a diversidade da língua portuguesa numa perspectiva angolana

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Clique nas imagens para acessar o interessante artigo de Araújo dos Anjos, marcado por cruzamentos e contrastes em relação à situação linguística brasileira.

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língua(s), literatura, identidade(s) e poder na construção de Angola

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Uma excelente abordagem ao tema, muito interessantemente articulada à discussão do problema linguístico brasileiro.


A língua portuguesa em Angola – língua materna vs. língua madrasta. Uma proposta de paz

O escritor angolano José Eduardo Agualusa reflecte sobre a rápida expansão do português em Angola, após a independência, propondo o uso dos idiomas nacionais na literatura desse país. Originalmente publicado em 13/10/2010.
Nos últimos anos da época colonial, apenas uma pequena percentagem de angolanos falava português, como língua materna. Era, claramente, a pequena burguesia urbana: brancos, mestiços e negros, descendentes, em muitos casos, das velhas famílias escravocratas que prosperaram em Luanda até ao século XIX. Um quarto de século após a independência, esse número cresceu de forma impressionante, devendo o português ser hoje a segunda língua materna mais falada em Angola, logo depois do umbundo. Tal fenómeno, ainda pouco estudado, parece-me verdadeiramente espantoso. Pela primeira vez uma língua de origem europeia conseguiu enraizar-se em África, tornando-se numa língua africana, num espaço de tempo muitíssimo curto e por acção dos próprios filhos do país.

Haverá muitas explicações para este fenómeno e, seria interessante se conseguíssemos discutir algumas. Creio que entre elas está o facto de o português ter transitado, do regime colonial para o novo regime de Angola independente, como língua de poder. O actual presidente angolano e a maior parte dos homens  que o rodeiam, bem como os oficiais mais poderosos das forças armadas, são pessoas de língua materna portuguesa. Também a guerra, ao movimentar grandes massas humanas dentro do território nacional, contribuiu para a expansão do português.

Infelizmente, a afirmação da língua portuguesa fez-se em larga medida, à custa dos idiomas nacionais, em particular do quimbundo, gerando ou arriscando-se a gerar, movimentos de resistência, e alimentando conflitos .

Aquilo que está hoje a ao correr em Angola ocorreu no Brasil, de forma semelhante, embora ao longo de um período muito mais largo. Deveriam existir cerca de 1200 línguas nacionais indígenas quando os portugueses desembarcaram nas praias deste vastíssimo território a que hoje chamamos Brasil. Actualmente, não existirão mais de 180. Este terrível massacre linguístico terá sido um dos maiores crimes cometidos pelos portugueses, e sobretudo por brasileiros, ao longo de cinco séculos. É certo que o Português do Brasil incorporou um grande número de palavras indígenas e africanas – fenómeno que não aconteceu, pelo menos com idêntica extensão, no inglês falado nos Estados Unidos ou na Austrália – e, assim, um pouco da alma destas línguas sobrevive hoje no nosso idioma.

Existem actualmente cerca de seis mil línguas em todo o mundo. Destas, três mil vão desaparecer muito provavelmente nos próximos cem anos. Noventa e seis por cento das línguas do mundo são faladas por apenas quatro por cento da humanidade. Em média, a cada quinze dias desaparece uma língua, e África é o continente mais ameaçado.

Ao contrário do que sugere o mito de Babel, acredito que é mais fácil alcançar Deus, ou seja, o entendimento do mundo, falando muitas línguas, do que comunicando numa única. O pensamento exige palavras. Um pensamento muito complexo exige muitas palavras e diversos idiomas. Quando essas línguas se perdem, o homem fica inevitavelmente mais longe do Absoluto. Há realidades, emoções, certos prodígios e mistérios que só podem ser expressos em determinadas línguas. Uma única língua não é capaz de expressar todas as formas e graus da compreensão humana.

Acredito, por outro lado, que a luta pela afirmação da língua portuguesa em África, e em particular em Angola, está ligada a este outro combate, mais urgente, pela preservação dos idiomas africanos originais. Se a língua portuguesa continuar a afirmar-se em Angola como língua de poder e de domínio – se não mesmo de extermínio -, isso acabará inevitavelmente por gerar fortes movimentos de resistência, aprofundando fracturas que uma longa e cruel guerra civil expôs até ao osso.

A guerra civil em Angola foi, até um certo ponto, resultado de um antiquíssimo conflito entre o campo e a cidade. E se é certo que esse conflito foi explorado por um obstinado e ambicioso messias de origem camponesa com o fim de alcançar o poder, também é certo que só conseguiu prosperar devido à arrogância de uma certa burguesia urbana, a a qual se tem esforçado por impor a todo o país uma caricatura miserável da normalidade colonial (a única que conhece): desaparecido esse homem foi possível firmar a paz. Nos próximos tempos os angolanos terão de conseguir iniciar um diálogo honesto entre todas as nações, e visões, do território nacional. Devolver a dignidade às línguas nacionais de origem africana é também uma forma, a meu ver, de consolidar a paz.

