Interdisciplinariedade & Diversidade Cultural na educação brasileira: debates & desafios

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Nesta participação no programa televisivo “Salto para o Futuro”, ocorrida cinco anos atrás, Vera Candau  faz projeções acertadas e realistas sobre as demandas das sociedades multiculturais, tais como a brasileira, e a necessidade que delas se desdobra em transformar os recursos do ensino-aprendizagem. Cliquem na imagem para assistir o vídeo.

Seminários Interdisciplinares – LETA03: referências

CANDAU, Vera. Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre igualdade e diferença. In: Revista Brasileira de Educação. v.13. n.37. Rio de Janeiro: ANPEd, jan./abr. 2008.

MUNANGA, Kabengele. Educação e diversidade cultural. In: Cadernos Penesb: discussões sobre o negro na contemporaneidade e suas demandas. n.10. Rio de Janeiro; Niterói: EdUFF, 2008/2010.

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SAIBA MAIS sobre Elisio Macamo:

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a diferença como valor político e literário: entrevista de Homi Bhabha

 

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Instalado em seu gabinete na direção do Centro de Humanidades da prestigiosa Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Homi Bhabha, 62 anos, define com natural entusiasmo as suas responsabilidades acadêmicas:— A minha ambição não é ser o diretor de um departamento, mas de encruzilhadas, da circulação de ideias, de estar na confluência onde as pessoas e as conversações interagem e criam novos e emergentes campos de estudo.

A descrição emerge em simbiose com sua trajetória intelectual. Nascido na Índia, com estudos na Inglaterra e adotado pelos EUA, Homi Bhabha se impôs como um dos principais arautos dos chamados teóricos pós-coloniais e do multiculturalismo, um atento pesquisador das minorias sociais e culturais. Em seus ensaios — “O local da cultura”, de 1994 (Editora UFMG), é uma de suas obras referenciais —, o original e também polêmico pensador desenvolveu definições próprias de conceitos como “hibridismo”, “cosmopolitismo vernacular”, “tradução” ou “cidadania cultural”. A coletânea “O bazar global e o clube dos cavalheiros ingleses”, agora lançada no Brasil pela Editora Rocco (organização de Eduardo F. Coutinho, tradução de Teresa Dias Carneiro, 192 páginas, R$ 27), reúne sete textos ilustrativos de suas inquietas investigações sobre as sociedades contemporâneas, analisadas por meio de seus singulares filtros teóricos.

Sua inspiração intelectual é assumida em ideias de pensadores como Michel Foucault, Jacques Lacan, Jacques Derrida; em ensaios de Edward Said; nas obras de escritores como Derek Walcott, Toni Morrison e Salman Rushdie, ou no artista plástico indiano-britânico Anish Kapoor. Bhabha defende a análise crítica por um viés não linear, numa multiplicidade de níveis e articulações. Em suas reflexões, aponta a insuficiência da “racionalidade política” para a compreensão das questões de sociedade e da modernidade. Segundo ele, é essencial considerar no entendimento social o que chama de “afetos públicos”, traduzidos em emoções diversas como a vergonha, a humilhação, a culpa ou a ambivalência. Nesta conversa com o GLOBO, Homi Bhabha aborda suas teorias relacionadas a temas atuais, denuncia um “pluralismo preguiçoso” nas definições das identidades humanas, e elege a literatura como o principal ato de sobrevivência cultural.

Como o senhor vê hoje as relações entre a comunidade global e as cidadanias?
A cidadania pública envolve afetos complicados: vergonha, humilhação, culpa, ambivalência. Isso faz parte da nossa condição de cidadãos. São afetos que formam a base da ação ética, como honra, responsabilidade, reconhecimento. Também são pontos que criam imensos conflitos de julgamento num sentido público, especialmente nos casos em que estão implicadas certas questões de minorias. Se pensamos que uma das grandes questões relacionadas com a cidadania é o reconhecimento ético do outro, de um lado, e, de outro, a representação almejada do bem comum, o tema do afeto deve estar profundamente ligado com o que entendemos por racionalidade política. Ninguém tem um passaporte global. Os únicos passaportes mundiais que temos são cartões de privilégio, como os cartões (de crédito) Visa Platinum, American Express Gold. Mas se refletimos sobre as muitas preocupações éticas, políticas e sociais que temos, nós vamos além de nossa comunidade e nos estendemos internacional ou globalmente. Se pensamos nisso, então compreendemos como é importante ampliar o olhar para essas áreas de afeto que descrevi, como um acompanhamento importante da racionalidade política.

O senhor diz que as instituições governamentais, a racionalidade política, não se dão conta dessa área de afetos públicos, e também que as instituições culturais não dão a devida atenção à cidadania cultural. Isso constitui um problema para a democracia?
Sim, acho que um problema é o de que as instituições culturais — como a maioria das instituições — desenvolvem frequentemente uma espécie de ideologia funcional. Desde que funcione, desde que façamos pessoas de mundos diversos entrarem nos museus ou nas universidades, desde que sejamos representados democraticamente, tudo bem. Mas temos também de nos perguntar: as respostas podem ser muito diferentes, não? E é assim que às vezes acontecem guerras culturais. As pessoas contestaram os próprios fundamentos do museu.

