o colonialismo como fenômeno linguístico num clássico da literatura angolana

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XITU, Uanhenga. “Mestre” Tamoda. In: “Mestre” Tamoda e Kahitu: contos. São Paulo: Ática, 1984.

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leituras do mundo atual pelas lentes de Mia Couto

 

PARATY (RJ) - 06 DE JULHO. O escritor Mia Couto concede entrevista coletiva durante a FLIP 2007. (Foto: Tuca Vieira).

“Não há outro caminho que não seja a insubordinação”

O escritor moçambicano venceu a 25ª edição do Prémio Camões e voltou a defender a urgência de uma insubordinação que questione o atual sistema mundial e abra o caminho para alternativas.

Mia Couto falou com a agência Lusa pouco depois do anúncio da decisão do júri, no Rio de Janeiro. “Logo hoje, que é um daqueles dias em que a gente pensa: vou jantar, vou deitar-me e quero me apagar do mundo. De repente, apareceu esta chamada telefónica e, obviamente, fiquei muito feliz”, disse Mia Couto, mostrando-se surpreendido com a decisão.

“Não espero nunca uma coisa destas. Tenho com os prémios uma relação de distância, não de arrogância, mas pensando que não vale a pena olhar para eles porque a gente trabalha por outra razão, que são outros prémios mais importantes que este”, declarou o escritor. Para Mia Couto, o segundo moçambicano a ganhar o Prémio Camões desde José Craveirinha em 1991, ele é também um “contributo” para acabar com o pessimismo em relação a África. “Acho que é bom que este continente dê contas de si e sinais de si por via da produção artística”, assinalou.

Homenageado há dois anos, em Penafiel, nas Escritarias, Mia Couto deixou um apelo para o tempo presente: “É preciso sair à rua, é preciso revoltarmo-nos, é precisa esta insubordinação”. Agora, repete esse desafio à agência Lusa: “As pessoas, acho que todas, se compenetraram, principalmente nos últimos anos, que isto não é uma crise localizada, não é uma falha, nem é um erro de um certo sistema, mas que é o próprio sistema que tem que ser radicalmente questionado”.

“Ou nós vamos melhorar a miséria, ou nós vamos resolver o mundo, a nossa vida e a nossa esperança. Portanto, acho que não há outro caminho que não seja a insubordinação”, realçou. “Não digo insubordinação como se ela, por si mesmo, trouxesse as respostas automaticamente. Mas tem que haver uma insubordinação, primeiro, em termos do espírito, em termos daquilo que nós temos que não aceitar deste mundo e da explicação que se dá do mundo”, explicou o escritor moçambicano.

Mia Couto conseguiu “passar do local para o global”

A escolha do júri foi justificada pela “vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade”, em trinta livros que extravasaram as fronteiras do seu país e foram reconhecidas pela crítica, fazendo a sua obra “passar do local para o global”. José Carlos Vasconcelos disse que foi “ponderado tudo o que significa [a obra de Mia Couto] nas literaturas de Língua Portuguesa e na de Moçambique”. “Inicialmente, foi muito valorizada pela criação e inovação verbal, mas tem tido uma cada vez maior solidez na estrutura narrativa e capacidade de transportar para a escrita a oralidade”, acrescentou o diretor do Jornal de Letras, em nome dos restantes jurados do Prémio Camões: Clara Crabbé Rocha, catedrática da Universidade Nova de Lisboa, o escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, Alcir Pécora, crítico e professor da Universidade de Campinas e o diplomata Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras, pelo Brasil.

“Já estava à espera há muito tempo que ganhasse o prémio. É mais do que merecido pela obra notável que tem publicado”, sublinhou Zeferino Coelho, o editor da Editorial Caminho que tem publicado a obra de Mia Couto há trinta anos, por entre livros de poesia, contos, crónicas e ficção.

Onze perguntas para Mia Couto, uma entrevista inspiradora

Mia Couto: “Há quem tenha medo que o medo acabe”

FONTE: Esquerda.net

um ponto de vista moçambicano para identidades & diferenças

 

MIA FACES

Entrevista recente do escritor laureado com o Prêmio Camões 2013. Certamente, uma fonte das mais instigantes para a realização da Atividade 1.


IDENTIDADES DE MIA: O fio que atravessa os livros e a África

Com dezenas de trabalhos publicados e prêmios arrebatados, Mia Couto é uma das principais figuras da literatura africana contemporânea. Em conversa com o Afreaka, o escritor e biólogo moçambicano conta como o seu estilo está costurado com o momento histórico de seu país e de seu continente. Discutindo sobre a linha de pensamento que conduz seu trabalho, traz uma análise apurada sobre a busca de identidade: a identidade de si mesmo e a identidade de África.

Quem é o Mia Couto pessoa?

