alguns clássicos da poesia negra brasileira

 

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COLINA, Paulo. Axé: antologia contemporânea da poesia negra brasileira. São Paulo: Global, 1982.

NEGRO FORRO
[Adão Ventura]

minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.

minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.

***

SOU
[Oliveira Silveira]

Sou a palavra cacimba
pra sede de todo mundo
e tenho assim minha alma:
água limpa e céu no fundo.

Já fui remo, fui enxada
e pedra de construção;
trilho de estrada-de-ferro,
lavoura, semente, grão.

Já fui a palavra canga,
sou hoje a palavra basta.
E vou refugando a manga
num atropelo de aspa.

Meu canto é faca de charque
voltada contra o feitor,
dizendo que minha carne
não é de nenhum senhor.

Sou o samba das escolas
em todos os carnavais.
Sou o samba da cidade
e lá dos confins rurais.

Sou quicumbi e moçambique
no compasso do tambor.
Sou um toque de batuque
em casa gege-nagô.

Sou a bombacha de santo,
sou o churrasco de Ogum.
Entre os filhos desta terra
naturalmente sou um.

Sou o trabalho e a luta,
suor e sangue de quem
nas entranhas desta terra
nutre raízes também.

***

REFLEXÃO
[Abelardo Rodrigues]

O poema reflete
principalmente no escuro
E quando reflete, insone,
apetrecha o movimento
da luz.

Não a luz que nasce
a cada dia
em qualquer poente.
Não a luz feita
sob o canhão e o crucifixo
Não a luz dos seis dias…

mas aquela
de Totens
de Olorum.

VAGA-LUME
[Abelardo Rodrigues]

A noite
— pálida Noite —
são nossos traços
negando fogo.
São gritos de arcanjos
descabelados
violados por Orixás.
Ah Noite!
trago-te oferendas
de palavras
das quais se cantará a vida
dos tombadilhos de América.

***

NEGRITUDE
[Geni Guimarães]

Ouço o eco gemendo,
Os gritos de dor,
Dos navios negreiros.
Ouço o meu irmão,
Agonizando a fala,
Lamentando a carne
Pisada,
Massacrada,
Corrompida.

Sinto a dor humilhante,
Do pudor sequestrado,
Do brio sem arbítrio,
Ao longe atirado,
Morto e engavetado,
Na distância do tempo.
Dói-me a dor do negro,
Nas patas do cavalo,
Dói-me a dor dos cavalos.

Arde-me o sexo ultrajado
Da negra cativa,
Usada no tronco,
Quebrada e inservida,
Sem prazer de sentir,
Sem desejos de vida,
Sem sorrisos de amor,
Sem carícias sentidas,
Nos seus catorze anos de terra.

Dói-me o feto imposto ao negro útero virgem.

Dói-me a falta de registro,
do negro nunca visto
Além das senzalas,
No comer no cocho,
No comer do nada.
Sangra-me o corte na pele,
Em abertas feridas,
De dores doídas,
No estalo da chibata.

Dói-me o nu do negrinho
Indefeso escravozinho,
Sem saber de razões.
Dói-me o olho esbugalhado,
No rosto suado,
No medo cravado,
No peito do menino.
Dói-me tudo e sobre tudo,
O imporque do fato.

Meus pêsames sinceros à mentira
multicolor da princesa Isabel.

Mas contudo,
Além de tudo
E muito mais por tudo,
Restou-me invulnerável,
Um imutável bem:
Ultrajadas as raízes,
Negados os direitos,
Ninguém roubou-me o lacre da pele.
Nenhum senhor. Ninguém!

***

 

o negro em versos

SANTOS, Luiz Carlos; GALAS, Maria; TAVARES, Ulisses. Antologia da poesia negra brasileira: o negro em versos. São Paulo: Salamandra, 2005.

OFERENDA
[Oswaldo de Camargo]

Que farei do meu reino: um terreno
no peito
onde pensei pôr minh’África,
a dos meus avós, a do meu povo de lá e que me deixam
tão sozinho?
Como sonhei falar minha mamãe África,
oferecer-lhe, em meu peito, nesta noite turva,
os meus pertences de vento, sombra e relembrança,
o meu nascimento, a minha
história e o meu tropeço
que ela não sabe, nem viu e eu sendo filho dela!
— Oh, mamãe, as minhas fraldas estão sujas de brancor
e ele cheira tanto!
Às vezes penso, em minha solidão, na noite turva,
que você me está me chamando com o tambor do vento.
Abro a janela, olho a cidade, as luzes me trepidam
e eu perco o condão de te achar
entre estes odores vários
e tanta dor de gente branca, preta, variada
gama e tessitura de almas, ânsias, medo!
Como sonhei falar, sozinho, à minha mamãe África,
e oferecer-lhe, em meu peito, nesta noite turva,
os meus presentes de vento, sombra e relembrança,
o meu nascimento, a minha história, o meu tropeço
que ela não sabe, nem viu e eu sendo filho dela!

***

ENCONTREI MINHAS ORIGENS
[Oliveira Silveira]

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
cantos
em furiosos tambores
ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

***

INTEGRIDADE
[Geni Mariano Guimarães]

Ser negra,
Na integridade
Calma e morna dos dias.
Ser negra,
De carapinhas,
De dorso brilhante,
De pés soltos nos caminhos.

Ser negra,
De negras mãos,
De negras mamas,
De negra alma.

Ser negra,
Nos traços,
Nos passos,
Na sensibilidade negra.

Ser negra,
Do verso e reverso,
Do choro e riso,
De verdades e mentiras,
Como todos os seres que habitam a terra.

Negra
Puro afro sangue negro,
Saindo aos jorros
Por todos os poros.

***

PONTO HISTÓRICO
[Éle Semog]

Não é que eu
seja racista…
Mas existem certas
coisas
que só os NEGROS
entendem.
Existe um tipo de amor
que só os NEGROS
possuem,
existe uma marca no
peito
que só nos NEGROS
se vê,
existe um sol
cansativo
que só os NEGROS
resistem.
Não é que eu
seja racista…
Mas existe uma
história
que só os NEGROS
sabem contar
… que poucos podem
entender.

***

DESLIMITES 10
[Salgado Maranhão]

(táxi blues)

eu sou o que mataram
e não morreu,
o que dança sobre os cactos
e a pedra bruta
— eu sou a luta.

O que há sido entregue aos urubus,
e de blues
         em
blues
endominga as quartas-feiras
— eu sou a luz
sob a sujeira.

(noite que adentra a noite e encerra
os séculos,
farrapos das minhas etnias,
artérias inundadas de arquétipos)

eu sou ferro, eu sou a forra.

E fogo milenar desta caldeira
elevo meu imenso pau de ébano
obelisco às estrelas.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

leito de terra negra
sob a água branca,
sou a lança
a arca do destino sobre os búzios.

e de blues a urublues
ouça a moenda
dos novos senhores de escravos
com suas fezes de ouro
com seus corações de escarro.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

eu sou a luz em seu rito de sombras
— esse intocável brilho

***

EBULIÇÃO DA ESCRAVATURA
[Luís Carlos de Oliveira]

A área de serviço é senzala moderna,
Tem preta eclética, que sabe ler “start”;
“Playground” era o terreiro a varrer.

Navio negreiro assemelha-se ao ônibus cheio,
Pelo cheiro vai assim até o fim-de-linha;
Não entra no novo quilombo da favela.

Capitão-do-mato virou cabo de polícia,
Seu cavalo tem giroflex (radiopatrulha).
“Os ferros”, inoxidáveis algemas.

Ração poder ser o salário-mímino,
Alforria só com a aposenadoria
(Lei dos sexagenários).

“Sinhô” hoje é empresário,
A casa-grande verticalizou-se,
O pilão está computadorizado.
Na última página são “flagrados” (foto digital)
Em cuecas, segurando a bolsa e a automática:
Matinal pelourinho.

A princesa Áurea canta,
Pastoreia suas flores.
O rei faz viaduto com seu codinome.

— Quantos negros?  Quanto furor?
Tantos tambores… tantas cores…
O que comparar com cada batida no tambor?
________

“A escravatura não foi abolida; foi distribuída
entre os pobres”.

***

GENEGRO
[Miriam Alves]

Gemido de negro
Não é poema
é revolta
é xingamento
É abismar-se

Gemido de negro
é pedrada na fronte de quem espia e ri
É pau de guatambu no lombo de quem mandou
dar

Gemido de negro
é acampamento de sem-terra no cerrado
É punho que se fecha em black power

Gemido de negro
é insulto
é palavrão ecoado na senzala
É o motim a morte do capitão

Gemido de negro
é a (re)volta da nau para o Nilo

Gemido de negro…
Quem tá gemendo?

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Solano Trindade: abrindo caminhos para a negritude brasileira

 

Solano 1969 em Embu

TOQUE DE REUNIR

 

Vinde irmãos macumbeiros

Espíritas, Católicos, Ateus.

Vinde todos os brasileiros.

Para a grande reunião.

Para combater a fome

Que mata nossa nação.

 

Vinde Maria Pucheria.

João de Deus. José Maria.

Anicacio. Zé Pretinho

Para a grande reunião

Para combater a malária

Que mata nossa nação

 

Vinde trapeiro, pedreiro.

Lavrador, arrumadeira.

Caixeiro, funcionário.

Combater a tuberculose

Que mata nossa nação.

 

Vinde irmãos sambistas.

Da favela. Da Mangueira.

Do Salgueiro. Estácio de Sá.

Para a grande reunião.

Combater o analfabetismo

Que mata a nossa nação.

Vinde poetas, pintores

Engenheiros, escritores.

Negociantes e médicos.

Para a grande reunião.

Combater o facismo

Que mata a nossa nação.

 

***

 

SOU NEGRO

À Dione Silva

 

Sou negro

meus avós foram queimados

pelo sol da África

minh’alma recebeu o batismo dos tambores

atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda

como mercadoria de baixo preço

plantaram cana pro senhor de engenho novo

e fundaram o primeiro Maracatu

 

Depois meu avô brigou como um danado

nas terras de Zumbi

Era valente como quê

Na capoeira ou na faca

escreveu não leu

o pau comeu

Não foi um pai João

humilde e manso

Mesmo vovó

não foi de brincadeira

Na guerra dos Malês

ela se destacou

 

Na minh`alma ficou

o samba

o batuque

o bamboleio

e o desejo de libertação

 

***

 

O CANTO DA LIBERDADE

 

Ouço um novo canto,

Que sai da boca,

de todas as raças,

Com infinidade de ritmos…

Canto que faz dançar,

Todos os corpos,

De formas,

E coloridos diferentes…

Canto que faz vibrar,

Todas as almas,

De crenças,

E idealismos desiguais…

É o canto da liberdade,

Que está penetrando,

Em todos os ouvidos

 

***

 

VELHO ATABAQUE

 

Velho atabaque
quantas coisas você falou para mim
quantos poemas você anunciou
Quantas poesias você me inspirou
às vezes cheio de banzo
às vezes com alegria
diamba rítmica
cachaça melódica
repetição telúrica
maracatu triste
mas gostoso como mulher…

 

Triste maracatu
escravo vestido de rei
loanda distante do corpo
e pertinho da alma
negras sem desodorante
com cheiro gostoso
de mulher africana
zabumba batucando
na alma de eu…

 

Velho atabaque
madeira de lei
couro de animais
mãos negras lhe batem
e o seu choro é música
e com sua música
dançam os homens
inspirados de luxúria
e procriação
Velho atabaque
gerador de humanidade…

 

***

 

BAIANINHA

 

Baianinha

vatapá permanente

doce de coco

cafuné dendê

você veio na hora

quentinha

pra minha vida

trazendo o dengo

do que eu precisava.

 

Candomblé da minha madrugada

batendo em mim

que sou tambor creoulo

com patuá

envolvendo meu pescoço

com patuá

envolvendo meu pescoço

botando em minha boca

feitiço de Iansã.

Você veio agora

como a revolução de Cuba

me animar a vida

 

Você veio agora

como a libertação do Congo

me tocando pra frente

e fazendo esquecer

o tempo

e a velhice.