Assisti em Luanda, numa festa de ano novo, a um conflito entre vizinhos. Ambos tinham trazido as mesas para o quintal. Ambos exibiam, orgulhosos, boas aparelhagens de som. Num dos quintais ouvia-se música zairense. Naquele onde eu estava, música popular brasileira, música popular luandense e jazz. Bebera-se já bastante cerveja, muito vinho tinto, quando um dos vizinhos decidiu aumentar o som. O outro fez o mesmo. Era a guerra. Em breve já não havia música, apenas ruído, um furioso estrépito de fim do mundo. Aquilo durou uns minutos. Uma eternidade. Finalmente, foi necessário negociar. Trocaram-se palavras amargas. Não esqueço a forma como o conflito terminou: “Lá porque vocês falam melhor português”, disse o vizinho que gostava de música zairense, “não são mais angolanos do que nós.” Uns anos antes talvez tivesse acontecido o oposto. O vizinho de língua materna portuguesa poderia ter dito ao outro: “lá porque você fala quicongo não é mais angolano do que eu.”

Provavelmente é o momento certo para negociar. Em encontros como este, sou frequentemente confrontado com a questão:

“Porque é que em Angola, país de muitas línguas, os escritores apenas utilizam o português?”

É difícil explicar esta situação nos países nos quais, à semelhança de Angola, coexistem no mesmo espaço geográfico diversos idiomas. Olhemos, por exemplo para Espanha: utilizam-se no país de Cervantes quatro grandes línguas: o espanhol, o catalão, o basco e o galego, sendo o espanhol, ao mesmo tempo, um idioma nacional, língua materna de uma das etnias de Espanha, e transnacional, ou seja, é uma língua falada em todo o território. O ditador Francisco Franco tentou aniquilar as línguas étnicas, impondo à força o castelhano, mas apenas conseguiu com isso exaltar os diferentes nacionalismos. Hoje, existe uma literatura espanhola em castelhano muito forte, mas existe também uma vigorosa literatura em catalão – e os bascos e galegos, embora com menos possibilidades económicas, esforçam-se por seguir o seu exemplo.

O mesmo se passa em diversos países africanos, com destaque para a República da África do Sul, tão perto de Angola, onde os escritores são livres de escolher entre o inglês, o africanse, o zulu, etc. Um escritor que opte pelo zulu pode sempre, mais tarde, fazer-se traduzir para inglês, idioma nacional e transnacional naquele país.

Em Angola, paradoxalmente, as línguas nacionais de origem africana não beneficiaram muito com a independência. Luanda foi, até finais do séc. XIX, uma cidade bilingue, sendo os colonos portugueses forçados a aprender quimbundo. Chegaram mesmo a publicar-se, nesse período, dois jornais em quimbundo. Hoje isso seria impensável.

O impressionante avanço do português, e a sua afirmação como única língua literária do país, tem produzido uma série de efeitos perversos. Forçar um escritor a trabalhar numa língua outra, que não o seu idioma materno, constitui quase sempre uma terrível violência, que se traduz por um empobrecimento, senão mesmo por uma falsificação, do universo original. Os escritores que têm o português como língua materna, e em particular os escritores de ascendência portuguesa, são, neste contexto, claramente beneficiados.

Existem, é claro, existiram sempre, escritores capazes de trocar de idioma, sem traumas, sem complexos, e ainda de transformar isso numa vantagem. Vladimir Nabokov, por exemplo, transportou para o inglês o particular humor russo, jogos de palavras, efeitos sonoros, criando, assim, um estilo absolutamente singular. Fernando Pessoa, que viveu os primeiros anos da sua vida na África do Sul, sentia-se à vontade quer em português quer em inglês, e é óbvio que essa dupla pertença beneficiou o seu projecto literário. Essa, porém, não é a regra.

Às instituições culturais angolanas, governamentais ou não, cabe o difícil papel de inverter este quadro, promovendo, por exemplo, a edição em línguas nacionais africanas. Dir-me-ão que a edição de obras em idiomas étnicos não tem futuro comercial. Efectivamente, a maioria dos angolanos alfabetizados, e que têm o hábito de ler, isto é, que compram mais de dez livros por ano, apenas falam português; e mesmo aqueles que dominam outros idiomas nacionais preferem comprar livros em português – e se possível em Portugal! Exactamente por isso  parece-me importante a intervenção do Estado, apoiando as editoras que decidirem correr o risco de publicar livros em línguas nacionais.

