a crise da arte na canção popular

 

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

[Ferreira Gullar]

 

 

COMPUTADORES FAZEM ARTE

Computadores fazem arte
Artistas fazem dinheiro.
Computadores fazem arte
Artistas fazem dinheiro.
Computadores avançam
Artistas pegam carona.
Cientistas criam robôs
Artistas levam a fama.

[Chico Science & Nação Zumbi]

 

 

COMIDA

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?…

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?…

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor…

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade…

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?…

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor…

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade…

Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade…

a “morte da arte” & a pop-music

 

Lady Gaga é trash ou é clean? Muitas vezes incorporadas, hoje em dia, às conversas eruditas e populares sobre o que é agradável ou não é, essas palavras da língua inglesa remetem a duas vertentes da estética contemporânea, associando-se geralmente, no campo das artes visuais, o trash (“lixo”) a obras com aspecto descuidado, grosseiro ou agressivo, e o clean (“limpo”) a obras que se pautam pela refinamento das formas e materiais, pelo respeito às proporções equilibradas ou à figuração naturalista, tendendo a reproduzir os padrões clássicos da arte ocidental. Contudo, e sobretudo no período chamado de pós-moderno, podemos considerar que as obras de arte tendem a misturar elementos trash e clean, de acordo com dosagens que tanto servem para a reciclagem das modas quanto para propor novas concepções acerca da natureza do belo, assim como para estabelecer pontes entre a linguagem artística e a crítica social.

A partir da leitura da entrevista abaixo podemos observar como várias das questões assinaladas acima podem também ser mapeadas entre os clipes e as canções de famosas stars da música pop internacional. Considerando a discussão e as atividades na LETA31, podemos tentar instaurar articulações mediante algumas perguntas, como as destacadas a seguir:

  • o sentido do trash no trabalho de Lady Gaga é equivalente ao sentido do lixo nas obras de Vik Muniz?
  • qual o tipo de produção que lhe parece mais próxima da ideia de arte “morta”, ou mercadorizada, a de Gaga ou a de Muniz? por que?

Lady Gaga: espelho de nosso cotidiano.

Lady Gaga, por sua performance e ousadia, causa interesse não só nos fãs de cultura pop. A própria academia, com seus pesquisadores, começa a se interessar em estudar o fenômeno Lady Gaga. Thiago Soares é um deles. Em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, o docente afirma que Gaga encena o lugar do “seja o que você quiser” ou “faça do jeito que quiser”. “E esse acaba sendo um discurso muito oportuno hoje em dia no momento em que temos tão poucas ideologias contra as quais lutar”.
Além disso, continua, “essa coisa da Lady Gaga ser um personagem me parece que é uma das questões mais fortes nas nossas relações contemporâneas. Hoje, nós somos avatares no Twitter, no Facebook; podemos criar fakes, postar como ‘anônimos’, ou seja, as identidades estão muito moduláveis. Podemos nos ‘fantasiar’ daquilo que quisermos nas redes sociais, na internet e, também, na vida. Daí a importância de Lady Gaga ‘jogar’ com as identidades, ‘brincar’ com seu corpo. Ela está reproduzindo uma prática que é bastante comum no nosso cotidiano”.

Thiago Soares é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e professor do Departamento de Comunicação e Turismo – Decomtur, da Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e mestrado em Letras pela mesma universidade. Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que faz de Lady Gaga um ícone pop?
Thiago Soares – O destaque que Gaga ocupa na mídia hoje e a forma com que se posiciona na indústria fonográfica creio que sejam aspectos fundamentais para entendê-la na cultura pop. Essas lógicas de ame/odeie; a forma como ela utiliza a cultura midiática, as performances que realiza, a forma como usa o videoclip, os instrumentais da televisão, da internet… Tudo isso aciona o lugar de destaque dela dentro da cultura pop. Porque não é a questão apenas de ocupar um espaço, é ocupar um lugar de destaque; é como essas formas de legitimação dela funcionam na engrenagem midiática. Falar de Lady Gaga é pensar esse lugar de destaque que ela está ocupando hoje nas instâncias midiáticas.

