a literatura como instrumento de leitura das culturas e das identidades

Num livro seminal para os estudos literários no Brasil, o crítico Antonio Candido afirma, a propósito do trabalho de leitura e interpretação do texto ficcional, que este não pode se limitar “a indicar a ordenação das partes, o ritmo da composição, as constantes do estilo, as imagens, fontes, influências”. Para Candido, a caracterização estética constitui procedimentos auxiliares para um trabalho maior, que consiste em “analisar a visão que a obra exprime do homem, a posição em face dos temas, através dos quais se manifestam o espírito ou a sociedade”. É portanto imprescindível para a aquisição de competências na discussão ou na exploração pedagógica da literatura observar, como enfatiza Candido, que um “poema revela sentimentos, idéias, experiências;  um romance revela isto mesmo, com mais amplitude e menos concentração.  Um e outro valem, todavia, não por copiar a vida, como pensaria, no limite, um crítico não-literário; nem por criar uma expressão sem conteúdo, como pensaria, também no limite, um formalista radical.  Valem porque inventam uma vida nova, segundo a organização formal, tanto quanto possível nova, que a imaginação imprime ao seu objeto”. [In: “Introdução”. Formação da literatura brasileira (momentos decisivos)]

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Reconstruir essas relações, ou essa tessitura, entre expressão formal e conteúdo existencial, entre texto imaginativo e mundo real, tem solicitado das várias gerações de pesquisadores da literatura a adoção de perspectivas e métodos também diversificados. No que diz respeito à abordagem das questões identitárias e culturalistas, vem se destacando a importância de um olhar interpretativo capaz de identificar a representação de valores fundacionais das sociedades, ou as maneiras como heranças e tradições culturais são tematizadas no texto literário. Algumas indicações valiosas para esses estudos encontram-se sintetizados no artigo de Heloisa Toller GOMES Questões coloniais e pós coloniais no tratamento (literário) da etnicidade, disponível AQUI.

“Fahrenheit 451”: um olhar ainda instigante para a crise da leitura

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Obra fundamental para refletirmos sobre as relações entre cultura da imagem e cultura da palavra no mundo contemporâneo, bem como acerca do tenso valor adquirido pela literatura nesse contexto, o filme Fahrenheit 451 mantém-se uma obra muito atual também na abordagem dos conflitos entre subjetividade e sociedade, mostrando como nossos dilemas pessoais refletem em profundidade nossos questionamentos acerca dos ordenamentos sociais e políticos.  Se quiser saber mais sobre esse filme, que foi adaptado do romance homônimo do escritor norte-americano Ray Bradbury, sugerimos a leitura do artigo Montag e a memória perdida: notas sobre Fahrenheit 451  de François Truffaut (clique para acessar). Conforme diz o crítico literário alemão Wolfgang Iser, as obras ficcionais constróem realidades que nos ajudam a entender outras realidades, tais como a própria realidade histórica. O vídeo a seguir, reunindo imagens de acontecimentos sucedidos há cerca de meros 80 anos atrás na Alemanha, imagens que se reproduziram em novembro de 2011, nos Estados Unidos, durante intervenções policiais contra os acampamentos de indignados, e que infelizmente se repetem entre todas as épocas e povos que submergem na intolerância, atesta a persistente relevância do filme de Truffaut.

 

o homem é o lobo dos livros

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«Não há livros. O Governo do Povo triunfou.»

Urbano Bettencourt

Paul Valéry propunha, num gesto  anti-positivista,  a escrita de uma História da Literatura  que abstraísse das minudências biográficas e se ocupasse apenas do Espírito, produtor e consumidor.

