documentário sobre a guerra colonial luso-africana

Embora seja crescente a produção de estudos acadêmicos sobre as guerras independentistas, decorridas entre 1961 e 1974, que levaram o Estado colonial português ao colapso e partejaram a construção nacional da Guiné-Bissau, de Moçambique & de Angola, ainda se mostram escassas, ou notadamente parciais, fontes descritivas e sínteses analíticas desses processos, especialmente considerando-se os pontos de vista africanos sobre os acontecimentos. Conforme discutimos na LET C53, é principalmente através da escrita literária que essa memória africana da descolonização tem se expressado, buscando reorganizar seus conteúdos e sentidos.

Para leitorxs brasileiros – em geral muito “afro-desinformados” – mais prementemente se coloca a ampliação do acesso a referenciais que adensem a compreensão dos contextos enfocados nas narrativas ficcionais africana. É no intuito de suprir tais carências que o KUKALESA indica a série documental A Guerra, produzida pelo canal RTP e dirigida pelo jornalista português Joaquim Furtado (saiba mais AQUI), como apoio para a leitura de A Geração da Utopia (AGU), romance angolano que estamos enfocando em nosso curso.

Reunindo um conjunto diversificado de discursos & imagens, conjunto no qual se entrecruzam tanto fontes portuguesas e africanas, quanto distintas interpretações da experiência colonial, a série busca construir um panorama esclarecedor acerca das condições históricas e das ideologias no bojo das quais se processa a dissolução do império português na África.  Por sua vez, é preciso estar-se atento à maneira como a remontagem e a análise dos acontecimentos frequentemente enquadra o povo português como vítima de uma revolta africana tida como “excessiva”, ou ingratamente desproporcional à alegada cordialidade miscigenadora que o colonizador português teria praticado em seu trabalho “civilizador”.

Conforme assinala Inocência Mata, o trabalho de reescrita/releitura metaficcional da história da independência angolana que Pepetela consuma em AGU apoia-se estrategicamente na narração multi-perspectiva, recurso pelo qual fica em evidência a diversidade de concepções e projetos que se articulavam à luta contra o colonialismo. Para além de sua utilidade imediata, é interessante refletir sobre como o discurso desenvolvido na série A Guerra também pode colaborar para enriquecer essa multiplicidade e, consequentemente, os potenciais instrutivos e críticos do romance.

Clique na imagem abaixo para acessar uma coleção de episódios desta série.


guerra colonial furtado rtp site

poesia negro-brasileira: testemunhos & debates

Importante evento a acontecer em Salvador, no Centro de Estudos Afro-Orientais (Largo 2 de Julho), Confiram a apresentação feita pelo professor e crítico Ricardo Riso:


“A ação dos literatos foi fundamental para a rearticulação dos movimentos sociais negros durante a década de 1970. Autoras e autores reuniam-se em coletivos, trocavam informações em diferentes cidades, mimeografavam seus textos e os distribuíam em bailes black music, por exemplo, e noutros espaços negros.

Rompia-se a asfixia da ditadura militar com seus poemas e contos que denunciavam de forma explícita a farsa da democracia racial, assim como a discriminação a negras e negros como integrante do cotidiano brasileiro. Como parte histórica incontornável desse processo encontravam-se Éle Semog e José Carlos Limeira. Com atuações marcantes nos movimentos negros, desde cedo desenvolveram uma escrita negra, até que um vai ao encontro “daquele contínuo muito estranho que não saía da biblioteca” e começavam ali uma das mais representativas parcerias da literatura negro-brasileira. A união rendeu dois livros: “O Arco-Íris Negro”, de 1979, e “Atabaques” em 1983.

Para celebrar os 30 anos de “Atabaques”, conhecer como foi aquele encontro, ser escritor negro em plena ditadura e como manter a resistência literária no decorrer de tanto tempo, Ogum’s Toques do Escritor convida o público para reviver essa parceria em um bate-papo com Éle Semog e José Carlos Limeira. Uma excelente oportunidade para conhecermos as trajetórias desses dois autores e um pouco da história da literatura negro-brasileira contemporânea, que passa pelas suas escritas imprescindíveis, plenas de inquietação, conscientização e inquestionável apuro estético.”
Ricardo Riso

ogum limeirasemog

o texto literário afro-brasileiro como arma contra as “portas trancadas” da história e da imaginação nacional

revista02

Para aprofundar essas questões, acesse o número 2 da Revista Palmares e estude o artigo abaixo referenciado:

SOUZA, Florentina. Literatura afro-brasileira: algumas reflexões. In: Revista Palmares. n.2. Brasília: Fundação Cultural Palmares; Ministério da Cultura, dezembro 2005.

as ficções da independência brasileira

independencia verdade dom pedro falcatrua mula ipiranga

A invenção do 7 de Setembro

“Porque, quando consultamos os jornais de 1822, não há nenhuma referência ao que se passou nas margens do Ipiranga em 7 de setembro? Porque aquele episódio foi escolhido em detrimento de outros, quando sabe que, em 1822, a data tomada como marco da Independência foi o 12 de outubro, dia do aniversário de dom Pedro I e de sua aclamação como imperador?”, pergunta Isabel Lustosa, historiadora da Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 07-09-2010.

Eis o artigo.

