa pela marcação de uma quadrícula de pontos, marcados a espaços regulares com as pontas dos dedos. Em volta dos pontos são seguidamente traçadas linhas, que apresentam uns troços retos e outros em pequenos arcos de circunferência, as quais se mantêm sempre equidistantes dos pontos. As linhas são sempre fechadas, sendo cada uma delas traçada sem levantar o dedo da areia e seguindo regras bem específicas, que são impostas pela tradição. Quase todos os troços retos têm orientações bem definidas: horizontais, verticais e oblíquas para a esquerda e para a direita e com uma inclinação de 45 graus. Pode haver outras linhas que tenham curvas que não obedeçam à regra indicada ou que tenham orientações diferentes das referidas, mas são em muito menor número.

Desenhando um lusona na areia

Na língua cokwe (lê-se “tchócuè”) ou quioca, cada um destes desenhos chama-se lusona (lê-se “lussona”), que é o singular da palavra plural sona. Nos idiomas lucazi (lê-se “lutcházi”) e ngangela cada desenho deste tipo chama-se kasona, a que corresponde o plural tusona (leem-se “cassona” e “tussona”, respetivamente).

Chased chicken's path

Em séculos passados, estes desenhos eram conhecidos e feitos numa área geográfica muito mais vasta do que a que foi referida acima. O frade capuchinho italiano Giovanni Antonio Cavazzi da Montecuccolo (1621-1678), que pintou aguarelas ingénuas (mas valiosíssimas do ponto de vista documental) sobre a vida nos reinos africanos do Congo, Ndongo e Matamba, reproduziu em algumas das suas pinturas desenhos que eram em tudo iguais aos sona.

Ceremonial Procession, Kingdom of Kongo, 1670s Ezio Bassani, Un Cappuccino nell AfricaAguarela pintada por Antonio Cavazzi no reino do Congo. A caixa transportada pela segunda figura a contar da esquerda está decorada com desenhos do tipo sona

Os sona têm vindo a ser estudados pelo matemático moçambicano Paulus Gerdes, que descobriu neles propriedades matemáticas notáveis, por exemplo no domínio da Análise Combinatória. Não cabe no espaço de um artigo de um blogue a exposição das propriedades matemáticas que os sona possuem. Mas posso afirmar o seguinte: os conhecimentos matemáticos dos africanos que vivem em sociedades tradicionais rurais vão muito para além da mera contagem de cabeças de gado. Estes conhecimentos incluem conceitos tais como máximo divisor comum, menor múltiplo comum, combinações e permutações, entre outros, ainda que os camponeses africanos não saibam quais são as respetivas fórmulas nem nunca tenham ouvido falar em fatoriais.

Eles podem não saber a fórmula que permita calcular uma permutação, por exemplo, mas têm os conhecimentos suficientes para saber antecipadamente, sem errar, quantas linhas fechadas é que irão ser traçadas num lusona, em função do número de pontos marcados na areia e das inflexões que as linhas irão sofrer no desenho.

Podemos igualmente chamar ideogramas aos sona, pois eles também são uma representação gráfica de contos, provérbios, jogos, mitos, cantos, parábolas, leis, etc. Com efeito, à medida que vai contando (e também cantando, pois a música está quase sempre presente nas manifestações culturais africanas), o camponês africano vai traçando um lusona na areia, o qual acaba por ser uma representação simbólica da evolução da narrativa.

Apresentam-se a seguir alguns sona, acompanhados da correspondente história que representam.

Desenhos na areia 1

Sambalu, o coelho (posicionado no ponto B), descobre uma mina de sal-gema (ponto A). Imediatamente, o leão (ponto C), a onça (ponto D) e a hiena (ponto E) reclamam a posse, reivindicando o direito do mais forte. O coelho, afirmando o inviolável direito do mais fraco, rapidamente faz uma vedação para isolar a mina dos usurpadores. Como se pode verificar no desenho, só é possível chegar ao ponto A (a “mina de sal-gema”) a partir do ponto B (o “coelho”) sem atravessar a linha sinuosa (a “vedação”). Os outros pontos (o “leão”, a “onça” e a “hiena”) estão separados de A pela linha.

Desenhos na areia 2

Um certo caçador, chamado Cipinda, foi caçar levando o cão Kawa e apanhou uma cabra. Quando regressou à aldeia, o caçador dividiu a carne com Kalala, o dono do cão. Kawa ficou só com os ossos. Algum tempo depois, Cipinda pediu de novo os serviços do cão, mas este recusou-se a ajudá-lo. Disse ao caçador para levar Kalala, já que era com ele que estava habituado a dividir a carne.

Um dia, o leopardo Kajama pediu à cegonha Kumbi algumas penas para forrar a sua toca. Uns dias mais tarde, a cegonha pediu ao leopardo um bocado da sua pele. Quando Kajama satisfez o pedido da cegonha, morreu. O filho de Kajama tentou vingar a morte do pai, mas Kumbi, que conhecia muito bem o pântano, conseguiu escapar. Neste desenho, a linha ondulada é o trajeto da cegonha em fuga, Kumbi. Os pontos representam o pântano através do qual Kumbi fugiu. O desenho consiste, de facto, em duas linhas curvas entrelaçadas.

Desenhos na areia 8b

O galo e o chacal queriam casar com a mesma mulher. Quando pediram a mão ao pai dela, este disse-lhes que eles teriam que dar um alembamento (dote). Quando se divulgou a notícia de que a noiva tinha morrido, o galo chorou inconsolável, enquanto que o chacal só lamentou a perda do pagamento adiantado. O pai, que tinha intencionalmente espalhado o boato, para saber qual dos pretendentes merecia a sua filha, deu-a ao galo, que tinha demonstrado um verdadeiro amor.

A figura que está em cima é Deus, à esquerda está o Sol, à direita está a Lua e em baixo está um ser humano. Este lusona representa o caminho para Deus.