 

Você veio agora

fazer mutirão comigo…

 

***

 

MACUMBA

 

Noite de Yemanjá

negro come acaçá

noite de Yemanjá

filha de Nanan

negro come acaçá

veste seu branco abebé

 

Toca o aguê

o caxixi

o agogô

o engona

o gã

o ilu

o lê

o roncó

o rum

o rumpi

 

Negro pula

negro dança

negro bebe

negro canta

negro vadia

noite e dia

sem parar

pro corpo de Yemanjá

pros cabelos de Obá

do Calunga

do mar

 

Cambondo sua

mas não cansa

cambondo geme

mas não chora

cambondo toca

até o dia amanhecer

 

Mulata cai no santo

corpo fica belo

mulata cai no santo

seus peitos ficam bonitos

 

Eu fico com vontade de amar…

 

***

 

DEFORMAÇÃO

 

Procurei no terreiro

Os Santos D’África

E não encontrei,

Só vi santos brancos

Me admirei…

 

Que fizeste dos teus santos

Dos teus santos pretinhos?

Ao negro perguntei.

 

Ele me respondeu:

Meus pretinhos se acabaram,

Agora,

Oxum, Yemanjá, Ogum,

É São Jorge,

São João,

E Nossa Senhora da Conceição.

 

Basta Negro!

Basta de deformação!

 

***

 

REENCARNAÇÃO

 

Eu nasci

No inicio do século

(Revolução operária)

Nasci no Bairro de São José

Recife Pernambuco Brasil

 

D. Micaela

Foi a parteira que me pegou

E anunciou o meu Sexo

Homem!

 

A minha mãe

Foi operária cigarreira

Da Fábrica Caxias

Nascida de índio

E africano

 

Meu pai

Foi sapateiro

Especialista em Luis XV

Nasceu de branco e africano

Sabia falar em nagô

 

Meu pai era preto

Minha mãe era preta

Todos em casa são pretos

 

Minha mãe não sabia ler

E meu pai era semianalfabetizado

 

Minha mãe sabia rezar

Meu pai sabia rezar

 

Meu pai depois foi macumbeiro

(Macumbeiro é um espírita de cor preta)

 

Branco espírita é espiritualista

Que fica esperando a reencarnação

Na luta por nada

Não quer revolução

Nem por evolução

Não quer ação

Quer reencarnar

Na outra vida

Quer reencarnar diferente

Se for mulher

Quer voltar homem

Se for homem

Quer voltar mulher

 

Se for empregado

Quer voltar patrão

Quer reencarnar

Para se acomodar…

Intelectual se acomoda sem reencarnar

É mais fácil

Depende do emprego que arranjar…

 

***

 

TRISTES MARACATUS

 

Baticuns maracatucando

na minh’alma de moleque

Buneca negra na minha meninice

de “negro preto” de São José

Nas águas de calunga

a Kambinda me inspirando amor

O primeiro cafuné no mato verde

Da campina do Bodé

Rum de amor de negra

Rumpi de desejo de mulata

Lê de realização cafusa

Sons de protestos

Num mundo de guerra

E de ódio

 

Criação de Olorum

O mais tolerante dos deuses

O mais pacífico

Dos criadores

O mais estético

Dos chefes de raça

 

Tristes maracatus

Em maracatus alegres

Que se vão distantes

Em ritmo calmo de congo

Em acelerado moçambique

Em toque de Kêto

De Jejê e de Angola

Maracatus meus…

 

***

 

MANDINGA

 

Isto é mandinga negra

Isto é mandinga

 

Teus olhos de mãe d’água

pregando lirismo

teus seios escondidos

em Vila Isabel

 

Teus lábios mestiços

falando em beleza

no ritmo do samba

nos pingos da chuva

que molham o meu rosto

 

lirismo + lirismo

= a lirismo

(vamos somar na poesia)

é preciso aumentar a poesia

é preciso crescer e multiplicar

poeticamente

 

***

 

RAINHA E ESCRAVAS

 

Da janela do apartamento

vejo só barracos do morro

onde moram as rainhas

do carnaval

imponentes rainhas negras

riquíssimas de ritmo e de sexo

Rainhas por três dias alegres

escravas no resto do ano…

 

***

 

CANTO DOS PALMARES

 

Eu canto aos Palmares

sem inveja de Virgílio de Homero

e de Camões

porque o meu canto

é o grito de uma raça

em plena luta pela liberdade!

 

Há batidos fortes

de bombos e atabaques

em pleno sol

Há gemidos nas palmeiras

soprados pelos ventos

Há gritos nas selvas

invadidas pelos fugitivos…

 

Eu canto aos Palmares

odiando opressores

de todos os povos

de todas as raças

de mão fechada

contra todas as tiranias!

 

Fecham minha boca

Mas deixam abertos os meus olhos

Maltratam meu corpo

Minha consciência se purifica

Eu fujo das mãos

Do maldito senhor!

 

Meu poema libertador

é cantado por todos,

até pelo rio.

Meus irmãos que morreram

muitos filhos deixaram

e todos sabem plantar

e manejar arcos;

muitas amadas morreram

mas muitas ficaram vivas,

dispostas para amar

seus ventres crescem

e nascem novos seres.

 

O opressor convoca novas forças

vem de novo

ao meu acampamento…

Nova luta.

As palmeiras

ficam cheias de flechas,

os rios cheios de sangue,

matam meus irmãos,

matam as minhas amadas,

devastam os meus campos,

roubam as nossas reservas;

tudo isso,

para salvar

a civilização

e a fé…

 

Nosso sono é tranquilo

mas o opressor não dorme,

seu sadismo se multiplica,

o escravismo é o seu sonho

os inconscientes

entram para seu exército…

 

Nossas plantações

estão floridas,

nossas crianças

brincam à luz da lua,

nossos homens

batem tambores,

canções pacíficas,

e as mulheres dançam

essa música…

 

O opressor se dirige

a nossos campos,

seus soldados

cantam marchas de sangue.

 

O opressor prepara outra investida,

confabula com ricos e senhores,

e marcha mais forte,

para o meu acampamento!

Mas eu os faço correr…

 

Ainda sou poeta

meu poema

levanta os meus irmãos.

Minhas amadas se preparam para a luta,

os tambores

não são mais pacíficos,

até as palmeiras

têm amor à liberdade…

 

Os civilizados têm armas,

e têm dinheiro,

mas eu os faço correr…

 

Meu poema

é para os meus irmãos mortos.

Minhas amadas

cantam comigo,

enquanto os homens

vigiam a Terra.

 

O tempo passa

sem número e calendário,

o opressor volta

com outros inconscientes,

com armas

e dinheiro,

mas eu os faço correr…

 

O meu poema libertador

é cantado por todos,

até pelas crianças

e pelo rio.

 

Meu poema é simples,

como a própria vida,

nascem flores

nas covas de meus mortos

e as mulheres

se enfeitam com elas

e fazem perfume

com sua essência…

 

Meus canaviais

ficam bonitos,

meus irmãos fazem mel,

minhas amadas fazem doce,

e as crianças

lambuzam os seus rostos

e seus vestidos

feitos de tecidos de algodão

tirados dos algodoais

que nós plantamos.

 

Não queremos o ouro

porque temos a vida!

e o tempo passa,

sem número e calendário…

O opressor quer o corpo liberto,

mente ao mundo

e parte para

prender-me novamente…

 

— É preciso salvar a civilização,

Diz o sádico opressor…

 

Eu ainda sou poeta

e canto nas selvas

a grandeza da civilização — a Liberdade!

Minhas amadas cantam comigo,

meus irmãos

batem com as mãos,

acompanhando o ritmo

da minha voz….

 

— É preciso salvar a fé,

Diz o tratante opressor…

 

Eu ainda sou poeta

e canto nas matas

a grandeza da fé — a Liberdade…

Minhas amadas cantam comigo,

 

meus irmãos

batem com as mãos,

acompanhando o ritmo

da minha voz….

 

Saravá! Saravá!

 

Repete-se o canto

do livramento,

já ninguém segura

os meus braços…

Agora sou poeta,

meus irmãos vêm ter comigo,

eu trabalho,

eu planto,

eu construo

meus irmãos vêm ter comigo…

 

Minhas amadas me cercam,

sinto o cheiro do seu corpo,

e cantos místicos

sublimam meu espírito!

Minhas amadas dançam,

despertando o desejo em meus irmãos,

somos todos libertos,

podemos amar!

Entre as palmeiras nascem

os frutos do amor

dos meus irmãos,

nos alimentamos do fruto da terra,

nenhum homem explora outro homem…

 

E agora ouvimos um grito de guerra,

ao longe divisamos

as tochas acesas,

é a civilização sanguinária

que se aproxima.

 

Mas não mataram

meu poema.

Mais forte que todas as forças

é a Liberdade…

O opressor não pôde fechar minha boca,

nem maltratar meu corpo,

meu poema

é cantado através dos séculos,

minha musa

esclarece as consciências,

 

Zumbi foi redimido…

 

***

 

CONGO

 

Pingo de chuva,

Que pinga,

Que pinga,

Pinga de leve

No meu coração.

Pingo de chuva

Tu lembras a canção,

Que um preto cansado,

Cantou para mim,

Pingo de chuva,

A canção é assim.

 

Congo meu congo

Aonde nasci

Jamais voltarei

Disto bem sei

Congo meu congo

Aonde nasci…

 

***

 

NAVIO NEGREIRO

 

Lá vem o navio negreiro

Lá vem ele sobre o mar

Lá vem o navio negreiro

Vamos minha gente olhar…

 

Lá vem o navio negreiro

Por água brasiliana

Lá vem o navio negreiro

Trazendo carga humana…

 

Lá vem o navio negreiro

Cheio de melancolia

Lá vem o navio negreiro

Cheinho de poesia…

 

Lá vem o navio negreiro

Com carga de resistência

Lá vem o navio negreiro

 

Cheinho de inteligência…

 

***

 

NEGROS

 

Negros que escravizam

E vendem negros na África

Não são meus irmãos

 

Negros senhores na América

A serviço do capital

Não são meus irmãos

 

Negros opressores

Em qualquer parte do mundo

Não são meus irmãos

 

Só os negros oprimidos

Escravizados

Em luta por liberdade

São meus irmãos

 

Para estes tenho um poema

Grande como o Nilo

Edimilson de Almeida Pereira: desbravando sentidos para a experiência negra brasileira

 

Edimilson2

RANHURAS

 

Não há direção

no labirinto.

A vida e sua cárie

são exatas, no entanto.

 

Da outra margem

exploram o espelho

e me contam

o que permanece,

se me modifico.

 

Entro nessa direção

sem roteiros.

O que aí se mostra

são mapas

de outros mapas.

 

***

 

 

NUMA PAISAGEM, OUTRA

 

o unguento e, às vezes,

a colônia de morte,

sangram através do pensamento, lâmina

que toca a jugular

 

se animal em pelo, se apenas

recipiente,

quem saberá? enquanto se esgueiram

refazem os modos de si

 

alguém que os interpreta

há muito não goza de confiança

por isso, os gritos

com que intenta mover as pedras

 

quem contesta o descendente

e as razões

que o fazem irmão da gazela

inimigo da febre?

 

não seremos nós, os que portam

a camisa sem idiomas,

nem as mulheres

a quem reservam o teto da casa

e nenhuma epígrafe

 

a contestação faz-se por si mesma

a jugular não se entrega ao braço

que desfere o golpe

e se esgota nesse gesto

 

não, o sacrifício não está no mel

que incendeia, de tempos em tempos,

a viagem dos parentes

 

as ondas que mudam por si mesmas

disseram adeus às certezas,

nós ainda não

(pelo menos aqueles que se julgam

primo dos primeiros)

 

como nos enfrentaremos sob a ordem

que tropeça?

mil sendas se abrem e a seiva do pai,

como o recém-nascido,

se perdeu num corpo maior

 

ninguém está lá, a não ser

quem te conhece e estranha, não

o charme de irmão,

não espere entendimento se ele fizer

um círculo na areia

 

não há cortes que expliquem

a paisagem anterior, nem a sombra, amanhã,

nos caules

 

o que se espraia da jugular

é um labirinto que conduz a outro e se algum

vestígio resta

é para dizer seu afastamento da origem

 

as leituras faliram

se o descendente insiste,

rasga os seres para os quais não temos

saúde

 

nesse deserto de alegrias, a herança

é o animal que saqueia o verbo

antes do sacrifício

 

***

 

 

CEMITÉRIO MARINHO

 

            CENA 1

 

: embarcados, como

avaliar a tempestade

 

não é fora que a lâmina

arruína, mas

nas veias

 

o grito (lagarto que

os dias emagrecem)

insulta a diversão

do escorbuto

 

onde uma perna

            outra

lista de mercadorias

que valessem

            peça

            por

            peça

 

nesse cômodo

mal se tira a costela

e a morte instala sua

força tarefa

 

no vermelho da hora

um baque

            outro

espanto, deveras

 

o corpo

— o que expõe em mulher

ou guelra

exasperado?