Como o seu conceito de cosmopolitismo entra no debate contemporâneo?
Desde os anos 1980-90 tem ocorrido, acompanhando o progresso da globalização, uma grande explosão de escritos sobre o cosmopolitismo, baseados no sentido de que as pessoas têm múltiplas identidades e identificações. Eu sentia que havia algo fácil ou simples demais nisso. O espírito público é profundamente complexo, e me pareceu que esse cosmopolitismo arquimediano era conveniente para aqueles que obtiveram sucesso nos jogos da globalização. E o que dizer daqueles que estão fora das fronteiras, que estão na periferia, que estão por baixo e não por cima, o que se passa com eles? O que me fez repensar a questão do cosmopolitismo foi a condição estrutural e cultural da colonização, em que ninguém perguntava aos indianos: “Vocês querem que outras culturas lhes sejam impostas?” Nenhum indiano estava no tempo ou no lugar, na condição de cidadania, para poder considerar o que estava acontecendo a eles. Eles negociaram a situação. Eles tinham um modo de absorver certas ideias progressistas do Ocidente, porque se davam conta de que certas ideias de modernidade melhoravam o seu mundo. Eles aceitavam a modernização, mas não necessariamente a bagagem ideológica, ética ou dos costumes da ocidentalização. É dessa experiência, acho eu, que advêm tanto o meu conceito de hibridização como o de cosmopolitismo vernacular. A hibridização não é somente a diversidade de identificações que qualquer indivíduo ou sociedade pode ter. Não é o fato de você comer sushi, usar roupas italianas, falar duas línguas diferentes, ser membro de uma igreja ou de um movimento ecológico. Esse argumento de múltiplas identidades nunca me pareceu significativo. É uma espécie de pluralismo preguiçoso. Acho que os problemas que temos e as maneiras de pensá-los constituem o modo como criamos identificações culturais híbridas. Há sempre um conflito entre poder e autoridade. Há sempre uma espécie de negociação complicada de significados, de símbolos, de identidades, de blocos de poder, de estruturas de autorização, de reconhecimento.

Seria o caso do exemplo que o senhor costuma citar, da negociação do cristianismo colonial com os indianos, que teriam exigido uma Bíblia que pregasse o vegetarianismo para poderem acreditar na palavra dos catequizadores?
Sim, isso está no coração do problema. E depois de ter pensado sobre o paradigma da colonização, comecei a pensar sobre as minorias contemporâneas, a migração e a diáspora de povos. Por exemplo, quando um indivíduo sai do Paquistão, onde ele já não consegue viver e sustentar a sua família como camponês, e vai ser motorista de táxi em Nova York, há uma continuidade entre a sua suposta situação colonial no Paquistão e sua situação de participante da diáspora em Nova York. E parece-me haver uma espécie de negociação de poder cultural, e poder simbólico, uma negociação das diferenças, o que cria o que chamo de cosmopolitismo vernacular: aqueles que estão continuamente levando uma vida na qual não negam as suas origens, mas as experiências de suas vidas exigem que eles traduzam suas culturas e que vivam nessa zona de traduções.

Com base nos seus conceitos, como o senhor vê a questão da proibição do véu islâmico na França e o debate sobre a construção de uma mesquita próxima do local do atentado às Torres Gêmeas em Nova York?
Deixe-me contar uma história. Eu havia dado uma palestra em Berlim há uns três ou quatro anos, tarde da noite, e tinha uma outra em Manchester, Inglaterra, às 10h da manhã seguinte. E a única maneira de fazer isso era tomar um voo que saía de Berlim às 5h. O avião me levou a um aeroporto provinciano no norte da Inglaterra, e tomei um desses trens de subúrbios que têm paradas a cada dez minutos. Estava lendo o trabalho que apresentaria, um texto sobre arte contemporânea produzida por mulheres que têm alguma ligação com o Islã, mas que viveram a maior parte da sua vida como imigrantes da diáspora fora de qualquer sociedade islâmica. E cheguei à ideia sobre a esfera pública. Há algo problemático em dizer: “Se lhes damos seus direitos, não temos de viver com seus hábitos”. E claro que na França, em particular, toda a noção sobre a cidadania diz que você está nu diante do Estado, você não traz consigo a sua bagagem cultural. Mas obviamente na prática isso não acontece. Estava lendo esse trecho da minha palestra quando levantei os olhos e diante de mim vi o que me provocou um choque. Era uma jovem coberta por um véu, apenas os olhos aparecendo. As faces de todos as demais pessoas estavam à vista, e aquilo me chocou. E minutos depois o trem para e ela se levanta para sair. Quando passou por mim, olhei e descobri que as suas costas estavam completamente à vista. E ela usava uma calça jeans que chegava até as suas ancas, e tinha uma pequena tatuagem. Mas seu rosto estava mascarado. Duas coisas eram claras para mim. Primeiro, que na nossa cultura sempre parecemos querer colocar todos os tipos de comportamento na panela maior da identidade. A maneira de se vestir, de falar, tudo tem de formar uma noção composta de identidade, aí nos sentimos seguros. Acho que isso é o problema real nesse caso. Segundo, não devemos ler essas coisas como marcas de identidade, mas como mensagens misturadas, diferentes. De um modo engraçado, esse era o direito da jovem de brincar com os diferentes tipos de linguagens, expectativas, normas e códigos de uma esfera pública metropolitana pós-migração ou da diáspora. Acho que toda sociedade deveria ter meios democráticos de negociar o que considera ser uma remodelagem positiva e produtiva da esfera pública. Mas também acho que nossas maneiras de ler a ciência cultural em relação aos modos de identificação humana deveriam ser mais sofisticadas. Se você lê os véus como uma identidade, talvez diga: “Oh, odeio véus”. Mas se você os lê como algo que envia uma mensagem, algo que se dirige à sociedade, então é diferente. Porém, como introduzir esse tipo de pensamento em círculos de políticas públicas? Isso é o que eu gostaria de ser capaz de fazer.