IHU On-Line – Qual seria a razão para que Gaga explore tanto em seus clipes aspectos cristãos, especialmente católicos?
Thiago Soares – Temos que pensar a questão da religiosidade na cultura pop. Lady Gaga não está criando nada de novo. Agora, ela está fazendo de uma forma bastante emblemática, usando em videoclipes, performances, shows. Mas, por exemplo, a Madonna já fez isso. Esta deu um beijo num santo negro em “Like a prayer” na década de 1980. Então, 30 anos atrás, a rainha do pop já fez esse questionamento em torno da relação da igreja como elemento de polemizar a cultura midiática. A Lady Gaga traz à tona novamente esse discurso, por isso que ela é tão comparada com Madonna, porque traz elementos já utilizados anteriormente pela cantora, como questões religiosas, como dispositivo de reconfiguração.

IHU On-Line – Nesse sentido, em que aspectos Lady Gaga difere e se aproxima de Madonna?
Thiago Soares – Lady Gaga tem muitas semelhanças com questões de performance, de composição; ela compõe as próprias músicas dela, é produtora. Tem uma coisa muito parecida com a Madonna sonoramente também. As músicas são parecidas. São baladas e canções pops com apelo midiático muito forte, sintetizador; música eletrônica, dançante… Então, tem toda uma semelhança.
Mas também é preciso pensar as diferenças entre as duas. Se formos pensar do ponto de vista da trajetória, Gaga tem um caminho muito diferente do da Madonna. Esta encena talvez aquela utopia do sonho da cantora que chegou a Nova Iorque com pouco dinheiro; entregou uma fita cassete na gravadora que a descobriu. Gaga não. Ela já era produtora antes mesmo de ser cantora. Ou seja, já estava dentro dos mecanismos da indústria e isso a difere muito de Madonna, que encenou todo aquele sonho e utopia da cantora que seria descoberta pela indústria.
Lady Gaga, por sua vez, usou dos mecanismos da indústria já como uma forma de se inserir na música mesmo. Ademais, os discursos das duas são muito distintos. Madonna sempre teve uma preleção muito racional, defendeu causas (negros, gays etc.). Já Lady Gaga fala em monstros… em bandeiras menos claras talvez.

IHU On-Line – Como analisa a extravagância e o visual “over” de Gaga? Qual é o sentido dessa mise-en-scène?
Thiago Soares – Um fator que faz com que Gaga tenha uma importância muito grande na cultura midiática hoje é que ela entende ser tudo performance e leva isso ao extremo. Os vestidos dela de noite, por exemplo, são três vezes maiores que os outros. Ela sai na rua para comprar um cachorro quente toda montada, porque sabe que vai ser fotografada, que pode gerar repercussões etc. Ou seja, o que faz Lady Gaga importante, essa coisa over da roupa dela etc., é porque ela está levando a questão da performance ao extremo. Está reconhecendo que tudo o que fazemos é performatizado. E ela materializa isso, na moda e na música.

IHU On-Line – Você afirma que Lady Gaga é, em si, uma simulação, performance e uma personagem que se insere num contexto mais pós-moderno, niilista. Poderias explicar melhor tais aspectos?
Thiago Soares – Niilista é aquele que questiona as coisas, mas não sabe muito o quê. A Lady Gaga é um pouco isso. Ela fala muito, por exemplo, que os fãs são “monstrinhos” dela. Então, qual a questão dos monstros? É se sentir à parte da sociedade. Mas, em quê de fato? Acredito que o novo álbum dela, o Born this way, está mostrando certa clareza no discurso gay dela.
Mas a cantora tem ainda muitas sombras que não sabemos. Ela está reclamando da vida, porém, não sabemos muito bem de quê. Há certo discurso niilista nisso. É aquele tipo de pessoa que quer lutar, mas não sabe contra quê. É um pouco a nossa luta na contemporaneidade. Vivemos em uma sociedade tão individualista, que não sabemos muito bem contra o quê lutar, quem é nosso inimigo. Gaga acaba mostrando a problemática de nossa era mesmo. Apesar de não gostar muito do termo pós-modernidade, acredito que ele, para que possamos entender Lady Gaga, seja útil.

