LETC47: bibliografia literária


painel afro-oculos_Cyrus Kabiru (Quênia)(painel de “afro-óculos” criados pelo artista queniano Cyrus Kabiru)

RUI, Manuel. Mulato de sangue azul. In: Regresso adiado. Contos. Lisboa: Cotovia, 2000.

HONWANA, Luis Bernardo. As mãos dos pretos. In: CHAVES, Rita (org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009. Coleção Para Gostar de Ler, n.44.

XITU, Uanhenga. “Mestre” Tamoda. In: “Mestre” Tamoda e Kahitu: contos. São Paulo: Ática, 1984.

 DIAS, João. Indivíduo preto. In: SAÚTE, Nelson (org.). As mãos dos pretos. Antologia do conto moçambicano. 2.ed. Lisboa: D. Quixote, 2000.

COUTO, Mia. O novo padre. In: O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

VIEIRA, Luandino. Zito Makoa, da 4ª classe. In: CHAVES, Rita (org.), 2009.

SAÚTE, Nelson. A mulher dos antepassados. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. Coleção Ponta de Lança.

FERNANDES, Andrea. O hóspede. In: PALLAS EDITORA (org.). Contos do mar sem fim: antologia afro-brasileira. Rio de Janeiro: Pallas; Guiné-Bissau: Ku Si Mon; Angola: Chá de Caxinde, 2010.

SEMEDO, Odete Costa. A lebre, o lobo, o menino e o homem do pote. In: CHAVES, Rita (org.), 2009

COUTO, Mia. Lenda de Namarói. In: Estórias abensonhadas. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

PEPETELA. Estranhos pássaros de asas abertas. In: ALMEIDA, Domingas de (org.). Como se viver fosse assim. Antologia do conto angolano. Luanda: UEA, 2009.

MELO, João. Natasha. In: Filhos da pátria. Rio de Janeiro: Record, 2008.

CHIZIANE, Paulina. As cicatrizes do amor. In: SAÚTE, Nelson (org.). As mãos dos pretos. Antologia do conto moçambicano. 2.ed. Lisboa: D. Quixote, 2000.

 Africana Eyelashes_Cyrus Kabiru (Quênia, 2014)

(“Africana Eyelashes”, Cyrus Kabiru, 2014)

poesia da negritude em língua portuguesa: pequena antologia

Francisco José TENREIRO
(São Tomé e Príncipe)

tenreiro


FRAGMENTO DE BLUES
(A Langston Hughes)

Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompete
toda a melancolia das noites de Geórgia:
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh! mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.

Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
– Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateu Buddy Baer
e Harlem abriu-se num sorriso branco

Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração;
– ah! ritmos negros da América
encharcam meu coração!

E se ainda fico triste
Langston Hughes e Countee Cullen
Vêm até mim
Cantando o poema do novo dia
– ai! os negros não morrem
nem nunca morrerão!

…logo com eles quero cantar
logo com eles quero lutar
– ai! os negros não morrem nem
nem nunca morrerão!

* * * * * * * * * * * * * *

CORAÇÃO EM ÁFRICA

Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) —
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama polícroma da verdade do Negro
da inocência de Mac Gee) —;
três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillén
de coração em África com a impetuosidade viril de I too am America
de coração em África com as árvores renascidas em todas estações nos belos poemas de
[Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do Chaka-
[Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África.
De coração em África ao meio dia do dia de coração em África
com o Sol sentado nas delícias do zénite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros
amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas de olhos rubros    como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios
enquanto que à minha volta se sussurra olha o preto (que bom) olha um negro (óptimo),
[olha um mulato (tanto faz) olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa da tarde.
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha e adubados pela cal dos
[ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.

* * * * * * * * * * * * * *


NEGRO DE TODO O MUNDO

O som do gongue
ficou gritando no ar
que o negro tinha perdido.

Harlém! Harlém!

América!

Nas ruas de Harlém
os negros trocam a vida por navalhas!

América!
Nas ruas de Harlém
o sangue de negros e de brancos
está formando xadrez.

Harlém!
Bairro negro!
Ring da vida!

Os poetas de Cabo Verde
estão cantando…
Cantando os homens
perdidos na pesca da baleia.
Cantando os homens
perdidos em aventuras da vida
espalhados por todo o mundo!

Em Lisboa?
Na América?
No Rio?

Sabe-se lá!…

— Escuta.
É a Morna…

Voz nostálgica do cabo-verdiano
chamando por seus irmãos!

Nos terrenos do fumo
os negros estão cantando.

Nos arranha-céus de New-York
os brancos macaqueando!

Nos terrenos da Virgínia
os negros estão dançando.

No show-boat do Mississípi
os brancos macaqueando!

Ah!
Nos estados do sul
os negros estão cantando!

A tua voz escurinha
está cantando
nos palcos de Paris.

Folies-Bergères.

Os brancos estão pagando
o teu corpo
a litros de champagne.

Folies-Bergères!

Londres-Paris-Madrid
na mala de viagens…

Só as canções longas
que estás soluçando
dizem da nossa tristeza e melancolia!

*

Se fosses branco
terias a pele queimada
das caldeiras dos navios
que te levam à aventura!

Se fosses branco
terias os pulmões cheios
de carvão descarregado
no cais de Liverpool!

Se fosses branco
quando jogas a vida
por um copo de whisky
terias o teu retrato no jornal!

Negro!
Na cidade da Baía
os negros
estão sacudindo os músculos

Ui!
Na cidade da Baía
os negros
estão fazendo macumba.

Oraxilá! Oraxilá!

Cidade branca da Baía.
Trezentas e tantas igrejas!

Baía…
Negra. Bem negra!
Cidade de Pai de Santo.

Oraxilá! Oraxilá!

* * * * * * * * * * * * * *


MÃOS

Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.
Mãos que na cera perdida encontram o orgulho do Benin.
Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro
e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:
plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim
e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.
Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,
mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva
para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres
adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças
o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.

Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra
o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.
Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.
Mãos correndo com o harmattan nuvens de gafanhotos livres
criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.
Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da ventura
e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária
e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!

Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.

Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas
Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização
Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos
Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados
Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens
Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:
Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!

Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!

Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é
dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.
Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã
criastes religião e arte, religião e amor.

Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!

* * * * * * * * * * * * * *


CANÇÃO DO MESTIÇO

Mestiço

Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.

Mestiço!

E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição.

Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
– mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!
Mas eu não me danei…
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!…

Mestiço!

Quando amo a branca
sou branco…
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é…

* * * * * * * * * * * * * *


CORPO MORENO

Se eu dissesse que o teu corpo moreno
tem o ritmo da cobra preta deslizando
mentia.
Mentia se comparasse o teu rosto fruto
ao das estátuas adormecidas das velhas civilizações de África
de olhos rasgados em sonhos de luar
e boca em segredos de amor.

Como a minha Ilha é o teu corpo mulato
tronco forte que dá
amorosamente ramos, folhas, flores e frutos
e há frutos na geografia do teu corpo.

Teu rosto de fruto
olhos oblíquos de safís
boca fresca de framboesa silvestre
és tu.

És tu minha Ilha e minha África
forte e desdenhosa dos que te falam à volta.

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José CRAVEIRINHA
(Moçambique)

craveirinha

QUANDO O JOSÉ PENSA NA AMÉRICA

Carta para a Doreen Martin

Doreen:
Na Mafalala quando o José pensa na América
não inveja nem um só arranha-céus de Manhattan
não deslumbram José os feéricos letreiros da Broadway
e não convencem José as vitórias do marinheiro Popeye
só depois de ingerir uma lata de espinafres de publicidade.

Na Mafalala quando o José pensa na América
velhas lágrimas de spiritual salgam os encardidos
asfaltos de água do grande Mississipi com muitas recordações
e numa alegre avenida central da cidade de Chicago
uma farra de tiros desconsidera a camisa
de um cliente que ia comprar no supermercado
uma coca-cola para o seu lanche na fábrica
e a seguir ainda pretendem que o tal José
admire o modernismo da cidade de Chicago
quando de vez em quando ele põe-se
a pensar para que servem por exemplo
uma meia dúzia de Packards novos
para duzentos milhões de americanos
nas mil e uma auto-estradas da América

E nas fábulas verídicas
de locais como Nova Orleans e Harlem
entra Louis Armstrong
sai Jess Owens.
Entra Joe Louis
sai Marian Anderson.
Entra Duke Ellington
sai Lena Horne.
Entra Paul Robeson
e sai Richard Wright todos com suas quinhentas
mil famílias incluindo a família do José
e que Duke Ellington faz o piano
resolver uma série de problemas
de jazz enquanto um obsceno
Cadillac azul lascivo brilha
os cromados por conta
da General Motors.

Enfim!
Tudo isto, Doreen, tudo isto
é sempre uma fortuita coincidência
entre os firmes princípios da Casa Branca
algumas toneladas de pacotes de chewing-gum
muitas palmas à voz de Nat King Cole e à sua carapinha alisada
e os efeitos da excessiva pintura dos bastões
pincelando de vermelho o suor
dos negros democraticamente.

E
mais ou menos trata-se de uma questão
abstracta mas as crianças que nascem obrigatoriamente
no Xipamanine ou brincam no anti-luxuoso lixo do Harlem
quando puderem falar hão-de nos gritar na cara o contrário
mesmo que um agente especial oiça em Nova Iorque
e comunique logo a certos funcionários de L. M.

Agora, amiga Doreen
agora que o José viu com os próprios olhos a Marilyn
12 meses com um sorriso e nada mais a tapá-la
e das unhas aos cabelos toda ela colorida
ao relento a aquecer as 12 páginas do calendário
o José admira sinceramente mais o Pato Donald
o José gosta sinceramente mais de Bucha e Estica
o José aprecia sinceramente mais um Rato Mickey
e além disso o José simpatiza sinceramente mais
com a filosofia inverosímil dos irmãos Marx
a ouvirem os ancestrais dialectos do ritmo
a bater nos metais o feitiço dos blues
de olhos afundados para dentro como os surumeiros
à décima quinta fumaça quando o medo não tem sentido
e a verem o novo dogma dos sprinters chegando em 1.° à meta
ou de luvas dois homens definindo a ideologia de um “nocaut”
ou ainda a descobrirem a magia revelatória dos livros
com os avós e os netos nos paraísos de minérios
como os pais e as filhas no gozo dos algodoeiros
e tudo junto na esquina do Mundo a meio metro
de um lindo juke-box a tocar-lhe barato
“made in Estados Unidos da América”
enfiando-lhe um simples cêntimo.

E no meio disto tudo, Doreen
sai uma terrível foto feminina publicamente confidencial
mas não passa de Marilyn Monroe uma star cheia de hipóteses
mas o José da Mafalala quando pensa na América
por acaso não pensa nas hipóteses da Marilyn
a mostrar a toda a gente o lucro lógico
dos sistemas de propaganda da América
U.S.A…. U.S.A…. U.S.A.!!!

Mas sabes, Doreen?
Uma espessa sombra de gente oscila os pés indolentemente
no terceiro poste de uma rua em frente a uma esquadra
e o José lembra-se que Jesse Owens foi aos Jogos
e contra todas as expectativas nazis ganhou 4 de ouro
e sabem onde foi isso? Mesmo no blindado coração do Hitler.
E além do mais o José também se lembra que Joe Louis na desforra
pôs Max Schmmeling K.O. logo ao primeiro round
que Armstrong quando assopra o trompete
os agudos dão resposta concludente
às dúvidas sentimentais da Klu-Klux-Klan
e o retórico par de botas de Charlot

E para terminar esta carta, Doreen
os membros da Klu-Klux-Klan podem zangar-se comigo
mas pouco mais ou menos já sabem quase tudo
o que o José pensa sozinho ali na Mafalala
quando o José pensa na loura Marylin Monroe
pobre milionária da América do Norte
a descontar as insónias
dos outros o ano inteiro
toda nua.

