Fanon e os desafios da descolonização e da emancipação africana

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FANON, Frantz. Sobre a cultura nacional. In: Os condenados da Terra. 2.a reimpressão atualizada. Tradução de Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Juiz de Fora: UFJF, 2013.

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novas fontes para conhecer a história da independência angolana

angola trilhos

O projecto Angola nos Trilhos da Independência tem atiçado a curiosidade de muita gente. Foram 57 meses, 900 horas de material audiovisual recolhido em território angolano e internacional, com cerca de 700 depoimentos de protagonistas da luta anticolonial. Tudo isto destinado a preservar a memória de um período na História que diz respeito a Angola e à luta de todos os povos sob ocupação colonial cujas memórias padecem ainda de ser registadas e pensadas.

É um projecto de grande fôlego que implicou muitas viagens, epopeias, adversidades, muita poeira e entusiasmo. Através dele, a equipa (e futuramente nós) ficou a conhecer um país sob todas as suas diversas camadas: campo, cidade, interior, litoral, etnias, línguas, idades e modos de vida.

Entretanto, muitas personagens cujos testemunhos foram gravados já morreram, o que demonstra a urgência deste projecto cujo resultado sairá em 2015 na senda das comemorações dos 40 anos da Dipanda.  

O general Paulo Lara foi, com a associação Tchiweka, o mentor dos Trilhos da Independência. Mas esta aventura não seria possível sem a dedicação, competência e curiosidade dos jovens da Geração 80: Mário Bastos, Jorge Cohen, Tchiloia Lara e Kamy Lara.

Nascido no ano do famoso manifesto do MPLA (1956), no seio de uma família em tudo implicada na causa nacionalista, Paulo Lara andaria com o pai (Lúcio Lara) por lugares estratégicos da luta: Guiné-Conacry, Alemanha, Marrocos, Léopoldville, chegando a conhecer Amílcar Cabral e muitas peças-chave envolvidas nesta guerra. Também ele foi, durante dois anos, guerrilheiro nas matas de Cabinda. Já em pleno século XXI continua a surpreender-se pelo museu vivo que este assunto vai urdindo. (…)

SAIBA MAIS!

entrevista com a equipe no site BUALA

fanpage Facebook do projeto

ampliam-se na web iniciativas de valorização & fontes de aprendizado para as línguas de Angola

 

Plataformas angolanas de aprendizagem de línguas nacionais

por Global Voices (Vozes Globais) e Mário Lopes

“Em média, a cada quinze dias desaparece uma língua, e África é o continente mais ameaçado”, apontou o escritor José Eduardo Agualusa num artigo, de 2011, sobre a evolução das línguas em Angola. Mas ao longo do último ano foram criadas várias plataformas online em favor da salvaguarda das línguas nacionais do país. 

Angola é um país plurilíngue, com seis línguas africanas reconhecidas como nacionais a par do português enquanto língua oficial. Para além disso, estima-se que existam 37 línguas e 50 dialectos em uso no país. O blog Círculo Angolano Intelectual reportou no final de Outubro de 2013, que 30% da população de Angola (cerca de 8,5 milhões de angolanos) “só fala as línguas nacionais que não fazem parte de nenhum programa educacional, social”, acrescentando:

isto é mais um dos factores que gera exclusão social.

Num artigo [pdf, 2011] de Agualusa, publicado pelo Instituto Cultural de Formação e de Estudo sobre Sociedades Africanas em São Paulo, Casa das Áfricas, o escritor premiado versa sobre “uma proposta de paz” para a coexistência das línguas nacionais e da língua portuguesa (“língua materna versus língua madrasta”), e  questiona:

Porquê que é que em Angola, país de muitas línguas, os escritores apenas utilizam o português?

Procurando contrariar o fenómeno, ao longo do ano de 2013 surgiram várias iniciativas online, criadas por jovens que olham para as tecnologias como um desafio para a promoção e salvaguarda das línguas nacionais.