IHU On-Line – Há uma identificação dos jovens com Lady Gaga, uma projeção? Em que sentido?
Thiago Soares – Sim, muito grande. Creio que essa coisa do jovem está muito atrelada ao discurso individualista de autoajuda que Lady Gaga tem. Discursos individualistas, do tipo “Seja diferente”, acabam causando certo engajamento em torno da cultura jovem muito forte, sobretudo naquele que não tem um propósito.

IHU On-Line – Há um quê de burlesco nas aparições de Gaga. Mais do que chocar, ela diz ser ela mesma quando “se monta” para os shows. Como percebe a questão da identificação dos jovens com esse figurino e esse personagem?
Thiago Soares – Acredito que há um fator muito interessante nesse aspecto, e muito ligado à cultura gay também. Por exemplo, se Madonna encenava o lugar e poder da mulher, Gaga, por sua vez, encena o lugar do “seja o que você quiser” ou “faça do jeito que quiser”. E esse acaba sendo um discurso muito oportuno hoje em dia no momento em que temos tão poucas ideologias contra as quais lutar.
Além disso, essa coisa da Lady Gaga ser um personagem me parece que é uma das questões mais fortes nas nossas relações contemporâneas. Hoje, nós somos avatares no Twitter, no Facebook; podemos criar fakes, postar como “anônimos”, ou seja, as identidades estão muito moduláveis. Podemos nos “fantasiar” daquilo que quisermos nas redes sociais, na internet e, também, na vida. Daí a importância de Lady Gaga “jogar” com as identidades, “brincar” com seu corpo. Ela está reproduzindo uma prática que é bastante comum no nosso cotidiano.

IHU On-Line – Percebe influências de Madonna nos figurinos e na obsessão camaleônica de Lady Gaga? Por que a aparência é tão importante em suas apresentações?
Thiago Soares – É Madonna, mas acredito ser também uma necessidade midiática de se fazer interessante. Acredito que essa necessidade camaleônica não é uma relação direta de Madonna com Gaga. Parece-me que é uma necessidade de reconfiguração do próprio sistema de consumo dessas celebridades no campo da indústria da música. Creio que a aparência é relevante em suas apresentações porque Gaga leva ao extremo a ideia de que a performance é essencial na aparição da cultura pop. Para ela, performatizar está em todos os ambientes da vida. Está quando ela sai de casa, aparece na MTV, está no videoclip; quer dizer, essas instâncias estão todas semelhantes e ocupam espaço de valor dentro da lógica dela, que são muito parecidas e bastante análogas.

IHU On-Line – Por que Gaga “deu certo” e Ke$ha, que segue um visual trash, por vezes parecido com o de Gaga, não tem a mesma projeção ou impacto?
Thiago Soares – Não seria sensato atestar que “Ke$ha não deu certo”. Ke$ha tem projeção sim, mas sua trajetória na dinâmica midiática ainda é bastante inferior à da Lady Gaga. Se pensarmos em músicas como “Tik tok”, “We r who we r” e “Blow”, por exemplo, temos faixas que foram exaustivamente tocadas e tiveram seus clipes também muito bem exibidos. As matrizes performáticas de Lady Gaga e de Ke$ha são, de fato, bem parecidas. Elas flertam com o trash, com o grotesco, com a “bagaceira”. Mas acho que a Lady Gaga cerca seu discurso de uma carga mais “artística” e “autoral”. Ke$ha ainda está ligada a uma premissa de que é “nova” no campo das cantoras musicais…

