história e teoria da Negritude

 

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

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Solano Trindade: abrindo caminhos para a negritude brasileira

 

Solano 1969 em Embu

TOQUE DE REUNIR

 

Vinde irmãos macumbeiros

Espíritas, Católicos, Ateus.

Vinde todos os brasileiros.

Para a grande reunião.

Para combater a fome

Que mata nossa nação.

 

Vinde Maria Pucheria.

João de Deus. José Maria.

Anicacio. Zé Pretinho

Para a grande reunião

Para combater a malária

Que mata nossa nação

 

Vinde trapeiro, pedreiro.

Lavrador, arrumadeira.

Caixeiro, funcionário.

Combater a tuberculose

Que mata nossa nação.

 

Vinde irmãos sambistas.

Da favela. Da Mangueira.

Do Salgueiro. Estácio de Sá.

Para a grande reunião.

Combater o analfabetismo

Que mata a nossa nação.

Vinde poetas, pintores

Engenheiros, escritores.

Negociantes e médicos.

Para a grande reunião.

Combater o facismo

Que mata a nossa nação.

 

***

 

SOU NEGRO

À Dione Silva

 

Sou negro

meus avós foram queimados

pelo sol da África

minh’alma recebeu o batismo dos tambores

atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda

como mercadoria de baixo preço

plantaram cana pro senhor de engenho novo

e fundaram o primeiro Maracatu

 

Depois meu avô brigou como um danado

nas terras de Zumbi

Era valente como quê

Na capoeira ou na faca

escreveu não leu

o pau comeu

Não foi um pai João

humilde e manso

Mesmo vovó

não foi de brincadeira

Na guerra dos Malês

ela se destacou

 

Na minh`alma ficou

o samba

o batuque

o bamboleio

e o desejo de libertação

 

***

 

O CANTO DA LIBERDADE

 

Ouço um novo canto,

Que sai da boca,

de todas as raças,

Com infinidade de ritmos…

Canto que faz dançar,

Todos os corpos,

De formas,

E coloridos diferentes…

Canto que faz vibrar,

Todas as almas,

De crenças,

E idealismos desiguais…

É o canto da liberdade,

Que está penetrando,

Em todos os ouvidos

 

***

 

VELHO ATABAQUE

 

Velho atabaque
quantas coisas você falou para mim
quantos poemas você anunciou
Quantas poesias você me inspirou
às vezes cheio de banzo
às vezes com alegria
diamba rítmica
cachaça melódica
repetição telúrica
maracatu triste
mas gostoso como mulher…

 

Triste maracatu
escravo vestido de rei
loanda distante do corpo
e pertinho da alma
negras sem desodorante
com cheiro gostoso
de mulher africana
zabumba batucando
na alma de eu…

 

Velho atabaque
madeira de lei
couro de animais
mãos negras lhe batem
e o seu choro é música
e com sua música
dançam os homens
inspirados de luxúria
e procriação
Velho atabaque
gerador de humanidade…

 

***

 

BAIANINHA

 

Baianinha

vatapá permanente

doce de coco

cafuné dendê

você veio na hora

quentinha

pra minha vida

trazendo o dengo

do que eu precisava.

 

Candomblé da minha madrugada

batendo em mim

que sou tambor creoulo

com patuá

envolvendo meu pescoço

com patuá

envolvendo meu pescoço

botando em minha boca

feitiço de Iansã.

Você veio agora

como a revolução de Cuba

me animar a vida

 

Você veio agora

como a libertação do Congo

me tocando pra frente

e fazendo esquecer

o tempo

e a velhice.

 

Você veio agora

fazer mutirão comigo…

 

***

 

MACUMBA

 

Noite de Yemanjá

negro come acaçá

noite de Yemanjá

filha de Nanan

negro come acaçá

veste seu branco abebé

 

Toca o aguê

o caxixi

o agogô

o engona

o gã

o ilu

o lê

o roncó

o rum

o rumpi

 

Negro pula

negro dança

negro bebe

negro canta

negro vadia

noite e dia

sem parar

pro corpo de Yemanjá

pros cabelos de Obá

do Calunga

do mar

 

Cambondo sua

mas não cansa

cambondo geme

mas não chora

cambondo toca

até o dia amanhecer

 

Mulata cai no santo

corpo fica belo

mulata cai no santo

seus peitos ficam bonitos

 

Eu fico com vontade de amar…

 

***

 

DEFORMAÇÃO

 

Procurei no terreiro

Os Santos D’África

E não encontrei,

Só vi santos brancos

Me admirei…

 

Que fizeste dos teus santos

Dos teus santos pretinhos?