José Martins Garcia, escrevendo na última década do Estado Novo, falava na hipótese de uma História da Literatura a que determinadas obras nunca acederiam,  aquelas  que o mundo  aniquilara, não lhes dando condições de existência: as que nunca acederam ao domínio do público, por razões de ordem vária, desde as socialmente inconvenientes às rejeitadas pelos mecanismos  editoriais,  das esquecidas nas gavetas às destruídas pelo fogo “purificador”  ou mesmo àquelas que não puderam ser escritas porque o mesmo fogo consumiu os seus autores antes do tempo próprio. Em qualquer destes casos, teríamos sempre uma História funesta da Literatura, mais trágica talvez no caso daquelas obras que tiveram, um dia, existência efetiva e acabaram destruídas por obra e (des)graça do fogo «purificador».

De algum modo, a História Universal da Destruição dos Livros, de Fernando Báez (Texto Editores, 2009), corresponde a este projeto de  relato dos diferentes modos  como a barbárie humana se fez sentir sobre os livros, das situações históricas em que isso aconteceu e também das motivações diversas que estiveram na sua origem. O subtítulo da obra, Das tabuinhas sumérias à Guerra do Iraque, define  desde logo os seus limites cronológicos e proporciona  ao leitor uma perspetiva  da extensão real da destruição e das perdas, algumas delas irremediáveis: de um tempo remoto até às portas da nossa contemporaneidade, a destruição de documentos escritos e de livros acompanha a humanidade como um sinal inegável da sua desumanidade e selvajaria, às vezes apenas o sinal do seu descuido ou desinteresse.

Não por acaso, o autor abre a  Introdução com um apontamento sobre o Iraque, aonde chegou em 2003,  na sua qualidade de membro de uma comissão de investigação aos danos provocados pela Segunda Guerra do Golfo. E terminará a obra com um longo capítulo sobre essa mesma destruição. A sua presença na comissão justificava-se pelo facto de Fernando  Báez, venezuelano, ser reconhecido como uma autoridade mundial no campo da história das bibliotecas. 

História Universal da Destruição dos Livros  traça um percurso de destruição que começa no Mundo Antigo, passa por Constantinopla para desembocar no século XIX, percorrendo depois o século XX e os primeiros anos do XXI. É uma história em que se cruzam ódios étnicos e preconceitos, de natureza religiosa, ética ou sexual,  em que a censura,  a autocensura  e a retratação se aliam às práticas efetivas da fogueira, das bombas,  da perseguição, das purgas: do Santo Ofício à fatwa de Khomeini sobre Rushdie talvez não vá mais do que o passo de um anão; do bibliocausto nazi (sob as ordens de um homem que era leitor compulsivo) à destruição maciça de obras durante a Revolução Cultural chinesa (por inspiração de um Mao Tsé-Tung que até se dava às musas)  a distância não é tão grande como isso,  nem tão díspares as motivações de um e outro, entre a «pureza» da raça e a «pureza» das ideias. Jogando com o lugar-comum, poder-se-ia dizer aqui que o ódio ao livro não tem cor, da esquerda à direita, e não conhece fronteiras, a ocidente e a oriente. Junte-se a isso a prática editorial da queima ou da guilhotina, a destruição dos livros por processos naturais.

A inscrição que titula esta crónica encimou vários meses a entrada principal da Biblioteca Nacional do Camboja, em 1967. Lá dentro, o Povo convivia harmoniosamente com os soldados, os porcos e as galinhas, no mesmo espaço que antes fora sala de leitura. «Os poucos livros que tinham sobrevivido eram utilizados em trabalhos quotidianos ou para embrulhar cigarros», escreve Fernando Báez (p.167). O episódio faz pensar, pela diferença de desfecho, naquele que Natália Correia relata em Não percas a Rosa: «A prevenção condiz com ameaças escritas e telefónicas que quase diariamente recebo, provocações em lugares públicos e, mais proximamente, com os olhares fuzilantes dos podengos da Comissão de Moradores. Pela terceira vez,  subiram ao meu quinto andar para perguntarem, numa velada ameaça de ocupação, quantas divisões tinha a minha casa. Apanharam sempre com a porta na cara até que na última investida lhes disse com o desprezo que esse tipo de caça me inspira: “São poucas para a minha biblioteca e se não sabem o que é isso vão aprender a ler.” (entrada de 15 de Novembro de 1975;  p. 339).