IHU On-Line – Gaga disse que a cultura pop é sua religião, e para isso é preciso acreditar que seu trabalho nunca está finalizado, e que a arte é algo que transcende, que transforma. Em que medida essa concepção muda a forma como o artista pensa a arte na pós-modernidade?
Thiago Soares – Lady Gaga mistura tudo no seu trabalho: arte, comércio, performance, ficção, realidade. Tudo se amalgama e vira esse “caldo” interessante para a cultura pop. Na verdade, como estratégia de diferenciação, Lady Gaga se aproxima do campo da arte, da performance, do happening, para ocupar espaço midiático. É preciso pensar a questão da “cultura pop como uma religião” a partir da retranca do engajamento que as duas propõem.
Shows pop são, em certa medida, momentos de adoração dos ídolos, assim como a coisa da religião.
A questão da pós-modernidade pressupõe entender a arte e comércio sem limites claros, borrando suas “bordas”. Lady Gaga é assim: O que nela é arte, o que é comércio? Que corpo é aquele? Onde começa o personagem e onde termina a performer? Até quando ela vai durar? Essas são questões centrais para se pensar Gaga a partir de uma retranca pós-moderna.

FONTE: IHU Online

mídia e estética na música pop contemporânea: outras interfaces entre gozo e violência

 

O crime de Lady Gaga

Marcia Tiburi analisa o pós-feminismo pop de Lady Gaga

                                  Lady Gaga: ninfa pós-feminista

Lady Gaga é o mais recente ídolo pop da cena internacional. Entenda-se por ídolo pop um indivíduo que encanta as massas com a habilidade artística de que é capaz sendo seu autor ou o mero representante de uma estética inventada por publicitários e estrategistas de produtos culturais. Nesse sentido, todo ídolo pop age como o flautista de Hamelin conduzindo por certo efeito de hipnose uma quantidade sempre impressionante de pessoas. Ele é também um guia estético e moral das massas. A propósito, entenda-se por massa um grupo de indivíduos que, ao se encontrar com outros, perde justamente a individualidade, tornando-se sujeito de sua própria dessubjetivação. Em outras palavras, ele é hipnotizado como se estranhamente desejasse sê-lo. A Indústria Cultural depende desse mecanismo, por meio do qual oferece ao indivíduo a oportunidade de se perder com a sensação de que está ganhando. O ídolo pop é a humana mercadoria que permite o gozo pelo logro que o espectador logrado aplica a si mesmo.

Lady Gaga certamente veio para nos lograr. Mas, como disse Walter Benjamin sobre livros (e também putas), muitas vezes a mercadoria vale muito mais do que o dinheirinho que pagamos por ela.

O paradoxal desejo das massas
Antes de mais nada, é preciso ver que Lady Gaga, a despeito da qualidade boa ou má de si mesma e do que ela produz, vem a nós com números impressionantes. Se na internet seus vídeos são vistos por milhões de pessoas (certamente, quando você ler este artigo, os números serão ainda maiores) é porque ela mesma sabe – ou o diretor e roteirista de seus belos videoclipes nos quais a quantidade aparece, seja na nota de dólar com o rosto de Gaga como no vídeo de “Paparazzi”, seja em “Bad Romance” nos índices na cena dos computadores – que se trata em sua obra da questão da quantidade, mais do que da qualidade. A Indústria Cultural sempre tem na quantidade uma questão mais importante do que a qualidade, mas, se Lady Gaga sabe disso e não o esconde, é porque elevou o cinismo a discurso, mas, ao mesmo tempo, lança-nos uma ironia capaz de fazer pensar.

A questão da quantidade adquire um contorno subjetivo na mentalidade dos indivíduos aniquilados no todo. Assim, uma característica expositiva da condição das massas de nosso tempo é o próprio “desejo de ser massa”. Trata-se da ânsia de adesão ao todo que se disfarça no desejo de saber o que todo mundo sabe, ver o que todo mundo vê. Complicado falar de desejo das massas, quando a “massa” remonta à possibilidade de se deixar moldar pela ação exterior justamente por ausência de desejo. Podemos, no entanto, entendê-lo usando uma imagem gasta como a da ovelha a participar do rebanho. Um modo de ter lugar desaparecendo mimeticamente no todo. Nesse sentido, o desejo de ser massa é o mesmo que nos coloca na situação de fazer parte da audiência fazendo com que liguemos a televisão no programa mais visto, que queiramos ver o filme com a maior bilheteria, que, caso cheguemos a desejar um livro, seja da lista dos mais vendidos. Fazer parte da audiência é a garantia de que em algum momento estaremos juntos, que faremos parte de uma comunidade mesmo que ela seja apenas “espectro”. A angústia da solidão, da separação e da própria individuação desaparece por um passe de mágica da imagem do ídolo pop.

