a literatura como samplagem de textos: crise ou evolução da arte da palavra?

Os leitores do genialíssimo escritor argentino Jorge Luis BORGES — especialmente quem leu o conto Pierre Menard, autor do Quixote — sabem que não é de agora que a crise da arte também repercute na produção literária. Aliás, antes mesmo, por exemplo, que a representação figurativa passasse a ser questionada no campo das artes plásticas, dando vazão a um crescente abstracionismo, a poesia lírica moderna, sobretudo a partir da obra de Charles Baudelaire, passa a expressar um discurso que rompe radicalmente com os padrões retóricos de clareza e consistência, investindo na elaboração de linguagens complexas e significados herméticos. As propostas de Goldsmith, portanto, devem ser situadas no processo de redefinição e experimentação de recursos estéticos que tem dinamizado a produção literária já há mais de um século. Mais bibliografia teórica sobre esse tema pode ser consultada AQUI.


Literatura será feita a partir de cópias, diz fundador do site UbuWeb

SILAS MARTÍ

Kenneth Goldsmith acha que está fazendo arte quando senta e reescreve palavra por palavra a edição do dia do “The New York Times”. Também anda fascinado com a advogada californiana que publica num blog sentenças de condenações por estupro como se fossem poesia, sem alterar uma única linha.

“Ficou claro que a escrita do futuro tem mais a ver com mudar as coisas de lugar do que com criar novos conteúdos”, afirma ele. “Samplear [utilizar trechos de obras já prontas] alguma coisas vale mais do que essa coisa em si.”

Goldsmith, artista e escritor americano que fundou o site UbuWeb, acredita tanto nisso que escreveu um livro-manifesto. “Uncreative Writing”, ou escrita não criativa, ensina como ser um autor em plena cultura do remix.

FOTO: MeredithWaterswaters Kenneth Goldsmith, fundador do site UbuWeb e autor do livro "Uncreative Writing"

Kenneth Goldsmith, fundador do site UbuWeb e autor do livro “Uncreative Writing”

“Essas ideias não são novas, mas não tinham chegado à literatura”, opina. “É um debate ainda muito rudimentar se pensarmos que nas artes visuais a questão de plágio e deslocamento começou com o urinol de Marcel Duchamp, lá atrás, em 1913.”

Das artes plásticas à música, em tempos de difusão ultraveloz na internet, o mundo vem redefinindo a ideia de cópia e plágio, dando muitas vezes peso de original a novas versões do que já existia. Na literatura, a febre do remix causa as distorções que viraram objeto de estudo de Goldsmith, ele mesmo gastando horas do dia em exercícios tediosos como copiar artigos de jornal para ver onde surgem erros espontâneos, frutos de sua desatenção.

“Tudo o que escrevo é horrível, impossível de ler”, reconhece. “Mas não estou interessado em leitura, é só um estopim para discussões.”

Ao observar falhas de linguagem, Goldsmith concluiu que a raiz disso já estava na poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, na literatura transtornada dos beatniks e na justaposição de tudo, possível só na era da internet. No ubu.com, por exemplo, é possível ver vídeos dos Beatles e peças de Samuel Beckett. “É um espaço utópico, em que tudo conversa”, diz. “Reenquadro o que existe para criar algo novo, um colapso dos gêneros artísticos.”

Seu próximo passo é reescrever o clássico ensaio do alemão Walter Benjamin sobre as galerias comerciais da Paris do século 19, só que transpondo a ação para as ruas de Nova York no século 20. Nessa versão, personagens trocam de pele –Baudelaire, por exemplo, vira o polêmico Robert Mapplethorpe.

FONTE: Folha.com

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a morte da arte na poesia drummondiana

 

BRINDE NO BANQUETE DAS MUSAS

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida

Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.

Poesia sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.

Poesia, sobre o telúrio,
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva…
Poesia, morte secreta

 

CONCLUSÃO

Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
 
CANTO ÓRFICO

A dança já não soa,
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.

Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.

Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave: tua ausência
ainda retumba em nós, e estremecemos
que uma perda se forma desses ganhos.

Tua medida, o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.

No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
                                           Amplo,
                            vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.

A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.

Orfeu, reúne-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.

Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante,
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.

Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trimegista, aberta ao mundo.

[Carlos Drummond de Andrade. Fazendeiros do ar, 1954]

a arte de transformar o feio em arte: efeitos da “morte da arte”

 

O luto da arte

Marcia Tiburi

A tese da morte da arte ainda significa mais do que parece

      Damien Hirst: a arte contemporânea, sendo trabalho do luto, prova sempre a experiência do desgosto

A discussão sobre a morte da arte teve um lugar essencial nas Lições de Estética, de Hegel, no século 19. Não se pode perder de vista que a morte da arte à qual Hegel se referia era a da arte bela e não da arte de modo geral. Se Hegel tem razão, em havendo uma morte da arte que não deve ser generalizada, trata-se de entender que tipo de arte, para além da arte bela, sobreviveu. Em um século de genocídios, ditaduras e violências de toda sorte, a arte é a memória da sua própria morte.   

A pré-história dessa percepção está na Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant, que antes afirmou a existência de dois sentimentos, o belo e o sublime, como sustentáculos da experiência estética. Belo – a sensação de prazer com os objetos agradáveis – e sublime – um misto de prazer com desprazer – são formas de acesso subjetivo à beleza, tanto da natureza quanto das artes. Kant define a arte bela como aquela que pode representar de modo belo até mesmo as coisas feias. A tarefa histórica da arte sempre foi a de colocar beleza no mundo e suplantar o feio. Criamos essa expectativa e isso hoje em dia não nos ajuda.       

Mas o próprio Kant disse que havia uma espécie de feiura, que não pode ser representada de acordo com a natureza sem cancelar a complacência estética, ou seja, a nossa capacidade de perceber a beleza em geral e a beleza da arte. Kant refere-se à feiura que desperta asco. O asco, segundo Kant, é uma “sensação peculiar” marcada pela imposição do objeto feio que imediatamente se nos lança sobre os sentidos, sem que desejemos aceitar sua presença. O filósofo espanhol Eugenio Trías dá um exemplo repugnante só de ler: quem pisa em um rato morto e eviscerado na rua tem a sensação de que ele vai parar dentro da boca. A experiência do asco se dá como se um prato de merda fosse oferecido para se comer.       

O asco é uma espécie de sentimento impossível, por estar na contramão do gosto. Podemos traduzi-lo por nojo. E nojo é algo que se traduz por luto. A experiência do asco ou do nojo, como experiência do des-gosto, é da mesma ordem da experiência do luto, de algo que não desejamos e que mesmo assim se impõe. A lástima pela perda de um objeto amado, mas também do gosto – seja pela arte, seja pela vida – que acompanhava aquele objeto é experiência disseminada em nossa cultura, da qual a arte atual vem a ser a apresentação mais clara.       

A arte, do asco ao luto

O luto é sempre uma reação à perda de um objeto amado. É, portanto, a experiência da morte enquanto ela pode ser conhecida: a morte dos outros, das coisas, das experiências. Até mesmo, como em Luto e Melancolia, de Freud, a perda de uma abstração, de um ideal qualquer. Nunca a da epicuriana morte que não encontraremos, pois já não estaremos quando ela aparecer. A arte contemporânea é experiência enlutada e, por isso, dói tanto tratar dela. Encará-la é experimentar o luto na forma de sua exposição possível. Mas, se há entre arte e vida, entre ficção e realidade, uma relação que é sempre de mimese, por imitação ou por mimetismo, e se há tanta perda na vida, a arte não deveria ser nosso resgate para além do que a vida nos dá sem nenhuma elaboração?       

