Francisco Tenreiro: antologia de poesia e de crítica


Avançando no estudo da poesia negritudinista do são-tomeense Francisco Tenreiro, seguem abaixo algumas referências (clique nas imagens) para a discussão desses textos, bem como mais uma coletânea de poemas, alguns dos quais merecem breves análises na obra aqui indicada de Manuel Ferreira.

nauliteraria tenreiro murilo

literafri ferreira expressão capa minus

FERREIRA, Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa. 1.ed. 2 vols. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1977.

tenreiro multiplas faces capa

PADILHA, Laura. Em busca de um novo humanismo. In: MATA, Inocência (org.). Francisco José Tenreiro: as múltiplas faces de um intelectual. Lisboa: Colibri, 2010.

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francisco_jose_tenreiro

         obra tenreiro

AMOR DE ÁFRICA

1
Esparso e vago amor de África
como uma manhã outonal de nevoeiros calmos sobre o Tejo.
Difuso e translúcido amor de África
na sombra fugidia ao gás das travessas às três da madrugada.
Amor pálido de África num céu de andorinhas mortas
num campo branco sem malmequeres nem papoulas
Amor ténue e pálido, difuso e vago, translúcido de África
no coração murcho das multidões do Rossio olhando o placard
gente murcha e exausta, cansada e torturada
cansada e torturada para o amor.
(Quatro pulsações febris de um corpo só
oh África do Nilo e do Zaire oh África do Zambeze e do Níger
quem em ti está pensando de coração em África?
África dos rios velhos e ruínas ossificadas de Zimbabwé
China das muralhas de crisântemo e sangue
Malaias e Indonésias com encruzilhadas de sonho e febre
Indochina da virilidade com abraços tricolores de fraternité e palavras de balas
quem em vós está pensando de coração em África, nas Chinas e Malaias, Indonésias e Indochinas de sonhos crispados?)
São sempre notícias de longe (terras exóticas meu avô andou lá veja a mala de cânfora conheceu o Gungunhana)
são sempre notícias de longe bafejando corações murchos às cinco horas da tarde no largo do Rossio.
Esparso e vago amor de África pelas calçadas da cidade.
Vago amor de África pelas nove horas da manhã, comigo sentado num eléctrico amarelo
deslizando nos carris ainda orvalhados do sonho e da ilusão
com pernas roliças de sopeiras a caminho da praça
e as vozes acordadas roucas dos embarcadiços encalhados
e as gralhas gentis e palradoras da agulha e linha
comigo sentado no eléctrico amarelo com carris de sonho
e uma mulher velha com o desejo-de-lugar nos olhos encovados
e eu deslizando com os sonhos dos outros e acordando para os olhos velhos da mulher
levantando-me e ela sentando-se no comentário para a do lado
há rapazes pretos muito gentis, muito gentis, muito gentis
e eu indiferente e vago com a vaguidade do amor daquela mulher esquecida do tempo como um papiro
embalado pelo eléctrico amarelo de sonho e pelos carris
das gralhas mimosas e palradoras;
(ah não haver milho às mãos-cheias para os bichos gulosos de vida destes corpos penugentos
nem os barcos de papel da infância seguros contra todos os riscos no Lloyd’s da nossa imaginação
para os homens do mar feitos agora gaivotas cinzentas em terra).
Esparso e vago amor de África pelas calçadas da cidade.
Vago também as nove e trinta da manhã na tabacaria tolhida de espanto
à esquina do prédio de oito andares
onde em dois brasidos se queimam olhos fosforescentes de pantera
e há uma mão felina estendendo na ponta das unhas recurvadas
pelo desejo e pela ambição o maço de Paris
uma mão de veludo e unhas de sangue
metendo conversas secretas e arrepios na espinha
solicitando encontros respeitáveis com carteiras concretas
casacos cio Alaska e jóias de Kimberley.