* * * * * * * * * * * * * *


QUERO SER TAMBOR

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

* * * * * * * * * * * * * *


ÁFRICA

Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rols-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de «strip-tease» e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do pasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meu povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.

* * * * * * * * * * * * * *

XIGUBO

Minha mãe África
meu irmão Zambeze
Culucumba! Culucumba!

Xigubo estremece terra do mato
e negros fundem-se ao sopro da xipalapala
e negrinhos de peitos nus na sua cadência
levantam os braços para o lume da irmã lua
e dançam as danças do tempo da guerra
das velhas tribos da margem do rio.

Ao tantã do tambor
o leopardo traiçoeiro fugiu.
E na noite de assombrações
brilham alucinados de vermelho
os olhos dos homens e brilha ainda
mais o fio azul do aço das catanas.

Dum-dum!
Tantã!
E negro Maiela
músculos tensos na azagaia rubra
salta o fogo da fogueira amarela
e dança as danças do tempo da guerra
das velhas tribos da margem do rio.

E a noite desflorada
abre o sexo ao orgasmo do tambor
e a planície arde todas as luas cheias
no feitiço viril da insuperstição das catanas.

Tantã!
E os negros dançam ao ritmo da Lua Nova
rangem os dentes na volúpia do xigubo
e provam o aço ardente das catanas ferozes
na carne sangrenta da micaia grande.

E as vozes rasgam o silêncio da terra
enquanto os pés batem
enquanto os tambores batem
e enquanto a planície vibra os ecos milenários
aqui outra vez os homens desta terra
dançam as danças do tempo da guerra
das velhas tribos juntas na margem do rio.

* * * * * * * * * * * * * *
O BULE E O BLUE

Seu
bule na mão
encho a chávena de chá.

Provo um gole.
Ergo-me quase ao tecto
um anjo doirado em ritmo blue
a teclar piano num arco-íris do Céu.

Oh! Bessie Smith, oh! Bessie Smith!

Era aquele o bule
do chá que Maria tomava.

Oh! Ponho-me blue na voz
de Bessie Smith, oh! ponho-me blue
na voz de Bessie Smith!

Fulgentes asas de andorinhas batem palmas
oh! Batem palmas os blues das andorinhas…

Oh! Bessie Smith, oh! Bessie Smith!

Sou um anjo doirado bamboleando blue
blue
blue
Oh! Bessie Smith, oh! Bessie Smith!

Era aquele o bule
do chá que a Maria tomava
como quem escuta um blue.

Mais um gole ó Zé mais um gole de chá
mais um gole para seres um anjo blue bamboleando
nas teclas do piano de arco-íris de Céu
lá onde Maria vive o Éden merecido.

Oh! Bessie Smith!
Oh! Bessie Smith!

O mundo está blue
blue
blue!

* * * * * * * * * * * * * *


AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE

Pai:
as maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade filial não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
ante os meus sócios Bucha e Estica no ecrã todo
e para sempre no zinco um tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: – “Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.”

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Algezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e o teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama do hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o “Trinta-Diabos” de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de “bicicleta” à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas dos leões do Circo Pagel
nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no xitututo Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas doca à dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen O’Sullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme Trazan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o “Cascabulho” para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardito, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente inglês disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofismas nas covinhas da face
e eu também é que mudámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de sécuas ávidos sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza afro-algarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro extra-português
número UM Craveirinha moçambicano!

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MÃE

Minha Mãe:
Trago a resina das velhas árvores
da floresta nas minhas veias.
E a sina de nascença
no meio das baladas à volta da fogueira
tu sabes como é sempre uma dor nova
sabes ou não sabes, minha Mãe?

Sabes ou não sabes
o mistério de olhos inflamados de macho
que um dia encontraste no teu caminho
de tombasana de pés descalços?

Sabes ou não sabes, Mãe
a resina das velhas árvores plantadas pelos espíritos
as blasfémias dos mortos salgando as raízes virgens
e as grandes luas de ansiedade esticando
as peles dos tambores enraivecidos
e dando às folhas das palmeiras
o brilho incandescente das catanas nuas?

E no sabor do encantamento, Mãe
dos nossos desenfeitiçados feitiços ancestrais
o exorcismo ingénuo das tuas missangas
o maravilhoso mecheu das tuas canções
e o segredo do teu corpo possuído
mas de materno sangue inviolável
donde a minha sina nasceu.

No
espaço da tua sepultura de negra
sabes ou não sabes a verdade
agora sabes ou não sabes
minha Mãe?

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UM CÉU SEM ANJOS DE ÁFRICA
(À Guilhermina e ao Egídio)

Detinha
a menina de cinco anos
tinha pai e tinha mãe
e tinha duas irmãs, Senhor!

Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de retalhos de chita
e fazia duas covinhas de ternura na face
quando sorria, Senhor!

Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de ágeis pernas de pano
olhos brilhantes de cabeças de alfinete
e fulvos cabelos de maçarocas maduras
que a febre derradeira da Detinha
não contaminou.

Olhos cerrados suavemente
boneca Detinha dos seus pais
adormeceu de tétano para sempre
mãozinhas postas sobre o peito
um vestido de renda branca
mais um anjo nosso partiu
no adeus silencioso de boneca
verdadeira num fúnebre berço branco
nossa Detinha tão pura na Munhuana
que até ainda não sabia que era mulata.

Oh! África!
Quantos anjos já nasceram das tuas Munhuanas de amor
e quantas Detinhas partiram para sempre dos teus braços
e quantos filhos inocentes deixaram o teu colo maternal
geraram rios e rios de lágrimas no teu rosto escravizado
e dormiram sem pesadelos na vasta solidão
de um coval mínimo de criança infelizmente
sem as duas covinhas na face
quando sorriam, Senhor?

E ainda não temos um talhão de céu azul para todos
e novamente uma África para amar à nossa imagem
num anjo verdadeiro anjo também cor da nossa pele
e da mesma carne mártir de feitiços estranhos
e o nosso sangue vermelho vermelho quente
como o sangue vermelho de toda a gente.

Para o tal céu onde existe o tal Deus que não sabe
línguas de África línguas de África línguas de África
e só sorriem anjos brancos de asas impossíveis de arminho
precisamente onde esse arminho só pode ser algodão de sofrimento
ainda não há lugar para meninas puras da cor
das meninas filhas e netas de mães e avós pretas
da nossa Detinha que partiu ainda boneca
e tão pura que ainda não sabia que era mulata.

E brinquedos de trapos não se misturam na Munhuana
com bonecas loiras de sapatos e tudo
porque os pais arianos rezando nas catedrais
não deixam, Senhor!

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PRIMAVERA

Estamos sentados.
E nefelibatas bebemos coca-cola
nas públicas cadeiras da praça.

E
sobre as envenenadas acácias
andorinhas geometrizam o azul do céu
e despercebidos passarinhos africanos
cantam nos verdes braços vegetais
de um parque da cidade moçambicana
onde jovens discutem as pernas de Brigitte Bardot
e abúlicas mãos tamborilam
no tampo da mesa fúteis dedos.

Mas um grupo de estivadores
vem do cais vestindo
sarapilheiras
e passa a três metros e meio
das cômodas cadeiras da praça
enquanto
cocacolizados
odes cantam nos ramos os bilo-bilana
e na surdina das tímidas meias-palavras
e subentendidos silêncios
ansiosos todos esperamos
indolentes as flores
da nossa comum Primavera

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CANÇÃO NEGREIRA

Amo-te
com as raízes de uma canção negreira
na madrugada dos meus olhos pardos.

E derrotas de fome
nas minhas mãos de bronze
florescem languidamente na velha
e nervosa cadência marinheira
do cais donde os meus avós negros
embarcaram para hemisférios da escravidão.

Mas se as madrugadas
das minhas órbitas violentadas
despertam as raízes do tempo antigo …
mulher de olhos fadados de amor verde-claro
ventre sedoso de veludo
lábios de mampsincha madura
e soluções de espasmo latejando no quarto
enche de beijos as sirenas do meu sangue
que meninos das mesmas raízes
e das mesmas dolorosas madrugadas
esperam a sua vez.

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MANIFESTO

Oh!
Meus belos e curtos cabelos crespos
e meus olhos negros como insurrectas
grandes luas de pasmo na noite mais bela
das mais belas noites inesquecíveis das terras do Zambeze.

Como pássaros desconfiados
incorruptos voando com estrelas nas asas meus olhos
enormes de pesadelos e fantasmas estranhos motorizados
e minhas maravilhosas mãos escuras raízes do cosmos
nostálgicas de novos ritos de iniciação
duras da velha rota das canoas das tribos
e belas como carvões de micaia
na noite das quizumbas
E minha boca de lábios túmidos
cheios da bela viribilidade ímpia de negro
mordendo a nudez lúbrica de um pão
ao som da orgia dos insectos urbanos
apodrecendo na manhã nova
cantando a cega-rega inútil das cigarras obesas.
Oh! e meus dentes brancos de marfim espoliado
puros brilhando na minha negra reincarnada face altiva!
e no ventre maternal dos campos da nossa indisfrutada colheita
de milho
o cálido encantamento selvagem da minha pele tropical.

Ah! E meu
corpo flexível como o relâmpago fatal da flecha de caça
e meus ombros lisos de negro da Guiné
e meus músculos tensos e brunidos ao sol das colheitas e da carga
na capulana austral de um céu intangível
os búzios de gente soprando os velhos sons cabalísticos de África.

Ah!
o fogo
a lua
o suor amadurecendo os milhos
a irmã água dos nossos rios moçambicanos
e a púrpura do nascente no gume azul dos seios das montanhas

Ah, Mãe África no meu rosto escuro de diamante
de belas e largas narinas másculas
frementes haurindo o odor florestal
e as tatuadas bailarinas macondes
nuas
na bárbara maravilha eurítmica
das sensuais ancas puras
e no bater uníssono dos mil pés descalços.

Oh! e meu peito da tonalidade mais bela do breu
e no embondeiro da nossa inaudita esperança gravado
o totem mais invencível tótem
e minha voz estentória de homem do Tanganhica
do Congo, Angola, Moçambique e Senegal.
Ah! Outra vez eu chefe zulo
eu azagaia banto
eu lançador de malefícios contra as insaciáveis
pragas de gafanhotos invasores

Eu tambor
Eu suruma
Eu negro suaíli
Eu Tchaca
Eu Mahazul e Dingana
Eu Zichacha na confidência dos ossinhos mágicos do Tintholo
Eu insubordinada árvore da Munhuana
Eu tocador de presságios nas teclas das timbila chopes
Eu caçador de leopardos traiçoeiros
Eu xiguilo no batuque

E nas fronteiras de águas do Rovuna ao Incomáti
Eu-cidadão dos espíritos das luas
carregadas de anátemas de Moçambique.

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GRITO NEGRO

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
E fazes-me tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não
Patrão!

Eu sou carvão!
E tenho que arder, sim
E queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão!
Tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas da maldição
Arder vivo como alcatrão, meu Irmão
Até não ser mais tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
Tenho que arder
E queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!
Eu serei o teu carvão
Patrão!

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MACHIMBOMBOS

Nas tépidas ilhargas
dos machimbombos os frutos
silvestres aos cachos vão amadurecendo
ao mobiloil do desespero no estribo
enquanto o alcatrão
da rua em comissuras de saibro
plagia o azimute das bocas das mamamnas
perplexas
na paragem
radical.

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CIVILIZAÇÃO
(Ao Cansado Gonçalves)

Antigamente
(antes de Jesus Cristo)
os homens erguiam estádios e templos
e morriam na arena como cães.

Agora…
também já constroem Cadillacs.

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 CANTO DO NOSSO AMOR SEM FRONTEIRA

Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós
só de ver puxar nós também puxamos
nas transpiradas ruelas antigas
da ilha de Moçambique.