Quando se deu realmente a Independência do Brasil? Porque, quando consultamos os jornais de 1822, não há nenhuma referência ao que se passou nas margens do Ipiranga em 7 de setembro? Porque aquele episódio foi escolhido em detrimento de outros, quando sabe que, em 1822, a data tomada como marco da Independência foi o 12 de outubro, dia do aniversário de dom Pedro I e de sua aclamação como imperador? Essas e outras questões foram respondidas, em artigo de enorme valor acadêmico, porém pouco conhecido, publicado em 1995, pela historiadora Maria de Lourdes Viana Lyra, sócia titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Intrigada com o silêncio da documentação e das publicações do ano de 1822 sobre o 7 de setembro, Lourdes LyraPedro I teria lido às margens do Ipiranga no dia 7 só teriam chegado ao Rio de Janeiro em 22 de setembro. Outro é que o primeiro relato detalhado do episódio do Ipiranga só foi publicado em 1826, em momento de desprestígio do imperador diante dos brasileiros que tinham feito a Independência e que se indignaram com as bases do tratado assinado com Portugal. devassou essa história e estabeleceu ponto por ponto o processo e os interesses envolvidos na escolha do 7 de setembro como data da Independência. Um ponto que merece realce é que os documentos que supostamente dom

A Inglaterra, que representou junto à Corte do Rio de Janeiro seus próprios interesses e os da Coroa portuguesa, pressionara o imperador. Dom Pedro foi convencido a aceitar que, no tratado pelo qual Portugal reconhecia a nossa Independência, ao contrário de todos os documentos do ano de 1822 que a davam como uma conquista dos brasileiros, constasse que esta nos fora concedida por dom João VI. Este era também reconhecido como imperador do Brasil que abdicava de seus direitos ao trono em favor do filho e ao qual ainda tivemos de pagar vultosa indenização. O patente interesse de dom Pedro em conservar seus direitos à sucessão do trono de Portugal, que essa fórmula do tratado revelava, apontava no sentido de uma posterior reunificação dos dois reinos.

Um príncipe que se declarara constitucional, que desde o Fico (9 de janeiro de 1821) vinha sendo aclamado até pelos setores mais liberais, que rompera com Lisboa e convocara eleições para uma Assembleia Constituinte, tão amado que recebera da Câmara o título de Defensor Perpétuo do Brasil, fora pouco a pouco se convertendo num tirano. Primeiro, ao dissolver a Assembleia Constituinte, depois, pela forma violenta com que reprimiu a Confederação do Equador e, finalmente, pela assinatura do vergonhoso tratado.

É nesse contexto que a escolha do 7 de setembro como data da Independência ganha sentido. Segundo Lourdes Lyra, até então tinham sido consideradas as seguintes datas decisivas para o processo: o 9 de janeiro, dia do Fico; o 3 de maio, dia da inauguração da Assembleia Constituinte Brasileira; e o 12 de outubro, dia da Aclamação. Foi o esforço concentrado do Senado da Câmara (atual Câmara Municipal) do Rio de Janeiro, durante o mês de setembro de 1822, enviando mensagem à Câmaras das principais vilas do Brasil – num tempo em que eram as vilas e cidades as instâncias decisivas da política portuguesa -, que fez com que, na fórmula consagrada, constasse que dom Pedro fora feito imperador pela “unânime aclamação dos povos”. Foi o apoio das Câmaras e de setores da elite e do povo do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais que deu forças ao príncipe para se contrapor às decisões de Lisboa.

Segundo bem demonstra Lourdes Lyra, a opção pelo 7 de setembro casava bem com a ideia de que a Independência fora obra exclusiva de dom Pedro e essa data foi estrategicamente escolhida para a assinatura do tratado de 1825. Foi a partir de então que começaram a surgir referências mais entusiásticas ao 7 de setembro no Diário Fluminense, que fazia as vezes de órgão oficial do governo, e, em 1826, esse dia foi incluído entre as datas festivas do Império. Essa obra in progress foi reforçada ainda naquele ano pela publicação do famoso relato do padre Belchior, a primeira descrição minuciosa dos fatos que se verificaram às margens do Ipiranga por uma testemunha ocular da História. Ao lado deste, dois outros relatos publicados bem mais tarde por membros do grupo que acompanhou dom Pedro a São Paulo passariam a ser a fonte privilegiada para o estudo da data.

O coroamento da obra se deveria ao Visconde de Cairu, intelectual respeitado que se conservou sempre aos pés do trono. Em sua História do Brasil, publicada em partes entre 1827 e 1830, Cairu afirma que a Independência do Brasil foi “obra espontânea e única” de dom Pedro, que a tinha proclamado “estando fora da Corte, sem ministros e conselheiros de Estado, sem solicitação e moral força de requerimento dos povos”. Estava entronizado o mito do herói salvador, e postos na sombra os outros protagonistas, como José Bonifácio, Gonçalves Ledo e os membros de todas as Câmaras que impulsionaram e sustentaram o príncipe em suas decisões. Sem esse poderoso elenco de coadjuvantes, ao contrário do que afirma Cairu, não teria ocorrido a Independência.

É interessante como símbolos forjados a partir de circunstâncias fortuitas se podem transformar com o tempo. Prova de que na memorabilia pátria menos que os fatos importam o peso que a tradição lhes imprimiu. Foi assim, durante todo o Império com a Constituição de 1824. O gesto de sua criação – ela foi outorgada, e não resultou da deliberação de uma Assembleia – não impediu que ela fosse respeitada e sacramentada até muito depois da deposição de dom Pedro I. O mesmo se deu com o 7 de setembro. A data impôs-se sobre as demais, hoje esquecidas, e continuou a ser festejada com o mesmo entusiasmo depois da abdicação, em 7 de abril de 1831, e bem depois de proclamada a República.

FONTE: IHU O
nline