LET C53–Narrativas Africanas de Língua Portuguesa: iniciando aprendizagens

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SANTOS, Boaventura de Sousa. Uma nova política emancipatória. In: Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. Tradução Mouzar Benedito. São Paulo: Boitempo, 2007.

MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: BRANDÃO, André Augusto (org.). Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 2004. Palestra proferida no 3º Seminário Nacional Relações Raciais e Educação – PENESB, Rio de Janeiro, 05/11/03.

A proposta deste curso da LET C53 é a de estimular leituras dialógicas do romance A geração da utopia, ou seja: leituras que se apropriem dos discursos e sentidos que esta obra provê sobre a história recente de Angola, enfocando questões centrais relativas à independência e à construção nacional, para suscitar outras leituras, outras interpretações e outros discursos acerca dos significados e implicações da utopia em nossas vidas.

O documentário linkado a seguir, Era das Utopias, do cineasta Silvio Tendler, apresenta um cuidadoso trabalho de retrospecção e de articulação polifônica de ideias sobre a utopia, constituindo material útil para ajudar na abertura de caminhos para esses outros, incluindo-se assim entre as referências complementares para o nosso curso, nesse momento de iniciação.

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teorizando sobre as identidades lusófonas & suas intrigantes ambiguidades

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Não se deve perder de vista que, para o trabalho reflexivo exercido em nossa atualidade transbordante de saberes e de impasses, problematizar tem se mostrado tão ou mais importante do que responder. Sobretudo quando se trata da inteligência e escrita dedicadas a temáticas de persistente complexidade, como é o caso dos sistemas identitários afro-luso-brasileiros, a re-articulação criativa de premissas e conteúdos, bem como a coragem polemizadora, merecem valorização estratégica, considerando-se a cada vez mais evidente necessidade em abrir perspectivas de questionamento e elucidação tão inovadoras quanto diferenciais. O ensaio de Boaventura Santos linkado nesta postagem sem dúvida oferece abundante material para os leitores conscientes dos desafios com que se defrontam os intérpretes da colonialidade lusófona compromissados com a redefinição epistêmica que a crítica contemporânea demanda de seus diversificados protagonistas.

Francisco Tenreiro: antologia de poesia e de crítica


Avançando no estudo da poesia negritudinista do são-tomeense Francisco Tenreiro, seguem abaixo algumas referências (clique nas imagens) para a discussão desses textos, bem como mais uma coletânea de poemas, alguns dos quais merecem breves análises na obra aqui indicada de Manuel Ferreira.

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FERREIRA, Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa. 1.ed. 2 vols. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1977.

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PADILHA, Laura. Em busca de um novo humanismo. In: MATA, Inocência (org.). Francisco José Tenreiro: as múltiplas faces de um intelectual. Lisboa: Colibri, 2010.

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AMOR DE ÁFRICA

1
Esparso e vago amor de África
como uma manhã outonal de nevoeiros calmos sobre o Tejo.
Difuso e translúcido amor de África
na sombra fugidia ao gás das travessas às três da madrugada.
Amor pálido de África num céu de andorinhas mortas
num campo branco sem malmequeres nem papoulas
Amor ténue e pálido, difuso e vago, translúcido de África
no coração murcho das multidões do Rossio olhando o placard
gente murcha e exausta, cansada e torturada
cansada e torturada para o amor.
(Quatro pulsações febris de um corpo só
oh África do Nilo e do Zaire oh África do Zambeze e do Níger
quem em ti está pensando de coração em África?
África dos rios velhos e ruínas ossificadas de Zimbabwé
China das muralhas de crisântemo e sangue
Malaias e Indonésias com encruzilhadas de sonho e febre
Indochina da virilidade com abraços tricolores de fraternité e palavras de balas
quem em vós está pensando de coração em África, nas Chinas e Malaias, Indonésias e Indochinas de sonhos crispados?)
São sempre notícias de longe (terras exóticas meu avô andou lá veja a mala de cânfora conheceu o Gungunhana)
são sempre notícias de longe bafejando corações murchos às cinco horas da tarde no largo do Rossio.
Esparso e vago amor de África pelas calçadas da cidade.
Vago amor de África pelas nove horas da manhã, comigo sentado num eléctrico amarelo
deslizando nos carris ainda orvalhados do sonho e da ilusão
com pernas roliças de sopeiras a caminho da praça
e as vozes acordadas roucas dos embarcadiços encalhados
e as gralhas gentis e palradoras da agulha e linha
comigo sentado no eléctrico amarelo com carris de sonho
e uma mulher velha com o desejo-de-lugar nos olhos encovados
e eu deslizando com os sonhos dos outros e acordando para os olhos velhos da mulher
levantando-me e ela sentando-se no comentário para a do lado
há rapazes pretos muito gentis, muito gentis, muito gentis
e eu indiferente e vago com a vaguidade do amor daquela mulher esquecida do tempo como um papiro
embalado pelo eléctrico amarelo de sonho e pelos carris
das gralhas mimosas e palradoras;
(ah não haver milho às mãos-cheias para os bichos gulosos de vida destes corpos penugentos
nem os barcos de papel da infância seguros contra todos os riscos no Lloyd’s da nossa imaginação
para os homens do mar feitos agora gaivotas cinzentas em terra).
Esparso e vago amor de África pelas calçadas da cidade.
Vago também as nove e trinta da manhã na tabacaria tolhida de espanto
à esquina do prédio de oito andares
onde em dois brasidos se queimam olhos fosforescentes de pantera
e há uma mão felina estendendo na ponta das unhas recurvadas
pelo desejo e pela ambição o maço de Paris
uma mão de veludo e unhas de sangue
metendo conversas secretas e arrepios na espinha
solicitando encontros respeitáveis com carteiras concretas
casacos cio Alaska e jóias de Kimberley.