Como o senhor vê a relação entre literatura e identidade nacional na ficção contemporânea, principalmente nos países de recente passado colonial?
Escritores de sociedades pós-coloniais tiveram em geral uma educação muito mais internacional e cosmopolita, se comparado com sistemas educacionais mais restritos e nacionais. Em Bombaim, eu estudava numa escola jesuíta espanhola. Tínhamos manuais que vinham da Inglaterra e dos EUA. Aprendíamos não somente a geografia da Índia, mas também da Grã-Bretanha, por causa do colonialismo britânico — embora eu tenha frequentado a escola depois da independência. Estudávamos a América Latina, aprendíamos a literatura de diferentes partes do mundo. Nós sabíamos que os abusos do nacionalismo se referem ao fechamento, a estreitar a janela. Mas as pessoas em sociedades pós-coloniais experimentaram a ampla e aberta janela do mundo, embora fossem muitas vezes os desgraçados da terra. Você vê o paradoxo? Um dos primeiros líderes políticos dos intocáveis na Índia escreveu um livro sobre a escravidão de sua casta. Ele dedicou a obra aos negros americanos. Era alguém que nunca tinha saído da Índia àquela época, a sua base era uma aldeia do interior. Para ele, a fronteira nacional não possuía a metade da importância, em sua própria língua vernacular, da extensão cosmopolita do mundo. Por isso chamo de cosmopolitismo vernacular. A literatura sempre rompeu com os limites nacionais. São muito poucas as grandes obras da literatura que seguem uma perspectiva estritamente patriótica ou nacionalista. Não nego que existam algumas. Mas as obras mais interessantes, mesmo com perspectiva nacional, têm a ver com contradições e disjunções da nação. As obras literárias que só recitam um credo nacional não têm nenhum interesse. Só interessam a políticos tiranos. Ditadores adoram obras assim.

O senhor coloca a literatura como a forma mais sensível e de enorme significado entre os atos de “sobrevivência cultural”. Por quê?
Posso dizer muitas coisas sobre o poder da literatura. Na maioria dos regimes opressivos, as pessoas usam a literatura, no sentido amplo — eu me refiro à escrita, a canções, à música —, para se expressar e criar em si mesmo a força espiritual, ética, estética de sobrevivência. W.E.B. DuBois escreveu essa grande obra “The souls of black folk”, que talvez seja o mais reverenciado e brilhante livro de toda a tradição afro-americana. Ele conclui o livro com o que chama de canções de lamento, as músicas cantadas pelos escravos. Muitas vezes eram canções em que o ritmo era quebrado, a linguagem era limitada — com algumas palavras africanas e em inglês —, mas foi o que lhes permitiu sobreviver. Na Índia, os intocáveis muitas vezes escreviam canções e panfletos para poder sobreviver, criar solidariedade entre eles. Pessoas em situação de grande coação, quando a sobrevivência social e cultural é extrema, com frequência se referem à imaginação da escrita literária. A grande contribuição da narrativa em geral, e da literária em particular, é que permite pensar de modo contrafatual. A verdadeira natureza da narrativa sempre levanta a questão: se as coisas fossem diferentes, qual poderia ser o resultado? Se eu não fosse eu mesmo, como veria o mundo? Se meu vizinho fosse um estranho, qual seria minha relação com ele? Questões sobre alteridade, alternância e contrafatualidade estão no centro do projeto de imaginação literária e cultural, e é por isso que penso que nos ajuda a sobreviver.

FONTE: O Globo

Negritude & Interculturalidade

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Links para textos teóricos e poéticos, seguidos de uma antologia de poemas.

O poema seminal da Negritude em sua voz brasileira: alguns fragmentos

Diálogos com a Negritude nas poesias dos Cadernos Negros

O negro a contrapelo na obra de (Luiz) Cuti

Poesia da negritude em língua portuguesa: pequena antologia

Francisco Tenreiro: antologia de poesia e de crítica

História e teoria da Negritude: algumas referências

Para compreender o colonialismo

Algumas referências para a compreensão da condição dos “assimilados” na Angola colonial

Bibliografia institucional sobre educação antirracista e intercultural

Para reinventar a educação é preciso reaprender para o quê ela serve

Reconstruindo os percursos da poética da Negritude na língua portuguesa

Literatura negra/afro-brasileira: um panorama crítico & atualizado

Um documentário interessante para compreender princípios & objetivos das pedagogias da decolonização


MUNANGA, Kabenguele. Educação e diversidade cultural. In: Cadernos Penesb: discussões sobre o negro na contemporaneidade e suas demandas. n.10. Rio de Janeiro; Niterói: EdUFF, 2008/2010.

CHAMOISEAU, Patrick; BERNABÉ, Jean; CONFIANT, Raphaël. Elogio da crioulidade (Éloge de la criolité). Paris: Gallimard, 1990. Tradução de Magdala França Vianna.


NEGRO

Langston Hughes
(Tradução de Leo Gonçalves)

Sou Negro:
Negro como a noite é negra,
Negro como as profundezas da minha África.

Fui escravo:
Cesar me disse para manter os degraus da sua porta limpos.
Eu engraxei as botas de Washington.

Fui operário:
Sob minhas mãos ergueram-se as pirâmides.
Eu fiz a argamassa do Woolworth Building.

Fui cantor:
Durante todo o caminho da África até a Georgia
Carreguei minhas canções de dor.
Criei o ragtime.

Fui vítima:
Os belgas cortaram minhas mãos no Congo
Estão me linchando agora no Mississipi.

Sou Negro
Negro como a noite é negra
Negro como as profundezas da minha África.

NEGRO
I am a Negro:/Black as the night is black,/Black like the depths of my Africa.//I’ve been a slave:/Caesar told me to keep his door-steps clean./I brushed the boots of Washington.//I’ve been a worker:/Under my hand the pyramids arose./I made mortar for the Woolworth Building.//I’ve been a singer:/All the way from Africa to Georgia/I carried my sorrow songs./I made ragtime.//I’ve been a victim:/The Belgians cut off my hands in the Congo./They lynch me now in Mississipi.//I am a Negro:/Black as the night is black,/Black like the depths of my Africa.