Todo o cenário mudará, é claro, quando todas as crianças angolanas passarem a ser alfabetizadas nos respectivos idiomas maternos.

Um bom princípio, já ensaiado pela editora Nzila, ligada à editora portuguesa Caminho, é o da publicação de textos bilingues. Como primeiro passo, a Nzila lançou recentemente uma edição da famosa novela de Manuel Rui Fernandes “Quem me dera ser Onda”, traduzida para umbundo por Almerindo Jaka Jamba. Esperemos que comece em breve a fazer o inverso, isto é, a lançar textos originais em línguas africanas acompanhados pela respectiva tradução portuguesa, assinada, se possível, por figuras respeitadas da literatura angolana.

A literatura é um excelente investimento. Um bom romance angolano pode sensibilizar mais gente no mundo inteiro, para a situação, por exemplo, das vítimas de minas do que qualquer campanha internacional. Jorge Amado fez mais pela indústria do turismo em Salvador da Baía, com um único dos seus livros, do que todas as agências de viagens juntas.

Não obstante o colapso do aparelho de Estado formaram-se ao longo dos últimos 25 anos largos milhares de quadros angolanos, facto que constitui, a meu ver, o maior triunfo da independência. Em 1975, apenas um homem, Mário António de Oliveira, havia pensado e escrito sobre o país, sobre a formação e as particularidades de Angola, com alguma profundidade. Hoje, podemos juntar às ideias de Mário António – que soube fazer o elogio da crioulidade, muito antes que um Patrick Chamoiseau, por exemplo – todo um já largo pensamento angolano, com destaque para a obra de Ruy Duarte de Carvalho e de Mário Pinto de Andrade, entre outros historiadores, sociólogos, antropólogos e escritores. Angola começa, finalmente, a ter uma imagem de si própria. Por outro lado, o regresso ao país de um grande número de jovens que estudaram no estrangeiro, em países democráticos como Portugal, Brasil, África do Sul ou Estados Unidos, com uma visão cosmopolita e mais aberta, está a trazer uma corrente de ar fresco a um ambiente que era, nos duros tempos da guerra, quase irrespirável.

Apesar do caos imenso e da imensa dor que a guerra provocou, acredito que Angola está hoje em melhor situação do que há 28 anos para lutar por uma verdadeira independência. Porque temos finalmente o essencial: um pensamento angolano, uma língua transnacional (a sexta mais falada em todo o mundo) e homens e mulheres preparados para governar o país.

Sobre o Autor:  Jornalista e escritor angolano, nascido no Huambo, em 1960. Autor de Estação das Chuvas (1996), Nação Crioula (1997), O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio (2002), Catálogo de Sombras (contos, 2003), O Vendedor de Passados (2004), entre outras obras.

FONTES: Ciberdúvidas da Língua Portuguesa / O Patifúndio (imagem)

a influência fundamental das línguas africanas na deriva do português brasileiro

afroportugues

Camões com dendê

O confronto do português com as línguas bantas, em vez de provocar um conflito por falta de comunicação, resultou numa africanização do idioma

Yeda Pessoa de Castro

Se as vozes dos quatro milhões de africanos trazidos para o Brasil ao longo de mais de três séculos não fossem abafadas na nossa História, hoje saberíamos que eles, apesar de escravizados, não ficaram mudos. Participaram da configuração do português brasileiro e são responsáveis pelas diferenças que afastaram o português do Brasil do de Portugal.

Aquelas vozes são perceptíveis na pronúncia rica em vogais da nossa fala (ri.ti.mo, a.di.vo.ga.do), na nossa sintaxe – tendência a não marcar o plural do substantivo (os menino, as casa), na dupla negação (não quero não), no emprego preferencial da próclise (eu lhe disse, me dê) –, e se revelam de modo inequívoco nas centenas de palavras que enriquecem o patrimônio linguístico do português do Brasil.

São palavras portadoras de elementos culturais compartilhados por toda a sociedade brasileira, no âmbito da recreação (samba, capoeira), dos instrumentos musicais (berimbau, cuíca, agogô), da culinária (mocotó, moqueca), da religiosidade (candomblé, umbanda), das poéticas orais (os tutus dos acalantos, o tindolelê das cantigas de roda), das doenças (caxumba), da flora (dendê, maxixe, jiló), da fauna (camundongo, minhoca), dos usos e costumes (cochilo, muamba), dos ornamentos (miçanga, balangandã), das vestes (tanga, sunga), da habitação (cafofo, moquiço), da família (caçula, babá), do corpo humano (bunda, corcunda, banguela, capenga), das relações pessoais de carinho (xodó, dengo, cafuné), dos insultos (sacana, lelé), do mando (bamba, capanga), do comércio (quitanda, muamba, maracutaia).