Um dia, o Sol foi visitar Deus. Deus deu um galo ao Sol e disse: «Volta cá amanhã de manhã antes de partires». No dia seguinte de manhã, o galo cantou e acordou o Sol. Quando o Sol se apresentou diante de Deus, este disse-lhe: «Tu não comeste o galo que te dei para o jantar. Podes ficar com o galo, mas tens que regressar todos os dias.» É por isso que o Sol dá a volta à Terra e reaparece todas as manhãs. A Lua também foi visitar Deus e recebeu um galo de presente. No dia seguinte de manhã, o galo cantou e acordou a Lua. Mais uma vez, Deus disse: «Tu não comeste o galo que te dei para o jantar. Podes ficar com o galo, mas tens que regressar a cada vinte e oito dias.» É por isso que o ciclo da Lua dura vinte e oito dias.

O ser humano também foi visitar Deus e recebeu um galo de presente. Mas o humano estava com fome depois de ter feito uma tão longa viagem e comeu parte do galo ao jantar. Na manhã seguinte, o Sol já ia alto no céu quando o humano acordou, comeu o resto do galo e apressou-se a visitar Deus. Deus disse-lhe: «Eu não ouvi o galo cantar esta manhã.» O humano respondeu-lhe a medo: «Eu estava com fome e comi-o.» «Está bem,» disse Deus, «mas escuta: tu sabes que o Sol e a Lua estiveram aqui, mas nenhum deles matou o galo que lhes dei. É por isso que eles nunca morrem. Mas tu mataste o teu, e por isso deves também morrer. Mas quando morreres deves regressar aqui.»

E assim acontece.

A figura que está em cima é Deus, à esquerda está o Sol, à direita está a Lua e em baixo está um ser humano. A linha reta que está ao centro representa o caminho para Deus. (segundo Mário Fontinha, 1983)

Quando o Sol morreu, os seus familiares foram ter com Deus. Foram recebidos por Samuto, o porteiro de Deus, que lhes disse: «Embrulhai o Sol num pano vermelho e colocai-o numa árvore». Eles assim fizeram. Na manhã seguinte, eles ficaram muito felizes por ver o Sol a brilhar novamente. O mesmo aconteceu com a Lua. Desta vez, Samuto aconselhou aos seus parentes que colocassem barro preto num pano branco, a envolvessem com este e a pusessem numa árvore. Assim fizeram e nessa mesma noite a Lua voltou a brilhar.

Quando o chefe de uma aldeia morreu, os habitantes também foram até Deus. No entanto, estes foram muito arrogantes e exigiram a Samuto, fazendo-lhe ameaças, que os levasse até Deus. Deus mandou-os de volta, dizendo-lhes: «Fazei uma padiola e levai o vosso chefe para um buraco que abrireis no mato, onde ele irá descansar. Depois devereis comemorar a sua morte durante cinco dias! A seguir devereis esperar até que o vosso chefe se levante novamente!»

Eles esperaram em vão, evidentemente. Foi assim que a morte veio ao mundo.

Leopardo fêmea com cinco filhotes

Algumas páginas na Web:

http://nautilus.fis.uc.pt/bspm/revistas/20/021-027.150.pdf
http://www.exploratorium.edu/store_images/publications/masc_sona.pdf
http://plus.maths.org/issue19/features/liki/index.html
http://members.tripod.com/vismath/paulus/

FONTE: A MATÉRIA DO TEMPO

linguagem & africanidade: antologia de textos literários

Elsa Gebreyesus_In the begining (Eritreia)
(“In the begining”, Elsa Gebreyesus)

  • textos narrativos

ARRIMAR, Jorge. Malfadada e os kimbandeiros. In: PALLAS EDITORA. Contos do mar sem fim: antologia afro-brasileira (org.). Rio de Janeiro: Pallas; Guiné-Bissau: Ku Si Mon; Angola: Chá de Caxinde, 2010.

COUTO, Mia. O cachimbo de Felizbento. In: Estórias abensonhadas. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SAÚTE, Nelson. A mulher dos antepassados. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. Coleção Ponta de Lança.

SEMEDO, Odete. A lebre, o lobo, o menino e o homem do pote. In: CHAVES, Rita (org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009. Coleção Para Gostar de Ler, n.44.

PEPETELA. Yaka. 5.ed. Portugal: D. Quixote, 1984.

VIEIRA, Luandino. Cardoso Kamukolo, sapateiro. In: Vidas novas. 5.ed. Cuba: Ediciones Cubanas; União dos Escritores de Angola, 1985.

XITU, Uanhenga. “Mestre” Tamoda. In: “Mestre” Tamoda e Kahitu: contos. São Paulo: Ática, 1984.

 


  • textos poéticos

craveirinha rosto

JOSÉ CRAVEIRINHA

ÁFRICA

Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de «strip-tease» e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do pasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meus povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.
***

KARINGANA UA KARINGANA*

Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
— Karingana ua Karingana —
é que faz o poeta sentir-se
gente.

E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser.

— Karingana!

[*Fórmula clássica de iniciar um conto e que possui o mesmo significado de “Era uma vez”.]

***

TIMBILEIROS

A maviosa
velha canganhiça dos timbileiros
acaba os ócios.

E toda a Zavala
bate e torna a bater agora
a cadência dos corações da turba
dançando as amotinações voluptuosas
das timbilas de ossos.

***

TINGANE

(Para o Rui Nogar, “pai” de Tingane)

No coração do homem
a vida era um grande terreno
de capim fresco e de chuva e sol
dando um sentido às folhas dos cajueiros
e acariciando os trêmulos seios
ao pilar do milho.

E era o feitiço dos dedos
em sonhos de compasso
o mundo libertado na marrabenta
dos arames tensos numa tábua de Tingane.

Passos soltos
tarde Xipamanine de domingo
e Tingane rua e viola Tingane
ritmo
ritmo
velho ritmo inconcebível
de uma dança nova!
***

MENSAGEM

(Para a Carol, agora ex-Noêmia de Sousa)

Ouvi tua canção distante
tua voz rouca de saudade dos caminhos de nascença
ouvi e guardei no coração.

E tua voz minha voz nossa voz
não quer grades nem fronteiras
e distância também é grade
também é fronteira dentro de nós.