Um projecto ainda em fase inicial que promete fomentar a aprendizagem das línguas nacionais angolanas de uma forma inovadora, sem custos e ao alcance de todos que tenham acesso à internet é o Evalina. Criado em Maio de 2013 por Joel Epalanga, gestor de projectos de tecnologias de informação no sector das telecomunicações, a principal motivação para a criação da plataforma foi a percepção de que há uma lacuna que vários jovens enfrentam no que diz respeito às línguas nacionais. A proposta foi explicada numa entrevista do mentor à revista Jovens da Banda:

[para que] os jovens, que hoje em dia gastam boa parte do seu tempo livre na internet, pudessem dedicar algumas horas para aprender um pouco a (sua) língua nacional de preferência.

O Evalina consiste numa página de Facebook onde são disseminados conteúdos, estímulos à aprendizagem e lições sobre línguas nacionais. Até à data de publicação deste artigo havia lições de umbundu, a segunda língua mais falada a seguir ao português, e de kimbundo.

Em Fevereiro deste ano a plataforma de gírias angolanas Kallun já mereceu uma nota do Global Voices. O projecto tem como “objetivo criar um lugar onde os calões e gírias [de Angola] sejam explicados e compreendidos por todo mundo” e também utiliza as redes socias para fomentar a partilha e aprendizagem de uma forma informal.

Outro projecto a destacar é o Dicionário Ngola Yetu, um dicionário – tradutor online de línguas nacionais angolanas “desenvolvido com o objectivo de solidificar a cultura angolana e massificar o seu uso no seio dos jovens”. Com um visual simples e intuitivo (faz lembrar o Google), funciona como um motor de buscas entre as línguas kilongo, kimbundo, umbundo e português. O projecto tem utilizado o Facebook e Twitter para interagir com os internautas. 

[Visite o site BUALA para saber mais e assitir um vídeo sobre esse tema]

breve panorama das políticas & pedagogias da diversidade em Angola

ELEICOES1

Multiculturalismo e o velho princípio da unicidade

Filipe Zau (*)

Tal como a grande maioria dos Estados africanos, Angola é um Estado pluriétnico e, como tal, multicultural e plurilingue. De acordo com António Custódio Gonçalves, o conceito de etnia “deverá ser analisado como uma categoria de nomeação e de classificação, cuja continuidade depende de uma fronteira e de uma codificação constantemente renovada, das diferenças culturais, entre grupos vizinhos”. Daí que, de acordo com este académico, há que descodificar a tendência para a cristalização deste conceito, bem como o de etnicidade, já que “nenhuma cultura é autocontida, porque os seus limites nunca coincidem com os limites do Estado” e porque na sequência dos conflitos armados, os fluxos migratórios internos foram consideráveis.

Logo, é de se entender que “a cultura é uma autocriação com aberturas específicas e interpenetrações com outras culturas.”

Sendo a actividade laboral, a cultura e o exercício de cidadania fins de um sentido amplo de Educação, esta só pode ser entendida como um processo de socialização, a ser levado a cabo de forma sistematizada por instituições vocacionadas para o efeito, que visem a preparação e formação adequada dos actuais e futuros cidadãos, para posterior cumprimento de papeis sociais, que vão de encontro a esses mesmos fins. A maior ou menor eficácia e eficiência de formação de recursos humanos de um país está, naturalmente, em correlação directa com o seu progresso económico, factor indispensável para que se abram portas ao desenvolvimento e ao bem-estar social. Cabe a cada Estado, na sua relação indissociável entre educação e cultura, valorizar os diferentes acervos patrimoniais, sem deixar de priorizar um sentido comum de pertença, que se sobreponha a todos os outros: a Nação de um só povo como identidade política.

Em termos de política educativa, estamos perante duas vertentes que devem ser entendidas como complementares e não excludentes e que permitem satisfazer três aspectos relevantes:
– A necessidade e o direito de cada comunidade poder ser educada de acordo com a sua própria cultura;
– A viabilidade de, através da educação intercultural, uma dada comunidade cultural poder conhecer as demais, não se fechando em si própria e alargando os seus horizontes para um sentido de alteridade, indispensável ao respeito e aceitação da diferença;
– A necessidade de todas as comunidades terem de inculcar um conceito de identidade política, a Nação, à qual todos os outros sentidos de pertença se têm de submeter.