2
Aqui estou agora de coração em África
nesta noite fria e nu do capote das ilusões
ouvindo este sábio que tudo sabe tudo sabe de África.
De África e dos pretos claro está!…
Dos pretos que para arrelia das gentes à Terra vieram
pobrezinhas crianças crescidas em pretidão
mas que têm alma branca dizem uns
ou segundo outros alma danada.
Aqui estou eu agora vestido de África por dentro
por fora cheviote sorridente o sábio ouvindo
que das pirâmides diz e esquece os negros faraós
da poligamia reverbera olhos fechados à pederastia
fosforescente ao escuro das ruas velhas do mundo cansado
braço dado com damas de camélias emurchecidas
como as palavras que solta da sua caveira sem dentes.
Aqui estou eu agora coração oprimido e sorriso longe
ouvidos atentos ao linfatismo de repetidas ideias
sei lá quantas vezes e tantas como pingos sujando o meu coração.
Oh! minha África ter-te no peito o que vale
perante a clareza absoluta e homérica de afirmações tão sábias!
«Eu antes quero uma fuga de Bach que um batuque de cafres;
Prefiro um quadro de Rubens a um manipanso preto;
Sim, claro, o Ifé e o Benin são excepções ao resto
infantil, imaturo, caricatural da arte africana»
Casquinava arritmicamente, os dentes soltos na caveira consumida de sabedoria!
De Sabedoria de África e dos pretos claro está!…
Ri caveira morta, riam todos vocês assistência sem vida
Riam todos que o caso não é para menos;
mas deixem-me por favor este sorriso cheviote por fora
enquanto o meu coração serenamente conta
os minutos-tempo que faltam para a humanidade renascer!

 

EPOPEIA

Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
— veias entumecidas dum corpo de sangue!

*

Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
roxeando a noite tropical

Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!

*

Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando o compasso!

Noite de grande lua
e destino ignorado!…

*

Foste o homem perdido
Em terras estranhas!…

No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações de fumo!

Na calma do descanso nocturno
só saudade da terra
que ficou do outro lado…
— só canções bem soluçadas —
dum ritmo estranho!

*

Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!

Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi despropósito!…

Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideais
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres…

Libéria! Libéria!

Ah!
os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando…

*

Quando cantas nos cabarés
Fazendo brilhar o marfim da tua boca
É a África que está chegando!

Quando nas Olimpíadas
Corres veloz
É a África que está chegando!

Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja a de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma via nova!

…para que a tua gargalhada
de novo venha estraçalhar os ares
como gritos agudos de azagaia!

 

EXORTAÇÃO

Negro
para quem as horas são sol e febre
que colhes
nesse ritmo de guindaste.

Negro
para quem os dias são iguais
que respeitas teu patrão e senhor
como água que mexe o engenho.

Negro!
Levanta os olhos para o sol rijo
e ama tua mulher
na terra húmida e quente!

