ensinando africanidades: um balanço crítico

CARTAZ DEPELCHIN

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olhares africanos para os perigos do “progresso”

bienal mia

Ideia de desenvolvimento nega identidade dos povos, diz Mia Couto na bienal

A utopia do desenvolvimento sustentável foi o tema do debate que, no dia 16/05, reuniu cientistas, escritores e até presidente da República na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura em Brasília. O escritor moçambicano Mia Couto criticou a ideia de que a natureza pode ser “controlada, administrada”. Para ele, é preciso localizar as razões pelas quais o mundo enfrenta, hoje, uma crise ambiental profunda: “Esse sistema não está mal porque não anda bem. Está mal porque produz miséria, desigualdade, causa ruptura em modos que vida que aí, sim, poderiam ser sustentáveis”.

Crítico da ideia de desenvolvimento sustentável, o escritor e também biólogo avalia que a ideia de desenvolver traz uma negação. “Estamos retirando o núcleo central, o ambiente. E essa negação é a negação da identidade cultural dos povos que foram expropriados”. Povos cujos modos de vida poderiam inspirar uma relação do homem com a natureza, que seja baseada no respeito e não na compreensão “de que a natureza pode ser vista como um recurso natural”, segundo Mia Couto.

Integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, ligado às Organizações das Nações Unidas (ONU), o cientista Carlos Nobre defendeu a ideia de desenvolvimento sustentável. A sustentabilidade, para ele, deixaria de ser um adjetivo do desenvolvimento para transformar-se em substantivo que explica a relação com o mundo ou desejos, como felicidade, equidade e justiça. Ele destacou a gravidade das mudanças climáticas e os impactos ambientais decorrentes delas: “Os riscos que estamos colocando para o planeta, nas próximas décadas, séculos e milênios, são enormes. Nós estamos conduzindo a biologia do planeta à sexta grande extinção. Nós estamos produzindo, por ações humanas, a extinção de até 40% das espécies”.

O presidente de Gana, Dramani Mahama, que é historiador e especialista em uso de tecnologia para a agricultura, alertou para a necessária mudança no comportamento dos seres humanos. “Se não criarmos uma teoria que nos ajude a sustentar a raça humana no mundo e continuarmos com essas taxas de consumo, o que vai acontecer com a raça humana?”, questionou, ao destacar que a população despeja diariamente a mesma quantidade de alimento que consome, e que, por outro lado, falta alimento a parte da população. “Nós precisamos aprender a existir com todas as espécies em nosso planeta, que é o único que temos. E nós só vamos aprender se mudarmos nosso conceito de felicidade e de bem-estar”, sentenciou.

A mudança de paradigma, que conduza a outra relação com a natureza, para os debatedores, deve começar desde já. A tecnologia e a inteligência humana devem ser usadas como ferramentas para a superação da crise atual, e a literatura deve ser capaz de despertar sensibilidades e reflexões. Para a Agência Brasil, Mia Couto disse que a literatura pode, desde já, “mostrar que o ambiente não é assim como nós o arrumamos; mas é tudo; não está fora de nós; está dentro de nós. A literatura pode fazer, e deve fazer essa denúncia daquilo que é uma espécie de fabricação permanente da desigualdade e da miséria”, afirmou. Crítico da situação atual, o escritor alertou: “Nós estamos falando de uma situação que poderá ser catastrófica. Mas para dois terços da humanidade, essa catástrofe já está aqui e vem por causa da fome, da guerra”.

FONTE: Portal Geledés / Agência Brasil

Negritude & Interculturalidade

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Links para textos teóricos e poéticos, seguidos de uma antologia de poemas.

O poema seminal da Negritude em sua voz brasileira: alguns fragmentos

Diálogos com a Negritude nas poesias dos Cadernos Negros

O negro a contrapelo na obra de (Luiz) Cuti

Poesia da negritude em língua portuguesa: pequena antologia

Francisco Tenreiro: antologia de poesia e de crítica

História e teoria da Negritude: algumas referências

Para compreender o colonialismo

Algumas referências para a compreensão da condição dos “assimilados” na Angola colonial

Bibliografia institucional sobre educação antirracista e intercultural

Para reinventar a educação é preciso reaprender para o quê ela serve

Reconstruindo os percursos da poética da Negritude na língua portuguesa

Literatura negra/afro-brasileira: um panorama crítico & atualizado

Um documentário interessante para compreender princípios & objetivos das pedagogias da decolonização


MUNANGA, Kabenguele. Educação e diversidade cultural. In: Cadernos Penesb: discussões sobre o negro na contemporaneidade e suas demandas. n.10. Rio de Janeiro; Niterói: EdUFF, 2008/2010.