2
Aqui estou agora de coração em África
nesta noite fria e nu do capote das ilusões
ouvindo este sábio que tudo sabe tudo sabe de África.
De África e dos pretos claro está!…
Dos pretos que para arrelia das gentes à Terra vieram
pobrezinhas crianças crescidas em pretidão
mas que têm alma branca dizem uns
ou segundo outros alma danada.
Aqui estou eu agora vestido de África por dentro
por fora cheviote sorridente o sábio ouvindo
que das pirâmides diz e esquece os negros faraós
da poligamia reverbera olhos fechados à pederastia
fosforescente ao escuro das ruas velhas do mundo cansado
braço dado com damas de camélias emurchecidas
como as palavras que solta da sua caveira sem dentes.
Aqui estou eu agora coração oprimido e sorriso longe
ouvidos atentos ao linfatismo de repetidas ideias
sei lá quantas vezes e tantas como pingos sujando o meu coração.
Oh! minha África ter-te no peito o que vale
perante a clareza absoluta e homérica de afirmações tão sábias!
«Eu antes quero uma fuga de Bach que um batuque de cafres;
Prefiro um quadro de Rubens a um manipanso preto;
Sim, claro, o Ifé e o Benin são excepções ao resto
infantil, imaturo, caricatural da arte africana»
Casquinava arritmicamente, os dentes soltos na caveira consumida de sabedoria!
De Sabedoria de África e dos pretos claro está!…
Ri caveira morta, riam todos vocês assistência sem vida
Riam todos que o caso não é para menos;
mas deixem-me por favor este sorriso cheviote por fora
enquanto o meu coração serenamente conta
os minutos-tempo que faltam para a humanidade renascer!

 

EPOPEIA

Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
— veias entumecidas dum corpo de sangue!

*

Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
roxeando a noite tropical

Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!

*

Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando o compasso!

Noite de grande lua
e destino ignorado!…

*

Foste o homem perdido
Em terras estranhas!…

No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações de fumo!

Na calma do descanso nocturno
só saudade da terra
que ficou do outro lado…
— só canções bem soluçadas —
dum ritmo estranho!

*

Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!

Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi despropósito!…

Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideais
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres…

Libéria! Libéria!

Ah!
os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando…

*

Quando cantas nos cabarés
Fazendo brilhar o marfim da tua boca
É a África que está chegando!

Quando nas Olimpíadas
Corres veloz
É a África que está chegando!

Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja a de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma via nova!

…para que a tua gargalhada
de novo venha estraçalhar os ares
como gritos agudos de azagaia!

 

EXORTAÇÃO

Negro
para quem as horas são sol e febre
que colhes
nesse ritmo de guindaste.

Negro
para quem os dias são iguais
que respeitas teu patrão e senhor
como água que mexe o engenho.

Negro!
Levanta os olhos para o sol rijo
e ama tua mulher
na terra húmida e quente!

 

O MAR

A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
– Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!…

Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai!

O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!…

 

CANÇÃO DE FIÁ MALICHA

“Lenço di seda
…Seda càbou!”

O branco arregalou os olhos
Negrinha tão tenra
de peito durinho!

“Saia di pano
…Pano càbou!”

No socopé seu branco a tomou:
Negrinha tão tenra
de riso tão largo!

“Vinho di plôto
….Plôto càbou!

                                                          Seu branco deu tudo
té roça montou!

Mas mina piquina
tudo càbou…

 

LONGINDO O LADRÃO

Os olhos de Longindo
saltam a noite
como dois bichinhos luminosos.

Chiu!
Só o eco do mar!

O corpo de Longindo
segue os olhos
como caçô atrás de homem!

Chiu!
Só o rumor do palmar!

A mão de Longindo
estendeu-se prá frente
os olhos saltando na noite!

Ui!
Um tiro de carabina!

O coração de Longindo
começou batendo
e a navalha cantou de encontro à pele.

Hum!
Um tiro de carabina!

Longindo fechou um olho.
Depois o outro.
O branco o perdeu na escuridão!…

Ah!
Só o ronco-ronco do mar!

 

NÓS, MÃE

Tens o rosto vincado, minha mãe!

Os teus seios deixaram de dar leite
e tombaram em desalento
como duas folhas envelhecidas.
Só as tuas pernas engrossaram
e os dedos cortados e lascados
se enraízam pela Terra
dizendo que ainda vives.
De resto, o teu ventre murchou
como se tivesse sido soprado
pelo bafo dum vulcão maldito.
De resto, o teu corpo de azeviche
mirrou e tornou-se pardacento
e a tua pele fina, minha mãe,
ficou rugosa e feia
como casca de uma árvore velha.