Ao negro perguntei.

 

Ele me respondeu:

Meus pretinhos se acabaram,

Agora,

Oxum, Yemanjá, Ogum,

É São Jorge,

São João,

E Nossa Senhora da Conceição.

 

Basta Negro!

Basta de deformação!

 

***

 

REENCARNAÇÃO

 

Eu nasci

No inicio do século

(Revolução operária)

Nasci no Bairro de São José

Recife Pernambuco Brasil

 

D. Micaela

Foi a parteira que me pegou

E anunciou o meu Sexo

Homem!

 

A minha mãe

Foi operária cigarreira

Da Fábrica Caxias

Nascida de índio

E africano

 

Meu pai

Foi sapateiro

Especialista em Luis XV

Nasceu de branco e africano

Sabia falar em nagô

 

Meu pai era preto

Minha mãe era preta

Todos em casa são pretos

 

Minha mãe não sabia ler

E meu pai era semianalfabetizado

 

Minha mãe sabia rezar

Meu pai sabia rezar

 

Meu pai depois foi macumbeiro

(Macumbeiro é um espírita de cor preta)

 

Branco espírita é espiritualista

Que fica esperando a reencarnação

Na luta por nada

Não quer revolução

Nem por evolução

Não quer ação

Quer reencarnar

Na outra vida

Quer reencarnar diferente

Se for mulher

Quer voltar homem

Se for homem

Quer voltar mulher

 

Se for empregado

Quer voltar patrão

Quer reencarnar

Para se acomodar…

Intelectual se acomoda sem reencarnar

É mais fácil

Depende do emprego que arranjar…

 

***

 

TRISTES MARACATUS

 

Baticuns maracatucando

na minh’alma de moleque

Buneca negra na minha meninice

de “negro preto” de São José

Nas águas de calunga

a Kambinda me inspirando amor

O primeiro cafuné no mato verde

Da campina do Bodé

Rum de amor de negra

Rumpi de desejo de mulata

Lê de realização cafusa

Sons de protestos

Num mundo de guerra

E de ódio

 

Criação de Olorum

O mais tolerante dos deuses

O mais pacífico

Dos criadores

O mais estético

Dos chefes de raça

 

Tristes maracatus

Em maracatus alegres

Que se vão distantes

Em ritmo calmo de congo

Em acelerado moçambique

Em toque de Kêto

De Jejê e de Angola

Maracatus meus…

 

***

 

MANDINGA

 

Isto é mandinga negra

Isto é mandinga

 

Teus olhos de mãe d’água

pregando lirismo

teus seios escondidos

em Vila Isabel

 

Teus lábios mestiços

falando em beleza

no ritmo do samba

nos pingos da chuva

que molham o meu rosto

 

lirismo + lirismo

= a lirismo

(vamos somar na poesia)

é preciso aumentar a poesia

é preciso crescer e multiplicar

poeticamente

 

***

 

RAINHA E ESCRAVAS

 

Da janela do apartamento

vejo só barracos do morro

onde moram as rainhas

do carnaval

imponentes rainhas negras

riquíssimas de ritmo e de sexo

Rainhas por três dias alegres

escravas no resto do ano…

 

***

 

CANTO DOS PALMARES

 

Eu canto aos Palmares

sem inveja de Virgílio de Homero

e de Camões

porque o meu canto

é o grito de uma raça

em plena luta pela liberdade!

 

Há batidos fortes

de bombos e atabaques

em pleno sol

Há gemidos nas palmeiras

soprados pelos ventos

Há gritos nas selvas

invadidas pelos fugitivos…

 

Eu canto aos Palmares

odiando opressores

de todos os povos

de todas as raças

de mão fechada

contra todas as tiranias!

 

Fecham minha boca

Mas deixam abertos os meus olhos

Maltratam meu corpo

Minha consciência se purifica

Eu fujo das mãos

Do maldito senhor!

 

Meu poema libertador

é cantado por todos,

até pelo rio.

Meus irmãos que morreram

muitos filhos deixaram

e todos sabem plantar

e manejar arcos;

muitas amadas morreram

mas muitas ficaram vivas,

dispostas para amar

seus ventres crescem

e nascem novos seres.

 

O opressor convoca novas forças

vem de novo

ao meu acampamento…

Nova luta.