Entre outros, em África, as experiências de países como a África do Sul, a Namíbia, o Senegal, o Quénia e a Nigéria; na Europa, as experiências de países como a Suíça, a Espanha, a Bélgica e Andorra; e no Canadá, na América do Norte, mostram-nos que tal se torna possível e desejável, para países multiculturais e plurilingues. A questão fulcral coloca-se na análise do que é mais eficiente para o processo de formação de recursos humanos, em sociedades com preocupações de respeito e aceitação mútua pelas diferentes culturas em presença, e com a necessidade imperiosa de criação de uma consciência política identitária de coesão nacional: será que num mesmo país multicultural e plurilingue um mútuo desconhecimento entre as comunidades em presença contribui para uma maior coesão nacional ou, pelo contrário, um maior conhecimento da multiculturalidade existente, associado a um projecto de educação intercultural, pode conduzir a um maior sentido de alteridade e de unidade nacional?

A introdução das línguas africanas de Angola no ensino (chamarei, posteriormente, “nacionais” às que vierem a alcançar tal estatuto por parte da Assembleia Nacional), quer como meio facilitador da aprendizagem quer como matéria de ensino, foi um passo relevante para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, nomeadamente, para quem não possui a competência linguística indispensável à edificação dos conhecimentos a serem adquiridos em uma instituição de ensino. É a escola que, ao inserir-se nas diferentes comunidades, tem de, obrigatoriamente, se adaptar aos distintos contextos socioculturais, e não o contrário. Todavia, como o ensino de uma qualquer língua, tem de estar em consonância com o contexto sociocultural da mesma, tal implica em adaptações de carácter regional, que, para o caso angolano, a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei 13/01), não prevê, atendendo ao “princípio da integridade” (artº4), que é similar ao antigo “princípio da unicidade” inserido no sistema educativo já extinto.

(*) PhD em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

FONTE: Jornal de Angola

ser justo com Monteiro Lobato é ser realista com Monteiro Lobato–e com nós mesmos

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Publicado ano passado, o artigo de Muniz Sodré transcrito a seguir mantém-se bastante atual para inspirar uma reflexão lúcida acerca das questões levantadas e polemizadas na reavaliação contemporânea que se faz da obra do criador do Sítio do Picapau Amarelo. De um ponto de vista atento ao caráter histórico dos objetos literários, é importante frisar que, ao tornar-se canônica, a obra lobatiana expõe-se inevitavelmente aos processos de releitura e ressignificação que buscam aferir a legitimidade do valor nacional atribuído a esses textos. É este valor, é este referencial para o entendimento da identidade brasileira que a obra de Lobato pode representar, o que está, ou deveria estar, no centro do debate. Para além do louvor de nossas tradições rurais, o que Lobato nos esclarece sobre a sempre conturbada construção da identidade brasileira?  por que é tão doloroso ou tortuoso admitir que o pai da Emília, afinal, era tão racista quanto os pais de tantos de nós, explicita ou recônditamente, o eram, o são? Manter o silêncio sobre questões como estas tanto reduz a realidade viva que forjou a imaginação de Monteiro Lobato, como obscurece ou preserva encoberto aquilo que continua a ser imprescindível que encaremos para a construção de um Brasil onde Bentas e Anastácias, Sabugosas e Malasartes possam conviver numa realidade digna daquilo que de melhor as paisagens do pica-pau amarelo já inspiraram.

 


O princípio do avestruz

Por Muniz Sodré, em 08/03/2011

É velha conhecida dos linguistas a regra da quarta proporcional. Assim: se a criança sabe que o futuro do verbo comer é “comerei”, ao conjugar o futuro de trazer, ela pode dizer “trazerei”. Esta é a quarta proporcional, um fato lógico, enquanto “trarei” é um fato de língua, que se adquire com a experiência progressiva do idioma.

A regra pode ser aplicada a situações sociais mais complexas: se alguém ofende judeus e é socialmente classificado como racista ou antissemita, parece lógico que ofensas dirigidas aos negros tipifiquem o racismo. Aliás, o antissemitismo, como bem mostra o antropólogo Louis Dumont em Homo Aequalis, é a forma princeps do racismo no Ocidente.

Trata-se de um tipo simples de raciocínio que pode servir para dirimir certas dúvidas quanto às ambigüidades da discriminação. Não comparece aqui nenhum vezo acadêmico, mas um exercício de observação de imprensa, considerando-se as repercussões do episódio “Monteiro Lobato/bloco carnavalesco ‘Que merda é essa?’” sob o pano de fundo do incidente em Paris com John Galliano, estilista da Casa Dior (ver meus artigos “Monteiro Lobato vai para o trono?” e “Monteiro Lobato não precisa de buzinadas”).