Eu sou muitos, um dos quais é esse que agora infelizmente ganhou uma certa hegemonia sobre os outros, sobre esta multidão que mora dentro de mim, que é o Mia Couto escritor. Tenho uma empresa onde trabalho como biólogo. E eu também sou muito esse. Sou uma mestiçagem desses vários seres e criaturas que me habitam.


E o Mia Couto escritor?

Provavelmente é este o que me ocupa mais. Exatamente porque ele não pode ser capturado, não pode ser domesticado, configurado. Do Mia Couto escritor o que me agrada mais é eu poder ser muita gente, poder ser vários, atravessar vidas e nascer em outras criaturas, nos personagens que eu crio.


Você tem algum empecilho para conciliar as duas carreiras?

Não tenho dificuldade nenhuma. Faço tudo mal (risos). Não, na verdade é que não vejo essas fronteiras. Não quero ser obediente a esse tipo de pensamento que compartimentou as coisas. Por exemplo, o que me agrada na biologia é a sua narrativa, a história que ela cria. A história da vida é a mais fascinante que conheço. Eu quando olho para a biologia, eu olho como se fosse um prolongamento da escrita, da criação de narrativas, dessa busca que para nós é essencial.


Você acha que tem uma linha de pensamento que atravessa todas as suas obras?

Sim. Principalmente a procura da identidade. Uma procura, que na verdade, é sempre ilusória. É a busca de uma miragem. Eu acho que, se há um fio na minha escrita – e eu só percebi isso quando eu já tinha escrito a maior parte dos meus livros –, é porque eu venho de uma família que tinha mesmo esse desafio, uma família que vem de Portugal em ruptura com seu passado. Eu não conheço os meus avós, eu tenho que inventar essa história toda para mim. Tenho que inventar um passado. Eu percebi que aquilo que era a história minha e também a história de muitos outros é o resultado de uma invenção. Nós estamos fazendo ficção sobre quem somos. Essa procura minha da identidade familiar coincidiu muito com a procura de identidade que este país está, um país que é mais novo do que eu. Há uma coincidência histórica. Eu nasço dentro de uma nação que está em busca do seu próprio retrato, da sua moldura. Isso faz com que eu perceba que a busca de identidade mesmo sendo falsa e plural, é o que me motiva.


Isso o ajudou a criar um estilo?

Sim, porque como a busca da identidade é falsa, como ela procura aquilo que não está lá, eu não podia usar a linguagem comum, a língua enquanto edifício já construído. Eu tinha que inventar um bocadinho esse caminho. E por isso a busca pela palavra nova, pela reinvenção da linguagem.


Você diz que seus livros buscam identidades, poderia nos contar sobre algumas das que você já encontrou? Quem são elas?

Eu acho que o que a escrita me permitiu, e eu tenho uma grande dívida com ela por isso, é perceber que eu sou todos. Cada um de nós é todos os outros. Quando eu comecei a escrever sobre mulheres, eu tive uma grande dificuldade, porque eu achava que estava a ser falso. Ia perguntar às mulheres como é que elas pensavam, mas depois percebi que estava dentro de mim. Se eu conseguir chegar lá, e fazer essa viagem para o meu lado feminino, para a mulher que eu também sou, aí sim fica verdadeiro. Eu não posso falar sobre uma mulher, eu tenho que escrever como se eu fosse ela. Eu sou essa mulher que eu escrevo. E eu sou esse chinês, sou esse velho, sou essa criança e sou todos os outros que vivem dentro de mim. Quando eu escrevo, não estou só a visitá-los, eu incorporo tudo isso. Acho que essa foi a grande lição para mim. Não é uma lição que me permite escrever melhor, não é isso. Mas me permite ser mais feliz. Hoje, quando me relaciono com os outros, tenho uma disponibilidade para não estar com o outro, mas sim ser o outro.

Não existe uma identidade, mas as pessoas vivem em uma fortaleza: “eu sou assim”. E quando alguém diz isso, está dizendo uma grande mentira porque está a criar, a sedimentar uma imagem que os outros criaram dela. As pessoas facilmente quando se apresentam dizem “eu sou jornalista”, e isso é uma coisa terrível porque a gente fica capturado nessa única coisa, como se a vida inteira coubesse em um cartão de visita, que diz quem somos nós.


Você fez uma leitura analisando o medo que ficou bem conhecida online, certo? Como você enfrenta os seus medos?

Eu acho que enfrento tratando-os como amigos. Não os combato, não faço guerra com eles. É como se fosse viver com um conselheiro dentro de mim. O medo é uma maneira primeira, um aviso interior que funciona como vigilância que nós temos em relação aos caminhos, em relação às opções. Portanto, a primeira coisa foi que deixei de ter medo dos meus medos. Aceitei-os como uma parte boa de mim.