As palmeiras

ficam cheias de flechas,

os rios cheios de sangue,

matam meus irmãos,

matam as minhas amadas,

devastam os meus campos,

roubam as nossas reservas;

tudo isso,

para salvar

a civilização

e a fé…

 

Nosso sono é tranquilo

mas o opressor não dorme,

seu sadismo se multiplica,

o escravismo é o seu sonho

os inconscientes

entram para seu exército…

 

Nossas plantações

estão floridas,

nossas crianças

brincam à luz da lua,

nossos homens

batem tambores,

canções pacíficas,

e as mulheres dançam

essa música…

 

O opressor se dirige

a nossos campos,

seus soldados

cantam marchas de sangue.

 

O opressor prepara outra investida,

confabula com ricos e senhores,

e marcha mais forte,

para o meu acampamento!

Mas eu os faço correr…

 

Ainda sou poeta

meu poema

levanta os meus irmãos.

Minhas amadas se preparam para a luta,

os tambores

não são mais pacíficos,

até as palmeiras

têm amor à liberdade…

 

Os civilizados têm armas,

e têm dinheiro,

mas eu os faço correr…

 

Meu poema

é para os meus irmãos mortos.

Minhas amadas

cantam comigo,

enquanto os homens

vigiam a Terra.

 

O tempo passa

sem número e calendário,

o opressor volta

com outros inconscientes,

com armas

e dinheiro,

mas eu os faço correr…

 

O meu poema libertador

é cantado por todos,

até pelas crianças

e pelo rio.

 

Meu poema é simples,

como a própria vida,

nascem flores

nas covas de meus mortos

e as mulheres

se enfeitam com elas

e fazem perfume

com sua essência…

 

Meus canaviais

ficam bonitos,

meus irmãos fazem mel,

minhas amadas fazem doce,

e as crianças

lambuzam os seus rostos

e seus vestidos

feitos de tecidos de algodão

tirados dos algodoais

que nós plantamos.

 

Não queremos o ouro

porque temos a vida!

e o tempo passa,

sem número e calendário…

O opressor quer o corpo liberto,

mente ao mundo

e parte para

prender-me novamente…

 

— É preciso salvar a civilização,

Diz o sádico opressor…

 

Eu ainda sou poeta

e canto nas selvas

a grandeza da civilização — a Liberdade!

Minhas amadas cantam comigo,

meus irmãos

batem com as mãos,

acompanhando o ritmo

da minha voz….

 

— É preciso salvar a fé,

Diz o tratante opressor…

 

Eu ainda sou poeta

e canto nas matas

a grandeza da fé — a Liberdade…

Minhas amadas cantam comigo,

 

meus irmãos

batem com as mãos,

acompanhando o ritmo

da minha voz….

 

Saravá! Saravá!

 

Repete-se o canto

do livramento,

já ninguém segura

os meus braços…

Agora sou poeta,

meus irmãos vêm ter comigo,

eu trabalho,

eu planto,

eu construo

meus irmãos vêm ter comigo…

 

Minhas amadas me cercam,

sinto o cheiro do seu corpo,

e cantos místicos

sublimam meu espírito!

Minhas amadas dançam,

despertando o desejo em meus irmãos,

somos todos libertos,

podemos amar!

Entre as palmeiras nascem

os frutos do amor

dos meus irmãos,

nos alimentamos do fruto da terra,

nenhum homem explora outro homem…

 

E agora ouvimos um grito de guerra,

ao longe divisamos

as tochas acesas,

é a civilização sanguinária

que se aproxima.

 

Mas não mataram

meu poema.

Mais forte que todas as forças

é a Liberdade…

O opressor não pôde fechar minha boca,

nem maltratar meu corpo,

meu poema

é cantado através dos séculos,

minha musa

esclarece as consciências,

 

Zumbi foi redimido…

 

***

 

CONGO

 

Pingo de chuva,

Que pinga,

Que pinga,

Pinga de leve

No meu coração.

Pingo de chuva

Tu lembras a canção,

Que um preto cansado,

Cantou para mim,

Pingo de chuva,

A canção é assim.