EUGENIA REDIVIVA

Todo mundo está a par, mas vale um pequeno resumo. De cara cheia do que não se sabe, o estilista que veste (agora, vestia…) celebridades insultou judeus em pleno Marais (bairro parisiense com uma presença numerosa de comércio e moradores judeus), além de proclamar o seu amor por Hitler. As conseqüências foram imediatas: Galliano não só foi demitido da Dior como as roupas que ele assinara para as atrizes da festa do Oscar deixaram de ser usadas. “Ele me enoja” foi a frase-síntese da atriz Natalie Portman para o episódio.

Agora apliquemos a regra da quarta proporcional a um caso fictício em que um estilista da língua, um bom escritor se refira ao povo de Israel nos mesmos termos em que Monteiro Lobato se referia aos negros, por exemplo, nos textos transcritos pelo jornalista Arnaldo Bloch na página “Logo” de O Globo (2/3/2011). Pergunte-se: o que aconteceria? Haveria escritor, editor ou colunista atestando que não havia racismo nenhum, que os tempos eram outros, que é ridículo buscar cabelo em ovo, que a consciência infantil jamais seria afetada pelas imagens de rebaixamento e que, no fundo, imaginação literária não é imagem em ação?

Temos certeza de que não haveria. Por quê? Pelo simples fato de que a comunidade judaica aprendeu a repelir a infâmia do racismo. Primeiro, ela sempre soube, por sua milenar tradição intelectual, da importância de se ter autoridade semântica sobre si mesmo; segundo, por meio do sofrimento infligido à consciência pela disseminação, realmente virótica, dos estereótipos negativos. O humor judaico conhece a diferença entre as auto-ironias e o discurso da infâmia.

Ora, dirão, os tempos eram outros, até mesmo da pena esclarecida de um Sérgio Buarque de Hollanda partiu em certo momento (1920) um juízo negativo sobre a mestiçagem. Muito antes disso, entretanto, intelectuais brasileiros como Joaquim Nabuco e Rui Barbosa entenderam perfeitamente o papel desempenhado pelos africanos e seus descendentes na formação do povo nacional. Aliás, todos os próceres abolicionistas, claros ou escuros – Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio, Luiz Gama e outros – eram atravessados por uma espécie de “espírito” educacional, que não podia comportar juízos “lobatianos” sobre a condição negra.

O abolicionismo era em si mesmo um movimento educacional no sentido amplo da palavra, porque se tratava de preparar as elites dirigentes para o ingresso da nação brasileira no século 20 sob o signo de uma modernidade (de inspiração liberal e européia) incompatível com a escravatura e já muito atrasada frente à conjuntura internacional. Os intelectuais abolicionistas eram educadores coletivos, porque representavam aquilo que Nietzsche chamaria de “autoridade imperiosa em matéria de cultura” (a exemplo de Goethe, Hegel ou Schopenhauer na Alemanha). Por isso, podiam ser implicitamente reconhecidos como “instrutores públicos” ou indicadores da necessidade histórica de se mudar toda uma estrutura anacrônica.

Por outro lado, havia a eugenia, nome da pseudociência surgida em fins do século 19, com o fim de “melhorar” geneticamente a espécie humana, assim como se pode experimentar com animais. Era um anacronismo que arrefeceu nos EUA por volta dos anos 1930, transferindo-se para a Alemanha nazista, onde fez carreira. Além de anacrônico, era um pensamento violento, porque não disfarçava o desejo de morte do Outro considerado geneticamente inaceitável e, por derivação, culturalmente rebaixado pela consciência investida do pior do universalismo europeu. Mesmo deixando de lado o nome próprio, às vezes falando em nome da genética, a eugenia persistiu ao longo do século em escritos de antropólogos, sociólogos, ficcionistas, jornalistas e, pior de tudo, nas falas de professores que os recitavam para platéias em formação.