Uma estética pop para o pós-feminismo?
A obra da jovem Lady Gaga não é objeto descartável como a maioria das mercadorias promovidas no contexto da indústria e do mercado cultural. Se nos detivermos em sua música, em sua dança ou em sua imagem isoladamente, não entenderemos o todo da mercadoria. Portanto, é preciso estar atento à performance que ela realiza. A apreciação disto que devemos hoje chamar de obra-produto ou produto-obra deve começar por aí, tendo em vista que, acima de tudo, Lady Gaga é uma performer que agrega em seus vídeos diversas formas artísticas que vão da música ao cinema, passando pela dança e chegando a uma relação curiosa com um aspecto inusitado da produção contemporânea nas artes visuais. Lady Gaga tange em seus vídeos mais famosos questões que estão presentes na obra de artistas contemporâneas que podemos chamar de vanguardistas por falta de expressão melhor, tais como Cindy Sherman, Daniela Edburg e Chantal Michel. No Brasil, Karine Alexandrino, Paola Rettore ou o pernambucano Bruno Vilella praticam a mesma suave ironia até o mais cáustico deboche com trabalhos sobre mulheres mortas.

O tema da mulher morta torna-se quase um lugar-comum na arte contemporânea, como foi no século 19. Naquele tempo, ele representava o impulso próprio do romantismo que via na mulher falecida e inválida um ideal agora retomado de modo irônico por diversas artistas contemporâneas. Lady Gaga vai, no entanto, muito além dessas artistas em termos de coragem feminista. Enquanto elas zombam das mulheres estereotipadas que morrem como Ofélias por um homem, Lady Gaga, de modo mais surpreendente e corajoso do que importantes artistas cultas, dá um passo adiante.

No vídeo de “Paparazzi” fica exposto o amor-ódio que um homem nutre por uma mulher, a invalidez à qual ela é temporariamente condenada por sua violência e, por fim, uma vingança inesperada com o assassinato desse mesmo homem. “Incitação à violência”, pensarão as mentes mais simples; “feminismo como ódio aos homens”, dirá a irreflexão sexista acomodada, quando na verdade se trata de uma irônica inversão no cerne mesmo do jogo simbólico que separa mulheres e homens. Se em “Paparazzi” o deboche beira o perverso autorizado psicanaliticamente (a mulher sai da posição deprimida ou melancólica e aprende a gozar com seu algoz, que ela transforma em vítima), em “Bad Romance”, “o vídeo mais visto de todos os tempos”, mulheres de branco – como noivas dançantes – surgem de dentro de esquifes futuristas para curar uma louca que chora querendo ter um “mau romance” com um homem. Um contraponto é criado no vídeo entre a imagem do rosto da própria Gaga levissimamente maquiado, demarcando o caráter angelical de sua personagem, em contraposição ao caráter doentio da personagem da mesma Gaga de cabelos arrepiados e olhos esbugalhados. Entre eles a bailarina sensual junto de suas companheiras faz o elogio do corpo que é obrigado a se erotizar diante de um grupo de homens.

A noiva é queimada. Sobre a cama, no fim, a noiva como um robô um pouco avariado, mas ainda viva, contempla o noivo cadáver. A ironia é o elogio do amor-paixão, do amor-doença e morte ao qual foi reduzido o amor romântico pela estética pop da ninfa pós-feminista. O feminismo só tem a agradecer.

Em “Telephone”, a estética eleita é a da lésbica e da pin-up. Ambas criminosas. A primeira por ser uma forma de vida feminina que dispensa os homens, a segunda por ameaçá-los com uma estética da captura (a mulher-imagem-de-papel, a mulher “cromo”, a mulher-desenho-animado que configura o conceito do “broto”, do “pitéu”). No mesmo vídeo o personagem de Gaga compartilha com Beyoncé uma cumplicidade incomum entre mulheres.