 

Congo meu congo

Aonde nasci

Jamais voltarei

Disto bem sei

Congo meu congo

Aonde nasci…

 

***

 

NAVIO NEGREIRO

 

Lá vem o navio negreiro

Lá vem ele sobre o mar

Lá vem o navio negreiro

Vamos minha gente olhar…

 

Lá vem o navio negreiro

Por água brasiliana

Lá vem o navio negreiro

Trazendo carga humana…

 

Lá vem o navio negreiro

Cheio de melancolia

Lá vem o navio negreiro

Cheinho de poesia…

 

Lá vem o navio negreiro

Com carga de resistência

Lá vem o navio negreiro

 

Cheinho de inteligência…

 

***

 

NEGROS

 

Negros que escravizam

E vendem negros na África

Não são meus irmãos

 

Negros senhores na América

A serviço do capital

Não são meus irmãos

 

Negros opressores

Em qualquer parte do mundo

Não são meus irmãos

 

Só os negros oprimidos

Escravizados

Em luta por liberdade

São meus irmãos

 

Para estes tenho um poema

Grande como o Nilo

Edimilson de Almeida Pereira: desbravando sentidos para a experiência negra brasileira

 

Edimilson2

RANHURAS

 

Não há direção

no labirinto.

A vida e sua cárie

são exatas, no entanto.

 

Da outra margem

exploram o espelho

e me contam

o que permanece,

se me modifico.

 

Entro nessa direção

sem roteiros.

O que aí se mostra

são mapas

de outros mapas.

 

***

 

 

NUMA PAISAGEM, OUTRA

 

o unguento e, às vezes,

a colônia de morte,

sangram através do pensamento, lâmina

que toca a jugular

 

se animal em pelo, se apenas

recipiente,

quem saberá? enquanto se esgueiram

refazem os modos de si

 

alguém que os interpreta

há muito não goza de confiança

por isso, os gritos

com que intenta mover as pedras

 

quem contesta o descendente

e as razões

que o fazem irmão da gazela

inimigo da febre?

 

não seremos nós, os que portam

a camisa sem idiomas,

nem as mulheres

a quem reservam o teto da casa

e nenhuma epígrafe

 

a contestação faz-se por si mesma

a jugular não se entrega ao braço

que desfere o golpe

e se esgota nesse gesto

 

não, o sacrifício não está no mel

que incendeia, de tempos em tempos,

a viagem dos parentes

 

as ondas que mudam por si mesmas

disseram adeus às certezas,

nós ainda não

(pelo menos aqueles que se julgam

primo dos primeiros)

 

como nos enfrentaremos sob a ordem

que tropeça?

mil sendas se abrem e a seiva do pai,

como o recém-nascido,

se perdeu num corpo maior

 

ninguém está lá, a não ser

quem te conhece e estranha, não

o charme de irmão,

não espere entendimento se ele fizer

um círculo na areia

 

não há cortes que expliquem

a paisagem anterior, nem a sombra, amanhã,

nos caules

 

o que se espraia da jugular

é um labirinto que conduz a outro e se algum

vestígio resta

é para dizer seu afastamento da origem

 

as leituras faliram

se o descendente insiste,

rasga os seres para os quais não temos

saúde

 

nesse deserto de alegrias, a herança

é o animal que saqueia o verbo

antes do sacrifício

 

***

 

 

CEMITÉRIO MARINHO

 

            CENA 1

 

: embarcados, como

avaliar a tempestade

 

não é fora que a lâmina

arruína, mas

nas veias

 

o grito (lagarto que

os dias emagrecem)

insulta a diversão

do escorbuto

 

onde uma perna

            outra

lista de mercadorias

que valessem

            peça

            por

            peça

 

nesse cômodo

mal se tira a costela

e a morte instala sua

força tarefa

 

no vermelho da hora

um baque

            outro

espanto, deveras

 

o corpo

— o que expõe em mulher

ou guelra

exasperado?

 

: embarcados, às vezes

nos desembarcam

 

antes da ilha, em meio

às ondas

como sacos de aniagem

 

entregues ao calunga

grande, o que resta?

uma

cilada, outro revés?

 

            à

superfície um brigue

            é

            o

            que

            é

 

faca alisando a bandeira

do mar             país

sem continente

garden of the world

 

            mas

            o

            que

            ele

            arrota

assombra-nos

 

: na praia, desembarcados

teremos de volta

as pernas         os braços

            a cabeça

            os rios

            os crimes

            a ira

            os lapsos

            as línguas

            a guerra

            a teia

            o horror

            a trégua

 

            o camaleão

            no céu

            a tempestade?

