realidade e riqueza dos sistemas africanos de escrita

Na postagem transcrita a seguir apresenta-se um ótimo panorama acerca das formas gráficas de linguagem desenvolvidas na África, leitura imprescindível para quem ainda pensa que a escrita não foi inventada, ou tinha funções meramente “decorativas”, nas sociedades africanas. Vale frisar que a tradição dos ‘sona’ foi desenvolvida entre os povos bantus que maciçamente compuseram os fluxos do tráfico escravagista para o Brasil, povos que foram classificados como “primitivos” nos estudos racialistas de Nina Rodrigues. Entretanto, conforme apontam as pesquisas de Paulus Gerdes, professor moçambicano de matemática na Universidade Eduardo Mondlane, um lusona pode ser utilizado para computar cálculos complexos, ou servir de matriz para elaborados quebra-cabeças. Ou, como analisa Fernando Ribeiro na postagem abaixo, para compor graficamente narrativas e parábolas, fazendo dos sona uma das formas de oratura – isto é, de linguagem “ouvida-falada-vista” – a que se refere Manuel Rui. Não deixe de visitar os links no final da postagem para saber mais acerca da enorme versatilidade e criatividade implicada nos ideogramas africanos.

Recomendamos também uma leitura da postagem MANDOMBE, a escrita dos negros, publicada no blogue KANDIMBA, a qual discorre sobre novas formas de escrita surgidas na África no bojo da resistência cultural ao colonialismo.

africamandombe


Desenhos na areia, em África

Um lusona

Uma tradição existente — mas que corre sério risco de extinção — no leste de Angola, no sul da República Democrática do Congo e no oeste da Zâmbia consiste no desenho de figuras geométricas que são habitualmente traçadas na areia com a ponta de um dedo. Estas figuras são constituídas por redes de linhas sinuosas. Estas redes podem ser muito elaboradas e complexas.

A região de África habitada pelos Cokwe

O desenho começa pela marcação de uma quadrícula de pontos, marcados a espaços regulares com as pontas dos dedos. Em volta dos pontos são seguidamente traçadas linhas, que apresentam uns troços retos e outros em pequenos arcos de circunferência, as quais se mantêm sempre equidistantes dos pontos. As linhas são sempre fechadas, sendo cada uma delas traçada sem levantar o dedo da areia e seguindo regras bem específicas, que são impostas pela tradição. Quase todos os troços retos têm orientações bem definidas: horizontais, verticais e oblíquas para a esquerda e para a direita e com uma inclinação de 45 graus. Pode haver outras linhas que tenham curvas que não obedeçam à regra indicada ou que tenham orientações diferentes das referidas, mas são em muito menor número.

Desenhando um lusona na areia

Na língua cokwe (lê-se “tchócuè”) ou quioca, cada um destes desenhos chama-se lusona (lê-se “lussona”), que é o singular da palavra plural sona. Nos idiomas lucazi (lê-se “lutcházi”) e ngangela cada desenho deste tipo chama-se kasona, a que corresponde o plural tusona (leem-se “cassona” e “tussona”, respetivamente).

Chased chicken's path

Em séculos passados, estes desenhos eram conhecidos e feitos numa área geográfica muito mais vasta do que a que foi referida acima. O frade capuchinho italiano Giovanni Antonio Cavazzi da Montecuccolo (1621-1678), que pintou aguarelas ingénuas (mas valiosíssimas do ponto de vista documental) sobre a vida nos reinos africanos do Congo, Ndongo e Matamba, reproduziu em algumas das suas pinturas desenhos que eram em tudo iguais aos sona.

Ceremonial Procession, Kingdom of Kongo, 1670s Ezio Bassani, Un Cappuccino nell AfricaAguarela pintada por Antonio Cavazzi no reino do Congo. A caixa transportada pela segunda figura a contar da esquerda está decorada com desenhos do tipo sona

Os sona têm vindo a ser estudados pelo matemático moçambicano Paulus Gerdes, que descobriu neles propriedades matemáticas notáveis, por exemplo no domínio da Análise Combinatória. Não cabe no espaço de um artigo de um blogue a exposição das propriedades matemáticas que os sona possuem. Mas posso afirmar o seguinte: os conhecimentos matemáticos dos africanos que vivem em sociedades tradicionais rurais vão muito para além da mera contagem de cabeças de gado. Estes conhecimentos incluem conceitos tais como máximo divisor comum, menor múltiplo comum, combinações e permutações, entre outros, ainda que os camponeses africanos não saibam quais são as respetivas fórmulas nem nunca tenham ouvido falar em fatoriais.

Eles podem não saber a fórmula que permita calcular uma permutação, por exemplo, mas têm os conhecimentos suficientes para saber antecipadamente, sem errar, quantas linhas fechadas é que irão ser traçadas num lusona, em função do número de pontos marcados na areia e das inflexões que as linhas irão sofrer no desenho.

Podemos igualmente chamar ideogramas aos sona, pois eles também são uma representação gráfica de contos, provérbios, jogos, mitos, cantos, parábolas, leis, etc. Com efeito, à medida que vai contando (e também cantando, pois a música está quase sempre presente nas manifestações culturais africanas), o camponês africano vai traçando um lusona na areia, o qual acaba por ser uma representação simbólica da evolução da narrativa.

Apresentam-se a seguir alguns sona, acompanhados da correspondente história que representam.