A promessa romântica da arte é que ela viria nos salvar da vida. Mas, após a perda da ingenuidade romântica, por que ainda esperamos tanto da arte? Arte é apenas um conceito que tem tão pouco valor quanto pouco uso nos dias de hoje. No entanto, arte ainda é, como conceito, algo que vai na frente da nossa sempre atrasada sensibilidade. Que a arte mova nossa sensibilidade é a esperança sem fundamento de muitos, mas sensibilidade é uma formulação imprecisa entre o perigoso culto da emoção e os sentimentos que só são elaborados mediante a interferência da racionalidade capaz de criar conceitos. Não há chance de que arte hoje seja mais do que uma construção para fazer pensar.       

Temos na experiência contemporânea da arte a autopresentificação do seu próprio luto. Como se a arte ainda estivesse no período enojado em que tem que se haver com a memória de um cadáver que é ela mesma e que, na verdade, mimetiza o estado das coisas de um mundo em crise de sentido. Assim é que a obsolescência do conceito de arte o coloca na posição de um conceito-memória. Um conceito que foi válido, mas que perdeu sua circunstância na atualidade. Arte não é mais a bela arte, ainda que possamos com muito esforço descobrir nas obras que a beleza também é um conceito e, como tal, uma visão das coisas.       

O paradoxo do gosto

O que a arte contemporânea nos sugere é a experiência do paradoxo do gosto. Como é possível “apreciar” esteticamente aquilo que repugna se neste momento a experiência estética como mediação entre sensibilidade e racionalidade foi anulada? A questão é que a arte contemporânea, sendo trabalho do luto, acontecendo na contramão do gosto, provoca sempre a experiência do desgosto. Por isso, a arte conceitual tem tanto espaço em nosso tempo, por chamar ao pensamento em tempos de cancelamento da sensibilidade. É como se toda obra nos enviasse a mensagem: se não podemos “gostar”, podemos “pensar”. É o paradoxo da inestética: a sensação é de perda da sensibilidade na arte; mais do que um problema da arte, é problema da cultura na qual ela surge. Um artista como Damien Hirst, com seus bezerros e tubarões no formol, não é, portanto, julgável segundo o padrão do gosto pela arte bela, porque estamos em tempos de perda do gosto. O que será que ele nos mostra que não sabemos pensar?       

Com isso se consegue compreender o que acontece com a arte atual. Ela é a experiência da morte da própria arte bela nestes tempos de desgraça cultural. Tempos tensos: de um lado tragicofílicos – desejamos a tragédia – e de outro tragicofóbicos – evitamos a morte a qualquer custo –, como disse Hans Gumbrecht. Podemos dizer, nestes tempos, que a arte se faz na ordem do trágico, este sentimento da “morte em mim”, da morte como experiência subjetiva, como imagem da melancolia que nada mais é do que a morte do eu e do pensamento que sempre foi a prova de que existia algo chamado “eu”. Não, não exageremos.       

A arte contemporânea não é nem trágica nem melancólica. Enlutada, ela nos pede que ultrapassemos a memória da morte e reinventemos o presente. Só o que impede isso é o capital culto à desgraça em que vivemos hoje. O gozo atual é com a ideologia da morte como um fim, quando, na verdade, estúpidos e conceitualmente avarentos, não sabemos entender o valor e o poder das transformações históricas das quais a arte nos dá apenas uma imagem para nos fazer acordar. Mas quando até mesmo a desgraça se tornou um “capital”, haverá espaço para a arte que denuncia o seu caráter capitalista?

FONTE: Revista Cult

a “morte da arte” & a pop-music

 

Lady Gaga é trash ou é clean? Muitas vezes incorporadas, hoje em dia, às conversas eruditas e populares sobre o que é agradável ou não é, essas palavras da língua inglesa remetem a duas vertentes da estética contemporânea, associando-se geralmente, no campo das artes visuais, o trash (“lixo”) a obras com aspecto descuidado, grosseiro ou agressivo, e o clean (“limpo”) a obras que se pautam pela refinamento das formas e materiais, pelo respeito às proporções equilibradas ou à figuração naturalista, tendendo a reproduzir os padrões clássicos da arte ocidental. Contudo, e sobretudo no período chamado de pós-moderno, podemos considerar que as obras de arte tendem a misturar elementos trash e clean, de acordo com dosagens que tanto servem para a reciclagem das modas quanto para propor novas concepções acerca da natureza do belo, assim como para estabelecer pontes entre a linguagem artística e a crítica social.