Nesse vocabulário, há os aportes antigos, na sua maioria de línguas angolanas, que entraram no idioma na época colonial e já estão integrados ao seu sistema linguístico, com seus derivados (esmolambado de molambo, sambista de samba, encalombado de calombo, maconheiro de maconha). Na mesma categoria encontram-se os termos associados à escravidão (senzala, quilombo, mocambo), alguns já obsoletos (banzo, mucama) e poucos também correntes em Portugal (moleque, carimbo), em meio a centenas de outros para designar elementos novos então introduzidos no trato diário com os escravos domésticos – “os escravos de (do quicongo njo, casa) que jogavamcaxangá ( jogo de tabuleiro)” da conhecida  brincadeira infantil brasileira.

O desempenho da mulher negra, ama de leite e criadeira, foi tão marcante no seio da casa senhorial que até hoje chamamos o filho mais jovem pelo termo angolano caçula em lugar de “benjamin”, como se diz em Portugal. Foi ainda nesse momento que outros termos angolanos deixaram fora de uso no Brasil os seus equivalentes em português (moringa em lugar de bilha, corcunda por giba, capenga por coxo, cachaça por aguardente, cochilar por dormitar, xingar por insultar, molambo por trapo, marimbondo por vespa, dengo por mimo, caxumba por trasorelho).

Mas onde ficou a memória dessas vozes, uma vez que nenhuma língua africana é mais falada como idioma pleno no Brasil?  Nos falares de comunidades negras rurais, com um vocabulário reduzido de base umbundo, como as que vivem no Cafundó, São Paulo, em Tabatinga, Minas Gerais, ou as que dizem falar a “língua de banguela” no cântico dos vissungos, também em Minas Gerais, e na linguagem litúrgica dos terreiros onde elas ressoam como fator de identidade sociorreligiosa do grupo, seja ele de tradição mina-jeje dos voduns daomeanos, nagô-queto dos orixás iorubanos ou congo-angola dos inquices bantos.Esse repertório litúrgico, transmitido por tradição oral e que faz parte do falar cotidiano da gente de terreiro, foi popularizado através da mídia por compositores da MPB, de blocos afros e afoxés, de sambas-enredo, e pelas telenovelas.

Esses terreiros têm atraído, além de pesquisadores e intelectuais de fama internacional, compositores brasileiros que terminaram por tornar conhecidos no país os orixás Iemanjá, Xangô, Oxum, Oxóssi, Ogum, Iansã, Oxalá, bem como termos tirados do contexto sagrado e que têm o seu sentido estendido. A palavra axé, o fundamento sagrado desses terreiros, foi popularizada como saudação de boa sorte, amém, e também denomina um estilo de música criado na Bahia na década de 1980, a axé-music, com milhares de axezeiros, seus admiradores.

Calcula-se que, dos quatro milhões de africanos trazidos para o Brasil, a maioria falava quimbundo e quicongo, e se distribui por todo o território brasileiro. A essa gente juntaram-se, em número menor, mas igualmente importantes, os de fala umbunda, dirigidos em grande parte para os garimpos de Minas Gerais. A mais antiga gramática do quimbundo, A arte da língua de Angola, publicada em Lisboa em 1697, foi escrita na Bahia pelo missionário Pedro Dias para uso dos jesuítas, a fim de facilitar a doutrinação dos 25.000 negros. Segundo o padre Antônio Vieira, os africanos se encontravam em Salvador sem falar português, mas acredita-se que eles não tinham necessariamente o quimbundo como língua materna, pois, embora embarcados em Luanda, poderiam ser provenientes de outras regiões da atual Angola. Situação semelhante deve ter ocorrido em Palmares, onde se teria desenvolvido um falar de base quimbundo-quicongo, como se deduz dos títulos de seus líderes – Ganga Zumba, Zumbi, Dandara – e dos seus aldeamentos – Osengo, Macaco, Andalaquituxe.

Ainda no século XVII,o poeta Gregório de Matos satirizava o que chamava de “mestres do cachimbo”, liderando cerimônias de “calundus e feitiço em quilombos superlativos”. Poderiam ser eles os chamados “pretos-velhos”, os báculos de Angola, que teriam, no Brasil, um modo de falar marcado pelo prefixo quimbundo zi- (ziterrero, zimenino, ziquizila). São muito populares nos candomblés de caboclo, nos quais os caboclos, denominação para os índios brasileiros, são reverenciados como os donos da terra – fato que nos leva a admitir que essas são as mais antigas manifestações de religiosidade afro-brasileira, resultado do encontro e da aceitação de crenças ameríndias do tronco tupi e africanas de matriz banto com o cristianismo. Outra evidência desse antigo contato entre índios e africanos está no dialeto caipira falado no interior de São Paulo e tido como de base quimbundo-tupi. Nesse processo de interpenetrações culturais e linguísticas, apesar da presença dos evés-fons (ou ewe-fons), cuja língua foi registrada entre os escravos de Vila Rica no século XVIII, e a mais recente influência dos iorubás no campo religioso, as vozes do negro banto ressoaram sobre todas as outras na construção da língua portuguesa do Brasil.