Desenhos na areia 1

Sambalu, o coelho (posicionado no ponto B), descobre uma mina de sal-gema (ponto A). Imediatamente, o leão (ponto C), a onça (ponto D) e a hiena (ponto E) reclamam a posse, reivindicando o direito do mais forte. O coelho, afirmando o inviolável direito do mais fraco, rapidamente faz uma vedação para isolar a mina dos usurpadores. Como se pode verificar no desenho, só é possível chegar ao ponto A (a “mina de sal-gema”) a partir do ponto B (o “coelho”) sem atravessar a linha sinuosa (a “vedação”). Os outros pontos (o “leão”, a “onça” e a “hiena”) estão separados de A pela linha.

Desenhos na areia 2

Um certo caçador, chamado Cipinda, foi caçar levando o cão Kawa e apanhou uma cabra. Quando regressou à aldeia, o caçador dividiu a carne com Kalala, o dono do cão. Kawa ficou só com os ossos. Algum tempo depois, Cipinda pediu de novo os serviços do cão, mas este recusou-se a ajudá-lo. Disse ao caçador para levar Kalala, já que era com ele que estava habituado a dividir a carne.

Um dia, o leopardo Kajama pediu à cegonha Kumbi algumas penas para forrar a sua toca. Uns dias mais tarde, a cegonha pediu ao leopardo um bocado da sua pele. Quando Kajama satisfez o pedido da cegonha, morreu. O filho de Kajama tentou vingar a morte do pai, mas Kumbi, que conhecia muito bem o pântano, conseguiu escapar. Neste desenho, a linha ondulada é o trajeto da cegonha em fuga, Kumbi. Os pontos representam o pântano através do qual Kumbi fugiu. O desenho consiste, de facto, em duas linhas curvas entrelaçadas.

Desenhos na areia 8b

O galo e o chacal queriam casar com a mesma mulher. Quando pediram a mão ao pai dela, este disse-lhes que eles teriam que dar um alembamento (dote). Quando se divulgou a notícia de que a noiva tinha morrido, o galo chorou inconsolável, enquanto que o chacal só lamentou a perda do pagamento adiantado. O pai, que tinha intencionalmente espalhado o boato, para saber qual dos pretendentes merecia a sua filha, deu-a ao galo, que tinha demonstrado um verdadeiro amor.

A figura que está em cima é Deus, à esquerda está o Sol, à direita está a Lua e em baixo está um ser humano. Este lusona representa o caminho para Deus.

Um dia, o Sol foi visitar Deus. Deus deu um galo ao Sol e disse: «Volta cá amanhã de manhã antes de partires». No dia seguinte de manhã, o galo cantou e acordou o Sol. Quando o Sol se apresentou diante de Deus, este disse-lhe: «Tu não comeste o galo que te dei para o jantar. Podes ficar com o galo, mas tens que regressar todos os dias.» É por isso que o Sol dá a volta à Terra e reaparece todas as manhãs. A Lua também foi visitar Deus e recebeu um galo de presente. No dia seguinte de manhã, o galo cantou e acordou a Lua. Mais uma vez, Deus disse: «Tu não comeste o galo que te dei para o jantar. Podes ficar com o galo, mas tens que regressar a cada vinte e oito dias.» É por isso que o ciclo da Lua dura vinte e oito dias.

O ser humano também foi visitar Deus e recebeu um galo de presente. Mas o humano estava com fome depois de ter feito uma tão longa viagem e comeu parte do galo ao jantar. Na manhã seguinte, o Sol já ia alto no céu quando o humano acordou, comeu o resto do galo e apressou-se a visitar Deus. Deus disse-lhe: «Eu não ouvi o galo cantar esta manhã.» O humano respondeu-lhe a medo: «Eu estava com fome e comi-o.» «Está bem,» disse Deus, «mas escuta: tu sabes que o Sol e a Lua estiveram aqui, mas nenhum deles matou o galo que lhes dei. É por isso que eles nunca morrem. Mas tu mataste o teu, e por isso deves também morrer. Mas quando morreres deves regressar aqui.»

E assim acontece.

A figura que está em cima é Deus, à esquerda está o Sol, à direita está a Lua e em baixo está um ser humano. A linha reta que está ao centro representa o caminho para Deus. (segundo Mário Fontinha, 1983)

Quando o Sol morreu, os seus familiares foram ter com Deus. Foram recebidos por Samuto, o porteiro de Deus, que lhes disse: «Embrulhai o Sol num pano vermelho e colocai-o numa árvore». Eles assim fizeram. Na manhã seguinte, eles ficaram muito felizes por ver o Sol a brilhar novamente. O mesmo aconteceu com a Lua. Desta vez, Samuto aconselhou aos seus parentes que colocassem barro preto num pano branco, a envolvessem com este e a pusessem numa árvore. Assim fizeram e nessa mesma noite a Lua voltou a brilhar.

Quando o chefe de uma aldeia morreu, os habitantes também foram até Deus. No entanto, estes foram muito arrogantes e exigiram a Samuto, fazendo-lhe ameaças, que os levasse até Deus. Deus mandou-os de volta, dizendo-lhes: «Fazei uma padiola e levai o vosso chefe para um buraco que abrireis no mato, onde ele irá descansar. Depois devereis comemorar a sua morte durante cinco dias! A seguir devereis esperar até que o vosso chefe se levante novamente!»

Eles esperaram em vão, evidentemente. Foi assim que a morte veio ao mundo.