CHAMOISEAU, Patrick; BERNABÉ, Jean; CONFIANT, Raphaël. Elogio da crioulidade (Éloge de la criolité). Paris: Gallimard, 1990. Tradução de Magdala França Vianna.


NEGRO

Langston Hughes
(Tradução de Leo Gonçalves)

Sou Negro:
Negro como a noite é negra,
Negro como as profundezas da minha África.

Fui escravo:
Cesar me disse para manter os degraus da sua porta limpos.
Eu engraxei as botas de Washington.

Fui operário:
Sob minhas mãos ergueram-se as pirâmides.
Eu fiz a argamassa do Woolworth Building.

Fui cantor:
Durante todo o caminho da África até a Georgia
Carreguei minhas canções de dor.
Criei o ragtime.

Fui vítima:
Os belgas cortaram minhas mãos no Congo
Estão me linchando agora no Mississipi.

Sou Negro
Negro como a noite é negra
Negro como as profundezas da minha África.

NEGRO
I am a Negro:/Black as the night is black,/Black like the depths of my Africa.//I’ve been a slave:/Caesar told me to keep his door-steps clean./I brushed the boots of Washington.//I’ve been a worker:/Under my hand the pyramids arose./I made mortar for the Woolworth Building.//I’ve been a singer:/All the way from Africa to Georgia/I carried my sorrow songs./I made ragtime.//I’ve been a victim:/The Belgians cut off my hands in the Congo./They lynch me now in Mississipi.//I am a Negro:/Black as the night is black,/Black like the depths of my Africa.

 

SOU NEGRO

Solano Trindade

A Dione Silva

Sou Negro
meus avós foram queimados pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou
como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu o pau comeu
Não foi um pai João humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês ela se destacou

Na minh’alma ficou o samba
o batuque o bamboleio
e o desejo de libertação…

 

PADÊ DE EXU LIBERTADOR

Abdias do Nascimento

Ó Exu
ao bruxoleio das velas
vejo-te comer a própria mãe
vertendo o sangue negro
que a teu sangue branco
enegrece
ao sangue vermelho
aquece
nas veias humanas
no corrimento menstrual
à encruzilhada dos
teus três sangues
deposito este ebó
preparado para ti

Tu me ofereces?
não recuso provar do teu mel
cheirando meia-noite de
marafo forte
sangue branco espumante
das delgadas palmeiras
bebo em teu alguidar de prata
onde ainda frescos bóiam
o sêmen a saliva a seiva
sobre o negro sangue que circula
no âmago do ferro
e explode em ilu azul

Ó Exu-Yangui
príncipe do universo e
último a nascer
receba estas aves e
os bichos de patas que
trouxe para satisfazer
tua voracidade ritual
fume destes charutos
vindos da africana Bahia
esta flauta de Pixinguinha
é para que possas chorar
chorinhos aos nossos ancestrais
espero que estas oferendas
agradem teu coração e
alegrem teu paladar
um coração alegre é
um estômago satisfeito e
no contentamento de ambos
está a melhor predisposição
para o cumprimento das
leis da retribuição
asseguradoras da
harmonia cósmica

Invocando estas leis
imploro-te Exu
plantares na minha boca
o teu axé verbal
restituindo-me a língua
que era minha
e ma roubaram
sopre Exu teu hálito
no fundo da minha garganta
lá onde brota o
botão da voz para
que o botão desabroche
se abrindo na flor do
meu falar antigo
por tua força devolvido
monta-me no axé das palavras
prenhas do teu fundamento dinâmico
e cavalgarei o infinito
sobrenatural do orum
percorrerei as distâncias
do nosso aiyê feito de
terra incerta e perigosa

Fecha o meu corpo aos perigos
transporta-me nas asas da
tua mobilidade expansiva
cresça-me à tua linhagem
de ironia preventiva
à minha indomável paixão
amadureça-me à tua
desabusada linguagem
escandalizemos os puritanos
desmascaremos os hipócritas
filhos da puta
assim à catarse das
impurezas culturais
exorcizaremos a domesticação
do gesto e outras
impostas a nosso povo negro

Teu punho sou
Exu-Pelintra
quando desdenhando a polícia
defendes os indefesos
vítimas dos crimes do
esquadrão da morte
punhal traiçoeiro da
mão branca
somos assassinados
porque nos julgam órfãos
desrespeitam nossa humanidade
ignorando que somos
os homens negros
as mulheres negras
orgulhosos filhos e filhas do
Senhor do Orum
Olorum
Pai nosso e teu
Exu
de quem és o fruto alado
da comunicação e da mensagem