Os teus olhos são duas poça de água
procurando em vão nem tu saberás o quê?
Talvez os teus tantos filhos
paridos desse ventre gasto e encarquilhado
e que vão gritando pelo mundo lágrimas de sangue.
O cantar doce dos coqueiros
ondulando à brisa
era o balbuciar do teu primeiro filho.
E a nossa primeira irmã
tinha nos olhos duas luas negras
acendendo a nossa alegria.
Então, os teus seios, minha mãe,
tinham leite correndo-te dos bicos
em dois riozinhos muito brancos
na pele de ébano.

Ah! Brancos, negros e mestiços
escaldaram o teu corpo de sensações
com o bafo quente de um vulcão maldito.
E os teus seios secaram
o teu corpo mirrou
e as pernas engrossaram
enraizando-se no teu próprio corpo

E os teus olhos…

Os teus olhos perderam o brilho
ao sentirem o chicote
rasgar as carnes dos teus filhos.
Os teus olhos são poços de água pálida
porque cheiraste na velha cubata
o odor intenso de uma aguardente qualquer.

Os teus olhos tornaram-se vermelhos
quando brancos, negros e mestiços
instigados pelo alcóol
pelo chicote
pelo ódio
se empenharam em lutas fratricidas
e se danaram pelo mundo.

E a ti,
Oh! Mãe de negros e mestiços e avó de brancos!
Ficou-te esse jeito
de te perderes na beira de algum caminho
e te sentares de cabeça pendida
cachimbando e cuspindo para os lados.

Mas os teus filhos não morreram, negra velha,
que eu oiço um rio de almas reluzentes
cantando: nós não nascemos num dia sem sol.

Que um rio vem correndo e cantando
desde St.Louis e Mississipi
ao som dos quissanges numa noite africana
às noites longas dos cargueiros em Port-Said
à luz nevoenta de algum botequim inglês
até onde haja um peito negro tatuado e ferido.

Conheço sim, o cansaço do nosso corpo
E se um dia não puderes mais
fecha os olhos e encosta o ouvido à terra.
Ui! Ouvirás no ressoar de um tambor ao longe
O canto altivo e sereno dos teus filhos.

Nós, minha mãe
Não nascemos num dia sem sol!

 

1619

Da terra negra à terra vermelha
por noites e dias fundos e escuros,
como os teus olhos de dor embaciados,
atravessaste esse manto de água verde
– estrada de escravatura
comércio de holandeses –

Por noites e dias para ti tão longos
e tantos como as estrelas no ceú,
tombava o teu corpo ao peso de grilhetas e chicote
e só ritmo de chape-chape da água
acordava no teu coração a saudade
da última réstia de areia quente
e da última palhota que ficou para trás.

E já os teus olhos estavam cegos de negrume
já os teus braços arroxeavam de prisão
já não havia deuses nem batuques
para alegrarem a cadência do sangue nas tuas veias
quando ela, a terra vermelha e longínqua
se abriu para ti
– e foste 40 £ esterlinas
em qualquer estado do Sul –

 

CICLO DO ÁLCOOL

1
Quando seu Silva Costa
chegou na ilha
trouxe uma garrafa de aguardente
para o primeiro comércio.

A terra era tão vasta
havia tanto calor
que a água
parecia não ter potência
para acalmar a sede da sua garganta.

Seu Silva Costa
bebeu metade…

E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.

2
A lua batendo nos palmares
tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
é o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
soluçam as cubatas
batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
os brancos estão fazendo negócio
a golpes de champagne!

3
Mãe Negra contou:
“eu disse:
filhinho
beba isso coisa não…
Filhinho riu tanto tanto!…”

Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
estremeceram um sorriso longínquo.
– E depois Mãe-Negra?

“Oh!
filhinho
entrou no vinhateiro
vinhateiro entrou nele…”

Os olhos de nhá Rita
estão avermelhando de tristeza.