Leopardo fêmea com cinco filhotes

Algumas páginas na Web:

http://nautilus.fis.uc.pt/bspm/revistas/20/021-027.150.pdf
http://www.exploratorium.edu/store_images/publications/masc_sona.pdf
http://plus.maths.org/issue19/features/liki/index.html
http://members.tripod.com/vismath/paulus/

FONTE: A MATÉRIA DO TEMPO

autorias & obras que marcaram o contexto literário angolano no ano passado

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2014: Visão panorâmica do ano literário nacional

ISAQUIEL CORI

Luanda deixou de ter o “monopólio” dos lançamentos de livros, com alguns autores, sobretudo neófitos, a preferirem serem eles próprios a editar as suas obras e a lançá-las, em primeira mão, nas suas províncias de origem ou residência.

Com os lançamentos literários a ocorrerem nas várias cidades, um fenómeno propiciado, sobretudo, pela multiplicação das universidades regionais, tornou-se mais difícil acompanhar e avaliar globalmente a qualidade do que se publica.

Passamos a apresentar um resumo do que foi publicado em 2014, uma visão que há-de pecar, certamente, por não ser exaustiva, tanto pela impossibilidade de podermos captar toda a dinâmica do mercado livreiro nacional como pela limitação de espaço. Desde já pedimos desculpas pelas omissões.

O escritor Manuel Rui entregou ao público leitor, no dia 15 de Janeiro, o romance, “A Trança”, editado pela Mayamba. Como o autor sinalizou, o novo livro representa uma mudança de estilo e de abordagem da sua própria escrita. “Talvez ‘A Trança’ possa ser encarada como uma mudança de estilo, uma mudança de ideias. Mudar não é triste, nem é triste mudar de ideias. Triste é não ter ideias para mudar”. Na ocasião, a linguista Amélia Mingas diria que “A Trança” é, no fundo, o país que Manuel Rui tanto ama e que é um melting pot de saberes, de sabores, de ideias, pensamentos e criação próprias”.

Manuel Rui, pela mão da UEA deu a estampa, em Abril, o romance “A Bicha e a Fila”, escrito a quatro mãos com o escritor brasileiro Marco Guimarães. “O livro não é muito de humor, é mais chaplinesco. A comédia cruza sempre com a tragédia. […] Quando há tragédia a gente pode dançar, chorar e rir ao mesmo tempo”, explicou Manuel Rui. Ainda em Abril publicou “Quitandeiras e Aviões”, livro de contos.

Maria Celestina Fernandes lançou, com chancela da Plural Editores, a 28 de Janeiro, nos vinte e cinco anos da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, o livro “Lagoa Misteriosa”, vencedora ex-aequo do Prémio Caxinde do Conto Infantil relativo ao ano 2012. Segundo a autora, o conto foi idealizado a partir da visita que fez ao jardim Majorelle, na cidade marroquina de Marraquexe. “Saí de lá tão encantada que tive vontade de escrever alguma coisa”, disse, acrescentando que enquanto escrevia não lhe saía da cabeça “uma história que ouvi em tempos sobre o mito que gira à volta de uma das nossas lagoas, em que é preciso ter permissão dos mais velhos para mergulhar e passar por alguns rituais”.

No dia 5 de Fevereiro foi lançado no jango da UEA o volume com as 12 edições do boletim “Cultura” (segunda série) da Sociedade Cultural de Angola. O trabalho, resultado de uma pesquisa e selecção de Irene Guerra Marques e Carlos Ferreira, foi apresentado pelos escritores e sobreviventes da geração da Cultura, Henrique Guerra e Arnaldo Santos. O livro da dupla de pesquisadores contém igualmente a reprodução de um relatório exaustivo e analítico da PIDE, datado de 17 de Setembro de 1965, sobre o que considerava actividades subversivas da Sociedade Cultural de Angola e do seu jornal “Cultura”.

Ainda em Fevereiro Hendrik Vaal Neto deu de presente ao público os romances “Gamal” e “Makala”. Segundo Carmo Neto, que apresentou a obra, Gamal é um intenso diálogo com a miséria, “socorrendo-se duma linguagem simples” que conta “a história de Mutama, um nobre e tradicional chefe africano, criador de gado, caído em desgraça por culpa do mundo: um homem outrora rico, presenteado com a desgraça como herança (…)”. Já “Makala” é um retorno do autor ao cenário do Roque Santeiro, o antigo mercado de Luanda, tido como o “maior de África”.

“Esse motor da economia informal Luandense que alimentou milhares de famílias constitui o núcleo temático central da narrativa de Hendrik Vaal Neto”, constatou o escritor António Panguila, ao apresentar o livro.

“Como narrativa que é, Kalucinga acaba por ser uma colagem ou, melhor, uma perfeita osmose entre a ficção, a realidade autobiográfica e a utopia da autora, que, sem pertencer à famosa geração do mesmo nome, continua a sonhar com uma terra de justiça e fartura para todos num contexto histórico completamente diferente, onde em princípio o sonho da primeira geração já devia estar realizado mas não está, porque virou miragem”. Foi assim, de rompante, que o jornalista Reginaldo Silva começou por introduzir os potenciais leitores ao livro “Kalucinga”, da estreante autora Alexandra de Vitória Pereira Simeão. No Espaço Verde Caxinde, também em Fevereiro.

Henrique Guerra, um dos últimos sobreviventes da geração da “Cultura”, cuja obra, como ele próprio diz, sendo “curta em volume”, tem o condão de ser uma das mais representativas da literatura angolana, voltou aos escaparates a 26 de Fevereiro com o livro de contos “O Tocador de Quissanje”. O velho autor foi homenageado em Janeiro pelo Ministério da Cultura e em Fevereiro pela UEA, de que é um dos membros fundadores. “O que me motivou a escrever foi uma vez ter lido no jornal ‘A Província de Angola’, lá para o ano de 1952 ou 1953, o poema do Aires de Almeida Santos, ‘A Mulemba secou’. Fiquei tão fortemente impressionado que tentei fazer uma música à volta desse poema”, disse, em entrevista a este jornal. “Verifiquei que para além daquilo que dávamos através dos compêndios escolares, na disciplina de Literatura Portuguesa, havia uma realidade angolana, um quotidiano que estava arredado da literatura oficial”, explicou.