Ó Exu
uno e onipresente
em todos nós
na tua carne retalhada
espalhada por este mundo e o outro
faça chegar ao Pai a
notícia da nossa devoção
o retrato de nossas mãos calosas
vazias da justa retribuição
transbordantes de lágrimas
diga ao Pai que nunca
no trabalho descansamos
esse contínuo fazer
de proibido lazer
encheu o cofre dos exploradores
à mais valia do nosso suor
recebemos nossa
menos valia humana
na sociedade deles
nossos estômagos roncam de
fome e revolta nas cozinhas alheias
nas prisões
nos prostíbulos
exiba ao Pai
nossos corações
feridos de angústia
nossas costas chicoteadas
ontem
no pelourinho da escravidão
hoje
no pelourinho da discriminação

Exu
tu que és o senhor dos
caminhos da libertação do teu povo
sabes daqueles que empunharam
teus ferros em brasa
contra a injustiça e a opressão
Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama
Cosme Isidoro João Cândido
sabes que em cada coração de negro
há um quilombo pulsando
em cada barraco
outro palmares crepita
os fogos de Xangô iluminando nossa luta
atual e passada

Ofereço-te Exu
o ebó das minhas palavras
neste padê que te consagra
não eu
porém os meus e teus
irmãos e irmãs em
Olorum
nosso Pai
que está
no Orum

Laroiê!

 

REFLEXÃO

Abelardo Rodrigues

O poema reflete
principalmente no escuro
E quando reflete, insone,
apetrecha o movimento
da luz.

Não a luz que nasce
a cada dia
em qualquer poente.
Não a luz feita
sob o canhão e o crucifixo
Não a luz dos seis dias…

mas aquela
de Totens
de Olorum.

 

OH, MAMÃE!

Oswaldo de Camargo

Que farei do meu reino: um terreno
no peito
onde pensei pôr minh’África,
a dos meus avós, a do meu povo de lá e que me deixam
tão sozinho?
Como sonhei falar minha mamãe África,
oferecer-lhe, em meu peito, nesta noite turva,
os meus pertences de vento, sombra e relembrança,
o meu nascimento, a minha
história e o meu tropeço
que ela não sabe, nem viu e eu sendo filho dela!
— Oh, mamãe, as minhas fraldas estão sujas de brancor
e ele cheira tanto!
Às vezes penso, em minha solidão, na noite turva,
que você me está me chamando com o tambor do vento.
Abro a janela, olho a cidade, as luzes me trepidam
e eu perco o condão de te achar
entre estes odores vários
e tanta dor de gente branca, preta, variada
gama e tessitura de almas, ânsias, medo!
Como sonhei falar, sozinho, à minha mamãe África,
e oferecer-lhe, em meu peito, nesta noite turva,
os meus presentes de vento, sombra e relembrança,
o meu nascimento, a minha história, o meu tropeço
que ela não sabe, nem viu e eu sendo filho dela!

 

COM A PORTA ABERTA

Cuti

o que é que vai ser
quando o samba abrir uma fenda
bem no meio da sinfonia?

com’é que vai ficar, compadre
quando a macumba
entrar na sacristia?

e quando a pureza da cultura abrir as pernas
e mostrar pra todo mundo
que nunca teve cabaço

a dança de terreiro
rasgar terno e gravata

a ginga der meia-lua-de-compasso na compostura

a gente puder falar
sem algema ou atadura

a verdade
partir a cara da hipocrisia

o pão for repartido na marra?

não adianta fechar a cara
nem se fazer de besta
qu’Exu vai rir na abertura da festa
e Cristo vai gargalhar pela primeira vez na história
e
viva o pagode
da memória liberta
e do futuro concebido
com a porta aberta!

 

OFÍCIO DE FOGO E ARTE

Cuti

nossa é esta saga desenhando o silêncio em cores
rebeldia e incenso

ainda que as batalhas
tenham talhado de tão somente vermelho
lembranças de mar e terra
nosso é este futuro entre luz e sombra
este alto-relevo telúrico
agigantando-se no esboço de todas as madrugadas e no mosaico das tardes

em ondulação muscular galopam as tintas
ao comando de corações pensantes
enquanto gritos vão-se fazendo cantigas sábias
de ninar a memória e seus pincéis incandescentes

se ácidos céus de aço abafam a singela respiração onírica
um afro horizonte reabre seus vitrais
oxumarescendo a vida

nos cios dos séculos
banzaram aguadas lacrimais de anil
agora a mais sutil semelhança epidérmica da história
é linha que realça o elo
do mistério
ousadias de gingar o belo e semear vagalumes sobre as
telas

oceânica
esta energia coletiva extrapola a cena de naturezas-mortas
transfigura a moldura
colore a parede branca
e mergulha em vários planos a perspectiva de seus voos

verdeamarelas garatujas velhas ranzinzando a liberdade
a mão infinitiza em multiplicidade cromática, pele e
paisagem de sobejos desejos

tudo se emprenha de um incessante movimento
vários tons de melanina e a pulsação de um ritual aceso.