Oh, beijemo-nos, amor
teus cabelos sussurrantes
na esplêndida nudez morena do meu peito
que são nossos os céus sulcados de xiricos e aviões
e nossos irmãos os povos de outros paralelos
até mesmo os pobres «boers» solitários
na cruzada de amor em que me abraças numa rua
principal da cidade de Pretória descontraidamente
como se fosse no bairro de Xipamanine.

Mas bem fundo das almas
e dos corpos tatuados de esperança
o clitóris das montanhas nos sexos das nuvens
pátria do nosso desespero mais desesperado
pátria dos pés descalços na brancura do algodão
pátria de beijos e promessas de mais beijos
é o nosso genuíno grito mais gritado
a levantar no cosmos a beleza do nome
não renegável de Moçambique.

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PENA

Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.

Mas não me chames negro.

Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.

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BOATO DO VELHO USSENE

Esposa e filhos do velho Ussene
são genuínos espíritos
de fábula.

Por agora o boato apenas põe o velho Ussene
refém-camionista sequestrado
no meio da mata.

Ou
falsa africanitude ou pura africanice
enquanto este feitiço não souber
onde está ou não está o velho Ussene
Mas quando?
A mulher e os filhos vão magicando
a boa nova do velho Ussene
mãos no volante
a saltar dos boatos
e a chegar a casa.

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POEMA DO FUTURO CIDADÃO

Vim de qualquer parte
de uma Nação que ainda não existe,
Vim e estou aqui!

Não nasci apenas eu
nem tu nem nenhum outro…
mas Irmão…

Mas
tenho amor para dar às mãos-cheias.
Amor do que sou
e nada mais.

E
tenho no coração
gritos que não são meus somente
porque venho de um País que ainda não existe.

Ah! Tenho meu Amor a todos para dar
do que sou.
Eu!
Homem qualquer
cidadão de uma Nação que ainda não existe.


Noémia de Souza

(Moçambique)

noemia de sousa

DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimba chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
spirituals negros de Harlem.
«Let my people go»
— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo —,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
«Let my people go».

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo…
Dentro de mim,
deixa passar o meu povo,
«oh let my people go…»
E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha Irmã.

Escrevo…
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, o meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irmão — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio
— «let my people go».
Oh let my people go.

E enquanto me vierem de Harlem
vozes de lamentação
e os meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insónia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
Let my people go
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.

******************************

POEMA PARA RUI DE NORONHA – NO ANIVERSÁRIO DA SUA MORTE

Nas matas selvagens da nossa terra natal,
os trilhos abertos a golpe de catana

tomaram uma direcção emocionantemente nova,
única e imutável.
Caminho com picos, ah sim, com espinhos,
mas caminho para nossos pés lanhados,
levando-nos para lá, Poeta…
Ante os novos horizontes abertos em dádiva,
nossas almas passivas aprendem a querer
com força, com raiva,
e se erguem, guerreiras, para a dura luta
e as bocas são uma linha forte e cerrada
no seu não decisivo como sentinela alerta.

Rui de Noronha,
nesta nova África de certezas e forças restauradas,
nos meio dos “paixões” e das bebedeiras do Natal,
vens-me tu, torturado e solitário,
ainda projectado para os fundos abismos do teu eu,
mergulhado em verdes precipícios de tédio
e insatisfação…
Vens-me sangrando de teus amores, Poeta,
tens amores inumanos
com desesperos suicídas e orgulhos brâmanes
te tomando toda a vida de homem.

Mas se tu me vens, Poeta,
desarmado e trágico,
eu te recebo fraternalmente
na capulana quente da minha compreensão
e te embalo com a música da mais doce canção
ouvida da minha cocuana negra…
E tu dormes, Poeta,
dorme teu sono tão desejado,
repousa em fim dessas fictícias tragédias só tuas,
e não atentes na canção…
Deixa que a sua carícia te sare as feridas,
mas não atentes nelas, não!
Que te pode despertar o xipócué[1] do remorso
pois traz em si os feitiços mais poderosos
dos ngomas de Maputo
donde veio minha avó negra.
E talvez te pergunte, docemente:
ah, que fizeste de mim, Poeta,
cego e surdo e insensível,
que fizeste de Áfica, Poeta?
– Que passaste e não a viste?
– Que se ergueu e não a sentiste?
– Que gritou e não a ouviste?
E os remorsos te seriam tão dolorosos
como matacanhas[2] te invadindo o corpo todo, Poeta!

Ai dorme, dorme, Rui de Noronha,
meu irmão,
continua dormindo aprisionado
na palhota maticada[3] do teu eu.
Não atentes na canção – é tarde…

Mas o archote, murcho e fraco,
que as tuas mãos diáfanas mal logravam suster,
deixa que nós o levemos!
Embebê-lo-emos na resina das novas ânsias,
espevitá-lo-emos nas nossas fogueiras acesas,
manter-lhe-emos a vida chama
com lume das nossas esperanças sempre renovadas!

E depois, ah depois,
erguidos ao alto da Vida como um estandarte
por nossas brônzeas, fortes mãos
que a sua chama sanguínea de fulgor inextinguível
nos seja guia e inspiração
esporeando a revolta nascida nas veias entumecidas.

Como um cometa
atravessando a noite de nossos peitos esmagados.


[1] fantasma

[2] Bicho do pé

[3] Casa de chão de terra batida

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JUSTIFICAÇÃO

Se o nosso canto negro é simultaneamente
baço e ameaçador como o mar
em noites de calmaria;
se a nossa voz é rouca e agreste
só se abrindo em gritos de rebeldia;
se é ao mesmo tempo amarga e doce a nossa poesia
como suco de nhantsumas silvestres;
se é encovado e profundo o nosso olhar
rasgando-se impávido à luz do dia;
se são disformes e gretados nossos pés espalmados
de trilhar caminhos ingratos;
se a nossa alma se fechou para a alegria
e só dá hospedagem ao ódio e à revolta
– não nos culpes a nós, irmão vindo das ruas da cidade.

Que entre nós e o sol se interpuseram
grades feias de escravidão,
grades negras e cerradas a impedir-nos de tostar
de verdadeira felicidade,

Mas ai, irmão vindo das ruas da cidade!
Nosso firme sentido de justiça, nossa indómita vontade a nascer
nossa miséria comum vestida de sacas rotas e imundas,
nossa própria escravidão
serão o calor e o maçarico que fundirão
para sempre as grossas colunas que nos zebravam a vida inteira
e lhe arrancaram todo o jeito doce e inexprimível de vida.

******************************

SAMBA

No oco salão de baile
cheio das luzes fictícias da civilização
dos risos amarelos
dos vestidos pintados
das carapinhas desfrizadas da civilização,
o súbito bater da bateria do jazz
soou como um grito de libertação,
como uma lança rasgando o papel celofane das composturas forçadas.
Depois,
veio o som grave do violão
a juntar-lhe o quente latejar das noites
de mil ânsias de Mãe-África,
e veio o saxofone
e o piano
e as .marocas matraqueando ritmos de batuque,
e todo o salão deixou a hipocrisia das composturas encomendadas
e vibrou.
Vibrou!
As luzes fictícias deixaram de existir.
E quem foi que disse que não era o luar dos shigom belas,
aquela luz suave e quente que se derramou no salão?
Quem disse que as palmeiras e os coqueiros,
os cajueiros
os canhoeiros,
não vieram com suas silhuetas balouçantes
rodear o batuque?
Ah! na paisagem familiar,
os risos se tornaram brancos como mandioca
os requebros na dança traziam a febre primitiva
de batuques distantes,
e os vestidos brilhantes da civilização desapareceram
e os corpos surgiram, vitoriosos,
sambando e chispando,
dançando, dançando…
Os ritmos fraternos do samba,
trazendo o feitiço das macumbas,
o cavo bater das marimbas gemendo
lamentos despedaçados de escravo,
oh ritmos fraternos do samba quente da Baía!
Pegando fogo no sangue inflamável dos mulatos,
fazendo gingar os quadris dengosos das mulheres,
entornando sortilégio e loucura
nas pernas bailarinas dos negros…
Ritmos fraternos do samba,
herança de África que os negros levaram
no ventre sem sol dos navios negreiros,
e soltaram, carregados de algemas e saudade,
nas noites mornas do Cruzeiro do Sul!
Oh ritmos fraternos do samba,
acordando febres palustres no meu povo
embotado das doses do quinino europeu…
ritmos africanos do samba da Baía,
com maracas matraqueando compassos febris
— que é que a baiana tem, que é? —
violões tecendo sortilégios de xicuembos
e atabaques soando, secos, soando…
Oh ritmos fraternos do samba!
Acordando o meu povo adormecido à sombra dos imbondeiros
dizendo na sua linguagem encharcada de ritmos
que as correntes dos navios negreiros não morreram, não,
só mudaram de nome,
mas ainda continuam,
continuam,
oh ritmos fraternos do samba!

******************************


NOSSA VOZ
(Ao J. Craveirinha)

Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens
sobre a indiferença assassina de todos.
Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão
nossa voz ardente como o sol das malangas
nossa voz atabaque chamando
nossa voz lança de Maguiguana
nossa voz, irmão,
nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade
e revolucionou-a
arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

E acordou remorsos de olhos amarelos de hiena
e fez escorrer suores frios de condenados
e acendeu luzes de esperança em almas sombrias de desesperados…

Nossa voz, irmão!
nossa voz atabaque chamando.

Nossa voz lua cheia em noite escura de desesperança
nossa voz farol em mar de tempestade
nossa voz limando grades, grades seculares
nossa voz, irmão! nossa voz milhares,
nossa voz milhões de vozes clamando!

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas,
nossa voz gorda de miséria,
nossa voz arrastando grilhetas
nossa voz nostálgica de ímpis
nossa voz África
nossa voz cansada da masturbação dos batuques da guerra
nossa voz gritando, gritando, gritando!
Nossa voz que descobriu até ao fundo,
lá onde coaxam as rãs,
a amargura imensa, inexprimível, enorme como o mundo,
da simples palavra ESCRAVIDÃO:

Nossa voz gritando sem cessar,
nossa voz apontando caminhos
nossa voz xipalapala
nossa voz atabaque chamando
nossa voz, irmão!
nossa voz milhões de vozes clamando, clamando, clamando!

******************************

PORQUÊ

Por que é que as acácias de repente

floriram flores de sangue?
Por que é que as noites já não são calmas e doces,
por que são agora carregadas de eletricidade
e longas, longas?
Ah, por que é que os negros já não gemem,
noite fora,
Por que é que os negros gritam,
gritam à luz do dia?

******************************

SE ME QUISERES CONHECER

Para Antero

Se me quiseres conhecer,
estuda com olhos de bem ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas
talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.
Ah! essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida
boca rasgada em feridas de angústia,
mãos enorme, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura…
Torturada e magnífica,
altiva e mística,
África da cabeça aos pés,
– ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos do muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melodia se evolando
duma canção nativa noite dentro…

E nada mais me perguntes,
se é que me queres conhecer…
Que não sou mais que um búzio de carne,
onde a revolta de África congelou
seu grito inchado de esperança.
******************************

NEGRA

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias…
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atração, crueldade,
animalidade, magia…
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra…
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE.