Você tem medo de começar um livro?

Atroz! Enorme! Fico quase paralisado. Quando o medo nos paralisa, quando é maior do que nossa capacidade de resposta, é uma coisa negativa, já não posso ser amigo dele. Mas até agora, o medo tem sido bom para mim, me ajuda a procurar ser diferente, ajuda a me descolar daquilo que já fiz. Ele me faz ter algum espírito de autocrítica. É um medo que me ajuda.


A África plural muitas vezes vem interpretada erroneamente sobre o nome de África unidade. Mas, acima dessa sensibilidade, o senhor acha que existe uma identidade em comum africana?

Existem algumas identidades que são diversas, mas aquela que eu acho que é mais importante é o sentimento de religiosidade que une essas pessoas: como se concebe Deus, como se concebe o nosso lugar após a morte, como se concebe a própria morte. Essa espiritualidade de fato é uma religião. Não tem nome. Não é reconhecida. Eu acho que o grande elemento de aglutinação é essa coisa do lugar dos mortos, do invisível, a fronteira entre o possível e o impossível.


E isso permeia todas as comunidades?

Sem dúvida. É um chão. Eu nunca entenderei o Brasil se eu não souber nada sobre a religião católica por exemplo. Mesmo o brasileiro que se afirma ateu foi moldado, foi condicionado em relação à ética, está embrionado disso. Aqui é o mesmo. Imagina se eu não soubesse nada da religião católica, como a maior parte das pessoas que vêm visitar a África não sabe desses valores. Então, eles veem e acham que são umas práticas, umas crenças exóticas, mas não entendem como isso funciona como um sistema de pensamento. E enquanto não tiver essa sensibilidade, nunca vai conseguir ter proximidade com a África porque está a ler o espaço apenas por linhas mais epidérmicas como a política, a história etc. Aquilo que é mais profundo não é tocado.


Na nossa viagem percebemos uma dualidade entre as comunidades tradicionais e seus valores e a urbanização. Dentro desse processo, como você vê o futuro relacionado à preservação de culturas?

Tenho o cuidado com a própria maneira de olhar para essas coisas. A primeira tentação é falar da preservação de culturas. Elas têm que ser respeitadas, mas eu não sei se têm que ser preservadas, afinal elas têm a própria dinâmica de negociação, que não começou agora. Não existem comunidades que são puras, que se mantiveram intactas e que só agora estão sendo surpreendidas com os fenômenos sociais como a urbanização. É verdade que agora tem uma rapidez quase antropofágica, mas eu não acho que as culturas são tão frágeis como a gente pensa. Essas culturas, que chamamos de tradicionais – palavra que não gosto muito – têm uma capacidade de negociação muito forte. Dou este exemplo: a maneira como aqui a sociedade urbana é ruralizada. As pessoas que habitaram Maputo, por exemplo, se urbanizaram? Sim, mas em troca, obrigaram a cidade a partir-se, a ruralizar-se. As pessoas andam na rua mais do que na calçada, pois esta não existe na concepção rural. A maneira como as pessoas não têm uma palavra para dizer lixo nas línguas africanas locais, porque lixo é uma entidade urbana e uma realidade recente. A maneira como uma pessoa concebe a sua residência, o espaço em volta, o convívio social. Maputo vive em conflito consigo mesma porque foi concebida para certo tipo de urbanismo e de urbanidade e agora, quem vive na cidade, pensa e sente de outra maneira e, portanto, quer trazer o campo para cá. É muito curioso. É uma questão dessas brigas de culturas. Portanto, eu não acho que se tenha que fazer uma grande bandeira de defender a pureza das culturas porque felizmente todas as culturas são impuras. Todas são mulatas.


O que você diria sobre a identidade africana e o modo como ela é estereotipada?

Acho que a autonomia começa do próprio pensamento, dos modelos de pensamento. Como que nós pensamos a nós próprios? Quais são os critérios e os parâmetros que usamos para nos pensarmos? Muitos desses critérios foram criados na Europa. Acho que essa briga está acontecendo agora e vai ser resolvida entre nós próprios. O africano tem que criar esse espelho para ver bem a si próprio.


Quais as ações que as pessoas de África estão tomando nesse sentido?

Hoje qualquer pessoa que tenha boa vontade de olhar o mundo sem preconceito, começa a perceber que não há um lugar do mal, que esse mal está bem democraticamente espalhado pelo mundo. A crise econômica na Europa, a corrupção no Brasil. Portanto, a África foi se libertando desse estereótipo não só por si mesma, mas porque houve coisas que mudaram. O que falta é que os africanos não se remetam e não fiquem condicionados no lugar que lhes foi concebido, que é o ‘bom jogadores de futebol, os que dançam bem, os que produzem boas esculturas’. Porque existem filósofos africanos, intelectuais, gente que produz em uma área mais íntima de pensamento. E é o território que nós ainda temos que nos afirmar. Mas afirmar não dizendo “olhem para nós”, porque isso continua a ser uma posição colonizada, o fazer em função do outro. Nós fazermos por nós próprios. Esse é o caminho.