RECADO ENTENDIDO

Monteiro Lobato está agora em foco precisamente porque era um militante do movimento eugenista, com coragem para dizer o que pensava e sentia. “A escrita é um processo indireto de fazer eugenia”, repetia ele, como que deixando aberto o convite, para além do que explicitava em suas cartas, a que se pesquisasse o conteúdo subliminar eugenista em seus textos. Era, reiteramos, racista confesso, sem meias falas. Ignorância é o encobrimento desse dado histórico

Por que se encobre? Podem ser muitas as respostas, mas simplifiquemos um pouco com a hipótese da existência nas elites brasileiras de um “princípio do avestruz”, essa ave que, segundo a mitologia popular, enterra a cabeça na areia para não ver aquilo que teme. Na prática, o struthio camelus é bicho de visão e audição aguçadas, capaz de formidáveis patadas, se ameaçado. Mas o mito lhe atribui esse estranho comportamento, que costuma repercutir na vida real. A mídia, por exemplo, que é intelectual coletivo das classes dirigentes, caixa de ressonância dos fantasmas elitistas, sabe bem a hora de meter a cara no buraco.

Não é um princípio que se aplique a todas as situações espinhosas. Se um economista apresenta a realidade da discriminação em números e com a terminologia de praxe, as pessoas são capazes de assentir com a cabeça, a imprensa escrita é capaz de publicar com destaque a apresentação. A coisa toda pode até incomodar um pouco, mas o economês é discurso de poder, logo, tem vias de trânsito, ainda que levante contradições.

O problema aparece de fato quando o discurso antidiscriminatório tem conotações políticas com rebatimento sobre o plano das relações interpessoais. Aí o bicho pega e comparece o princípio do avestruz: ver o real é assustador. Como “ver” que aquele escritor com que nos embalaram desde a infância e cuja obra resultou naquela série de televisão tão afetuosa e tão vendida no exterior era pior do que o estilista John Galliano, já que não precisava sequer encher a cara ou o nariz para dizer o que pensava? Sobre a mídia ou sobre o cotidiano de cada cidadão, paira o princípio do avestruz como uma espécie de garantia para que não se veja a ignorância própria ou não se veja o tamanho da própria coragem existencial, certamente ínfimo diante da coragem de Lobato que, como frisamos, assinava embaixo da infâmia.

Não se trata, portanto, de censura nem de aplicação do “politicamente correto”. Trata-se, sim, de dar nome aos bois, de encarar o real e aprender coletivamente a lidar com os paradoxos, as contradições e as ambigüidades de que também é feito o nosso meio vital, esse “mundo da vida” de que tanto fala o ilustre alemão Jürgen Habermas. Monteiro Lobato e sua literatura fazem parte do mundo da vida nacional.

Mas o Estado-Nação brasileiro ainda não está concluso: deve-se, mais do que nunca, continuar a ler Lobato, apenas, quem sabe, com o cotejo de predecessores como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio ou de autores contemporâneos com uma visão mais generosa da espécie humana. Enfim, é preciso recuperar um pouco do espírito de instrução pública que bafejou o Brasil nas lides abolicionistas e republicanas. A mídia – será apenas a televisão? – tem-nos feito esquecer a brasilidade oitocentista, que presidiu ao nascimento da Nação independente, soterrando-nos com lixo cultural reciclado.

Não procede a afirmação de que esse tipo de revisão é coisa de acadêmico. Academicamente, já fui orientador de tese de doutoramento sobre a literatura de Lobato, sem que se levantasse o tópico do racismo. Não eram majoritariamente acadêmicos aqueles que se incomodaram com a camiseta do bloco carnavalesco em que Lobato sambava com uma negra. Pareceu-me gente que entendia do recado: ele poderia dançar fox-trot, jamais sambar.

MAIS EMBAIXO

Aqueles que se manifestaram na rua eram membros dessa corte crescente de cidadãos cada vez mais inspirados pelas lições anti-racistas da comunidade judaica. A “pretalhada” (termo lobatiano) é mesmo “inextinguível” (termo lobatiano) e está em luta pela representação social. Para quem quiser ampliar até à substância a metáfora do avestruz, vale tomar nota de que a carne dessa ave já não é rara em supermercado: enterrou a cabeça, dançou. Ao jornalista-avestruz, congelado na restituição “afetuosa” do passado, vale a advertência cantada por Zeca Pagodinho: “Camarão que dorme a onda leva”.