Ouvi tua voz rouca de saudade
e não encontrei ave solta dos dias
e das noites da Munhuana
e venho aqui chamar teu sangue meu sangue no sangue
venho aqui chamar Carolina
Carolina…! Carolina…!
com a mesma voz minha voz nossa voz
mesmo sangue teu sangue meu sangue nosso sangue
que saudade pode enrouquecer no cantar distante
mas desespero tem que fazer flor em toda parte.
***
A FRATERNIDADE DAS PALAVRAS

O céu
é uma m’benga
onde todos os braços das mamanas
repisam os bagos de estrelas.

Amigos:
as palavras mesmo estranhas
se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo para serem
todas irmãs.

E eis que num espasmo
de harmonia como todas as coisas
palavras rongas e algarvias ganguissam
neste satanhoco papel
e recombinam o poema.

[m’benga – pote de barro; mamanas – mulheres; ronga – dialeto mais meridional do grupo linguístico banto tsonga, falado numa pequena área que inclui a cidade do Maputo; gangussam – namoram; satanhoco – uma coisa que não presta]
***
AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE

Pai:
as maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster Keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
ante os meus sócios Bucha e Estica no “écran” todo
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: – “Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.”

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Algezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o “Trinta-Diabos” de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de “bicicleta” à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de caju na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no xitututo Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen O’Sullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Tarzan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o “Cascabulho” para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardito, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofismas nas covinhas da face
e eu também é que mudámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de sécuas ávidas sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das húmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza afro-algarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!
***

UM CÉU SEM ANJOS DE ÁFRICA

(À Guilhermina e ao Egídio)

Detinha
a menina de cinco anos
tinha pai e tinha mãe
e tinha duas irmãs, Senhor!
Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de retalhos de chita
e fazia duas covinhas de ternura na face
quando sorria, Senhor!
Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de ágeis pernas de pano
olhos brilhantes de cabeças de alfinete
e fulvos cabelos de maçarocas maduras
que a febre derradeira da Detinha
não contaminou.
Olhos cerrados suavemente
boneca Detinha dos seus pais
adormeceu de tétano para sempre
mãozinhas postas sobre o peito
um vestido de renda branca
mais um anjo nosso partiu
no adeus silencioso de boneca
verdadeira num fúnebre berço branco
nossa Detinha tão pura na Munhuana
que até ainda não sabia que era mulata.
Oh! África!
Quantos anjos já nasceram das tuas Munhuanas de amor
e quantas Detinhas partiram para sempre dos teus braços
e quantos filhos inocentes deixaram o teu colo maternal
geraram rios e rios de lágrimas no teu rosto escravizado
e dormiram sem pesadelos na vasta solidão
de um coval mínimo de criança infelizmente
sem as duas covinhas na face
quando sorriam, Senhor?
E ainda não temos um talhão de céu azul para todos
e novamente uma África para amar à nossa imagem
num anjo verdadeiro anjo também cor da nossa pele
e da mesma carne mártir de feitiços estranhos
e o nosso sangue vermelho vermelho quente
como o sangue vermelho de toda a gente.
Para o tal céu onde existe o tal Deus que não sabe
línguas de África línguas de África línguas de África
e só sorriem anjos brancos de asas impossíveis de arminho
precisamente onde esse arminho só pode ser algodão de sofrimento
ainda não há lugar para meninas puras da cor
das meninas filhas e netas de mães e avós pretas
da nossa Detinha que partiu ainda boneca
e tão pura que ainda não sabia que era mulata.
E brinquedos de trapos não se misturam na Munhuana
com bonecas loiras de sapatos e tudo
porque os pais arianos rezando nas catedrais
não deixam, Senhor!
***

BOATO DO VELHO USSENE

Esposa e filhos do velho Ussene
são genuínos espíritos
de fábula.

Por agora o boato apenas põe o velho Ussene
refém-camionista sequestrado
no meio da mata.

Ou
falsa africanitude ou pura africanice
enquanto este feitiço não souber
onde está ou não está o velho Ussene
Mas quando?
A mulher e os filhos vão magicando
a boa nova do velho Ussene
mãos no volante
a saltar dos boatos
e a chegar a casa.


Paula Tavares rosa

PAULA TAVARES
ENTRE LUZ E SOMBRA

(A Leopold Sédar Senghor)

A sombra desliza
por detrás dos vimes
celebra-se a hora
os mortos abandonam os vivos
para viver em paz
por entre as veias finas da terra.

Acendo com as mãos das mães
a candeia antiga de óleo de palma
A serpente do lugar dorme
sobre seus ovos de vida
Os guardiães das fontes
preparam a madrugada
enquanto as mulheres dos clãs
de cima
provam a comida da noite
e velam pelo fogo
das oferendas.

Uma antiga fúria oferece
a fórmula
limpa as palavras
de todas as sílabas mortas.

Regressa a velha canção serere
de seda e sombra
como o silêncio das mães.

O nó da voz atravessou a vida
sustenta a metade da terra
onde deslizam as sombras
por detrás dos vimes
Celebra-se então a hora
os mortos abandonam os vivos
entre sombra e luz
nas veias finas da terra.
***

BOI À VELA

Os bois nascidos na huíla
são altos, magros
navegáveis
de cedo lhes nascem
cornos
leite
cobertura
os cornos são volantes
indicam o sul
as patas lavram o solo
deixando espaço para
a semente
a palavra
a solidão
***
ALPHABETO

Dactilas-me o corpo
de A a Z
e reconstróis
asas
seda
puro espanto
por debaixo das mãos
enquanto abertas
aparecem, pequenas
as cicatrizes

***

Chorar não chorar
a planície fica na mesma

PROVÉRBIO CABINDA

colonizámos a vida
plantando
cada um no mar do outro
as unhas da distância da palavra da loucura
enchendo de farpas a memória
preenchemos os dias de vazio

no alto destes muros
muito brancos
duas bandeiras velhas
a meia-haste
saúdam-se, solenes
***

Perguntas-me do silêncio
eu digo

meu amor que sabes tu
do eco do silêncio
como podes pedir-me palavras
e tempo

se só o silêncio permite
ao amor mais limpo
erguer a voz
no rumor dos corpos
***

MUKAI (2)

O ventre semeado
deságua cada ano
os frutos tenros
das mãos
(é feitiço)

nasce
a manteiga
a casa
o penteado
o gesto
acorda a alma
a voz
olha pra dentro do silêncio milenar.
***
AMARGOS COMO OS FRUTOS

Dizes-me coisas tão amargas
como os frutos…
KWANYAMA

Amado, porque voltas
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito

Onde deixaste a tua voz
macia de capim e veludo
semeada de estrelas

Amado, meu amado
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas
como os frutos
***

VIAGEM

Preparei-te na pedra da casa
asas do pássaro Kalulu
com pedaços de árvores destroçadas pelos raios
e resina quente.
Chamei a metade gémea do espírito
para te passar remédios
da cabeça aos pés.