Qualquer falante de uma língua tende a transferir para uma segunda língua hábitos linguísticos de seu primeiro idioma, e no Brasil isso não foi exceção. Por um lado, no confronto do português com as línguas bantas, em vez de surgir um conflito por falta de inteligibilidade entre seus utentes, ocorreu um movimento de africanização do português; por outro, a imantação pelo português das línguas negro-africanas, em razão das semelhanças estruturais entre o português antigo e as línguas bantas que aqui foram as mais faladas. Entre essas semelhanças estão o sistema de sete vogais orais (a é ê i ô ó u) e uma estrutura silábica na qual toda consoante é seguida de uma vogal, provocando o surgimento de uma nova sílaba (ri.ti.mo em lugar de rit.mo). Logo, não há sílaba fechada por consoante (falá por falar, Brasiu por Brasil), fazendo com que se conservasse o centro vocálico de cada sílaba, mesmo átona, o que ocasionou a continuidade da base vocálica do português antigo na modalidade brasileira, afastando-a do português de Portugal, de pronúncia muito consonantal. O português europeu atual tende a pronunciar apenas a vogal central (mnin em vez deme.ni.no), criando grupos consonantais impronunciáveis por um brasileiro.

Diante dessa proximidade relativa, e provavelmente de outras ainda encobertas por falta de pesquisas, será possível explicar, de maneira convincente, a importância dos africanos no afastamento do português do Brasil do de Portugal, bem como a ausência de idiomas africanos no país.       

Yeda Pessoa de Castro é pesquisadora do Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros em Línguas e Culturas da Universidade do Estado da Bahia e autora de Falares africanos na Bahia (ABL/Topbooks, 2001).

Saiba Mais – Bibliografia

QUEIROZ, Sônia. Pé preto no barro branco: a língua dos negros de Tabatinga. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

VOGT, Carlos, FRY, Peter. Cafundó, a África no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras/Campinas: Unicamp, 1996.

FONTE: Revista de História da Biblioteca Nacional

aprender a ser outro(s) através da literatura: desafio comum para brasileiros e africanos

Victor Ekpuk (Nigeria)_You Be Me, I Be You

 

Útil para nossos estudos na LETA25 (O Cânone Literário Brasileiro) e na LET C47 (Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e o Cânone Ocidental), o artigo de Eliane Brum discute questões básicas para compreendermos como se estabelecem, na prática, relações entre língua, identidade, literatura e poder, relações que desempenham um papel influente nas interações e nos entrechoques culturais que constróem o mundo globalizado contemporâneo. No caso das literaturas produzidas no Brasil e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), a inserção ou a marginalização de seus respectivos autores e obras no cânone literário “universal” dá-se no bojo de um processo que, ainda distante de um genuíno diálogo entre formas diversas de ficcionalizar, mostra-se fortemente balizado pelos preconceitos e limites que a mentalidade eurocêntrica estabelece buscando normatizar e homogeneizar os diferentes valores civilizacionais. Conforme aponta a jornalista, ao se deixarem enquadrar nas molduras estereotipadas das identidades globais, as sociedades nacionais e os grupos étnicos sacrificam a criatividade cultural que lhes possibilita confrontar seus desafios históricos de maneira ativa.


A língua que somos, a língua que podemos ser

O que é pior: ser visto como um clichê ou ser ignorado? Como os outros não nos veem – e como nós não vemos os outros de nós. Uma reflexão sobre o Brasil, a literatura e o poder

Eliane Brum

A alemã Anja Saile é agente literária de autores de língua portuguesa há mais de uma década. Não é um trabalho muito fácil. Com vários brasileiros no catálogo, ela depara-se com frequência com a mesma resposta de editores europeus, variando apenas na forma. O discurso da negativa poderia ser resumido nesta frase: “O livro é bom, mas não é suficientemente brasileiro”. O que seria “suficientemente brasileiro”?

Anja (pronuncia-se “Ânia”) aprendeu a falar a língua durante os anos em que viveu em Portugal (e é impressionante como fala bem e escreve com correção). Quando vem ao Brasil, acaba caminhando demais porque o tamanho de São Paulo sempre a surpreende e ela suspira de saudades da bicicleta que a espera em Berlim. Anja assim interpreta a demanda: “O Brasil é interessante quando corresponde aos clichês europeus. É a Europa que define como a cultura dos outros países deve ser para ser interessante para ela. É muito irritante. As editoras europeias nunca teriam essas exigências em relação aos autores americanos, nunca”.