 

: embarcados, às vezes

nos desembarcam

 

antes da ilha, em meio

às ondas

como sacos de aniagem

 

entregues ao calunga

grande, o que resta?

uma

cilada, outro revés?

 

            à

superfície um brigue

            é

            o

            que

            é

 

faca alisando a bandeira

do mar             país

sem continente

garden of the world

 

            mas

            o

            que

            ele

            arrota

assombra-nos

 

: na praia, desembarcados

teremos de volta

as pernas         os braços

            a cabeça

            os rios

            os crimes

            a ira

            os lapsos

            as línguas

            a guerra

            a teia

            o horror

            a trégua

 

            o camaleão

            no céu

            a tempestade?

 

            CENA 2

 

uma ponte de ossos

            submersa

eis o que somos —

 

além abismo a sigla

            em gesso

se esculpe e nela

habitam, sob musgo,

la vieja        le bleu

 

o atirado aos tubarões

que,

devido à calmaria,

flutuou com a barriga

em luto

por meia hora

                        o rosto

perto do navio dentro

dos rostos em fuga

 

                        o rosto

esverdeado como um

fruto-memória

            um braço

estendido            além

de seus nervos

 

eis o que somos — apesar

do abismo e sua colônia

de entalhes

 

apesar do abismo onde

a forma informe (a

            linguagem)

        nos experimenta

 

            CENA 3

 

um velho repõe a cólera

não pela intenção

de roubar o sono aos peixes

 

ou porque uma raia

crispou o coral e sua memória

se esgarçou

 

— os tendões, uma

vez descolados, acusam

a história

 

entre essa e a outra

margem do oceano, cabeças

rolaram mas

 

continuam presas à orelha

            dos livros

 

se um velho pretende dizer

quem as perdeu

deve se postar na beira

 

o mar à sua frente

sem nada a recuperar, senão

o exílio

 

            CENA 4

 

o ventre materno

nave

se atreve nas ondas

não porque os filhos

o pensem umbigo

            fora

            do alvo

 

o ventre erra

na tempestade, embora

costure os portos

da noite

 

o que leva dentro

se move

mais que a nuvem

& o comércio

 

sobre as águas

esse navio

norte de outro norte

 

mas

traído, o ventre

se inventa

presídio-liberdade

 

a cabeça (quem

a tiver gire

além do próprio

eixo)

            é o bólido

 

o que somos

vem de um

enigma

tirado aos peixes

de um corpo

além

das chagas

 

o ventre materno

nave

esgrime na água

 

e o que esculpe

excede

ao seu trabalho

 

: na pele

nenhum risco

que tire desse

corpo o equilíbrio

 

o ventre materno

diário

rasura a inscrição

de si mesmo

 

na água em que

submerge

ressoa, estala

se ergue

 

— a ele, por isso

saúdam as cabeças

 

            CENA 5

 

a linguagem espolia o museu

de história natural

 

nem tudo o que ressoa

é som

a palavra ainda menos

 

se a diamba espuma

a noite

não é que o morto viajará

 

o pássaro limpa

os dentes do hipopótamo

nem por isso

vão juntos à reza

 

a grande árvore freme

mas não é

com a chuva que se deita

 

a linguagem se joga

no oceano — para desespero

da memória

que se quer museu de tudo

 

            CENA 6

 

a primeira loja (de carnes:

termo usual

para quem perdera

o domínio

de sua violência)

 

imitava o inferno

em curvas: trezentos

nascidos para morrer

acenando em azul

            e branco

ao país das demências

 

trezentos entre os seis

e treze

anos apartados do jogo

: uns meninos

outros, meninas

em fila sob trinta e três

graus

 

no inferno, o azul

o branco, trezentas vezes

lesado,

se esgueira do assédio

            de sua fila, cada

um respira no olvido

 

trezentos zeros a trinta

e três graus

crepitam na grama: extinto

o negócio,

não se bastam, em flor

            em farpa oxidam

 

            CENA 7

 

recusado, esse

 

lugar

é o soldo que reduziu

o mar a duas braças

 

em 110 metros

quadrados

redondos em febre

e assombro

 

dormem (não como

deveriam)

seis mil cento e dezenove

almas

 

: as pupilas golpeadas

no mar cevam

um dia

que não se esgota

 

de óbito em óbito

o horror assunta os vivos

            corta-lhes

herança e umbigo

 

de óbito em óbito

os sem irmandade ou

crédito

se escrevem à esquerda

 

de óbito em óbito

navio e continente são

um

mesmo ancoradouro

 

de óbito em óbito

se calcula a história como

se ao apagá-la

ela se fizesse nova

 

nesse lugar

de esconjuros a juros

a nudez acossa

o oficial de ossos

 

a linguagem, corpo

indefeso, cola-se à laje

suas entranhas são

um caniço

 

e ainda que o silêncio

a ancore          suona

: os que morreram antes

de se tornarem

 

outros foram lançados

a essa barca noturna

sem nome

tirados ao sangue

 

não pertencem ao hades

olimpo

de nenhuma ordem

são outros além-outros

que engolem a língua

para regressar

à primeira queda

do rio

 

que temem perder

a cabeça

e sem ela o rastro anterior

ao chão

 

esse

lugar recusado

invernou sob arcas

e contrapesos

 

sob alucinações

e mercadorias alheias

ao seu comércio

sobre tal

 

cemitério

se atulharam

o descuido letras de câmbio

e tumultos

 

o que fazer, porém

dos espólios

recuperados no golpe

de uma pá?

 

são os aptos

no manuseio da

equipagem: os mortos

de quem o navio

não partiu, os mortos

tatuados

na cal, os de sempre

que teriam

 

movido arcos e tinas

comprado & vendido

suas posses

e a si mesmos

 

os mortos descalços, os

emudecidos

os surdos a qualquer

sentinela

 

            lá vem a barra do dia

            topar co’as ondas

                                   do mar

 

os vermelhos e suas

orquídeas

saídas no flanco

esquerdo

 

            sua terra é diferente

                                   m

            orar no campo santo

 

os mortos que não

viram a cidade

as lianas

mortas, as mortas

 

            lá vem a barra do dia

            sem as ondas do mar

                             de vigo

 

o que fazer desses

rendidos

na praia, de suas

valises

 

com nada por dentro?

de seu esqueleto

convertido em

flauta lá vem a barra

 

do dia topar co’as ondas

do mar de sua

cólera enrugando

a manhã?

 

 

***

 

 

CADERNO DE RETORNO

 

Pele radar que indexa

            um looping

            ao atabaque

            um anjo

            à sua queda

            Iracema

            à sua novela

alvo que incinera um atirador

            no teto

 

(…)

 

Para uso irrestrito a pele em desafio

            a todo gesto

coleção de selos que o vento

            dispersa da janela

 

(…)

 

A pele procura os naipes para

            entrar no jogo

mais se arroja quando desnuda

            o homem

            através do verbo

 

(…)

 

Pele não é o cárcere nem

            o texto

            o papel

            a retícula

            para roteiro em zoom

quiçá um mapa que muda enquanto viaja

            e se fixa quando

            escorregadia

                nos tece

 

(…) 

 

Estou de volta a casa não para visitar

os carneiros da minha gente

uma vez mortos

                                   expostos.

O que espero deles não é carne

                                   mas raiz e errância.

A experiência acumulada sendo

            o último da classe

            o único entre os outros

            o suspeito número um

            a prova no fundo do poço

apodreceu para adubar minha vontade.

 

(…)

 

Como cerzir um país com linhas várias

onde uma se quebra

outra a emenda

e por não se amarem se enovelam

orquídeas na mesma escarpa.

A voz arranha a pintura do carro,

reabre no dia uma herança de embargos.

 

O que está dito é ditado?

            Não temos guerra, nem terremoto

            nem ebola, ruína ou atentado

            não temos cisma nem avalanche

o que vemos se não é alegria

são seus disfarces

 

E os ouvidos, que letrados noutra música,

            se escalavram?

 

Tenho uma laranja nas mãos a faca

para salvar os gomos desvia

das partes cariadas.

A palavra descasca o país: num ermo botequim,

entre bacon e varejeiras, a pele de um conta

o que ele por sua boca não tramaria.

            Miríades fábulas que importa?

 

Sua sombra que a fraca luz projeta recusa

            a rede da casa-grande

            o título a prazo do barão em débito

            a cadeira del-rey

            a merda da casa-grande

            a dissertação elogiosa da selva

            o piano

a culpa de não amar o deus imposto

 

(…)

 

Discutimos sobre fresas grandes y pequeñas

et on dita u même temps que ce sont originales

lês traces de notre nouvel artiste:

— est-il um naïf?

O abismo do país se ilumina,

                        acelera minha ferida.

o que em mim celebra

                        cospe esculpe alucina.

 

A vergonha de quem não inventou a pólvora

virou bandeira de quem calçou o continente.

A voz não procura esse rastro

procura o sentido além daquel esperdiçado

porque não as inventamos

            teimamos em aferir

                        a roda

                        a pólvora

                        a palavra

 

Contra a blitz na memória

a Memória.

Contra o desprezo ao que dançamos

a Dança.

Contra o repúdio ao que falamos

a Fala.

 

Nos fundos do país a festa não termina

será uma para disfarçar outra guerrilha?

Quem a percorre

desde a sala

pensa nos esqueletos

que trepidam sobre outros emudecidos.

 

São nove horas da noite em 1844

            os presos assustam a Câmara

            e os coletes da cidade de Salvador.

            No subsolo da lei a insubmissão

            deborda em sambas de crioulos

            ou africanos?

            Serão idênticos ou mais diversos

            quando se ajuntam?

 

(…)

 

É possível amar onde o desembarque de escravos

se multiplicou como as moscas

                                               sobre as bananas?

Qué pretendes quando olvidas esta memoria

            la continuación del massacre?

            cette odeur de cheveux au feu?

            a fome como sintaxe?

 

A voz escassa raspa as unhas no caos.

Aquele de quem a bala não se enamorou,

vai seguro e não se espanta.

 

            Passeia a orla, tênis e bicicleta

            artefatos que sedam os calos.

            Vai como se, por dentro, a luta

            entre capitão do mato e escravo

            tivesse cessado. Vai ao ar livre

            contra a vigilância da morte.

            O tênis brando, roupa de marca

            documentos de exorcismo diário.

            Vai discreto e não balança,

            pedra alguma lhe tira o passo.

            Até que, desde dentro, a luta

            explode em seu encalço. Ia de

            tênis bicicleta, por que o abraçou

            a bala do itinerário desviada?

 

 

(…)


Ó como somos plásticos

            para olhar de esguelha

            e entender os mitos.

Mais uma série de ensaios

explica — o país era outro mas, iludidos,

deitamos gatos para acordar lebres.

Ante as versões

de spix, martius & company

            atenção, repare, escute

            a pulga atrás da orelha.

 

Como soou o país tocado pelas mil duzentas

e setenta e três línguas indígenas

antes que minasse

a nuvem, o vento, a tempestade?

            Como o recitam as cento e oitenta

            exiladas do dicionário?

            E as africanas que negociaram

            em senzalas e praças?

            E o português se arvorando

            em camaleão nos trópicos?

 

(…)

 

No país onde quem cala consente,

grassa outra tecelagem

            não gira humores

            não lubrifica sirenes

            hora extra não faz

Tece sem novelo a rede para as aves de rapina

            não se dá um medo

            se ama de filhos.

Como um bordado, retém o pano de quem

pensa dominar o desenho.

 

Tenho doze fôlegos e uma educação

para constranger os desavisados.

O que assisti ao entrar pelos fundos

da cidade não me calcinou as retinas

            ao contrário

encheu de impertinência os meus escritos.

            Os que fendem a pedra

            me ensinaram o avesso

            os papéis roídos

            a trituração por método

            o pai me instruiu que é por dentro

                        a ebulição da lava.