No fundo de meu corpo perfeito
escondi
pedaços de argila e feitiços fortes.

Em cada uma das doze cabaças da origem
deitei o vinho dos votos
um pano novo da costa
três missangas azuis
e cera da colmeia menor.

Todos os dias conservei aceso o fogo sagrado
Na hora dos fantasmas
o vento diz-me a tua voz
é a voz das viagens
sem regresso.
***

TECIDOS

Meu corpo
é um tear vertical
onde deixaste cruzadas
as cores da tua vida: duas faixas um losango
marcas da peste.

Meu corpo
é uma floresta fechada
onde escolheste o caminho

Depois de te perderes
guardaste a chave e o provérbio.
***

O CERCADO

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p’ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p’ra lá do cercado
***

Não digo a palavra mesmo que o musgo
Nasça na tua sede
Os olhos brilhem de sono antigo
Não, não digo a palavra
Mesmo que seja tua a casa
A palmeira, a esteira, o chão dos dois
Não, não me peça a palavra
Essa que abre o cofre
A montanha e as outras árvores
De mim só tens o silêncio
O sono desacordado das horas
Infinitas horas
Pudesse eu abrir os lábios
E a palavra simples
A do verso e da água
Soaria contra a parede

***

Fosse urdu a minha língua
E o mais antigo som
Encheria de eco
O coração

Fosse música a minha língua
E voariam pássaros
Do meu peito e minha árvore

Fosse dança a minha língua
E meu corpo do vime
Saberia a dobra

a cosmovisão afro-brasileira numa abordagem africanista, dialógica e acadêmica

 

MARCO luz paramentado

ESPAÇO DO AUTOR EDUFBA ENTREVISTA MARCO AURÉLIO LUZ

Movido por profundas questões existenciais, Marco Aurélio Luz, aborda, em Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira, o processo civilizatório que sofreram os africanos no Brasil, e mostra a importância da presença histórica, social e cultural do negro na constituição da identidade nacional brasileira. O livro é dividido em quatro partes, nas quais o autor: demonstra os valores e a linguagem da civilização e cultura da África pré-colonial; caracteriza os valores do colonialismo, do mercantilismo e do escravismo e seus desdobramentos na atualidade; aborda o real significado histórico da insurgência negra na África e no Brasil, caracterizado como uma luta pela afirmação existencial própria, e procura demonstrar a dinâmica da reposição dos valores e linguagem do processo civilizatório negro africano na formação social brasileira.

Por Camila Fiuza

1- Conte-nos a sua trajetória acadêmica.

No início dos anos 70, participei da fundação da ECO Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ e do IACS Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense UFF.  Na UFRJ fiz a pós-graduação, Mestre e Doutor em Comunicação. Na década de 80 vim transferido para a FACED Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia UFBA. Em 1990 realizei o pós-doutorado na Université de Paris V, a Sorbonne no CEAQ Centre D`Etudes de L`Actuel e du Quotidien dirigido pelo professor Michel Maffesoli. Publiquei vários artigos ensaios e livros nesse período e desde sempre colaborei com diversas entidades não governamentais sem fins lucrativos de promoção científica, cultural e religiosa.

2- Como e quando surgiu o interesse em estudar sobre a cultura afro-brasileira?

Por volta de 1970, tentando aprender sobre a real identidade do povo brasileiro, uma demanda política na época, vivendo no Rio de janeiro, cujo tecido social é dividido entre “o morro e o asfalto” subi alguns morros de favelas, especialmente o D. Marta em Botafogo. Lá fiz amizades e frequentei o terreiro de Umbanda Vovó Maria Conga dirigido por D. Maria Batuque. Foi então que estimulado pelo professor da Sorbonne, Georges Lapassade em passagens pelo Brasil, publicamos pela editora Paz e Terra o livro O Segredo da Macumba (1972) que teve muita repercussão na época. No início do ano seguinte a convite do professor Muniz Sodré visitei o terreiro Ilê Agboula no Bela Vista em Ponta de Areia na ilha de Itaparica.

Foi para mim um enorme deslumbramento, como se do alto do Bela Vista eu avistasse, através do culto de Baba Egun os ancestres da tradição nagô, um imenso panorama histórico da presença da África no Brasil. Uma linguagem ritual estética de rara beleza me encantou para sempre. Ainda nesse ano no Rio de Janeiro fui apresentado ao Mestre Didi, renomado sacerdote e artista, retornando de um périplo cultural por países da África, Europa e América, por onde realizou a exposição de Arte Sacra Negra, acompanhado de sua esposa a etnóloga Juana Elbein dos Santos.

Mais tarde fui convidado a participar das tentativas e tratativas de realizar a exposição no Rio. Durante os meses de maio e junho de 1974 elas aconteceram no MAM, Museu de Arte Moderna com grande sucesso e repercussão. Desde então minha vida é dedicada a promover os valores de civilização africano-brasileiro.

3- O livro é o primeiro a inscrever a presença do negro brasileiro numa dinâmica “civilizatória”. Como foi o desenvolvimento da pesquisa e o processo de escrita e concepção da obra?

Durante a trajetória de estudos, me situando na ambiência das comunidades terreiro, e outras instituições de cultura negra, pude perceber o entulho ideológico (possessão, histerismo, animismo, fetichismo, sincretismo, culto popular, pré logismo, inferioridade racial, inferioridade cultural, alienação etc.) característico das teorias constituintes das ideologias do racismo e que acompanham a política de embranquecimento e que alimentam a Razão de Estado pós-abolição da escravatura. Disso resultou o livro Cultura Negra e Ideologia do Recalqueagora em 3ª edição pela EDUFBA/Pallas.