 

SOU NEGRO

Solano Trindade

A Dione Silva

Sou Negro
meus avós foram queimados pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou
como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu o pau comeu
Não foi um pai João humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês ela se destacou

Na minh’alma ficou o samba
o batuque o bamboleio
e o desejo de libertação…

 

PADÊ DE EXU LIBERTADOR

Abdias do Nascimento

Ó Exu
ao bruxoleio das velas
vejo-te comer a própria mãe
vertendo o sangue negro
que a teu sangue branco
enegrece
ao sangue vermelho
aquece
nas veias humanas
no corrimento menstrual
à encruzilhada dos
teus três sangues
deposito este ebó
preparado para ti

Tu me ofereces?
não recuso provar do teu mel
cheirando meia-noite de
marafo forte
sangue branco espumante
das delgadas palmeiras
bebo em teu alguidar de prata
onde ainda frescos bóiam
o sêmen a saliva a seiva
sobre o negro sangue que circula
no âmago do ferro
e explode em ilu azul

Ó Exu-Yangui
príncipe do universo e
último a nascer
receba estas aves e
os bichos de patas que
trouxe para satisfazer
tua voracidade ritual
fume destes charutos
vindos da africana Bahia
esta flauta de Pixinguinha
é para que possas chorar
chorinhos aos nossos ancestrais
espero que estas oferendas
agradem teu coração e
alegrem teu paladar
um coração alegre é
um estômago satisfeito e
no contentamento de ambos
está a melhor predisposição
para o cumprimento das
leis da retribuição
asseguradoras da
harmonia cósmica

Invocando estas leis
imploro-te Exu
plantares na minha boca
o teu axé verbal
restituindo-me a língua
que era minha
e ma roubaram
sopre Exu teu hálito
no fundo da minha garganta
lá onde brota o
botão da voz para
que o botão desabroche
se abrindo na flor do
meu falar antigo
por tua força devolvido
monta-me no axé das palavras
prenhas do teu fundamento dinâmico
e cavalgarei o infinito
sobrenatural do orum
percorrerei as distâncias
do nosso aiyê feito de
terra incerta e perigosa

Fecha o meu corpo aos perigos
transporta-me nas asas da
tua mobilidade expansiva
cresça-me à tua linhagem
de ironia preventiva
à minha indomável paixão
amadureça-me à tua
desabusada linguagem
escandalizemos os puritanos
desmascaremos os hipócritas
filhos da puta
assim à catarse das
impurezas culturais
exorcizaremos a domesticação
do gesto e outras
impostas a nosso povo negro

Teu punho sou
Exu-Pelintra
quando desdenhando a polícia
defendes os indefesos
vítimas dos crimes do
esquadrão da morte
punhal traiçoeiro da
mão branca
somos assassinados
porque nos julgam órfãos
desrespeitam nossa humanidade
ignorando que somos
os homens negros
as mulheres negras
orgulhosos filhos e filhas do
Senhor do Orum
Olorum
Pai nosso e teu
Exu
de quem és o fruto alado
da comunicação e da mensagem

Ó Exu
uno e onipresente
em todos nós
na tua carne retalhada
espalhada por este mundo e o outro
faça chegar ao Pai a
notícia da nossa devoção
o retrato de nossas mãos calosas
vazias da justa retribuição
transbordantes de lágrimas
diga ao Pai que nunca
no trabalho descansamos
esse contínuo fazer
de proibido lazer
encheu o cofre dos exploradores
à mais valia do nosso suor
recebemos nossa
menos valia humana
na sociedade deles
nossos estômagos roncam de
fome e revolta nas cozinhas alheias
nas prisões
nos prostíbulos
exiba ao Pai
nossos corações
feridos de angústia
nossas costas chicoteadas
ontem
no pelourinho da escravidão
hoje
no pelourinho da discriminação

Exu
tu que és o senhor dos
caminhos da libertação do teu povo
sabes daqueles que empunharam
teus ferros em brasa
contra a injustiça e a opressão
Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama
Cosme Isidoro João Cândido
sabes que em cada coração de negro
há um quilombo pulsando
em cada barraco
outro palmares crepita
os fogos de Xangô iluminando nossa luta
atual e passada

Ofereço-te Exu
o ebó das minhas palavras
neste padê que te consagra
não eu
porém os meus e teus
irmãos e irmãs em
Olorum
nosso Pai
que está
no Orum

Laroiê!

 

REFLEXÃO

Abelardo Rodrigues

O poema reflete
principalmente no escuro
E quando reflete, insone,
apetrecha o movimento
da luz.

Não a luz que nasce
a cada dia
em qualquer poente.
Não a luz feita
sob o canhão e o crucifixo
Não a luz dos seis dias…

mas aquela
de Totens
de Olorum.

 

OH, MAMÃE!

Oswaldo de Camargo

Que farei do meu reino: um terreno
no peito
onde pensei pôr minh’África,
a dos meus avós, a do meu povo de lá e que me deixam
tão sozinho?
Como sonhei falar minha mamãe África,
oferecer-lhe, em meu peito, nesta noite turva,
os meus pertences de vento, sombra e relembrança,
o meu nascimento, a minha
história e o meu tropeço
que ela não sabe, nem viu e eu sendo filho dela!
— Oh, mamãe, as minhas fraldas estão sujas de brancor
e ele cheira tanto!
Às vezes penso, em minha solidão, na noite turva,
que você me está me chamando com o tambor do vento.
Abro a janela, olho a cidade, as luzes me trepidam
e eu perco o condão de te achar
entre estes odores vários
e tanta dor de gente branca, preta, variada
gama e tessitura de almas, ânsias, medo!
Como sonhei falar, sozinho, à minha mamãe África,
e oferecer-lhe, em meu peito, nesta noite turva,
os meus presentes de vento, sombra e relembrança,
o meu nascimento, a minha história, o meu tropeço
que ela não sabe, nem viu e eu sendo filho dela!