 

CULTURA NEGRA

Cuti

ariânico afago
na suposta acocorada
afroinfância literária

nossa cor sim
e não
reelabora elegbará

orixás não tomam chás de academias
tampouco em mídia sui-seda
cedem

poema de negrura exposta
tece vida
na resposta
abrindo a porta enferrujada do silêncio

explodem
coices
o boi e o bode
entre folclóricas nuvens e teses
de negrófobas carícias

alvos, a-tingidos desesperam
em busca de tambores
ritos
puros mitos
em águas paradas
de poemas pardos
que lhes salvem da chuva de negrizo.

 

IMPASSES E PASSOS

Cuti

algemas do pão e do circo
e seu cotidiano cerco
às investidas do sonho

sono coletivo produzido em gabinetes
sono sem sonho
esclerose de nuvens brancas trotando trêfegas
esporas reluzentes
sobre nossos corações

a pergunta eleva sua crista:
– quem dentre nós mais de trezentos anos
de ruínas de quilombos
traz dentro do peito?

por muito tempo, ainda, mastigaremos o silêncio
no caminho para o grande lar
que já não temos?

no trajeto o enfrentamento
com as sereias e seu canto
sussurrado pelo vento
laços sedutores
para o nosso enforcamento

politicamente incorreta
sempre
a orgia das correntes
nosso medo balbuciando morte
em conta-gotas de sambas e serpentes

de repente
escorpiões encalacrados nos tornamos
(apesar de sorridentes)
sem disfarce
o que em face do desprezo se acende
contra o nosso próprio veneno

o “eu” se deita sobre o feno
negaceia o nós em movimento
da garganta se desatam para dentro
ecos que no lamento se afogam

o sol renitente ressuscita
a vida emboscada nas veredas

toco em brasa
a questão vem crepitada
fecunda e permanente
rolando
pelos glóbulos pretos
infectados de rancores brancos:
– quem tem mais de 300
de resistência no abismo?
silêncio incandescente
morre a esperança
em overdose de cinismo
e desabrocha a consciência em cactos

depois da chuva
somos
o horizonte e sua língua de arco-íris
descobrindo
o nosso próprio amanhecer.

 

PA(Z)XORÔ

Cuti

ainda assim… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência universal dos sonhos
onde a veste de pazciência
envolve a todos
e as mãos
modelam o ser nascente

olhar adentro
o todo é cada um
e há ondulações de calma
corpo e alma fundidos num só voo
desta ave celestial de luz
abraçando-nos com a abóbada infinita e azul

chuva-sêmen e afã de fecundar novas manhãs
ao fluxo ijexá de oxalufã
fé obstinada que nos guia
sol de oxaguiã
nas lutas do dia a dia
pilão
inhame de juventude
alegria
ainda que… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência concha universal do sonho paz
adjá a nos conduzir à fonte
e o mundo a ser lavado
nas águas de oxalá.

 

HAITI

Oliveira Silveira

Haiti où la négritude se mit debout
pour la première fois et dit qu’elle
croyat à son humanité.
Aimé Césaire, Cahier d’un retour au pays natal

Grande teu passado,
célebre na história
e que alto teu grito liberto
até hoje movendo nossos braços
num gesto altivo d elança em riste!

Haiti,
sagrado no culto vodu,
heroico em Dessalines,
soberbo em Toussaint-Loverture,
“o primeiro dos negros”, Haiti!

Haiti,
meu verso quisera ser
ponta de lança e guizo de serpente
para expressar-te a ti!

 

POEMA SOBRE PALMARES

Oliveira Silveira

(…)

Séculos antes do Brasil ser livre
Palmares foi livre.
Séculos antes do país
considerar-se livre
Palmares foi país e estado
livre.

Aquela liberdade viva
pulsando em cada veia,
conquistada a cada dia,
reconquistada em cada luta,
liberdade genuína
fruto de uma íntima semente
que o balanço do barco no mar
não fez golfar em vômito,
que a soiteira afiada do chicote
não pôde retalhar,
que é a razão de cada homem
e o alimenta e se aconchega
no mais recôndito dele.