Por isso tudo foi muito interessante a página “Logo” de O Globo. Transcrevendo trechos inequívocos de textos de Lobato em caixa alta, o jornalista Arnaldo Bloch, jovem e esclarecido membro da comunidade judaica do Rio de Janeiro, deu um recado implícito aos profissionais da leviandade: o buraco é mais embaixo. É assim mesmo que se deve entender o tom do recado. Arnaldo, se bem me lembro, foi da turma do saudoso Bussunda na ECO (UFRJ), na época em que dirigi a escola. Saudoso, sim, pois Bussunda, membro daquela mesma comunidade do Arnaldo, era um iconoclasta que contornava saudavelmente a hipocrisia do “politicamente correto”.

Saudavelmente? Sim, na contracorrente do princípio do avestruz e longe, muito longe, da infâmia raivosa.

Fontes: Associação Crianças Raízes do Abaeté / Dreamstime (imagem)

leituras do Brasil globalizado pelo olhar africano e feminino de Paulina Chiziane

Na entrevista para a EBC na Rede, a escritora moçambicana ainda dá exemplos de estereótipos sobre raças e gêneros no cinema e na literatura brasileira.


Novelas passam imagem de Brasil branco, critica escritora

“Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé”

Alex Rodrigues (Agência Brasil)

“Temos medo do Brasil”. Foi com um desabafo inesperado que a romancista moçambicana Paulina Chiziane chamou a atenção do público do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF).

Ela se referia aos efeitos da presença, em Moçambique, de igrejas e templos brasileiros e de produtos culturais como as telenovelas que transmitem, na opinião dela, uma falsa imagem do país.

“Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo”, criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país.


Escritora participa de debate sobre a literatura africana durante a 1ª Bienal do Livro e da Literatura

“De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal”, sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país. 

Igrejas brasileiras

A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora.

“Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular”, destacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.

Fuga de estereótipos

Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir.

“Gosto muito dos poetas de meu país, mas nunca encontrei na literatura que os homens escrevem o perfil de uma mulher inteira. É sempre a boca, as pernas, um único aspecto. Nunca a sabedoria infinita que provém das mulheres”, disse Paulina, lembrando que, até a colonização europeia, cabia às mulheres desempenhar a função narrativa e de transmitir o conhecimento.

“Antes do colonialismo, a arte e a literatura eram femininas. Cabia às mulheres contar as histórias e, assim, socializar as crianças. Com o sistema colonial e o emprego do sistema de educação imperial, os homens passam a aprender a escrever e a contar as histórias. Por isso mesmo, ainda hoje, em Moçambique, há poucas mulheres escritoras”, disse Paulina.

“Mesmo independentes [a partir de 1975], passamos a escrever a partir da educação europeia que havíamos recebido, levando os estereótipos e preconceitos que nos foram transmitidos. A sabedoria africana propriamente dita, a que é conhecida pelas mulheres, continua excluída. Isso para não dizer que mais da metade da população moçambicana não fala português e poucos são os autores que escrevem em outras línguas moçambicanas”, disse Paulina.

Durante a bienal, foi relançado o livro Niketche, uma história de poligamia (clique para acessar edição eletrônica), de autoria da escritora moçambicana. As informações são da Agência Brasil.

FONTE: Correio da Bahia

panorama atualizado sobre os hábitos de leitura no Brasil

 

Centrando-se no mapeamento quantitativo, a nova edição da pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro oferece dados úteis para a visualização em escala nacional de perfis de leitores, assinalando preferências e tendências que precisam certamente ser ponderadas pela ação pedagógica voltada para modificar uma situação ainda muito insatisfatória, no que diz respeito à disseminação e diversificação da cultura da leitura em nossa sociedade. Para os estudantes da LET C46 e da LET A25, disciplinas centradas na problemática da formulação e legitimação de cânones, será um exercício interessante analisar de que maneira as seleções do cânone popular evidenciadas na pesquisa convergem, ou não, com as listagens de obras consagradas nos cânones institucionais e acadêmicos. Clique na imagem abaixo para acessar o arquivo pdf da pesquisa:   

retratos leitura 2012 capa

 

escritor mais admirado_RDL2012

 

livro marcante_RDL2012

 

penetração leitura_RDL2012