 

COM A PORTA ABERTA

Cuti

o que é que vai ser
quando o samba abrir uma fenda
bem no meio da sinfonia?

com’é que vai ficar, compadre
quando a macumba
entrar na sacristia?

e quando a pureza da cultura abrir as pernas
e mostrar pra todo mundo
que nunca teve cabaço

a dança de terreiro
rasgar terno e gravata

a ginga der meia-lua-de-compasso na compostura

a gente puder falar
sem algema ou atadura

a verdade
partir a cara da hipocrisia

o pão for repartido na marra?

não adianta fechar a cara
nem se fazer de besta
qu’Exu vai rir na abertura da festa
e Cristo vai gargalhar pela primeira vez na história
e
viva o pagode
da memória liberta
e do futuro concebido
com a porta aberta!

 

OFÍCIO DE FOGO E ARTE

Cuti

nossa é esta saga desenhando o silêncio em cores
rebeldia e incenso

ainda que as batalhas
tenham talhado de tão somente vermelho
lembranças de mar e terra
nosso é este futuro entre luz e sombra
este alto-relevo telúrico
agigantando-se no esboço de todas as madrugadas e no mosaico das tardes

em ondulação muscular galopam as tintas
ao comando de corações pensantes
enquanto gritos vão-se fazendo cantigas sábias
de ninar a memória e seus pincéis incandescentes

se ácidos céus de aço abafam a singela respiração onírica
um afro horizonte reabre seus vitrais
oxumarescendo a vida

nos cios dos séculos
banzaram aguadas lacrimais de anil
agora a mais sutil semelhança epidérmica da história
é linha que realça o elo
do mistério
ousadias de gingar o belo e semear vagalumes sobre as
telas

oceânica
esta energia coletiva extrapola a cena de naturezas-mortas
transfigura a moldura
colore a parede branca
e mergulha em vários planos a perspectiva de seus voos

verdeamarelas garatujas velhas ranzinzando a liberdade
a mão infinitiza em multiplicidade cromática, pele e
paisagem de sobejos desejos

tudo se emprenha de um incessante movimento
vários tons de melanina e a pulsação de um ritual aceso.

 

CULTURA NEGRA

Cuti

ariânico afago
na suposta acocorada
afroinfância literária

nossa cor sim
e não
reelabora elegbará

orixás não tomam chás de academias
tampouco em mídia sui-seda
cedem

poema de negrura exposta
tece vida
na resposta
abrindo a porta enferrujada do silêncio

explodem
coices
o boi e o bode
entre folclóricas nuvens e teses
de negrófobas carícias

alvos, a-tingidos desesperam
em busca de tambores
ritos
puros mitos
em águas paradas
de poemas pardos
que lhes salvem da chuva de negrizo.

 

IMPASSES E PASSOS

Cuti

algemas do pão e do circo
e seu cotidiano cerco
às investidas do sonho

sono coletivo produzido em gabinetes
sono sem sonho
esclerose de nuvens brancas trotando trêfegas
esporas reluzentes
sobre nossos corações

a pergunta eleva sua crista:
– quem dentre nós mais de trezentos anos
de ruínas de quilombos
traz dentro do peito?

por muito tempo, ainda, mastigaremos o silêncio
no caminho para o grande lar
que já não temos?

no trajeto o enfrentamento
com as sereias e seu canto
sussurrado pelo vento
laços sedutores
para o nosso enforcamento

politicamente incorreta
sempre
a orgia das correntes
nosso medo balbuciando morte
em conta-gotas de sambas e serpentes

de repente
escorpiões encalacrados nos tornamos
(apesar de sorridentes)
sem disfarce
o que em face do desprezo se acende
contra o nosso próprio veneno

o “eu” se deita sobre o feno
negaceia o nós em movimento
da garganta se desatam para dentro
ecos que no lamento se afogam

o sol renitente ressuscita
a vida emboscada nas veredas

toco em brasa
a questão vem crepitada
fecunda e permanente
rolando
pelos glóbulos pretos
infectados de rancores brancos:
– quem tem mais de 300
de resistência no abismo?
silêncio incandescente
morre a esperança
em overdose de cinismo
e desabrocha a consciência em cactos

depois da chuva
somos
o horizonte e sua língua de arco-íris
descobrindo
o nosso próprio amanhecer.

 

PA(Z)XORÔ

Cuti

ainda assim… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência universal dos sonhos
onde a veste de pazciência
envolve a todos
e as mãos
modelam o ser nascente

olhar adentro
o todo é cada um
e há ondulações de calma
corpo e alma fundidos num só voo
desta ave celestial de luz
abraçando-nos com a abóbada infinita e azul

chuva-sêmen e afã de fecundar novas manhãs
ao fluxo ijexá de oxalufã
fé obstinada que nos guia
sol de oxaguiã
nas lutas do dia a dia
pilão
inhame de juventude
alegria
ainda que… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência concha universal do sonho paz
adjá a nos conduzir à fonte
e o mundo a ser lavado
nas águas de oxalá.

 

HAITI

Oliveira Silveira

Haiti où la négritude se mit debout
pour la première fois et dit qu’elle
croyat à son humanité.
Aimé Césaire, Cahier d’un retour au pays natal

Grande teu passado,
célebre na história
e que alto teu grito liberto
até hoje movendo nossos braços
num gesto altivo d elança em riste!

Haiti,
sagrado no culto vodu,
heroico em Dessalines,
soberbo em Toussaint-Loverture,
“o primeiro dos negros”, Haiti!

Haiti,
meu verso quisera ser
ponta de lança e guizo de serpente
para expressar-te a ti!