 

O país tem fendas grutas corredores

uma vocação para morder

que estremeceu Hans Staden

            mordemos a cauda e a cabeça

            deglutimos sem mastigar

            engolimos o sapo

            salivamos marimbondo

Sabemos que deus alarga a goela

quando tira os dentes.

Não cuspimos no fogo para não

minguar a crista.

 

Morremos pela boca, exceto Exu,

            guia de Tirésias

que desacata Gregório de Matos

Macunaíma e François Villon.

            Exu calibã

luva insuspeita de Shakespeare

caçador que tem em si a caça

e se irrita

preso a uma dezena de nomes.

 

(…)

 

A notícia desse espanto estilhaça ao meu lado

            por que me enviaram

            um postal de Luanda?

por que há tempos o litoral do país

            aprende outros continentes?

 

(…)

 

***

 

 

DESPEDIDA

 

Deixo o corpo, auê, ê.

Noutro campo

vejo os antigos.

 

Ergo a toalha

onde as cores são outras

(Lá fora gunga não chora).

 

Ergo espada com os antigos.

Noutro campo

aprendo o mesmo canto.

 

***

 

 

SÍLABA

 

Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida e tudo que se queira. Não está na boca e nela se arvora. Testa o sentido, duvida de si mesma. Vai ao baile, está nua ao meio-dia. Não é língua do suplício nem do vexame, desenrola os signos e se pronuncia.

 

 

 

Conceição Lima: um roteiro poético para derivas afro-identitárias

conceiçãolima pretovelho

Clique nas imagens para saber mais sobre essa notável poeta sãotomeense e sobre o papel estratégico desempenhado pelo arquipélago onde ela nasceu para a construção histórica e cultural do Atlântico Negro lusófono.


CANTO OBSCURO ÀS RAÍZES

 

Em Libreville

não descobri a aldeia do meu primeiro avô.

 

Não que me tenha faltado, de Alex,

a visceral decisão.

Alex, obstinado primo

Alex, cidadão da Virgínia

que ao olvido dos arquivos

e à memória dos griots Mandinga

resgatou o caminho para Juffure,

a aldeia de Kunta Kinte —

seu último avô africano

primeiro na América.

 

Digamos que o meu primeiro avô

meu último continental avô

que da margem do Ogoué foi trazido

e à margem do Ogoué não tornou decerto

 

O meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, quem sabe, talvez, Abessole

 

O meu primeiro avô

que não morreu agrilhoado em James Island

e não cruzou, em Gorée, a porta do inferno

 

Ele que partiu de tão perto, de tão perto

Ele que chegou de tão perto, de tão longe

 

Ele que não fecundou a solidão

nas margens do Potomac

 

Ele que não odiou a brancura dos algodoais

 

Ele que foi sorvido em chávenas de porcelana

Ele que foi compresso em doces barras castanhas

Ele que foi embrulhado em chiques papéis de prata

Ele que foi embalado para presente em caixinhas

 

O meu concreto avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas talvez, quem sabe, Abessole

 

O meu oral avô

não legou aos filhos

dos filhos dos seus filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.

 

Na curva onde aportou

a sua condição de enxada

no húmus em que atolou

a sua acossada essência

no abismo que saturou

de verde a sua memória

as águas melancolizam como fios

desabitadas por pirogas e hipopótamos.

 

São assim os rios das minhas ilhas

e por isso eu sou a que agora fala.

 

Brotam como atalhos os rios

da minha fala

e meu trazido primeiro avô

(decerto não foi Kunta Kinte,

porventura seria Abessole)

não pode ter inventado no Água Grande

o largo leito do seu Ogoué.

 

Disperso num azul sem oásis

talvez tenha chorado meu primeiro avô

um livre, longo, inútil choro.

 

Terá confundido com um crocodilo

a sombra de um tubarão.

 

Terá triturado sem ilusão

a doçura de um naco de mandioca.

Circunvagou nas asas de um falcão.

 

Terá invejado a liquidez de caudas e barbatanas

enquanto o limo dos musgos sequestrava os seus pés

e na impiedosa lavra de um vindouro tempo

emergia uma ambígua palavra

para devorar o tempo do seu nome.

 

Aqui terá testemunhado

o esplendor do pôr do sol, o luar, o arco-íris.

 

Decerto terá pressentido a calidez dos pingos

nas folhas das bananeiras.

E terá sofrido no Equador o frio da Gronelândia.

 

Mas não legou aos estrangeiros filhos

e aos filhos dos filhos dos estrangeiros filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.

 

Por isso eu, a que agora fala,

não encontrei em Libreville o caminho para a aldeia de Juffure.

 

Perdi-me na linearidade das fronteiras.

 

E os velhos griots

os velhos griots que detinham os segredos

de ontem e de antes de ontem

 

Os velhos griots que pelas chuvas contavam

a marcha do tempo e os feitos da tribo

 

Os velhos griots que dos acertos e erros

forjavam o ténue balanço

 

Os velhos griots que da ignóbil saga

guardavam um recto registo

 

Os velhos griots que na íris da dor

plantaram a raiz do micondó

partiram

levando nos olhos o horror

e a luz da sua verdade e das suas palavras.

 

Por isso eu que não descobri o caminho para Juffure

eu que não dançarei sobre o pó da aldeia do meu primeiro avô

meu último continental avô

que não se chamava Kunta Kinte mas talvez, quem sabe, Abessole

 

Eu que em cada porto confundi o som da fonte submersa

encontrei em ti, Libreville, o injusto património a que chamo casa:

estas paredes de palha e sangue entrançadas,

a fractura no quintal, este sol alheio à assimetria dos prumos,

a fome do pomar intumescida nas gargantas.

 

Por isso percorri os becos

as artérias do teu corpo

onde não fenecem arquivos

sim palpita um rijo coração, o rosto vivo

uma penosa oração, a insana gesta

que refunda a mão do meu pai

transgride a lição de minha mãe

 

e narra as cheias e gravanas, os olhos e os medos

as chagas e desterros, a vez e a demora

o riso e os dedos de todos os meus irmãos e irmãs.

 

Que nenhum idioma nos proclame ilhéus de nós próprios

vocábulo que não és

Mbanza Congo

mas podias ser

Que não és

Malabo

poderias ser

Que não és

Luanda

e podias ser

Que não és

Kinshasa

nem Lagos

Monróvia não és, podias ser.

 

Nascente e veia, profundo ventre

conheces a estrutura que sabota os ponteiros:

novos sobas, barcos novos, o conluio antigo.

 

E consomes a magreza dos celeiros

num bazar de retalhos e tumultos

Petit Paris!

onde tudo se vende, se anuncia

onde as vidas baratas desistiram de morrer.

 

Medram quarteirões de ouro

nos teus poros — diurnos, desprevenidos.

Medra implacável o semblante das mansões

Medram farpas na iníqua muralha

e um taciturno anel de lama em seu redor.

 

A chuva tem agora a cadência de um tambor

outro silêncio se ergue

no vazio dos salões das coiffeuses.

E no rasto do tam-tam revelarei

o medo adolescente encolhido nas vielas

beberei a sede da planta no teu grão.

 

Eu que trago deus por incisão em minha testa

e nascida a 8 de Dezembro

tenho de uma madona cristã o nome.

 

A neta de Manuel da Madre de Deus dos Santos Lima

que enjeitou santos e madre

ficou Manuel de Deus Lima, sumu sun Malé Lima

Ele que desafiou os regentes intuindo nação —

descendente de Abessole, senhor de abessoles.

 

Eu que encrespei os cabelos de san Plentá, minha três vezes avó

e enegreci a pele de san Nôvi, a soberana mãe do meu pai.

 

Eu que no espelho tropeço

na fronte dos meus avós…

 

Eu e o temor do batuque da puíta

o terror e fascínio do cuspidor de fogo

 

Eu e os dentes do pãuen que da costa viria me engolir

Eu que tão tarde descobri em minha boca os caninos do antropófago…

 

Eu que tanto sabia mas tanto sabia

de Afonso V o chamado Africano

Eu que drapejei no promontório do Sangue

Eu que emergi no paquete Império

Eu que dobrei o Cabo das Tormentas

Eu que presenciei o milagre das rosas

Eu que brinquei a caminho de Viseu

Eu que em Londres, aquém de Tombuctu

decifrei a epopeia dos fantasmas elementares.

Eu e minha tábua de conjugações lentas

Este avaro, inconstruído agora

Eu e a constante inconclusão do meu porvir

 

Eu, a que em mim agora fala.

 

Eu, Katona, ex-nativa de Angola

Eu, Kalua, nunca mais em Quelimane

Eu, nha Xica, que fugi à grande fome

Eu que libertei como carta de alforria

este dúbio canto e sua turva ascendência.

 

Eu nesta lisa, escarificada face

Eu e nossa vesga, estratificada base

Eu e a confusa transparência deste traço.

 

Eu que degluti a voz do meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas talvez, quem sabe, Abessole

 

Meu sombrio e terno avô

Meu inexorável primeiro avô

que das margens do Benin foi trazido

e às margens do Benin não tornou decerto

 

Na margem do Calabar foi colhido

e às águas do Calabar não voltou decerto

 

Nas margens do Congo foi caçado

e às margens do Congo não tornou decerto

 

Da nascente do Ogoué chegou um dia

e à foz do Ogoué não voltou jamais.

 

Eu que em Libreville não descobri a aldeia

do meu primeiro avô

meu eterno continental avô

 

Eu, a peregrina que não encontrou o caminho para Juffure

Eu, a nómada que regressará sempre a Juffure.

 

***

 

ANTI-EPOPEIA

 

Aquele que na rotação dos astros

e no oráculo dos sábios

buscou de sua lei, e mandamento

a razão, a anuência, o fundamento

 

Aquele que dos vivos a lança e o destino detinha

Aquele cujo trono dos mortos provinha

 

Aquele quem a voz da tribo ungiu

chamou rei, de poderes investiu

 

Por panos, por espelhos, por missangas

por ganância, avidez, bugingangas

as portas da corte abriu

de povo seu reino exauriu.

 

***

 

ZÁLIMA GABON

 

À memória de Katona, Atúpa Grande

e Atúpa Pequeno

À Makolé

 

Falo destes mortos como da casa, o pôr-do-sol, o curso d’água.

São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova

a patética sombra, seus ossos sem rumo e sem abrigo

e uma longa, centenária, resignada fúria.

 

Por isso não os confundo com outros mortos.

 

Porque eles vêm e vão mas não partem

Eles vêm e vão mas não morrem.

 

Permanecem e passeiam com passos tristes

que assombram a lama dos quintais

e arrastam a indignidade da sua vida e sua morte

pelo ermo dos caminhos com um peso de grilhões.

 

Às vezes, sentados sob as árvores, vergam a cabeça e choram.

 

Erguem-se depois e marcham com passos de guerrilha

Não abafem o choro das crianças, não fujam

Não incensem as casas, não ocultem a face

Urgente é o apelo que arde por onde passam

Seus corações deambulam à sombra nas plantações.

 

Por isso não os confundo com outros mortos

apaparicados com missas, nozados, padres-nossos.

 

Por remorso, temor, agreste memória

Por ambígua caridade, expiação de culpa

aos mortos-vivos ofertamos a mesa do candjumbi

feijão-preto, mussambê, puíta, ndjambi.

 

Para aplacar sua sede de terra e de morada

Para acalmar a revolta, a espera demorada.

 

Eles porém marcharão sempre, não dormirão

recusarão a tardia paz da sepultura, o olvido

acesa sua cólera antiga, seu grito fundo

ardente a aflição do silêncio, a infâmia crua.

 

Eis por que vigiam estes mortos a nossa praça

seu é o aviso que ressoa no umbral da porta

na folhagem percutem audíveis clamores

a atormentada ternura do sangue insepulto.

 

***

 

A CASA

 

Aqui projectei a minha casa:

alta, perpétua, de pedra e claridade.

O basalto negro, poroso

viria da Mesquita.

Do Riboque o barro vermelho

da cor dos ibiscos

para o telhado

Enorme era a janela e de vidro

que a sala exigia um certo ar de praça.

O quintal era plano, redondo

sem trancas nos caminhos.

Sobre os escombros da cidade morta

projectei a minha casa

Recortada contra o mar.

Aqui.

Sonho ainda o pilar –

uma rectidão de torre, de altar.