Em Março, 07, o escritor Adriano Mixinge recebeu o Prémio Sagrada Esperança 2013 ao mesmo tempo que procedeu ao lançamento do romance premiado, “Ocaso dos Pirilampos”. O autor, no seu romance, desvela os medos e os fantasmas do homem angolano, imerso numa época de imensas encruzilhadas e incertezas quanto ao futuro e à própria existência. O livro já conta com uma edição portuguesa, pela editora “Guerra e Paz”.

Brigitte Caferro publicou o poemário “Do Meu Íntimo Mais Íntimo” que, segundo o escritor Soberano Canhanga, nos seus 76 poemas “apregoa, acima de tudo, o amor, o ser e a sociedade”, sendo a sua escrita sobretudo intimista, com o seu grito a ir “ao encontro do ‘nós’ social”. Canhanga saudou Brigite Caferro, nas páginas deste jornal, como uma autora que “vem preencher o seu lugar e trazer vida à criatividade artística na Lunda Sul”.

Arnaldo Santos deu à luz pública (27/03) “O Mais-Velho Menino dos Pássaros”, obra literária que emerge do Kinaxixi mítico da sua infância (que nem por sombras lembra o actual), em cuja floresta exuberante chilreavam as rolas, os bicos de lacre, os bigodes, os cardeais, os catetes, os maracachões, os pardais, os pica-flores, as pírulas, os rabos de junco, os siripipis e as viuvinhas negras.

Está-se logo a ver, aquele Kinaxixi era o paraíso das crianças, que nele se entretinham a caçar os pássaros com as suas fisgas certeiras, quando não se ficavam simplesmente a admirar os muitos prodígios da natureza. O livro, que conta com ilustrações saídas da pena e imaginação de Luandino Vieira, contém, segundo o sociólogo Paulo de Carvalho, que o apresentou ao público na União dos Escritores Angolanos, “elementos que podem contribuir para os pais aprimorarem a forma de educação dos seus filhos”. Por sua vez Arnaldo Santos afirmou que “gostaria que o livro fosse um bom pretexto para (…) relacionamento e compreensão das coisas do mundo”.

No dia 4 de Abril, o da consagração da Paz em Angola, Pichel de Lukoko, etnólogo, historiador e pesquisador da tradição oral, apresentou ao público do Huambo o livro “Wambu Kalunga em Elegia”, que, segundo José Luís Mendonça, que lá esteve e escreveu neste jornal, apresenta “o retrato literário do rei cuja autoridade perdurou pelas embalas e sobados que hoje integram a província do Huambo e à qual legou o seu nome para a posteridade”. No dizer do historiador Venceslau Cassessa, “o livro do mais velho Pio Chiwale tem muito mérito. Vem colocar um pilar muito importante no conhecimento do que é Angola. Porque é que o Huambo se chama Huambo. A história dos reinos da região do Centro de Angola”. Ainda segundo o historiador, tudo isso “são matérias que precisam de ser escritas pelos mais velhos”, para que o seu conhecimento não desapareça. “Quem semeia com dor, colhe com alegria”, resumiu assim o autor a satisfação por dar parto ao livro.

A Mediateca de Benguela acolheu, a 3 de Abril, a cerimónia de lançamento do mais recente livro de poemas da autoria de Isabel Ferreira, intitulado “O Leito do Silêncio”, num acto co-organizado pela Rádio Benguela e o Movimento Lev’Arte. O docente e historiador Tuca Manuel, que cuidou da apresentação, sublinhou, segundo correspondência do nosso colaborador Gociante Patissa, que se estava diante de uma autora “a retratar a sua vivência e a de sua gente, mas sem ser com uma voz de soberba, portanto longe de alguém que se coloca no papel de subalternizar os demais em função das suas habilidades”. Por sua vez Mário Kajibanga, director provincial da Cultura, a propósito do livro referiu: “por um lado, podemos ver o conselho de não levarmos a público coisas que acontecem na intimidade do lar. Por outro, podíamos dizer que é a falta de partilha de coisas boas que pode levar a violências. Porquê calar, se podemos partilhar coisas boas?”.

Carlos Ferreira, o Cassé, jornalista e escritor, entregou ao mercado (18/04, na União dos Escritores Angolanos) o livro “Memórias de Nós”, cerca de centena e meia de poemas-letras para canções escritos ao longo de trinta anos, sendo mais de metade criados ao longo da década de 1980. A obra tem um enfoque geracional, sendo uma oferta do autor, sobretudo, mas não só, para aquela geração de angolanos que, no contexto estrito da literatura, o crítico literário Luís Kandjimbo cunhou como sendo Das Incertezas, e que Paulo Flores, num contexto mais geral, cantou como tendo sido feliz sem o saber. É a geração convencionalmente referida como a dos anos ‘80 e princípios dos ’90 e cujos integrantes estão hoje na faixa etária dos 40/50.

