compreendendo em profundidade a crise do sistema universitário

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MUITO A PROPÓSITO DOS TEMPOS QUE CORREM E DAS VONTADES QUE EMPACAM…


Universidade Fast-Food e a necessidade de sua crítica radical

“A vida do intelectual acadêmico tornou-se enfadonha e monótona. Da boêmia, dos bares, do contato com artistas e putas (e para alguns, com o movimento operário) – ou seja, com a vida -, o ambiente social passou a ser as salas de aula, as palestras, as reuniões de departamento, as disputas por publicações, etc”. O comentário é de Ricardo Festi, sociólogo, em artigo no blog Almoço das Horas, 10-07-2012.

O slow Movement surgiu depois de um protesto contra a abertura de um McDonald´s na Prazza di Spagna em Roma, no ano de 1986. Este foi o marco inicial do Slow Food, um movimento que defende o prazer de comer contra a lógica taylorista-fordista das grandes redes de restaurantes que se proliferaram no mundo inteiro depois da Segunda Guerra Mundial. O protesto e o movimento foram uma manifestação singular de um movimento muito mais amplo e heterogêneo contra a chamada “globalização”.

Da comida o Slow Movement alçou voos para áreas diferentes, na defesa de um estilo de vida com mais sentido e conteúdo (mesmo que ainda não se tenha claro o que seria isso). Dentre eles estão o Slow Reading (por uma leitura lenta e concentrada dos textos, sem os incômodos e pausas das mensagens que chegam pelos celulares, as conversas pelos Chats, o Twiter, os emails, etc.) e o Slow Science, que laçou um manifesto contra a universidade fast-food, isto é, contra a lógica da produtividade cada vez mais presente no meio acadêmico. Defendem:A ciência lenta foi praticamente a única ciência concebível por centenas de anos, hoje, argumentamos, ela merece ser revivida e necessita proteção. A sociedade deve dar aos cientistas o tempo necessário, mas mais importante, os cientistas devem fazer a seu ritmo. (…) Precisamos de tempo para pensar. Precisamos de tempo para digerir.**

Não deixa de ser uma reação progressista de uma camada da comunidade acadêmica contra as mudanças ocorridas nas ultimas décadas nas universidades e no meio intelectual. Entretanto, se suas críticas se centrarem apenas na exteriorização do fenômeno, não conseguirá atingir seu objetivo central: resgatar uma verdadeira forma de pesquisar e conceber a ciência (isso é discutível; o que concordamos com eles é que a forma de hoje não é a melhor). Falta-lhes a crítica radical (na raiz) das reais causas deste fenômeno: a expansão da lógica de mercado para uma área que antes não era gerida diretamente pelo mercado.

Podemos encontrar uma primeira explicação para isso em Zizek (2012): Na União Europeia, a reforma do ensino superior pelo processo de Bolonha é um grande ataque conjunto ao que Kant chamou de “uso público da razão”. A ideia subjacente dessa reforma, a ânsia de subordinar o ensino superior às necessidades da sociedade, de torná-la útil aos problemas concretos que enfrentamos, visa produzir opiniões especializadas para resolver problemas apresentados pelos agentes sociais. Aqui, o que acaba é a verdadeira missão do pensamento: não só oferecer soluções a problemas apresentados pela ‘sociedade’ (o Estado e o capital), mas também refletir sobre a própria forma assumida por esses ´problemas´, reformá-los, discernir um problema no próprio modo como percebemos esses problemas. A redução do ensino superior à tarefa de produzir conhecimento especializado socialmente útil é a forma paradigmática do ´uso privado da razão´ no capitalismo global contemporâneo” (Zizek, 2012, p. 298).

É um fato que as reformas (contrarreformas, na verdade) ocorridas nos sistemas universitários nas ultimas décadas produziram mudanças importantes. Entretanto, entendo que essas mudanças aprofundaram um processo que teve início há décadas junto a expansão dos sistemas universitários (ampliação do número de alunos matriculados e de docentes) nos países de economia capitalista avançada. Este processo, segundo Russel Jacoby (1990), produziu a uma institucionalização da intelectualidade norte-americana (e do mundo inteiro), agora estável em seu emprego (e não mais dependentes de pequenas publicações para expor suas ideias), mas atolada por afazeres acadêmicos e burocráticos. A vida do intelectual acadêmico tornou-se enfadonha e monótona. Da boêmia, dos bares, do contato com artistas e putas (e para alguns, com o movimento operário) – ou seja, com a vida -, o ambiente social passou a ser as salas de aula, as palestras, as reuniões de departamento, as disputas por publicações, etc.