Frequentando e participando da comunalidade africano-brasileira pude então tomar conhecimento do fluxo civilizatório que caracteriza a reposição das tradições culturais desde África para as Américas especificamente para o Brasil e especialmente para a Bahia. Tendo como referência os valores e a linguagem da riquíssima tradição cultural da comunalidade, ela irá sobredeterminar a escrita e a composição da obra que todavia, por outro lado, é adaptada criticamente à linguagem acadêmica. Resumidamente como se referiu a memorável Iyalorixá Mãe Senhora; “da porteira para dentro, da porteira para fora”.

4-No livro Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira, o senhor aborda a importância da presença histórica, social e cultural do negro na constituição da identidade nacional brasileira. Fale um pouco sobre a dinâmica da reposição dos valores e linguagem do processo civilizatório negro africano na formação social brasileira.

Para se entender essa importância há que se levar em conta que na civilização africana é a religião a fonte de irradiação de valores e linguagens culturais. A religião se constitui sumariamente de duas vertentes transcendentes, o culto aos ancestres e ancestrais e o culto as forças do universo que governam a natureza. É dessa fonte de valores e linguagens transcendentes que se desdobram inúmeras outras instituições culturais.

Assim sendo a reposição da religião por um lado, foi o esteio capaz de gerar uma forte presença na constituição da nacionalidade, por outro lado sofreu e vem sofrendo os maiores ataques da política do establishment neocolonial, tanto ao nível da repressão da força publica, principalmente nos inícios do século passado, quanto nas elaborações e divulgação da ideologia do preconceito e do racismo. No culto aos ancestres e ancestrais, em determinadas liturgias, são sempre louvados e cultuados os espíritos das pessoas que em vida se destacaram na determinação e na entrega para a manutenção e expansão da tradição concorrendo para a continuidade da civilização africano brasileira que concretiza os desejos de afirmação existencial própria e de liberdade.

5-Qual a contribuição da obra para a valorização e legitimação da cultura africano-brasileira no país?

Desde que comecei a me dedicar a escrever sobre o assunto fui muito incentivado por lideranças da comunidade. A escrita acadêmica sem dúvida possui um poder de Estado e aí acontece a luta ideológica. Com a preocupação de valorizar a tradição era muito pouca a bibliografia existente.

Certa feita viajando com o líder político sindical Olímpio Marques depois dele ter assistido minha participação numa mesa redonda num seminário, ele ficou um tempo repetindo: “civilização africano brasileira” ”processo civilizatório afro brasileiro” e depois desabafou: – no partido nunca pudemos vislumbrar esses temas que eram vistos como divisionistas. Perguntavam se eu sofria racismo no partido e me acalmavam dizendo que com o fim da luta de classes, automaticamente não haveria racismo… Então a intelligentsia em geral no âmbito acadêmico e político silenciava.

AGADÁ quebrou com esse silêncio. Tanto mais que revisando a história abriu novos horizontes de compreensão do negro como sujeito da história com sua luta cotidiana pela liberdade contra a escravidão, realçando os fatos históricos que mudaram a face do mundo como as lutas da rainha Ginga em Angola, o quilombo dos Palmares no Brasil e a independência do Haiti. E a maior contribuição, acredito, foi ter estabelecido um continente teórico em que está instalada a vertente civilizatória africano brasileira que enriquece indubitavelmente nossa identidade nacional.

6-O senhor tem algum novo projeto de pesquisa em andamento? Pretende escrever outro livro?

Da importância e do porte do AGADÁ, acho difícil. Estou sempre escrevendo e publicando e talvez dessa atividade possa surgir um novo livro. Em 2008 foi publicada pela EDUFBA a 3ª edição aumentada do livro Cultura Negra em Tempos Pós Modernos, que aborda a crise da chamada Modernidade e a atualidade dos valores da civilização africano brasileira em relação a preservação da natureza e à formas de sociabilidade. Também publiquei em 2007 um livro compartilhado com meu saudoso pai e Mestre Didi sobre educação, com o nome da experiência educacional: Oba Biyi, O Rei Nasce Aqui, que procurou responder ao desejo da memorável Iyalorixá Oba Biyi, Mãe Aninha de “ver as crianças de hoje de anel no dedo e aos pés de Xangô”.

7-Deixe uma mensagem para os leitores da Edufba.

Respeitar a herança sagrada do contínuo civilizatório africano brasileiro é superar complexos e recalques de uma identidade fracionada pelas ideologias neocoloniais e é assumir a nossa identidade na íntegra que só nos qualificam mais como povo, enriquecendo o cabedal de linguagens e valores que enriquecem nossa nacionalidade.

FONTE: Blog da Associação Crianças Raízes do Abaeté

Conceição Lima: um roteiro poético para derivas afro-identitárias

conceiçãolima pretovelho

Clique nas imagens para saber mais sobre essa notável poeta sãotomeense e sobre o papel estratégico desempenhado pelo arquipélago onde ela nasceu para a construção histórica e cultural do Atlântico Negro lusófono.


CANTO OBSCURO ÀS RAÍZES

 

Em Libreville

não descobri a aldeia do meu primeiro avô.

 

Não que me tenha faltado, de Alex,

a visceral decisão.

Alex, obstinado primo

Alex, cidadão da Virgínia

que ao olvido dos arquivos

e à memória dos griots Mandinga

resgatou o caminho para Juffure,

a aldeia de Kunta Kinte —

seu último avô africano

primeiro na América.

 

Digamos que o meu primeiro avô

meu último continental avô

que da margem do Ogoué foi trazido

e à margem do Ogoué não tornou decerto

 

O meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, quem sabe, talvez, Abessole

 

O meu primeiro avô

que não morreu agrilhoado em James Island

e não cruzou, em Gorée, a porta do inferno

 

Ele que partiu de tão perto, de tão perto

Ele que chegou de tão perto, de tão longe

 

Ele que não fecundou a solidão

nas margens do Potomac

 

Ele que não odiou a brancura dos algodoais

 

Ele que foi sorvido em chávenas de porcelana

Ele que foi compresso em doces barras castanhas

Ele que foi embrulhado em chiques papéis de prata

Ele que foi embalado para presente em caixinhas

 

O meu concreto avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas talvez, quem sabe, Abessole

 

O meu oral avô

não legou aos filhos

dos filhos dos seus filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.