 

            CENA 2

 

uma ponte de ossos

            submersa

eis o que somos —

 

além abismo a sigla

            em gesso

se esculpe e nela

habitam, sob musgo,

la vieja        le bleu

 

o atirado aos tubarões

que,

devido à calmaria,

flutuou com a barriga

em luto

por meia hora

                        o rosto

perto do navio dentro

dos rostos em fuga

 

                        o rosto

esverdeado como um

fruto-memória

            um braço

estendido            além

de seus nervos

 

eis o que somos — apesar

do abismo e sua colônia

de entalhes

 

apesar do abismo onde

a forma informe (a

            linguagem)

        nos experimenta

 

            CENA 3

 

um velho repõe a cólera

não pela intenção

de roubar o sono aos peixes

 

ou porque uma raia

crispou o coral e sua memória

se esgarçou

 

— os tendões, uma

vez descolados, acusam

a história

 

entre essa e a outra

margem do oceano, cabeças

rolaram mas

 

continuam presas à orelha

            dos livros

 

se um velho pretende dizer

quem as perdeu

deve se postar na beira

 

o mar à sua frente

sem nada a recuperar, senão

o exílio

 

            CENA 4

 

o ventre materno

nave

se atreve nas ondas

não porque os filhos

o pensem umbigo

            fora

            do alvo

 

o ventre erra

na tempestade, embora

costure os portos

da noite

 

o que leva dentro

se move

mais que a nuvem

& o comércio

 

sobre as águas

esse navio

norte de outro norte

 

mas

traído, o ventre

se inventa

presídio-liberdade

 

a cabeça (quem

a tiver gire

além do próprio

eixo)

            é o bólido

 

o que somos

vem de um

enigma

tirado aos peixes

de um corpo

além

das chagas

 

o ventre materno

nave

esgrime na água

 

e o que esculpe

excede

ao seu trabalho

 

: na pele

nenhum risco

que tire desse

corpo o equilíbrio

 

o ventre materno

diário

rasura a inscrição

de si mesmo

 

na água em que

submerge

ressoa, estala

se ergue

 

— a ele, por isso

saúdam as cabeças

 

            CENA 5

 

a linguagem espolia o museu

de história natural

 

nem tudo o que ressoa

é som

a palavra ainda menos

 

se a diamba espuma

a noite

não é que o morto viajará

 

o pássaro limpa

os dentes do hipopótamo

nem por isso

vão juntos à reza

 

a grande árvore freme

mas não é

com a chuva que se deita

 

a linguagem se joga

no oceano — para desespero

da memória

que se quer museu de tudo

 

            CENA 6

 

a primeira loja (de carnes:

termo usual

para quem perdera

o domínio

de sua violência)

 

imitava o inferno

em curvas: trezentos

nascidos para morrer

acenando em azul

            e branco

ao país das demências

 

trezentos entre os seis

e treze

anos apartados do jogo

: uns meninos

outros, meninas

em fila sob trinta e três

graus

 

no inferno, o azul

o branco, trezentas vezes

lesado,

se esgueira do assédio

            de sua fila, cada

um respira no olvido

 

trezentos zeros a trinta

e três graus

crepitam na grama: extinto

o negócio,

não se bastam, em flor

            em farpa oxidam

 

            CENA 7

 

recusado, esse

 

lugar

é o soldo que reduziu

o mar a duas braças

 

em 110 metros

quadrados

redondos em febre

e assombro

 

dormem (não como

deveriam)

seis mil cento e dezenove

almas

 

: as pupilas golpeadas

no mar cevam

um dia

que não se esgota

 

de óbito em óbito

o horror assunta os vivos

            corta-lhes

herança e umbigo

 

de óbito em óbito

os sem irmandade ou

crédito

se escrevem à esquerda

 

de óbito em óbito

navio e continente são

um

mesmo ancoradouro

 

de óbito em óbito

se calcula a história como

se ao apagá-la

ela se fizesse nova

 

nesse lugar

de esconjuros a juros

a nudez acossa

o oficial de ossos

 

a linguagem, corpo

indefeso, cola-se à laje

suas entranhas são

um caniço

 

e ainda que o silêncio

a ancore          suona

: os que morreram antes

de se tornarem

 

outros foram lançados

a essa barca noturna

sem nome

tirados ao sangue

 

não pertencem ao hades

olimpo

de nenhuma ordem

são outros além-outros

que engolem a língua

para regressar

à primeira queda

do rio

 

que temem perder

a cabeça

e sem ela o rastro anterior

ao chão

 

esse

lugar recusado

invernou sob arcas

e contrapesos

 

sob alucinações

e mercadorias alheias

ao seu comércio

sobre tal

 

cemitério

se atulharam

o descuido letras de câmbio

e tumultos

 

o que fazer, porém

dos espólios

recuperados no golpe

de uma pá?