“Janelas de Orvalho” é o livro de poemas de Graça Arrimar, apresentado por Agnelo Carrasco, que a dado momento disse: “duma temática inicialmente muito pessoal, a autora transita para temas muitas vezes mais universais. Poder-se-á dizer que a primeira parte não se continua na segunda. (…) Se na primeira parte os poemas constituem um conjunto homogéneo pelas afinidades de conteúdo que apresentam (…) o mesmo já me não parece tão linearmente possível na segunda parte”. Agnelo Carrasco sublinha: “os poemas, de um modo geral, não se continuam, cada um assume um conteúdo que não é repetição, nem continuidade”.

“A vivência e a sobrevivência através de uma infância, adolescência, seguidas de uma juventude em tempos de possibilidades precárias; a desordem espiritual, colectiva, traumas antigos e do pós-guerra, bem como inconsistências e desnivelamentos que não vale a pena nem classificar nem enumerar”, segundo o poeta João Tala, “formam um quadro inquietante” que sobre um formato estético emprestam o conteúdo ao livro de poemas “Rua da Insónia – Um manifesto de inquietações”. O poeta António Pompílio, que apresentou o novo poemário a 25 de Abril, na UEA, lembrou que João Tala é médico e que, talvez por isso, no seu livro “ele faz um diagnóstico à alma”.

Cristóvão Neto selecionou e reuniu alguns dos seus melhores poemas na antologia “O Lugar do Nome”, que apresentou ao público em Abril, na sede da UEA. “Apesar de sofrido, magoado, introspectivo, [O Lugar do Nome] é sobretudo uma exaltação ao amor, um verdadeiro canto de esperança, um hino à vida. É assim que o vemos. Recusamo-nos a vê-lo de outro modo”, afirmou o também poeta Conceição Cristóvão, ao ler o texto de apresentação que intitulou “Da Arqueologia da Palavra à Reinvenção do Signo”.

“Mesmo sendo um livro muito profundo, o poeta teve o condão de utilizar uma linguagem magistralmente simples, apesar de conotativa, pelo que qualquer leitor poderá fruir de uma boa e enriquecedora leitura”, não necessitando de “mobilizar quaisquer competências específicas, típicas da crítica e análise literárias”, rematou.

Em Maio Albino Carlos deu a estampa, com chancela da UEA, o livro de estórias “Issunji”, que em Novembro seria distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes. José Luís Mendonça escreveu no texto de apresentação: “das treze estórias, nove são aquilo que eu chamaria de painéis carregados de tintas emocionais e emocionantes. Consistem em flashes instantâneos em que a função poética da língua, em termos de fotossíntese, transmuta o quadro concreto da vida social em imagens ou frescos agitados pelo manancial de um surrealismo mágico”.

A escrita de “Issunji”, prossegue JL Mendonça, “escorre como tinta de painéis expostos em série, dos quais o pintor teria escolhido como tema um país (Angola) e uma época (o conflito pós independência) e as suas bifurcações ou emanações calamitosas. Para sofrer a dor das armas, não é preciso estar debaixo de fogo. Basta nascer numa geografia conflituosa. Sofre-se na mesma”. E sublinha: “O estado da alma de um país. Um autêntico livro aberto que revela a história da desgraça inscrita nos destroços e traços da guerra”.

José Luís Mendonça, no seu primeiro romance, “No Reino das Casuarinas”, que veio a público em Junho, “relata a história de sete angolanos vítimas da síndroma da amnésia auto adquirida, provocada por traumas devido à sua experiência de guerra, no período compreendido entre 1961 e 1987”, explica uma nota editorial da Texto Editores. “Durante o internamento no Hospital Psiquiátrico de Luanda, o grupo decide evadir-se para fundar um Estado na Floresta da Ilha de Luanda, denominado ‘Reino das Casuarinas’”.

Por ocasião dos 90 anos do nascimento do Dr. António Agostinho Neto, poeta-maior e primeiro presidente de Angola, a Fundação Agostinho Neto pôs à disposição do público, no dia 14 de Maio, em Luanda, na sede da União dos Escritores Angolanos, o livro “A Noção de Ser” e o DVD “Portugueses Falam de Agostinho Neto”. O livro, com mais de 800 páginas, é uma colectânea de 65 textos analíticos sobre a poesia de Neto, assinados por 62 autores, a maioria professores universitários, escritores e jornalistas de vários países e publicados originariamente em livros, jornais e revistas ao longo dos últimos 40 anos. O DVD reúne entrevistas, produzidas pela FAAN, de políticos e intelectuais portugueses, num testemunho audiovisual sobre a trajectória e a dimensão política, cultural e humana de Agostinho Neto. “O livro procura mostrar o mais amplamente possível os vários tipos de recebimento da obra de Agostinho Neto. Será um marco na história da recepção e do estudo da obra de Neto”, disse Pires Laranjeira, professor da Universidade de Coimbra, o principal organizador da publicação. Em Setembro foi apresentado em Paris, França, o livro “Poésie Complète de Agostinho Neto”, numa iniciativa da Embaixada de Angola, no âmbito das comemorações do Dia do Herói Nacional.

O livro “Ombela – A Estória das Chuvas”, de Ondjaki (texto) e Rachel Caiano (ilustrações), editado em Junho pela Plural Editores, traz uma estória singela, própria para encantar os petizes, e introduzi-los, pelas e com as palavras, no mundo do maravilhoso. A estória, premiada no concurso do Conto Infantil da Associação Chá de Caxinde, 2012, situa-se na corrente daquelas que buscam preencher a curiosidade natural das crianças pelo conhecimento da origem e da razão primordial das coisas. Ombela, que em umbundo significa chuva, é o nome de uma deusa criança, que, lá longe na escuridão dos tempos, entediada com a sua majestosa divindade, estava cheia de tristeza. Decide então chorar. As suas lágrimas salgadas caem em forma de chuva e formam os mares e os oceanos. Mais tarde, já de bom humor, chora de alegria, derramando agora lágrimas/chuvas de água doce, alimentando as plantas e criando sobre a terra inumeráveis rios e lagos.