 

Na curva onde aportou

a sua condição de enxada

no húmus em que atolou

a sua acossada essência

no abismo que saturou

de verde a sua memória

as águas melancolizam como fios

desabitadas por pirogas e hipopótamos.

 

São assim os rios das minhas ilhas

e por isso eu sou a que agora fala.

 

Brotam como atalhos os rios

da minha fala

e meu trazido primeiro avô

(decerto não foi Kunta Kinte,

porventura seria Abessole)

não pode ter inventado no Água Grande

o largo leito do seu Ogoué.

 

Disperso num azul sem oásis

talvez tenha chorado meu primeiro avô

um livre, longo, inútil choro.

 

Terá confundido com um crocodilo

a sombra de um tubarão.

 

Terá triturado sem ilusão

a doçura de um naco de mandioca.

Circunvagou nas asas de um falcão.

 

Terá invejado a liquidez de caudas e barbatanas

enquanto o limo dos musgos sequestrava os seus pés

e na impiedosa lavra de um vindouro tempo

emergia uma ambígua palavra

para devorar o tempo do seu nome.

 

Aqui terá testemunhado

o esplendor do pôr do sol, o luar, o arco-íris.

 

Decerto terá pressentido a calidez dos pingos

nas folhas das bananeiras.

E terá sofrido no Equador o frio da Gronelândia.

 

Mas não legou aos estrangeiros filhos

e aos filhos dos filhos dos estrangeiros filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.

 

Por isso eu, a que agora fala,

não encontrei em Libreville o caminho para a aldeia de Juffure.

 

Perdi-me na linearidade das fronteiras.

 

E os velhos griots

os velhos griots que detinham os segredos

de ontem e de antes de ontem

 

Os velhos griots que pelas chuvas contavam

a marcha do tempo e os feitos da tribo

 

Os velhos griots que dos acertos e erros

forjavam o ténue balanço

 

Os velhos griots que da ignóbil saga

guardavam um recto registo

 

Os velhos griots que na íris da dor

plantaram a raiz do micondó

partiram

levando nos olhos o horror

e a luz da sua verdade e das suas palavras.

 

Por isso eu que não descobri o caminho para Juffure

eu que não dançarei sobre o pó da aldeia do meu primeiro avô

meu último continental avô

que não se chamava Kunta Kinte mas talvez, quem sabe, Abessole

 

Eu que em cada porto confundi o som da fonte submersa

encontrei em ti, Libreville, o injusto património a que chamo casa:

estas paredes de palha e sangue entrançadas,

a fractura no quintal, este sol alheio à assimetria dos prumos,

a fome do pomar intumescida nas gargantas.

 

Por isso percorri os becos

as artérias do teu corpo

onde não fenecem arquivos

sim palpita um rijo coração, o rosto vivo

uma penosa oração, a insana gesta

que refunda a mão do meu pai

transgride a lição de minha mãe

 

e narra as cheias e gravanas, os olhos e os medos

as chagas e desterros, a vez e a demora

o riso e os dedos de todos os meus irmãos e irmãs.

 

Que nenhum idioma nos proclame ilhéus de nós próprios

vocábulo que não és

Mbanza Congo

mas podias ser

Que não és

Malabo

poderias ser

Que não és

Luanda

e podias ser

Que não és

Kinshasa

nem Lagos

Monróvia não és, podias ser.

 

Nascente e veia, profundo ventre

conheces a estrutura que sabota os ponteiros:

novos sobas, barcos novos, o conluio antigo.

 

E consomes a magreza dos celeiros

num bazar de retalhos e tumultos

Petit Paris!

onde tudo se vende, se anuncia

onde as vidas baratas desistiram de morrer.

 

Medram quarteirões de ouro

nos teus poros — diurnos, desprevenidos.

Medra implacável o semblante das mansões

Medram farpas na iníqua muralha

e um taciturno anel de lama em seu redor.

 

A chuva tem agora a cadência de um tambor

outro silêncio se ergue

no vazio dos salões das coiffeuses.

E no rasto do tam-tam revelarei

o medo adolescente encolhido nas vielas

beberei a sede da planta no teu grão.

 

Eu que trago deus por incisão em minha testa

e nascida a 8 de Dezembro

tenho de uma madona cristã o nome.

 

A neta de Manuel da Madre de Deus dos Santos Lima

que enjeitou santos e madre

ficou Manuel de Deus Lima, sumu sun Malé Lima

Ele que desafiou os regentes intuindo nação —

descendente de Abessole, senhor de abessoles.

 

Eu que encrespei os cabelos de san Plentá, minha três vezes avó

e enegreci a pele de san Nôvi, a soberana mãe do meu pai.

 

Eu que no espelho tropeço

na fronte dos meus avós…

 

Eu e o temor do batuque da puíta

o terror e fascínio do cuspidor de fogo

 

Eu e os dentes do pãuen que da costa viria me engolir

Eu que tão tarde descobri em minha boca os caninos do antropófago…

 

Eu que tanto sabia mas tanto sabia

de Afonso V o chamado Africano

Eu que drapejei no promontório do Sangue

Eu que emergi no paquete Império

Eu que dobrei o Cabo das Tormentas

Eu que presenciei o milagre das rosas

Eu que brinquei a caminho de Viseu

Eu que em Londres, aquém de Tombuctu

decifrei a epopeia dos fantasmas elementares.

Eu e minha tábua de conjugações lentas

Este avaro, inconstruído agora

Eu e a constante inconclusão do meu porvir

 

Eu, a que em mim agora fala.

 

Eu, Katona, ex-nativa de Angola

Eu, Kalua, nunca mais em Quelimane

Eu, nha Xica, que fugi à grande fome

Eu que libertei como carta de alforria

este dúbio canto e sua turva ascendência.

 

Eu nesta lisa, escarificada face

Eu e nossa vesga, estratificada base

Eu e a confusa transparência deste traço.