 

são os aptos

no manuseio da

equipagem: os mortos

de quem o navio

não partiu, os mortos

tatuados

na cal, os de sempre

que teriam

 

movido arcos e tinas

comprado & vendido

suas posses

e a si mesmos

 

os mortos descalços, os

emudecidos

os surdos a qualquer

sentinela

 

            lá vem a barra do dia

            topar co’as ondas

                                   do mar

 

os vermelhos e suas

orquídeas

saídas no flanco

esquerdo

 

            sua terra é diferente

                                   m

            orar no campo santo

 

os mortos que não

viram a cidade

as lianas

mortas, as mortas

 

            lá vem a barra do dia

            sem as ondas do mar

                             de vigo

 

o que fazer desses

rendidos

na praia, de suas

valises

 

com nada por dentro?

de seu esqueleto

convertido em

flauta lá vem a barra

 

do dia topar co’as ondas

do mar de sua

cólera enrugando

a manhã?

 

 

***

 

 

CADERNO DE RETORNO

 

Pele radar que indexa

            um looping

            ao atabaque

            um anjo

            à sua queda

            Iracema

            à sua novela

alvo que incinera um atirador

            no teto

 

(…)

 

Para uso irrestrito a pele em desafio

            a todo gesto

coleção de selos que o vento

            dispersa da janela

 

(…)

 

A pele procura os naipes para

            entrar no jogo

mais se arroja quando desnuda

            o homem

            através do verbo

 

(…)

 

Pele não é o cárcere nem

            o texto

            o papel

            a retícula

            para roteiro em zoom

quiçá um mapa que muda enquanto viaja

            e se fixa quando

            escorregadia

                nos tece

 

(…) 

 

Estou de volta a casa não para visitar

os carneiros da minha gente

uma vez mortos

                                   expostos.

O que espero deles não é carne

                                   mas raiz e errância.

A experiência acumulada sendo

            o último da classe

            o único entre os outros

            o suspeito número um

            a prova no fundo do poço

apodreceu para adubar minha vontade.

 

(…)

 

Como cerzir um país com linhas várias

onde uma se quebra

outra a emenda

e por não se amarem se enovelam

orquídeas na mesma escarpa.

A voz arranha a pintura do carro,

reabre no dia uma herança de embargos.

 

O que está dito é ditado?

            Não temos guerra, nem terremoto

            nem ebola, ruína ou atentado

            não temos cisma nem avalanche

o que vemos se não é alegria

são seus disfarces

 

E os ouvidos, que letrados noutra música,

            se escalavram?

 

Tenho uma laranja nas mãos a faca

para salvar os gomos desvia

das partes cariadas.

A palavra descasca o país: num ermo botequim,

entre bacon e varejeiras, a pele de um conta

o que ele por sua boca não tramaria.

            Miríades fábulas que importa?

 

Sua sombra que a fraca luz projeta recusa

            a rede da casa-grande

            o título a prazo do barão em débito

            a cadeira del-rey

            a merda da casa-grande

            a dissertação elogiosa da selva

            o piano

a culpa de não amar o deus imposto

 

(…)

 

Discutimos sobre fresas grandes y pequeñas

et on dita u même temps que ce sont originales

lês traces de notre nouvel artiste:

— est-il um naïf?

O abismo do país se ilumina,

                        acelera minha ferida.

o que em mim celebra

                        cospe esculpe alucina.

 

A vergonha de quem não inventou a pólvora

virou bandeira de quem calçou o continente.

A voz não procura esse rastro

procura o sentido além daquel esperdiçado

porque não as inventamos

            teimamos em aferir

                        a roda

                        a pólvora

                        a palavra

 

Contra a blitz na memória

a Memória.

Contra o desprezo ao que dançamos

a Dança.

Contra o repúdio ao que falamos

a Fala.

 

Nos fundos do país a festa não termina

será uma para disfarçar outra guerrilha?

Quem a percorre

desde a sala

pensa nos esqueletos

que trepidam sobre outros emudecidos.

 

São nove horas da noite em 1844

            os presos assustam a Câmara

            e os coletes da cidade de Salvador.

            No subsolo da lei a insubmissão

            deborda em sambas de crioulos

            ou africanos?

            Serão idênticos ou mais diversos

            quando se ajuntam?

 

(…)

 

É possível amar onde o desembarque de escravos

se multiplicou como as moscas

                                               sobre as bananas?