E depois há a contabilidade: milhares aqui, dezenas de milhar ali, em quantos milhões de livros destruídos podemos  pensar? Independentemente dos números finais, Báez escreve que 40% dos livros destruídos o foram devido  a desastres naturais, acidentes, animais, mudanças culturais e mesmo à degradação inevitável dos próprios suportes; os restantes 60% devem-se à deliberada  ação do homem, num ritual que é sempre o de apagar a memória.

E, como a referência aos políticos do século XX já deixara supor, nem sempre a destruição de livros é da autoria de povos ou de homens incultos e ignorantes. Os exemplos são muitos. Um deles reporta-se ao  romancista Vladimir Nabokov, que,  no Memorial Hall,  queimou o Dom Quixote perante seiscentos alunos.  Ritual do fogo e reversão irónica  da história: o primeiro grande romance moderno tem como um dos episódios de referência aquele em que o cura e o barbeiro se entregam à sanitária  tarefa de queimar os livros da biblioteca de Alonso Quijano, que seriam os responsáveis pela insanidade mental deste último  (nos termos, traduzidos,  do próprio Cervantes: o «donairoso e grande escrutínio que o cura e o barbeiro fizeram na livraria do nosso engenhoso fidalgo»;  cap. VI, primeira parte). Como essa queima era já a alusão às práticas  da Inquisição, o que aqui se configura especularmente  é o «movimento perpétuo» da destruição dos livros.

FONTE: PNETliteratura

LET A25: atividade de reflexão e avaliação sobre o texto “Ler Devia Ser Proibido”

BOAS VINDAS para as colegas integrantes do curso da LET A25 – O Cânone Literário Brasileiro.  O blogue KUKALESA está à disposição para a partilha de referências e como canal de comunicação extra-classe. Postagens regulagens serão feitas aqui tendo em vista complementar nosso trabalho presencial. PARTICIPEM NOS COMENTÁRIOS!

QUESTIONÁRIO:

1- Guiomar de Grammont recorre a uma ironia desconcertante para denunciar a falta de interesse dos brasileiros por literatura.  Em sua opinião, quais as atitudes que a(o)s professora(e)s devem assumir  para enfrentar essa situação?

2- O que você sabe acerca de Dom Quixote e Madame Bovary? Seria possível indicar semelhanças entre essas figuras e personagens da literatura brasileira, tais como Policarpo Quaresma e Capitu? Você consideraria que esses personagens podem ser trabalhados de maneira produtiva na formação intelectual e moral dos jovens?

3- Afirma Grammont que “Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer”. Para você, quais as características que um texto deve ter para poder proporcionar uma experiência de leitura prazerosa?

4- Para GG, a leitura amplia nosso potencial para a imaginação e a fantasia. Indique situações concretas da vida profissional ou das relações sociais nas quais esse potencial pode se mostrar decisivo para o sucesso.

5- “Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam”. Posicione-se acerca dessa ideia.

literatura e liberdade: caminhos que se cruzam

 

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LER DEVIA SER PROIBIDO

Guiomar de Grammont

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

                                                                …

Ler pode tornar o homem perigosamente  humano.

[In: PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp.71-3]

Fonte: LÍNGUA E PALAVRAS

como se constrói um@ leitor@? dicas do escritor luso-angolano Gonçalo M. Tavares

Leitura de puro prazer

Entrevista a Clarice Cardoso

Escritor português exaltado por Saramago, Gonçalo M. Tavares defende a livre escolha e a orientação das obras literárias no lugar das listas de títulos obrigatórios.

Em 30 anos, ou menos, Gonçalo M. Tavares ganhará um Nobel. A previsão, audaciosa, de José Saramago dá a dimensão que o autor nascido em Angola, em 1970, toma na literatura portuguesa contemporânea. Traduzido e distribuído em 35 países, Tavares está no Brasil para a Bienal do Livro Rio, onde deve cruzar com 600 mil pessoas, 170 mil das quais são estudantes. Serão encontros, acredita, com potencial de “despertar” nesses jovens o prazer pela leitura.