A partir da leitura da entrevista abaixo podemos observar como várias das questões assinaladas acima podem também ser mapeadas entre os clipes e as canções de famosas stars da música pop internacional. Considerando a discussão e as atividades na LETA31, podemos tentar instaurar articulações mediante algumas perguntas, como as destacadas a seguir:

  • o sentido do trash no trabalho de Lady Gaga é equivalente ao sentido do lixo nas obras de Vik Muniz?
  • qual o tipo de produção que lhe parece mais próxima da ideia de arte “morta”, ou mercadorizada, a de Gaga ou a de Muniz? por que?

Lady Gaga: espelho de nosso cotidiano.

Lady Gaga, por sua performance e ousadia, causa interesse não só nos fãs de cultura pop. A própria academia, com seus pesquisadores, começa a se interessar em estudar o fenômeno Lady Gaga. Thiago Soares é um deles. Em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, o docente afirma que Gaga encena o lugar do “seja o que você quiser” ou “faça do jeito que quiser”. “E esse acaba sendo um discurso muito oportuno hoje em dia no momento em que temos tão poucas ideologias contra as quais lutar”.
Além disso, continua, “essa coisa da Lady Gaga ser um personagem me parece que é uma das questões mais fortes nas nossas relações contemporâneas. Hoje, nós somos avatares no Twitter, no Facebook; podemos criar fakes, postar como ‘anônimos’, ou seja, as identidades estão muito moduláveis. Podemos nos ‘fantasiar’ daquilo que quisermos nas redes sociais, na internet e, também, na vida. Daí a importância de Lady Gaga ‘jogar’ com as identidades, ‘brincar’ com seu corpo. Ela está reproduzindo uma prática que é bastante comum no nosso cotidiano”.

Thiago Soares é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e professor do Departamento de Comunicação e Turismo – Decomtur, da Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e mestrado em Letras pela mesma universidade. Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que faz de Lady Gaga um ícone pop?
Thiago Soares – O destaque que Gaga ocupa na mídia hoje e a forma com que se posiciona na indústria fonográfica creio que sejam aspectos fundamentais para entendê-la na cultura pop. Essas lógicas de ame/odeie; a forma como ela utiliza a cultura midiática, as performances que realiza, a forma como usa o videoclip, os instrumentais da televisão, da internet… Tudo isso aciona o lugar de destaque dela dentro da cultura pop. Porque não é a questão apenas de ocupar um espaço, é ocupar um lugar de destaque; é como essas formas de legitimação dela funcionam na engrenagem midiática. Falar de Lady Gaga é pensar esse lugar de destaque que ela está ocupando hoje nas instâncias midiáticas.

IHU On-Line – Qual seria a razão para que Gaga explore tanto em seus clipes aspectos cristãos, especialmente católicos?
Thiago Soares – Temos que pensar a questão da religiosidade na cultura pop. Lady Gaga não está criando nada de novo. Agora, ela está fazendo de uma forma bastante emblemática, usando em videoclipes, performances, shows. Mas, por exemplo, a Madonna já fez isso. Esta deu um beijo num santo negro em “Like a prayer” na década de 1980. Então, 30 anos atrás, a rainha do pop já fez esse questionamento em torno da relação da igreja como elemento de polemizar a cultura midiática. A Lady Gaga traz à tona novamente esse discurso, por isso que ela é tão comparada com Madonna, porque traz elementos já utilizados anteriormente pela cantora, como questões religiosas, como dispositivo de reconfiguração.