******************************

SÚPLICA

Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez…

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota — a humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
— mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria, acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos,
e no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume
a palhota que vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…

E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

— Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:

Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

******************************


A BILLIE HOLIDAY, CANTORA

Era de noite e no quarto aprisionado em escuridão
apenas o luar entrara, sorrateiramente,
e fora derramar-se no chão.
Solidão. Solidão. Solidão.
E então,
tua voz, minha irmã americana,
veio do ar, do nada nascida da própria escuridão…
Estranha, profunda, quente,
vazada em solidão.
E começava assim a canção:
“Into each heart some rain must fall…”
Começava assim
e era só melancolia
do princípio ao fim,
como se teus dias fossem sem sol
e a tua alma aí, sem alegria…
Tua voz irmã, no seu trágico sentimentalismo,
descendo e subindo,
chorando para logo, ainda trêmula, começar rindo,
cantando no teu arrastado inglês crioulo
esses singulares “blues”, dum fatalismo
rácico que faz doer
tua voz, não sei porque estranha magia,
arrastou para longe a minha solidão…
No quarto às escuras, eu já não estava só!
Com a tua voz, irmã americana, veio
todo o meu povo escravizado sem dó
por esse mundo fora, vivendo no medo, no receio
de tudo e de todos…
O meu povo ajudando a erguer impérios
e a ser excluído na vitória…
A viver, segregado, uma vida inglória,
de proscrito, de criminoso…
O meu povo transportando para a música, para a poesia,
os seus complexos, a sua tristeza inata, a sua insatisfação…
Billie Holiday, minha irmã americana,
continua cantando sempre, no teu jeito magoado
os “blues” eternos do nosso povo desgraçado…
Continua cantando, cantando, sempre cantando,
até que a humanidade egoísta ouça em ti a nossa voz,
e se volte enfim para nós,
mas com olhos de fraternidade e compreensão!

******************************


Agostinho NETO

(Angola)

angoneto selos

COM OS OLHOS SECOS

Com os olhos secos
— estrelas de brilho inevitável
Através do espírito
Sobre os corpos inânimes dos mortos
Sobre a solidão das vontades inertes
Nós voltamos
Nós estamos regressando África
E todo o mundo estará presente
No super-batuque festivo
Sob as sombras do Maiombe
No Carnaval grandioso
Pelo Bailundo pela Lunda
Nós voltamos África
Estrelas de brilho irresistível
com a palavra escrita nos olhos secos
— LIBERDADE

* * * * * * * * * * * * * *


ADEUS À HORA DA LARGADA

Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

* * * * * * * * * * * * * *


ASPIRAÇÃO

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

Ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
e a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
nos subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu Desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.
(1949)

* * * * * * * * * * * * * *


POEMA

Apetece-me escrever um poema.

Um poema fechado dentro de si
para ser compreendido
apenas
pelos passarinhos que chilreiam lá fora
sobre as três árvores
da minha única paisagem;
para ser entendido
pela canção da seiva
circulante no verde das ervas
do caminho áspero da encosta;
e pelo brilho do Sol
e pelo caráter íntegro dos homens.

Um poema que não sejam letras
mas sangue vivo
em artérias pulsáteis dum universo matemático
e sejam astros cintilantes
para calmas noites
de invernos chuvosos e frios
e seja lume para acolher gazelas
que pastam inseguras
nos acolhedores campos da imensa vida;
amizade para corações odientos
motor impelindo o impossível
para a realidade das horas;
cântico harmonioso para formosura dos homens.

Um poema
(ah! quem comparou a África a uma interrogação cujo ponto é Madagascar?)
Um poema solução
resolvendo a curva interrogativa da imagem
em linha reta da afirmação;
e a beleza das florestas virgens,
a precisão da engrenagem da existência
o som fantástico do trovejar sobre pedras,
os cataclismos fluviais
pendentes sobre as frágeis canoas do rio Zaire,
o claro arrebol dos olhos dos homens.

Um poema traçado sobre aço
escrito com as flores da terra
e com os braços esguios da podridão;
esculpido no amor
que exala a esperança daquele meu amigo
a esta hora com a tanga ensopada
no suor do seu dorso;
com as canções adocicadas do quissange ao luar;
e as gargalhadas infantis para a minha amada;
com o calor simpático
do corpo sangrento dos homens.

Um poema fechado
— longo e imperceptível
em que amor e ódio entrelaçados
sejam a síntese da discordância
para ser cantado em todas as línguas
guiado pelo som da marimba e do piano;
ritmo de batuque enxertado sobre as valsas
de outra mocidade;
harmonia de xinguilamentos
sobre o bárbaro matraquear da máquina de escrever,
grito aflito no vácuo
debatendo-se para encontrar vibração de matéria
e a aspiração dos homens.

Mas não escreverei o poema

Em que subterrâneos circularia
o ar irrespirável da violência?
Nas cavernas dos teus pulmões
ó caften das vielas sórdidas
do conformismo?
Ou na avidez dos quilômetros intestinos
dos chacais?
Ou nas cavidades prostituídas do coração
infame do esclavagismo?
Ou nas goelas
da desonestidade inconsciente?

Não escreverei o poema.

Escreverei cartas à minha amada
preencherei os espaços claros dos impressos
com letra impecável
e nos intervalos
cantarei canções afro-brasileiras.
Sonharei.
Sonharei com os olhos do amor
encarnados nas tuas maravilhosas mãos
de suavidade e ternura.

Sonharei com aqueles dias de que falavas
quando te referiste à Primavera.

Sonharei contigo.
E com o prazer de beber gotas de orvalho
na relva
deitado ao teu lado
ao Sol, — uma praia furiosa lá ao longe.
E ficará dentro de mim
a amargura de não escrever o poema.
Nele há tantas amarguras!

Não escreverei o poema.

Direi simplesmente
que o colosso de certeza na humanidade do Universo
é inapagável
como o brilho das estrelas
como o amor dos teus olhos
como a força da harmonia dos braços
como a esperança nos corações dos homens.
Inapagável
como a sensual beleza
da agilidade das feras sobre o campo
e o terror transmitido dos abismos.

Direi simplesmente
Sim!
Sempre sim
à honestidade dos homens
ao viço juvenil da sinfonia das árvores
ao odor inesquecível da natureza
que apaga os possíveis cheiros amargos.

Sim!
à interrogação mágica de Talamugongo
do Cunene ao Maiombe;
ao sonoro cântico do ritmo subterrâneo
e dos chamamentos telúricos;
aos tambores
apelando para o fio da ancestralidade
esbatido além;
ao ponto interrogativo de Madagascar.

Sim!
às solicitações místicas à musculatura dos membros
ao quente das fogueiras endeusadas
na lenha das sanzalas;
às expressões magníficas das faces
esculpidas no alegre sofrimento das quitandeiras
e no ritmo febril das sensações tropicais;
à identidade
com a filosofia do imbondeiro
ou com a condição dos homens,
ali onde o capim os afoga em confusão.
Sim!
à África terra, à África-humana.

Direi sim
em qualquer poema.

E esperamos que a chuva pare
e deixe de molhar os chilreantes passarinhos
sobre as três árvores da minha única paisagem
e o desejo de escrever um poema.
Isso passa.

* * * * * * * * * * * * * *


VOZ DO SANGUE

palpita-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue.

ó negro esfarrapado
do harlem
ó dançarino de chicago
ó negro servidor do south

ó negro de áfrica
negros de todo o mundo

eu junto
ao vosso magnífico canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso rumo.

eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a nossa história
meus irmãos.

* * * * * * * * * * * * * *


O CAMINHO DAS ESTRELAS

Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda
sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade

Simples nota musical
indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano

preciso e inevitável
como o inevitável passado escravo
através das consciências
como o presente

Não abstrato
incolor entre ideais sem cor
sem ritmo entre as arritmias do irreal
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
dos troncos sem raiz

Mas concreto
vestido do verde
do cheiro das florestas depois da chuva
da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança

A liberdade nos olhos
o som nos ouvidos
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha das fogueiras infinitas nos capinzais violentados
harmonias spiritual de vozes tamtam
num ritmo claro de África

Assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.

* * * * * * * * * * * * * *

NA PELE DO TAMBOR

as mãos violentas insidiosamente batem
no tambor africano
e a pele percutida solta-me tam-tams gritantes
de sombras atléticas
à luz vermelha do fogo de após trabalho

esmago-me na pele batida do tambor africano
vibro em sanguinolentas deturpações de mim mesmo
à vontade das percussões alcoólicas
sobre a pele esticada do meu cérebro

onde estou eu? quem sou eu?

vibro no couro pelado do tambor festivo
em europas sorridentes de farturas e turismos
sobre a fertilização do suor negro
nas áfricas envelhecidas pela vergonha de serem áfricas
nas áfricas renovadas do brilho firme do sol e da transformação
sedosa e explosiva do universo
dentro do movimento de mim mesmo na vibração ritmada
da pele cerebral do tambor africano
ritmada para o esforço de dançar a dança suave das palmeiras

vibro
em áfricas humanas de sons festivos e confusos
(que línguas pronunciais em mim irmãos
que não vos entendo neste ritmo?)

nunca me pensei tão pervertido
ó impureza criminosa dos séculos coloniais
(que história é essa da lebre e da tartaruga
que contas neste novo ritmo de fogueira
à noite
minha avozinha de pele negra de África?)

mas tão longe nem tão pervertido
quanto as vibrações
da pele do meu cérebro
esticada no tambor das minhas mãos
pela África humana

as mãos entrelaçadas sobre mim
em gozo de vida em gargalhadas em alegrias
de lagos libertados por amplos verdes
para os mares
dão-me o tom da minha áfrica
dos povos negros do continente que nasce
fora dos abismos escurecidos da negação
ao lado de ritmos de dedos congestionados
sobre a pele envelhecida do tambor
dentro do qual vivo e vibro e clamo:
AVANTE!

* * * * * * * * * * * * * *

CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

* * * * * * * * * * * * * *

BOOGIE-WOOGIE

Canta, Calloway
geme os teus sons roucos
que se vão estrangular na
vácuo da vida

Canta, Armstrong
grita em músicas alegres
tuas finais de choro.

Canta, Robeson
tua música ambígua
triste, alegre, triste.

Saxofones,
clarinetes de Harlem

África
multidões, cantai!
Contai a vossa história
em audazes ritmos
de antifonias soluçantes.

Cantai
mostrai-me os fragmentos
de corações quebrados
nas síncopes musicais
captadas
das florestas do Congo.

Cantai
vossos ritmos
respirados ao luar
quentes como a luz sensual
das fogueiras
tristes como o vosso drama.

Entoai
vossas orgias de sentimento
história triste duma raça.

Ó mágicos do som,
contai a nossa história.

* * * * * * * * * * * * * *

NÃO ME PEÇAS SORRISOS

Não me exijas glórias
que ainda transpiro
os ais
dos feridos nas batalhas

Não me exijas glórias
que sou eu o soldado desconhecido
da humanidade

As honras cabem aos generais

A minha glória
é tudo o que padeço
e que sofri
Os meus sorrisos
tudo o que chorei

Nem sorrisos nem glória

Apenas um rosto duro
de quem constrói a estrada
pedra após pedra
em terreno difícil

Um rosto triste
pelo tanto esforço perdido
— o esforço dos tenazes que se cansam
á tarde
depois do trabalho

Uma cabeça sem louros
porque não me encontro por ora
no catálogo das glórias humanas

Não me descobri na vida
e selvas desbravadas
escondem os caminhos
por que hei-de passar

Mas hei-de encontrá-los
e segui-los
seja qual for o preço

Então
num novo catálogo
mostrar-te-ei o meu rosto
coroado de ramos de palmeira

E terei para ti
os sorrisos que me pedes.

* * * * * * * * * * * * * *
CAMPOS VERDES

Os campos verdes, longas, serras, ternos lagos
estendem-se harmoniosos na terra tranquila
onde os olhos adormecem temores vagos
aceso mornamente sob a dura argila,

seca, como outrora mingou a doce esperança
quente, imperecível como sempre o amor
sacrificada, sangrada na lembrança
do esforço bestial do látego opressor.

Em campos verdes, longa serras, ternos lagos
refulgem ígneas chamas, rubros rugem mares
cintilados de ódio, com sorriso em mil afagos

São as vozes em coro na impaciência
buscando paz, a vida em cansaços seculares
nos lábios soprando uma palavra: independência!

linguagem & africanidade: antologia de textos literários

Elsa Gebreyesus_In the begining (Eritreia)
(“In the begining”, Elsa Gebreyesus)

  • textos narrativos

ARRIMAR, Jorge. Malfadada e os kimbandeiros. In: PALLAS EDITORA. Contos do mar sem fim: antologia afro-brasileira (org.). Rio de Janeiro: Pallas; Guiné-Bissau: Ku Si Mon; Angola: Chá de Caxinde, 2010.