 

O MAR

A voz branca que está no mato
perde-se na imensidão do mar.
Lá vai!
O sol bem alto
é uma atrapalhação de cor.
– Abacaxi safo nona
carregozinho do barco!…

Um tubarão passando
é um risco de frescura.
Lá vai!

O barco deslizando
só com a vontade livre e certa do negro
lá vai!…

 

CANÇÃO DE FIÁ MALICHA

“Lenço di seda
…Seda càbou!”

O branco arregalou os olhos
Negrinha tão tenra
de peito durinho!

“Saia di pano
…Pano càbou!”

No socopé seu branco a tomou:
Negrinha tão tenra
de riso tão largo!

“Vinho di plôto
….Plôto càbou!

                                                          Seu branco deu tudo
té roça montou!

Mas mina piquina
tudo càbou…

 

LONGINDO O LADRÃO

Os olhos de Longindo
saltam a noite
como dois bichinhos luminosos.

Chiu!
Só o eco do mar!

O corpo de Longindo
segue os olhos
como caçô atrás de homem!

Chiu!
Só o rumor do palmar!

A mão de Longindo
estendeu-se prá frente
os olhos saltando na noite!

Ui!
Um tiro de carabina!

O coração de Longindo
começou batendo
e a navalha cantou de encontro à pele.

Hum!
Um tiro de carabina!

Longindo fechou um olho.
Depois o outro.
O branco o perdeu na escuridão!…

Ah!
Só o ronco-ronco do mar!

 

NÓS, MÃE

Tens o rosto vincado, minha mãe!

Os teus seios deixaram de dar leite
e tombaram em desalento
como duas folhas envelhecidas.
Só as tuas pernas engrossaram
e os dedos cortados e lascados
se enraízam pela Terra
dizendo que ainda vives.
De resto, o teu ventre murchou
como se tivesse sido soprado
pelo bafo dum vulcão maldito.
De resto, o teu corpo de azeviche
mirrou e tornou-se pardacento
e a tua pele fina, minha mãe,
ficou rugosa e feia
como casca de uma árvore velha.

Os teus olhos são duas poça de água
procurando em vão nem tu saberás o quê?
Talvez os teus tantos filhos
paridos desse ventre gasto e encarquilhado
e que vão gritando pelo mundo lágrimas de sangue.
O cantar doce dos coqueiros
ondulando à brisa
era o balbuciar do teu primeiro filho.
E a nossa primeira irmã
tinha nos olhos duas luas negras
acendendo a nossa alegria.
Então, os teus seios, minha mãe,
tinham leite correndo-te dos bicos
em dois riozinhos muito brancos
na pele de ébano.

Ah! Brancos, negros e mestiços
escaldaram o teu corpo de sensações
com o bafo quente de um vulcão maldito.
E os teus seios secaram
o teu corpo mirrou
e as pernas engrossaram
enraizando-se no teu próprio corpo

E os teus olhos…

Os teus olhos perderam o brilho
ao sentirem o chicote
rasgar as carnes dos teus filhos.
Os teus olhos são poços de água pálida
porque cheiraste na velha cubata
o odor intenso de uma aguardente qualquer.

Os teus olhos tornaram-se vermelhos
quando brancos, negros e mestiços
instigados pelo alcóol
pelo chicote
pelo ódio
se empenharam em lutas fratricidas
e se danaram pelo mundo.

E a ti,
Oh! Mãe de negros e mestiços e avó de brancos!
Ficou-te esse jeito
de te perderes na beira de algum caminho
e te sentares de cabeça pendida
cachimbando e cuspindo para os lados.

Mas os teus filhos não morreram, negra velha,
que eu oiço um rio de almas reluzentes
cantando: nós não nascemos num dia sem sol.

Que um rio vem correndo e cantando
desde St.Louis e Mississipi
ao som dos quissanges numa noite africana
às noites longas dos cargueiros em Port-Said
à luz nevoenta de algum botequim inglês
até onde haja um peito negro tatuado e ferido.

Conheço sim, o cansaço do nosso corpo
E se um dia não puderes mais
fecha os olhos e encosta o ouvido à terra.
Ui! Ouvirás no ressoar de um tambor ao longe
O canto altivo e sereno dos teus filhos.

Nós, minha mãe
Não nascemos num dia sem sol!