Para isso, contudo, defende que uma “leitura aconselhada”, em que os alunos tenham poder de escolha e orientação, substitua a obrigatória e, assim, mitigue os riscos de as listas de livros exigidos os afastarem de autores essenciais. “A leitura deve ser associada ao puro prazer. Muitas vezes, a imposição de ler um livro até o fim, aos 12 ou 13 anos, pode fazer com que a pessoa se afaste de um autor muito importante, extraordinário, porque entrou nele quando não estava preparada”, diz o escritor, que também lança, pela Leya, Uma Viagem à Índia.

Criador de romances duros, que define como “uma parte negra”, Tavares venceu, com Jerusalém, o Prêmio José Saramago em 2005 e, em 2007, o Portugal Telecom. No lado quase oposto, em uma atmosfera lúdica, personagens de nomes como Calvino, Brecht e Valéry convivem na série O Bairro. Sob histórias aparentemente simples, cada título guarda questões e discussões profundas e, além de adaptações teatrais, começam a ser utilizados por professores nas salas de aula portuguesas.

Carta na Escola: Suas vindas à Flip, a publicação massiva de sua obra por editoras brasileiras e, agora, a Bienal do Rio sinalizam a força de sua presença no Brasil. Que diálogo enxerga entre seus livros e os leitores daqui?
Gonçalo M. Tavares:
Tenho sido, felizmente, muito bem acompanhado pelos brasileiros. Os livros vão saindo até ao mesmo tempo que em Portugal. Há quase oito ou nove anos minha ligação com o Brasil se mantém firme tanto no nível de leituras quanto no de visitas – ainda assim não tão frequentes quanto eu gostaria. O principal, nela, é que há sempre muito feedback de leitores e também de artistas e pessoas ligadas ao teatro, que têm feito peças com base, por exemplo, nos senhores de O Bairro. Esse tipo de reação agrada bastante a quem escreve.

CNE: Quando está aqui, como costumam ser seus encontros com os leitores?
GMT:
É um pouco como aqui em Portugal. Há alguns com mais idade, mas há também muitos de 20, 30 anos que, muitas vezes, fazem da leitura um ato prévio, transformam-se em criadores. Há também um tipo da parte acadêmica que se aproxima fazendo teses sobre os livros. Por vezes aparecem leitores com seus 80 anos, mas também muitas pessoas novas, e agrada-me que minha obra não seja para um grupo apenas. Acho que os livros devem pertencer àqueles que neles quiserem entrar. E são obras que, de certa maneira, procuram que os leitores sejam a segunda parte, que participem na interpretação e, nessa expressão, se tornem ativos.

CNE: O quanto megaeventos como as bienais conseguem atrair e formar esse perfil ativo de que fala?
GMT:
Pela experiência anterior que tenho, muitas vezes a palestra é um despertar para o livro. No meu caso, penso que os livros devem estar em primeiro plano, ou seja, o autor deve se apagar um pouco, os livros é que são o essencial. Mas é claro que o contato pessoal, o fato de os leitores cruzarem corpo a corpo conosco, é algo que pode marcar de uma maneira diferente.

CNE: O impacto desses encontros é diferente em jovens leitores?
GMT:
Aqui em Portugal fui umas duas ou três vezes a escolas secundárias e, realmente, para alunos muito novos, e mesmo universitários, é evidente que cada contato, cada experiência que têm com escritores é uma coisa muitas vezes marcante. Passados os anos, aquilo fica.