Palmares, um século inteiro.
Libertação primeira do Brasil!

(…)

Pois sabes irmão do Palmar
que liberdade nos deram?
a de seguir a esmo
buscando a liberdade por nós mesmos.
E de escravo só não tínhamos o nome
que ficou disfarçado no apelido:
liberto
(xará de miséria e fome).

Falsificaram os livros de história,
trocaram os heróis,
botaram máscara de carnaval
nos fatos,
botaram fogo nos documentos
do tráfico e do crime
e então ficamos sendo os que não vieram,
ficamos sendo os que não são,
ficamos só sendo os que estão.
Ficamos sendo estas ruínas
em autorreconstrução.

Mas a luta prossegue, estrada longa
abrindo seu próprio sulco
e picadas,
rio longo cavando seu leito,
buscando uma foz.
(…)

E pra não terminar em carnaval
segundo conforme o costume,
para ti este poema,
quilombo de um negro só,
quem quiser que se achegue.
Quilombo de negro negro,
quem quiser que se mixe.
Quilombo de negro triste,
quem quiser tenha dó.
Quilombo de negro só
juntando raiz no pó.
Quilombo de negro mau,
antropófago, canibal,
coisa ruim, coisa e tal,
e quem quiser faça pelo-sinal.
Quilombo de negro ruim,
tição, pixaim, muçum.
Quilombo de negro brabo
que tem partes com o diabo.
Quilombo de marginal,
tarado e anormal,
vagabundo, ladrão,
negro e beberrão.
Quilombo de negro sujo,
ralé, chinelão, rafuagem.
Quilombo negro operário
de infame salário.
Quilombo de negro pobre,
barato, mão de obra,
preto, pardo,
mulato, cafuso, saroba,
cor de burro quando foge.
De negro bombardeado,
roubado, furta-cor,
desbotado e branqueado
na pele e no seu interior.
Quilombo de lavadeira,
mucama, cozinheira,
prostituta como querem
que seja toda mulher
preta, mulata, crioula,
negra, mãe, trabalhadora,
companheira, lutadora.
Quilombo do casal preto
(fundamental negritude)
preto,
preto,
guardião da continuidade,
detentor da natureza
de raça, cor e beleza.
Preto e preta
teimando pra ficar juntos,
bem escuros e bonitos
com mulequinhos retintos,
Quilombo de negro negro,
quem quiser que se negue
e se entregue.

(…)

 

CADERNO DE RETORNO

Edimilson de Almeida Pereira

Pele radar que indexa
um looping
ao atabaque
um anjo
à sua queda
Iracema
à sua novela
alvo que incinera um atirador
no teto

(…)

Para uso irrestrito a pele em desafio
a todo gesto
coleção de selos que o vento
dispersa da janela

(…)

A pele procura os naipes para
entrar no jogo
mais se arroja quando desnuda
o homem
através do verbo

(…)

Estou de volta a casa não para visitar
os carneiros da minha gente
uma vez mortos
expostos.
O que espero deles não é carne
mas raiz e errância.
A experiência acumulada sendo
o último da classe
o único entre os outros
o suspeito número um
a prova no fundo do poço
apodreceu para adubar minha vontade.

(…)

Como cerzir um país com linhas várias
onde uma se quebra
outra a emenda
e por não se amarem se enovelam
orquídeas na mesma escarpa.
A voz arranha a pintura do carro,
reabre no dia uma herança de embargos.

O que está dito é ditado?
Não temos guerra, nem terremoto
nem ebola, ruína ou atentado
não temos cisma nem avalanche
o que vemos se não é alegria
são seus disfarces.

E os ouvidos, que letrados noutra música,
se escalavram?

Tenho uma laranja nas mãos a faca
para salvar os gomos desvia
das partes cariadas.
A palavra descasca o país: num ermo botequim,
entre bacon e varejeiras, a pele de um conta
o que ele por sua boca não tramaria.
Miríades fábulas que importa?

Sua sombra que a fraca luz projeta recusa
a rede da casa-grande
o título a prazo do barão em débito
a cadeira del-rey
a merda da casa-grande
a dissertação elogiosa da selva
o piano
a culpa de não amar o deus imposto

(…)

Contra a blitz na memória
a Memória.
Contra o desprezo ao que dançamos
a Dança.
Contra o repúdio ao que falamos
a Fala.

(…)

São nove horas da noite em 1844
os presos assustam a Câmara
e os coletes da cidade de Salvador.
No subsolo da lei a insubmissão
deborda em sambas de crioulos
ou africanos?
Serão idênticos ou mais diversos
quando se ajuntam?