IHU On-Line – Nesse sentido, em que aspectos Lady Gaga difere e se aproxima de Madonna?
Thiago Soares – Lady Gaga tem muitas semelhanças com questões de performance, de composição; ela compõe as próprias músicas dela, é produtora. Tem uma coisa muito parecida com a Madonna sonoramente também. As músicas são parecidas. São baladas e canções pops com apelo midiático muito forte, sintetizador; música eletrônica, dançante… Então, tem toda uma semelhança.
Mas também é preciso pensar as diferenças entre as duas. Se formos pensar do ponto de vista da trajetória, Gaga tem um caminho muito diferente do da Madonna. Esta encena talvez aquela utopia do sonho da cantora que chegou a Nova Iorque com pouco dinheiro; entregou uma fita cassete na gravadora que a descobriu. Gaga não. Ela já era produtora antes mesmo de ser cantora. Ou seja, já estava dentro dos mecanismos da indústria e isso a difere muito de Madonna, que encenou todo aquele sonho e utopia da cantora que seria descoberta pela indústria.
Lady Gaga, por sua vez, usou dos mecanismos da indústria já como uma forma de se inserir na música mesmo. Ademais, os discursos das duas são muito distintos. Madonna sempre teve uma preleção muito racional, defendeu causas (negros, gays etc.). Já Lady Gaga fala em monstros… em bandeiras menos claras talvez.

IHU On-Line – Como analisa a extravagância e o visual “over” de Gaga? Qual é o sentido dessa mise-en-scène?
Thiago Soares – Um fator que faz com que Gaga tenha uma importância muito grande na cultura midiática hoje é que ela entende ser tudo performance e leva isso ao extremo. Os vestidos dela de noite, por exemplo, são três vezes maiores que os outros. Ela sai na rua para comprar um cachorro quente toda montada, porque sabe que vai ser fotografada, que pode gerar repercussões etc. Ou seja, o que faz Lady Gaga importante, essa coisa over da roupa dela etc., é porque ela está levando a questão da performance ao extremo. Está reconhecendo que tudo o que fazemos é performatizado. E ela materializa isso, na moda e na música.

IHU On-Line – Você afirma que Lady Gaga é, em si, uma simulação, performance e uma personagem que se insere num contexto mais pós-moderno, niilista. Poderias explicar melhor tais aspectos?
Thiago Soares – Niilista é aquele que questiona as coisas, mas não sabe muito o quê. A Lady Gaga é um pouco isso. Ela fala muito, por exemplo, que os fãs são “monstrinhos” dela. Então, qual a questão dos monstros? É se sentir à parte da sociedade. Mas, em quê de fato? Acredito que o novo álbum dela, o Born this way, está mostrando certa clareza no discurso gay dela.
Mas a cantora tem ainda muitas sombras que não sabemos. Ela está reclamando da vida, porém, não sabemos muito bem de quê. Há certo discurso niilista nisso. É aquele tipo de pessoa que quer lutar, mas não sabe contra quê. É um pouco a nossa luta na contemporaneidade. Vivemos em uma sociedade tão individualista, que não sabemos muito bem contra o quê lutar, quem é nosso inimigo. Gaga acaba mostrando a problemática de nossa era mesmo. Apesar de não gostar muito do termo pós-modernidade, acredito que ele, para que possamos entender Lady Gaga, seja útil.

IHU On-Line – Há uma identificação dos jovens com Lady Gaga, uma projeção? Em que sentido?
Thiago Soares – Sim, muito grande. Creio que essa coisa do jovem está muito atrelada ao discurso individualista de autoajuda que Lady Gaga tem. Discursos individualistas, do tipo “Seja diferente”, acabam causando certo engajamento em torno da cultura jovem muito forte, sobretudo naquele que não tem um propósito.