COUTO, Mia. O cachimbo de Felizbento. In: Estórias abensonhadas. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SAÚTE, Nelson. A mulher dos antepassados. In: Rio dos bons sinais. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. Coleção Ponta de Lança.

SEMEDO, Odete. A lebre, o lobo, o menino e o homem do pote. In: CHAVES, Rita (org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009. Coleção Para Gostar de Ler, n.44.

PEPETELA. Yaka. 5.ed. Portugal: D. Quixote, 1984.

VIEIRA, Luandino. Cardoso Kamukolo, sapateiro. In: Vidas novas. 5.ed. Cuba: Ediciones Cubanas; União dos Escritores de Angola, 1985.

XITU, Uanhenga. “Mestre” Tamoda. In: “Mestre” Tamoda e Kahitu: contos. São Paulo: Ática, 1984.

 


  • textos poéticos

craveirinha rosto

JOSÉ CRAVEIRINHA

ÁFRICA

Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rolls-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de «strip-tease» e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do pasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meus povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.
***

KARINGANA UA KARINGANA*

Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
— Karingana ua Karingana —
é que faz o poeta sentir-se
gente.

E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser.

— Karingana!

[*Fórmula clássica de iniciar um conto e que possui o mesmo significado de “Era uma vez”.]

***

TIMBILEIROS

A maviosa
velha canganhiça dos timbileiros
acaba os ócios.

E toda a Zavala
bate e torna a bater agora
a cadência dos corações da turba
dançando as amotinações voluptuosas
das timbilas de ossos.

***

TINGANE

(Para o Rui Nogar, “pai” de Tingane)

No coração do homem
a vida era um grande terreno
de capim fresco e de chuva e sol
dando um sentido às folhas dos cajueiros
e acariciando os trêmulos seios
ao pilar do milho.

E era o feitiço dos dedos
em sonhos de compasso
o mundo libertado na marrabenta
dos arames tensos numa tábua de Tingane.

Passos soltos
tarde Xipamanine de domingo
e Tingane rua e viola Tingane
ritmo
ritmo
velho ritmo inconcebível
de uma dança nova!
***

MENSAGEM

(Para a Carol, agora ex-Noêmia de Sousa)

Ouvi tua canção distante
tua voz rouca de saudade dos caminhos de nascença
ouvi e guardei no coração.

E tua voz minha voz nossa voz
não quer grades nem fronteiras
e distância também é grade
também é fronteira dentro de nós.

Ouvi tua voz rouca de saudade
e não encontrei ave solta dos dias
e das noites da Munhuana
e venho aqui chamar teu sangue meu sangue no sangue
venho aqui chamar Carolina
Carolina…! Carolina…!
com a mesma voz minha voz nossa voz
mesmo sangue teu sangue meu sangue nosso sangue
que saudade pode enrouquecer no cantar distante
mas desespero tem que fazer flor em toda parte.
***
A FRATERNIDADE DAS PALAVRAS

O céu
é uma m’benga
onde todos os braços das mamanas
repisam os bagos de estrelas.

Amigos:
as palavras mesmo estranhas
se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo para serem
todas irmãs.

E eis que num espasmo
de harmonia como todas as coisas
palavras rongas e algarvias ganguissam
neste satanhoco papel
e recombinam o poema.

[m’benga – pote de barro; mamanas – mulheres; ronga – dialeto mais meridional do grupo linguístico banto tsonga, falado numa pequena área que inclui a cidade do Maputo; gangussam – namoram; satanhoco – uma coisa que não presta]
***
AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE

Pai:
as maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster Keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
ante os meus sócios Bucha e Estica no “écran” todo
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: – “Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.”

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Algezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o “Trinta-Diabos” de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de “bicicleta” à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de caju na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no xitututo Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen O’Sullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Tarzan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o “Cascabulho” para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardito, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofismas nas covinhas da face
e eu também é que mudámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de sécuas ávidas sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das húmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza afro-algarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!
***

UM CÉU SEM ANJOS DE ÁFRICA

(À Guilhermina e ao Egídio)

Detinha
a menina de cinco anos
tinha pai e tinha mãe
e tinha duas irmãs, Senhor!
Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de retalhos de chita
e fazia duas covinhas de ternura na face
quando sorria, Senhor!
Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de ágeis pernas de pano
olhos brilhantes de cabeças de alfinete
e fulvos cabelos de maçarocas maduras
que a febre derradeira da Detinha
não contaminou.
Olhos cerrados suavemente
boneca Detinha dos seus pais
adormeceu de tétano para sempre
mãozinhas postas sobre o peito
um vestido de renda branca
mais um anjo nosso partiu
no adeus silencioso de boneca
verdadeira num fúnebre berço branco
nossa Detinha tão pura na Munhuana
que até ainda não sabia que era mulata.
Oh! África!
Quantos anjos já nasceram das tuas Munhuanas de amor
e quantas Detinhas partiram para sempre dos teus braços
e quantos filhos inocentes deixaram o teu colo maternal
geraram rios e rios de lágrimas no teu rosto escravizado
e dormiram sem pesadelos na vasta solidão
de um coval mínimo de criança infelizmente
sem as duas covinhas na face
quando sorriam, Senhor?
E ainda não temos um talhão de céu azul para todos
e novamente uma África para amar à nossa imagem
num anjo verdadeiro anjo também cor da nossa pele
e da mesma carne mártir de feitiços estranhos
e o nosso sangue vermelho vermelho quente
como o sangue vermelho de toda a gente.
Para o tal céu onde existe o tal Deus que não sabe
línguas de África línguas de África línguas de África
e só sorriem anjos brancos de asas impossíveis de arminho
precisamente onde esse arminho só pode ser algodão de sofrimento
ainda não há lugar para meninas puras da cor
das meninas filhas e netas de mães e avós pretas
da nossa Detinha que partiu ainda boneca
e tão pura que ainda não sabia que era mulata.
E brinquedos de trapos não se misturam na Munhuana
com bonecas loiras de sapatos e tudo
porque os pais arianos rezando nas catedrais
não deixam, Senhor!
***

BOATO DO VELHO USSENE

Esposa e filhos do velho Ussene
são genuínos espíritos
de fábula.

Por agora o boato apenas põe o velho Ussene
refém-camionista sequestrado
no meio da mata.

Ou
falsa africanitude ou pura africanice
enquanto este feitiço não souber
onde está ou não está o velho Ussene
Mas quando?
A mulher e os filhos vão magicando
a boa nova do velho Ussene
mãos no volante
a saltar dos boatos
e a chegar a casa.


Paula Tavares rosa

PAULA TAVARES
ENTRE LUZ E SOMBRA

(A Leopold Sédar Senghor)

A sombra desliza
por detrás dos vimes
celebra-se a hora
os mortos abandonam os vivos
para viver em paz
por entre as veias finas da terra.

Acendo com as mãos das mães
a candeia antiga de óleo de palma
A serpente do lugar dorme
sobre seus ovos de vida
Os guardiães das fontes
preparam a madrugada
enquanto as mulheres dos clãs
de cima
provam a comida da noite
e velam pelo fogo
das oferendas.

Uma antiga fúria oferece
a fórmula
limpa as palavras
de todas as sílabas mortas.

Regressa a velha canção serere
de seda e sombra
como o silêncio das mães.

O nó da voz atravessou a vida
sustenta a metade da terra
onde deslizam as sombras
por detrás dos vimes
Celebra-se então a hora
os mortos abandonam os vivos
entre sombra e luz
nas veias finas da terra.
***

BOI À VELA

Os bois nascidos na huíla
são altos, magros
navegáveis
de cedo lhes nascem
cornos
leite
cobertura
os cornos são volantes
indicam o sul
as patas lavram o solo
deixando espaço para
a semente
a palavra
a solidão
***
ALPHABETO

Dactilas-me o corpo
de A a Z
e reconstróis
asas
seda
puro espanto
por debaixo das mãos
enquanto abertas
aparecem, pequenas
as cicatrizes

***

Chorar não chorar
a planície fica na mesma

PROVÉRBIO CABINDA

colonizámos a vida
plantando
cada um no mar do outro
as unhas da distância da palavra da loucura
enchendo de farpas a memória
preenchemos os dias de vazio

no alto destes muros
muito brancos
duas bandeiras velhas
a meia-haste
saúdam-se, solenes
***

Perguntas-me do silêncio
eu digo

meu amor que sabes tu
do eco do silêncio
como podes pedir-me palavras
e tempo

se só o silêncio permite
ao amor mais limpo
erguer a voz
no rumor dos corpos
***

MUKAI (2)

O ventre semeado
deságua cada ano
os frutos tenros
das mãos
(é feitiço)

nasce
a manteiga
a casa
o penteado
o gesto
acorda a alma
a voz
olha pra dentro do silêncio milenar.
***
AMARGOS COMO OS FRUTOS

Dizes-me coisas tão amargas
como os frutos…
KWANYAMA

Amado, porque voltas
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito

Onde deixaste a tua voz
macia de capim e veludo
semeada de estrelas

Amado, meu amado
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas
como os frutos
***

VIAGEM

Preparei-te na pedra da casa
asas do pássaro Kalulu
com pedaços de árvores destroçadas pelos raios
e resina quente.
Chamei a metade gémea do espírito
para te passar remédios
da cabeça aos pés.

No fundo de meu corpo perfeito
escondi
pedaços de argila e feitiços fortes.

Em cada uma das doze cabaças da origem
deitei o vinho dos votos
um pano novo da costa
três missangas azuis
e cera da colmeia menor.

Todos os dias conservei aceso o fogo sagrado
Na hora dos fantasmas
o vento diz-me a tua voz
é a voz das viagens
sem regresso.
***

TECIDOS

Meu corpo
é um tear vertical
onde deixaste cruzadas
as cores da tua vida: duas faixas um losango
marcas da peste.

Meu corpo
é uma floresta fechada
onde escolheste o caminho

Depois de te perderes
guardaste a chave e o provérbio.
***

O CERCADO

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p’ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p’ra lá do cercado
***

Não digo a palavra mesmo que o musgo
Nasça na tua sede
Os olhos brilhem de sono antigo
Não, não digo a palavra
Mesmo que seja tua a casa
A palmeira, a esteira, o chão dos dois
Não, não me peça a palavra
Essa que abre o cofre
A montanha e as outras árvores
De mim só tens o silêncio
O sono desacordado das horas
Infinitas horas
Pudesse eu abrir os lábios
E a palavra simples
A do verso e da água
Soaria contra a parede

***

Fosse urdu a minha língua
E o mais antigo som
Encheria de eco
O coração

Fosse música a minha língua
E voariam pássaros
Do meu peito e minha árvore

Fosse dança a minha língua
E meu corpo do vime
Saberia a dobra

programa & referências: LET C53 (Narrativas Africanas de LP)

Europa_Nandipha Mntambo (Suazilandia)

 

PROGRAMA 2015-2

Veja um trailer do filme que será exibido na aula do dia 17/02:

goram_concviol_tit intro 

SAIBA MAIS!

“Este é um filme sobre os mecanismos da violência”

******

A RESPEITO DA VIOLÊNCIA reintroduz a visão humanista e pós-colonial de Fanon através de uma viagem cinematográfica que nos coloca cara a cara com as pessoas para as quais os escritos de Fanon sobre a descolonização não eram apenas retórica mas uma realidade.

para conhecer Moçambique e sua impressionante literatura

 

«Nós não fizemos o exorcismo da guerra»,
entrevista a Nelson Saúte

Doris Wieser

Nelson Saúte (1967, Maputo) é um personagem ainda desconhecido no meu país de origem, a Alemanha. Tanto maior foi a minha curiosidade quando, numa viagem a Lisboa em 2011, me deparei com um dos seus livros de contos, O Apóstolo da Desgraça (Dom Quixote, 1999). Li-o, nas minhas idas e vindas de comboio ao Estoril, com muito interesse e com aquele fascínio que sentimos quando estamos à descoberta de novos mundos e novas realidades. Nesta altura, eu dedicava-me ao estudo da literatura latino-americana, mas sentia o impulso intrínseco de me aventurar ainda noutros continentes. Assim comecei a interessar-me por África que, desde o início, me colocou muitas questões e desafios que até hoje apenas consegui resolver parcialmente. Uma das pessoas que me ajudaram nesta árdua tarefa de compenetração intercultural foi Nelson Saúte, nomeadamente com as duas antologias incontornáveis que editou: Nunca Mais é Sábado, antologia de poesia moçambicana (Dom Quixote, 2004), e As Mãos dos Pretos, antologia do conto moçambicano (Dom Quixote, 2001).