Ouço murmúrios de barcos

na varanda azul

E reinvento em cada rosto fio

a fio

as linhas inacabadas do projecto.

 

***

 

DESCOBERTA

 

Após o ardor da reconquista

não caíram manás sobre os nossos campos.

E na dura travessia do deserto

Aprendemos que a terra prometida

era aqui.

Ainda aqui e sempre aqui.

Duas ilhas indómitas a desbravar.

O padrão a ser erguido

pela nudez insepulta dos nossos punhos.

 

***

 

SÓYA

 

Há-de nascer de novo o micondó –

belo, imperfeito, no centro do quintal.

À meia-noite, quando as bruxas

povoarem okás milenários

e o kukuku piar pela última vez

na junção dos caminhos.

 

Sobre as cinzas, contra o vento

bailarão ao amanhecer

ervas e fetos e uma flor de sangue.

 

Rebentos de milho hão-de nutrir

as gengivas dos velhos

e não mais sonharão as crianças

com gatos pretos e águas turvas

porque a força do marapião

terá voltado para confrontar o mal.

 

Lianas abraçarão na curva do rio

a insónia dos mortos

quando a primeira mulher

lavar as trancas no leito ressuscitado.

 

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada.

 

***

mapa-sao-tome-e-principe

 

AFROINSULARIDADE

 

Deixaram nas ilhas um legado

de híbridas palavras e tétricas plantações

 

engenhos enferrujados proas sem alento

nomes sonoros aristocráticos

e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

 

Aqui aportaram vindos do Norte

por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:

navegadores e piratas

negreiros ladrões contrabandistas

simples homens

rebeldes proscritos também

e infantes judeus

tão tenros que feneceram

como espigas queimadas

 

Nas naus trouxeram

bússolas quinquilharias sementes

plantas experimentais amarguras atrozes

um padrão de pedra pálido como o trigo

e outras cargas sem sonhos nem raízes

porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso

todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

 

E nas roças ficaram pegadas vivas

como cicatrizes – cada cafeeiro respira agora um

escravo morto.

 

E nas ilhas ficaram

incisivas arrogantes estátuas nas esquinas

cento e tal igrejas e capelas

para mil quilómetros quadrados

e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.

E ficou a cadência palaciana da ússua

o aroma do alho e do zêtê d’ óchi

no tempi e na ubaga téla

e no calulu o louro misturado ao óleo de palma

e o perfume do alecrim

e do mlajincon nos quintais dos luchans

 

E aos relógios insulares se fundiram

os espectros – ferramentas do império

numa estrutura de ambíguas claridades

e seculares condimentos

santos padroeiros e fortalezas derrubadas

vinhos baratos e auroras partilhadas

 

Às vezes penso em suas lívidas ossadas

seus cabelos podres na orla do mar

Aqui, neste fragmento de África

onde, virado para o Sul,

um verbo amanhece alto

como uma dolorosa bandeira.

 

***

 

QUANDO O LUAR CAIU

 

Quando o luar caiu e

tingiu de escuro os verdes da ilha

cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam

os murmúrios do teu corpo

e não eras.

Cheguei para despojar de limites o teu nome.

Não eras.

As nuvens estão densas de ti

sustentam a tua ausência

recusam o ocaso do teu corpo

mas não és.

Pedra a pedra encho a noite

do teu rosto sem medida

para te construir convoco os dias

pedra a pedra

no teu tempo consumido.

As pedras crescem como ondas

no silêncio do teu corpo.

Jorram e rolam

como flores violentas.

E sangram como pássaros exaustos

no silêncio do teu corpo

onde a noite e o vento se entrelaçam

no vazio que te espera.

 

Súbito e transparente chegaste

quando falsos deuses subornavam o tempo,

chegaste sem aviso

para despedir o defeso e o frio,

chegaste quando a estrada se abria

como um rio,

chegaste para resgatar sem demora o princípio.

Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,

hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo

mas já tomaste horas e caminhos

já venceste matos e abismos

já a espessura do obô resplandece em tua testa.

E não me bastam pombas dementes no teu rosto

não bastam consciências soluçante em teu rasto

não basta o delírio das lágrimas libertas.

Cantarei em pranto teu regresso sem idade

teu retorno do exílio na saudade

cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.

Para te saudar no mar e

na manhã dos cantos sem represas

saudarei a praia lisa e o pomar.

Direi teu nome e tu serás.

 

***

 

A MÃO DO POETA

 

Ao Fred Gustavo dos Anjos,

depois de ter lido Paisagens e Descobertas

 

O poeta, é sabido, conhece

o sentido da sua mão

e perdoa a bizarria

de crescer sozinha

com o impulso da ave

ou o fermento do pão

 

Porque ele sabe que a mão

o prende à raiz do chão

onde o rigor do seunão!

varre da casa a podridão

 

Por isso, se o poeta à praça traz

seus dentes caídos, a face desfeita

é para perscrutar no mastro

o pano que drapeja

e corrigir com a mão

a direcção do vento.

 

***

 

A OUTRA PAISAGEM

 

Da lisa extensão dos areais

Da altiva ondulação dos coqueirais

Do infindo aroma do pomar

Do azul tão azul do mar

Das cintilações da luz  no poente

Do ágil sono da semente

De tudo isto e do mais –

a redonda lua, orquídeas mil, os canaviais –

de maravilhas tais

falareis vós.

Eu direi dos coágulos que mineram

a fibra da paisagem

do jazigo nos pilares da Cidade

e das palavras mortas, assassinadas

que sem cessar porém renascem

na impura voz do meu povo.

 

***

 

VERSÃO DE DESERTO

 

Trazido não sei por que apelos, urgências

Vieste impugnar o momento que me cerca.

Demora – conclamas – a clara voz em minha boca.

 

Peço-te porém que repares:

não agonizam dunas nestes campos.

Aqui não jazem ossadas sem registo

nem apodrecem espectros de

perdidas caravanas.

Nenhum trilho foi abandonado

e não reneguei

Não, não reneguei

o nome do pai do meu pai

 

O meu deserto é a vertical semente de um barco.

O areal (seu brilho de nada e de lago)

não é senão a metáfora de uma horta

talvez uma projectada cisterna.

Esta claridade nos olhos do griot cego

este reflexo que obscurece a luz do dia

não irradia de um céu empedernido

a minha fome não é a maldição

do velho deus inclemente.

E todavia devora-me a cicatriz da penúltima batalha

e tenho por estigma

a memória de um longo fratricídio.

Mas estou aqui

sob este sol que alucina

a savana ao meio-dia.

Aqui, sob este toldo rasgado

onde envergo a sede dos meus ossos

e perduro sem jardim nem chuva

sem tambores nem flauta

sem espelhos,

companheira do tempo que amarra

as minhas veias ao umbigo do poço.

 

Não, nenhum trilho foi esquecido,

e venero o profano nome do pai do meu pai.

 

Lenta a vertigem vai esculpindo

os murmúrios de um rio incerto

planto estacas

em redor da vigília dos meus mortos.

Não anuncio.

Tardo e não prenuncio reino ou abismo.

Não sou mensageira de vãos sacrifícios,

épicas derrotas, novos caminhos.

Aqui onde o inferno acontece

neste lugar onde me derramo e permaneço

inauguro a véspera da minha casa.

O meu silêncio franqueia

o umbral de qualquer coisa.

 

***

 

PARA TE ENCONTRAR

 

Para te encontrar levantarei os prumos.

Inventarei a casa nos mesmos rios

Para nos descobrir

 

***

 

O CATACLISMO E AS CANÇÕES

 

Feliz o que de mim restar, depois de mim

Se uma só das canções cantadas

Viver além daquele que em mim agora canta.

Da hecatombe não salvaria contudo

Uma só das canções que cantei e canto.

Às entranhas do olvido

Antes roubaria o riso das crianças

E a idade do provérbio.

 

Assim aos vindouros

Intacto ofertaria o enigma da luz.

 

***

 

FRONTEIRA

 

Trespassar é a sina dos que amam o mar.

 

***

 

ESTA VIAGEM

 

Esta viagem não responde às minhas perguntas.

 

Trespassei o aço das certezas.

Heranças, devorei-as.

 

A etapa seguinte rasga a prévia cartografia

Toda a fronteira é um apelo à renúncia.

 

Perscrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.

 

Ao encontro da linguagem da tribo azul

cada passo me afasta de um rito sagrado.

 

Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:

a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.

 

Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada.

 

***

 

SEMENTES

 

Não procurem no vazio das cavernas

a marca primordial, a germinação.

Cavernas são cavernas.

Na onda se inscreve todo o princípio

as sementes da blasfémia e da redenção.

conceiçãolima eusouafrica yt

o negro a contrapelo na obra de (Luiz) Cuti

Sempre atenta para as intensas experiências às quais estão expostas, na sociedade racista, corporeidades e subjetividades afrodescendentes, na obra ampla e variada assinada pelo poeta paulista Cuti nota-se a predominância de um discurso introspectivo que busca a afirmação estético-identitária do negro mergulhando no enfrentamento às ambiguidades e indefinições que permeiam essas experiências. O trabalho inventivo com a linguagem também se mostra um recurso assíduo para a elaboração de imagens aguçadas e multifacetadas de (auto)questionamento. Além desses dois traços formais aqui ressaltados (e que também se relevam em vários dos poemas da moçambicana Noémia de Souza e do angolano Agostinho Neto), muitos outros elementos confirmam os densos vínculos que a voz literária de Cuti estabelece com a poética da Negritude.

cuti serio

EU NEGRO

Areia movediça na anatomia da miséria
Pano-pra-manga na confecção apressada de humanidade
Chaga escancarada contra o riso atômico dos ladrões
Espinho nos olhos do esquecimento feliz de ontem
Eu
Eu feito de sangue e nada
De Amor e Raça
De alegrias explosivas no corpo do sofrimento e mágoa.
Ponto de encontro das reflexões vacilantes da História
Esperança fomentada em fome e sede
Eu
A sombra decisiva dos iluminismos cegos
O câncer dos humanismos desumanos
Eu
Eu feito
De Amor e Raça
De alegrias incontroláveis que arrebentam as rédeas dos sentimentos egoístas
Eu
Que dou vida às raízes secas das vegetações brancas
Eu

 

 

QUEBRANTO

às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredicto

às vezes sou o amor que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que sonhei e não comi
outras o bem-te-vi com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida uma constituição
que me promulgo a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto que me entrego

às vezes…

 

TORPEDO

irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?

e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!
e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares

 

POEMA

trabalho em transe
do coração à tez
overdose
e osmose
de lucidez

 

PERGUNTAS

Quem conhece meus Nilos de dentro
meus rios
raízes que regam felizes
a carne do Brasil?

Quem conhece meus rios
meus cios
sonhadas carícias de vida melhor?

Aquele que sabe
do sabre que corta na minha garganta
a voz dos meus rios
não sabe a denúncia tão cheia em meus olhos
não sabe da quebra de pontes
das fontes violentas que rasgam feridas na terra?
não sabe da febre agitada do mar
depois da viagem em meu transe atlântico
há tempos atrás?

Quem conhece as águas doces do meu canto
salgadas do meu pranto
e as correntezas do fundo
dos meus rios
que engravidam o mar?

 

NASCENTE

o broto brota sob a bota
que pisa
a gente cala por enquanto
porque precisa
a nossa fala que o tambor fala
é brisa
do novo que há de ver
a palma
a calma trancada e reprimida
a trama já tramada que tá verde
a verde verdade preta amadurece
ama e cresce sob a bota
imagem dum pilão que moe que soca

o broto brota sob a bota
que pisa
o broto brotalvorada
e nova rota
e grita

o broto é negro como o riso-terra
e espera que apenas outros
bebam do suor dos rios.

 

MÁRTIR LUTA NO RINGUE

não são ventos alísios
que nos espicham cabelos e medos
de sermos o que já não sabemos
que somos

não se trata de moda
este raspar a cabeça de jogadores
e bailarinos
e dos jovens todos que os imitam
quando o coração é um mártir
a antimemória seu ringue
o adversário (não disfarça)
está sempre à nossa frente
com seu ódio viking

essa vergonha no cabelo
balançando ao vento
um corte no supercílio

dificultando ver
o inimigo
porque o sangue escorre
pelo nosso rosto
invisível.