Qué pretendes quando olvidas esta memoria

            la continuación del massacre?

            cette odeur de cheveux au feu?

            a fome como sintaxe?

 

A voz escassa raspa as unhas no caos.

Aquele de quem a bala não se enamorou,

vai seguro e não se espanta.

 

            Passeia a orla, tênis e bicicleta

            artefatos que sedam os calos.

            Vai como se, por dentro, a luta

            entre capitão do mato e escravo

            tivesse cessado. Vai ao ar livre

            contra a vigilância da morte.

            O tênis brando, roupa de marca

            documentos de exorcismo diário.

            Vai discreto e não balança,

            pedra alguma lhe tira o passo.

            Até que, desde dentro, a luta

            explode em seu encalço. Ia de

            tênis bicicleta, por que o abraçou

            a bala do itinerário desviada?

 

 

(…)


Ó como somos plásticos

            para olhar de esguelha

            e entender os mitos.

Mais uma série de ensaios

explica — o país era outro mas, iludidos,

deitamos gatos para acordar lebres.

Ante as versões

de spix, martius & company

            atenção, repare, escute

            a pulga atrás da orelha.

 

Como soou o país tocado pelas mil duzentas

e setenta e três línguas indígenas

antes que minasse

a nuvem, o vento, a tempestade?

            Como o recitam as cento e oitenta

            exiladas do dicionário?

            E as africanas que negociaram

            em senzalas e praças?

            E o português se arvorando

            em camaleão nos trópicos?

 

(…)

 

No país onde quem cala consente,

grassa outra tecelagem

            não gira humores

            não lubrifica sirenes

            hora extra não faz

Tece sem novelo a rede para as aves de rapina

            não se dá um medo

            se ama de filhos.

Como um bordado, retém o pano de quem

pensa dominar o desenho.

 

Tenho doze fôlegos e uma educação

para constranger os desavisados.

O que assisti ao entrar pelos fundos

da cidade não me calcinou as retinas

            ao contrário

encheu de impertinência os meus escritos.

            Os que fendem a pedra

            me ensinaram o avesso

            os papéis roídos

            a trituração por método

            o pai me instruiu que é por dentro

                        a ebulição da lava.

 

O país tem fendas grutas corredores

uma vocação para morder

que estremeceu Hans Staden

            mordemos a cauda e a cabeça

            deglutimos sem mastigar

            engolimos o sapo

            salivamos marimbondo

Sabemos que deus alarga a goela

quando tira os dentes.

Não cuspimos no fogo para não

minguar a crista.

 

Morremos pela boca, exceto Exu,

            guia de Tirésias

que desacata Gregório de Matos

Macunaíma e François Villon.

            Exu calibã

luva insuspeita de Shakespeare

caçador que tem em si a caça

e se irrita

preso a uma dezena de nomes.

 

(…)

 

A notícia desse espanto estilhaça ao meu lado

            por que me enviaram

            um postal de Luanda?

por que há tempos o litoral do país

            aprende outros continentes?

 

(…)

 

***

 

 

DESPEDIDA

 

Deixo o corpo, auê, ê.

Noutro campo

vejo os antigos.

 

Ergo a toalha

onde as cores são outras

(Lá fora gunga não chora).

 

Ergo espada com os antigos.

Noutro campo

aprendo o mesmo canto.

 

***

 

 

SÍLABA

 

Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida e tudo que se queira. Não está na boca e nela se arvora. Testa o sentido, duvida de si mesma. Vai ao baile, está nua ao meio-dia. Não é língua do suplício nem do vexame, desenrola os signos e se pronuncia.

 

 

 

literatura negra/afro-brasileira: um panorama crítico & atualizado

Um tigre_edimilson capa

Traçando genealogias estéticas, problematizando questões identitárias e esclarecendo os principais aspectos teóricos acerca da especificidade da produção literária inscrita por negros e negras brasileirxs, este artigo de Nazareth Fonseca oferece aportes valiosos para a reflexão acerca das formas de ressignificação da Negritude realizadas no Brasil por nomes destacados da geração mais recente de poetas.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Cultura/literatura negra, cultura/literatura afro-brasileira: impactos, paradoxos, contradições. In: PEREIRA, Edmilson de Almeida (org.). Um tigre na floresta dos signos. Estudos sobre poesia e demandas sociais no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010.

discutindo aplicações pedagógicas da Negritude

 

SEMANA AFRICA LOGO

 

A comunicação resumida a seguir será apresentada por mim na VII Semana da África, estando agendada para a Sessão 4 (ENSINO DA HISTÓRIA DE ÁFRICA E DESDOBRAMENTOS DA LEI 10.639/03), a ocorrer na sexta-feira (24/5), das 10h00 às 10h45, na Sala 1 do Centro de Estudos Afro-Orientais. Transcrevo também os poemas que pretendo brevemente analisar.