Fonte: Afreaka

panorama atualizado sobre os hábitos de leitura no Brasil

 

Centrando-se no mapeamento quantitativo, a nova edição da pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro oferece dados úteis para a visualização em escala nacional de perfis de leitores, assinalando preferências e tendências que precisam certamente ser ponderadas pela ação pedagógica voltada para modificar uma situação ainda muito insatisfatória, no que diz respeito à disseminação e diversificação da cultura da leitura em nossa sociedade. Para os estudantes da LET C46 e da LET A25, disciplinas centradas na problemática da formulação e legitimação de cânones, será um exercício interessante analisar de que maneira as seleções do cânone popular evidenciadas na pesquisa convergem, ou não, com as listagens de obras consagradas nos cânones institucionais e acadêmicos. Clique na imagem abaixo para acessar o arquivo pdf da pesquisa:   

retratos leitura 2012 capa

 

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aprender a ser outro(s) através da literatura: desafio comum para brasileiros e africanos

Victor Ekpuk (Nigeria)_You Be Me, I Be You

 

Útil para nossos estudos na LETA25 (O Cânone Literário Brasileiro) e na LET C47 (Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e o Cânone Ocidental), o artigo de Eliane Brum discute questões básicas para compreendermos como se estabelecem, na prática, relações entre língua, identidade, literatura e poder, relações que desempenham um papel influente nas interações e nos entrechoques culturais que constróem o mundo globalizado contemporâneo. No caso das literaturas produzidas no Brasil e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), a inserção ou a marginalização de seus respectivos autores e obras no cânone literário “universal” dá-se no bojo de um processo que, ainda distante de um genuíno diálogo entre formas diversas de ficcionalizar, mostra-se fortemente balizado pelos preconceitos e limites que a mentalidade eurocêntrica estabelece buscando normatizar e homogeneizar os diferentes valores civilizacionais. Conforme aponta a jornalista, ao se deixarem enquadrar nas molduras estereotipadas das identidades globais, as sociedades nacionais e os grupos étnicos sacrificam a criatividade cultural que lhes possibilita confrontar seus desafios históricos de maneira ativa.


A língua que somos, a língua que podemos ser

O que é pior: ser visto como um clichê ou ser ignorado? Como os outros não nos veem – e como nós não vemos os outros de nós. Uma reflexão sobre o Brasil, a literatura e o poder

Eliane Brum

A alemã Anja Saile é agente literária de autores de língua portuguesa há mais de uma década. Não é um trabalho muito fácil. Com vários brasileiros no catálogo, ela depara-se com frequência com a mesma resposta de editores europeus, variando apenas na forma. O discurso da negativa poderia ser resumido nesta frase: “O livro é bom, mas não é suficientemente brasileiro”. O que seria “suficientemente brasileiro”?

Anja (pronuncia-se “Ânia”) aprendeu a falar a língua durante os anos em que viveu em Portugal (e é impressionante como fala bem e escreve com correção). Quando vem ao Brasil, acaba caminhando demais porque o tamanho de São Paulo sempre a surpreende e ela suspira de saudades da bicicleta que a espera em Berlim. Anja assim interpreta a demanda: “O Brasil é interessante quando corresponde aos clichês europeus. É a Europa que define como a cultura dos outros países deve ser para ser interessante para ela. É muito irritante. As editoras europeias nunca teriam essas exigências em relação aos autores americanos, nunca”.

Anja refere-se ao fato de que os escritores americanos conquistaram o direito de ser universais para a velha Europa e seu ranço colonizador – já dos brasileiros exige-se uma espécie de selo de autenticidade que seria dado pela “temática brasileira”. Como se sabe, não estamos sós nessa xaropada. O desabafo de Anja, que nos vê de fora e de dentro, ao mesmo tempo, me remeteu a uma intervenção sobre a língua feita pelo escritor moçambicano Mia Couto, na Conferência Internacional de Literatura, em Estocolmo, na Suécia. Ele disse:

– A África tem sido sujeita a sucessivos processos de essencialização e folclorização, e muito daquilo que se proclama como autenticamente africano resulta de invenções feitas fora do continente. Os escritores africanos sofreram durante décadas a chamada prova de autenticidade: pedia-se que seus textos traduzissem aquilo que se entendia como sua verdadeira etnicidade. Os jovens autores africanos estão se libertando da “africanidade”. Eles são o que são sem que se necessite de proclamação. Os escritores africanos desejam ser tão universais como qualquer outro escritor do mundo. (…) Há tantas Áfricas quanto escritores, e todos eles estão reinventando continentes dentro de si mesmos.