 

1619

Da terra negra à terra vermelha
por noites e dias fundos e escuros,
como os teus olhos de dor embaciados,
atravessaste esse manto de água verde
– estrada de escravatura
comércio de holandeses –

Por noites e dias para ti tão longos
e tantos como as estrelas no ceú,
tombava o teu corpo ao peso de grilhetas e chicote
e só ritmo de chape-chape da água
acordava no teu coração a saudade
da última réstia de areia quente
e da última palhota que ficou para trás.

E já os teus olhos estavam cegos de negrume
já os teus braços arroxeavam de prisão
já não havia deuses nem batuques
para alegrarem a cadência do sangue nas tuas veias
quando ela, a terra vermelha e longínqua
se abriu para ti
– e foste 40 £ esterlinas
em qualquer estado do Sul –

 

CICLO DO ÁLCOOL

1
Quando seu Silva Costa
chegou na ilha
trouxe uma garrafa de aguardente
para o primeiro comércio.

A terra era tão vasta
havia tanto calor
que a água
parecia não ter potência
para acalmar a sede da sua garganta.

Seu Silva Costa
bebeu metade…

E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.

2
A lua batendo nos palmares
tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
é o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
soluçam as cubatas
batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
os brancos estão fazendo negócio
a golpes de champagne!

3
Mãe Negra contou:
“eu disse:
filhinho
beba isso coisa não…
Filhinho riu tanto tanto!…”

Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
estremeceram um sorriso longínquo.
– E depois Mãe-Negra?

“Oh!
filhinho
entrou no vinhateiro
vinhateiro entrou nele…”

Os olhos de nhá Rita
estão avermelhando de tristeza.

“Hum!
filhinho
ficou esquecendo sua mãe!…”

 

ILHA DE NOME SANTO

Terra!
das plantações de cacau, de copra, de coco a perderem-se de vista
que vão morrer numa quebra ritmada
num mar azul como céu mais gostoso de todo o mundo!

Onde o sol bem amarelo incendeia as costas
dos homens, das mulheres agitando-lhes os nervos
num cadenciar magico mas humano; capinar, sonhar, plantar!

Onde as mulheres que têm braços mais grossos e mais tortos que ocá
são negras como o café que colhem depois de torrado
trabalham ao lado do seu homem numa ajuda toda de músculos!

Onde os moleques veem seus pais no ritmo diário
deixando correr gostosamente pelo queixo quente
o sabor e a seiva úmida do sàfu maduro!

Onde as noites estreladas
e uma lua redonda como fruto
os negros as sangués os moleques os caçô
– mesmo o branco e a sua mulata –
vêm no sòcòpé de uma sinhá
ouvir um malandro tocando no violão
cantando ao violão!

E o som fica escoando pelo mar…

*

Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro
onde apesar da espada e duma bandeira multicolor
dizerem poder dizerem força dizerem império de branco
é terra de homens cantando vida que os brancos jamais souberam.
é terra do sàfú do sòcòpé da mulata
– ui! fetiche di branco! –
é terra de negro leal e valente que nenhum outro!

algumas referências para a compreensão da condição dos “assimilados” na Angola colonial

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Personagens estratégicas na história e na ficção de Angola – tal como se observa no conto “Mestre” Tamoda, que estamos discutindo na LET C47 – os assimilados representam um fenômeno cultural cujo estudo certamente pode oferecer contribuições valiosas para também compreendermos a construção das identidades “morenas” no Brasil, assim como os resultados ambíguos gerados pelos processos de sincretização que ocorreram no Brasil e em vários dos territórios colonizados pelos portugueses. Importante também referir que a complexa representação do mestiço que estamos discutindo na LET C50, no âmbito dos estudos sobre a poesia da negritude em língua portguesa, articula-se diretamente aos efeitos culturais do assimilacionismo. A seguir indico três textos disponíveis na internet que apresentam informações e análises bastante úteis para o aprofundamento desse tema. O primeiro desses textos dirige o foco para os efeitos gerados no campo linguístico pelas políticas assimiladoras, tomando como objeto de discussão a narrativa de Uanhenga Xitu já referida.

AMÂNCIO, Íris. Performances da oralidade na escrita xitu do “Mestre” Uanhenga. In: Revista Scripta. Belo Horizonte: PUC Minas, 2002.

CARVALHO FILHO, Silvio de Almeida. As relações étnicas em Angola: as minorias branca e mestiça (1961-1992). In: Anais do VI Congresso da Associação Latino-Americana de Estudos Afro-Asiáticos do Brasil (ALADAAB). Brasília: 1998.