 

NEGROESIA

enxurrada de mágoas sobre os paralelepípedos
por onde passam carroções de palavras duras
com seus respectivos instrumentos de tortura

entre silêncios
augúrios de mar e rios
o poema acende seus pavios
e se desata
do vernáculo que mata

ao relento das estrofes
acolhe os risos afros
embriagados de esquecimento e suicídio
no horizonte do delírio

e do âmago do desencanto contesta as máscaras
lançando explosivas metáforas pelas brechas dos
poesídios
contra o arsenal do genocídio.

 

RESGATE

gueto e quietude encurralados
dentro do próprio
rio de encantos passados

hoje resgato
res-gueto
e não bastam
toscos tótens atônitos
sem dentro
ante os múltiplos
milagres técnicos

aconchego-me no côncavo deste abraço
ancestral
adormeço de cansaço
lanças de outrora
já não servem
para defender o sonho
enquanto balas e mísseis
cruzam o espaço em direção à morte

somente as deste fogo-afago
desferidas
para incendiar ao menos
de liberdade
um coração.

 

PORTO-ME ESTANDARTE

minha bandeira minha pele

não me cabe hastear-me em dias de parada
um século de hipocrisia após
minha bandeira minha pele

não vou enrolar-me, contudo
e num canto
acobertar-me de versos

minha bandeira minha pele

fincado estou na terra que me pertenço
fatal seria desertar-me
alvuras não nos servem como abrigo
sem perigo

lágrimas miçangas
enfeitam o país
a iludir o caminho
em procissões e carnavais

minha bandeira minha pele

o resto
é gingar com os temporais

 

AMOR

Amo esta minha terra
onde os ossos de meus avós
gritam o grito interno dos ossos
na carne do chão
e Oxumaré sobe em riso e clarão

esta terra
onde os rios contam a história
de lutas quilombolas
a quem não tapa os ouvidos

Amo esta terra
do café da cana do ouro
do sangue do sangue do sangue
do meu sangue

esta terra Brasil
do carnaval do futebol do anil
do suor do suor do suor
do meu suor

esta terra
em que confundem amor e prata
violência e nada
exploração e paz

esta terra
recortada por veias negras
abertas

esta terra
onde donos brancos
jogam no barranco
os sonhos do povo

esta terra
onde a fome que mina
a força dos filhos
é a mina lucrativa de uns poucos

Amo a terra
e o interior dela

esta terra
África enterrada
a custa de porrada
viva
e que respira
a respiração que inspira
seus filhos

esta terra
coração da Diáspora
onde brancos
se envergonham de serem negros

Amo esta terra
negra
de suor
suor
suor
sangue
sangue
sangue
e pele

 

ESTÉTICA

quando o escravo
surrupiou a escrita
disse o senhor:
— precisão, síntese, regras
e boas maneiras!
são seus deveres

enxurrada se riu demais em chuva
do conta-gotas e sua bota de borracha rota
na maior despercebida enchente daqueles tempos
adjetivos
escorrendo ainda hoje
em negrito.

 

IMPASSES E PASSOS

algemas do pão e do circo
e seu cotidiano cerco
às investidas do sonho

sono coletivo produzido em gabinetes
sono sem sonho
esclerose de nuvens brancas trotando trêfegas
esporas reluzentes
sobre nossos corações

a pergunta eleva sua crista:
– quem dentre nós mais de trezentos anos
de ruínas de quilombos
traz dentro do peito?

por muito tempo, ainda, mastigaremos o silêncio
no caminho para o grande lar
que já não temos?

no trajeto o enfrentamento
com as sereias e seu canto
sussurrado pelo vento
laços sedutores
para o nosso enforcamento

politicamente incorreta
sempre
a orgia das correntes
nosso medo balbuciando morte
em conta-gotas de sambas e serpentes

de repente
escorpiões encalacrados nos tornamos
(apesar de sorridentes)
sem disfarce
o que em face do desprezo se acende
contra o nosso próprio veneno

o “eu” se deita sobre o feno
negaceia o nós em movimento
da garganta se desatam para dentro
ecos que no lamento se afogam

o sol renitente ressuscita
a vida emboscada nas veredas

toco em brasa
a questão vem crepitada
fecunda e permanente
rolando
pelos glóbulos pretos
infectados de rancores brancos:
– quem tem mais de 300
de resistência no abismo?
silêncio incandescente
morre a esperança
em overdose de cinismo
e desabrocha a consciência em cactos

depois da chuva
somos
o horizonte e sua língua de arco-íris
descobrindo
o nosso próprio amanhecer.

 

OFÍCIO DE FOGO E ARTE

nossa é esta saga desenhando o silêncio em cores
rebeldia e incenso

ainda que as batalhas
tenham talhado de tão somente vermelho
lembranças de mar e terra
nosso é este futuro entre luz e sombra
este alto-relevo telúrico
agigantando-se no esboço de todas as madrugadas e no mosaico das tardes

em ondulação muscular galopam as tintas
ao comando de corações pensantes
enquanto gritos vão-se fazendo cantigas sábias
de ninar a memória e seus pincéis incandescentes

se ácidos céus de aço abafam a singela respiração onírica
um afro horizonte reabre seus vitrais
oxumarescendo a vida

nos cios dos séculos
banzaram aguadas lacrimais de anil
agora a mais sutil semelhança epidérmica da história
é linha que realça o elo
do mistério
ousadias de gingar o belo e semear vagalumes sobre as
telas

oceânica
esta energia coletiva extrapola a cena de naturezas-mortas
transfigura a moldura
colore a parede branca
e mergulha em vários planos a perspectiva de seus voos

verdeamarelas garatujas velhas ranzinzando a liberdade
a mão infinitiza em multiplicidade cromática, pele e
paisagem de sobejos desejos

tudo se emprenha de um incessante movimento
vários tons de melanina e a pulsação de um ritual aceso.

 

CULTURA NEGRA

ariânico afago
na suposta acocorada
afroinfância literária

nossa cor sim
e não
reelabora elegbará

orixás não tomam chás de academias
tampouco em mídia sui-seda
cedem

poema de negrura exposta
tece vida
na resposta
abrindo a porta enferrujada do silêncio

explodem
coices
o boi e o bode
entre folclóricas nuvens e teses
de negrófobas carícias

alvos, a-tingidos desesperam
em busca de tambores
ritos
puros mitos
em águas paradas
de poemas pardos
que lhes salvem da chuva de negrizo.

 

PA(Z)XORÔ

ainda assim… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência universal dos sonhos
onde a veste de pazciência
envolve a todos
e as mãos
modelam o ser nascente

olhar adentro
o todo é cada um
e há ondulações de calma
corpo e alma fundidos num só voo
desta ave celestial de luz
abraçando-nos com a abóbada infinita e azul

chuva-sêmen e afã de fecundar novas manhãs
ao fluxo ijexá de oxalufã
fé obstinada que nos guia
sol de oxaguiã
nas lutas do dia a dia
pilão
inhame de juventude
alegria
ainda que… o chão faz parte
dessa imensa curva
residência concha universal do sonho paz
adjá a nos conduzir à fonte
e o mundo a ser lavado
nas águas de oxalá.

 

ZUMBI OR NOT ZUMBI
(ao negro de alma branca)

permanece encasulado
até que as labaredas cheguem
de teu abrigo
façam fumaça
e alguém diga: coitado!

nem penses o fogo te vindo ao longe
marchando brasas
em horizonte raivoso

não! é dentro que nasce
suave
do mais íntimo da tua sombra

onde o pavio incandesce em risadas
tua coragem quilombo

por hora continua no teu casulo
ruminando ruínas
afugentando marulhos
dessa tua travessia
em que és barco
e prisioneiro acorrentado no próprio porão

a ilusão é branca
e te abraça por todos os nadas
por mais que faças
no uso de tuas máscaras

ao despertares ao som
zumbiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…
não te assustes
é o saci
caminhando com as duas pernas sobre as águas
apesar dos tubarões
e suas fúrias afiadas
na luxúria do teu medo

um dia darás o primeiro passo
sem afundar

teu coração no horizonte
um sol de inverno
espera
a primavera.

 

COM A PORTA ABERTA

o que é que vai ser
quando o samba abrir uma fenda
bem no meio da sinfonia?

com’é que vai ficar, compadre
quando a macumba
entrar na sacristia?

e quando a pureza da cultura abrir as pernas
e mostrar pra todo mundo
que nunca teve cabaço

a dança de terreiro
rasgar terno e gravata

a ginga der meia-lua-de-compasso na compostura

a gente puder falar
sem algema ou atadura

a verdade
partir a cara da hipocrisia

o pão for repartido na marra?

não adianta fechar a cara
nem se fazer de besta
qu’Exu vai rir na abertura da festa
e Cristo vai gargalhar pela primeira vez na história
e
viva o pagode
da memória liberta
e do futuro concebido
com a porta aberta!

diálogos com a Negritude nas poesias dos ‘Cadernos Negros’

 

cadernos negros Melhores Poemas


NEGRITUDE

[CELINHA]

Para Jorge Henrique Gomes da Silva

De mim
parte um canto guerreiro
um voo rasante, talvez rumo norte
caminho trilhado da cana-de-açúcar
ao trigo crescido, pingado de sangue
do corte do açoite. Suor escorrido
da briga do dia
que os ventos do sul e o tempo distante
não podem ocultar.

De mim
parte um abraço feroz
um corpo tomado no verde do campo
beijado no negro da boca da noite
amado na relva, gemido contido
calado na entranha
oculto do medo da luz do luar.

De mim
parte uma fera voraz
(com sede, com fome)
de garras de tigre
pisar de elefante correndo nas veias
de fogo queimando vermelho nas matas
Rugir de leões bailando no ar.

De mim
parte de um pedaço de terra
semente de vida com gosto de mel
criança parida com cheiro de luta
com jeito de briga na areia da praia
de pele retinta, deitada nas águas
sugando os seios das ondas do mar.

De mim
parte  N E G R I T U D E
um golpe mortal
negrura rasgando o ventre da noite
punhal golpeando o colo do dia
um punho mais forte que as fendas de aço
das portas trancadas
da casa da história.

***

CRISTÓVÃO-QUILOMBOS
[JAMU MINKA]

Fez-se a ganância
diabólicos destinos de um caminho sem volta
espíritos e corpos armados nascem do imenso ventre das
águas fantásticas
o outro lado do mundo possível
Terrágua, uma bola de vida no cosmo
1492, Colombo!

Naus enormes, engenhocas inéditas — a roda, arma de
fogo —
múltiplos poderes desconhecidos
homens-deuses barbados, brancos, loiros e ruivos
e seus olhos coloridos de cobiça

Piratas no paraíso
Europa rouba tudo
ouro e prata, milho, batata
cana e canga em corpos de América e África

Pós impacto do primeiro engano
— a visita era conquista e seus horrores —
deuses invadidos trovejam tambores
e cospem flechas de rebeldia

Depois de Colombo e sua maldita herança
— calombos e mutilações em milhões de corpos —
Quilombos por toda parte.

***

EFEITOS COLATERAIS
[JAMU MINKA]

Na propaganda enganosa
paraíso racial
hipocrisia faz mal
nosso futuro num saco
sem fundo

a gente vê
e finge que não vê
a ditadura da brancura

Negros de alma negra se inscrevem
naquilo que escrevem
mas o Brasil nega
negro que não se nega.

 

SAFÁRI

[Jamu Minka]

 

Aquela tigresa é tanta

que me almoça e janta

faço de conta que a sala é ponto

na geografia da África

e o tapete vira suave savana ao entardecer

quando a pele da noite vem camuflar

nosso safári safado.