 

POEMA SOBRE PALMARES

Oliveira Silveira

(…)

Séculos antes do Brasil ser livre
Palmares foi livre.
Séculos antes do país
considerar-se livre
Palmares foi país e estado
livre.

Aquela liberdade viva
pulsando em cada veia,
conquistada a cada dia,
reconquistada em cada luta,
liberdade genuína
fruto de uma íntima semente
que o balanço do barco no mar
não fez golfar em vômito,
que a soiteira afiada do chicote
não pôde retalhar,
que é a razão de cada homem
e o alimenta e se aconchega
no mais recôndito dele.

Palmares, um século inteiro.
Libertação primeira do Brasil!

(…)

Pois sabes irmão do Palmar
que liberdade nos deram?
a de seguir a esmo
buscando a liberdade por nós mesmos.
E de escravo só não tínhamos o nome
que ficou disfarçado no apelido:
liberto
(xará de miséria e fome).

Falsificaram os livros de história,
trocaram os heróis,
botaram máscara de carnaval
nos fatos,
botaram fogo nos documentos
do tráfico e do crime
e então ficamos sendo os que não vieram,
ficamos sendo os que não são,
ficamos só sendo os que estão.
Ficamos sendo estas ruínas
em autorreconstrução.

Mas a luta prossegue, estrada longa
abrindo seu próprio sulco
e picadas,
rio longo cavando seu leito,
buscando uma foz.
(…)

E pra não terminar em carnaval
segundo conforme o costume,
para ti este poema,
quilombo de um negro só,
quem quiser que se achegue.
Quilombo de negro negro,
quem quiser que se mixe.
Quilombo de negro triste,
quem quiser tenha dó.
Quilombo de negro só
juntando raiz no pó.
Quilombo de negro mau,
antropófago, canibal,
coisa ruim, coisa e tal,
e quem quiser faça pelo-sinal.
Quilombo de negro ruim,
tição, pixaim, muçum.
Quilombo de negro brabo
que tem partes com o diabo.
Quilombo de marginal,
tarado e anormal,
vagabundo, ladrão,
negro e beberrão.
Quilombo de negro sujo,
ralé, chinelão, rafuagem.
Quilombo negro operário
de infame salário.
Quilombo de negro pobre,
barato, mão de obra,
preto, pardo,
mulato, cafuso, saroba,
cor de burro quando foge.
De negro bombardeado,
roubado, furta-cor,
desbotado e branqueado
na pele e no seu interior.
Quilombo de lavadeira,
mucama, cozinheira,
prostituta como querem
que seja toda mulher
preta, mulata, crioula,
negra, mãe, trabalhadora,
companheira, lutadora.
Quilombo do casal preto
(fundamental negritude)
preto,
preto,
guardião da continuidade,
detentor da natureza
de raça, cor e beleza.
Preto e preta
teimando pra ficar juntos,
bem escuros e bonitos
com mulequinhos retintos,
Quilombo de negro negro,
quem quiser que se negue
e se entregue.

(…)

 

CADERNO DE RETORNO

Edimilson de Almeida Pereira

Pele radar que indexa
um looping
ao atabaque
um anjo
à sua queda
Iracema
à sua novela
alvo que incinera um atirador
no teto

(…)

Para uso irrestrito a pele em desafio
a todo gesto
coleção de selos que o vento
dispersa da janela

(…)

A pele procura os naipes para
entrar no jogo
mais se arroja quando desnuda
o homem
através do verbo

(…)

Estou de volta a casa não para visitar
os carneiros da minha gente
uma vez mortos
expostos.
O que espero deles não é carne
mas raiz e errância.
A experiência acumulada sendo
o último da classe
o único entre os outros
o suspeito número um
a prova no fundo do poço
apodreceu para adubar minha vontade.

(…)

Como cerzir um país com linhas várias
onde uma se quebra
outra a emenda
e por não se amarem se enovelam
orquídeas na mesma escarpa.
A voz arranha a pintura do carro,
reabre no dia uma herança de embargos.

O que está dito é ditado?
Não temos guerra, nem terremoto
nem ebola, ruína ou atentado
não temos cisma nem avalanche
o que vemos se não é alegria
são seus disfarces.

E os ouvidos, que letrados noutra música,
se escalavram?

Tenho uma laranja nas mãos a faca
para salvar os gomos desvia
das partes cariadas.
A palavra descasca o país: num ermo botequim,
entre bacon e varejeiras, a pele de um conta
o que ele por sua boca não tramaria.
Miríades fábulas que importa?

Sua sombra que a fraca luz projeta recusa
a rede da casa-grande
o título a prazo do barão em débito
a cadeira del-rey
a merda da casa-grande
a dissertação elogiosa da selva
o piano
a culpa de não amar o deus imposto

(…)

Contra a blitz na memória
a Memória.
Contra o desprezo ao que dançamos
a Dança.
Contra o repúdio ao que falamos
a Fala.

(…)

São nove horas da noite em 1844
os presos assustam a Câmara
e os coletes da cidade de Salvador.
No subsolo da lei a insubmissão
deborda em sambas de crioulos
ou africanos?
Serão idênticos ou mais diversos
quando se ajuntam?

(…)

 

PERIFERIAS

Jamu Minka

Terceiro mundo jovem e sua segunda pele
a fantasia de um black dos States
fazer de conta, curtir é da hora
mas a realidade não é Hollywood

Paulicéia globalizada
brancuras controlam tudo
o ser escuro
queira ou não queira
periferia
rabeira
e tudo às claras
artiganda da propamanhas
percebe quem sabe ler
artimanhas da propaganda

Hipocrisia é o nó do país desigual
sobram becos
e sonhos sem saída
hip-reali-hop pode ser show
igual futebol, samba, novela
as carências, num palco não cabem
universidade também para afros
só se a gente for quilombada
na democracia deles
realiwood não é hollydade.