Esta conferência de Mia Couto faz parte de um livro de ensaios belíssimo chamado “E se Obama fosse africano?” (Companhia das Letras). Indico com vários pontos de exclamação. Os ensaios de Mia Couto são tão inspiradores quanto seus romances. E o que ele diz sobre a África talvez pudesse ser dito sobre o Brasil, este país que é também um continente. E sobre todo um pedaço do planeta do qual se espera que seja de uma determinada forma.

Se ler um livro é ousar se abrir para o outro, exigir que o outro seja como você o imagina é o avesso da experiência literária. Se os editores europeus esperam que sejamos os outros que querem que sejamos, já não somos os outros, mas o estrangeiro domesticado que mora dentro deles. E assim, com um estrangeiro de estimação habitando o seu imaginário, já não precisam nos estranhar. E com isso perdemos todos. Os leitores europeus – que como nós nada têm de homogêneo e contêm tantas diferenças quanto possível – porque abrem mão de estranhar. E nós porque perdemos a chance sempre rica de que nos estranhem.

Nos Estados Unidos, apenas 3% de todas as obras publicadas foram escritas em outras línguas que não o inglês. Esta ínfima parcela abarca todos os outros idiomas e todos os gêneros, de livros técnicos à ficção. Se formos pensar apenas em literatura e poesia, o porcentual baixa para 0,7%. Não sei se existem estatísticas sobre qual é a fatia da língua portuguesa neste quase nada, mas parece evidente que é insignificante. Na tentativa de reverter o que chama de “shame” (vergonha), a Universidade de Rochester criou, em 2007, um site chamado Three Percent , para debater e divulgar todos esses universos literários que têm quase tanta dificuldade de ultrapassar as fronteiras dos Estados Unidos quanto os imigrantes ilegais. E, mesmo quando superam as barreiras, pouco ou nenhum espaço encontram na imprensa americana.

Uma língua não é apenas um amontoado de palavras que serve para se comunicar, mas um jeito de ser e de estar, de compreender o mundo e a si mesmo, o fora e o dentro. Em cada língua há um universo inteiro, e cada falante a recria a partir de sua experiência. É por isso que a língua é viva e mutante. Se o português falado no Brasil tivesse permanecido o mesmo de cem anos atrás é porque já estaríamos todos mortos. Como disse Fernando Pessoa, nós não habitamos um país, mas uma língua. E aqueles que são os últimos falantes de uma língua morta, porque para ser viva é preciso de um outro que também more nela, tem de renascer em outro idioma para que a vida seja possível. Ninguém vive para além das fronteiras da linguagem.

Saber que apenas 3% dos livros publicados nasceram em imaginários outros diz mais dos Estados Unidos do que de todos aqueles que não são vistos por eles. Na grande potência mundial – ainda que em crise – não se trata apenas de uma exigência de estereótipos, como na Europa, já que não há nem mesmo o interesse pelo clichê do outro. No caso dos Estados Unidos, não é necessário fingir estranhamento, já que parecem desconhecer que estranhar é preciso. A experiência de se abrir para a experiência do outro é ignorada. Ignorada como um não saber que há algo ali que vale a pena. Mesmo que faça todo o sentido por qualquer ângulo que se olhe, de Hollywood à política externa americana, ainda assim me parece espantoso que a língua que se impõe sobre o mundo seja também aquela que é fechada para o mundo de (quase) todos os outros. E isso, com certeza, explica muita coisa.

Não saberia dizer o que é pior: se a exigência de um clichê de Brasil também na literatura – o “suficientemente brasileiro” com que Anja Saile se depara no contato com os editores europeus – ou a indiferença até mesmo pelo clichê. Acho que a segunda realidade é mais nefasta, porque ao buscar o outro, ainda que seja pelo lugar comum, existe ao menos o risco de encontrar algo que subverta as expectativas e vire os mundos de ponta-cabeça.

E aqui, mais um pouco de Mia Couto:

– O mesmo processo que empobreceu o meu continente está, afinal, castrando a nossa condição comum e universal de contadores de histórias. (…) O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso. Os autores africanos que não escrevem em inglês – e em especial os que escrevem em língua portuguesa – moram na periferia da periferia, lá onde a palavra tem de lutar para não ser silêncio.

Quem já viajou à Europa e aos Estados Unidos sabe que é quase impossível encontrar um guia de cidade, museu ou local histórico em português. É preciso se virar com o espanhol, se não souber inglês. No final de 2011, a imprensa deu destaque ao fato de que os brasileiros gastam o dobro do que os outros turistas em Nova York, e muitas lojas já mantêm um vendedor que fala português para facilitar a venda a clientes tão promissores. A economia está colocando a nossa língua pelo menos na boca de garçons e balconistas pelos circuitos turísticos do mundo rico em tempos de crise.