Anja refere-se ao fato de que os escritores americanos conquistaram o direito de ser universais para a velha Europa e seu ranço colonizador – já dos brasileiros exige-se uma espécie de selo de autenticidade que seria dado pela “temática brasileira”. Como se sabe, não estamos sós nessa xaropada. O desabafo de Anja, que nos vê de fora e de dentro, ao mesmo tempo, me remeteu a uma intervenção sobre a língua feita pelo escritor moçambicano Mia Couto, na Conferência Internacional de Literatura, em Estocolmo, na Suécia. Ele disse:

– A África tem sido sujeita a sucessivos processos de essencialização e folclorização, e muito daquilo que se proclama como autenticamente africano resulta de invenções feitas fora do continente. Os escritores africanos sofreram durante décadas a chamada prova de autenticidade: pedia-se que seus textos traduzissem aquilo que se entendia como sua verdadeira etnicidade. Os jovens autores africanos estão se libertando da “africanidade”. Eles são o que são sem que se necessite de proclamação. Os escritores africanos desejam ser tão universais como qualquer outro escritor do mundo. (…) Há tantas Áfricas quanto escritores, e todos eles estão reinventando continentes dentro de si mesmos.

Esta conferência de Mia Couto faz parte de um livro de ensaios belíssimo chamado “E se Obama fosse africano?” (Companhia das Letras). Indico com vários pontos de exclamação. Os ensaios de Mia Couto são tão inspiradores quanto seus romances. E o que ele diz sobre a África talvez pudesse ser dito sobre o Brasil, este país que é também um continente. E sobre todo um pedaço do planeta do qual se espera que seja de uma determinada forma.

Se ler um livro é ousar se abrir para o outro, exigir que o outro seja como você o imagina é o avesso da experiência literária. Se os editores europeus esperam que sejamos os outros que querem que sejamos, já não somos os outros, mas o estrangeiro domesticado que mora dentro deles. E assim, com um estrangeiro de estimação habitando o seu imaginário, já não precisam nos estranhar. E com isso perdemos todos. Os leitores europeus – que como nós nada têm de homogêneo e contêm tantas diferenças quanto possível – porque abrem mão de estranhar. E nós porque perdemos a chance sempre rica de que nos estranhem.

Nos Estados Unidos, apenas 3% de todas as obras publicadas foram escritas em outras línguas que não o inglês. Esta ínfima parcela abarca todos os outros idiomas e todos os gêneros, de livros técnicos à ficção. Se formos pensar apenas em literatura e poesia, o porcentual baixa para 0,7%. Não sei se existem estatísticas sobre qual é a fatia da língua portuguesa neste quase nada, mas parece evidente que é insignificante. Na tentativa de reverter o que chama de “shame” (vergonha), a Universidade de Rochester criou, em 2007, um site chamado Three Percent , para debater e divulgar todos esses universos literários que têm quase tanta dificuldade de ultrapassar as fronteiras dos Estados Unidos quanto os imigrantes ilegais. E, mesmo quando superam as barreiras, pouco ou nenhum espaço encontram na imprensa americana.

Uma língua não é apenas um amontoado de palavras que serve para se comunicar, mas um jeito de ser e de estar, de compreender o mundo e a si mesmo, o fora e o dentro. Em cada língua há um universo inteiro, e cada falante a recria a partir de sua experiência. É por isso que a língua é viva e mutante. Se o português falado no Brasil tivesse permanecido o mesmo de cem anos atrás é porque já estaríamos todos mortos. Como disse Fernando Pessoa, nós não habitamos um país, mas uma língua. E aqueles que são os últimos falantes de uma língua morta, porque para ser viva é preciso de um outro que também more nela, tem de renascer em outro idioma para que a vida seja possível. Ninguém vive para além das fronteiras da linguagem.

Saber que apenas 3% dos livros publicados nasceram em imaginários outros diz mais dos Estados Unidos do que de todos aqueles que não são vistos por eles. Na grande potência mundial – ainda que em crise – não se trata apenas de uma exigência de estereótipos, como na Europa, já que não há nem mesmo o interesse pelo clichê do outro. No caso dos Estados Unidos, não é necessário fingir estranhamento, já que parecem desconhecer que estranhar é preciso. A experiência de se abrir para a experiência do outro é ignorada. Ignorada como um não saber que há algo ali que vale a pena. Mesmo que faça todo o sentido por qualquer ângulo que se olhe, de Hollywood à política externa americana, ainda assim me parece espantoso que a língua que se impõe sobre o mundo seja também aquela que é fechada para o mundo de (quase) todos os outros. E isso, com certeza, explica muita coisa.