 

ivcbpn

as contradições do humanismo ocidental ainda legitimando guerras & tragédias em África

Conforme temos discutido em classe nas últimas semanas, é preciso construir e disseminar uma consciência crítica acerca do modelo civilizacional pan-europeu, considerando principalmente a maneira como a colonialidade se reproduz mesmo em iniciativas e argumentações inspiradas nesse modelo e que, à primeira vista, parecem justas. Analogamente ao que tem se sucedido no Iraque e no Haiti, a situação no Mali, que de fato é complexa e exigiria atenção da comunidade internacional, somente se agrava quando a tecnologia militar do ocidente sobrepõe-se ao caminho do diálogo intercultural como via de resolução dos conflitos.


Universalismo excludente

Apesar da dita causa humanitária, a recente ocupação francesa do Mali transparece política internacional ocidental ainda baseada na relação colonialista com os países africanos

Rafael Betencourt *

universalismo excludente

As notícias da recente intervenção francesa no Mali revelam uma nova crise internacional entre Europa e o continente africano. Em janeiro passado, o governo do presidente François Hollande lançou uma ofensiva contra rebeldes islâmicos que controlavam a região norte do país norte-africano. A nação já conta o reforço de 3,5 mil soldados enviados pela ex-metrópole e outros 6 mil que chegaram como parte da Missão Internacional de Apoio ao Mali (Afisma, na sigla em inglês) liderada pela União Africana (UA) e apoiada pelas Nações Unidas.

A interpretação a respeito da intervenção poderia se restringir a mais um capítulo da luta do ocidente contra o fundamentalismo islâmico, ou apenas como mais uma intervenção humanitária no continente africano em benefício dos direitos humanos. No entanto, por trás da ajuda humanitária, se esconde uma antiga problemática conceitual e uma prática recorrente na política internacional. Uma problemática que revela o quanto um conceito é capaz de permear as dinâmicas dessa ação e traduzir assim o poder que sua elaboração exibe.

O estudo do universalismo ao longo da história expressa as entrelinhas da formação de um claro discurso de poder, através do qual se pode delimitar o que é abarcado por esse universal ou o que é considerado hostil ao conceito.  Ironicamente, foram os mesmos franceses que se notabilizaram como os primeiros a tentarem criar um conjunto de direitos universais através de uma histórica e cultural definição de homem nos “direitos do homem” da revolução de 1789.  Agora aparecem como mais dos compactuantes de um projeto universalista internacional idealizado pelos Estados com maior poder bélico e financeiro.

Passado colonial

A intervenção no Mali poderia ser problematizada em distintos graus e analisados por diferentes caminhos. Certamente, a histórica presença francesa no continente em fins do século XIX e boa parte do XX e as consequências devastadoras de uma relação colonialista no continente, constituiria um riquíssimo campo de análise por si só. No entanto, delimitar o projeto universal do sistema internacional ajuda a entender as intenções legais e morais de uma intervenção como esta. A tentativa de se estabelecer um projeto universalista não é novidade. Pode-se citar o cristianismo no período das Grandes Navegações no século XVI, a ideia de missão civilizatória durante o avanço imperialista europeu na África e Ásia; e nos dias de hoje o sistema internacional dos direitos humanos.

O sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein definiu bem a questão ao afirmar que “não há nada tão etnocêntrico, tão particularista quanto a pretensão ao universalismo”. O que o autor quis dizer com sua observação é que o universalismo que se presenciou até hoje é um projeto de partida e não de chegada, desse modo ele é sempre estabelecido de modo que o modelo de sociedade de uma cultura prevaleça sobre as outras.  Naturalmente, como os antigos, o atual projeto gera problemas, pois como conceber um universalismo que marginaliza outros grupos e não concebe espaços marginais?

A resistência a ele também é expressiva na história e se tornou notória como extremamente importante para o desenvolvimento de qualquer idéia atual de multiculturalismo. No século XVI, por exemplo, o padre espanhol Bartolomeu de Las Casas foi uma das vozes de resistência à relação estabelecida entre o Império espanhol e os índios da América. Já no século XX, em resposta ao colonialismo europeu nos continentes africano e asiático, construiu-se um grande e importantíssimo movimento anticolonialista pela autodeterminação desses povos.

Atualmente, no caso do papel que os direitos humanos têm na legitimação moral do sistema internacional, percebe-se um diferente tipo de resistência, pois o mesmo discurso que legitima um modelo é capaz de resistir a ele. Os direitos humanos assumem se exibem então como uma forma de utopia despolitizada, capaz de engendrar projetos políticos distintos, e muitas vezes até contraditórios. Pode-se hoje notar que tanto governos neoliberais quanto novos projetos socialistas são fundamentados sob a mesma linguagem dos direitos humanos, que oferece um campo de disputa sobre suas concepções políticas e econômicas de sociedade.

Estudos do orientalismo

O colonialismo europeu perdurou até finais da década de 1970, a justificação moral para tal projeto universalista se fundamentou em uma pretensa missão civilizacional, uma ideia de superioridade cultural, que foi muito bem expressa no discurso do político inglês Arthur James Balfour à Camara dos Comuns, em 1910, quando se referia à impossibilidade histórica e cultural dos egípcios, e dos orientais em geral, em se governarem.  Nesse contexto, se desenvolveu um ramo de estudos chamado orientalismo, através do qual pesquisadores ocidentais construíam análises fundamentadas em estereótipos de superioridade cultural do ocidente ou de incapacidade oriental para a democracia e para o progresso.  Tal mentalidade se transforma após a Segunda Guerra Mundial, os horrores do nazismo alemão junto ao crescimento dos movimentos anti-coloniais puseram a visão dos orientalistas em questão.