“Hum!
filhinho
ficou esquecendo sua mãe!…”

 

ILHA DE NOME SANTO

Terra!
das plantações de cacau, de copra, de coco a perderem-se de vista
que vão morrer numa quebra ritmada
num mar azul como céu mais gostoso de todo o mundo!

Onde o sol bem amarelo incendeia as costas
dos homens, das mulheres agitando-lhes os nervos
num cadenciar magico mas humano; capinar, sonhar, plantar!

Onde as mulheres que têm braços mais grossos e mais tortos que ocá
são negras como o café que colhem depois de torrado
trabalham ao lado do seu homem numa ajuda toda de músculos!

Onde os moleques veem seus pais no ritmo diário
deixando correr gostosamente pelo queixo quente
o sabor e a seiva úmida do sàfu maduro!

Onde as noites estreladas
e uma lua redonda como fruto
os negros as sangués os moleques os caçô
– mesmo o branco e a sua mulata –
vêm no sòcòpé de uma sinhá
ouvir um malandro tocando no violão
cantando ao violão!

E o som fica escoando pelo mar…

*

Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro
onde apesar da espada e duma bandeira multicolor
dizerem poder dizerem força dizerem império de branco
é terra de homens cantando vida que os brancos jamais souberam.
é terra do sàfú do sòcòpé da mulata
– ui! fetiche di branco! –
é terra de negro leal e valente que nenhum outro!

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e vem aí o III CBPN & Seminário Áfricas!!

 

África e Diáspora são temas de congresso na Bahia

A programação reúne conferências, mesas-redondas, grupos de trabalho, sessões de comunicação e minicursos, com público estimado de 800 participantes.

Salvador – África e Diáspora: para além das fronteiras. Esse é o tema norteador do III Congresso Baiano de Pesquisadores Negros e do III Seminário Áfricas: Historiografia Africana e Ensino de História, que acontecem entre 12 e 16 de outubro, no Campus V da UNEB, em Santo Antônio de Jesus. Os eventos são promovidos de forma integrada pela UNEB em parceria com a Associação de Pesquisadores Negros da Bahia (APNB) e com a Rede Internacional de Estudos Africanos e da Diáspora (Readi).

Segundo Cláudia Sousa, diretora do Departamento de Ciências Humanas (DCH) do campus, a realização das atividades, além de fortalecer discussões históricas fomentadas pela comunidade acadêmica, congrega ainda estudantes, professores, técnicos, além da população local. “Acredito que o Campus V, ao sediar os eventos, está contribuindo com o fortalecimento não só das produções acadêmicas, mas, sobretudo, da cultura da própria região”, defende Cláudia.

Os interessados podem se inscrever como ouvintes ou para apresentação de trabalhos até o dia 19 de setembro, com o envio da ficha de inscrição para o e-mail apnb2008@gmail.com. A taxa de inscrição varia conforme a categoria de participação.

O congresso e o seminário são organizados pelo DCH, pelo Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos (Cepaia) e pelo programa Afrouneb. “Os eventos não acontecem no Campus V por acaso. Lá, temos o programa Afrouneb, que trabalha com pesquisas voltadas para as populações negras, assim como o Cepaia faz esse trabalho em Salvador”, frisa o diretor do Cepaia, Wilson Mattos, acrescentando que o congresso e o seminário vão acontecer simultaneamente pela convergência de objetivos e pela proximidade das temáticas.

A programação reúne conferências, mesas-redondas, grupos de trabalho, sessões de comunicação e minicursos, com público estimado de 800 participantes. Entre as atividades a serem realizadas, Wilson destaca o grupos de trabalhos sobre história da África; saúde da população negra; e ciência, tecnologia e inovação. “Nesse último, além da exposição de trabalhos de pesquisadores negros, se discutirá a presença marcante desses aspectos nas sociedades africanas”, completa.