Será que o lugar de potência emergente conquistado pelo Brasil vai aumentar o interesse pela nossa literatura ou pelo nosso modo de ser? A nova posição do país no cenário internacional já começa a produzir novos clichês não só do mundo sobre o Brasil – mas do Brasil sobre si mesmo. O marketing e a propaganda estão aí para provar como se transforma imagem em verdade. Acredito que o estudo dos novos clichês que estão sendo produzidos fora e dentro do Brasil, sobre o Brasil, seja um caminho bem fascinante para compreendermos o momento vivido.

Isso me faz virar o olhar pelo avesso para que possamos enxergar melhor. Como qualquer um sabe, não somos apenas um Brasil, mas muitos. Só de Amazônias temos dezenas, talvez centenas e até milhares. Não há um semiárido, mas uma profusão deles. Assim como são muitos e diversos os Rios de Janeiro e é necessário mais de uma vida para alcançar todas as São Paulo só para descobrir que elas mudaram. Me parece que o Brasil se mantém unido pela sua diversidade – e pela forma de olhar para a sua diversidade. Neste percurso, a música foi bem mais importante do que a literatura.

Me preocupa, porém, a forma com que temos olhado para os outros de nós em um momento com tantas decisões em curso. Em geral, a partir do próprio umbigo e com as fronteiras eletrificadas. Uma parte significativa do que chamamos de brasileiros parece misturar o olhar europeu e o olhar americano, aqui explicitados pela literatura, ao se relacionar com tudo o que compreendemos como o outro. Sejam os miseráveis do Bolsa Família, classificados por uma categoria de renda que anularia suas diferenças; sejam os índios, que são vistos como se fossem todos iguais e, em geral, como um “entrave ao progresso”.

Talvez os indígenas sejam a melhor forma de ilustrar essa miopia, forjada às vezes por ignorância, em outras por interesses econômicos localizados em suas terras. Parte da população e, o que é mais chocante, dos governantes, espera que os indígenas – todos eles – se comportem como aquilo que acredita ser um índio. Portanto, com todos os clichês do gênero. Neste caso, para muitos os índios não seriam “suficientemente índios” para merecer um lugar e para serem escutados como alguém que tem algo a dizer.

Outra parte, que também inclui gente que está no poder em todas as instâncias, do executivo ao judiciário, finge que os indígenas não existem. Finge tanto que quase acredita. Como não conhecem e, pior que isso, nem mesmo percebem que é preciso conhecer, porque para isso seria necessário não só honestidade como inteligência, a extinção progressiva só confirmaria uma ausência que já construíram dentro de si.

O modelo de desenvolvimento com que vamos alcançar o futuro depende de como olhamos para os outros de nós e de que lugar ocuparão os outros de nós. Se não acolhermos a diversidade e a usarmos para sermos um Brasil mais igualitário – onde todos sejam igualmente diferentes – não acredito que exista muito futuro para nós, mesmo que o presente pareça promissor. O “Milagre Econômico” da ditadura militar também parecia muito promissor à parcela da sociedade brasileira que dele se beneficiou – e sabemos muito bem como isso terminou.

Para sermos grandes – com um conceito de grandeza que não se mede apenas em cifras – será vital inaugurarmos um jeito de olhar diferente tanto para o nosso próprio continente – onde começamos a nos impor como uma espécie de “Estados Unidos da América do Sul”, como ouço com tristeza cada vez que coloco os pés nos países vizinhos – como na forma como olhamos para dentro de nossas fronteiras. Inaugurar não um olhar condescendente – mas um olhar de quem sabe que tem algo a aprender com o outro.

O que seremos, me parece, será definido pela resposta que daremos a três impasses:

1) Se vamos conseguir construir um modelo de desenvolvimento baseado no século XXI – e não no século XX, como me parece que é o atual;

2) Se vamos acolher os conflitos e dialogar com as culturas dos vários Brasis que nos compõem ou vamos exterminá-los à força, ainda que seja pela força da manipulação da lei;

3) Se vamos conseguir vencer o desafio da educação, mas não só isso: se a inclusão pela escrita será capaz de abarcar a riqueza da nossa oralidade em lugar de silenciá-la.

O que o Brasil será vai depender da sua capacidade – ou não – de incluir todos os outros de si.

No desafio que nos espera, é preciso lembrar que nós não temos língua – somos língua.
Como disse Mia Couto, de forma magistral, na conferência já citada:

– O que advogo é um homem plural, munido de um idioma plural. Ao lado de uma língua que nos faça ser mundo, deve coexistir uma outra que nos faça sair do mundo. De um lado, um idioma que nos crie raiz e lugar. De outro, um idioma que nos faça ser asa e viagem.