Não saberia dizer o que é pior: se a exigência de um clichê de Brasil também na literatura – o “suficientemente brasileiro” com que Anja Saile se depara no contato com os editores europeus – ou a indiferença até mesmo pelo clichê. Acho que a segunda realidade é mais nefasta, porque ao buscar o outro, ainda que seja pelo lugar comum, existe ao menos o risco de encontrar algo que subverta as expectativas e vire os mundos de ponta-cabeça.

E aqui, mais um pouco de Mia Couto:

– O mesmo processo que empobreceu o meu continente está, afinal, castrando a nossa condição comum e universal de contadores de histórias. (…) O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso. Os autores africanos que não escrevem em inglês – e em especial os que escrevem em língua portuguesa – moram na periferia da periferia, lá onde a palavra tem de lutar para não ser silêncio.

Quem já viajou à Europa e aos Estados Unidos sabe que é quase impossível encontrar um guia de cidade, museu ou local histórico em português. É preciso se virar com o espanhol, se não souber inglês. No final de 2011, a imprensa deu destaque ao fato de que os brasileiros gastam o dobro do que os outros turistas em Nova York, e muitas lojas já mantêm um vendedor que fala português para facilitar a venda a clientes tão promissores. A economia está colocando a nossa língua pelo menos na boca de garçons e balconistas pelos circuitos turísticos do mundo rico em tempos de crise.

Será que o lugar de potência emergente conquistado pelo Brasil vai aumentar o interesse pela nossa literatura ou pelo nosso modo de ser? A nova posição do país no cenário internacional já começa a produzir novos clichês não só do mundo sobre o Brasil – mas do Brasil sobre si mesmo. O marketing e a propaganda estão aí para provar como se transforma imagem em verdade. Acredito que o estudo dos novos clichês que estão sendo produzidos fora e dentro do Brasil, sobre o Brasil, seja um caminho bem fascinante para compreendermos o momento vivido.

Isso me faz virar o olhar pelo avesso para que possamos enxergar melhor. Como qualquer um sabe, não somos apenas um Brasil, mas muitos. Só de Amazônias temos dezenas, talvez centenas e até milhares. Não há um semiárido, mas uma profusão deles. Assim como são muitos e diversos os Rios de Janeiro e é necessário mais de uma vida para alcançar todas as São Paulo só para descobrir que elas mudaram. Me parece que o Brasil se mantém unido pela sua diversidade – e pela forma de olhar para a sua diversidade. Neste percurso, a música foi bem mais importante do que a literatura.

Me preocupa, porém, a forma com que temos olhado para os outros de nós em um momento com tantas decisões em curso. Em geral, a partir do próprio umbigo e com as fronteiras eletrificadas. Uma parte significativa do que chamamos de brasileiros parece misturar o olhar europeu e o olhar americano, aqui explicitados pela literatura, ao se relacionar com tudo o que compreendemos como o outro. Sejam os miseráveis do Bolsa Família, classificados por uma categoria de renda que anularia suas diferenças; sejam os índios, que são vistos como se fossem todos iguais e, em geral, como um “entrave ao progresso”.

Talvez os indígenas sejam a melhor forma de ilustrar essa miopia, forjada às vezes por ignorância, em outras por interesses econômicos localizados em suas terras. Parte da população e, o que é mais chocante, dos governantes, espera que os indígenas – todos eles – se comportem como aquilo que acredita ser um índio. Portanto, com todos os clichês do gênero. Neste caso, para muitos os índios não seriam “suficientemente índios” para merecer um lugar e para serem escutados como alguém que tem algo a dizer.

Outra parte, que também inclui gente que está no poder em todas as instâncias, do executivo ao judiciário, finge que os indígenas não existem. Finge tanto que quase acredita. Como não conhecem e, pior que isso, nem mesmo percebem que é preciso conhecer, porque para isso seria necessário não só honestidade como inteligência, a extinção progressiva só confirmaria uma ausência que já construíram dentro de si.

O modelo de desenvolvimento com que vamos alcançar o futuro depende de como olhamos para os outros de nós e de que lugar ocuparão os outros de nós. Se não acolhermos a diversidade e a usarmos para sermos um Brasil mais igualitário – onde todos sejam igualmente diferentes – não acredito que exista muito futuro para nós, mesmo que o presente pareça promissor. O “Milagre Econômico” da ditadura militar também parecia muito promissor à parcela da sociedade brasileira que dele se beneficiou – e sabemos muito bem como isso terminou.

Para sermos grandes – com um conceito de grandeza que não se mede apenas em cifras – será vital inaugurarmos um jeito de olhar diferente tanto para o nosso próprio continente – onde começamos a nos impor como uma espécie de “Estados Unidos da América do Sul”, como ouço com tristeza cada vez que coloco os pés nos países vizinhos – como na forma como olhamos para dentro de nossas fronteiras. Inaugurar não um olhar condescendente – mas um olhar de quem sabe que tem algo a aprender com o outro.