(…)

 

PERIFERIAS

Jamu Minka

Terceiro mundo jovem e sua segunda pele
a fantasia de um black dos States
fazer de conta, curtir é da hora
mas a realidade não é Hollywood

Paulicéia globalizada
brancuras controlam tudo
o ser escuro
queira ou não queira
periferia
rabeira
e tudo às claras
artiganda da propamanhas
percebe quem sabe ler
artimanhas da propaganda

Hipocrisia é o nó do país desigual
sobram becos
e sonhos sem saída
hip-reali-hop pode ser show
igual futebol, samba, novela
as carências, num palco não cabem
universidade também para afros
só se a gente for quilombada
na democracia deles
realiwood não é hollydade.

 

ivcbpn

incrementa-se o debate & a pesquisa sobre a colonialidade brasileira

 

Seminário na UFSCar fomenta debates sobre “colonialidade”

Relegados a segundo plano pelas ciências sociais brasileiras, os estudos pós-coloniais/descoloniais ganham impulso com distintos debates em universidades – como no IV Seminário Internacional do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, que abordou, entre outros temas, a questão da “colonialidade”.

Maurício Hashizume

Encontros e manifestações ocorridas em diferentes espaços da academia trouxeram à tona no Brasil a relevância da discussão em torno da “colonialidade” – noção consagrada pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano que, grosso modo, salienta a profundidade e continuidade de classificações sociais e relações hierárquicas de poder conformadas pela experiência colonial para além da dominação formal do colonialismo político.

Como parte do IV Seminário do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), organizou-se, na última terça-feira (27), a mesa “Colonialidade e emancipação do saber e do poder no contexto latino-americano”, com as participações da professora Rita Laura Segato, da Universidade de Brasília (UnB), do professor Ramón Grosfoguel (Universidade de Califórnia-Berkeley, EUA) e a professora Patrícia Scarponetti (Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina).


Mesa sobre colonialidade no IV Seminário do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar (Foto: Maurício Hashizume)

Para a professora Rita, o conjunto de pensamentos sobre a colonialidade não é fechado, mas composto de diversas perspectivas, de modo coletivo e “vivo”. Dois são os caminhos que associam a trajetória acadêmica-política que ela vem seguindo com essa miríade de perspectivas: o do feminismo e a da luta pela aprovação das cotas raciais no ensino superior – da qual ela foi uma das expoentes. A partir da compreensão de que a raça é signo (marca móvel e maleável da posição dos corpos na história “lida” por um “leitor” informado) e não um fator biológico, Rita expôs suas concordâncias e discordâncias com a concepção de colonialidade apresentada por Quijano. Uma das questões-chave, segundo a professora, está, portanto, em diferenciar as diferentes noções de nomeação de raça: diferentemente do que ocorre no Caribe ou nos EUA, o racismo, nas ex-colônias ibéricas do continente americano, tende a se impor como diferença ao mesmo tempo em que nega a sua própria existência. Em consonância com a abordagem pós-colonial/descolonial, a acadêmica argentina radicada no Brasil reforça a diferença e as peculiaridades dos contextos sociais na América Latina.

Inspirado na teoria da dependência e em diversas outras influências, Quijano, segundo Rita, teve o mérito de “digerir” a ideia de colonialidade, que condensa a “historicidade plena” e reforça a “centralidade” da noção de raça. Nesse sentido, a conquista da América – e o surgimento de uma série de categorias fundamentais (índios/brancos, América/Europa etc.) para “narrar o imaginário do presente” e valorizar o “novo” em detrimento do “velho”, dando bases cruciais à crença no progresso linear e do crescimento infinito para o futuro – se apresenta como crucial para a modernidade. “Ainda que seja uma invenção colonial, a raça se reinventa a cada dia”, adverte a professora da UnB. No entendimento dela, essa linha de pensamento expõe formas imbricadas de exploração de classe e raça, colocando em xeque o marxismo mais ortodoxo que se concentra fortemente nas relações de produção entre burguesia e proletariado. No bojo da prevalência do eurocentrismo, o racismo não se dá apenas com relação aos corpos “racializados”, mas na produção (saberes, conhecimentos etc.) desses mesmos corpos. “Teorias do Norte ´chovem´ no Sul. Foi estabelecida uma divisão social da produção do conhecimento que restringe quem não é do Norte a apenas aplicar essas mesmas teorias”, critica, realçando a colonialidade do saber.

Ao chamar atenção para a “inteligência histórica de preservação” demonstrada pelos povos indígenas da América Latina (como os tupinambás, no Brasil) que resistem como coletivo há séculos e à importância de assumir um certo ´pensamento de tertúlia´ (em que conversar e trocar ideias coletivamente é mais importante do que escrever), Rita estabelece diálogo com as “epistemologias do Sul”, a “ecologia de saberes” e a “tradução intercultural” – conceitos-chave do Projeto ALICE – Espelhos Estranhos, Lições Imprevistas.

Modernidade/Colonialidade
No mesmo debate, Ramón Grosfoguel – que inclusive participou de seminários avançados do mesmo Projeto ALICE – optou por tentar fazer uma diferenciação entre o pensamento pós-colonial e o descolonial. Começou por sublinhar que não o célebre grupo de acadêmicos do qual faz parte em torno do Modernidade/Colonialidade consiste, na realidade, em uma rede, com muitas diferenças entre si. A impressão de que se trata de um coletivo mais coeso provavelmente está associada, de acordo com ele, a um artigo de um outro membro (o antropólogo colombiano Arturo Escobar), mas não se dá na prática.

O pensamento descolonial, seguiu Ramón, diferencia-se justamente pelo reconhecimento de uma larga história de enfrentamento aos cânones político-ideológicos coloniais. “Antes de Quijano, já havia perspectivas descoloniais. E depois também. E elas são muitas e plurais”, frisou aos presentes ao Auditório Bento Prado Jr. Em adição, o professor criticou a ideia de pensamento descolonial “fundante”, pois muita gente “a partir de diferentes epistemologias e cosmogonias” tem formulado sobre essa questão desde o século XVI.

Já a pós-colonialidade é, para Ramón, mais recente e mais focada na crítica à historiografia colonial, especialmente no que diz respeito à dominação britânica. Segundo ele, enquanto a crítica descolonial se dedica a interpretar a modernidade e colonialidade como “duas faces da mesma moeda” criadas ao mesmo tempo com a chegada dos europeus na América em 1492, a crítica pós-colonial – que tem na sua genealogia interpretações focadas em experiências coloniais (na Ásia, e particularmente na Índia, e no Oriente Médio) a partir do século XVIII – pode apresentar esses dois fenômenos (modernidade e colonialidade) como distintas. A diferença de fundo, sustenta o acadêmico porto-riquenho, está na compreensão descolonial de que não há maneira de “salvar” a modernidade, isto é, de convertê-la em projeto de libertação e emancipação dos povos oprimidos. Daí que, na interpretação dele, o pós-colonialismo possa ser lido, em alguma medida, como “colonialismo do saber” pelo viés da esquerda, dada a prevalência dispensada a cinco pensadores do Norte (Marx, Gramsci, Derrida, Lacan e Foucault) e o desinteresse pela diversidade epistêmica que vêm se dedicando, nas mais distintas condições, a enfrentar outros colonialismos que não o britânico.

Entre as diversas questões colocadas pelo público – a pedido da professora Patrícia Scarponetti, que optou por se manifestar a partir das indagações das pessoas presentes -, emergiu o risco de reificação da raça (apontado por Frantz Fanon), que porventura poderia subtrair o seu potencial emancipador. Ramón lembrou que ofensivas anti-essencialistas baseadas na superioridade da razão científica guardam um ranço colonial e que, no processo de desconstrução de paradigmas estabelecidos e de reconstrução de epistemologias próprias, as escolhas com relação às formas de representação no campo étnico-cultural-racial cabe a cada movimento e coletivo em suas próprias lutas. Rita pontuou ainda que o racismo e a matriz racializadora estão profundamente vinculadas a contextos específicos e que identidades fundamentalistas “culturalizadas” não podem “matar” a diversidade de sujeitos sociais latino-americanos.


Sessão sobre “Relações Étnicas e Raciais” no Grupo de Trabalho (GT1) – Culturas, Identidades e Diferenças (Foto: Maurício Hashizume)

Relações Étnicas e Raciais
Além da mesa, o tema da colonialidade também esteve presente nas discussões da primeira sessão (Relações Étnicas e Raciais) do Grupo de Trabalho 1 (Culturas, Identidades e Diferenças), que teve o professor Valter Roberto Silvério (UFSCar) como debatedor. Foram apresentados diversos trabalhos que – a partir de abordagens, métodos e estudos específicos – trataram alguma forma da relação entre as lutas contra a discriminação racial na América Latina (especialmente no Brasil) e os contextos sociopolíticos na qual estão inseridas.

Um dos nós da discussão foi o tema da constituição do “ethos” nacional brasileiro, a partir da análise histórica e crítica das posições assumidas por três setores-chave: a intelectualidade/academia, o Estado e os movimentos sociais. As lacunas na política de reconhecimento das diferenças étnico-raciais, a incorporação institucional de um discurso multiculturalista contemplativo que não desestabiliza as relações de poder e os conflitos para a adoção de ações afirmativas no sentido de enfrentamento do racismo foram avaliadas a partir dos mais variados autores, com atuação dentro e fora do Brasil. Na opinião de Ramon Grosfoguel, que acompanhou parte dos debates, os trabalhos revelam uma necessidade de captar de forma mais precisa a intersecção entre a opressão de raça e de classe social sem cair em falácias construídas a partir dos quadros teóricos idealizados e pretensamente universalistas do Norte.

Curiosamente, não houve destaque a um outro encontro acadêmico profundamente ligado ao mesmo debate que será realizado na mesma UFSCar na semana que vem. Trata-se do I Encontro Nacional de Estudantes Indígenas (ENEI), entre 2 a 6 de setembro, que foi concebido e organizado pelos próprios estudantes indígenas da UFSCar e deve reunir, pela primeira vez na história, mais de 300 estudantes de graduação e pós-graduação de 45 povos.

Para além da crise?
Outro importante evento que pôs em evidência o tema da colonialidade foi o IV Encontro da Cátedra América Latina e Colonialidade do Poder: Para além da crise? Horizontes desde uma perspectiva descolonial, que teve início na última quarta (28) e se encerra nesta sexta (30) no campus Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Resultado de uma articulação entre professoras/es, pesquisadoras/es da UFRJ, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o encontro trouxe ao país pensadores relevantes como o próprio Aníbal Quijano (membro da Cátedra América Latina e professor da Universidade Ricardo Palma, no Peru) e Catherine Walsh (professora principal e diretora do doutorado em Estudos Culturais Latino-americanos na Universidade Andina Simón Bolívar, no Equador), que também faz parte da rede Modernidade/Colonialidade.

Organizado na forma de três paineís – “Estado e poder”, “Capitalismo e desenvolvimento” e “Experiências emancipatórias”, o encontro assumiu o intento, conforme a organização responsável, de “aprofundar um pensamento crítico que foge das limitações de uma interpretação economicista das estruturas capitalistas”. Estiveram ainda presentes como conferencistas: Luis Tapia (filósofo e doutor em Ciências Políticas, diretor do doutorado multidisciplinar em Ciência do Desenvolvimento da Universidad Mayor de San Andrés-UMSA e da Universidade Nacional Autônoma do México-UNAM), Agustin Lao-Montes (sociólogo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos), Edgardo Lander – sociólogo venezuelano da Universidade Central da Venezuela; Alberto Acosta (economista equatoriano, professor e investigador da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais-FLACSO, no Equador) e Ana Ester Ceceña (economista e investigadora do Instituto de Investigações Econômicas da UNAM.

FONTE: Projeto Alice

poesia negro-brasileira: testemunhos & debates

Importante evento a acontecer em Salvador, no Centro de Estudos Afro-Orientais (Largo 2 de Julho), Confiram a apresentação feita pelo professor e crítico Ricardo Riso:


“A ação dos literatos foi fundamental para a rearticulação dos movimentos sociais negros durante a década de 1970. Autoras e autores reuniam-se em coletivos, trocavam informações em diferentes cidades, mimeografavam seus textos e os distribuíam em bailes black music, por exemplo, e noutros espaços negros.

Rompia-se a asfixia da ditadura militar com seus poemas e contos que denunciavam de forma explícita a farsa da democracia racial, assim como a discriminação a negras e negros como integrante do cotidiano brasileiro. Como parte histórica incontornável desse processo encontravam-se Éle Semog e José Carlos Limeira. Com atuações marcantes nos movimentos negros, desde cedo desenvolveram uma escrita negra, até que um vai ao encontro “daquele contínuo muito estranho que não saía da biblioteca” e começavam ali uma das mais representativas parcerias da literatura negro-brasileira. A união rendeu dois livros: “O Arco-Íris Negro”, de 1979, e “Atabaques” em 1983.

Para celebrar os 30 anos de “Atabaques”, conhecer como foi aquele encontro, ser escritor negro em plena ditadura e como manter a resistência literária no decorrer de tanto tempo, Ogum’s Toques do Escritor convida o público para reviver essa parceria em um bate-papo com Éle Semog e José Carlos Limeira. Uma excelente oportunidade para conhecermos as trajetórias desses dois autores e um pouco da história da literatura negro-brasileira contemporânea, que passa pelas suas escritas imprescindíveis, plenas de inquietação, conscientização e inquestionável apuro estético.”
Ricardo Riso

ogum limeirasemog