Para “ser asa e viagem” é preciso acolher todos os outros de si. Não tolerar o outro, mas ser o outro.

Veremos.

FONTE: Revista Época

incrementa-se no Brasil a disseminação das literaturas africanas

A arte e a política de Wole Soyinka, ganhador do Nobel

Escritor e dramaturgo nigeriano, que virá ao Brasil em abril para lançar seu primeiro livro traduzido no país, fala sobre sua obra e sua história de ativismo

Numa das noites experimentais do Royal Court Theatre, espaço alternativo que começava a ganhar fama na Londres do fim dos anos 1950, Wole Soyinka, então um jovem aspirante a escritor recém-chegado da Nigéria, foi escalado para o papel de guarda de campo de detenção. A peça era inspirada no massacre de Hola, cometido no Quênia em 1959, quando agentes coloniais britânicos espancaram até a morte um grupo de prisioneiros nacionalistas. Minutos antes de entrar em cena, porém, Soyinka desistiu de atuar. O pequeno conflito que se seguiu a essa decisão, com os atores puxando o colega rebelde para o palco diante da plateia estupefata, diz mais que mil ensaios sobre os dilemas de representar a violência por meio da arte.

Muito tempo depois, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1986, Soyinka relembrou a cena em seu discurso, justificando aquela recusa com uma série de perguntas: “Quando a representação é rejeitada pela realidade? Quando a ficção se torna presunçosa?”. Essas questões são centrais para um escritor e dramaturgo que sempre esteve profundamente envolvido com a política nigeriana, da luta pela independência contra as forças britânicas e a subsequente guerra civil, nos anos 1960, até hoje. Em 2010, ajudou a fundar um partido, a Frente Democrática por uma Federação do Povo, para enfrentar a coalizão conservadora que governa a Nigéria há mais de uma década.

Autor será publicado no país pela primeira vez
Às vésperas de vir ao país para a primeira edição da
Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que acontece em Brasília entre 14 e 23 de abril, Soyinka se define, em entrevista ao GLOBO, como “um artista que não consegue se isolar das atualidades”.
— Às vezes a realidade reprova a atitude do artista de se apropriar dos mistérios e tragédias de outros. É uma relação de quase “distanciamento”, mas um distanciamento paradoxal, já que o artista escreve de dentro do meio social e nunca está totalmente distante. No entanto, alguns escritores, por temperamento, são mais afetados, às vezes até sobrepujados, pela realidade. Como escrever sobre o Camboja de Pol Pot? Ruanda? Darfur? Como um escritor sírio pode manter a fé na criatividade durante o massacre em andamento lançado por Bashar Al-Assad [presidente da Síria] contra seu próprio povo? Como não entender se esse escritor jogar seu laptop no inferno que um dia foi a casa de um vizinho e pegar a Kalashnikov mais próxima? — provoca o escritor.
Aos 77 anos, Soyinka se equilibra há décadas nesse “distanciamento paradoxal” entre arte e política. Essa tensão também está representada em sua vasta e diversificada obra, que passa por teatro, poesia, romance e ensaio, e só agora começará a ser publicada no Brasil. Durante a Bienal de Brasília, a Geração Editorial lançará uma tradução de “The lion and the jewel” (“O leão e a joia”), uma de suas primeiras peças, escrita no fim dos anos 1950, durante sua estada na Inglaterra, e publicada pela primeira vez em 1963.

Com um humor satírico e uma mescla inovadora de traços estéticos ocidentais e africanos, “O leão e a joia” é, ao mesmo tempo, uma exceção e um caso representativo na obra de Wole Soyinka (ver artigo abaixo). Situada numa aldeia nigeriana, a peça é protagonizada por um jovem professor educado nos moldes europeus e um velho líder local, que disputam o amor da mulher mais bonita da região. A estrutura aparentemente simples, explica Soyinka, serve tanto para falar em chave de comédia sobre “a antiga batalha dos sexos” como para investigar “o que constitui a modernidade e a tradição”.

Leia mais: Sátira e tragédia do colonialismo na obra de Wole Soyinka

Parte importante dessa investigação é conduzida através de uma apropriação criativa da cultura iorubá, que compreende a maior parte da população da Nigéria. As peças de Soyinka, tanto tragédias quanto comédias, são repletas de referências a rituais, danças e orixás (seu preferido é Ogum, que representa “a dualidade do homem em seus aspectos criativo e destrutivo”, diz). Mas o resgate desses elementos tradicionais não é uma forma de idealizar a cultura africana em oposição à ocidental, ressalta.
— Cresci na cultura iorubá e a evoco constantemente como uma crítica de outras culturas e sociedades, mas não como uma alternativa perfeita e impecável. Contudo, ela é uma opção. E isso é cada vez mais importante num mundo percebido e apresentado em termos de oposições binárias entre cristianismo e islamismo. A cultura iorubá considera essa divisão ressentida e arrogante, especialmente se levamos em consideração sua história sanguinária de preconceito, intolerância e expansionismo assassino — diz o escritor, nascido em Abeokuta, no oeste da Nigéria.