 

Olho por olho

dente por dente

    recuperamos o pente

   ancestral

         o impossível continha o bonito

           caracol

       carapinha

bumerangue infinito

                            

Olho que revê o que olha

 dedos que sabem trançar ideias

           do original azeviche

                                princípio do mundo

 

Se o cabelo é duro

        cabe ao pente ser suave serpente

o fundamental dá beleza

a quem não tem preconceito

        e conhece segredos da

C R E S P I T U D E

***

TRAÇADO
[MÁRCIO BARBOSA]

O traço saído
ao crespo estilo
do teu cabelo
trançado e escuro
já mora em meu olho

 

VERSÃO
[MÁRCIO BARBOSA]

Negro é o amor onde habito silente
a cor talhada na dor da senzala
resumo de vida em ferro e carvão
Negro é o amor forjado no tempo
pretume piche azeviche
tição aceso na tez
do instinto de luta o peito é abrigo
o riso é fluência de um novo começo

***

CABELOS QUE NEGROS
[OLIVEIRA SILVEIRA]

Cabelo carapinha,
engruvinhado, de molinha,
que sem monotonia de lisura
mostra-esconde a surpresa de mil
espertas espirais,
cabelo puro que dizem que é duro,
cabelo belo que eu não corto à zero,
não nego, não anulo, assumo,
assino pixaim,
cabelo bom que dizem que é ruim
e que normal ao natural
fica bem em mim,
fica até o fim
porque eu quero,
porque eu gosto,
porque sim,
porque eu sou
pessoa negra e vou
ser mais eu, mais neguim
e ser mais ser
assim.

 

SER E NÃO SER
[OLIVEIRA SILVEIRA]

O racismo que existe,
o racismo que não existe.
O sim que é não,
o não que é sim.
É assim o Brasil
ou não?

***

DANÇANDO NEGRO
[ÉLE SEMOG]

Quando eu danço
atabaques excitados,
o meu corpo se esvaindo
em desejos de espaço,
a minha pele negra
dominando o cosmo,
envolvendo o infinito, o som
criando outros êxtases…
Não sou festa para os teus olhos
de branco diante de um show!
Quando eu danço há infusão dos elementos,
sou razão.
O meu corpo não é objeto,
sou revolução.

***

LINHAGEM
[CARLOS ASSUMPÇÃO]

Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Me envia mensagens do orum
Meus dentes brilham na noite escura
Afiados como o agadá de Ogum
Eu sou descendente de Zumbi
Sou bravo valente sou nobre
Os gritos aflitos do negro
Os gritos aflitos do pobre
Os gritos aflitos de todos
Os povos sofridos do mundo
No meu peito desabrocham
Em força em revolta
Me empurram pra luta me comovem
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Eu trago quilombos e vozes bravias dentro de mim
Eu trago os duros punhos cerrados
Cerrados como rochas
Floridos como jardins

 

BATUQUE
[CARLOS ASSUMPÇÃO]

(Dança afro-tietense )

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas e brancas

Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Que evoca bravura dos nossos avós
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores
Sem distinção

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas brancas azuis e verdes

Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
Dispersos
Jogados em senzalas de dor
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que fala de ódio e de amor
Tambor que bate sons curtos e longos
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores

Num quilombo
Num quilombo
Num quilombo

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

***

ZUMBI
[ABELARDO RODRIGUES]

As palavras estão como cercas
em nossos braços
Precisamos delas.
Não de ouro,
mas da Noite
do silêncio no grito
em mão feito lança
na voz feito barco
no barco feito nós
no nós feito eu.
No feto
Sim,
20 de novembro
é uma canção
guerreira.

***

MAHIN AMANHÃ
[MIRIAM ALVES]

Ouve-se nos cantos a conspiração
vozes baixas sussurram frases precisas
escorre nos becos a lâmina das adagas
Multidão tropeça nas pedras
Revolta
há revoada de pássaros
sussurro, sussurro:
“é amanhã, é amanhã.
Mahin falou, é amanhã”.

A cidade toda se prepara
Malês
bantus
geges
nagôs
vestes coloridas resguardam esperanças
aguardam a luta

Arma-se a grande derrubada branca
a luta é tramada na língua dos Orixás
“é aminhã, aminhã”
sussurram
Malês
bantus
geges
nagôs
“é aminhã, Luiza Mahin falo”

***

AS SAUBARAS INVISÍVEIS
[JÔNATAS CONCEIÇÃO]

A memória é redundante: repete os
símbolos para que a cidade comece
a existir.
Ítalo Calvino

Chega-se a Saubara pelo caminho do mar.
Às velas, barcas velhas velejam rumo à baía.
Viagem de gentes, trapos, mercadorias,
Odores repelentes que recendem tumbeiros
Travessia de longínquas noites
(“Aquela viagem era uma eternidade!”)
que ao vento cabia a tarefa de um porto feliz.

Chega-se a Saubara por via de muitos rios
Do rio para o mangue, do mangue-rio para o mar.
Caminhos do leva-e-traz mercantil
Ao porto de amaros negócios
Percurso de antigos navegantes
Fundadores do eterno dar-se saubarense
Desbravadores de restos da flora e fauna do lugar.

Chega-se, finalmente, a Saubara pelo primado da fé.
Seus marujos e rezadeiras procuram, há muito,
o caminho da salvação.
Seus filhos e netos, há pouco, descobriram outros
caminhos…
Procuram, pela novidade alheia, desesperadamente,
outra cidade inventar.
Os perseguidores da fé a tudo ver – oram choram
(“São Domingos que é de Gusmão que nos vele”)
as chamas das velas revelam.

***

OLHAR NEGRO
[ESMERALDA RIBEIRO]

Naufragam fragmentos
de mim
sob o poente
mas,
vou me recompondo
com o Sol
nascente,

Tem
Pe
Da
Ços

mas,
diante da vítrea lâmina
do espelho,
vou
refazendo em mim
o que é belo

Naufragam fragmentos
de mim
na coca
mas, junto os cacos, reinvento
sinto o perfume
de um novo tempo,

Fragmentos
de mim
diluem-se na cachaça
mas,
pouco a pouco,
me refaço e me afasto
do danoso líquido
venenoso

Tem
Pe
Da
Ços

tem
empilhados nas prisões,
mas
vou determinando
meus passos para sair
dos porões

tem
fragmentos
no feminismo procurando
meu próprio olhar,
mas vou seguindo
com a certeza de sempre ser
mulher

Tem
Pe
Da
Ços

mas
não desisto
vou
atravessando o meu oceano
vou
navegando
vou
buscando meu
olhar negro
perdido no azul do tempo
vou
voo,

***

A NOITE NÃO ADORMECE NOS OLHOS DAS MULHERES
[CONCEIÇÃO EVARISTO]

Em memória de Beatriz Nascimento

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

 

MALUNGO, BROTHER, IRMÃO
[CONCEIÇÃO EVARISTO]

No fundo do calumbé
nossas mãos ainda
espalmam cascalhos
nem ouro nem diamante
espalham enfeites
em nossos seios e dedos.

Tudo se foi,
mas a cobra deixa o seu rastro
nos caminhos por onde passa
e a lesma lenta
em seu passo-arrasto
larga uma gosma dourada que brilha no sol.

Um dia antes
um dia avante
a dívida acumula
e fere o tempo tenso
da paciência gasta
de quem há muito espera.

Os homens constroem
no tempo o lastro,
laços de esperanças
que amarram e sustentam
o mastro que passa
da vida em vida.

No fundo do calumbé
nossas mãos sempre e sempre
espalmam nossas outras mãos
moldando fortalezas esperanças,
heranças nossas divididas com você:
Malungo, brother, irmão.

***

 

cadernos negros 30 anos capa

 

ESPELHO

[Landê Onawale]


visto-me
e não olho para o que vejo
lanço-me ao fundo do espelho
apuro a visão até chegar
a mim
encontro-me
saio

 

***

 

SER INTELIGÍVEL E O INTELIGÍVEL DO SER PARA NÃO SER ININTELIGÍVEL

[Miriam Alves]

 

Entre o eu o infinito
construo a ponte
a ponte irreversível
da fala
da festa
do ontem
do hoje e amanhã

No espelho sou o olhar
o olhar que me percorre formas
e pela fresta sou eu espiando-me
inquieta
O coração em ritmo tambor
decifra mensagens
as palavras voam ao vento
Vão

E a cada tan-tan do coração

novas frases se formam

Vão

ao vento

o meu ser luma no seu contumaz leve brilho Vai

luzindo emoções indecifráveis

 

Voa Vai. Luzir Vai… Nos vãos da realidade…

um sonho Vai no lusco-fusco vespertino

aonde nos vãos da verdade os sonhos Vão

janelas abertas

lufadas penetram

trazendo sementes

 

Naquele meu vasinho de crisântemos que enfeita o

infinito da janela

entre as pequeninas flores-rosa-avermelhadas pousa

uma nova verdade

sementes de um futuro difuso

um poema se forma

na forma diáfana do tun-tun-tun-tan-tan do coração

em compasso de construção

desnudando o mundo num futuro crisântemo onde

o lusco-fusco é brilho intenso

onde as despedidas-de-verão se abrem a primaveras

de intenções

 

***

cadernos negros v31 

 

A FORÇA DA AFRICANIDADE

[Dirce Pereira do Prado]

 

No íntimo da palavra trabalho

Sinto a força da africanidade

Na coragem do povo negro

Ao transformar as opressões

No conhecimento da vida.

 

Sim, vivenciamos uma africanidade

Arraigada na humanidade

Ao acalentarmos um coração desesperado

Entre os conflitos culturais

Quando recebemos as proteções

Dos nossos ancestrais!

 

Logo, africanidade é negritude viva

Que dos seus ancestrais faz a história

Concentra os mistérios da vida

No tempo presente traz a vitória!

 

***

 

 

 

ECOS DA BATIDA

[Edson Robson Alves dos Santos]

 

Ecos da batida

Soltos pelo ar

A expressão rítmica

A nos unificar

 

“Omnirá”

Quebre os grilhões da diáspora

Unifique nossas vidas

Separadas pelo mar

 

Bate no coração a saudade

O canto espanta a tristeza

No balanço dos acordes

No ar, sou a liberdade

 

Levante a poeira

Deixe quebrar

Venha sambarregaear

Ao som de Omnirá

 

***

 

ENSINAMENTOS

[Esmeralda Ribeiro]

 

Ser invisível quando não se quer ser

é ser mágico nato.

 

Não se ensina, não se pratica, mas se aprende.

no primeiro dia de aula aprende-se

que é uma ciência exata.

 

O invisível exercita o ser “zero à esquerda”

o invisível não exercita a cidadania.

As aulas de emprego, casa e comida

são excluídas do currículo da vida.

 

Ser invisível quando não se quer ser

é ser um fantasma que não assusta ninguém.

Quando se é invisível sem querer

ninguém conta até dez

ninguém tapa ou fecha os olhos

a brincadeira agora é outra

os outros brincam de não nos ver.

 

Saiba que nos tornamos invisíveis

sem truques, sem mágicas.

Ser invisível é uma ciência exata.

Mas o invisível é visto no mundo financeiro

é visto para apanhar da polícia

é visto na época das eleições

é visto para acertar as contas com o Leão

para pagar prestações e mais prestações.

 

É tanto zero à esquerda que o invisível

na levada da vida soma-se

a outros tantos zero à esquerda

para assim construir-se humano.

 

***

 

MISTURASIL

[Jamu Minka]

 

Aventureiros e predadores expandem Portugal

aqui, abaixo da linha do equador

organizam o êxodo do Brasil vegetal

o vale-tudo inaugural dos escândalos

da futura Brasília capital

 

Tudo se mistura

mestidragem, malançagem

mancebia, sacristia

mamelusas e afroguesas escravizadas também abaixo

da linha da cintura

negócios e sacanagens da Causa Glande.

 

***

 

FUTURO

[Márcio Barbosa]

 

que áfrica

            está estampada

nas pupilas

            da vó negra

que dança

            a congada?

 

quantos zumbis

            vão surgir

na poesia

            da periferia maltratada?

 

é nzinga

            que dança

e ocupa o abraço

            da menina de tranças?

 

que orixá

            olha

por esse menino

            que ama

jogar bola?

 

um sopro ancestral

            de tambores e vozes

nos protege

            do mal

 

o moderno, o novo

            deságuam no rio

tradicional

 

não há povo

            sem história

sem memória

            coletiva

 

e é na pele

            que essa memória

continua viva

alguns precursores da Negritude em língua portuguesa

Caetano da Costa ALEGRE

(1864-1890, São Tomé e Príncipe)

CostaAlegre

AURORA

Tu tens horror de mim, bem sei, Aurora
Tu és o dia, eu sou a noite espessa,
Onde eu acabo é que o teu ser começa.
Não amas!…flor, que esta minha alma adora.

És a luz, eu sou a sombra pavorosa,
Eu sou a tua antítese frisante,
Mas não estranhes que te aspire formosa,
Do carvão sai o brilho do diamante.