O processo ao qual reage o Slow Science é a exteriorização, na forma mais cruel e descontrolada, de algo mais antigo que a própria “globalização”. Trata-se de uma adequação (adestração e controle) da intelectualidade (tentemos imaginar Marx como um professor universitário hoje: impossível!) a serviço dos ditames do capital. Quando este muda, as suas formas de controle também mudam. O que torna esse manifesto progressista é o alerta que faz ao que vem acontecendo na produção predominante da ciência e do pensamento. Numa época de crise e decadência do modo de produção capitalista, que se mostra incapaz de (re)produzir a mais-valia por sua própria lógica (o que os liberais chamam de a “mão invisível”), a ação (intervenção) do Estado para garanti-la torna-se fundamental.

Numa sociedade iludida pela democracia burguesa, as mentes pensantes (e críticas) não podem ser caladas com o cárcere. Para isso, métodos mais eficazes foram inventados: avaliações de produtividades, aumento da carga burocrática, cooptação do intelectual com salários relativamente altos, etc.

A resistência e a crítica radical são os primeiros passos, que devem vir acompanhadas por um movimento real e positivo de transformação da sociedade global.

Referências:
JACOBY, Russel. “Os últimos intelectuais: a cultura americana na era da academia”. São Paulo: Trajetória Cultural, 1990.

ZIZEK, Slavoj. “Vivendo no fim dos tempos”. São Paulo: Ed. Boitempo, 2012.

FONTE: IHU On-line

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a literatura como samplagem de textos: crise ou evolução da arte da palavra?

Os leitores do genialíssimo escritor argentino Jorge Luis BORGES — especialmente quem leu o conto Pierre Menard, autor do Quixote — sabem que não é de agora que a crise da arte também repercute na produção literária. Aliás, antes mesmo, por exemplo, que a representação figurativa passasse a ser questionada no campo das artes plásticas, dando vazão a um crescente abstracionismo, a poesia lírica moderna, sobretudo a partir da obra de Charles Baudelaire, passa a expressar um discurso que rompe radicalmente com os padrões retóricos de clareza e consistência, investindo na elaboração de linguagens complexas e significados herméticos. As propostas de Goldsmith, portanto, devem ser situadas no processo de redefinição e experimentação de recursos estéticos que tem dinamizado a produção literária já há mais de um século. Mais bibliografia teórica sobre esse tema pode ser consultada AQUI.


Literatura será feita a partir de cópias, diz fundador do site UbuWeb

SILAS MARTÍ

Kenneth Goldsmith acha que está fazendo arte quando senta e reescreve palavra por palavra a edição do dia do “The New York Times”. Também anda fascinado com a advogada californiana que publica num blog sentenças de condenações por estupro como se fossem poesia, sem alterar uma única linha.

“Ficou claro que a escrita do futuro tem mais a ver com mudar as coisas de lugar do que com criar novos conteúdos”, afirma ele. “Samplear [utilizar trechos de obras já prontas] alguma coisas vale mais do que essa coisa em si.”

Goldsmith, artista e escritor americano que fundou o site UbuWeb, acredita tanto nisso que escreveu um livro-manifesto. “Uncreative Writing”, ou escrita não criativa, ensina como ser um autor em plena cultura do remix.

FOTO: MeredithWaterswaters Kenneth Goldsmith, fundador do site UbuWeb e autor do livro "Uncreative Writing"

Kenneth Goldsmith, fundador do site UbuWeb e autor do livro “Uncreative Writing”

“Essas ideias não são novas, mas não tinham chegado à literatura”, opina. “É um debate ainda muito rudimentar se pensarmos que nas artes visuais a questão de plágio e deslocamento começou com o urinol de Marcel Duchamp, lá atrás, em 1913.”

Das artes plásticas à música, em tempos de difusão ultraveloz na internet, o mundo vem redefinindo a ideia de cópia e plágio, dando muitas vezes peso de original a novas versões do que já existia. Na literatura, a febre do remix causa as distorções que viraram objeto de estudo de Goldsmith, ele mesmo gastando horas do dia em exercícios tediosos como copiar artigos de jornal para ver onde surgem erros espontâneos, frutos de sua desatenção.