 

Eu que degluti a voz do meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas talvez, quem sabe, Abessole

 

Meu sombrio e terno avô

Meu inexorável primeiro avô

que das margens do Benin foi trazido

e às margens do Benin não tornou decerto

 

Na margem do Calabar foi colhido

e às águas do Calabar não voltou decerto

 

Nas margens do Congo foi caçado

e às margens do Congo não tornou decerto

 

Da nascente do Ogoué chegou um dia

e à foz do Ogoué não voltou jamais.

 

Eu que em Libreville não descobri a aldeia

do meu primeiro avô

meu eterno continental avô

 

Eu, a peregrina que não encontrou o caminho para Juffure

Eu, a nómada que regressará sempre a Juffure.

 

***

 

ANTI-EPOPEIA

 

Aquele que na rotação dos astros

e no oráculo dos sábios

buscou de sua lei, e mandamento

a razão, a anuência, o fundamento

 

Aquele que dos vivos a lança e o destino detinha

Aquele cujo trono dos mortos provinha

 

Aquele quem a voz da tribo ungiu

chamou rei, de poderes investiu

 

Por panos, por espelhos, por missangas

por ganância, avidez, bugingangas

as portas da corte abriu

de povo seu reino exauriu.

 

***

 

ZÁLIMA GABON

 

À memória de Katona, Atúpa Grande

e Atúpa Pequeno

À Makolé

 

Falo destes mortos como da casa, o pôr-do-sol, o curso d’água.

São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova

a patética sombra, seus ossos sem rumo e sem abrigo

e uma longa, centenária, resignada fúria.

 

Por isso não os confundo com outros mortos.

 

Porque eles vêm e vão mas não partem

Eles vêm e vão mas não morrem.

 

Permanecem e passeiam com passos tristes

que assombram a lama dos quintais

e arrastam a indignidade da sua vida e sua morte

pelo ermo dos caminhos com um peso de grilhões.

 

Às vezes, sentados sob as árvores, vergam a cabeça e choram.

 

Erguem-se depois e marcham com passos de guerrilha

Não abafem o choro das crianças, não fujam

Não incensem as casas, não ocultem a face

Urgente é o apelo que arde por onde passam

Seus corações deambulam à sombra nas plantações.

 

Por isso não os confundo com outros mortos

apaparicados com missas, nozados, padres-nossos.

 

Por remorso, temor, agreste memória

Por ambígua caridade, expiação de culpa

aos mortos-vivos ofertamos a mesa do candjumbi

feijão-preto, mussambê, puíta, ndjambi.

 

Para aplacar sua sede de terra e de morada

Para acalmar a revolta, a espera demorada.

 

Eles porém marcharão sempre, não dormirão

recusarão a tardia paz da sepultura, o olvido

acesa sua cólera antiga, seu grito fundo

ardente a aflição do silêncio, a infâmia crua.

 

Eis por que vigiam estes mortos a nossa praça

seu é o aviso que ressoa no umbral da porta

na folhagem percutem audíveis clamores

a atormentada ternura do sangue insepulto.

 

***

 

A CASA

 

Aqui projectei a minha casa:

alta, perpétua, de pedra e claridade.

O basalto negro, poroso

viria da Mesquita.

Do Riboque o barro vermelho

da cor dos ibiscos

para o telhado

Enorme era a janela e de vidro

que a sala exigia um certo ar de praça.

O quintal era plano, redondo

sem trancas nos caminhos.

Sobre os escombros da cidade morta

projectei a minha casa

Recortada contra o mar.

Aqui.

Sonho ainda o pilar –

uma rectidão de torre, de altar.

Ouço murmúrios de barcos

na varanda azul

E reinvento em cada rosto fio

a fio

as linhas inacabadas do projecto.

 

***

 

DESCOBERTA

 

Após o ardor da reconquista

não caíram manás sobre os nossos campos.

E na dura travessia do deserto

Aprendemos que a terra prometida

era aqui.

Ainda aqui e sempre aqui.

Duas ilhas indómitas a desbravar.

O padrão a ser erguido

pela nudez insepulta dos nossos punhos.

 

***

 

SÓYA

 

Há-de nascer de novo o micondó –

belo, imperfeito, no centro do quintal.

À meia-noite, quando as bruxas

povoarem okás milenários

e o kukuku piar pela última vez

na junção dos caminhos.

 

Sobre as cinzas, contra o vento

bailarão ao amanhecer

ervas e fetos e uma flor de sangue.

 

Rebentos de milho hão-de nutrir

as gengivas dos velhos

e não mais sonharão as crianças

com gatos pretos e águas turvas

porque a força do marapião

terá voltado para confrontar o mal.

 

Lianas abraçarão na curva do rio

a insónia dos mortos

quando a primeira mulher

lavar as trancas no leito ressuscitado.

 

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada.

 

***

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AFROINSULARIDADE

 

Deixaram nas ilhas um legado

de híbridas palavras e tétricas plantações

 

engenhos enferrujados proas sem alento

nomes sonoros aristocráticos

e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

 

Aqui aportaram vindos do Norte

por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:

navegadores e piratas

negreiros ladrões contrabandistas

simples homens

rebeldes proscritos também

e infantes judeus

tão tenros que feneceram

como espigas queimadas

 

Nas naus trouxeram

bússolas quinquilharias sementes

plantas experimentais amarguras atrozes

um padrão de pedra pálido como o trigo

e outras cargas sem sonhos nem raízes

porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso

todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

 

E nas roças ficaram pegadas vivas

como cicatrizes – cada cafeeiro respira agora um

escravo morto.

 

E nas ilhas ficaram

incisivas arrogantes estátuas nas esquinas

cento e tal igrejas e capelas

para mil quilómetros quadrados

e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.

E ficou a cadência palaciana da ússua

o aroma do alho e do zêtê d’ óchi

no tempi e na ubaga téla

e no calulu o louro misturado ao óleo de palma

e o perfume do alecrim

e do mlajincon nos quintais dos luchans

 

E aos relógios insulares se fundiram

os espectros – ferramentas do império

numa estrutura de ambíguas claridades

e seculares condimentos

santos padroeiros e fortalezas derrubadas

vinhos baratos e auroras partilhadas

 

Às vezes penso em suas lívidas ossadas

seus cabelos podres na orla do mar

Aqui, neste fragmento de África

onde, virado para o Sul,

um verbo amanhece alto

como uma dolorosa bandeira.