Apóiam ainda as atividades as universidades estaduais de Feira de Santana (Uefs), do Sudoeste da Bahia (Uesb) e de Santa Catarina (Ufsc), as federais da Bahia (Ufba), do Recôncavo da Bahia (Ufrb), dos vales do Jequitinhonha e Mucuri e de Minas Gerais (Ufmg), além da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). As informações são da Universidade Federal da Bahia.

site cbpn3

FONTE: África 21

simpósio AFRO-RIZOMAS: divulgação

Relevo Emblema 9 , 1977

Prezad@s Colegas & Malung@s

Apresentamos aqui nossa proposta de simpósio a ser realizado no âmbito do XII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LITERATURA COMPARADA 2011 (ABRALIC, 18 a 22/07/2011, Curitiba). Como poderão observar, essa proposta tem como principal objetivo construir um espaço abrangente, interdisciplinar, dialógico e diaspórico para a apresentação de pesquisas relacionadas às produções literárias que colocam discursos e sentidos de matriz negra e africana em primeiro plano. Aos que se interessarem em participar, o prazo de submissão de resumos vai de 14/03 a 15/04/2011. Sistema de inscrição e maiores informações podem ser acessados no link destacado a seguir, ou mediante contato com @s Cooordenador@s:

http://www.abralic.org.br/informativo/2010/64

Contamos com sua colaboração na divulgação dessa proposta.

AFRO-RIZOMAS: LITERATURAS AFRO-BRASILEIRA E AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Coordenadores:

Prof. Dr. José Henrique de Freitas Santos (UFBA, <henriquebeat@gmail.com>)

Prof. Dr. Jesiel Ferreira de Oliveira Filho (UFS, <negroatlantico@gmail.com>)

Profª Drª Maria Nazaré Mota Lima (UNEB, <librianar@gmail.com>)

As literaturas africanas de língua portuguesa e afro-brasileira derivam de relações diversas que perpassam a experiência colonial lusitana, a noção de diáspora, o processo de (re)invenção das tradições e a constituição de redes rizomáticas que foram tecidas internamente e para além-ar, a fim de autogerir as identidades através das quais Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Portugal e Brasil representam-se e são representados na produção literária contemporânea escrita em língua portuguesa.

Se o rizoma (DELEUZE, 2004) opera a partir de uma lógica de descentramento, pela qual não é possível demarcar sua origem de forma unilateral, nem tampouco pensá-lo a partir de uma teleologia, os afro-rizomas constituem-se como uma reversão da perspectiva que toma exclusivamente a influência colonial lusitana como determinante para a emergência das literaturas no Brasil e nos países africanos de língua portuguesa, reconfigurando, desta forma, as relações em jogo. O termo afro, neste contexto, é ressignificado pela perspectiva da diáspora, que, de acordo com HALL (2003) e GILROY (2001), não se refere apenas à dispersão dos povos africanos pelo mundo, mas, principalmente, à construção de um novo espaço simbólico no qual a reversão da condição subalterna imposta pela escravização africana é realizada continuamente em campos como a música, a literatura e a produção cultural. Desta forma, assim como a literatura afrobrasileira soergue-se historicamente no Brasil afirmando uma estética negra em diálogo com a África, a partir do tensionamento de um cânone instituído que invisibiliza as produções e as representações afrobrasileiras, as literaturas africanas de língua portuguesa emergem também como escritas de si para além de uma circunscrição geopolítica, através de uma tessitura que opera entre tradições e modernidades, entre o local e o global, sem furtar-se a avaliar os projetos nacionais reservados aos países lusófonos de África. É importante ressaltar como a reavaliação da empresa colonial lusitana no Brasil e nos países africanos também tem sido tema recorrente na literatura portuguesa contemporânea, de forma a contribuir significativamente com o importante processo de autognose, de que fala Eduardo Lourenço, uma vez que estes espaços físicos e simbólicos, forjados agora em relações mais desierarquizadas, redimensionam a própria representação de Portugal.