“Tudo o que escrevo é horrível, impossível de ler”, reconhece. “Mas não estou interessado em leitura, é só um estopim para discussões.”

Ao observar falhas de linguagem, Goldsmith concluiu que a raiz disso já estava na poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, na literatura transtornada dos beatniks e na justaposição de tudo, possível só na era da internet. No ubu.com, por exemplo, é possível ver vídeos dos Beatles e peças de Samuel Beckett. “É um espaço utópico, em que tudo conversa”, diz. “Reenquadro o que existe para criar algo novo, um colapso dos gêneros artísticos.”

Seu próximo passo é reescrever o clássico ensaio do alemão Walter Benjamin sobre as galerias comerciais da Paris do século 19, só que transpondo a ação para as ruas de Nova York no século 20. Nessa versão, personagens trocam de pele –Baudelaire, por exemplo, vira o polêmico Robert Mapplethorpe.

FONTE: Folha.com

poesia, mitologia & quadrinhos para encarar a “morte da arte”

 

Imagens do inferno contemporâneo

“Poema em quadrinhos” vai além dos limites da escrita e da ilustração para expor dilemas da arte na alta modernidade

Por Alexandre Pilati*

Está disponível no Brasil uma das obras primas de Dino Buzzati (1906-1972), autor italiano internacionalmente conhecido pelo romance O deserto dos tártaros (1940). Trata-se do Poema em quadrinhos (Poema a fumetti, 1969), uma lancinante recriação gráfica e textual da descida de Orfeu aos infernos à procura de sua amada Eurídice. Dessa reunião entre grafismo e um texto poeticamente apuradíssimo nasceu uma das mais originais recriações do mito órfico e uma das mais instigantes viagens críticas nos meandros das estruturas políticas e culturais da alta modernidade.

Ao que parece, a forma encontrada por Buzzati para se expressar é fruto de um profundo dilaceramento do criador quanto aos materiais que escolhe para dar vazão à matéria poética. Longe de ser um mero texto ilustrado, Poema em quadrinhos é um texto de grande densidade poética articulado, de maneira magistral, a um registro gráfico que não é apenas legenda imagética do texto, mas que funciona como uma instância outra da própria poesia que a criação buzzatiana emana. Nesse sentido, a obra também poderá ser lida como um grito órfico (pela possibilidade de resistência crítica da arte) no meio da pasmaceira estética da indústria cultural. A fórmula de Buzzati, entre texto e imagem, surge, talvez, do dilema que foi indicado por ele mesmo em um livro de entrevistas, intitulado Dino Buzzati, pitore (1969). Como aparece reproduzido na edição brasileira, o artista afirma sobre o seu metier: “Sou um pintor que, por hobby, durante um período infelizmente bastante longo, fez-se também escritor e jornalista. O mundo, no entanto, crê que seja o contrário e não ‘pode’ levar a sério minhas pinturas”.

Levando a sério a empreitada gráfica e textual de Buzzati no Poema em quadrinhos, o leitor poderá fruir a eficácia estética atingida pelo autor na combinação das duas linguagens, que, na obra, diga-se de passagem, funcionam como uma terceira e potente linguagem artística, tamanha é a integração tensionada entre elas. E não poderia ser diferente, uma vez que a escolha do próprio tema impõe um desafio formal ao autor. Trata-se do velho mito de Orfeu que desce aos infernos para resgatar a amada Eurídice. Adaptado para a realidade contemporânea, os personagens centrais são nomeados como Orfi, um jovem cantor pop, e Eura, sua amada que desce ao inferno. Este nada mais é do que uma casa misteriosa e fantasmática na Via Saterna, em Milão, localizada em frente à janela de Orfi. Um dia, o cantor vê entrar na casa um vulto que lhe parecer ser o de Eura, que ultrapassa a porta, como se fosse um espírito. Posteriormente, Orfi sabe que Eura estava morta e decide entrar na casa-inferno para resgatar sua amada. Depois de uma série de acontecimentos, é dada a Orfi a chance de cantar uma canção capaz de emocionar o reino dos mortos o que lhe dará a oportunidade de encontrar a sua amada e retornar ao mundo dos vivos.