BITTENCOURT, Marcelo. A resposta dos “crioulos luandenses” ao intensificar do processo colonial em finais do séc. XIX. In: A África e a instalação do sistema colonial (c. 1885 – c. 1930). Actas da III Reunião Internacional de História da África (1999). Lisboa: IICT; Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga, 2000.

literatura negra/afro-brasileira: um panorama crítico & atualizado

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Traçando genealogias estéticas, problematizando questões identitárias e esclarecendo os principais aspectos teóricos acerca da especificidade da produção literária inscrita por negros e negras brasileirxs, este artigo de Nazareth Fonseca oferece aportes valiosos para a reflexão acerca das formas de ressignificação da Negritude realizadas no Brasil por nomes destacados da geração mais recente de poetas.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Cultura/literatura negra, cultura/literatura afro-brasileira: impactos, paradoxos, contradições. In: PEREIRA, Edmilson de Almeida (org.). Um tigre na floresta dos signos. Estudos sobre poesia e demandas sociais no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010.

o texto literário angolano como fonte para o estudo das estruturas culturais afrolusobrasileiras

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Nesta quinta-feira, dia 16/5, a partir das 10:45h, estarei apresentando na Sessão III do Enlace 6, a decorrer na programação do III Seminário Enlaçando Sexualidades, uma comunicação que sintetiza alguns resultados mais recentes da pesquisa que desenvolvo no âmbito do projeto Imagens & Imaginários da Mestiçagem nas Literaturas Angolana & Brasileira. Aprofundando a discussão que tenho realizado sobre uma obra de Pepetela, esta comunicação (vide resumo a seguir) busca organizar mais subsídios teóricos para o trabalho comparativista de caracterização da colonialidade lusófona que tenho empreendido desde minha dissertação de Mestrado, trabalho cujo objetivo é compreender criticamente as relações entre as formas de exploração e discriminação que o colonialismo instaurou em países como o Brasil e o nosso multifacetado, assim como altamente erotizado, imaginário da mestiçagem. Resultados preliminares da minha pesquisa centrada no romance A gloriosa família podem ser lidos no artigo que publiquei, em 2010, na revista Ipotesi (O sexo da “raça”: identidade, escravidão e patriarcalismo em A gloriosa família, de Pepetela). Presentemente, a abordagem procura mostrar como a sexualidade interracial, além do papel que desempenha na negociação biopolítica de privilégios materiais, também influencia fortemente a reprodução e hibridização dos modelos culturais hegemônicos nas sociedades mestiças.

Em função deste evento, está suspensa a aula do dia 16 que seria ministrada para a Turma 1 (9-11h) da Let C47. Nas Turmas da tarde da LET C47 e da LET A67, as aulas estão mantidas. 

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APORTES GENEALÓGICOS PARA A CARACTERIZAÇÃO DA INTERSECCIONALIDADE DE GÊNERO E RAÇA EM CONTEXTOS MESTIÇOS: LEITURAS DO ROMANCE ANGOLANO A GLORIOSA FAMÍLIA

Perspectiva estratégica para a reestruturação das lutas políticas e culturais da atualidade? Ou um intricado sistema de relações de poder e de identificação sobrepostas, correlacionadas e antagônicas? Para ativistas e intelectuais engajados na desconstrução dos fundamentos simbólicos do racismo e do sexismo, a interseccionalidade de gênero e raça demarca um front tão permeado de desafios quanto de indefinições. No artigo “Tudo é interseccional?”, Ina Kerner propõe que o estudo das interações polimórficas constitutivas dessa interseccionalidade deve objetivar primariamente, para cada contexto enfocado, a descrição crítica de “matrizes de dominação”, tendo em vista abarcar e especificar “fenômenos de poder complexos e entrelaçados empiricamente de múltiplas formas, com uma dimensão epistêmica, uma institucional e outra pessoal” (2012, p.56). Nesta comunicação, pretendo colocar em evidência e em debate alguns elementos estruturantes da matriz de dominação derivada do patriarcalismo miscigenador que serviu de célula básica para a formação das sociedades escravagistas afro-luso-brasileiras. Tomarei o romance A gloriosa família, publicado por Pepetela em 1998, como fonte genealógica para uma revisitação a cenários e sentidos fundadores desse poder patriarcal. Ambientado em Luanda, em meados do século XVII, o romance é narrado do ponto de vista de um escravo doméstico pertencente a Baltazar Van Dum, um ex-militar holandês que, depois de se instalar no litoral angolano, torna-se um dos mais destacados e influentes dentre os agentes do tráfico negreiro sul-atlântico. Encabeçando também uma larga prole de filhos e afilhados mulatos, gerados por sua esposa angolana e incontáveis escravas, Baltazar posiciona-se no centro de uma rede de afetos, alianças, diferenças e violências cuja tecedura opera em ressonância direta com a produção histórica de quadros de referência para a gestão do sistema colonial português, bem como para a configuração dos imaginários da mestiçagem tropical. O recorte analítico abordará as representações do que pode ser considerado, nos termos de Marshall Sahlins e Osmundo Pinho, como a operação de uma “economia política da sexualidade”, através da qual signos libidinizados de raça e gênero são transacionados tanto para a obtenção de privilégios e submissões no âmbito da ordem colonial, quanto para a produção de agenciamentos de resistência e transgressão a esta ordem.