CNE: Sobre esse jovem que está agora tomando gosto pelos livros, o que considera o principal fator na formação e, principalmente, na manutenção do hábito da leitura?
GMT:
Não há regras, mas parece-me importante, em primeiro lugar, associar a leitura a uma vontade, ou seja, tentar que não seja nada obrigatório. Não sou muito entusiasta da leitura obrigatória, digamos que prefiro a ideia da leitura aconselhada. Em vez de fazer o jovem ler três ou quatro livros predeterminados, poderia haver 15 e ele escolher dentre esses. Ou seja, haver sempre a opção, para que ele sinta que há um grau de liberdade, de decisão individual, que não é uma imposição. Creio que a leitura deve ser associada ao puro prazer. Se alguém não está gostando de um livro, deve interrompê-lo e voltar a ele quando achar que está preparado. Muitas vezes, a imposição de ler um livro até o fim, aos 12 ou 13 anos, pode fazer com que a pessoa se afaste de um autor muito importante, extraordinário, porque entrou nele quando não estava preparada. Isso acontece com Camões e Eça de Queirós aqui em Portugal. São clássicos indispensáveis para qualquer leitor, mas alguns jovens, naquela fase da vida, não entram nos livros.

CNE: Como evitar, então, que a obrigatoriedade afaste indiretamente alguns alunos da leitura?
GMT:
A lógica dos livros obrigatórios quase assume que todas as pessoas naquela série estão na mesma idade de maturação, na mesma idade de leitor. Vinte pessoas de 15 anos podem estar na mesma turma e algumas terem idade de leitor de 30 anos, outras de 10. A idade de leitura não corresponde à idade, digamos, biográfica e, portanto, temos de respeitar essa idade individual, quase interna. Por isso mesmo, creio que se deve abrir a biblioteca aos alunos, para que possam folhear os livros, abrindo um e outro até escolherem algum. Um modelo possível e simpático é o jovem entrar acompanhado por leitores mais velhos, que podem orientá-lo. Assim temos, por um lado, a escolha individual e, por outro, a troca e o saber ouvir sugestões de leitores mais maduros.

CNE: As indicações dos professores têm bastante peso no índice de leitura brasileiro. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, lê-se 4,7 livros por ano, mas, se descontarmos os títulos lidos fora da escola, o número cai para 1,3 livro por habitante/ano. O que é possível fazer para evitar uma queda tão brusca pelo “interesse” por livros fora da sala de aula?
GMT:
Não há regras. Por vezes, ter de fazer uma prova é um empurrão para a pessoa que não iria ler. Como em tudo, acho que na leitura deve haver, por um lado, a vontade e, por outro, uma certa disciplina, no sentido de se impor que naqueles dias se vai ler tal livro. Aqui em Portugal está se desenvolvendo o Plano Nacional de Leitura, que é um projeto bastante interessante. Uma das coisas que se fazem é ter uma ou duas horas por semana em que os jovens ficam na sala de aula a ler ficção, poesia, que as próprias turmas escolhem. A escola está de certa maneira muito associada a um livro técnico, de estudo, para aprender coisas quantitativas, então isso é muito revolucionário: introduz nela o imaginário literário.

CNE: Há quem veja os títulos da série O Bairro, como O Senhor Valéry, como mais acessíveis aos jovens leitores. O senhor concorda?
GMT:
Realmente, O Bairro tem histórias e um mundo muito lúdico, é quase uma utopia. Eu até brinco, na França, que é uma espécie de aldeia do Asterix que tenta resistir contra a barbárie deste século. O Senhor Brecht tem uma espécie de humor negro, O Senhor Kraus, um lado de sátira e coisas de lógica. É um mundo que tem várias leituras e uma delas é a do prazer imediato. Os romances são mais exigentes no sentido moral, filosófico, e são por outro lado muito duros, são uma parte negra – apesar de haver pessoas com 17, 18 anos que os leem. Aqui em Portugal, professores de Filosofia ou Português utilizam pequenas histórias de O Bairro para as aulas e procuram usar conceitos que estão ali. Por exemplo, O Senhor Valéry é um bom exemplo de livro que pode ser lido para crianças a partir dos 6 anos, mas também permite outras discussões. Agradam-me os títulos que aparentemente têm histórias muito simples. O Senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos e, assim, era alto, mas só por pouco tempo: há aí também um conto sobre a insatisfação.