Não será necessário desenvolver aqui mais o enredo para que saibamos o quão fiel à narrativa mítica de Orfeu é o Poema em quadrinhos. Nele revemos algumas das unidades míticas que fazem a força da lenda: o cantor/poeta/artista (dono de um poder impotente); a amada (personificação de um ideal de beleza inatingível, ou irreconciliável com a vida); o inferno (sua reprodução pelo avesso do mundo dos vivos, revelando não como é a morte, mas como a vida é grave). Esses, por assim dizer, mitemas essenciais da narrativa órfica, que poderiam ser lidos como meros dados atemporais atualizados, sofrem uma filtragem contemporânea que possibilita reconhecer os câmbios sofridos por eles na intervenção artística buzzatiana, a qual tem como resultado a revelação de uma dolorida reverberação, no molde mítico utilizado, da história contemporânea. Assim, seria apropriado dizer que, no Poema em quadrinhos, não é a atualização do mito grego o dado decisivo para o resultado estético. Nesse caso, seria melhor considerar a forma como restos desse mito (e de outros mitos criados pela modernidade) se recompõem de acordo com novas demandas expressivas, propondo um resultado final de atualização da nossa visão do contemporâneo, sobretudo através das filtragens propostas pelas categorias de “canto”, “beleza” e “inferno”. Entre essas categorias, aquela que assume um potencial de aguda atualidade é a do inferno, transformado no próprio mundo da fantasmagoria burocrática da alta modernidade ocidental. Uma burocracia que é chefiada pelo diabo da guarda, na verdade uma jaqueta falante que controla as entradas e saídas do inferno. Uma burocracia que, além de tudo, é posta em prática por moças sedutoras que, na verdade, são meros simulacros do mundo artisticamente rebaixado da pornografia.

Todavia, a citação do mito de Orfeu, no Poema em quadrinhos, pode ser lida como uma espécie de “citação matricial”, pois o conjunto das pouco mais de duzentas páginas é um verdadeiro caleidoscópio de referências imagéticas e textuais, um verdadeiro inventário de relíquias da grande tradição de representação pela via pictórica que a modernidade legou à história da arte. Apenas para lembrar alguns nomes conhecidos “citados” por Buzzati em sua obra, citemos os pintores Caspar David Friedrich (p.110) e Salvador Dalí (p.31) e os cineastas F.W. Mural (p.130) e Federico Fellini (pp.192-5). Tais citações são já parte do movimento formal de problematização das categorias de arte, beleza e mundo administrado. Além dessas citações, ficam claras referências às próprias obras de Dino Buzzati, à pop art. americana, à arte surrealista, ao expressionismo e também aos quadrinhos eróticos tão em voga na década de sessenta. Ou seja, o Poema em quadrinhos é um grande emaranhado de referências, um entroncamento de linguagens, do estilo alto ao baixo, organizados em torno de um mito em cujo centro simbólico encontra-se a ideia de eficácia ou de função do canto.

Tal lógica da citação, que cria um verdadeiro sistema de simulacros sobrepostos, sugere a força de autoquestionamento que tem a forma artística do quadrinho buzzatiano. Noutros termos, poderíamos dizer que a máquina de citações que é o Poema em quadrinhos atesta o desgaste das formas artísticas clássicas num mundo em que o espetáculo domina, uma vez que as referências não são meras reproduções celebrativas. Elas são manejadas sob um prisma disfórico, que revela algo de um sentimento do criador diante de um mundo em que a arte não poderá talvez criar nada de novo. Então, o inferno do criador de arte não seria a miríade de citações que o impedem de representar o mundo relegando-o a uma espetacular mas débil representação de um fantasma da arte? Desta pergunta poderia derivar uma outra, de alcance mais amplo: pode o produto da indústria cultural, valendo-se de uma linguagem potencializada e estimulada por essa mesma indústria, transformar-se em modelo estético crítico ou refratário a essa mesma lógica?

Minha impressão é a de que a abordagem dessa possibilidade é determinante para o valor estético de Poema em quadrinhos, pois esta via, a do autoquestionamento alimentado pelo combustível formal, é aquela que nos faz ver como a obra evidencia dilemas profundos da arte na contemporaneidade. Vejamos, pois, alguns elementos que podem ajudar a indicar alguns caminhos exegéticos.