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a lei 10639 e seus desafios

 

“Um país mestiço com aparência branca”

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Para presidente do Fundo Baobá, escola e universidade são os melhores locais para combater o preconceito

Mariana Vaz

Há exatos dez anos entrava em vigor a lei nº 10.639, que exigia a inclusão de conteúdos focados na história e cultura afro-descendente nos cúrriculos escolares brasileiros. Para o professor Athayde Motta, diretor-executivo do Fundo Baobá para Equidade Racial, o principal avanço da nova lei foi fazer com que as instituições de ensino percebessem o quanto estavam “distantes da realidade”.

Em entrevista exclusiva ao Escola, Athayde Motta opina sobre a visão que a sociedade tem dos afro-descendentes, imagem que está sempre associada à escravidão imperial e que desconhece os personagens negros que se destacaram na história.

Na opinião do professor, a resistência que ainda se encontra em algumas instituições em abandonar antigas “verdades históricas” se dá pela dificuldade em associar a história brasileira às culturas negras e indígenas. “Muitos preferem que o Brasil seja visto como um país de formação europeia, com contribuições pontuais dos negros e indígenas, ou seja: um país mestiço cuja aparência externa é branca”, critica. Motta também falou sobre a polêmica que envolve a política de cotas, uma iniciativa que reflete um preconceito ainda latente e que somente poderá ser combatido com políticas públicas que envolvam a educação.

Como o negro é visto hoje nas escolas?
Não há uma ideia clara no Brasil sobre o negro, a não ser pela ampla variedade de estereótipos sem origem definida e que não são questionados nas escolas. As leis 10.639/2003 e 11.654/2008 (que ampliou a primeira ao incluir a história e a cultura das populações indígenas nos currículos) trazem a necessidade de se construir este conhecimento a partir de dados históricos e sociais, com base científica sólida. Às escolas, cabe disseminar esse conhecimento de forma apropriada entre os vários níveis de ensino para que as crianças aprendam sobre as culturas ao longo de sua vida escolar.

Em geral, a imagem e as histórias que se contam sobre o negro enfatizam aspectos negativos, mostrando experiências de vida de intenso sofrimento. Mas já sabemos que a contribuição da população negra para a sociedade brasileira foi bem mais significativa. Com o fim da escravidão, as populações negras brasileiras “sumiram” da história, o que não aconteceu de fato.

Um exemplo dessa contribuição foi a criação do primeiro fundo pecuniário do Brasil por um grupo de escravos e negros libertos ainda no período colonial, onde hoje se encontra o sítio histórico do Pelourinho, em Salvador. Como escravos, eles não podiam calçar sapatos ou juntar dinheiro. Por isso, os recursos eram mantidos em um cofre guardado em uma das igrejas da região. Nesse fundo, que se tornaria um modelo para a criação de bancos e sistema de pensões do país, escravos e libertos guardavam o que podiam para comprar cartas de alforria e conseguir a liberdade.

Ainda no período imperial, uma das figuras de maior destaque na corte foi o engenheiro André Rebouças, negro, brilhante e defensor da monarquia. Você se lembra do túnel Rebouças no Rio de Janeiro? Sim, o nome foi dado em homenagem a ele. E você aprende isso na escola?

No período recente, podemos lembrar do nome de um dos maiores geógrafos brasileiros, reconhecido em todo o mundo, o professor Milton Santos, já falecido, e que por muitos anos não teve seu trabalho reconhecido no próprio país.