 

***

 

QUANDO O LUAR CAIU

 

Quando o luar caiu e

tingiu de escuro os verdes da ilha

cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam

os murmúrios do teu corpo

e não eras.

Cheguei para despojar de limites o teu nome.

Não eras.

As nuvens estão densas de ti

sustentam a tua ausência

recusam o ocaso do teu corpo

mas não és.

Pedra a pedra encho a noite

do teu rosto sem medida

para te construir convoco os dias

pedra a pedra

no teu tempo consumido.

As pedras crescem como ondas

no silêncio do teu corpo.

Jorram e rolam

como flores violentas.

E sangram como pássaros exaustos

no silêncio do teu corpo

onde a noite e o vento se entrelaçam

no vazio que te espera.

 

Súbito e transparente chegaste

quando falsos deuses subornavam o tempo,

chegaste sem aviso

para despedir o defeso e o frio,

chegaste quando a estrada se abria

como um rio,

chegaste para resgatar sem demora o princípio.

Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,

hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo

mas já tomaste horas e caminhos

já venceste matos e abismos

já a espessura do obô resplandece em tua testa.

E não me bastam pombas dementes no teu rosto

não bastam consciências soluçante em teu rasto

não basta o delírio das lágrimas libertas.

Cantarei em pranto teu regresso sem idade

teu retorno do exílio na saudade

cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.

Para te saudar no mar e

na manhã dos cantos sem represas

saudarei a praia lisa e o pomar.

Direi teu nome e tu serás.

 

***

 

A MÃO DO POETA

 

Ao Fred Gustavo dos Anjos,

depois de ter lido Paisagens e Descobertas

 

O poeta, é sabido, conhece

o sentido da sua mão

e perdoa a bizarria

de crescer sozinha

com o impulso da ave

ou o fermento do pão

 

Porque ele sabe que a mão

o prende à raiz do chão

onde o rigor do seunão!

varre da casa a podridão

 

Por isso, se o poeta à praça traz

seus dentes caídos, a face desfeita

é para perscrutar no mastro

o pano que drapeja

e corrigir com a mão

a direcção do vento.

 

***

 

A OUTRA PAISAGEM

 

Da lisa extensão dos areais

Da altiva ondulação dos coqueirais

Do infindo aroma do pomar

Do azul tão azul do mar

Das cintilações da luz  no poente

Do ágil sono da semente

De tudo isto e do mais –

a redonda lua, orquídeas mil, os canaviais –

de maravilhas tais

falareis vós.

Eu direi dos coágulos que mineram

a fibra da paisagem

do jazigo nos pilares da Cidade

e das palavras mortas, assassinadas

que sem cessar porém renascem

na impura voz do meu povo.

 

***

 

VERSÃO DE DESERTO

 

Trazido não sei por que apelos, urgências

Vieste impugnar o momento que me cerca.

Demora – conclamas – a clara voz em minha boca.

 

Peço-te porém que repares:

não agonizam dunas nestes campos.

Aqui não jazem ossadas sem registo

nem apodrecem espectros de

perdidas caravanas.

Nenhum trilho foi abandonado

e não reneguei

Não, não reneguei

o nome do pai do meu pai

 

O meu deserto é a vertical semente de um barco.

O areal (seu brilho de nada e de lago)

não é senão a metáfora de uma horta

talvez uma projectada cisterna.

Esta claridade nos olhos do griot cego

este reflexo que obscurece a luz do dia

não irradia de um céu empedernido

a minha fome não é a maldição

do velho deus inclemente.

E todavia devora-me a cicatriz da penúltima batalha

e tenho por estigma

a memória de um longo fratricídio.

Mas estou aqui

sob este sol que alucina

a savana ao meio-dia.

Aqui, sob este toldo rasgado

onde envergo a sede dos meus ossos

e perduro sem jardim nem chuva

sem tambores nem flauta

sem espelhos,

companheira do tempo que amarra

as minhas veias ao umbigo do poço.

 

Não, nenhum trilho foi esquecido,

e venero o profano nome do pai do meu pai.

 

Lenta a vertigem vai esculpindo

os murmúrios de um rio incerto

planto estacas

em redor da vigília dos meus mortos.

Não anuncio.

Tardo e não prenuncio reino ou abismo.

Não sou mensageira de vãos sacrifícios,

épicas derrotas, novos caminhos.

Aqui onde o inferno acontece

neste lugar onde me derramo e permaneço

inauguro a véspera da minha casa.

O meu silêncio franqueia

o umbral de qualquer coisa.

 

***

 

PARA TE ENCONTRAR

 

Para te encontrar levantarei os prumos.

Inventarei a casa nos mesmos rios

Para nos descobrir

 

***

 

O CATACLISMO E AS CANÇÕES

 

Feliz o que de mim restar, depois de mim

Se uma só das canções cantadas

Viver além daquele que em mim agora canta.

Da hecatombe não salvaria contudo

Uma só das canções que cantei e canto.

Às entranhas do olvido

Antes roubaria o riso das crianças

E a idade do provérbio.

 

Assim aos vindouros

Intacto ofertaria o enigma da luz.

 

***

 

FRONTEIRA

 

Trespassar é a sina dos que amam o mar.

 

***

 

ESTA VIAGEM

 

Esta viagem não responde às minhas perguntas.

 

Trespassei o aço das certezas.

Heranças, devorei-as.

 

A etapa seguinte rasga a prévia cartografia

Toda a fronteira é um apelo à renúncia.

 

Perscrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.

 

Ao encontro da linguagem da tribo azul

cada passo me afasta de um rito sagrado.

 

Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:

a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.

 

Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada.

 

***

 

SEMENTES

 

Não procurem no vazio das cavernas

a marca primordial, a germinação.

Cavernas são cavernas.

Na onda se inscreve todo o princípio

as sementes da blasfémia e da redenção.

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