Em Junho o Jardim do Livro Infantil foi o palco escolhido para o lançamento de várias obras literárias para crianças. Em Luanda, num ambiente festivo como só as crianças sabem protagonizar e proporcionar, as escritoras Maria Eugénia Neto e Cremilda de Lima apresentaram-se para autografar os respectivos livros: “Os Animais de Duas Gibas” e “A Montanha do Sol”; e “O Kyanda ni Kaulungu ka Fuxi”, este em kimbundo.

Rotane Sandjimba, que se estreou em livro em Agosto com “Em Busca da Dignidade” (Editora Mayamba), romance que recupera a memória das peripécias dos que partiam para as Lundas na miragem de enriquecerem com o garimpo de diamantes, é um caso de autor promissor que deve ser devidamente acompanhado.

O escritor e político Manuel Pedro Pacavira propôs à leitura, em Agosto, o livro “Angola e o Movimento Revolucionário dos Capitães de Abril em Portugal – Memórias (1974-1976)”, com prefácio de Aldemiro Vaz da Conceição e chancela editorial da Mayamba. A obra “é uma peça preciosa para melhor se compreender o período conturbado entre a queda do fascismo em Portugal e a proclamação da independência de Angola (…)”, refere o prefaciador.

“A obra “Surrealismo do Quotidiano”, da autoria de Djina, pseudónimo literário de Dina Sebastiana de Sousa e Santos, é para todo e qualquer leitor um estimulante desafio de sobrevivência a um quotidiano como o é o surrealismo”. As palavras são do académico António Quino, quando falava sobre o livro no acto do seu lançamento em Setembro, no Espaço Caxinde. “No primeiro contacto com o livro, perguntei-me: que estratégia de leitura devo adoptar para responder a uma inquietação minha, e que espero seja também vossa: Por que razão julgo que devem ler “Surrealismo do Quotidiano”?”, interroga-se António Quino, para, no final, convidar os leitores a, com a sua própria estratégia de leitura, deslindarem os muitos novelos da obra.

O novo livro de Lopito Feijó, “Desejos de Aminata”, publicado este ano em Luanda, é uma incursão poética e exploratória pela topografia e a toponímia do corpo feminino, do desejo carnal, do amor físico. Essa incursão exploratória é tão profunda e ousada que chega a ultrapassar os limites convencionais do erótico.

“Esta obra, ‘A Poeira do Tempo’, apresenta-nos um Escritor na sua pulsação íntima de jornalista e poeta. O estilo é preciso, conciso e claro. E há centelhas de poesia a faiscar do comboio da escrita. E um certo filosofar no pensamento simples dos personagens em situações extremas da vida, quando a morte é uma espécie de lenitivo para o sofrimento ou quando a lei da sobrevivência os leva a retirar do âmago um último resquício de força”. Palavras ditas por JL Mendonça na apresentação, em Outubro, da última entrega literária de José Mena Abrantes.

Nok Nogueira, igualmente em Outubro, lançou “As Mãos do Tempo”, com chancela da editora Nóssomos. De acordo com Jomo Fortunato, que fez a apresentação do poemário, “se ‘a função faz o órgão’, um processo realizável no tempo, entenda-se que a função aqui é sinónimo de trabalho, então ‘As Mãos do Tempo’, enquanto proposta literária, é também uma reflexão sobre a origem da espécie humana, mais como evolução do que como criação”.

O docente e investigador António Quino autografou para os presentes na União dos Escritores Angolanos no dia 18 de Outubro, o livro “Duas faces da esperança: Agostinho Neto e António Nobre num estudo comparado”, um ensaio prefaciado e apresentado pelo Professor Francisco Soares.

Com vista a uma “maior divulgação e internacionalização da literatura angolana”, a União dos Escritores Angolanos (UEA), em parceria com a LEYA-Texto Editores, fez o lançamento na livraria Buchoolz em Lisboa, no dia 7 de Novembro, da colectânea de 42 estórias, nas quais “sobrevivem analogias, relativismos e paradigmas da literatura angolana”, no dizer do secretário-geral da casa dos escritores angolanos, Carmo Neto. Com o título “Estórias Além do Tempo”, a antologia inclui 17 escritores: Arnaldo Santos, Dario de Melo, Carmo Neto, Fragata de Morais, Henrique Abranches, Henrique Guerra, Isaquiel Cori, João Melo, João Tala, José Eduardo Agualusa, José Samuíla Kakweji, Luís Fernando, Marta Santos, Ondjaki, Pepetela, Roderick Nehone e Sónia Gomes.

Fragata de Morais voltou à publicação com o livro “A Visita”, um texto do género dramático, editado pela União dos Escritores Angolanos. Com uma trama intensa e inusitada, o seu novo livro traz à cultura literária angolana personagens memoráveis como Carla, uma viúva quarentona, carente de afectos íntimos, e Dany Boy, um ladrão “bem educado”, sensível.