Após 10 anos de implantação, o senhor acredita que as instituições de ensino estão aplicando a lei de obrigatoriedade de ensino da cultura afro-brasileira para seus alunos de forma satisfatória?
Pesquisas sobre o processo de aplicação da lei revelam um grande esforço na produção de material didático adequado, uma vez que só se teve clareza do quanto não se sabia sobre a história e a cultura africana e afro-brasileira após a lei ser aprovada. A inclusão descuidada de material, produzido de forma amadora, passou a ser um ponto de muita atenção e estudos.

O que esta lei faz é criar abertura para mostrar a contribuição real das populações afro-brasileiras à história do Brasil. Todos os grupos brancos (italianos, portugueses, alemães) são incorporados, de uma maneira ou de outra, na história oficial do nosso país, por suas contribuições em áreas como cultura, culinária e participação social. Por que o mesmo não acontece com as populações negras?

A reformulação desta história “oficial” tem sido um processo difícil e muitas vezes conflituoso. Em termos de políticas de educação, isso envolve a formação de currículo, de novas metodologias de ensino, e o trabalho de especialistas, o que demanda tempo e vontade política.

Se isso não acontece, qual seria o motivo?
Apesar de incorreta e falha, a história “oficial” que se apresenta nos livros didáticos é apoiada por vários setores da sociedade que preferem que a imagem do Brasil não seja associada de forma tão profunda às populações negras e indígenas. Muitos preferem que o Brasil seja visto como um país de formação europeia, com contribuições pontuais dos negros e indígenas, ou seja: um país mestiço cuja aparência externa é branca, mas que traz em seu interior alguns aspectos das culturas negra e indígena.

Por que é tão difícil inserir aspectos da cultura negra e indígena nas atividades escolares, sem cair no senso comum de tratar negros e índios sempre como escravos e pertencentes a culturas mais “ignorantes”?
Muita dessa dificuldade decorre do fato de que várias pesquisas apontam a educação e a escola como ferramentas fundamentais na reprodução do racismo no Brasil. Portanto, é nessas áreas que se deve criar uma visão alternativa, onde haja um tratamento mais igualitário dos grupos raciais e étnicos que contribuíram para a formação da sociedade brasileira.

Se é na escola que se cria a noção, por exemplo, de que a beleza está associada à pele branca, é lá que se deve criar uma noção de diversidade onde a beleza se expressa em todos os grupos. Também é na escola que valores sociais coletivos são formados e disseminados na sociedade. Ela tem um papel importantíssimo em mostrar a desigualdade social. Lembrando que muitos valores e concepções sobre a imagem do negro se formam em casa, com família e amigos. É por isso que a escola também deve inserir até os pais nessa educação. De acordo com uma pesquisa feita pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o estado brasileiro que mais aplica a lei é Pernambuco. É um processo que se dá efetivamente em longo prazo.

O senhor acredita que a formação acadêmica atual prepara os professores para abordar temas da cultura negra e indígena dentro da sala de aula?
Creio que não. Antes da lei, os professores simplesmente reproduziam o racismo da sociedade, mesmo tendo o cuidado de não incitar a violência ou o confronto. Faltava a experiência pedagógica de lidar com isso, com essa “novidade” imposta pela lei, sem que o ensino nas escolas virasse um cabo de guerra. Então foi necessário desenvolver uma nova metodologia de ensino, o que levou alguns anos.

Esses profissionais estão preparados para lidar com pequenas situações de preconceito que acontecem entre seus alunos? Como ele deve lidar em uma situação de racismo dentro da sala?
Estão se preparando. Há experiências na área de racismo institucional, com foco mediação de conflitos, mas que não se aplicam necessariamente às escolas. Um exemplo interessante foi mostrado por uma escola no Rio Grande do Sul. Uma professora pediu que a mãe fosse à aula e penteasse o cabelo da filha (ambas negras). Este ato simples do cotidiano encantou as crianças. “Olha como é bonito o cabelo dela!”, diziam de uma forma natural e descontraída. Com isso, a ideia que o cabelo do negro é ruim e feio se desmanchou um pouco.

Essa é uma situação, uma experiência comum, pequena, que não está em nenhum livro pedagógico e que reproduz a consciência sobre a cultura negra de forma natural na criança, na mãe e no educador. É a questão da “igualdade inserida no cotidiano escolar”.