Ora, nesta dinâmica, a constituição da ideia de nação no período “pós-colonial” tanto no Brasil como nos países africanos lusófonos contará com a importante contribuição da literatura no processo de invenção das tradições nacionais (HOBSBAWN, 1984) e de construção de identidades através das quais se representem o povo no intuito de que a imagem forjada não seja mero reflexo do Outro lusitano colonial. Os fluxos dispersos que vão constituindo os comunitarismos (ABDALA JR, 2003) transnacionais vão atando e desatando os nós de uma rede que não se encerra no Estado-nação e, na contemporaneidade, expande-se através dos mercados editoriais, de ações governamentais, da iniciativa individual de escritores e leitores, bem como da ampliação de sítios e blogues na internet sobre autores e textos ficcionais portugueses, africanos e brasileiros. A conformação de uma rede literária que passa a operar nas coletâneas, nas resenhas e em produções críticas sobre obras enfrenta o desafio de contemplar, na narração da nação nestes territórios, a alteridade que põe em xeque os valores etnofalogocêntricos, já que, conforme adverte Laura Padilha, a diferença interroga o cânone toda vez que o outro subsume ao ímpeto de homogeneidade. Neste sentido, este Simpósio, além de constituir-se como espaço de reflexão acerca de conceitos como lusofonia, pós-colonialismo, africanidade, afrobrasilidade, diáspora, dentre outros, os quais atravessam os estudos sobre as literaturas em questão, propõe-se a fomentar análises contrastivas entre as produções africanas e as brasileiras e/ou portuguesas. Ademais, seguindo as observações de Carmem Lúcia Tindó Secco (2002), interessa-nos também pensar as travessias e rotas dessas literaturas na contemporaneidade, contemplando suas errâncias estratégicas tanto no plano estético-político quanto dos discursos identitários, abrangendo-se aí, além da produção literária orientada pela escrita, a oralidade ontológica dos griots, a performance do rap, o grafismo pictórico do graffiti, a produção marginal das periferias das grandes metrópoles, dentre outros. Por fim, este Simpósio acolherá ainda trabalhos acerca dos recursos de produção e circulação oficiais e não-oficiais das literaturas afro-brasileira e africanas de língua portuguesa nos contextos global e local, bem como análises que se detenham no impacto de políticas públicas e privadas de estímulo ao consumo dessas produções em vestibulares, concursos e programas disciplinares.

Referências

ABDALA Jr., Benjamin. De vôos e ilhas: Literatura e comunitarismos. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática. 1989.

AUGEL, Moema Parente. O desafio do escombro: nação, identidades, pós- colonialismo na literatura da Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2007.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana L. L. Reis e Gláucia R.Gonçalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

CHAVES, Rita. Marcas da diferença. As literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura, Política, Identidades. B
elo Horizonte: UFMG, 2005. Estudos Sociais Afro-Asiáticos, 2001.

FANON, Frantz. Peles negras, máscaras brancas. Salvador: Editora EDUFBA, 2008.

FERRÉZ. Literatura Marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2000.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Vozes em discordância na literatura afro-brasileira contemporânea. In: FONSECA, Maria Nazareth, FIGUEIREDO, Maria do Carmo Lanna (Org.). Poéticas afro-brasileira. Belo Horizonte: Editora PUC Minas/Mazza Edições. 2002. P. 191 – 220.

GILROY, Paul. Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Trad. Cid Knipel,

GUATTARI, Félix; DELEUZE, Gilles. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol.1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo, Editora 34, 2004.

HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Org. Liv Sovik. Trad. Adelaine LaGuardia Resende [et al]. Belo Horizonte: Editora UFMG; Brasília: Representação da Unesco no Brasil, 2003.

MIGNOLO, Walter. Histórias Locais, Projetos Globais: Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003.

PADILHA, Laura Cavalcante. “A Diferença Interroga o Cânone”. In: SCHMIDT, Rita T. Mulher e Literatura: (Trans)Formando Identidades. Porto Alegre: Palloti, 1997. pp. 61-69.

PIRES LARANJEIRA. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa. Universidade Aberta, 1995.

SANTILLI, Maria Aparecida. Paralelas e tangentes entre literaturas de língua portuguesa. São Paulo: Arte & Ciência, 2003.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Travessia e rotas das literaturas africanas de língua portuguesa (das profecias libertárias as distopias contemporâneas). Légua & meia: Revista de literatura e diversidade cultural. Feira de Santana: UEFS, n°1, 2002, p. 91-113.

SOUZA, Florentina da Silva. Afrodescendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU. Belo Horizonte: Autêntica. 2005.

SOUZA, Florentina, LIMA, Maria Nazaré (Org.). Literatura afro-brasileira. Salvador/Brasília: Centro de estudos afro-orientais/Fundação Cultural Palmares. 2006.