CNE: Quem pensa em adicionar entre os moradores de O Bairro? Certa vez, o senhor disse que planejava escrever um volume com Clarice Lispector.
GMT:
Sou adepto incondicional de Clarice Lispector, acho-a uma escritora extraordinária. É uma das senhoras que teria honra em ter no Bairro. Ele tem um design já pronto, com cerca de 40 personagens – e saíram já dez. É meio uma utopia, uma que nunca vou terminar. A ideia é que seja um lugar em que alguns vivem e que outros visitam. O nome que dou às personagens nada tem a ver com a biografia delas, são autônomas. Mas, de certa maneira, as marca. A escolha desses homenageados não tem a ver com serem os meus autores favoritos. Há nomes que são determinantes, como Lispector, Machado de Assis, Thomas Mann, e não estão ali. É uma escolha quase instintiva, de sentir que nomes me remetem a questões mais lúdicas, muito mais do que a eleição de um cânone de autores.

CNE: Como leitor, quais são suas preferências? Lê algum brasileiro?
GMT:
No geral, leio coisas distintas, gosto bastante de ficção, ensaios, ciência, poesia e teatro. Num mesmo dia, passo por diferentes livros. Sobre os brasileiros, leio inúmeros. Há aqui na minha frente, por acaso, o livro do Luiz Ruffato, que tem uma grande história, Eles Eram Muitos Cavalos. Mas é claro que não consigo acompanhar tudo, porque, infelizmente, não chegam muitos títulos interessantes que vão saindo aí. São poucas as coisas que vêm para cá, espero que isso em breve se altere.

CNE: A esse respeito, boa parte dos autores lusófonos que conhecemos pós-Saramago, como Mia Couto, José Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, e mesmo você, chegou ao Brasil graças ao incentivo do governo português. O governo brasileiro, por outro lado, é mais tímido. Isso dificulta a divulgação da nossa literatura aí?
GMT:
Quando digo que não chega tudo é porque há muita produção de qualidade no Brasil e, portanto, não é possível vir toda. E há muitos autores portugueses de qualidade que também não chegaram ao Brasil. Por outro lado, há uma tradição que começa. Por exemplo, há uma coleção muito importante que saiu, a Biblioteca Essencial da Literatura Brasileira. Às vezes, não é muito organizado, porque são diferentes editoras publicando diferentes autores, mas já há muitíssimos brasileiros editados e sendo acompanhados aqui, como Bernardo Carvalho e Raduan Nassar. Eu diria que a situação não é perfeita, mas não chega a ser má. Se um português quiser conhecer literatura brasileira, tem muito à disposição.

 (Foto: Patricia Stavis/Folhapress)

CNE: Retomando os clássicos, que são normalmente por onde os jovens começam a estudar literatura. Sua escolha da epopeia como gênero para seu novo livro, Viagem à Índia, é uma tentativa de reavivá-la, modernizando-a?
GMT:
Viagem à Índia foi, de fato, uma tentativa de ver se se poderia voltar ao épico, que de certa maneira é considerado de outro tempo, não atual. O livro relata a história de uma personagem que sai de Lisboa em busca de uma certa espiritualidade na Índia, e sua estrutura é mais ou menos a de Os Lusíadas, mas com uma personagem do século XXI, ou seja, com objetivos, digamos, menos grandiosos. É relevante mostrar que os clássicos são clássicos, porque nós, em 2011, voltamos a olhar para eles e a fazer coisas a partir deles. Um clássico que fica fechado e sobre o qual ninguém intervém com o tempo deixará de sê-lo. Clássico é aquilo que está sempre atual e, assim, exige das pessoas que estão vivas uma resposta.

LIVROS DE GONÇALO M. TAVARES
O Senhor Valéry e a Lógica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011

O Senhor Swedenborg e as Investigações Geométricas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011

O Senhor Kraus. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007.