A nova lei de cotas, que disponibiliza vagas nas universidades públicas para estudantes pobres, negros e indígenas foi alvo de inúmeras críticas, principalmente de estudantes das redes particulares (alguns fizeram até manifestações, como aqui em Goiânia). A que o senhor atribui essa resistência em possibilitar a estudantes pobres o acesso às universidades? Por que o assunto gera tanta polêmica?
A questão é: a educação é um dos maiores problemas no Brasil! Só na educação de nível superior – universidades públicas, mais especificamente – é que se viu uma resistência tão grande e verbalizada de forma tão direta. Não há uma explicação clara sobre as causas desta reação, além da noção de que entrar em uma universidade pública é um privilégio para poucos. Como os brasileiros tem vergonha de serem racistas, não se esperava uma reação tão forte e estas pessoas, de fato, não se consideram racistas. Usam um argumento simplório acusando os criadores da lei de racistas. A área da educação é onde a resistência tem sido definitivamente maior, especialmente quando se fala em cotas.

A propósito, qual é sua opinião sobre o assunto?
As cotas são um mecanismo para estimular a diversidade entre os estudantes no nível superior, que ainda é baixíssima no Brasil. Muito antes das cotas já se criticava o vestibular por ser um mecanismo falho para medir a capacidade dos alunos, causando estresse e exclusão. Atualmente, as cotas não alteram fundamentalmente o vestibular, mas diminuem seus impactos excludentes.  Os alunos cotistas não são aprovados indevidamente, e frequentam exatamente as mesmas aulas que os aprovados do vestibular.

O que acontece com os alunos cotistas, depois de aprovados, depende do seu próprio empenho e de como universidades e professores irão recebê-los. O que temos visto é que, na maioria dos casos, cotistas tem médias mais altas que não cotistas. Então, esses alunos podem apresentar deficiências de ensino, mas não são “pessoas inferiores”. Uma oportunidade foi o suficiente para que eles demonstrassem sua capacidade. Se a universidade se transforma neste espaço gerador de oportunidades com apoio, a mudança deverá ser enorme.

Neste aspecto, a importância das ações afirmativas vai muito além da questão de justiça social e promoção da igualdade racial. O Brasil não pode arcar com uma mão-de-obra tão despreparada. Então vamos colocar essas pessoas na universidade, independente de qualquer outro fator externo, porque isso inclusive vale mais economicamente do que tentar se recuperar anos e anos de deficiência no ensino público – o que, claro, deveria melhorar paralelamente.

O Brasil é um país de preconceitos latentes. A educação seria a melhor saída para iniciar a mudança dessa realidade?
Sim. As pessoas não conseguem ver o papel estratégico que a universidade e a educação, de maneira geral têm na promoção da igualdade e no desenvolvimento do Brasil. Elas não tinham ideia de como a universidade pública é “valiosa”. Então, mesmo que as cotas acabem num futuro próximo, elas já garantiram a entrada de universitários e a saída de profissionais preparados para o mercado de trabalho e capazes de contribuir para o desenvolvimento econômico do Brasil.

A tendência é que as cotas acabem por alterar os processos de admissão na universidade. Não deverá substituir o vestibular, mas estimular maneiras mais eficientes e diversas de inclusão. A educação democratiza a sociedade, então, quando ela abre espaço para negros e pobres, ela se torna mais “complexa” e desafiadora.

Como funciona o projeto Educar para a Igualdade Racial? Quais são as novidades para o ano de 2013?
O Fundo Baobá apoia possui o Prêmio Educar para a Igualdade Racial, que acontece há 10 anos. Em 2012 foi realizada a sua 6ª edição com participação cada vez maior de professores, principalmente de estados do norte e nordeste. Em 2013, o Fundo lançará seu primeiro edital público para financiamento de pequenos projetos voltados para a promoção da equidade racial. Para essas iniciativas, serão destinados R$ 200 mil.

O que é e o que faz?

Athayde Motta é bacharel em comunicação social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e obteve títulos de mestre em administração pública e mestre em antropologia pela Universidade do Texas, em Austin (EUA). Atualmente, está escrevendo sua tese de doutorado sobre o ativismo político das populações afro-brasileiras para o programa de pós-graduação em estudos da diáspora africana, também na Universidade do Texas. Athayde é diretor executivo do Fundo Baobá para Equidade Racial.

FONTE: Tribuna do Planalto