IHU On-Line – Há um quê de burlesco nas aparições de Gaga. Mais do que chocar, ela diz ser ela mesma quando “se monta” para os shows. Como percebe a questão da identificação dos jovens com esse figurino e esse personagem?
Thiago Soares – Acredito que há um fator muito interessante nesse aspecto, e muito ligado à cultura gay também. Por exemplo, se Madonna encenava o lugar e poder da mulher, Gaga, por sua vez, encena o lugar do “seja o que você quiser” ou “faça do jeito que quiser”. E esse acaba sendo um discurso muito oportuno hoje em dia no momento em que temos tão poucas ideologias contra as quais lutar.
Além disso, essa coisa da Lady Gaga ser um personagem me parece que é uma das questões mais fortes nas nossas relações contemporâneas. Hoje, nós somos avatares no Twitter, no Facebook; podemos criar fakes, postar como “anônimos”, ou seja, as identidades estão muito moduláveis. Podemos nos “fantasiar” daquilo que quisermos nas redes sociais, na internet e, também, na vida. Daí a importância de Lady Gaga “jogar” com as identidades, “brincar” com seu corpo. Ela está reproduzindo uma prática que é bastante comum no nosso cotidiano.

IHU On-Line – Percebe influências de Madonna nos figurinos e na obsessão camaleônica de Lady Gaga? Por que a aparência é tão importante em suas apresentações?
Thiago Soares – É Madonna, mas acredito ser também uma necessidade midiática de se fazer interessante. Acredito que essa necessidade camaleônica não é uma relação direta de Madonna com Gaga. Parece-me que é uma necessidade de reconfiguração do próprio sistema de consumo dessas celebridades no campo da indústria da música. Creio que a aparência é relevante em suas apresentações porque Gaga leva ao extremo a ideia de que a performance é essencial na aparição da cultura pop. Para ela, performatizar está em todos os ambientes da vida. Está quando ela sai de casa, aparece na MTV, está no videoclip; quer dizer, essas instâncias estão todas semelhantes e ocupam espaço de valor dentro da lógica dela, que são muito parecidas e bastante análogas.

IHU On-Line – Por que Gaga “deu certo” e Ke$ha, que segue um visual trash, por vezes parecido com o de Gaga, não tem a mesma projeção ou impacto?
Thiago Soares – Não seria sensato atestar que “Ke$ha não deu certo”. Ke$ha tem projeção sim, mas sua trajetória na dinâmica midiática ainda é bastante inferior à da Lady Gaga. Se pensarmos em músicas como “Tik tok”, “We r who we r” e “Blow”, por exemplo, temos faixas que foram exaustivamente tocadas e tiveram seus clipes também muito bem exibidos. As matrizes performáticas de Lady Gaga e de Ke$ha são, de fato, bem parecidas. Elas flertam com o trash, com o grotesco, com a “bagaceira”. Mas acho que a Lady Gaga cerca seu discurso de uma carga mais “artística” e “autoral”. Ke$ha ainda está ligada a uma premissa de que é “nova” no campo das cantoras musicais…

IHU On-Line – Gaga disse que a cultura pop é sua religião, e para isso é preciso acreditar que seu trabalho nunca está finalizado, e que a arte é algo que transcende, que transforma. Em que medida essa concepção muda a forma como o artista pensa a arte na pós-modernidade?
Thiago Soares – Lady Gaga mistura tudo no seu trabalho: arte, comércio, performance, ficção, realidade. Tudo se amalgama e vira esse “caldo” interessante para a cultura pop. Na verdade, como estratégia de diferenciação, Lady Gaga se aproxima do campo da arte, da performance, do happening, para ocupar espaço midiático. É preciso pensar a questão da “cultura pop como uma religião” a partir da retranca do engajamento que as duas propõem.
Shows pop são, em certa medida, momentos de adoração dos ídolos, assim como a coisa da religião.
A questão da pós-modernidade pressupõe entender a arte e comércio sem limites claros, borrando suas “bordas”. Lady Gaga é assim: O que nela é arte, o que é comércio? Que corpo é aquele? Onde começa o personagem e onde termina a performer? Até quando ela vai durar? Essas são questões centrais para se pensar Gaga a partir de uma retranca pós-moderna.

FONTE: IHU Online