O que seremos, me parece, será definido pela resposta que daremos a três impasses:

1) Se vamos conseguir construir um modelo de desenvolvimento baseado no século XXI – e não no século XX, como me parece que é o atual;

2) Se vamos acolher os conflitos e dialogar com as culturas dos vários Brasis que nos compõem ou vamos exterminá-los à força, ainda que seja pela força da manipulação da lei;

3) Se vamos conseguir vencer o desafio da educação, mas não só isso: se a inclusão pela escrita será capaz de abarcar a riqueza da nossa oralidade em lugar de silenciá-la.

O que o Brasil será vai depender da sua capacidade – ou não – de incluir todos os outros de si.

No desafio que nos espera, é preciso lembrar que nós não temos língua – somos língua.
Como disse Mia Couto, de forma magistral, na conferência já citada:

– O que advogo é um homem plural, munido de um idioma plural. Ao lado de uma língua que nos faça ser mundo, deve coexistir uma outra que nos faça sair do mundo. De um lado, um idioma que nos crie raiz e lugar. De outro, um idioma que nos faça ser asa e viagem.

Para “ser asa e viagem” é preciso acolher todos os outros de si. Não tolerar o outro, mas ser o outro.

Veremos.

FONTE: Revista Época

em defesa de um Brasil polifônico

 

Brasil é o país com maior número de idiomas ameaçados de extinção

O Brasil é uma das maiores nações multilíngues do mundo, mas é também o país com maior número de idiomas ameaçados de extinção. É o que revela o Atlas Interativo de Línguas em Perigo no Mundo da Unesco (Organização da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura). De acordo com a organização, todas as 178 línguas indígenas faladas em território nacional estão classificadas como vulneráveis (97), em perigo (17), seriamente em perigo (19) ou em situação crítica (45).

Entre os idiomas relacionados, estão o apiaká (norte do Mato Grosso), o diahó (Humaitá, no Amazonas), e o kaixana (Japurá, no Amazonas), faladas por apenas uma pessoa. O tikuna (Alto Amazonas) é o idioma indígena com mais falantes no Brasil, são três mil.

Aryon Rodrigues, diretor do Laboratório de Línguas Indígenas da UnB (Universidade de Brasília) e referência mundial no tema, afirma que aproximadamente  1,2 mil idiomas desapareceram do Brasil desde que o país foi colonizado. “Podemos considerar todas as línguas indígenas ainda existentes correm o risco de sumir porque não há política pública oficial a favor delas e não tem nenhuma delas reconhecida pelo Estado”, ressalta.

A huayoró é uma das 19 línguas classificadas com sério perigo de desaparecer

Segundo Aryon, a população indígena nem sempre tem relação com a sobrevivência do idioma. “Algumas tribos do Alto Xingu têm menor de falantes do idioma, mas estão estáveis devido às áreas que se encontram, bem demarcadas e protegidas. Por outro lado, os kaiapós (Mato Grosso e Pará) têm população de mais de 8 mil pessoas, mas vivem em terras invadidas; isso arrebenta com a sociedade indígena e com a língua”.

Resgate

Atualmente, o Laboratório de Línguas Indígenas da UnB, por exemplo, trabalha em parceria com o Iphan  (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no registro e resgate da língua do povo Asuriní do Tocantins, do Pará.

O projeto faz parte de um programa piloto para produzir o Inventário Nacional da Diversidade Linguística; a pesquisa inclui o português, línguas indígenas, estrangeiras e de sinais.

17 idiomas, como o aikaná, figuram na lista dos classificados como ‘em perigo’

Os Asurinís sofrem interferências externas há seis décadas. O primeiro contato com o homem branco aconteceu na década de 1950, mas o maior impacto aconteceu nos anos 1980, com a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí na região.

Para Rodrigues, as universidades também deveriam abrir cursos de pós-graduação para que indígenas pudessem se tornar especialistas nas suas próprias línguas. “O índio tem o direito de aprender seu idioma e precisamos de disseminadores de cada uma dessas culturas”.

Idiomas em extinção

Dos 6 mil idiomas recenseados no mundo, mais de 2,5 mil estão em perigo. A maior ameaça acontece na Oceania e nas Américas.

Depois do Brasil, o México é o segundo país com mais línguas em perigo: 143. Os Estados Unidos tem 137 idiomas em perigo, enquanto a Colômbia possui 64 e o Peru, 57. “O desaparecimento de línguas está cada vez mais acelerado”, lamentou a linguista Marleen Haboud, em entrevista à agência de notícias EFE.

97 línguas indígenas são consideradas vulneráveis (classificação ‘menos grave’ …

FONTE: Combate ao Racismo Ambiental