O Senhor Brecht. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.

Clarice Cardoso: Formada em jornalismo, possui especialização em Literatura pela PUC-SP. Trabalhou de 2007 a 2011 no jornal “Folha de S.Paulo”. É editora assistente de Carta na Escola e Carta Fundamental.

FONTE: Carta Capital

a literatura como samplagem de textos: crise ou evolução da arte da palavra?

Os leitores do genialíssimo escritor argentino Jorge Luis BORGES — especialmente quem leu o conto Pierre Menard, autor do Quixote — sabem que não é de agora que a crise da arte também repercute na produção literária. Aliás, antes mesmo, por exemplo, que a representação figurativa passasse a ser questionada no campo das artes plásticas, dando vazão a um crescente abstracionismo, a poesia lírica moderna, sobretudo a partir da obra de Charles Baudelaire, passa a expressar um discurso que rompe radicalmente com os padrões retóricos de clareza e consistência, investindo na elaboração de linguagens complexas e significados herméticos. As propostas de Goldsmith, portanto, devem ser situadas no processo de redefinição e experimentação de recursos estéticos que tem dinamizado a produção literária já há mais de um século. Mais bibliografia teórica sobre esse tema pode ser consultada AQUI.


Literatura será feita a partir de cópias, diz fundador do site UbuWeb

SILAS MARTÍ

Kenneth Goldsmith acha que está fazendo arte quando senta e reescreve palavra por palavra a edição do dia do “The New York Times”. Também anda fascinado com a advogada californiana que publica num blog sentenças de condenações por estupro como se fossem poesia, sem alterar uma única linha.

“Ficou claro que a escrita do futuro tem mais a ver com mudar as coisas de lugar do que com criar novos conteúdos”, afirma ele. “Samplear [utilizar trechos de obras já prontas] alguma coisas vale mais do que essa coisa em si.”

Goldsmith, artista e escritor americano que fundou o site UbuWeb, acredita tanto nisso que escreveu um livro-manifesto. “Uncreative Writing”, ou escrita não criativa, ensina como ser um autor em plena cultura do remix.

FOTO: MeredithWaterswaters Kenneth Goldsmith, fundador do site UbuWeb e autor do livro "Uncreative Writing"

Kenneth Goldsmith, fundador do site UbuWeb e autor do livro “Uncreative Writing”

“Essas ideias não são novas, mas não tinham chegado à literatura”, opina. “É um debate ainda muito rudimentar se pensarmos que nas artes visuais a questão de plágio e deslocamento começou com o urinol de Marcel Duchamp, lá atrás, em 1913.”

Das artes plásticas à música, em tempos de difusão ultraveloz na internet, o mundo vem redefinindo a ideia de cópia e plágio, dando muitas vezes peso de original a novas versões do que já existia. Na literatura, a febre do remix causa as distorções que viraram objeto de estudo de Goldsmith, ele mesmo gastando horas do dia em exercícios tediosos como copiar artigos de jornal para ver onde surgem erros espontâneos, frutos de sua desatenção.

“Tudo o que escrevo é horrível, impossível de ler”, reconhece. “Mas não estou interessado em leitura, é só um estopim para discussões.”

Ao observar falhas de linguagem, Goldsmith concluiu que a raiz disso já estava na poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, na literatura transtornada dos beatniks e na justaposição de tudo, possível só na era da internet. No ubu.com, por exemplo, é possível ver vídeos dos Beatles e peças de Samuel Beckett. “É um espaço utópico, em que tudo conversa”, diz. “Reenquadro o que existe para criar algo novo, um colapso dos gêneros artísticos.”

Seu próximo passo é reescrever o clássico ensaio do alemão Walter Benjamin sobre as galerias comerciais da Paris do século 19, só que transpondo a ação para as ruas de Nova York no século 20. Nessa versão, personagens trocam de pele –Baudelaire, por exemplo, vira o polêmico Robert Mapplethorpe.

FONTE: Folha.com