Esse sinal é dado no meio do vídeo, quando Beyoncé vai resgatar Gaga na prisão e ambas mordem um pedaço de pão, que logo é lançado fora como algo desprezível. A comida mostra-se aí como o objeto do crime. O vídeo é mais que um elogio ao assassinato do mau romance, ou da vingança contra o evidente amor bandido de quem a personagem de Beyoncé quer se vingar. Trata-se de uma profanação da comida pelo veneno que nela é depositado. O amor bandido é morto pela comida, uma arma simbólica muito poderosa associada à imagem da mulher-mãe, da mulher-doação, dedicada a alimentar seu homem na antipolítica ordem doméstica.

O palco é a lanchonete de beira de estrada como em Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. O assassinato é o objetivo do serviço das duas moças perversas que, no fim do vídeo, dançam vestidas com as cores da bandeira norte-americana – meio Mulher Maravilha – diante dos cadáveres de suas vítimas, já que, além do amor bandido, todos morreram. Cinismo? Sem dúvida, mas como paradoxal autodenúncia.

Mas o maior crime de Gaga, aquilo que fará com que tantos a odeiem, não será, no entanto, o feminismo sem-vergonha que ela pratica como uma brincadeira em que o crime é justamente o que compensa? E, como ídolo pop, não poderá soar aos mais conservadores como um modo de rebelar as massas de mulheres subjugadas pela perversa autorização ao gozo, doa a quem doer?

FONTE: Revista Cult

representações do negro e da mestiçagem na Música Popular Brasileira

AQUARELA DO BRASIL

 

Ary Barroso

 

Brasil, meu Brasil Brasileiro,
Meu mulato inzoneiro,
Vou cantar-te nos meus versos:
O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar;
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil!… Brasil!… Prá mim!… Prá mim!…

Ô, abre a cortina do passado;
Tira a mãe preta do cerrado;
Bota o rei congo no congado.
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória à luz da lua
Toda canção do meu amor.
Quero ver essa Dona caminhando
Pelos salões, arrastando
O seu vestido rendado.
Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Brasil, terra boa e gostosa
Da moreninha sestrosa
De olhar indiferente.
O Brasil, verde que dá
Para o mundo admirar.
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Esse coqueiro que dá coco,
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar.
Ô! Estas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar.
Ô! Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro,
Terra de samba e pandeiro.
Brasil!… Brasil!

***

 

MULATA ASSANHADA

Ataulfo Alves

Ô, mulata assanhada
Que passa com graça
Fazendo pirraça
Fingindo inocente
Tirando o sossego da gente!
Ah! Mulata se eu pudesse
E se meu dinheiro desse
Eu te dava sem pensar
Esta terra, este céu, este mar
E ela finge que não sabe
Que tem feitiço no olhar!
Ai, meu Deus, que bom seria
Se voltasse a escravidão
Eu pegava a escurinha
E prendia no meu coração!…
E depois a pretoria
Resolvia a questão!

***

 

CANTO DAS TRÊS RAÇAS

Mauro Duarte & Paulo César Pinheiro

Ninguém ouviu um soluçar de dor
No canto do Brasil.
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro e de lá cantou.
Negro entoou um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.
Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes.
Nada adiantou.
E de guerra em paz, de paz em guerra,
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar,
Canta de dor.
E ecoa noite e dia: é ensurdecedor.
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador…
Esse canto que devia ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor

***

 

A MÃO DA LIMPEZA

Gilberto Gil & Chico Buarque

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Que mentira danada, ê
Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o negro penava, ê
Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza

Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza
Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
Eta branco sujão

***

 

IDENTIDADE

Jorge Aragão

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai…

Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de
alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade

***

 

SOU NEGRO

Getúlio Côrtes & Ed Wilson

dessa vida
nada cinema
não sei porque vocês têm tanto orgulho assim
você sempre me despreza
sei que sou negro
mas ninguém vai rir de mim
vê se entende
vê se ajuda
o meu caráter não está na minha cor
o que eu quero
não se iluda
o meu futuro é conseguir o seu amor.