Olha que esta paixão cruel, ardente,
Na resistência cresce, qual torrente;
É a paixão fatal que vem da morte.

É a paixão selvática da féra,
É a paixão do peito da pantera,
Que me obriga a dizer-te «amor ou morte!»

***

EU E OS PASSEANTES

Passa um inglesa,
E logo acode,
Toda supresa:
What black my God!

Se é espanhola,
A que me viu,
Diz como rola:
Que alto, Dios mio!

E, se é francesa:
Ó quel beau negre!
Rindo para mim.

Se é portuguesa,
Ó Costa Alegre!
Tens um atchim!

***

SERÕES DE S. TOMÉ

Meus olhos são como a noite
em que astro nenhum flutua
mas se o teu olhar o fita
na noite desponta a lua

Se os escravos são comprados
ó branca de além do mar
homem livre eu, sou escravo
comprado por teu olhar

Meu olhar é retratista
ò minha doce miragem
senão diz-me porque tenho
no meu peito a tua imagem

Roubei-te o primeiro beijo
o segundo foi-me dado
o terceiro, francamente,
creio que me foi roubado

A neve que cai na serra
define tudo em redor
quem se afoita a amar as brancas
se da neve têm a cor

As noites para serem belas
precisam milhões de sóis
a ti, negra como as noites,
apenas te bastam dois

Um dia a espuma dos mares
ao ver em si meu amor
Foi dizer baixinho à praia
– a Vénus mudou de cor

A nossa terra é tão bela
duma beleza sem par
E por ser assim formosa
Fê-la sua amante o mar…

***

A MINHA COR É NEGRA, INDICA LUTO E PENA;
É luz, que nos alegra,
A tua cor morena.
É negra a minha raça,
A tua raça é branca,
Tu és cheia de graça,
Tens a alegria franca,
Que brota a flux do peito
Das cândidas crianças.
Todo eu sou um defeito,
Sucumbo sem esperanças,
E o meu olhar atesta
Que é triste o meu sonhar,
Que a minha vida é esta
E assim há-de findar!
Tu és a luz divina,
Em mil canções divagas,
Eu sou a horrenda furna
Em que se quebram vagas!…
Porém, brilhante e pura,
Talvez seja a manhã
Irmã da noite escura!
Serás tu minha irmã?!…

***

A NEGRA

Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,

Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.

Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.

No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.

Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;

Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.

Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.

Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.

***

QUANDO EU MORRER

Não quero! Tenho horror que a sepultura
mude em vermes meu corpo enregelado.
Se no fogo viveu minha alma pura,
quero, morto, meu corpo calcinado.

Depois de ser em cinzas transformado,
lancem-me ao vento, ao seio da natura…
Quero viver no espaço ilimitado,
no mar, na terra, na celeste altura.

E talvez no teu seio, ó virgem linda,
tão branco como o seio da virtude,
eu, feito em cinzas, me introduza ainda.

E no teu coração, pequeno e forte,
(ó gozo triste!) viva eu na morte,
já que na vida lá viver não pude!

***

VISÃO

Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce, tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.

***

PARA UM LEQUE

Se eu lhe fosse depor, minha senhora,
Por entre estas mentiras cor de aurora
Uma verdade sã e proveitosa,
Chamava-lhe vaidosa!
E, faça-me favor,
Não encrespe esse olhar acostumado
Ao falso galanteio delicado
E a finezas de amor.

II

Eu sei perfeitamente que Vocência
Possui a verve, a fina inteligência.
Que eu… não admiro, e toda a gente adora,
Duma mulher doutora.
Portanto vai então
Achar-me pouco amável no que digo,
Mas, por fim, há-de concordar comigo
E dar-me até razão.

III

Senão Vocência que me diga, franca,
Para que serve numa folha branca:
“A senhora é rainha da beleza;
Em graça e gentileza,
Um cisne a flutuar
Num lago não a iguala. Encanta, prende,
Como grades de ferro, a luz que esplende
Do seu profundo olhar”?

IV

Enfim, essas tolices que descubro
No leque, e que seu lindo lábio rubro
Agradece aos autores discretamente
Dizendo-lhes, ridente:
– Que bonitos que estão
Os versos!… Eu bem sei que não mereço
O que neles me diz, pois me conheço.
Mas… toque. E estende a mão

V

Suponha agora (é só por um momento)
Que esse escuro cabelo esparso ao vento,
Pelo vento é levado; em outros termos,
Para nos entendermos,
Suponha que ele cai,
Que o pouco que ficou se torna neve
E que a pele gentil do rosto breve
Encarquilhando vai!


Rui de NORONHA

(1904-1943, Moçambique)

Rui Noronha

SURGE ET AMBULA

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo avança, o tempo vai seguindo…
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
E no outro tu dormes o teu sono infindo…

A selva faz de ti sinistro eremitério,
onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo.
A terra e a escravidão têm aqui o seu império
E tu, ao tempo alheia, ó África, dormindo…

Desperta. Há muito que no alto adejam negros corvos
Ansiosos de cair e beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, ó escrava sonâmbula…

Desperta. O teu dormir é mais do que terreno…
Ouve a voz do progresso, este outro nazareno
Que a mão te estende e diz – “Africa, surge et ambula”

***

GRITO DE ALMA

Vem de séculos, alma, essa orgulhosa casta,
Repudiando a dor, tripudiando a lei.
Num gesto de altivez que em onda leva arrasta
Inteiras gerações de amaldiçoada grei.

Ir procurar, amor, nessa altivez madrasta,
Um gesto de carinho ou de brandura, eu sei?
Ao tigre dos juncais, duma crueza vasta,
Quem há que roube a presa? Aponta-me e eu irei!

Cruel destino o meu, que ao meu caminho trouxe
Na fulgurante luz do teu olhar tão doce
À mágoa minha eterna, a minha eterna dor.

Vai. Segue o teu destino. A onda quer-te e passa.
Vai com ela cantar o orgulho da tua raça
Que eu ficarei cantando o nosso eterno amor…

***

NO CAIS

Há vibrações metálicas chispando
Nas sossegadas águas da baía.
Gaivotas brancas vão e vêm, bicando
Os peixes numa louca gritaria.

Escurece. Do largo vão chegando
As velas com a farta pescaria.
As bóias põem no mar um choro brando
De luzes a cantar em romaria.

E entretanto no cais as lides crescem.
Arcos voltaicos súbito amanhecem,
A alumiar guindastes e traineiras…

E ouve-se então mais forte, mais vibrante,
Os pretos a cantar, noite adiante,
Por entre a bulha e o pó das carvoeiras…

***


CARREGADORES

A pena que me dá ver essa gente
Com sacos sobre os ombros, carregadíssima!…
Às vezes é meio-dia, o sol tão quente,
E os fardos a pesar, Virgem Santíssima!…

À porta dos monhés, humildemente,
Mal a manhã desponta a vir suavíssima,
Vestindo rotas sacas, tristemente
Lá vão ‘spreitando a carga pesadíssima…

Quantos velhinhos já, avós talvez,
Dez vezes, vinte vezes, lés a lés
Num dia só percorrem a cidade!

Ó negros! Que penoso é viver
A vida inteira aos fardos de quem quer
E na velhice ao pão da caridade…

***


QUENGUÊLÊQUÊZE!
… (LUA NOVA)

“Quenguêlêquêze!… Quenguêlêquêze!”…
Surgia a lua nova,
E a grande nova
— Quenguêlêquêze!…— ia de boca em boca
Traçando os rostos de expressões estranhas,
Atravessando o bosque, aldeias e montanhas,
Numa alegria enorme, uma alegria louca,
Loucamente,
Perturbadoramente…
Danças fantásticas
Punham nos corpos vibrações elásticas,
Febris,
Ondeando ventres, troncos nus, quadris…
E ao som de palmas
Os homens, cabriolando,

Iam cantando
Medos de estranhas vingativas almas,
Guerras antigas

Com destemidas ímpias inimigas
— obscenidades claras, descaradas,
Que as mulheres ouviam com risadas
Ateando mais e mais
O rítmico calor das danças sensuais.
“Quenguêlêquêze!… Quenguêlêquêze!…”
Uma mulher de vez em quando vinha,
Coleava a espinha,
Gingava as ancas voluptuosamente,
E diante do homem, frente a frente,
Punham-se os dois a simular segredos…
— Nos arvoredos
Ia um murmúrio eólico
Que dava à cena, à luz da lua, um que diabólico…

“…quêze! Quenguêlêquêze!…”
… Entanto uma mulher saíra sorrateira
Com outra mais velhinha;
Dirigiu-se na sombra à montureira,
Com uma criancinha.
Fazia escuro e havia
Ali um cheiro estranho
A cinzas ensopadas,
Sobras de peixe e fezes de rebanho
Misturadas… O vento, perpassando a cerca de caniço,
Trazia para fora o ar abafadiço,
Um ar de podridão…
E as mulheres entravam com um tição:
E enquanto a mais idosa
Pegava na criança e a mostrava à lua
Dizendo-lhe: “Olha, é a lua”,
A outra, erguendo a mão,
Lançou direito à lua a acha luminosa.
— O estrepitar de palmas foi morrendo…
E a lua foi crescendo… foi crescendo…
Lentamente…
Como se fora em brando e afogado leito
Deitaram a criança, revolando-a,
Ali na imunda podridão, no escuro,
Lhe deu o peito…
Então, o pai chegou,
Cercou-a de desvelos,
De manso a conduziu p´los cotovelos,
Tomou-a nos seus braços e cantou
Esta canção ardente:
“Meu filho, eu estou contente!
Agora já na temo que ninguém
Mofe de ti na rua,
E diga, quando errares, que tua mãe
Te não mostrou a lua!
Agora tens abertos os ouvidos
Para tudo compreender;
Teu peito afoitará, impávido, os rugidos
Das feras, sem tremer…
Meu filho, estou contente!
Tu és agora um ser inteligente,
E assim hás-de crescer, hás-de ser homem forte
Até que já cansado
Um dia muito velho
De filhos, rodeado,
Sentido já dobrar–se o teu joelho
Virá buscar-te a Morte…
Meu filho, eu estou contente!
Agora, sim, sou pai!…”
Na aldeia, lentamente,
O estrepitar das palmas foi morrendo…
E a lua foi crescendo…
— Crescendo
Como um ai…

***

PASSAS LEVE…

(a Jorge Netto)

I
Passas leve,
Levezinha,
Como a minha
Tentação.
Quem me dera
Tão ligeiro
Teu inteiro
Coração…

II
Passas rindo,
Confiada,
Doce fada
Do sertão.
Não te prendam
Nos caminhos
Os espinhos
Da ambição…

III
Vais correndo,
Vão cantando,
Vão saltando,
Brandos ais
Os teus seios
Negros, duros,
Como obscuros
Madrigais…

IV
Os teus olhos
São pecados
Que cuidados
Dão a Deus,
Quem me dera
Confessá-los,
Comungá-los
Com os meus…

V
Sempre humilde,
Sempre obscura,
Que tortura,
Teu viver?
És tão linda,
Tão mimosa,
Negra, goza,
Que és mulher!

***


PÓS DA HISTÓRIA

Caiu serenamente o bravo Quêto
Os lábios a sorrir, direito o busto
Manhude que o seguiu mostrou ser preto
Morrendo como Quêto a rir sem custo.

Fez-se silêncio lúgubre, completo,
no craal do vátua célebre e vetusto.
E o Gungunhana, em pé, sereno o aspecto,
Fitava os dois, o olhar heróico, augusto.

Então Impincazamo, a mãe do vátua,
Triunfando da altivez humana e fátua,
Aos pés do vencedor caiu chorando.

Oh dor de mãe sublime que se humilha!
Que o crime se não esquece à luz que brilha
Ó mães, nas vossas lágrimas gritando?

***

FÁBULA ANTIGA

Outrora, quando os animais falavam,
Conta Bocage que um leão, um dia,
Achou na selva um quadro — ó ironia!
Em que um leão mãos de homem dominavam.

Viu a afronta que ali representavam
E apenas disse à selva que o envolvia:
— “Fosse o leão pintor e ver-se-ia
Se era o homem ou os leões que triunfavam…

Tende sempre presente, os que zombais
Dos que não têm a cor que vós julgais,
Por ser a vossa, às outras, superior,

O que o leão da história, após o insulto,
Disse consigo, olhando o quadro estulto,
E imaginai se o leão fosse o pintor…