O GRECIMA deu continuidade ao projecto 11 Clássicos da Literatura Angolana, com o lançamento da segunda colecção, em Novembro. Desta feita foram escolhidas as obras “Uanga”, de Óscar Ribas, “Poemas”, Viriato da Cruz, “Obra Poética”, Mário António, “Poemas Completos”, Alda Lara, “Meu Amor da Rua 11”, Aires de Almeida Santos, “A Konkhava de Feti”, Henrique Abranches, “Colonos e Colonizadores”, Raul David, “Gente de Meu Bairro”, Jorge Macedo, “Estórias do Musseque”, Jofre Rocha, “A Morte do Velho Kipacaça”, Boaventura Cardoso e “A Casa Velha das Margens”, de Arnaldo Santos.

Na ocasião foi também apresentada ao público a Colecção Novos Autores, nesta primeira edição composta pelas obras “Fátussengóla, o Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas”, Gociante Patissa; “Na Pele de Zito Maimba”, Paula Russa; “Proficuidade”, Carlos Bengui; “Sonhos Bordados”, Yola Castro;”…E lá Fora os Cães, Ras Nguimba Ngola; “O Coleccionador de Pirilampos”, Soberano Canhanga; “Verso Vegetal”, David Capelenguela; “Mukandas Angolanas”, Jorge Salvador; “O Homem da Casa Amarela e Outras Histórias”, Gaspar Lourenço; “Incertezas”, Katya Santos; e “Humanus”, de M’Bangula Katúmua.

FONTE: Cultura

novas fontes para conhecer a história da independência angolana

angola trilhos

O projecto Angola nos Trilhos da Independência tem atiçado a curiosidade de muita gente. Foram 57 meses, 900 horas de material audiovisual recolhido em território angolano e internacional, com cerca de 700 depoimentos de protagonistas da luta anticolonial. Tudo isto destinado a preservar a memória de um período na História que diz respeito a Angola e à luta de todos os povos sob ocupação colonial cujas memórias padecem ainda de ser registadas e pensadas.

É um projecto de grande fôlego que implicou muitas viagens, epopeias, adversidades, muita poeira e entusiasmo. Através dele, a equipa (e futuramente nós) ficou a conhecer um país sob todas as suas diversas camadas: campo, cidade, interior, litoral, etnias, línguas, idades e modos de vida.

Entretanto, muitas personagens cujos testemunhos foram gravados já morreram, o que demonstra a urgência deste projecto cujo resultado sairá em 2015 na senda das comemorações dos 40 anos da Dipanda.  

O general Paulo Lara foi, com a associação Tchiweka, o mentor dos Trilhos da Independência. Mas esta aventura não seria possível sem a dedicação, competência e curiosidade dos jovens da Geração 80: Mário Bastos, Jorge Cohen, Tchiloia Lara e Kamy Lara.

Nascido no ano do famoso manifesto do MPLA (1956), no seio de uma família em tudo implicada na causa nacionalista, Paulo Lara andaria com o pai (Lúcio Lara) por lugares estratégicos da luta: Guiné-Conacry, Alemanha, Marrocos, Léopoldville, chegando a conhecer Amílcar Cabral e muitas peças-chave envolvidas nesta guerra. Também ele foi, durante dois anos, guerrilheiro nas matas de Cabinda. Já em pleno século XXI continua a surpreender-se pelo museu vivo que este assunto vai urdindo. (…)

SAIBA MAIS!

entrevista com a equipe no site BUALA

fanpage Facebook do projeto

ampliam-se na web iniciativas de valorização & fontes de aprendizado para as línguas de Angola

 

Plataformas angolanas de aprendizagem de línguas nacionais

por Global Voices (Vozes Globais) e Mário Lopes

“Em média, a cada quinze dias desaparece uma língua, e África é o continente mais ameaçado”, apontou o escritor José Eduardo Agualusa num artigo, de 2011, sobre a evolução das línguas em Angola. Mas ao longo do último ano foram criadas várias plataformas online em favor da salvaguarda das línguas nacionais do país. 

Angola é um país plurilíngue, com seis línguas africanas reconhecidas como nacionais a par do português enquanto língua oficial. Para além disso, estima-se que existam 37 línguas e 50 dialectos em uso no país. O blog Círculo Angolano Intelectual reportou no final de Outubro de 2013, que 30% da população de Angola (cerca de 8,5 milhões de angolanos) “só fala as línguas nacionais que não fazem parte de nenhum programa educacional, social”, acrescentando:

isto é mais um dos factores que gera exclusão social.

Num artigo [pdf, 2011] de Agualusa, publicado pelo Instituto Cultural de Formação e de Estudo sobre Sociedades Africanas em São Paulo, Casa das Áfricas, o escritor premiado versa sobre “uma proposta de paz” para a coexistência das línguas nacionais e da língua portuguesa (“língua materna versus língua madrasta”), e  questiona:

Porquê que é que em Angola, país de muitas línguas, os escritores apenas utilizam o português?

Procurando contrariar o fenómeno, ao longo do ano de 2013 surgiram várias iniciativas online, criadas por jovens que olham para as tecnologias como um desafio para a promoção e salvaguarda das línguas nacionais.

Um projecto ainda em fase inicial que promete fomentar a aprendizagem das línguas nacionais angolanas de uma forma inovadora, sem custos e ao alcance de todos que tenham acesso à internet é o Evalina. Criado em Maio de 2013 por Joel Epalanga, gestor de projectos de tecnologias de informação no sector das telecomunicações, a principal motivação para a criação da plataforma foi a percepção de que há uma lacuna que vários jovens enfrentam no que diz respeito às línguas nacionais. A proposta foi explicada numa entrevista do mentor à revista Jovens da Banda:

[para que] os jovens, que hoje em dia gastam boa parte do seu tempo livre na internet, pudessem dedicar algumas horas para aprender um pouco a (sua) língua nacional de preferência.