Nelson Saúte – licenciado em Ciências de Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo – não só trabalhou como jornalista, docente universitário e editor, também é autor de vários volumes de poesia e de contos assim como do romance Os Narradores da Sobrevivência (Dom Quixote, 2000). Por isso, julguei que era uma pessoa interessantíssima a conhecer. Durante a minha viagem de investigação a Moçambique em Julho de 2014, marquei um encontro com ele.

Nelson Saúte pediu-me para eu comparecer ao seu gabinete da editora Marimbique situado no Hotel Pestana Rovuma, no centro de Maputo. Este hotel de quatro estrelas é uma das referências arquitetónicas importantes para quem começa a orientar-se na cidade. Fica junto à Catedral Metropolitana, muito perto da Praça da Independência, onde, desde 2011, uma estátua gigante de Samora Machel estende o índice da mão direita para o céu. Nesta zona confluem ruas com nomes de líderes comunistas estrangeiros (Av. Ho Chi Min, Av. Vladimir Lenine, Av. Karl Marx), líderes da FRELIMO (Av. Eduardo Mondlane, Av. Filipe Samuel Magaia), lutadores de resistência do século XIX (Av. Maguiguana) e das grandes datas comemorativas do país independente (Av. 25 de Setembro, Av. 24 de Julho). O próprio autor retoma esta topografia memorialística no seu poema “Anos 80”:

Eduardo Mondlane foi o nome

da avenida sobre a qual

me estreei na toponímia da capital.

(…)

E todo aquele cortejo de incongruências

a habitar os fogos conquistados

pela inquestionável independência.

Cedo descobri Maguiguana e toda a mitologia

de guerra sobre os meus indefenestráveis heróis

na toponímia da revolução.1

Chegando ao hotel subi de elevador ao nono andar. Um guarda sentado por detrás de uma mesa pediu-me a identificação e indicou-me o caminho para os escritórios, que dispõem de uma esplêndida vista sobre toda aquela “toponímia da revolução”.

Segue-se a entrevista feita a 21 de Julho de 2014.

Em que medida podemos falar de uma literatura moçambicana? Segundo Antonio Candido, para que se possa falar de uma literatura nacional, é necessário existir um grupo de autores mais ou menos conscientes do seu papel, um público leitor e um mecanismo de divulgação. Já existe esse mecanismo?

Creio que, de alguma forma, já se pode falar de uma literatura moçambicana. Já há um corpussistémico do que é a literatura moçambicana. A chamada geração dos fundadores, no caso da poesia, podemos falar de Noémia de Sousa, de José Craveirinha, de Rui Knopfli… Acho que o que eles praticaram de uma forma consciente foi a fundação de uma certa literatura. É evidente que antes deles já havia alguns autores, mas acho que é nesta geração que a literatura moçambicana ganha uma formulação que viria a sistematizar-se ao longo do tempo. No caso da ficção, ocorre um pouco mais tarde. Acho que o caso mais exemplar é Nós Matámos o Cão-Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, mas é preciso não esquecer também os livros de Orlando Mendes e de Carneiro Gonçalves. Ele morreu cedo e a obra saiu postumamente. Mas acho que é no pós-independência que a ficção ganha uma ampla consistência, com a geração de Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Suleiman Cassamo e, um pouco mais tarde, Paulina Chiziane, etc. Isto sem esquecer Lília Momplé, Calane da Silva que andava entre a ficção e a poesia, ou Leite de Vasconcelos, um poeta, prosador e dramaturgo. Portanto, uma primeira geração de Knopfli, uma segunda geração de Heliodoro Baptista, uma geração pós-independência com Eduardo White e Armando Artur, por volta da GeraçãoCharrua2. Se olharmos com alguma distância, podemos afirmar sem dificuldade que existe uma literatura moçambicana. Eu próprio pude comprová-lo organizando duas antologias, uma de poesia e outra de ficção. Hoje é possível cotejarmos no que existe a certeza de que há uma literatura moçambicana nos termos formulados pelo Professor Antonio Candido.

Nélson Saúte
Nélson Saúte

Essas antologias são muito úteis, porque permitem ter uma ideia geral da literatura moçambicana.

Por aí se consegue ter uma ideia muito ampla dos caminhos, dos percursos, das temáticas, dos estilos, das posturas de linguagem que a poesia trilhou. Pela poesia, percebemos que a literatura moçambicana atingiu cedo de mais uma dimensão de modernidade, cruzando com uma certa tradição de oralidade africana.

Qual a situação das editoras moçambicanas?

Eu sou editor da Marimbique há 11 anos. Antes estive envolvido no projecto Ndjira, fundada em 1996. Mais tarde, divergi do projecto e fui para outro projecto. Para além da Ndjira e da Marimbique, há a editora Alcance, que também tem alguma vivacidade. Não queria fazer uma listagem para não me esquecer de algumas. Há uma certa vitalidade na edição, mas, de uma forma muito diferente do que acontecia há vinte ou trinta anos, quando a literatura tinha uma ampla recepção principalmente na imprensa, em que havia páginas literárias importantes, como na Gazeta de Artes e Letras. Havia a página «Ler e Escrever» no Jornal de Domingo. No Jornal de Notícias, havia uma página que teve vários nomes, entre os quais «Pala Pala». No Notícias da Beira, havia a página «Diálogo». Aí os autores tinham um primeiro momento de recepção e havia uma intermediação entre os autores e o público. Não havia esta formulação editorial como há hoje, era um tipo de edição muito mais artesanal, hoje é muito mais profissionalizado. Na rádio e nas televisões emergentes havia programas dedicados à literatura. Hoje há pouca recepção. Creio que se pode considerar que a prática do jornalismo cultural desapareceu, o que não ajuda a proporcionar este movimento dinâmico das editoras. Fala-se no problema do poder aquisitivo dos moçambicanos. Eu creio que o problema não está aí, mas nos fracos hábitos de leitura, posturas em relação à aquisição de bens culturais não tão entusiasmadas como poderíamos esperar… É preciso cultivar no público, ter programas de incentivo à leitura, haver propostas de apetrechamento de bibliotecas municipais e nas escolas… As pessoas têm de lidar com livros para terem amor ao livro. Se nunca conviveram com livros, não chegam à idade adulta e começam a comprar livros. O livro não é um bem de consumo essencial para a maioria das pessoas. Para mim, é…

Hoje Maputo é uma cidade com uma dinâmica própria, em crescimento, com uma classe média mais ou menos consistente. Vê-se o tipo de transportes que utilizam, o tipo de casas que habitam… Isso não é só com expatriados. Há moçambicanos com um certo poder aquisitivo, mas esses não têm livros em casa. É uma geração que não cresceu com o livro. O trabalho das editoras barra com esta dificuldade, mas, como eu cultivo a esperança, creio que é um problema do momento que vamos ultrapassar. Vejo que há algumas ilhas de interesse neste trabalho de divulgação literária. Se não houver recepção, se não houver um trabalho de intermediação, as pessoas não vão ter iniciação literária, não vão ter capacidade de chegar aos autores e aos livros e o trabalho das editoras vai diminuir.

Catedral e Hotel Rovuma
Catedral e Hotel Rovuma

«Logo, quem da Europa vem, as suas acompanhantes parecem estrelas de televisão», escreveu no conto «A apresentação do falecido».3 Esta frase faz-nos pensar sobre o papel dos europeus e dos brancos hoje em dia. Há uma imagem estereotípica que se forma em cada época. Como mudou a imagem dos portugueses da época colonial até agora?

Esse texto deve ter sido escrito há 20 anos. Não é a mesma visão que permanece sobre os portugueses. Há várias maneiras de os portugueses serem vistos e de eles também verem a sociedade moçambicana. Após a independência, havia ainda um conflito forte entre os ex-colonizados e os ex-colonizadores. Depois há relações que se vão estabelecendo, há diálogos que vão sendo feitos… Em 1983 se não me engano, o Presidente Samora Machel vai a Portugal numa visita que se revela importante para o degelo das relações. O presidente português, Ramalho Eanes, veio cá também. O facto de uma das suas primeiras acções ter sido uma homenagem na Praça dos Heróis foi um acto simbólico importante. A forma como esta relação se foi formulando ao longo dos anos mudou muito. Hoje vê portugueses espalhados por todo o lado, é uma espécie de um regresso massivo. Vê portugueses na área da restauração, na área da construção… Vê jovens portugueses, muitos por culpa da crise em Portugal, que creio que vivem cá sem dificuldades, perfeitamente integrados. O clima entre portugueses e moçambicanos mudou radicalmente.

Fui a Portugal nessa época, e hoje, quando regresso, sinto que não é a mesma coisa. Portugal também mudou, Portugal também aceita melhor a alteridade, Portugal também aceita melhor a diferença. Sobretudo, Portugal aceita melhor o seu passado. De forma jocosa, costumo dizer que muito do que acontece de positivo na nossa relação com os portugueses deve-se aos angolanos. É uma metáfora das nossas relações. Angola, depois de superar a guerra, cresceu de forma tão galopante, a economia angolana teve muita penetração no quotidiano dos portugueses, as relações passaram a ser económicas, mais fluídas… O poder de aquisição dos angolanos libertou-os de um certo estigma com que eram olhados. Nós próprios eramos olhados de uma forma mais estigmatizada. Se calhar o estigma é ao contrário hoje, se calhar olham para todos os africanos como quem tem um poder aquisitivo elevado e que é preciso tratar bem. Passámos de um certo afastamento para uma aproximação muito ditada por essa capacidade que sobretudo os angolanos introduziram em Portugal. Isto é só um faits divers, mas acho que os portugueses olham de uma forma diferente os africanos, os moçambicanos, os angolanos, os guineenses, os são-tomenses, os cabo-verdianos… Não vejo conflitos, xenofobia, acho que não existe isso. Pelo contrário, vejo uma relação muito mais tranquila, mais distante da época histórica da cisão com a independência, mais baseada nos interesses de parte a parte, interesses económicos ou de outra ordem. Aquele lado conflitual foi ultrapassado. Hoje quase que não se fala nisso. O tema são as oportunidades, as várias propostas em várias áreas… Portanto, já não são tão estrelas de televisão quanto isso.

Estátua Samora Machel
Estátua Samora Machel

Na época colonial, havia duas classes intermédias entre os dois pólos, os assimilados e os mestiços. Hoje ainda têm algum peso?