***

 

BLACK IS BEAUTIFUL

Marcos Valle & Paulo Sergio Valle

Hoje cedo, na rua do Ouvidor
Quantos brancos horríveis eu vi
Eu quero um homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui
Que se integre no meu sangue europeu
Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful
Hoje a noite amante negro eu vou
Vou enfeitar o meu corpo no seu
Eu quero este homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui
Que se integre no meu sangue europeu
Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful

***

 

combat - mundo livre s.a

O AFRICANO E O ARIANO

Fred 04, Apolo 9 & Mundo Livre S/A

Há quatro séculos a alma africana tem sido um motor
da inquietação, da resistência, da transgressão
O negro sempre quis sair do gueto,
fugir da opressão fazendo história,
ganhando o mundo com estilo!
E é assim que a alma africana sobrevive
com brilho e vigor em todo o “novo continente”.
O africano foi levado pra sofrer no norte e gerou,
entre outras coisas, o jazz, o blues, Gospel, soul,
R & B, funk, rock and roll, rap, hip hop
No centro, o suor africano fomentou o mambo, o ska ,
o calypso, a rumba, o reggae, dub, ragga,
o merengue e a lambada, dancehall e muito mais
Mas é o ariano que ignora o africano
ou é o africano que ignora o ariano?
E ao sul, a inquietude negra fez nascer,
entre outros beats, o bumba, o maracatu,
o afoxé, o xote, o choro, o samba,
o baião, o coco, a embolada.
Entre outros, os Jacksons e os Ferreiras,
os Gonzagas e os Pixinguinhas,
as Lias, os Silvas e os Moreiras
A alma africana sempre esteve no olho do furacão
Dendê no bacalhau, legítima e generosa transgressão
É Dr. Dre e é maracatu
É hip hop e é mestre Salú
Mas é o ariano que ignora o africano
ou é o africano que ignora o ariano?

***

 

MINHA ALMA (A PAZ QUE EU NÂO QUERO)

Marcelo Yuka (O Rappa)

A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
(Sêgo! Sêgo! Sêgo! Sêgo!)
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
(Medo! Medo! Medo! Medo!)

As vezes eu falo com a vida,
As vezes é ela quem diz:

“Qual a paz que eu não quero conservar,
Prá tentar ser feliz?”

As grades do condomínio
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão

Me abrace e me dê um beijo,
Faça um filho comigo!
Mas não me deixe sentar na poltrona
No dia de domingo, domingo!

Procurando novas drogas de aluguel
Neste vídeo coagido…
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

***

 

DECLARAÇÂO DE GUERRA

MV Bill

Hei mãe, acorda que o terror vai começar
Coloca a janta, pode ser a última sopa
Se eu não voltar, sorria
Vou em busca da alegria
Vou incentivando o ódio (quem diria)

É tudo pela salvação
Em nome da razão
Acenda a vela
É o código da rebelião

Os generais nem imaginam nosso plano
Pensam que é mais um engano
Jesus está voltando

Os pretos estão do lado de cá
São soldados mascarados aliados ao pppomar
Os diretores forjam as fugas
Tensão nas celas, bueiros, são verdadeiros sangue sugas

Libere a fuga diretor! solte os detentos
Pelados pelas rua escura, sem lamentos
A nossa tropa só tem doido,
Resto, lixo, bicho, praga
Vou jogar mais vinho na sua área

São pessoas que vivem na amargura
Não nos resta mais ternura
A batalha vai ser dura

Eu avisei que a guerra era inevitável
Pra quem tá na condição desfavorável

Subestimaram, pagaram pra ver, e tão vendo
Ignoraram a nossa coragem, tão morrendo

A violência não fui eu que inventei
Somos condenados a serviços de um rei

Chega de ouvir esse discurso social
Chega de ouvir a lenga lenga racial

Sou animal sou (sou), sou canibal sou (sou), eu sou letal
O verbo que populariza o mal