O Evalina consiste numa página de Facebook onde são disseminados conteúdos, estímulos à aprendizagem e lições sobre línguas nacionais. Até à data de publicação deste artigo havia lições de umbundu, a segunda língua mais falada a seguir ao português, e de kimbundo.

Em Fevereiro deste ano a plataforma de gírias angolanas Kallun já mereceu uma nota do Global Voices. O projecto tem como “objetivo criar um lugar onde os calões e gírias [de Angola] sejam explicados e compreendidos por todo mundo” e também utiliza as redes socias para fomentar a partilha e aprendizagem de uma forma informal.

Outro projecto a destacar é o Dicionário Ngola Yetu, um dicionário – tradutor online de línguas nacionais angolanas “desenvolvido com o objectivo de solidificar a cultura angolana e massificar o seu uso no seio dos jovens”. Com um visual simples e intuitivo (faz lembrar o Google), funciona como um motor de buscas entre as línguas kilongo, kimbundo, umbundo e português. O projecto tem utilizado o Facebook e Twitter para interagir com os internautas. 

[Visite o site BUALA para saber mais e assitir um vídeo sobre esse tema]

breve panorama das políticas & pedagogias da diversidade em Angola

ELEICOES1

Multiculturalismo e o velho princípio da unicidade

Filipe Zau (*)

Tal como a grande maioria dos Estados africanos, Angola é um Estado pluriétnico e, como tal, multicultural e plurilingue. De acordo com António Custódio Gonçalves, o conceito de etnia “deverá ser analisado como uma categoria de nomeação e de classificação, cuja continuidade depende de uma fronteira e de uma codificação constantemente renovada, das diferenças culturais, entre grupos vizinhos”. Daí que, de acordo com este académico, há que descodificar a tendência para a cristalização deste conceito, bem como o de etnicidade, já que “nenhuma cultura é autocontida, porque os seus limites nunca coincidem com os limites do Estado” e porque na sequência dos conflitos armados, os fluxos migratórios internos foram consideráveis.

Logo, é de se entender que “a cultura é uma autocriação com aberturas específicas e interpenetrações com outras culturas.”

Sendo a actividade laboral, a cultura e o exercício de cidadania fins de um sentido amplo de Educação, esta só pode ser entendida como um processo de socialização, a ser levado a cabo de forma sistematizada por instituições vocacionadas para o efeito, que visem a preparação e formação adequada dos actuais e futuros cidadãos, para posterior cumprimento de papeis sociais, que vão de encontro a esses mesmos fins. A maior ou menor eficácia e eficiência de formação de recursos humanos de um país está, naturalmente, em correlação directa com o seu progresso económico, factor indispensável para que se abram portas ao desenvolvimento e ao bem-estar social. Cabe a cada Estado, na sua relação indissociável entre educação e cultura, valorizar os diferentes acervos patrimoniais, sem deixar de priorizar um sentido comum de pertença, que se sobreponha a todos os outros: a Nação de um só povo como identidade política.

Em termos de política educativa, estamos perante duas vertentes que devem ser entendidas como complementares e não excludentes e que permitem satisfazer três aspectos relevantes:
– A necessidade e o direito de cada comunidade poder ser educada de acordo com a sua própria cultura;
– A viabilidade de, através da educação intercultural, uma dada comunidade cultural poder conhecer as demais, não se fechando em si própria e alargando os seus horizontes para um sentido de alteridade, indispensável ao respeito e aceitação da diferença;
– A necessidade de todas as comunidades terem de inculcar um conceito de identidade política, a Nação, à qual todos os outros sentidos de pertença se têm de submeter.

Entre outros, em África, as experiências de países como a África do Sul, a Namíbia, o Senegal, o Quénia e a Nigéria; na Europa, as experiências de países como a Suíça, a Espanha, a Bélgica e Andorra; e no Canadá, na América do Norte, mostram-nos que tal se torna possível e desejável, para países multiculturais e plurilingues. A questão fulcral coloca-se na análise do que é mais eficiente para o processo de formação de recursos humanos, em sociedades com preocupações de respeito e aceitação mútua pelas diferentes culturas em presença, e com a necessidade imperiosa de criação de uma consciência política identitária de coesão nacional: será que num mesmo país multicultural e plurilingue um mútuo desconhecimento entre as comunidades em presença contribui para uma maior coesão nacional ou, pelo contrário, um maior conhecimento da multiculturalidade existente, associado a um projecto de educação intercultural, pode conduzir a um maior sentido de alteridade e de unidade nacional?

A introdução das línguas africanas de Angola no ensino (chamarei, posteriormente, “nacionais” às que vierem a alcançar tal estatuto por parte da Assembleia Nacional), quer como meio facilitador da aprendizagem quer como matéria de ensino, foi um passo relevante para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, nomeadamente, para quem não possui a competência linguística indispensável à edificação dos conhecimentos a serem adquiridos em uma instituição de ensino. É a escola que, ao inserir-se nas diferentes comunidades, tem de, obrigatoriamente, se adaptar aos distintos contextos socioculturais, e não o contrário. Todavia, como o ensino de uma qualquer língua, tem de estar em consonância com o contexto sociocultural da mesma, tal implica em adaptações de carácter regional, que, para o caso angolano, a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei 13/01), não prevê, atendendo ao “princípio da integridade” (artº4), que é similar ao antigo “princípio da unicidade” inserido no sistema educativo já extinto.

(*) PhD em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

FONTE: Jornal de Angola