Isso diluiu-se. A sociedade moçambicana é muito espartilhada, mas já não racialmente, mas sim do ponto de vista económico. Hoje, a cidade de Maputo tem zonas fortemente habitadas por expatriados de várias nacionalidades, não só portugueses, que vivem aí por terem poder aquisitivo, porque representam multinacionais, embaixadas, etc. Mas também há muitos moçambicanos nos mesmos parques mobiliários. Temos uma cidade da elite: a Polana e Sommerschield, o bairro central, um bocado da Coop; a classe média em Malhangalene; a classe média baixa em Alto Maé; depois os subúrbios tradicionais: Chamanculo, Mafalala, um verdadeiro caldeirão cultural; depois novos subúrbios que surgiram à volta da Grande Maputo, como Matola, Belo Horizonte, Zimpeto, etc. Há uma classe média florescente, dinâmica, forte, quase totalmente pós-independência, de jovens de trinta e poucos anos. É uma cidade perfeitamente estratificada desde o início. Desde que Lourenço Marques foi fundada, sempre houve zonas para os mais excluídos economicamente e zonas onde os mais inseridos economicamente poderiam habitar e conviver. É claro que Maputo é um grande centro para onde as pessoas convergem para trabalhar. Maputo ao domingo é uma cidade muito menos habitada, não tem gente, não tem vida própria. Ao meio-dia as pessoas começam a desaparecer para esses satélites dormitórios. A textura da realidade de 1975 diluiu-se completamente. Hoje não diria que na zona tal vivem os assimilados, não… O que existe é os que têm melhor poder aquisitivo migraram para Sommerschield e para Polana, os que não têm ou foram deixando de ter foram empurrados para zonas limítrofes ou para os subúrbios. O que ficou foi a competição do ponto de vista socioeconómico. Falo apenas de Maputo. Isto pode ser mais ou menos extrapolável para outros centros urbanos, mas Maputo é a cidade mais complexa, onde é possível ver essas muitas diferenciações sociais.

Em que medida este espaço urbano dialoga com o espaço rural?

Eu não diria espaço rural, mas espaço periurbano. O mundo da ruralidade veio para a cidade e transportou os seus valores. São mundos muito diferentes na forma de estar, mas o código permanece nas pessoas. A transição campo-cidade é recente. As pessoas vivem na cidade, mas estão ainda amarradas a certas práticas culturais do campo. Isso é visível no quotidiano. O que eu acho interessante na cidade de Maputo é que convivem muitas coisas. Sob esse ponto de vista, é uma cidade rica, porque é rica culturalmente, nas religiões, existem igrejas das mais variadas, encontra minaretes muçulmanos, igrejas protestantes, metodistas, católica, judaica… Encontra símbolos das diversas culturas e civilizações que se foram caldeando aqui neste espaço. É muito interessante a forma como as pessoas vestem, o que praticam no seu quotidiano, as várias influências na culinária, os cheiros, os aromas… No mercado, há todo aquele caldear de culturas. É uma cidade aberta para o mar, aberta a várias civilizações. Aqui confluíram línguas, culturas, povos, posturas, formas de vida, campo/cidade, o mais tradicional africano, o mais moderno ocidental, tudo aqui converge. Acho isso fascinante.

Também se pode observar essa diversidade no resto do país, mas as fronteiras de Moçambique não respeitam as fronteiras linguísticas.

As culturas e as línguas transgridem as fronteiras.

Hoje existe um sentido de pertença a um espaço cultural?

Esse sentimento quase indefinível de alguém pertencer a uma pátria, a um lugar, aos seus, onde tem enterrados os seus mortos, aos seus valores – eu acho que isso existe. Acho que nos diferenciamos dos sul-africanos, dos zimbabuanos ou dos tanzanianos, embora nas fronteiras possa haver confluências. Ser moçambicanos não é algo monolítico. Vê um lastro muito diverso de pessoas que se moçambicanizaram ou de pessoas que cresceram nessa realidade e que são perfeitamente moçambicanos. Politicamente pode ser difícil encontrar isso, por causa do senso político que impera. Na realidade quotidiana, é um país pacificado, que aceita a diferença, a alteridade… O moçambicano não é visível pela cor da pele, mas por aquilo com que se identifica, pelos valores, pelo sentimento de pertença. É uma sociedade tolerante.

Em Moçambique fala-se muito das diferenças culturais do Norte e do Sul, as culturas matriarcais e patriarcais. Essa diferença é forte ou as culturas matriarcais hoje foram suplantadas?

Não tenho estudado isso, mas sei que na cidade isso se esbateu muito, mas noutras zonas não sei dizer. Tenho a impressão que continua a haver em certas áreas formulações matriarcais fortes, com posturas de cultura, de linguagem, de postura dessas comunidades, mas não tenho dados concretos.

Lemos em «A Curandeira de Polana»4: «Aliás, em Maputo, não há ninguém que não frequente o curandeiro.» Actualmente ainda é assim?

Não sei… Talvez essa afirmação seja muito forte, mas é uma metáfora para dizer que, por muito que a gente tenha migrado para a cidade, a tradição ficou em nós. Mesmo em cerimónias oficiais, em grandes inaugurações, em grandes acontecimentos há sempre a intervenção de posturas tradicionais. Numa população que é urbana há quatro décadas – o fenómeno é relativamente recente, desde os anos 1970 –, todo o lastro cultural que vem da ancestralidade permanece. Mesmo quando se cruzam outras posturas, religiosas por exemplo, não entram em conflito, convivem. A olho nu não, mas no subterrâneo da sociedade sim.

Em Os Narradores da Sobrevivência escreveu: «[…] numa altura em que os grandes não punham os pés nas igrejas nem sequer admitiam cerimónias para lembrar os antepassados, tudo isso porque a revolução era pagã […]».5 Actualmente, qual é a relação da FRELIMO com a religião?

Isso mudou. Um dos primeiros actos simbólicos foi o Presidente Joaquim Chissano ir à missa. Houve uma altura em que principalmente os dirigentes não frequentavam a igreja e a religião tinha sido «obliterada». Hoje não. Vejo pessoas em cargos públicos que são religiosas. Mas é um Estado laico. O Presidente da Comissão Nacional de Eleições6 veste as roupas que evidenciam a sua religião. Mas isto é visto pacificamente. As pessoas frequentam o que querem, respeitam-se. Há uma transformação forte, estrutural para uma sociedade muito mais complexa, multívoca, aberta, diversa… Não há já ditames, isso foi ultrapassado.

Como é que o Nelson e a sua família viveram durante as guerras?

Nós vivemos na cidade, vivemos o cerco que a cidade vivia, mas não posso ter a arrogância de dizer que sofremos com a guerra, não. A guerra chegou perto da cidade, mas tivemos o privilégio de estar defendidos pelo Estado. Mas acompanhámos a violência da guerra. O meu imaginário é o imaginário de quem viveu esses anos, de quem ficou atormentado, mas fui um privilegiado, não tive as provações que passaram concidadãos nossos no mato, que foram raptados, violados, que morreram, toda aquela desgraça que foram aqueles dezasseis anos de guerra e que espero que não voltem. Agora uns agoiros de guerra pairam no ar… Seria trágico para o país.

Hotel Pestana Rovuma e Conselho Municipal
Hotel Pestana Rovuma e Conselho Municipal

No conto «A árvore que sepultou o meu avô», encontramos a seguinte passagem: «História da guerra, não escrita, não contada, está no nosso silêncio, na nossa vergonha colectiva, no nosso luto.»7 Esse silêncio serve para não mexer no trauma?

Nós não fizemos o exorcismo da guerra. Ontem estava a ver um documentário sobre a Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul…

Existe uma comissão semelhante em Moçambique?

Não, não existe. Nós não assumimos o que aconteceu. Fizemos uma espécie de uma reconciliação, que não foi plena politicamente, houve uma integração na sociedade e vinte anos depois voltaram as fissuras, as feridas da guerra. Ontem, ao ver aquele processo violento da África do Sul, com a Comissão da Verdade, ao ver aquela imagem pungente do bispo Desmond Tutu desabando em lágrimas perante a crueldade que estava a ser revelada em tribunal, pensava se aqui não teria havido lugar para um certo exorcismo da guerra. O que senti foi um conflito latente, uma beligerância, que se exprime ainda hoje. Vinte anos depois do Acordo Geral de Paz ainda não ultrapassámos o problema da guerra. Fizemos um luto silencioso, aceitámos, não fizemos acusações de parte a parte… As acusações são feitas como aproveitamento político, num momento de beligerância parlamentar ou na imprensa. Não houve uma reflexão nacional do que isso significou e acho que perdemos a memória disso rapidamente. E estamos perante o risco de voltar a esse cenário. Espero que isso esteja mais distante agora. Para uma geração muito grande de moçambicanos, a guerra é um fenómeno muito distante. Ou não sofreram com isso, ou eram miúdos de dez anos quando a guerra acabou… Mas há uma geração de traumatizados, de estropiados, de pessoas que perderam familiares, há ainda gente que não encontrou os seus mortos, há ainda lutos que não foram feitos, há qualquer coisa que ficou no interior dos moçambicanos. Há uma certa amnésia na política. O tema da guerra sempre serviu para fazer a pequena política, no sentido da discussão, não no sentido de propor uma nova sociedade moçambicana que superasse tudo e que permitisse uma plena integração. Acho que houve uma aceitação mínima, a integração não foi plena. Ao ver o documentário sobre a África do Sul, senti que ali tinha havido um esforço muito grande de aceitação do outro, mas aceitação partindo da enunciação da verdade. Sobre a guerra existem acusações de parte a parte. A sociedade foi violentada ao extremo, mas não teve um momento para reflectir. Honestamente, não sei qual é o melhor caminho, mas eu teria preferido que esse luto do exorcismo tivesse sido feito. Não sei como é que isso se faz.

Até agora há uma amnésia política, mas no espaço cultural e na literatura fala-se sobre a guerra. A literatura pode ter um papel terapêutico?

Sim, sim, mas se a literatura tiver uma expressão muito grande. Se tiver uma expressão residual…

Não há um público leitor muito grande…

Há várias obras sobre a guerra na literatura, no cinema e no teatro, mas nenhuma provocou um amplo debate. É tudo muito circunscrito, quase clandestino.

Então não há movimentos culturais e sociais que procurem recuperar a história, por exemplo, as antigas crianças-soldado.

Não, desapareceram. Um dia haverá um fenómeno de explosão a revelar essa realidade trágica. Assumimos isso no silêncio, mas depois pode ser um problema de difícil gestão. Há as crianças-soldado, as mulheres violadas, há tanta coisa que é preciso pensar e que ficou meio apagado. A guerra foi de uma violência extrema e dividiu muitos moçambicanos. Se tivéssemos um melhor exercício da memória talvez não estivéssemos à beira de repetir os erros, como acontece agora. Espero que tenha sido apenas um mau momento da nossa sociedade.

Um aspecto interessante é o papel da mulher na sociedade moçambicana. A literatura aborda com frequência a violência doméstica. Como é que isto mudou com a independência? A FRELIMO afirmava que lutava pela igualdade dos sexos. Conseguiu melhorar a situação?

Sob o ponto de vista simbólico, a mulher tem um papel central na sociedade moçambicana. Vê a mulher nos centros de decisão, politicamente integrada, etc. Socialmente a questão é muito mais complexa. Em termos simbólicos, a sociedade deu passos muito importantes. Há mulheres no parlamento, no governo, nas várias esferas da sociedade, mas no quotidiano a questão é muito mais complexa.

Como convivem a monogamia e a poligamia?

Há uma realidade mais subterrânea. Nem sequer é clandestina, são outras realidades que às vezes não conseguimos captar tão bem, estas realidades culturais que a modernidade recusa aceitar e até a legislar persistem. A lei não admite a poligamia, mas ela existe. Também existe poliandria. As pessoas ocidentais tendem a fazer um juízo moral, numa perspectiva eurocêntrica. Eu tento explicar esses fenómenos aos meus amigos do ponto de vista do outro, tentando dizer que esta é a realidade. Não sei se é correcta ou não, mas é a realidade. Existe poligamia, existe poliandria, existe de tudo. Numa realidade tão caldeada de tantas culturas e tradições, seria difícil apagarmos pura e simplesmente essas situações. Leva tempo a mudar. Se é que tem de mudar, não sei…

A poligamia tem raízes muito antigas. Alguma vez houve um debate político sobre a possibilidade de legalizar a poligamia?

Houve, mas não foi um debate amplo. Chegou-se a falar, mas foi sempre pela via do código ocidental. Isso provoca problemas muito graves em termos sociais, porque, nestas múltiplas famílias, por vezes é preciso garantir direitos principalmente a crianças que nascem fora da «casa principal» e que, neste conflito entre a sociedade moderna e tradicional, são atropeladas por leis estanques. É uma realidade complexa e é preciso pensá-la. É preciso, se não aceitá-la, pelo menos percebê-la.