Vão tirando a fantasia de artista
Não tem mais carnaval
Acabou o show pra turista
Que venham vários pagodeiros e sambistas
A luta é o coração de um guerreiro ativista

Convoque os índios, convoque os canibais
Convoque os sonhos, dos nossos ancestrais

Vou invadir mais um hospício
Vivemos bem no precipício (que que isso)
Quero mais guerrilheiros pra esta noite
Vida longa para os pretos, fim do açoite
Vou maquinar mais homicídio para esse dia

Fim de vida aos brancos, da covardia
São Benedito por favor nos proteja
Tragam todos os fiéis que estão orando da igreja
Sem terra, sem teto, sem nada nos dentes
Sem fama, sem grana, sem luz, sem parentes

Se foi torturado – siga-me
Se tá rebelado – siga-me
Se tiver bolado – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me
Se cair seus dentes – siga-me
Se for estuprada – siga-me
Se o nome for maria –
siga-me
Ham siga-me, ham siga-me

Eu vou pedir mais orações aos crentes
A guerra é turva, e deus necessita estar com a gente
São meia noite o black-out é geral
Sirenes, apitos, breu total

Ficou pra trás a nossa dor
Lá no passado que restava todo amor
Uma criança pede o fim da guerra
Entre vermelhos e terceiros

Me lembra que somos brasileiros
Mais ideologia, menos conflitos
Não façam de nós mais um grupo de risco

O alemão não apita na favela
Confira você mesmo, e olhe pela sua janela
Fale seu partido preciso saber !
Pmdb, pt , satã ou tc ?

Se for de esquerda, não me contemplou
Se for de direita, me ignorou
Se for de bandido é um caso a pensar
Vou me filiar preciso arriscar

Adestrador prepare os cães, não dê comida,
Avise aos lobos que a pele é branca e a carne é viva

Fazendeiro não há mais tempo pra remorso
Vamos transformar seu paraíso em destroços

A luta é racial
A luta é social
Mais ninguém se espanta
Porque a guerra é santa

É preta, marrom, mestiça e branca
E quem não decidir em que lado está, vira planta

Eu sou ateu, protestante, sou judeu
Eu sou maçon, rosa cruz, e fariseu zulu

Eu sou a luz do universo em desencanto
Não sou mais nada só a voz do catalão

Levei 500 anos para entender esse país
Se querem me entender eu só queria ser feliz!

Maria dê veneno pra rainha sua patroa
Volte pro QG com as jóias da coroa
Agora cai por terra toda arrogância
Vamos celebrar viva a voz da ignorância

Deus vai perdoar , deus vai entender
Deus vai lhe ajudar, chega de padecer
De um lado humanos, do outro, humanos
Todos armados então são desumanos

Falam que a briga não nos leva a nada
O mar não tem cabelo, quem se afoga nada
Não dá pra exigir de quem não come nada
Aqui o seu diploma não vale de nada

Nós não somos nada
Nós não temos nada
Branco camarada, largue a espada

Acabou o desafio, não pode pensar
Imagino deve ser difícil aceitar
Essa guerra que já foi vencida
Solte suas armas e comece a despedida
Abaixe a cabeça, faça o último pedido
Peça qualquer coisa menos ser meu amigo
Não, não faz sentido
Sou herói, e o bandido?
A sirene tá gritando
Perigo

Os pretos que vão te julgar
Você tá na bola
E então comece a chorar
Devolva meu samba, a nossa cultura
A capoeira, o axé e a vida das pessoas que moram na rua
A história foi queimada ofendida
A morte é o fim, a guerra é a vida
Durante muito tempo eu vi o mundo girar
De braços cruzados esperando a morte chegar
Foi o despertar comece a sua prece
Dessa vez é vai ou racha
Ou dá ou desce

Se perdeu o juízo – siga-me
Tá no prejuízo – siga-me
Não quer ser escravo – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me
Já matou tarado – siga-me
Se perdeu o seu emprego – siga-me
Se foi derrotado – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me

 

branconegro