O consenso em torno dos direitos humanos possui dinâmica distinta, pois seu corpo teórico humanista é incapaz de despertar questionamentos quanto à sua legitimidade universalista, no entanto, sua positivação pelo direito internacional e a estrutura liberal que gere o sistema internacional deve ser problematizado. Dessa forma, a grande transformação humanista e no discurso politico do século XX certamente foram os movimentos anti-coloniais. Estes não apelavam para a retórica dos direitos ainda, mas através da afirmação de identidades nacionais africanas, asiáticas e latino-americanas, ajudaram a minar o discurso de poder do universalismo europeu e sua posição de civilização superior. Posteriormente, observou-se a  formação de um sistema internacional dos direitos humanos , no entanto ele  se constituiu na prática como mais uma possibilidade de legitimação moral do projeto universalista ocidental.

Muçulmanos protestam na França
Muçulmanos protestam na França

Retórica dos direitos humanos

Apesar da declaração Universal dos Direitos Humanos ter acontecido em 1948, a proeminência de um discurso dos direitos humanos no cenário internacional só acontece  na década de 1970 com o discurso de posse do presidente norte-americano Jimmy Carter. A partir daí, o discurso dos direitos se estabelecem como principal  justificativa moral para os interesses políticos dos grandes Estados  no cenário internacional. Os direitos humanos como utopia  ajudam a estabelecer um  projeto universalista ocidental que se concretiza no desenvolvimento e na expansão de instituições como a ONU, OTAN e os órgãos regionais de direitos humanos. Historicamente, os direitos humanos assumem uma posição de destaque internacional quando outras utopias universalistas entram em declínio, como foi o caso do próprio  anticolonialismo e do socialismo soviético.

O contínuo desenvolvimento de um direito internacional traduz cada vez mais  os interesses de uma determinado grupo de Estados no sistema internacional. O perigo de não haver instituições internacionais de fato colectivas e democráticas , que partam do principio da multiculturalidade para se chegar a uma universalidade é o de aprisionarmos a mesma universalidade a um corpo de leis influenciadas quase que exclusivamente  por uma determinada cultura e um determinado grupo de países. O direito internacional se tornou a grande arena onde os interesses de alguns são legitimados como universais ou globais.  O fim da Guerra Fria e a supremacia do modelo de democracia liberal ocidental no sistema internacional, apresentou um novo cenário de desenvolvimento das instituições internacionais. Nesse novo momento surgiram novos conceitos como o ainda controverso “ direito de ingerência”, cunhada pelo francês Bernard Kouchner( um dos fundadores da ONG Médico Sem Fronteiras) e pelo jurista italiano Mario Bettati, e já após a recente invasão do Iraque por forças norte-americanas , o “Responsabilidade em proteger”.  Este último reconhecido pela ONU em 2005, reconfigura a noção de soberania de um simples direito para uma efetiva responsabilidade dos Estados. A comunidade internacional desenvolve assim uma certa legalidade em avaliar se um Estado está ou não assumindo com sua responsabilidade perante sua própria população, criando dessa maneira a justificativa legal para uma eventual intervenção

De acordo com esse modelo de sistema internacional, os processos de globalização  estão alinhados com esse paradigma  cultural e legal , indicando a modernidade ocidental como uma necessidade histórica. O contraponto a essa construção são os crescentes movimentos antiglobalização e quase todos utilizam a mesma linguagem dos direitos humanos que o próprio sistema internacional usa para legitimidade moral de suas decisões mais polêmicas. O poder desses movimentos foi recentemente demonstrado tanto nas manifestações dos “indignados” na Europa como nas revoluções democráticas da chamada “primavera árabe”. A certeza que pode se ter é que uma intervenção militar em nome dos direitos humanos cria não só um paradoxo conceitual, mas sobretudo um contra-senso  prático. É justamente através desse paradoxo e desse contra-senso que  o sistema é questionado tornando a linguagem dos direitos ferramenta ideal para revitalizar um projeto universalista colectivo, multicultural e, sobretudo, mais humano.

Qualquer consenso político no sistema internacional não deve ser estabelecido, e sim necessita ser resultado de um processo de dialogo intenso e contínuo, através de interacções colectivas não só dos Estados mas também entre os movimentos sociais, que contemplem as distintas culturas que mundo abriga. Historicamente, os direitos humanos possuem uma capacidade de emancipação na sua essência, foi assim quando na sua gênese nos projetos das Revoluções francesa e americana e ainda o é na luta de movimentos sociais antiglobalização pelo mundo.

O perigo da positivização de tal conceito em um sistema internacional ainda engessado na estrutura de poder da disputa de força entre Estados é o que vemos nas constantes e desastrosas intervenções humanitárias, como o caso de Mali. Para se conceber um universalismo de fato democrático e multicultural precisa-se caminhar paralém dos perigos da uniformidade de discurso e evitar qualquer tipo de exclusão da diversidade. Torna-se igualmente necessário admitir que a globalização que vivemos é apenas um dos projetos possíveis e há sempre que se ter no horizonte a opção mais humanista. No caso da intervenção no Mali, vemos a justificativa da luta contra grupos jihadistas terroristas e da incapacitante situação de pobreza do país como fundamento para uma intervenção militar. No entanto, é urgente a percepção de todo processo histórico e politico que gerou tal situação, desde das ,ainda atuais, consequências do colonialismo, à marginalização económica e politica que algumas áreas do globo sofrem pelo atual processo de globalização.  A intervenção francesa é mais um capítulo da expansão de um universalismo excludente e opressor, onde palavras como “militar” e “humanitário” convivem sem nenhum tipo de constrangimento legal e moral.

* Rafael Betencourt é mestre pelo ISCTE- Instituto Universitário de Lisboa e autor da dissertação O Discurso Contra-Hegemônico dos Direitos Humanos na Revolução Bolivariana (ISCTE, 2012).

FONTE: Revista de História da Biblioteca Nacional