Quantas línguas de Moçambique fala?

Eu falo pouco. Tenho pouca prática na língua do Sul. Falo basicamente português. Vivi algum tempo em Nacala, mas não tenho o perfeito entendimento da língua macua. Gostava de ter aprendido, mas não aprendi. Moçambique é um país muito interessante, tem várias línguas, é uma grande diversidade.

Qual foi a sua primeira língua?

Português. O português é a língua aqui do Sul. Falo pouco o ronga, mas percebo perfeitamente.

O uso do português na literatura não cria um problema de verosimilhança? Se fossem reais, muitas personagens falariam uma língua bantu, não português.

Isso é um problema… mas se o teu mundo for o da língua portuguesa, talvez não haja esse problema. Nós convivemos num tecido muito mais complexo e adverso em termos culturais e linguísticos. Pode colocar-se essa questão. Pode ser um elemento de dificuldade, principalmente na autenticidade de certas obras. Quando tentamos retratar um mundo que não é o nosso, podemos ter dificuldade em traduzi-lo, em entendê-lo. Até pode acontecer não termos entendido nada desse mundo que julgamos estar a traduzir.

No futuro pode surgir uma literatura numa destas línguas bantu ou pelo menos um jornal?

Não sei… Há algumas propostas… Não sei… Nós temos tantas línguas, tantas línguas. Existem alguns autores em línguas moçambicanas, mas é um fenómeno muito mais circunscrito. Se escrever em língua portuguesa já é uma coisa muito circunscrita, imagine noutras línguas! Mas é possível. Podem existir jornais, mas não tenho presente.

Neste momento, está a escrever alguma obra ou dedica-se à edição?

Tenho dedicado mais tempo à edição. Não estou a escrever, mas em breve voltarei a escrever. Tenho histórias para escrever.

NOTAS

  • 1.Fragmento do poema “Anos 80”, em: Saúte, Nelson: Livro do Norte e outros poemas. Maputo: Marimbique, 2012, p. 105.
  • 2.Revista da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), fundada em 1984.
  • 3.Saúte, Nelson: O Apóstolo da Desgraça. Lisboa: Dom Quixote 1999, p. 31.
  • 4.Saúte, Nelson: O Apóstolo da Desgraça. Lisboa: Dom Quixote, 1999, p. 41.
  • 5.Saúte, Nelson: Os Narradores da Sobrevivência. Lisboa: Dom Quixote, 2000, p. 29.
  • 6.Abdul Carimo Sau é muçulmano.
  • 7.Saúte, Nelson: O Apóstolo da Desgraça. Lisboa: Dom Quixote, 1999, p. 15.

FONTE: Buala

o Brasil revisto pela África

 

Entrevista Mia Couto: o Brasil nos enganou

por Luís Antônio Giron

Mia Couto, um dos conferencistas mais aplaudidos nas sete edições do Fronteiras do Pensamento volta para o oitavo ano do seminário, desta vez em São Paulo. No canal do Fronteiras no YouTube, o romancista conseguiu o mesmo feito, alcançando, em pouco tempo, dois ícones da filosofia, Zygmunt Bauman e Edgar Morin.

O fenômeno Mia Couto lota teatros, feiras de livros e feeds nas mídias sociais. Sua poesia repleta de insights em conteúdo e forma aparece com frequência nos maiores veículos do país, como é o caso desta entrevista para a Revista Época, em que fala sobre a ligação entre África e Brasil, o que pensa da política e, como não poderia deixar de ser, literatura. Leia abaixo e, ao final do texto, assista ao mais recente vídeo publicado pelo Fronteiras com Mia Couto, Pelo reencantamento do mundo.

O moçambicano Mia Couto, de 58 anos, é atualmente um dos escritores mais notáveis e produtivos da língua portuguesa. Sua obra – 27 títulos entre romances e coletâneas de poemas e ensaios – é considerada um patrimônio da lusofonia. Sua influência é tanta que alguns de seus livros são adotados e discutidos nas escolas brasileiras, ao passo que nenhum autor brasileiro, atual ou não, é estudado na África.

António Emílio Leite Couto é um cidadão pacato. “Sossegado demais”, diz, “o que me permite observar os outros.” Filho de portugueses emigrados, seu pai, Fernando Couto, era poeta. Mia trabalhou como jornalista e professor de biologia. Foi militante de esquerda e participou da luta pela independência moçambicana. É casado e pai de três filhos. A mais nova, Rita, de 23 anos, estuda teatro em São Paulo. Ele costuma vir ao Brasil para participar de feiras literárias, encontro com alunos do ensino médio e proferir conferências, como a que dará em setembro no simpósio Fronteiras do Pensamento.

Revista Época: Como está a situação das antigas colônias portuguesas na África?
Mia Couto:
Uma coisa é a independência, e outra a descolonização. A descolonização do pensamento ainda não ocorreu. Olhamos para a África com valores europeus. É preciso uma ruptura para mudar a situação. Outro fator é a manutenção da estrutura política e administrativa que herdamos do passado e reproduzimos hoje. A descolonização tem de ser feita pelos próprios africanos. Tanto em Moçambique como em Angola, temos necessidade de criar um pensamento próprio, produtivo e moderno, que ultrapasse a folclorização que a própria África produz para si. Como resolver as falsas dicotomias entre tradição e modernidade? Não existe vontade de fazer isso por parte das elites, em nenhum país africano.

Revista Época: O Brasil foi um modelo para os países luso-africanos. Ele continua a ser inspirador?
Mia Couto:
O Brasil foi um modelo pela via da mistificação. O Brasil nos enganou. Recordo-me quando os primeiros jogadores de futebol negros brasileiros se impuseram ao mundo. Nós, na África, vimos aquilo como nosso futuro, a realização de um sonho: Pelé, Garrincha. Mas não era claro para todos que aquilo era a parte visível de um mundo extremamente racista. A celebração da alegria do Carnaval, a celebração do corpo negro como paradigma da beleza, foi sempre valorizada por nós. Mas víamos um Brasil que não existia. Isso se mantém até hoje. Porque vemos o Brasil com o orgulho de quem vê um membro de nossa família estar à frente, como uma das potências econômicas mundiais. Mas não percebemos as contradições internas que esse sistema tem. Todos precisamos ter um parente rico.

Revista Época: Carnaval, música e futebol são verdadeiros, não?
Mia Couto:
Sim. Só que o Brasil não é só isso. A falsificação que criamos em torno do Brasil era uma forma positiva de pensar um modelo do que poderíamos ser. Antes mesmo do Brasil, os países africanos vizinhos que conquistaram a independência nos fascinaram mais. Tanzânia, Zâmbia e Uganda foram motores de nossos sonhos.

Revista Época: O senhor continua a atuar na política?
Mia Couto:
O empenho é o mesmo. Mas não tenho partido nem milito numa organização. Faço o trabalho cívico, colaboro com as organizações da sociedade civil, com os partidos políticos naquilo que eles fazem de positivo. Tenho uma intervenção pública pelos jornais e conferências. Mantenho a veia jornalística. Sou um homem de esquerda, se é que essa palavra tem algum sentido hoje. Mantenho os princípios que me fizeram aderir ao movimento revolucionário. Não sou marxista, porque o marxismo simplificou a visão de mundo. O marxismo foi adulterado. Não é o caminho.  Sou um homem profundamente crítico em relação a esse sistema que se tornou global.

Revista Época: O senhor quer dizer o sistema capitalista?
Mia Couto:
Olhe como as coisas mudaram. A gente não sabe mais dar nomes às coisas. Foi intencional. Hoje temos medo de dizer que o sistema em que vivemos é o sistema capitalista. Chamamos isso de globalização etc. Receamos usar palavras que só serviam para um mundo bipolar. Hoje é pecado pronunciar a palavra “capitalismo”. O capitalismo é tão guloso que engoliu seu próprio nome. Ele tem uma capacidade enorme de se travestir.

Revista Época: Há uma tendência a subestimar o conhecimento produzido na África, pois a África produz mais crenças que filosofia. Isso é preconceito?
Mia Couto:
É uma redução. Acredita-se que a contribuição africana se dá no domínio do mágico e das práticas rituais. Mas esse tipo de pensamento tem um sistema. É um modo de entender o mundo, global e total. No caso da África, ou das várias Áfricas, há uma forma de ver o mundo que me fez crescer como pessoa: a forma de entender a morte. Aprendi a necessidade de estar em harmonia com os mortos, porque eles nunca morrem, estão presentes no mundo. Também há uma relação diferente com a natureza. Na África, existe um entendimento holístico do mundo, e não há uma palavra para diferenciar a natureza do resto. A ciência procura isso, por via do entendimento da ecologia, das interações entre os componentes vivos e não vivos.

Revista Época: Como o pensamento “selvagem” poderia ser incorporado à civilização?
Mia Couto:
Hoje, apesar de tudo, até porque a economia de mercado incorporou isso, há um olhar mais aberto para os outros. Você observa que os padrões de beleza mudaram. As pessoas hoje aceitam como belo aquilo que antes, há 30 ou 40 anos, era excluído. Hoje desfilam nas passarelas da moda figurinos que vêm da África, da China, da Índia. Isso é um sinal de alguma coisa que se altera dentro da fortaleza, antes feita de uma só voz e uma só história.
Revista Época: Como a literatura lusófona africana se transformou nos últimos anos?
Mia Couto:
Houve uma evolução. Hoje temos nossa produção editorial – cinco editoras – bem instalada. As livrarias se disseminam em muitas cidades. A escola adotou os escritores nacionais. A África lusófona está à frente da África de línguas inglesa e francesa. No Zimbábue e na África do Sul, as escolas ensinam só autores ingleses. No caso de Angola, os escritores nacionais são colocados em primeiro plano, desde a escola primária. Isso cria uma relação de intimidade que ajuda a literatura. E isso começa com a escola.

Revista Época: O que o senhor acha de sua obra ser adotada nas escolas brasileiras?
Mia Couto:
O Brasil alterou sua relação literária com a África. Vou a escolas aqui. É curioso ver como um menino do Brasil hoje lê uma coisa que foi escrita nos anos 1980 em Moçambique. As perguntas que os estudantes brasileiros me fazem não são só de escola. Só temo que eu seja imposto como uma chatice escolar. O importante é ter uma relação de prazer com a leitura. Pena que não há um único autor brasileiro, vivo ou morto, adotado nas escolas africanas.

Revista Época: O senhor acompanha a literatura brasileira atual?
Mia Couto:
A literatura brasileira não chega mais à África. É estranhíssimo, porque chegava lá bem há uns 30 anos. Trocávamos mais literatura e música no tempo de nossas respectivas ditaduras do que fazemos agora. Porque agora nos deixamos levar pelo mercado, e o mercado não está interessado em que haja essas trocas. O que conheço da literatura brasileira é por meu esforço.

Revista Época: De onde o senhor tira suas histórias?
Mia Couto:
Tiro de conversas com as pessoas. Isso vem da capacidade de escutar os outros. Há sempre uma história oculta. É um exercício que faço desde menino. Me sentava diante da casa, e meus pais me chamavam de muito devagar. Eu era muito sossegado. Dessa forma, observava os outros. Contar história é uma coisa que parte do não saber. É uma ignorância intencional. Ela me torna disponível para escutar as vozes dos personagens.

Revista Época: Por que o senhor escreve?
Mia Couto:
Para responder a essa pergunta, sempre crio uma razão diferente, pois não existe uma razão para escrever. A escrita não é uma função nem uma missão. Escrevo para ser feliz. A poeta portuguesa Sophia de Mello Brayner contava histórias para que seus filhos doentes adormecessem. Escrevo para adormecer o mundo que me parece doente. E assim invento histórias.

MIA COUTO | Pelo reencantamento do mundo

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FONTE: Fronteiras do Pensamento