Relação com o Brasil foi importante na carreira
A grande presença da cultura iorubá no Brasil fez com que Soyinka tivesse, desde cedo, uma relação próxima com o país. Em um ensaio sobre Lagos, ele nota como a megalópole nigeriana deve muito de sua identidade aos escravos retornados do outro lado do Atlântico: da arquitetura à culinária, da música aos sobrenomes como Pacheco e Silva. Em suas pesquisas sobre as formas dramáticas tradicionais da África, o escritor se deparou com a sobrevivência de muitos desses rituais no Caribe e no Brasil. Soyinka considera fundamental para sua carreira o contato com pesquisadores brasileiros na Nigéria, entre eles o crítico literário Antonio Olinto, adido cultural em Lagos nos anos 1960, e sua mulher, Zora Seljan, que publicaram diversas obras de ficção e ensaios em torno de temas africanos.

Soyinka conheceu Olinto (que morreu em 2009) e Zora (que morreu em 2006) depois de voltar da Inglaterra, onde passou boa parte da década de 1950, primeiro na Universidade de Leeds e depois em Londres. Na capital britânica, além de “O leão e a joia”, escreveu outra peça, “The swamp dwellers” (“Os habitantes do pântano”, em tradução livre). Retornou ao país natal no início dos anos 1960, para dar aulas e pesquisar teatro africano nas Universidades de Lagos, Ibadan e Ife. Nas décadas seguintes, embora tenha experimentado vários gêneros literários, dedicou-se sobretudo ao teatro e pensou em si mesmo sempre como um dramaturgo.
— O teatro oferece a própria vitalidade humana como meio de transmissão. Isso é algo incomparável — justifica Soyinka, que ficou conhecido em seu país por peças como “A dance of the forests” (“Uma dança das florestas”), apresentada nas celebrações da independência nigeriana, em 1960, e alertava para o risco de uma repetição dos erros do período colonial.

Ao mesmo tempo em que consolidava seu prestígio artístico, Soyinka se afirmava como um dos principais intelectuais públicos da Nigéria. Teve uma atuação destacada contra a guerra civil deflagrada pouco depois da independência e, por isso, foi preso em 1967. Passou 22 meses na cadeia, a maior parte deles na solitária. Mesmo detido, continuou a ter suas peças encenadas na Nigéria e no exterior — ainda em 1967, “O leão e a joia” ganhou uma montagem em Accra, capital de Gana. Depois de ser libertado, continuou a escrever e a militar, o que o obrigou a enfrentar alguns períodos de exílio.
— Apesar dessas ausências instigadas pela política, nunca realmente deixei a Nigéria, porque minha perspectiva do país sempre foi interna — pondera.

Escritor é ameaçado de morte por extremistas
Hoje, a Nigéria continua no centro de suas preocupações. Além dos protestos contra a corrupção e o autoritarismo, suas bandeiras de toda a vida, Soyinka tem alertado os compatriotas para o risco iminente de uma nova guerra civil, dessa vez provocada pela ascensão do fanatismo religioso. No mês passado, ele denunciou à imprensa nacional que está ameaçado de morte pelo grupo extremista islâmico Boko Haram, que domina parte da região norte e, por meio de uma série de atentados nos últimos anos, exige a implantação no país da sharia (código religioso muçulmano).
— Vivemos o risco de uma guerra civil, e uma muito grave. A corrupção é curável. Não totalmente, porque nenhuma nação jamais conseguiu isso, mas pode ao menos ser controlada por meio de punições rigorosas e de uma sociedade civil alerta e resoluta. Mas a manipulação religiosa é a faísca fatal — alerta.

Intitulado “Este passado precisa abordar seu presente”, o discurso de Soyinka na cerimônia do Nobel, que começava com a lembrança do jovem ator-escritor indeciso sobre como lidar com a violência por meio da arte, terminava com uma denúncia vigorosa das consequências do projeto colonialista europeu na África, mesmo após as independências. Mais de duas décadas depois daquele dia, o escritor acredita que ainda há muito que combater:
— O racismo continua entre nós, e não é só uma questão da cultura e da filosofia ocidentais. Estereótipos e preconceitos só mudam de local e de contexto, não desaparecem. A ascendência de noções religiosas anacrônicas, com sua bagagem de intolerância, faz com que o presente esteja cada vez mais à beira do abismo. A Nigéria é o nosso exemplo atual mais sério.

FONTE: O Globo