A POESIA DA NEGRITUDE COMO MATERIAL PEDAGÓGICO INTERCULTURAL: DELINEANDO “AFRO-HORIZONTES OXUMARESCENTES” PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 10639

Resumo:
No Brasil, a palavra negritude é utilizada como um suplemento de autenticidade para identificações negras, geralmente atribuído a sujeitos ou projetos coletivos nos quais se ressaltem a corporeidade “negona”, a politização ostensiva, ou o domínio sobre patrimônios culturais designados como afro. Não é comum, entretanto, encontrar um afrobrasileiro que inclua nesse patrimônio o movimento literário-filosófico protagonizado por artistas oriundos da África e da Diáspora na França da década de 1930, e no bojo do qual foi inventada a palavra négritude. Tratando-se, aparentemente, de uma referência de cunho erudito, não se pode menosprezar as implicações desse apagamento para a produtividade semântica do vocábulo negritude no imaginário brasileiro, induzindo à desconexão com as forças criativas que o forjaram e os textos que a ele se articularam. Mesmo restritos aos circuitos intelectuais, os valores da Negritude exerceram ponderável influência na modernização da cultura e da poesia afrobrasileiras. Nas literaturas de São Tomé e Príncipe, Moçambique e Angola, por sua vez, a perspectiva negritudinista disseminou-se largamente, incorporada a discursos poéticos investidos na emancipação cultural e subjetiva frente ao racismo colonial português. Pouco conhecida no Brasil, essa produção enriquece um corpus de textos que, a meu ver, precisa ser estrategicamente integrado aos programas pedagógicos baseados na lei 10639, objetivando deslocar vieses essencialistas para histórias e identidades negras, bem como disseminar as propostas diferenciais de humanismo e alteridade que a Negritude inspira. Nesse sentido, comentarei imagens selecionadas em poemas de autorias africanas e brasileiras, ressaltando os aprendizados interculturais que eles podem promover.

Palavras-chave: Negritude; Interculturalidade; Literatura Comparada.


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OFÍCIO DE FOGO E ARTE

[Cuti]

nossa é esta saga desenhando o silêncio em cores
rebeldia e incenso

ainda que as batalhas
tenham talhado de tão somente vermelho
lembranças de mar e terra
nosso é este futuro entre luz e sombra
este alto-relevo telúrico
agigantando-se no esboço de todas as madrugadas e no mosaico das tardes

em ondulação muscular galopam as tintas
ao comando de corações pensantes
enquanto gritos vão-se fazendo cantigas sábias
de ninar a memória e seus pincéis incandescentes

se ácidos céus de aço abafam a singela respiração onírica
um afro horizonte reabre seus vitrais
oxumarescendo a vida

nos cios dos séculos
banzaram aguadas lacrimais de anil
agora a mais sutil semelhança epidérmica da história
é linha que realça o elo
do mistério
ousadias de gingar o belo e semear vagalumes sobre as
telas

oceânica
esta energia coletiva extrapola a cena de naturezas-mortas
transfigura a moldura
colore a parede branca
e mergulha em vários planos a perspectiva de seus voos

verdeamarelas garatujas velhas ranzinzando a liberdade
a mão infinitiza em multiplicidade cromática, pele e
paisagem de sobejos desejos

tudo se emprenha de um incessante movimento
vários tons de melanina e a pulsação de um ritual aceso.

 

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CORAÇÃO EM ÁFRICA

[Francisco Tenreiro]

Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) —
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama polícroma da verdade do Negro
da inocência de Mac Gee) —;
três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillén
de coração em África com a impetuosidade viril de I too am America
de coração em África com as árvores renascidas em todas estações nos belos poemas de
                                                                                                                                      [Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do Chaka-
                                                                                                                                 [Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África.
De coração em África ao meio dia do dia de coração em África
com o Sol sentado nas delícias do zénite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros
amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas de olhos rubros    como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios
enquanto que à minha volta se sussurra olha o preto (que bom) olha um negro (óptimo),
                                                           [olha um mulato (tanto faz) olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa da tarde.
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha e adubados pela cal dos
                                                                                                                    [ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.