Para começar, relembro um trecho que entendo ser fundamental para a interpretação do Poema em quadrinhos como forma artística que problematiza os destinos da arte na contemporaneidade. Trata-se da página 40, e o momento é aquele em que o personagem Orfi recebe a notícia de que Eura havia morrido. Orfi pergunta sobre os funerais que vê passar na rua: “…Quem são todos esses mortos?” A resposta vem de um homem sério, de rosto indefinido e cigarro entre os lábios: “Não são./ É. É sempre/ o funeral/ dela/ como você deveria saber.” No contexto da narrativa, “ela” refere-se a Eura. Na leitura que temos empreendido até aqui, Eura é a arte, a beleza. Não seria, pois, despropositado pensarmos que o Poema em quadrinhos exibe pela via da máquina de citações que gera um desfile de pequenos funerais da arte, um desfile em que as imagens da arte a substituem, assim como o fantasma de Eura é perseguido por Orfi, tendo em vista ausência de Eura viva.

Esse desfile funeral da arte e de suas velhas funções, no entanto, não é observado a partir de uma perspectiva saudosista ou conservadora. É a negatividade do olhar dilacerado que faz o Poema em quadrinhos sustentar-se como produto da lógica da indústria cultural que abre um arco de tensões que podem questionar as funções da arte dentro dessa mesma lógica. O principal sintoma desse olhar dilacerado pode ser captado na densidade do tempo narrativo da obra. Essa é a sua grande força motriz: o modo como o tempo se organiza no Poema em quadrinhos instaura uma dimensão crítica que atravessa a sua máquina de citações. O tempo na obra de Buzzati tem dois planos de execução. Um deles é linear/horizontal e caminha para o desfecho da história do mito, ou seja, a descida de Orfi/Orfeu ao inferno em busca de Eurídice. O outro plano de execução do tempo é dispersivo/lírico/crítico. Aí está o vigor reativo de Poema em quadrinhos: como em Dalí, o tempo linear está à beira da liquefação, aderindo a planos de simultaneidade que acabam intensificando a expressão da confusão e do desespero da busca de Orfi.

Assim arma-se a equação central do livro, se Orfi caminha linearmente em busca de Eura, o faz carregando “nas costas” referências do mundo da arte e da indústria cultural. A iminência de dispersão da sua narrativa no meio da miríade de citações que a obra realiza é a iminência da perda de função ou de valor estético do trabalho do artista. O desespero de Orfi/Buzzati é o desespero da liquefação do belo. Restaria ao artista, no inferno que é o campo artístico contemporâneo, replicar fantasmas, restos ou relíquias dispersas no mundo do espetáculo, tornados todos eles mercadoria rasa? Poema em quadrinhos propõe uma solução para isso, que está na formalização, nas estruturas mais elementares do produto cultural, da sua inexorável condição de mercadoria. No caso de Buzzati, o destino de ser inexoravelmente feixe fantasmático de citações. A solução buzzatiana passa ainda pelo dilaceramento que marca o movimento de desrecalque dessa situação da arte no contemporâneo. Considerando que a arte persiste na alta modernidade como um fantasma de si mesma, a busca de Orfi é metáfora da busca do grande artista: a de reativar o condão que a arte tem (tinha?) de representar a totalidade social. Repor a vida em algo que é contemporaneamente quase só aura, quase que apenas uma saudosa imagem de si: eis o desafio de Orfeu. Eis também o desafio que Buzzati enfrenta ao nos apresentar, com inflexão crítica, as imagens de um inferno contemporâneo.

——–

Poema em quadrinhos saiu no Brasil pela editora CosacNaify em 2010. A tradução do italiano é de Eduardo Sterzi.

(*) Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília, poeta e crítico literário. Autor, entre outros, de A nação drummondiana (7letras, 2009)

FONTE: Outras Palavras

a crise da arte na canção popular

 

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

[Ferreira Gullar]

 

 

COMPUTADORES FAZEM ARTE

Computadores fazem arte
Artistas fazem dinheiro.
Computadores fazem arte
Artistas fazem dinheiro.
Computadores avançam
Artistas pegam carona.
Cientistas criam robôs
Artistas levam a fama.

[Chico Science & Nação Zumbi]

 

 

COMIDA

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?…

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?…

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor…

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade…

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?…

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor…

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade…

Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade…