abrindo caminhos para a educação brasileira: Muniz Sodré, perfil & propostas

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Muniz Sodré: o eterno novo baiano

Raika Julie Moisés(raika@observatoriodefavelas.org.br)

Aos 70 anos, Muniz Sodré – um dos pensadores brasileiros mais influentes na atualidade – demonstra que experiência e modernidade caminham juntas.  Autor de mais de 30 livros e centenas de artigos, este baiano de São Gonçalo dos Campos, traz para o cenário contemporâneo, temas que permeiam comunicação, filosofia, política e cultura.

Capoeirista de essência – foi aluno de mestre Bimba, a quem dedicou o livro “Corpo de Mandinga” – o Obá de Xangô e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nesta entrevista para o Notícias&Análises, fala um pouco de sua obra, dos caminhos que envolvem diversidade étnico-racial, mídia e educação. “Sou um negro moderno. Bateu, eu jogo capoeira”.

Notícias&Análises: “Reinventando a educação” (recém-lançado), dentre outras abordagens, destaca as mudanças que surgiram com a chegada das novas tecnologias e a influência da comunicação neste processo. Qual o grau de sensibilidade dos pensadores da Educação no Brasil a respeito da importância das transformações promovidas pela Comunicação?

Muniz Sodré:Neste livro eu questiono o modelo de educação que temos hoje, oriundo do século XIX e que não atende à modernidade, nem a especificidade de cada país.  Eu não sou da área de educação, mas o que eu vejo me decepciona um pouco. Os livros mais vendidos e mais avançados são assim considerados porque falam de Marx e introduzem a questão da luta de classes, o que representa um avanço, mas não é suficiente. O Ministério da Educação aceita esta forma de organização de forma acrítica. É um modelo de educação neoliberal, limitado e para poucos.

N&A: Pode-se afirmar que a diversidade e/ou propostas inovadoras, como cursos livres, pré-vestibulares comunitários, para a formação dos estudantes também ficam sem espaço?

MS:Sem dúvida! Não há espaço para a diversidade cultural, nem para a sensibilidade. Há que considerar os diversos saberes e incorporar a novidade. Eu também não vejo abertura para, por exemplo, os pré-vestibulares comunitários. Não há apoio financeiro, nem reconhecimento dos esforços individuais e coletivos, quem faz tem que se desdobrar para participar e quem oferece, normalmente, busca recursos próprios e garante a chegada daquele estudante à universidade desenvolvendo novas metodologias que também não são reconhecidas, nem fortalecidas. As formas de saber tem que dar as mãos.. Não basta ter laptop e tablet nas salas. A questão da educação é o professor. Tecnologias vão ser incorporadas se houver revalorização da função dos docentes. O professor tem que estar no centro.

N&A: E no que tange a mídia, comunicação e questões étnicos-raciais?

MS:Sendo a comunicação um setor conservador e reacionário, caberia então a educação cobrir este papel, mas isto não ocorre. Ela não acompanha as decorrências da tecnologia e seus desdobramentos. Na Bahia, por exemplo, sabemos que os professores de piano e pintores do início do século, eram, em sua maioria, negros. Nenhuma escola propaga ou fortalece este discurso. Só sabe quem pesquisa e quem pode pesquisar.

N&A: Assim, o que chamamos de apropriação perde um pouco do seu sentido…

MS: Sim. Eu vejo a apropriação como uma forma de entrar nas ferramentas da modernidade e no uso das mesmas. Não há apropriação bruta, ela é soft, se dá por sensibilidade, proximidade, é uma relação que se constrói na afetividade. Por exemplo, na escrita, a apropriação se deu pelo uso que se fazia dela e não pela escrita impressa, pela prensa das palavras. Se você não se insere e nem está inserido, educacionalmente, não há apropriação de fato.

N&A: Ainda neste tema, por que tantos leitores e pesquisadores se apropriam de suas obras?

MS: Eu não acho que as pessoas se apropriam tanto da minha obra como dizem. Até gostaria que se apropriassem mais. Meus livros de literatura, mesmo relançados, não aparecem em nenhuma resenha da grande mídia, nem nada. Estão na circulação alternativa. Mas eu sigo escrevendo porque acredito nos públicos invisíveis. Há uma economia e leitores invisíveis que compram, leem, discutem. E isso me motiva. Já meus livros teóricos tem ideias. São absorvidos também pelos invisíveis e por pessoas ecléticas. E isto, também me motiva. Sou um negro moderno, sou eclético e sou capoeirista. Bateu, eu jogo capoeira. É assim que funciona com meus livros.

N&A: Ao longo de sua obra, foi construída uma teoria da Comunicação e a defesa de que ela deva ser entendida como uma ciência. Quais as contribuições efetivas que a Comunicação pode oferecer para a sociedade? 

MS:A partir da filosofia, nascem as ciências sociais no século XIX. Já existiam questões relativas a condição humana, que, após a Revolução Francesa, assumiram formas históricas modernas. Na sociologia, por exemplo, as ideias que caracterizam seu período de desenvolvimento estão relacionadas com a crise da formação social e para a natureza ética originárias da sociedade tradicional e da tradição filosófica. Reinvindicar a comunicação como um pensamento científico não é um ato formal ou acadêmico, é político, no sentido de que é preciso refletir sistematicamente sobre um campo em que é difícil distinguir a prática do consumo da prática do conhecimento. É necessário resgatar a comunicação como pensamento do conservadorismo neoliberal, que deposita a força utópica do homem no mercado e na máquina.

N&A: Por que não causa estranhamento o fato de a TV ter um número muito superior de brancos em relação ao de negros, já que negros e pardos são mais da metade da população brasileira?

MS:Sabemos que quem dirige estes meios são sujeitos de classe dominante, brancos. E a invisibilidade do negro para a maioria deles também é natural e vem de muito tempo. Anos atrás, quando eu trabalhava na Editora Bloch, o Zuenir Ventura sugeriu a um dos editores, colocar como foto de capa Lupicínio Rodrigues e o editor disse que não. Nós questionamos e o editor disse que negro não vendia. Zuenir retrucou dizendo que no carnaval vendia e ele reforçou: no carnaval. Situações como estas se repetem ainda hoje e estão ligadas as representações que todo o tempo querem ser reafirmadas. Mas temos que reconhecer que houve uma melhora, não podemos nos acomodar no discurso do ressentido. E atribuo estes avanços, ainda que pequenos, aos negros que tem compromisso com a comunidade, com a História a que pertencem. Porque não é a cor da pele quem define o negro, é o seu comprometimento com sua essência e suas origens.

N&A:  Há um movimento, inclusive midiático, onde todos se dizem – de alguma forma – descendentes de negros ou adeptos de religiões como o candomblé ou a umbanda, mas não há nenhuma discussão concreta sobre ser negro no Brasil. Como você analisa este fato?

MS:A verdade é que ninguém jamais quis ser preto no Brasil. Conforme você ascende social ou economicamente, você embranquece. Se distancia da sua cor, da sua origem. Ao mesmo tempo em que o meio a meio, a mistura, é típica do brasileiro. Nesta lógica, isto é positivo porque você tem que encarar e conviver com a diversidade étnico-racial, principalmente se você a chama pra si. Quando você é meio isso, meio aquilo, você tem que defender as duas metades. Em Paris, por exemplo, eu vivo muito esse meio a meio. Lá eu sou árabe, argelino ou mulato, menos negro. Mas minha essência, minha capoeira, minha dança, meu terreiro e meu compromisso é que dizem que eu sou negro. São eles que me caracterizam negro.

N&A: De que forma os meios de comunicação contribuem, no campo das representações, para o fortalecimento da intolerância religiosa? Qual o papel da escola neste sentido?   

MS: Quando a escola aceita ensino religioso, predominantemente, de religião dominante, a intolerância cresce. Quando os cultos negros são reprimidos e denominados cultos do diabo, dentro da escola, a intolerância se fortalece. Enquanto os meios preservarem os estigmas e a escola não chamar para si esta discussão, não questionar e não incluir as outras religiões no seu contexto histórico e pedagógico, principalmente quando as religiões dominantes estão assumindo o parlamento, desta forma intolerância vai se perpetuar. E é educando para o respeito, para a diversidade, rompendo com o conservadorismo que se detem isso.

N&A: Se Muniz Sodré não fosse quem ele é, quem ele gostaria ou poderia vir a ser?

MS:Eu gosto de ser eu mesmo. Gosto da minha capoeira, da minha história, me encontro nela, principalmente, comigo mesmo. Além disso, se eu não fosse o que eu sou, a mulher que eu tenho não estaria comigo e a vida, a luz pra mim é ela. Do contrário, não faria sentido.Assim eu gosto deste mim mesmo.

Fonte: LECC / Observatório de Favelas

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“Verba é necessária para a educação. Mas sem verbo, a verba é estéril”

Ederson Granetto conversa com o professor Muniz Sodré, da UFRJ, sobre o livro Reinventando a Educação – Diversidade, descolonização e redes, publicado recentemente pela Editora Vozes. A obra traz um estudo sobre como enfrentar os desafios de educar no século XXI, num mundo globalizado e afogado em novas tecnologias de comunicação e informação.

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Interdisciplinariedade & Diversidade Cultural na educação brasileira: debates & desafios

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Nesta participação no programa televisivo “Salto para o Futuro”, ocorrida cinco anos atrás, Vera Candau  faz projeções acertadas e realistas sobre as demandas das sociedades multiculturais, tais como a brasileira, e a necessidade que delas se desdobra em transformar os recursos do ensino-aprendizagem. Cliquem na imagem para assistir o vídeo.

licenciatura e mercado de trabalho: mudanças à vista

 

Exame nacional de ingresso como certificação

Luiz Carlos de Freitas

As teses dos reformadores empresariais estão sendo seguidas impecavelmente pelo novo Ministro. Uma delas é que a avaliação tem centralidade na melhoria da educação. Por isso, seu foco na avaliação que deverá, é claro, ser seguida de meritocracia. Isso era esperado. Não vai faltar avaliação para ninguém: alunos, professores e diretores. Para o ministro:

“No caso dos professores, ponderou Cid, a avaliação poderia ser utilizada como “passaporte para o ingresso” do professor na carreira docente, em vagas ofertadas por Estados ou municípios.”

É isso. Quando apareceu a ideia de uma prova nacional para ingresso no magistério, advertimos à exaustão a CNTE e as entidades educacionais que esta prova poderia ser convertida em certificação para ingresso no magistério.

(Veja, por exemplo, aqui, aqui, aqui, aqui.)

Para minar resistências, ele ameniza dizendo que a avaliação “será uma opção do professor”, mas é claro que perante as redes, isso não será optativo e, socialmente, aquele que não realizar o exame estará em condições inferiorizadas perante outros que o fizeram.

Com a palavra, a CNTE e as entidades da área da educação.

FONTE: Avaliação Educacional

não existe aprendizado sem muita pesquisa; não existe imaginação sem muita curiosidade

 

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Por uma Pedagogia da Descoberta

Sociedade está madura para Educação que reduza papel dos currículos obrigatórios e estimule prazer do conhecimento — exercitado em bibliotecas transversais e de livre acesso

Derbi Casal

A escola mata a descoberta. Ela entrega o conhecimento pronto em um currículo, definido de acordo com aquilo que é considerado por autoridades como conhecimento válido, todo o resto é excluído.

O que há nesse “resto”?  Toda  a experimentação, o conhecimento informal, aprendido nas vivências, os saberes tradicionais, transmitidos pelos mais velhos e a descoberta.

A serendipidade (o princípio da descoberta) só existe quando há liberdade de escolha por caminhos diferentes e aleatórios. A descoberta se dá, principalmente, quando não estamos procurando exatamente aquilo. Esse processo, que não pode ser controlado, é inexistente na grade escolar. Na escola somos todos considerados incompetentes para adquirir nosso próprio conhecimento. E nunca somos estimulados à fazê-lo.

A palavra serendipidade surgiu em referência a um antigo conto persa sobre os três príncipes de Serendip. Em suas aventuras eles viviam se deparando com situações inusitadas e fazendo descobertas ao acaso, encontrando respostas para questões que eles sequer haviam feito. Tinha um pouco de sorte envolvida, mas era a sagacidade dos meninos, um toque genial de mentes abertas para a descoberta, que realmente operava a magia.

Essa qualidade da descoberta não é de forma alguma privilégio de mentes superiores. É uma habilidade e um posicionamento, uma forma de ver o mundo, disponível para qualquer pessoa.

Bibliotecas são um excelente lugar para o exercício de serendipidade e nas escolas elas ficam isoladas das pessoas, que mal as frequentam nos intervalos das aulas. Temos alguma contação de história, mas livros previamente escolhidos. Mesmo quando eles não são previamente escolhidos, raramente é o acervo todo ofertado à escolha e, mesmo que fosse, ainda assim seria apenas uma atividade controlada, algum livro teria de ser “o escolhido”, os outros permanecerão inertes nas estantes.

Em geral é proibido (ou vigiado) andar entre as estantes a procura de livros que não se sabe ainda quais são. Isso é feito em nome da “ordem” que sempre vem de cima, e está sempre acima da vivência, pairando sobre ela, limitando suas possibilidades libertadoras.

Há um tipo de acesso à biblioteca, que é transversal, não linear, baseado quase que puramente na serendipidade. Ao conduzir uma leitura, indo de um texto à outro, colecionando trechos diferentes de cada livro sobre determinado assunto, eu estou praticando a descoberta. Aliás foi essa prática que desenvolveu a ciência como hoje a conhecemos e o acesso não linear a uma coleção de livros foi o embrião do hipertexto.

Essa forma de utilizar acervos surgiu lá na antiguidade e se tornou evidente na Biblioteca de Alexandria. Foi responsável pelo desenvolvimento da filologia, da geografia, da matemática, da astronomia, da medicina, da poesia, da filosofia, da história e de muitas outras ciências e saberes.

A serendipidade foi a maior consequência de se acumular livros em uma sala. Isso desenvolveu toda uma economia e ergonomia do saber: o surgimento da paginação, da referência, da citação, da glosa, do colofão, dos sumários, dos resumos, das bibliografias, dos catálogos, das resenhas… Todas essas formas de diálogo entre livros, escritores e leitores.

Uma biblioteca nunca é a mesma para duas pessoas praticando a descoberta. As escolhas, mais ou menos aleatórias, de livros formam caminhos, percursos diagonais, transversais, paralelos, pela coleção toda. O prazer de percorrê-los é como o prazer do desconhecido, é desbravar os universos não domesticados do saber. E é possível reiniciar muitas vezes o processo, sempre com resultados inusitados.

A autonomia de percorrer estantes, pegar livros, ler um trecho, procurar outro livro, compará-lo com um terceiro, pegar uma enciclopédia e, partindo de um verbete qualquer, buscar outras fontes, é o principio do amor pela pesquisa e do autodidatismo. São qualidades fundamentais para o pensamento livre e crítico.

Não provoca nenhum espanto a pouca valorização das bibliotecas e da leitura nos dias de hoje. É um reflexo do que a educação faz com a descoberta. Em tempos em que a homogeneidade de ideias, comportamentos e atividades e a obediência a regras, controles e currículos é o que está nas bases da educação, é bastante esperado que as capacidades revolucionárias e libertadoras das bibliotecas sejam caladas.

A busca por uma forma de educação livre passa pelo resgate da descoberta como veículo da potência humana. A serendipidade em substituição à rigidez curricular. É aí que está a importância esquecida das bibliotecas!

Em uma pedagogia da serendipidade, a descoberta é o centro do aprendizado e  a biblioteca é o coração da escola.

FONTE: Outras Palavras